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sábado, 31 de dezembro de 2011

Em vídeo-entrevista com Wagner Gomes, Presidente da CTB - balanço e perspectivas para 2012

www.portalctb.org.br

Em entrevista, Presidente da UNE, Daniel Iliescu, traça rumos para 2012




Presidente da UNE faz balanço sobre início de gestão e aponta as prioridades para 2012, quando que a entidade completa 75 anos



O ano de 2011 foi do “manifestante”, aquele indivíduo, homem ou mulher, que resolveu ocupar o espaço público para protestar, derrubar regimes, denunciar a falência do sistema econômico ou garantir mais direitos para a população. Esse manifestante, em grande número jovem, multiplicou-se aos milhões em episódios como a mobilização estudantil no Chile, em defesa da educação pública, e, no Brasil, com as grandes marchas durante o ano e a luta pelos 10% do PIB investidos no ensino do país.


Segundo o presidente da UNE, Daniel Iliescu, que tomou posse em julho deste ano, os jovens da América Latina vivem a sua melhor fase: “O movimento estudantil está mais forte e amadurecido do que nunca. E isso não vale apenas para o Brasil”, declara nesta entrevista de balanço, previsões e perspectivas para 2012.


No ano que vem a UNE completa 75 anos, três quartos de século, sendo simultaneamente o movimento social mais antigo e mais renovado do Brasil, sempre acompanhando as demandas de cada geração. Para Iliescu, a identidade do movimento atualmente tem a ver com a sua diversidade: “Temos cada vez mais grupos de estudantes atuando em movimentos de cultura, de meio ambiente, associações de bairro, ONGs ligadas a várias temáticas e isso traz para o movimento estudantil e para a UNE uma riqueza muito interessante”, afirma.


O presidente da UNE ainda comenta a relação da entidade com o governo Dilma Rousseff, o cenário de crise econômica internacional e a mobilização em torno do Plano Nacional de Educação (PNE). Confira abaixo a íntegra da conversa com o carioca que assumiu a direção da entidade de 75 anos de vida há pouco mais de seis meses.


Você assumiu a UNE em julho de 2011, no começo da segunda década do século 21. Qual é a cara do movimento estudantil nos tempos de hoje?


Com certeza, cada geração carrega sua marca, sua identidade, e eu diria que, no século 21, a grande marca da juventude brasileira é a diversidade. Temos cada vez mais grupos de estudantes atuando em movimentos de cultura, de meio ambiente, associações de bairro, ONGs ligadas a várias temáticas e isso traz para o movimento estudantil e para a UNE uma riqueza interessantíssima. Por outro lado, há algo que não se altera. Mesmo em 1968 ou em 2011, os jovens tem uma sede incontrolável por mudar a sua realidade, estão dispostos a fazer a diferença e contribuir com algo. Isso pôde ser comprovado no 52º Congresso da UNE, que aconteceu este ano e foi o mais participativo da história. Na etapa preparatória nos estados, o Congresso reuniu os votos de mais de 1,6 milhão de alunos de universidades públicas e particulares. Houve, no total, votação em 97% das universidades de todo o país. O movimento estudantil está mais forte e amadurecido do que nunca. E isso não vale apenas para o Brasil, mas para toda a América Latina, tenha-se o exemplo das manifestações dos estudantes do Chile pela educação pública do seu país, a quem levamos esse ano a nossa solidariedade, recebendo também a líder Camila Vallejo em nossas manifestações. Os jovens da América Latina estão em sua melhor fase.


O que foi mais marcante para a UNE em 2011?

Foi um ano movimentado, que já começou com a 7ª Bienal, no Rio, durante o mês de janeiro, reunindo milhares de estudantes do Brasil e do exterior em um festival de cultura que teve como tema o samba. Pouco antes disso, a UNE realizou, também no Rio, um dos seus maiores CONEBs [Conselho Nacional de Entidades de Base], com cerca de 5 mil representantes de DAs e CAs de todo o Brasil. Em maio, foi a vez do 59º CONEG [Conselho Nacional de Entidades Gerais] na cidade de São Paulo. Saímos do 52º Congresso da UNE, em Goiânia, engatilhados em uma mobilização enorme pelos 10% do PIB e 50% do fundo social do Pré-Sal para a educação, que se tornou uma jornada de lutas nacional, o “Agosto Verde e Amarelo”. Essa luta se intensificou no final do ano com o #OcupeBrasília, criamos coragem e acampamos de vez na porta do Congresso Nacional, em um movimento de pressão que rendeu a aprovação parcial pelo senado dos 50% do fundo social do Pré-Sal para a educação. Entre outros pontos, eu destacaria a realização do 4º Encontro de Mulheres da UNE, do III Encontro de Negros, Negras e Cotistas da UNE, e a nossa grande participação no Congresso da OCLAE [Organização Latino Americana e Caribenha dos Estudantes] no Uruguai. Tivemos a aprovação do Estatuto da Juventude, uma iniciativa inédita que valoriza essa que é a parcela mais estratégica da população brasileira e a realização da 2ª Conferência Nacional de Juventude. No campo da política, tivemos acontecimentos muito importantes, como a decisão do STF que reconheceu a união entre homosexuais e a aprovação da Comissão da Verdade, que pode resgatar o passado negligenciado de muitos que perderam suas vidas na ditadura miliar, entre eles estudantes.

Você assumiu também no primeiro ano de mandato da presidente Dilma Roussef. Qual a avaliação ea relação da UNE com o atual governo federal?
Mesmo sendo apenas o primeiro ano da presidenta Dilma, conseguimos tirar algumas conclusões sobre o seu governo. Achamos válida a sua postura de manter o diálogo com os movimentos sociais, escutar as suas reivindicações, como aquela que fizemos em Brasília, no dia 31 de agosto, em um protesto com 12 mil estudantes em defesa de mais verbas para a educação. Porém, não estamos satisfeitos ainda com atual disposição de prioridades do governo. O orçamento da União destina, todo ano, cerca de 3% para a educação e cerca de 50% para pagar a dívida pública e remunerar o capital financeiro. O governo se apresenta com uma tônica importante, que é eliminar a miséria, reduzir essa desigualdade social que ainda vigora no país, mas, na nossa opinião, esse processo não será possível sem maiores investimentos na escola pública, no salário dos professores, em todos os níveis da educação. Também não acabaremos com a miséria com a permanência da atual política econômica, que impede o pleno desenvolvimento do Brasil. Medidas mais ousadas precisam ser tomadas nessa área para o Brasil avançar e se desenvolver. Isso acontecerá, somente na base da pressão dos movimentos por mudanças profundas na política econômica, fiscal, cambial e monetária do Brasil. Ainda aguardamos esses avanços e vamos protestar muito por eles.


Você assumiu também no primeiro ano de mandato da presidente Dilma Roussef. Qual a avaliação ea relação da UNE com o atual governo federal?

Isso é muito curioso porque, durante alguns anos, falou-se no fim das utopias, dos sonhos, no fim da história, todas essas ideias de que a humanidade não teria novas revoluções populares, que isso era coisa dos livros, do passado. O ano de 2011 prova o contrário, demonstra que a força da coletividade é ainda a maior de todas, está muito além do poder econômico, das ditaduras, dos sistemas políticos. A história da UNE e do movimento estudantil no Brasil revela isso. Quantas “primaveras” os jovens desse país já fizeram para enfrentar a ditadura, conquistar as eleições diretas, e agora estamos fazendo mais uma primavera brasileira, para evitar o retrocesso no desenvolvimento da educação do país. Vejo com muito bons olhos as manifestações e os manifestantes de 2011. Sempre que houver povo na rua defendendo mais democracia e justiça social, haverá ali a completa solidariedade e o apoio da União Nacional dos Estudantes.


A principal campanha do ME este ano foi a defesa dos 10% do PIB para a Educação no Brasil, garantidos pelo PNE-2011-2020. Qual o saldo dessa luta e as expectativas para o ano que vem?

Foi importante o movimento estudantil e também o movimento social no geral, professores, entidades ligadas à educação e outros terem unificado essa pauta, cientes do que é melhor para o Brasil. Lamentamos que a aprovação do Plano tenha ficado para o ano de 2012 e sentimos que precisamos fazer muito mais pressão junto aos parlamentares, ao governo, à imprensa para que essa pauta tenha mais visibilidade. Garantir 10% do PIB para a educação é uma das medidas mais importantes para desenvolver o Brasil, esse não é um tema setorial, investir na educação é investir na economia, no setor produtivo, na ciência e tecnologia, na democracia, no combate à corrupção, no desenvolvimento sustentável, em tudo. Não iremos recuar nesse sentido, essa campanha deve se fortalecer no ano que vem, até a aprovação do PNE.


Como a UNE avalia a atual conjuntura de crise no mundo e a situação do Brasil?

Uma reflexão importante que essa crise nos traz se refere aos sinais de falência de um modelo econômico baseado nas riquezas de poucos e na exclusão de milhares. Antes, os chamados países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos sofriam fortemente as consequências desse modelo, agora sabemos que trata-se de um problema estrutural, que pode atingir em cheio os países centrais, como se observa na violenta crise que se assombra para a zona do Euro. É papel do movimento social, além de apontar a insuficiência desse sistema financeiro, lutar contra a redução de direitos da população. No Brasil, temos uma situação um pouco mais estável, mas ficamos preocupados com a insistência pela manutenção de uma política econômica de juros altos, conservadora em relação a investimentos sociais estratégicos e menos atenta às necessidades humanas. Nesse sentido, o movimento social brasileiro se mobilizou bastante esse ano, com protestos em todas as reuniões do COPOM [Comitê de Política Monetária], pedindo a redução dos juros e outras medidas mais progressistas. A UNE permanecerá nessa luta em 2012.


Quais devem ser as prioridades do Movimento estudantil em 2012?
Primeiramente, vale dizer que 2012 é o ano em que a UNE completa 75 anos. Vamos comemorar esses três quartos de século fazendo o que sabemos melhor, nas ruas, ocupando espaços, protestando pela educação pública do país, mobilizados nas universidades e também nas redes sociais. Começaremos as obras da nova sede e do novo centro cultural da UNE na Praia do Flamengo, 132 e planejamos, também, uma Caravana da UNE como marco de comemoração dos 75 anos. A Caravana refletirá sobre o Brasil daqui a 10 anos, ao completar 200 de independência. Na pauta das nossas lutas estarão o desenvolvimento do Brasil, a ampliação da assistência estudantil, o aumento de vagas na universidade, principalmente nas públicas, mas também em importantes iniciativas como o Prouni, que já está mudando a cara do ensino privado. Na verdade, permaneceremos na luta por uma verdadeira reforma do ensino privado, que precisa ser devidamente regulamentado de forma a garantir a qualidade da educação e não tratá-la como mercadoria. Como já disse anteriormente, continuaremos muito firme nas nossas principais lutas a favor da educação: 10% do PIB e 50% do Fundo Social do Pré-Sal para essa área. Outro ponto de grande interesse do movimento estudantil em 2012 será, sem sombra de dúvida, a questão da meia-entrada em espetáculos culturais e esportivos. Seguiremos na luta intransigente para garantir o direito à meia-entrada estudantil, que, no nosso ponto de vista, é fundamental para garantir a formação plena dos nossos jovens, vale lembrar que a UNE não abrirá mão da regulamentação federal da meia-entrada, valendo, inclusive, para os jogos da Copa do Mundo de 2014. Será uma honra participar da UNE em um ano histórico como esse, por ocasião dos seus 75 anos, e certamente essa gestão irá fazer valer esse momento.


Artênius Daniel e Rafael Minoro

Em entrevista, Ilda Figueiredo do Partido Comunista Português fala das mudanças na UE - Portal Vermelho

Em entrevista, Ilda Figueiredo do PCP fala das mudanças na UE - Portal Vermelho

Durante dois mandatos e meio a deputada pelo PCP (Portugal), Ilda Figueiredo, foi uma das vozes mais ativas no parlamento Europeu, mérito que lhe é reconhecido mesmo pelos adversários políticos, mantendo sempre uma estreita ligação à realidade do País, que percorreu incessantemente de ponta a ponta, multiplicando contatos, visitas e encontros. Em seu terceiro mandato, a deputada sai e será substituída pela jovem Inês Zuber. Em entrevista, explica que se trata de uma decisão natural.

Ela também faz um balanço das alterações ocorridas na União Europeia e da sua determinação de continuar a lutar em outras frentes pela causa justa dos comunistas.

Avante!: Quais são os motivos da tua saída do Parlamento Europeu depois de 12 anos?Ilda Figueiredo - Foram na realidade 12 anos e meio, já que estamos no meio de um mandato (os mandatos no Parlamento Europeu são de cinco anos) e fui três vezes cabeça de lista da CDU ao PE. A isto soma-se, entre outras atividades, cerca de 12 anos na Assembleia da República, cinco anos como vereadora na Câmara Municipal do Porto, não falando da Câmara Municipal de Gaia, onde fui eleita à Assembleia Municipal durante 11 anos, acumulando com outros cargos. Ou seja, desempenho cargos políticos eleitos há cerca de 30 anos. Mas, no que toca ao Parlamento Europeu, trata-se sobretudo de dar a possibilidade a outra pessoa de desempenhar o cargo, porque temos de pensar no futuro e é fundamental passar o testemunho aos jovens, que estão disponíveis para aceitar estas tarefas e que têm condições para o fazer, como é o caso de Inês Zuber.

Avante!: E porquê agora?IF: Analisamos esta questão com a direcção do PCP e consideramos que esta era altura para concretizar a substituição, o que acontecerá precisamente no próximo dia 18 de Janeiro, numa semana de sessão do Parlamento, que aproveitaremos para ajudar a integrar Inês Zuber, apresentando-a nas diferentes comissões onde participo e tenho responsabilidades e no grupo da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica, em que participam os deputados do PCP no Parlamento Europeu. Mas o próprio grupo do PCP tem excelentes condições para integrar a nova deputada. É uma equipe que trabalha coletivamente, que conta com João Ferreira, que entrou neste mandato e está a desempenhá-lo muito bem, e com os camaradas do secretariado. Inês Zuber é socióloga, está terminando um doutoramento em sociologia, e a minha intervenção tem muito a ver com esta área, designadamente na Comissão de Emprego e Assuntos Sociais e na Comissão dos Direitos das Mulheres. Não só pela sua formação, mas também pelas suas características e pelas provas que já deu como quadro do Partido, certamente que Inês Zuber irá desempenhar muito bem esta tarefa.

Avante!: Que balanço fazes deste período no Parlamento Europeu, durante o qual ocorreram tantas alterações da União Europeia? Quais os momentos mais marcantes?IF: Foi de fato um período marcado por profundas alterações. A União Europeia que temos hoje é bastante diferente da que existia em 1999, quando fui para o Parlamento Europeu. É bastante diferente para pior, e creio que hoje essa é uma imagem clara para a população portuguesa mas também de outros países, nomeadamente do Centro e Leste europeu, cuja adesão constituiu numa enorme mudança na UE.

A integração europeia tornou-se cada vez mais federalista, com contornos militaristas e também cada vez mais neoliberais – um capitalismo cada vez mais agressivo. É claro que o capitalismo é sempre agressivo, dado que é um sistema explorador, mas essa sua natureza, antes atenuada por políticas sociais-democratas, manifesta-se hoje com toda a crueza. Diria que caminhamos para um capitalismo monopolista de Estado, em que alguns estados pretendem apoderar-se do que ainda resta da democracia neste espaço da União Europeia. As decisões do último Conselho Europeu (8 e 9 de Dezembro) são reflexo muito forte disso.
Dos momentos mais marcantes, creio que se destaca a luta contra a dita "constituição europeia", chumbada pelos referendos da Irlanda, da França e da Holanda. Eu própria cheguei a participar na campanha do referendo em França e naturalmente partilhei com os camaradas franceses a grande alegria que foi a vitória do Não.

Avante!: Disse que alguns estados tentam apoderar-se do que resta da democracia. A democracia está ameaçada na UE?IF: O processo que está em curso põe em questão a própria democracia, tanto em nível da UE como dos próprios estados-membros. Se as decisões do Conselho Europeu de 8 e 9 de dezembro forem algum dia concretizadas, Portugal deixa de ser soberano para elaborar o Orçamento do Estado, que é onde se decidem as orientações políticas, económicas e sociais de um país. Se o Orçamento do Estado tiver de ser submetido ao exame da Comissão Europeia, antes da sua aprovação na Assembleia da República, então Portugal fica com menos poderes do que uma associação de bairro, que, apesar de tudo, tem o direito de aprovar o seu orçamento, sem interferência de ninguém. Penso que a agudização das contradições entre as grandes potências e o agravamento geral das condições de vida dos povos tornam inevitáveis grandes mudanças na União Europeia.

Avante!: A experiência no Parlamento Europeu foi gratificante em termos pessoais?IF: Claro que foi uma experiência muito estimulante porque permitiu o conhecimento de outros países, outros povos, de outros problemas sejam referentes à União Europeia, sejam referentes a outros países, em particular a América Latina, onde acompanhei as grandes mudanças que ocorreram. Conheci pessoalmente vários dirigentes como Evo Morales, Lula da Silva, Dilma Rousseff, Fernando Lugo, José Mujica e vários outros homens e mulheres, quando lutavam na oposição contra governos quase ditatoriais, e depois tive a alegria de voltar a vê-los quando se tornaram presidentes dos seus países. Isso também é a prova de que as lutas valem a pena, nem sempre se ganha mas é possível chegar ao poder. Na América Latina as coisas estão longe de estarem todas resolvidas, mas a situação é muito diferente da que existia há 15 anos, neste caso felizmente para melhor. Neste continente, o capitalismo levou tão longe a sua exploração que os povos não aguentaram mais e começaram a lutar por toda a parte, alcançando mudanças qualitativas importantes. E temos também o exemplo de Cuba, que resistiu com grande coragem à ofensiva do capitalismo. De início estava praticamente sozinha e hoje está muito mais apoiada por uma América Latina em grande mudança. Isto é uma prova de que também vale a pena resistir, e embora as coisas continuem difíceis devido ao bloqueio norte-americano, é evidente que a solidariedade de outros países da região torna a situação em Cuba muito diferente. Tive a oportunidade de viver e acompanhar todos estes processos, o que é de fato muito gratificante e constitui uma valiosa experiência pessoal.

Avante!: Mas também houve processos de sentido contrário...IF: Sim, recordo em particular o intenso trabalho contra a guerra no Iraque, desenvolvido por uma grande delegação da qual fiz parte, integrada por deputados de vários grupos políticos. Estivemos no Iraque antes da guerra, fomos aos Estados Unidos falar com congressistas progressistas, estivemos na Organização das Nações Unidos (ONU), fizemos tudo o que foi possível para tentar evitar aquele desastre. Infelizmente não fomos ouvidos, mas a história veio demonstrar que tínhamos razão, e não foi preciso passar muito tempo para reconhecerem que a guerra não era a solução para aquele problema. Como não o é em todo o Oriente Médio, cujos povos continuam a ser vítimas da ingerência, pressão e ocupação, por exemplo, por parte de Israel, que conta com a cobertura não só dos Estados Unidos, sejamos claros, mas da própria União Europeia.

Esta política de desrespeito pelos direitos dos povos sofreu recentemente um revés com a recusa do Parlamento Europeu de prorrogar o acordo de pescas com Marrocos, que, como é sabido, abrangia ilegalmente as águas do Saara Ocidental. Isto significa que aquilo que parece uma luta isolada, com o tempo, por vezes, é possível fazer vingar as suas razões justas. Estou falando da luta do povo do Saara Ocidental, da Palestina, do Iraque, do Afeganistão, bem como de todo o Norte da África e Médio Oriente, onde as justas lutas dos povos por seus direitos estão sendo manipuladas pelas potências imperialistas, que tentam aproveitar a instabilidade política e social para assegurar a defesa dos seus interesses económicos, é disso que se trata…

Avante!: Como deputada viajou muito para diversos países, e também, talvez até mais, pelas diferentes regiões do nosso País…IF: Esse é outro aspecto importantíssimo do nosso trabalho que permite manter uma ligação muito estreita à nossa realidade. Fazemos de maneira sistemática em conjunto com as organizações regionais do PCP, mas também com organizações, instituições e associações locais, quer a seu pedido quer por nossa iniciativa. Nas visitas a empresas, nos contatos com as populações, nos encontros e debates com os sindicatos, com associações de pequenos e médios empresários e outras, procuramos ouvir os problemas com vista a lhes darmos voz no Parlamento Europeu ou junto das instituições europeias. É um trabalho que se insere na defesa intransigente da produção nacional, da agricultura, das pescas, da indústria, na defesa dos interesses de Portugal.

Avante!: É sabido que as políticas europeias tiveram efeitos muito negativos no nosso tecido produtivo. As visitas e contactos pelo País confirmam esse quadro de destruição?
IF: Eu própria vivi e acompanhei o desmantelamento de parte do nosso aparelho produtivo. Por exemplo, todo o drama da Sorefame, depois Bombardier, o desmantelamento da Siderurgia Nacional, o definhamento da indústria naval, a destruição da indústria têxtil, da indústria vidreira. Ainda há dias estive na Marinha Grande, onde me encontrei com antigos operários vidreiros, cujas fábricas encerraram. São operários altamente especializados, que dominam a técnica do vidro de sopro, e que estão desempregados.

Recordo a supressão da produção de beterraba sacarina, levando ao encerramento da fábrica de Coruche, a única que tínhamos no continente, a redução brutal dos produtores de leite, dos criadores de gado, etc. Vemos hoje terras de cultivo abandonadas no nosso país porque, a partir de certo momento, os apoios foram desligados da produção e passaram a ser atribuídos em função de um histórico, independentemente de se produzir ou não. Naturalmente que os grandes agrários deixaram as terras ao abandono e continuaram recebendo o dinheiro.
Assisti ao desmantelamento da nossa frota de pescas, incentivado com verbas comunitárias, e depois a saída de nossos pescadores para França e Espanha em busca de trabalho. Ao mesmo tempo, vemos as frotas desses países pescando na nossa zona exclusiva e o povo português a consumir pescado importado. O mesmo se passou com a indústria de conservas. É uma dor de alma ver que tudo isto aconteceu, naturalmente há grande culpa nas políticas europeias mas também dos sucessivos governos, constituídos pelas três forças políticas que, seja em Portugal, seja na União Europeia, têm aplicado e apoiado estas políticas.

Avante!: O PCP tem sido a única força que ao longo dos anos batalhou pela produção nacional?
IF: Isso é hoje reconhecido pela generalidade dos setores. Mas o PCP e os seus deputados no Parlamento Europeu defenderam os direitos dos trabalhadores. Recordo várias tentativas para alterar a diretiva sobre a organização do tempo de trabalho, até hoje sem êxito, embora no plano nacional serão dados passos no mesmo sentido. Estivemos também na grande batalha contra a diretiva Bolkestein, da qual acabaram por ser excluídos importantes serviços como a Saúde ou a Água. Apoiamos também a luta contra a liberação da atividade portuária, projeto que foi derrotado três vezes no Parlamento Europeu. É claro que todas essas vitórias só foram possíveis porque os trabalhadores se mobilizaram por toda a Europa.

Avante!: E quais são os seus planos para o futuro, continuará atuando na política…
IF: É claro que vou continuar a minha atividade no partido, mas também no plano unitário, eu tenho responsabilidades em algumas organizações, em particular no Conselho Português Para a Paz e Cooperação (CPPC), onde fui recentemente eleita presidente do conselho de direção.

Avante!: Há uma linha de continuidade das suas intervenções no Parlamento Europeu?
IF: De certo modo, sim. Também no Parlamento Europeu o PCP sempre deu muita importância à luta em defesa da paz, contra a guerra, contra o militarismo, em defesa dos direitos dos povos, do desenvolvimento e progresso social. Penso que o CPPC já hoje desempenha um papel importante e que poderá no futuro alargar a sua atividade quer em termos nacionais quer em cooperação com outras organizações congêneres no plano internacional.

Avante!: A última pergunta é sobre a publicação do teu último livro, Geografia do Olhar, que é de poesia. Como é que ainda sobra tempo para escrever poemas?IF: (Risos…) É uma faceta da minha vida que foi secundarizada face a todas as tarefas que tive de desempenhar.

Avante!: Uma vocação antiga?
IF: Sim, iniciei-me no suplemento juvenil do Diário de Lisboa, depois houve publicações esporádicas em jornais e revistas, nem sempre com o meu nome completo, e longos períodos sem publicar nada. De qualquer modo, este é de fato o meu primeiro livro de poesia, com pinturas de Agostinho Santos.

Avante!:São poemas de várias épocas?IF: Não. Foram todos escritos neste ano (2011) especialmente para este livro, embora em diferentes lugares e situações, durante as viagens à Tunísina, ao Senegal, no Fórum Social Mundial, à Islândia, em Bruxelas e Portugal, por exemplo, durante a última campanha para as legislativas em Viana do Castelo, onde fui cabeça de lista, etc.

Avante!: E porquê de repente um livro de poesia?IF: Foi uma ideia conjunta, um desafio que me foi lançado por Agostinho Santos que manifestou a vontade de pintar a partir de poemas meus. E assim foi.

Fonte: Avante!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Reportagem russa sobre a Coréia Popular

http://coreasocialista.blogspot.com

Reportaje: El Enigma de Corea del Norte

La cadena rusa de noticias Russia Today emitió hace un tiempo uno de los documentales más veraces, respetuosos y menos sensacionalistas de todos los "mass-media" occidentales. Se titula "El Engima de Corea del Norte" y ahora lo publicamos en este blog para que todos ustedes puedan disfrutarlo.



Veja também os seguintes textos sobre a Coreia Popular:

Sincero era o choro do Bonner - Paulo Vinícius Silva

Renato Rabelo: Folha de SP se esmera em ironias contra o PCdoB

Viagem à Coréia do Norte: Dandong ou porto de Nova Iorque - Elias Jabbour

Viagem à Coréia do Norte: "dinastia revolucionária" - Elias Jabbour

O direito à existência da Coreia Popular, Por Elias Jabbour

Viagem à Coréia do Norte: o estado da economia - Elias Jabbour

Península Coreana: 2011 foi mais um ano de tensões.

O luto de Pionguiangue e a agressividade cínica do Imperialismo - Paulo Vinícius Silva.

Mais de 130 mil sul-americanos viajaram a Cuba em 2011 - Portal Vermelho

Mais de 130 mil sul-americanos viajaram a Cuba em 2011 - Portal Vermelho

30 DE DEZEMBRO DE 2011 - 10H37

Cerca de 134 mil visitantes sul-americanos viajaram a Cuba até 25 de dezembro último, segundo estatísticas do Escritório de Informação e Promoção Turística da ilha para o Cone Sul, revelados nesta sexta-feira (30) em Havana.

A maior parte dos visitantes veio da Argentina, que a uma semana de finalizar o ano tinha enviado 74.473 turistas, cifra que representa um crescimento do 30,19% com relação a igual período de 2010, detalha o relatório ao qual teve acesso a Prensa Latina.

Nas primeiras quatro semanas de dezembro, mais de 3.560 argentinos chegaram à ilha, um aumento de 43,21% com relação à mesma etapa do ano anterior, destaca o informe.

Outro mercado em franca ascensão é o chileno, que acumula 23.377 turistas em Cuba, um aumento 34,88 por cento nos últimos doze meses.

O Uruguai também vem crescendo acima dos 36%, ao totalizar mais de 6.800 visitantes, enquanto o Brasil (13.751) teve um aumento desprezível de 0,42%. O Peru, que representa 14.700 turistas, ainda não atinge os níveis do passado ano.

Ao mesmo tempo, o Paraguai aumentou em 30% sua participação no turismo da ilha, embora com cifras ainda muito baixas (542 pessoas).

Durante a Feira Internacional de Turismo da América Latina, FIT 2011, encerrada em novembro em Havana, autoridades cubanas ofereceram total garantia com respeito ao sucesso da maior operação aérea entre Argentina e Cuba, programada para acontecer de janeiro a abril de 2012.

"Estão criadas as condições para que a maior mobilização turística direta entre Buenos Aires e vários dos principais polos turísticos cubanos na próxima alta temporada tenha êxito", afirmou Luis Aguilera a agentes de turismo, de viagens e representantes de linhas aéreas.

O diretor do Escritório de Informação e Promoção Turística de Cuba para o Cone Sul adiantou que no período de referência aumentará para oito o número de voos semanais diretos entre Buenos Aires e Havana, Varadero, Cayo Largo, Cayo Coco, Santa Clara e Holguín.

Aguilera sublinhou o reinício de operações para o oriente cubano, através da conexão Buenos Aires-Holguín, um polo turístico que se comercializou com sucesso no mercado sul-americano no início década de 1990.

Aguilera destacou também o fato que outras empresas aéreas, como COPA, TACA-Avianca, Andes e LAN Peru mantenham, reforcem ou iniciem, indistintamente, outras operações que ampliarão bastante a capacidade de transporte aéreo para Cuba.

Fonte: Prensa Latina

Escandalosas revelaciones en Wikileaks: Obama nunca respondió entrevista de Yoani Sánchez

Escandalosas revelaciones en Wikileaks: Obama nunca respondió entrevista de Yoani Sánchez
05/09/2011

Do Cubadebate e com http://www.outroladodanoticia.com.br

El 19 de noviembre de 2009 las agencias de prensa y los grandes periódicos se entretenían con una gran noticia: el presidente Barack Obama había respondido preguntas de la bloguera Yoani Sánchez.

La “entrevista”, y pronto sabrán por qué la coloco entre comillas, dio entonces la vuelta al mundo y la entrevistadora respondió a su vez numerosos cuestionarios contando sus emociones. Era entonces la única bloguera del mundo que recibía tal deferencia del Presidente de los EEUU, según The Huffington Post.

“La bloguera cubana Yoani Sánchez, cada vez más audaz, publicó el jueves las respuestas del presidente Barack Obama a siete preguntas difíciles que le envió”, escribió en esa ocasión El Nuevo Herald de Miami.

Y parece que eran difíciles las preguntas, porque según un cable dado a conocer por Wikileaks este 1 de septiembre, el cuestionario -con un borrador de las respuestas- fue enviado desde la Oficina de Intereses de Estados Unidos en La Habana el 28 de agosto y se necesitaron casi cuatro meses para devolverlo de regreso, con un alto por ciento de coincidencia con la versión original, incluyendo casi exactamente la misma introducción en la que Obama felicita a Sánchez por el premio María Moors Cabot de la Universidad de Columbia.

El cable también contenía las preguntas que la “periodista” enviaría al presidente cubano Raúl Castro.

Al parecer la suerte de la “entrevista” cambió su curso el 6 de noviembre, cuando la multipremiada bloguera denunció una “golpiza” de las autoridades cubanas, de la cual no pudo aportar una sola prueba, pero que Mauricio Vicent, el corresponsal en Cuba del diario español El País -su principal patrocinador mediático-, calificó de “secuestro siciliano“.

Otro cable del 18 de noviembre registra el momento de la entrega que hace un funcionario diplomático (POLOFF) de las supuestas respuestas del Presidente a la bloguera. Ella reconoce que no había enviado el cuestionario previsto en el cable de agosto para el presidente cubano, que finalmente entregó -según el Herald- al día siguiente.

En su diálogo del 20 de noviembre de 2009 con el Herald, Sánchez declaró estar orgullosa del “sentido periodístico de todo esto”, pero cualquiera con sentido del periodismo sabe que la verdadera noticia está naciendo ahora.

Además de reseñar el escandaloso fraude que se ha destapado, los medios que recogieron con entusiasmo la noticia del 18 de noviembre de 2009, deberían hacerse al menos dos preguntas: ¿Qué hacía un cuestionario dirigido al presidente cubano Raúl Castro en un cable de la representación diplomática de Estados Unidos en La Habana? ¿Podemos llamar a eso “periodismo independiente”?

(Tomado de La pupila insomne)

Descargue los cables de Wikileaks (originales en inglés) y la “entrevista” de Barack Obama:

Yoani Sánchez (ou como promover uma dissidente cubana) - Hideyo Saito

http://www.cartamaior.com.br/

29/05/2010

A blogueira é a bola da vez da estratégia de Washington de forjar uma oposição interna em Cuba. Seu multimilionário blog não é resultado de iniciativa espontânea de uma cidadã que resolveu abrir o coração, como a mídia hegemônica costuma apresentá-lo. A execução do programa que financia essa política intervencionista foi provisoriamente suspensa pelo Senado estadunidense, sobretudo por causa da prisão, em Cuba, de um enviado de Washington que tinha a tarefa de tratar da distribuição do dinheiro. O artigo é de Hideyo Saito.

Hideyo Saito

A blogueira Yoani Sánchez é hoje a figura mais cortejada pela coalizão de forças que combate a revolução cubana, liderada por Washington e composta por outros governos, por partidos políticos, por órgãos da mídia e por ONGs do mundo inteiro. Trata-se de uma poderosa tropa de choque que exige ampla liberdade política, respeito aos direitos humanos e democracia, mas apenas em Cuba. Aparentemente nenhuma outra nação no mundo inspira seus cuidados em relação a esses direitos políticos e humanos. Da mesma forma, denuncia também a escassez de bens de consumo em Cuba, mas jamais menciona o estrangulamento econômico praticado por Washington (que, aliás, é condenado por todos os países-membros da ONU, com as únicas exceções dos próprios Estados Unidos e de Israel).

O objetivo central dessa coalizão passou a ser, desde os anos 90, organizar e financiar uma oposição interna em Cuba. O congresso dos Estados Unidos aprovou leis especiais para respaldar essa política: a Torricelli, de 1992, e a Helms-Burton, de 1996. O intervencionismo teve seu auge no período de George W. Bush, que criou a Comissão de Apoio a uma Cuba Livre, presidida pela secretária de Estado, Condoleezza Rice, e indicou Caleb McCarry (um dos artífices do golpe contra o presidente Jean-Bertrand Aristide no Haiti), como responsável pela transição à democracia naquele país.

Os recursos oficiais estadunidenses destinados a essa finalidade foram, em 2009, de US$ 45 milhões, sem considerar o orçamento da Rádio e TV Martí e verbas paralelas não declaradas (1). No atual exercício, haviam sido liberados US$ 20 milhões, com a orientação de que fossem distribuídos diretamente aos destinatários em Cuba. O programa, entretanto, foi provisoriamente suspenso em abril último pelo presidente do Comitê Exterior do Senado, John Kerry (ex-candidato presidencial), provavelmente por causa da prisão em flagrante, em Cuba, de Alan P. Gross, quando fazia a distribuição de dinheiro e de equipamentos de comunicação (2).

O advogado José Pertierra, que atua em Washington, relacionou de forma exaustiva os diversos itens da ajuda provisoriamente suspensa, com base em informe oficial do Senado dos EUA. Destacamos apenas alguns, a título de exemplo: US$ 750 mil para os defensores de direitos humanos e da democracia; US$ 750 mil para parentes de presos políticos, como as “Damas de Branco”, e para ativistas que lutam para libertar aqueles presos; US$ 3,8 milhões para promover a liberdade de expressão, especialmente entre artistas, músicos, escritores, jornalistas e blogueiros (com ênfase nos afrocubanos); US$ 1,15 milhão para capacitar os ativistas mencionados no uso das novas tecnologias de comunicação.

A corrida pelo dinheiro de Washington
Essas informações tornam insustentável negar o financiamento estadunidense aos chamados dissidentes, de maneira geral. Não custa recordar ainda que aqueles que a mídia dominante insiste em chamar de presos políticos (cuja libertação está sendo reclamada pelo grevista de fome Guillermo Fariñas Hernández) foram julgados em 2003 justamente sob a acusação de receber dinheiro de Washington para combater a revolução. Em relatório de 2006, a Anistia Internacional registrou a realização, no ano anterior, de um congresso de dissidentes com a participação de mais de 350 organizações (a ata do encontro, porém, menciona a presença de 171 pessoas) nos arredores de Havana. Essa proliferação, porém, longe de mostrar a força da oposição, esconde a corrida de seus idealizadores para arrancar dinheiro de Washington.

Praticamente todas são organizações artificiais, criadas para que suas lideranças possam apresentar-se no escritório de representação dos EUA em Havana para receber a sua parte na cobiçada "ajuda em prol da democracia". Não há notícias sobre discussões políticas ou doutrinárias nessas entidades e muito menos de ações públicas sérias de sua iniciativa. Mas há fartos registros, isto sim, de brigas e denúncias recíprocas envolvendo a repartição e o uso da dinheirama. É por isso que, neste momento, a maioria dos dissidentes não vê com bons olhos a ascensão de Yoani Sánchez.

Lech Walesa de saias
O sonho dourado dos ideólogos de Washington é forjar em Cuba um novo Lech Walesa, o líder do sindicato Solidariedade e depois presidente da Polônia, apontado pelo National Endowment for Democracy (NED), do Departamento de Estado, como o maior triunfo de sua política. No caso de Cuba, isso foi tentado, entre 2000 e 2002, com um dissidente chamado Osvaldo Payá Sardiñas, organizador de um projeto de lei de iniciativa popular, que teve pouco mais de 11 mil assinaturas. O projeto foi recebido oficialmente, mas rejeitado pelo parlamento cubano.

Ele pretendia estabelecer nada menos que a liberdade para a criação de empresas privadas, inclusive órgãos de imprensa, a instituição do pluripartidarismo e outras medidas que implicavam eliminar o socialismo cubano de uma penada, baseado no suporte daquelas assinaturas (o número de eleitores no país é de 8,5 milhões). Equivale a um projeto de lei de iniciativa popular que fosse apresentado ao Congresso brasileiro, prevendo o fim da propriedade privada dos meios de produção, a convocação de eleições com candidatos indicados exclusivamente em assembleias de bairro e o fechamento dos oligopólios da comunicação. Seria cômico se o conteúdo da iniciativa não coincidisse com o do “programa de transição” divulgado em 2006 pela Comissão de Apoio a uma Cuba Livre, do governo Bush.

Em todo caso, com base nesse projeto Osvaldo Payá foi transformado em herói pela mídia dominante. Como acontece atualmente com a blogueira Sánchez, foi alvo de prêmios e honrarias mundo afora, além de merecer espaços enormes na mídia dominante. Recebeu, entre tantos outros, o Prêmio Andrei Sakharov da União Européia, quando estava sob a presidência do ex-premiê espanhol, José Maria Aznar, e foi recepcionado em audiência especial pelo Papa João Paulo II. Como o esforço não produziu os resultados esperados, a mesma mídia que o glorificava o esqueceu (como havia feito antes com Armando Valladares).

Agora, chegou a vez de Yoani Sánchez. Após ter resolvido subitamente voltar a Cuba de seu exílio na Suíça, colocou o blog no ar em abril de 2007. Pouco mais de meio ano mais tarde, ela já se transformava em personalidade mundial, com o acionamento da engrenagem publicitária da coalizão anticubana. Começaram a aparecer entrevistas de página inteira com a blogueira, não raro com chamadas de capa, em grandes publicações como The Wall Street Journal, The New York Times, The Washington Post, Die Zeit e El País, sem falar nos jornalões brasileiros e na indefectível Veja.

Ao mesmo tempo, sempre de forma significativamente sincronizada, surgiram os prêmios, os convites para viagens e outras iniciativas de cunho promocional. Em 2008 a blogueira foi premiada em vários países da Europa e nos Estados Unidos, além de ter sido incluída, pela revista Time, na relação das 100 personalidades mais influentes do mundo e pelo diário espanhol El País, entre os 100 hispano-americanos mais influentes. No mesmo ano, a revista estadunidense Foreign Policy a considerou um dos 10 intelectuais mais importantes do ano, assim como a revista mexicana Gato Pardo. Mais recentemente, lançou um livro em grande estilo, com edições quase simultâneas em diversos países, e adiantamento por conta de direito autoral (como os € 50 mil pagos pela editora italiana Rizzoli). Digno de registro também é que Yoani Sánchez enviou um questionário dirigido ao presidente Barack Obama e ele o respondeu prontamente. Ela explicou candidamente a atenção que Obama lhe dedicou: “talvez eu tenha sorte”.

Um blog multimilionário
A verdade é que o blog que a fez famosa desfruta de sorte não menos fantástica. Ele foi registrado por intermédio de um serviço chamado GoDaddy, uma companhia que costuma ser contratada pelo Pentágono para compra de domínios de forma anônima e segura para suas guerras no cyberespaço, conforme denunciou a jornalista espanhola Norelys Morales Aguilera (3). “Não há em toda Cuba uma só página de internet, nem privada, nem pública, com o potencial tecnológico e de design da que ela exibe em seu blog”, sustenta.

O blog é atualmente hospedado em servidor espanhol, que não lhe cobra nada ("por 18 meses", diz ela), embora processe 14 milhões de visitas mensais e ofereça suporte técnico praticamente exclusivo. No mercado, custaria milhares de dólares por mês. É traduzido para nada menos que 18 idiomas, luxo que nem os portais dos mais importantes organismos multilaterais, como a ONU, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional ou a OCDE, exibem. Sánchez diz que são amigos que fazem as traduções. Segundo o jornalista Pascual Serrano, ela usa recursos da web 2.0 a que muito poucos cubanos têm acesso, como o Twitter, os foros sociais e outros (4). Em 2009, segundo o jornalista francês Salim Lamrani, o Departamento do Tesouro dos EUA, baseando-se na lei do bloqueio, fechou mais de 80 sítios de internet relacionados a Cuba, alegando que eles promoviam comércio. A única exceção foi justamente o blog de Sánchez, embora lá também haja venda de livros. Aliás, o sistema de pagamento utilizado por ele, o Paypal, e o de “copyright” que protege os textos da blogueira estão igualmente vedados a qualquer outro cidadão cubano, pelas mesmas razões (5).

Em recente entrevista a Lamrani, feita em Havana, Sánchez disse que seu blog não pode ser acessado de Cuba, como costuma “denunciar” aos dóceis jornalistas da mídia dominante. Só que desta vez foi desmentida no ato pelo entrevistador, que havia acabado de entrar na página sem qualquer restrição. Então, espertamente se corrigiu: “com freqüência ele fica bloqueado” (6). A verdade é que o blog – assim como qualquer outro sítio – jamais foi objeto de medida repressiva do governo cubano. Isso é comprovado pela Alexa - The Web Information Company, que mede o volume de acesso de páginas de internet do mundo inteiro: segundo seus dados, o portal Desde Cuba, que abriga o blog de Sánchez, tinha 7,1% do seu tráfego originário de equipamentos cubanos, no final de 2009 (7).

O blog de Sánchez também foi distinguido em 2008 como um dos 25 melhores do mundo pela TV CNN, além de ter sido premiado pela revista Time e pela TV Deutsche Welle. As justificativas das premiações e honrarias alegam a coragem cívica de sua idealizadora e exaltam a qualidade de suas crônicas, embora elas se caracterizem, na verdade, por uma descrição pouco sutil da situação cubana, num tom catastrofista, sem qualquer nuance. Em sua prosa simplista, Cuba não passa de uma “imensa prisão com muros ideológicos”, onde se ouvem os “gritos do déspota” e as pessoas vivem entre “o desencanto e a asfixia econômica”, por culpa exclusiva do governo. Não há programas sociais bem-sucedidos, mesmo que eles sejam reconhecidos até pelo Banco Mundial, assim como não há fatores externos que agravam as dificuldades do país – exatamente como no diagnóstico maniqueísta da extrema-direita de Miami.

Apesar de tudo, após se casar com um alemão e se estabelecer na Suíça entre 2002 e 2004, Yoani Sánchez não só decidiu voltar espontaneamente a esse inferno que descreve com tintas carregadas, como implorou ao governo cubano que anulasse a sua condição de emigrada (8). Definitivamente, não estamos diante de uma amadora que resolveu despretensiosamente escrever sobre sua rotina e a de seu país, como ela é descrita pela mídia dominante.

NOTAS

(1) Diversas auditorias pedidas por congressistas concluíram que havia desvio e corrupção envolvendo esse dinheiro, mas a "ajuda" continuou, a pedido dos próprios dissidentes, como Elizárdo Sánchez e Martha Beatriz Roque.

(2) José Pertierra. La guerra contra Cuba: Nuevos presupuestos y la misma premisa. CubaDebate, 02/04/2010. http://www.cubadebate.cu/opinion/2010/04/02/guerra-eeuu-contra-cuba-nuevos-presupuestos-misma-premisa/.

(3) Norelys Morales Aguilera. Si los blogs son terapéuticos ¿Quién paga la terapia de Yoani Sánchez?. La República , 13/08/2009. http://larepublica.es/firmas/blogs/index.php/norelys/main-32/?paged=3.

(4) Pascual Serrano. Yoani en el país de las paradojas. Blog Pessoal, 19/01/2010. http://blogs.publico.es/dominiopublico/1781/yoani-en-el-pais-de-las-paradojas/.

(5) Salim Lamrani. Cuba y la “ciberdisidencia”. Cubadebate, 26/11/2009. http://www.cubadebate.cu/opinion/2009/11/26/cuba-y-ciberdisidencia/.

(6) Repórter desmascara blogueira cubana Yoani Sánchez em entrevista. Portal Vermelho, 25/04/2010. http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=128182&id_secao=7.

(7) Ver http://www.alexa.com/siteinfo/desdecuba.com. O jornalista espanhol Pascual Serrano solicitou a amigos de Havana que tentassem acessar o blog de Yoani Sánchez no mesmo horário. De cinco diferentes computadores, alguns residenciais, outros públicos, usando diferentes provedores, quatro entraram na página sem problema. Pascual Serrano. El blog censurado en Cuba. Rebelión, 26/03/2008. http://www.rebelion.org/noticia.php?id=65134.

(8) Ela contou em seu blog que se surpreendeu com a existência, no serviço de imigração, de fila de pessoas que retornam a Cuba após terem pedido para sair.

(*) O autor é jornalista com passagem pela Rádio Havana. Tem prontos os originais de um livro sobre a atualidade cubana, produzido em colaboração com Antonio Gabriel Haddad, com o título provisório de “Cuba sem bloqueio: a revolução cubana sem as manipulações impostas pela mídia dominante”.

Yoani Sánchez e a desinformação - Com o Correio Progressista

Com o Correio Progressista

Volta e meia, os potentados elegem representantes “populares” para seus intentos. Facilitam suas vidas, premiam seus trabalhos e constroem mitos. Um exemplo disso é Yoani Sánchez, residente em Cuba desde que resolveu abandonar a Suíça e retornar a seu país natal. A última revelação a seu respeito foi a forma como ela teve um questionário seu respondido por alguém chamado “POTUS” – President of the United States (Presidente dos Estados Unidos, em inglês). POTUS, para quem não sabe, é a expressão que aparece nos telegramas enviados pelas embaixadas e outras representações diplomáticas norte-americanas, recentemente vazados pela Wikileaks.
Descobri essa informação no blog de Yohandri Fontana: Obama nunca respondió a Yoani Sánchez. Pois é, Obama não foi o autor das respostas à blogueira cubana. Ao contrário, as respostas foramredigidas pela SINA, seção de interesses norte-americanos na ilha, e enviadas à Casa Branca para aprovação. Com pouquíssimas alterações, as respostas da SINA foram publicadas pela blogueira cubana, não duvido que com algum deslumbramento.
É o que diz outro telegramaBlogger thrilled with POTUS response to her Q&As (“blogueira emocionada com resposta do Presidente a seu questionário”). O interessante é o que está lá no meio do texto:
Last august, Sanchez had posed seven questions to POTUS and seven for Cuban President Raul Castro (the two sets were different). She was not expecting an answer from the latter, because she confided that she had never sent them to the Cuban President [grifo meu]
Em português:
Em agosto passado, Sánchez fez sete questionamentos ao Presidente dos EUA e sete ao Presidente cubano Raul Castro (os questionários eram diferentes). Ela não esperava nenhuma resposta do último, visto que confidencioununca tê-los entregue ao Presidente cubano [grifo meu]
Em suma, Yoani Sánchez acaba de ter comprovada sua honestidade. Ou o contrário.
Confira em português o texto do telegrama:
ASSUNTO: BLOGUEIRA EMOCIONADA COM RESPOSTA DO PRESIDENTE A SEU QUESTIONÁRIO
REF
B. B) BLOGUEIROS SURRADOS, MAS NÃO DETIDOS (HAVANA 684)]
C. C) E-MAIL DO NSC-USINT 1 DE 11/12/2009 E USINT-WHA/CCA DE 11/17/2009
Classificado por: Oficial Principal Jonathan Farrar pelos motivos 1.4 (b) e (d).
(C) Poloffs, da SINA, entregou em 18 de novembro de 2009 as respostas do Presidente Obama às questões da blogueira cubana Yoani Sánchez sobre as relações Cuba-EUA (REF A). Em agosto passado, Sánchez fez sete questionamentos ao Presidente dos EUA e sete ao Presidente cubano Raul Castro (os dois questionários eram diferentes). Ela não esperava nenhuma resposta do último, visto que confidenciou nunca tê-los entregue ao Presidente Cubano, e, de sua reação efusiva, ela também não estava esperando uma resposta do Presidente Obama.
(C) Sánchez ficou emocionada com o fato de que ela obteve uma resposta, perguntando-nos: “Vocês não estão brincando, né? Isso é real?” Sánchez, blogueira mais famosa de Cuba, disse que ela gostaria de postar as perguntas originais primeiro, e então seguir com as reações (REF B). Ela originalmente disse que provavelmente postaria as perguntas no meio da semana de ação de graças, mas, enquanto saíamos da sua casa, estava pensando em postá-las antes. Seu blog é www.desdecuba.com/generaciony
(SBU) A SINA entregou a Sánchez o conjunto em inglês e uma tradução para o espanhol (REF C).
FARRAR

El País se vê obrigado a reconhecer que Yoani Sánchez mentiu - Portal Vermelho

El País se vê obrigado a reconhecer que Yoani Sánchez mentiu - Portal Vermelho
26/04/2011

Um tweet recente de Yoani Sánchez comoveu o mundo: "A empresa hoteleira NH sabe que o hotel Parque Central que administra em Havana discrimina os moradores locais no acesso à Internet"

Por Ernesto Pérez Castillo, em CubaDebate

A reação da NH foi imediata: isso não era mais que um embuste daqueles que a blogueira inventa, pois, a princípio, a rede hoteleira não dispõe de qualquer hotel em Havana, nem em toda a ilha de Cuba, nem em qualquer outra parte do arquipélago cubano.

O diário El Pais tornou isso público em suas páginas. Este disparate da mercenária lembra outra ocorrência, de menos de um ano atrás, quando ela acusou o governo de Cuba de bloquear sua conta no Twitter. Naquela época, ela disse em uma entrevista por telefone à Reuters: "Ficamos sem voz no mundo dos 140 caracteres", e insistiu: "O Twitter deve esclarecer se seu serviço nos censurou a publicação de tweets por sms ou se foi o governo de Cuba que nos bloqueou."

Essa notícia também percorreu o mundo como um gato com o rabo em chamas, com um título original: "Yoani Sánchez denuncia que sua conta do Twitter foi bloqueada", e foi repetida várias vezes até que o vice-ministro cubano da Informação e Comunicações, José Luis Perdomo, disse: "Cuba não está bloqueando o acesso de qualquer cidadão para enviar mensagens para redes sociais online, como o Twitter e o Facebook, e isso é uma calúnia que tem sido levantada contra nosso país".

Logo o próprio Twitter daria razão para Cuba, reconhecendo que o governo da ilha não tinha nada a ver com isso, e assumindo plena responsabilidade pela suspensão temporária do serviço para os usuários cubanos.

O que ninguém pôde ver, em qualquer jornal do mundo, foi uma mínima retificação de Yoani, que nem no momento de sua mentira sobre o Twitter, nem em sua mentira sobre a NH, nunca reconheceu que não tinha sequer uma gota de verdade naquilo que havia dito. E não seria de se esperar outra coisa, porque retificar é para os sábios, algo que Yoani nunca entenderá.

O engraçado é que quando a blogueira, em seus delírios, arremeteu contra os poderosos reais do mundo global, recebeu de volta, rapidamente, a repressão áspera da mídia. No entanto, quando, com a mesma fúria, mente sobre Cuba, ela é premiada, aplaudida e, pontualmente, lhe pagam por página.

De fato, o jornal El País, que agora deixa claro que o ataque de Yoani contra o NH nada mais é além de um disparate desinformado - típico da improvisação de quem diz o que melhor lhe parece, sem consultar fontes ou recolher dados, nem ater-se ao princípio da verdade e nada mais que a verdade-, é o mesmo que a catapultou, ofertando-lhe, em 2008, o Prêmio Ortega y Gaset, nada menos do que na categoria de Jornalismo Digital.

O oportunismo da blogueira cubana Yoani Sánchez - Portal Vermelho

O oportunismo da blogueira cubana Yoani Sánchez - Portal Vermelho

23/09/2011

A multipremiada blogueira Yoani Sánchez acrescentou novas pérolas ao ciberbestiário, conforme o apresentado em sua antológica entrevista ao historiador francês Salim Lamrani*.

Por Iroel Sánchez, no blog La Pupila Insomne

Em diálogo com o jornal porto-riquenho El Nuevo Dia, a senhora Sánchez investe contra o povo cubano, a quem atribui o comportamento daqueles que, como ela, só pensam com o bolso:

"Digamos que haja uns 10% de pessoas que acreditam realmente no sistema, que estão próximos aos governantes. Há uns 10% no outro extremo, que acreditam que é preciso ser completamente desmontado. Em média, uns 80% que se move de um lado para outro, segundo sopra o vento, porque o oportunismo penetrou muito fundo no país. Se amanhã Raúl Castro disser que os salários vão ser aumentados em 40 pesos cubanos, esses 80% estarão com os 10% que aplaudem; se depois de amanhã, Castro disser que o café não será mais puro, mas misturado com grão-de-bico, esses 80% passarão para outro lado".

Ao que parece, preocupada em perder destaque na imprensa da metrópole, após documentos revelados por Wikileaks, que demonstraram sua subordinação ao governo dos Estados Unidos, esta pessoa agora deprecia seus compatriotas diante de um jornal da colônia que os EUA mantêm no Caribe.

Para maior subserviência, ela se declara a serviço de quem usurpou a independência do povo de Porto Rico e quer converter Cuba em uma colônia estadunidense.

Se "o oportunismo calou fundo o país", os que atuam como Yoani Sánchez levaram a maior parte, atuando "de acordo como sopra o vento' dos dólares que recebem por agradar ao Tio Sam.

Embora a entrevista tenha o dramático nome de "Cuba: últimas imagens do naufrágio", é a credibilidade da senhora Sánchez que não tem mais remédio, após as referidas revelações de Wikileaks. Certamente, o entrevistador relata que falaram "sem medo" e deve ser por isto que a palavra Wikileaks não aparece em nenhuma parte...

Ciberbestiário de Yoani Sánchez

* Entrevista realizada pelo investigador francês Salim Lamrani com Yoani Sánchez e publicada no sítio Rebelión, em abril de 2010, cujas declarações, em alguns momentos, relembram as de Bush:

- (A lei de Ajuste Cubano dos EUA contra Cuba não é ingerência porque) há fortes relações. Jogamos beisebol em Cuba como nos Estados Unidos.

- Privatizar, não gosto deste termo porque tem uma conotação pejorativa, mas colocar em mãos privadas, sim.

- Não diria que (o lobby fundamentalista de Miami, sic) são inimigos da pátria.

- Pensei que com que aprendi na Suíça, regressando a Cuba eu poderia mudar as coisas.

- Estas pessoas que estão a favor das sanções econômicas (a população de seu país) não são anticubanas. Penso que defendem Cuba segundo seus próprios critérios.

- (A questão ds Cinco presos nos Estados Unidos) não é um tema que interessa à população. É propaganda política.

- (O caso Posada Carriles) é um tema político que não interessa às pessoas. É uma cortina de fumaça.

- (Os Cinco) O governo cubano disse que não desempenhavam atividades de espionagem e sim que estavam infiltrados em grupos cubanos para evitar atos terroristas. Mas o governo cubano sempre disse que estes grupos estavam vinculados a Washington.

- Muitos escritores latino-americanos mereciam o prêmio Nobel de Literaturas, mais que Gabriel Garcia Márquez.

- (Já houve uma invasão dos EUA em Cuba) Quando?

- Os Estados Unidos desejam uma mudança de governo em Cuba, mas é o que desejo também.

- O regime (de Batista que assassinou 20.000 cubanos) era uma ditadura, mas havia uma liberdade de imprensa plural e aberta.

- Foi apresentado pelos Estados Unidos o financiamento da oposição como uma realidade, o que não é o caso... Podemos admitir que o fato de financiar uma oposição seja uma prova de ingerência.

- Cuba é uma ilha sui generis. Podemos criar um capitalismo sui generis.

* Tradução de Sandra Luiz Alves.

Repórter desmascara blogueira cubana Yoani Sánchez em entrevista - Portal Vermelho

Repórter desmascara blogueira cubana Yoani Sánchez em entrevista - Portal Vermelho

Ferrenha opositora do regime cubano, a blogueira Yoani Sánchez concedeu uma entrevista ao jornalista francês Salim Lamranium, na qual cai em contradição diversas vezes. Especialista em assuntos relacionados à ilha, ele conseguiu colocá-la contra a parede e expor a fragilidade dos argumentos da cubana. Veja abaixo.


Yoani Sánchez é a nova personalidade da oposição cubana. Desde a criação de seu blog, Generación Y, em 2007, obteve inúmeros prêmios internacionais: o prêmio de Jornalismo Ortega y Gasset (2008), o prêmio Bitacoras.com (2008), o prêmio The Bob's (2008), o prêmio Maria Moors Cabot (2008) da prestigiada universidade norte-americana de Colúmbia. Do mesmo modo, a blogueira foi escolhida como uma das 100 personalidades mais influentes do mundo pela revista Time(2008), em companhia de George W. Bush, Hu Jintao e Dalai Lama.

Seu blog foi incluído na lista dos 25 melhores do mundo do canal CNN e da Time(2008). Em 30 de novembro de 2008, o diário espanhol El País a incluiu na lista das 100 personalidades hispano-americanas mais influentes do ano (lista na qual não apareciam nem Fidel Castro, nem Raúl Castro). A revista Foreign Policy, por sua vez, a considerou um dos 10 intelectuais mais importantes do ano, enquanto a revista mexicana Gato Pardofez o mesmo para 2008.

Esta impressionante avalanche de distinções simultâneas suscitou numerosas interrogações, ainda mais considerando que Yoani Sánchez, segundo suas próprias confissões, é uma total desconhecida em seu próprio país. Como uma pessoa desconhecida por seus vizinhos - segundo a própria blogueira - pode integrar a lista das 100 personalidades mais influentes do ano?

Um diplomata ocidental próximo desta atípica opositora do governo de Havana havia lido uma série de artigos que escrevi sobre Yoani Sánchez e que eram relativamente críticos. Ele os mostrou à blogueira cubana, que quis reunir-se comigo para esclarecer alguns pontos abordados.

O encontro com a jovem dissidente de fama controvertida não ocorreu em algum apartamento escuro, com as janelas fechadas, ou em um lugar isolado e recluso para escapar aos ouvidos indiscretos da "polícia política". Ao contrário, aconteceu no saguão do Hotel Plaza, no centro de Havana Velha, em uma tarde inundada de sol. O local estava bem movimentado, com numerosos turistas estrangeiros que perambulavam pelo imenso salão do edifício majestoso que abriu suas portas no início do século XX.

Yoani Sánchez vive perto das embaixadas ocidentais. De fato, uma simples chamada de meu contato ao meio-dia permitiu que combinássemos o encontro para três horas depois. Às 15h, a blogueira apareceu sorridente, vestida com uma saia longa e uma camiseta azul. Também usava uma jaqueta esportiva, para amenizar o relativo frescor do inverno havanês.

Foram cerca de duas horas de conversa ao redor de uma mesa do bar do hotel, com a presença de seu marido, Reinaldo Escobar, que a acompanhou durante uns vinte minutos antes de sair para outro encontro. Yoani Sánchez mostrou-se extremamente cordial e afável e exibiu grande tranquilidade. Seu tom de voz era seguro e em nenhum momento ela pareceu incomodada. Acostumada aos meios ocidentais, domina relativamente bem a arte da comunicação.

Esta blogueira, personagem de aparência frágil, inteligente e sagaz, tem consciência de que, embora lhe seja difícil admitir, sua midiatização no Ocidente não é uma causalidade, mas se deve ao fato de ela preconizar a instauração de um "capitalismo sui generis" em Cuba.

O incidente de 6 de novembro de 2009

Salim Lamrani - Comecemos pelo incidente ocorrido em 6 de novembro de 2009 em Havana. Em seu blog, a senhora explicou que foi presa com três amigos por "três robustos desconhecidos" durante uma "tarde carregada de pancadas, gritos e insultos". A senhora denunciou as violências de que foi vítima por parte das forças da ordem cubanas. Confirma sua versão dos fatos?

Yoani Sánchez -
Efetivamente, confirmo que sofri violência. Mantiveram-me sequestrada por 25 minutos. Levei pancadas. Consegui pegar um papel que um deles levava no bolso e o coloquei em minha boca. Um deles pôs o joelho sobre meu peito e o outro, no assento dianteiro, me batia na região dos rins e golpeava minha cabeça para que eu abrisse a boca e soltasse o papel. Por um momento, achei que nunca sairia daquele carro.

SL - O relato, em seu blog, é verdadeiramente terrorífico. Cito textualmente: a senhora falou de "golpes e empurrões", de "golpes nos nós dos dedos", de "enxurrada de golpes", do "joelho sobre o [seu] peito", dos golpes nos "rins e [...] na cabeça", do "cabelo puxado", de seu "rosto avermelhado pela pressão e o corpo dolorido", dos "golpes [que] continuavam vindo" e "todas essas marcas roxas". No entanto, quando a senhora recebeu a imprensa internacional em 9 de novembro, todas as marcas haviam desaparecido. Como explica isso?

YS -
São profissionais do espancamento.

SL - Certo, mas por que a senhora não tirou fotos das marcas?

YS -
Tenho as fotos. Tenho provas fotográficas.

SL - Tem provas fotográficas?

YS -
Tenho as provas fotográficas.

SL - Mas por que não as publicou para desmentir todos os rumores segundo os quais a senhora havia inventado uma agressão para que a imprensa falasse de seu caso?

YS -
Por enquanto prefiro guardá-las e não publicá-las. Quero apresentá-las um dia perante um tribunal, para que esses três homens sejam julgados. Lembro-me perfeitamente de seus rostos e tenho fotos de pelo menos dois deles. Quanto ao terceiro, ainda não está identificado, mas, como se tratava do chefe, será fácil de encontrar. Tenho também o papel que tirei de um deles e que tem minha saliva, pois o coloquei na boca. Neste papel estava escrito o nome de uma mulher.

SL - Certo. A senhora publica muitas fotos em seu blog. Para nós é difícil entender por que prefere não mostrar as marcas desta vez.

YS -
Como já lhe disse, prefiro guardá-las para a Justiça.

SL - A senhora entende que, com essa atitude, está dando crédito aos que pensam que a agressão foi uma invenção.

YS -
É minha escolha.

SL - No entanto, até mesmo os meios ocidentais que lhe são mais favoráveis tomaram precauções oratórias pouco habituais para divulgar seu relato. O correspondente da BBC em Havana, Fernando Ravsberg, por exemplo, escreve que a senhora "não tem hematomas, marcas ou cicatrizes". A agência France Presseconta a história esclarecendo com muito cuidado que se trata de sua versão, sob o título "Cuba: a blogueira Yoani Sánchez diz ter sido agredida e detida brevemente". O jornalista afirma, por outro lado, que a senhora "não ficou ferida".

YS
- Não quero avaliar o trabalho deles. Não sou eu quem deve julgá-lo. São profissionais que passam por situações muito complicadas, que não posso avaliar. O certo é que a existência ou não de marcas físicas não é a prova do fato.

SL - Mas a presença de marcas demonstraria que foram cometidas violências. Daí a importância da publicação das fotos.

YS
- O senhor deve entender que tratamos de profissionais da intimidação. O fato de três desconhecidos terem me levado até um carro sem me apresentar nenhum documento me dá o direito de me queixar como se tivessem fraturado todos os ossos do corpo. As fotos não são importantes porque a ilegalidade está consumada. A precisão de que "me doeu aqui ou me doeu ali" é minha dor interior.

SL - Sim, mas o problema é que a senhora apresentou isso como uma agressão muito violenta. A senhora falou de "sequestro no pior estilo da Camorra siciliana".

YS -
Sim, é verdade, mas sei que é minha palavra contra a deles. Entrar nesse tipo de detalhes, para saber se tenho marcas ou não, nos afasta do tema verdadeiro, que é o fato de terem me sequestrado durante 25 minutos de maneira ilegal.

SL - Perdoe-me a insistência, mas creio que é importante. Há uma diferença entre um controle de identidade que dura 25 minutos e violências policiais. Minha pergunta é simples. A senhora disse, textualmente: "Durante todo o fim de semana fiquei com a maçã do rosto e o supercílio inflamados." Como tem as fotos, pode agora mostrar as marcas.

YS
- Já lhe disse que prefiro guardá-las para o tribunal.

SL - A senhora entende que, para algumas pessoas, será difícil acreditar em sua versão se a senhora não publicar as fotos.

YS -
Penso que, entrando nesse tipo de detalhes, perde-se a essência. A essência é que três bloggers acompanhados por uma amiga dirigiam-se a um ponto da cidade que era a Rua 23, esquina G. Tínhamos ouvido falar que um grupo de jovens convocara uma passeata contra a violência. Pessoas alternativas, cantores de hip hop, de rap, artistas. Eu compareceria como blogueira para tirar fotos e publicá-las em meu blog e fazer entrevistas. No caminho, fomos interceptados por um carro da marca Geely.

SL - Para impedi-los de participar do evento?

YS
- A razão, evidentemente, era esta. Eles nunca me disseram formalmente, mas era o objetivo. Disseram-me que entrasse no carro. Perguntei quem eles eram. Um deles me pegou pelo pulso e comecei a ir para trás. Isso aconteceu em uma zona bastante central de Havana, em um ponto de ônibus.

SL - Então havia outras pessoas. Havia testemunhas.

YS -
Há testemunhas, mas não querem falar. Têm medo.

SL - Nem mesmo de modo anônimo? Por que a imprensa ocidental não as entrevistou preservando seu anonimato, como faz muitas vezes quando publica reportagens críticas sobre Cuba?

YS -
Não posso lhe explicar a reação da imprensa. Posso lhe contar o que aconteceu. Um deles era um homem de uns cinquenta anos, musculoso como se tivesse praticado luta livre em algum momento da vida. Digo-lhe isso porque meu pai praticou esse esporte e tem as mesmas características. Tenho os pulsos muito finos e consegui escapar, e lhe perguntei quem era. Havia três homens além do motorista.

SL - Então havia quatro homens no total, e não três.

YS
- Sim, mas não vi o rosto do motorista. Disseram-me: "Yoani, entre no carro, você sabe quem somos." Respondi: "Não sei quem são os senhores." O mais baixo me disse: "Escute-me, voce sabe quem sou, você me conhece." Retruquei: "Não, não sei quem é você. Não o conheço. Quem é você? Mostre-me suas credenciais ou algum documento." O outro me disse: "Entre, não torne as coisas mais difíceis." Então comecei a gritar: "Socorro! Sequestradores!"

SL - A senhora sabia que se tratava de policiais à paisana?

YS
- Imaginava, mas eles não me mostraram seus documentos.

SL - Qual era seu objetivo, então?

YS
- Queria que as coisas fossem feitas dentro da legalidade, ou seja, que me mostrassem seus documentos e me levassem depois, embora eu suspeitasse que eles representavam a autoridade. Ninguém pode obrigar um cidadão a entrar em um carro particular sem apresentar suas credenciais. Isso é uma ilegalidade e um sequestro.

SL - Como as pessoas no ponto de ônibus reagiram?

YS
- As pessoas no ponto ficaram atônitas, pois "sequestro" não é uma palavra que se usa em Cuba, não existe esse fenômeno. Então se perguntaram o que estava acontecendo. Não tínhamos jeito de delinquentes. Alguns se aproximaram, mas um dos policiais lhes gritou: "Não se metam, que são contrarrevolucionários!"

Esta foi a confirmação de que se tratava de membros da polícia política, embora eu já imaginasse por causa do carro Geely, que é chinês, de fabricação atual, e não é vendido em nenhuma loja em Cuba. Esses carros pertencem exclusivamente a membros do Ministério das Forças Armadas e do Ministério do Interior.

SL - Então a senhora sabia desde o início, pelo carro, que se tratava de policiais à paisana.

YS
- Intuía. Por outro lado, tive a confirmação quando um deles chamou um policial uniformizado. Uma patrulha formada por um homem e uma mulher chegou e levou dois de nós. Deixou-nos nas mãos desses dois desconhecidos.

SL - Mas a senhora já não tinha a menor dúvida sobre quem eles eram.

YS
- Não, mas não nos mostraram nenhum documento. Os policiais não nos disseram que representavam a autoridade. Não nos disseram nada.

SL - É difícil entender o interesse das autoridades cubanas em agredi-la fisicamente, sob o risco de provocar um escândalo internacional. A senhora é famosa. Por que teriam feito isso?

YS -
Seu objetivo era radicalizar-me, para que eu escrevesse textos violentos contra eles. Mas não conseguirão.

SL - Não se pode dizer que a senhora é branda com o governo cubano.

YS
-Nunca recorro à violência verbal nem a ataques pessoais. Nunca uso adjetivos incendiários, como "sangrenta repressão", por exemplo. Seu objetivo, então, era radicalizar-me.

SL - No entanto, a senhora é muito dura em relação ao governo de Havana. Em seu blog, a senhora diz: "o barco que faz água a ponto de naufragar". A senhora fala dos "gritos do déspota", de "seres das sombras, que, como vampiros, se alimentam de nossa alegria humana, nos incutem o medo por meio da agressão, da ameaça, da chantagem", e afirma que "naufragaram o processo, o sistema, as expectativas, as ilusões. [É um] naufráfio [total]". São palavras muito fortes.

YS
- Talvez, mas o objetivo deles era queimar o fenômeno Yoani Sánchez, demonizar-me. Por isso meu blog permaneceu bloqueado por um bom tempo.

SL - Contudo, é surpreendente que as autoridades cubanas tenham decidido atacá-la fisicamente.

YS
- Foi uma torpeza. Não entendo por que me impediram de assistir à passeata, pois não penso como aqueles que reprimem. Não tenho explicação. Talvez eles não quisessem que eu me reunisse com os jovens. Os policiais acreditavam que eu iria provocar um escândalo ou fazer um discurso incendiário.

Voltando ao assunto da detenção, os policiais levaram meus amigos de maneira enérgica e firme, mas sem violência. No momento em que me dei conta de que iriam nos deixar sozinhos com Orlando, com esses três tipos, agarrei-me a uma planta que havia na rua e Claudia agarrou-se a mim pela cintura para impedir a separação, antes de os policiais a levarem.

SL - Para que resistir às forças da ordem uniformizadas e correr o risco de ser acusada disso e cometer um delito? Na França, se resistimos à polícia, corremos o risco de sofrer sanções.

YS
- De qualquer modo, eles nos levaram. A policial levou Claudia. As três pessoas nos levaram até o carro e comecei a gritar de novo: "Socorro! Um sequestro!"

SL - Por quê? A senhora sabia que se tratava de policiais à paisana.

YS
- Não me mostraram nenhum papel. Então começaram a me bater e me empurraram em direção ao carro. Claudia foi testemunha e relatou isso.

SL - A senhora não acaba de me dizer que a patrulha a havia levado?

YS
- Ela viu a cena de longe, enquanto o carro de polícia se afastava. Defendi-me e golpeei como um animal que sente que sua hora chegou. Deram uma volta rápida e tentaram tirar-me o papel da boca.

Agarrei um deles pelos testículos e ele redobrou a violência. Levaram-nos a um bairro bem periférico, La Timba, que fica perto da Praça da Revolução. O homem desceu, abriu a porta e pediu que saíssemos. Eu não quis descer. Eles nos fizeram sair à força com Orlando e foram embora.

Uma senhora chegou e dissemos que havíamos sido sequestrados. Ela nos achou malucos e se foi. O carro voltou, mas não parou. Eles só me jogaram minha bolsa, onde estavam meu celular e minha câmera.

SL - Voltaram para devolver seu celular e sua câmera?

YS
- Sim.

SL - Não lhe parece estranho que se preocupassem em voltar? Poderiam ter confiscado seu celular e sua câmera, que são suas ferramentas de trabalho.

YS -
Bem, não sei. Tudo durou 25 minutos.

SL - Mas a senhora entende que, enquanto não publicar as fotos, as pessoas duvidarão de sua versão, e isso lançará uma sombra sobre a credibilidade de tudo o que a senhora diz.

YS
- Não importa.


A Suíça e o retorno a Cuba


SL - Em 2002, a senhora decidiu emigrar para a Suíça. Dois anos depois, voltou a Cuba. É difícil entender por que a senhora deixou o "paraíso europeu" para regressar ao país que descreve como um inferno. A pergunta é simples: por quê?

YS
- É uma ótima pergunta. Primeiro, gosto de nadar contra a corrente. Gosto de organizar minha vida à minha maneira. O absurdo não é ir embora e voltar a Cuba, e sim as leis migratórias cubanas, que estipulam que toda pessoa que passa onze meses no exterior perde seu status de residente permanente.

Em outras condições eu poderia permanecer dois anos no exterior e, com o dinheiro ganho, voltar a Cuba para reformar a casa e fazer outras coisas. Então o surpreendente não é o fato de eu decidir voltar a Cuba, e sim as leis migratórias cubanas.

SL - O mais surpreendente é que, tendo a possibilidade de viver em um dos países mais ricos do mundo, a senhora tenha decidido voltar a seu país, que descreve de modo apocalíptico, apenas dois anos depois de sua saída.

YS
- As razões são várias. Primeiro, não pude ir embora com minha família. Somos uma pequena família, mas minha irmã, meus pais e eu somos muito unidos. Meu pai ficou doente em minha ausência e tive medo de que ele morresse sem que eu pudesse vê-lo. Também me sentia culpada por viver melhor do que eles. A cada vez que comprava um par de sapatos, que me conectava à internet, pensava neles. Sentia-me culpada.

SL - Certo, mas, da Suíça, a senhora podia ajudá-los enviando dinheiro.

YS
- É verdade, mas há outro motivo. Pensei que, com o que havia aprendido na Suíça, poderia mudar as coisas voltando a Cuba. Há também a saudade das pessoas, dos amigos. Não foi uma decisão pensada, mas não me arrependo.

Tinha vontade de voltar e voltei. É verdade que isso pode parecer pouco comum, mas gosto de fazer coisas incomuns. Criei um blog e as pessoas me perguntaram por que eu fiz isso, mas o blog me satisfaz profissionalmente.

SL - Entendo. No entanto, apesar de todas essas razões, é difícil entender o motivo de seu regresso a Cuba quando no Ocidente se acredita que todos os cubanos querem abandonar o país. É ainda mais surpreendente em seu caso, pois a senhora apresenta seu país, repito, de modo apocalíptico.

YS
- Como filóloga, eu discutiria a palavra, pois "apocalíptico" é um termo grandiloquente. Há um aspecto que caracteriza meu blog: a moderação verbal.

SL - Não é sempre assim. A senhora, por exemplo, descreve Cuba como "uma imensa prisão, com muros ideológicos". Os termos são bastantes fortes.

YS
- Nunca escrevi isso.

SL - São as palavras de uma entrevista concedida ao canal francês France 24 em 22 de outubro de 2009.

YS
- O senhor leu isso em francês ou em espanhol?

SL - Em francês.

YS
- Desconfie das traduções, pois eu nunca disse isso. Com frequência me atribuem coisas que eu não disse. Por exemplo, o jornal espanhol ABC me atribuiu palavras que eu nunca havia pronunciado, e protestei. O artigo foi finalmente retirado do site na internet.

SL - Quais eram essas palavras?

YS
- "Nos hospitais cubanos, morre mais gente de fome do que de enfermidades." Era uma mentira total. Eu jamais havia dito isso.

SL - Então a imprensa ocidental manipulou o que a senhora disse?

YS
- Eu não diria isso.

SL - Se lhe atribuem palavras que a senhora não pronunciou, trata-se de manipulação.

YS
- O Granma manipula a realidade mais do que a imprensa ocidental ao afirmar que sou uma criação do grupo midiático Prisa.

SL - Justamente, a senhora não tem a impressão de que a imprensa ocidental a usa porque a senhora preconiza um "capitalismo sui generis" em Cuba?

YS
- Não sou responsável pelo que a imprensa faz. Meu blog é uma terapia pessoal, um exorcismo. Tenho a impressão de que sou mais manipulada em meu próprio país do que em outra parte. O senhor sabe que existe uma lei em Cuba, a lei 88, chamada lei da "mordaça", que põe na cadeia as pessoas que fazem o que estamos fazendo.

SL - O que isso quer dizer?

YS
- Que nossa conversa pode ser considerada um delito, que pode ser punido com uma pena de até 15 anos de prisão.

SL - Perdoe-me, o fato de eu entrevistá-la pode levá-la para a cadeia?

YS
-  É claro!

SL - Não tenho a impressão de que isso a preocupe muito, pois a senhora está me concedendo uma entrevista em plena tarde, no saguão de um hotel no centro de Havana Velha.

YS
- Não estou preocupada. Esta lei estipula que toda pessoa que denuncie as violações dos direitos humanos em Cuba colabora com as sanções econômicas, pois Washington justifica a imposição das sanções contra Cuba pela violação dos direitos humanos.

SL - Se não me engano, a lei 88 foi aprovada em 1996 para responder à Lei-Helms Burton e sanciona sobretudo as pessoas que colaboram com a aplicação desta legislação em Cuba, por exemplo fornecendo informações a Washington sobre os investidores estrangeiros no país, para que estes sejam perseguidos pelos tribunais norte-americanos. Que eu saiba, ninguém até agora foi condenado por isso.

Falemos de liberdade de expressão. A senhora goza de certa liberdade de tom em seu blog. Está sendo entrevistada em plena tarde em um hotel. Não vê uma contradição entre o fato de afirmar que não há nenhuma liberdade de expressão em Cuba e a realidade de seus escritos e suas atividades, que provam o contrário?

YS
- Sim, mas o blog não pode ser acessado desde Cuba, porque está bloqueado.

SL - Posso lhe assegurar que o consultei esta manhã antes da entrevista, no hotel.

YS
- É possível, mas ele permanece bloqueado a maior parte do tempo. De todo modo, hoje em dia, mesmo sendo uma pessoa moderada, não posso ter nenhum espaço na imprensa cubana, nem no rádio, nem na televisão.

SL - Mas pode publicar o que tem vontade em seu blog.

YS
- Mas não posso publicar uma única palavra na imprensa cubana.

SL - Na França, que é uma democracia, amplos setores da população não têm nenhum espaço nos meios, já que a maioria pertence a grupos econômicos e financeiros privados.

YS
- Sim, mas é diferente.

SL - A senhora recebeu ameaças por suas atividades? Alguma vez a ameaçaram com uma pena de prisão pelo que escreve?

YS
- Ameaças diretas de pena de prisão, não, mas não me deixam viajar ao exterior. Fui convidada há pouco para um Congresso sobre a língua espanhola no Chile, fiz todos os trâmites, mas não me deixam sair.

SL - Deram-lhe alguma explicação?

YS
- Nenhuma, mas quero dizer uma coisa. Para mim, as sanções dos Estados Unidos contra Cuba são uma atrocidade. Trata-se de uma política que fracassou. Afirmei isso muitas vezes, mas não se publica, pois é incômodo o fato de eu ter esta opinião que rompe com o arquétipo do opositor.


As sanções econômicas

SL - Então a senhora se opõe às sanções econômicas.

YS
- Absolutamente, e digo isso em todas as entrevistas. Há algumas semanas, enviei uma carta ao Senado dos Estados Unidos pedindo que os cidadãos norte-americanos tivessem permissão para viajar a Cuba. É uma atrocidade impedir que os cidadãos norte-americanos viajem a Cuba, do mesmo modo que o governo cubano me impede de sair de meu país.

SL - O que acha das esperanças suscitadas pela eleição de Obama, que prometeu uma mudança na política para Cuba, mas decepcionou muita gente?

YS
- Ele chegou ao poder sem o apoio do lobby fundamentalista de Miami, que defendeu o outro candidato. De minha parte, já me pronunciei contra as sanções.

SL - Este lobby fundamentalista é contra a suspensão das sanções econômicas.

YS
- O senhor pode discutir com eles e lhes expor meus argumentos, mas eu não diria que são inimigos da pátria. Não penso assim.

SL - Uma parte deles participou da invasão de seu próprio país em 1961, sob as ordens da CIA. Vários estão envolvidos em atos de terrorismo contra Cuba.

YS
- Os cubanos no exílio têm o direito de pensar e decidir. Sou a favor de que eles tenham direito ao voto. Aqui, estigmatizou-se muito o exílio cubano.

SL - O exílio "histórico" ou os que emigraram depois, por razões econômicas?

YS
- Na verdade, oponho-me a todos os extremos. Mas essas pessoas que defendem as sanções econômicas não são anticubanas. Considere que elas defendem Cuba segundo seus próprios critérios.

SL - Talvez, mas as sanções econômicas afetam os setores mais vulneráveis da população cubana, e não os dirigentes. Por isso é difícil ser a favor das sanções e, ao mesmo tempo, querer defender o bem-estar dos cubanos.

YS
- É a opinião deles. É assim.

SL - Eles não são ingênuos. Sabem que os cubanos sofrem com as sanções.

YS
- São simplesmente diferentes. Acreditam que poderão mudar o regime impondo sanções. Em todo caso, creio que o bloqueio tem sido o argumento perfeito para o governo cubano manter a intolerância, o controle e a repressão interna.

SL - As sanções econômicas têm efeitos. Ou a senhora acha que são apenas uma desculpa para Havana?

YS
- São uma desculpa que leva à repressão.

SL - Afetam o país de um ponto de vista econômico, para a senhora? Ou é apenas um efeito marginal?

YS
- O verdadeiro problema é a falta de produtividade em Cuba. Se amanhã suspendessem as sanções, duvido muito que víssemos os efeitos.

SL - Neste caso, por que os Estados Unidos não suspendem as sanções, tirando assim a desculpa do governo? Assim perceberíamos que as dificuldades econômicas devem-se apenas às políticas internas. Se Washington insiste tanto nas sanções apesar de seu caráter anacrônico, apesar da oposição da imensa maioria da comunidade internacional, 187 países em 2009, apesar da oposição de uma maioria da opinião pública dos Estados Unidos, apesar da oposição do mundo dos negócios, deve ser por algum motivo, não?

YS
- Simplesmente porque Obama não é o ditador dos Estados Unidos e não pode eliminar as sanções.

SL - Ele não pode eliminá-las totalmente porque não há um acordo no Congresso, mas pode aliviá-las consideravelmente, o que não fez até agora, já que, salvo a eliminação das sanções impostas por Bush em 2004, quase nada mudou.

YS
- Não, não é verdade, pois ele também permitiu que as empresas de telecomunicações norte-americanas fizessem transações com Cuba.


Os prêmios internacionais, o blog e Barack Obama

SL - A senhora terá de admitir que é bem pouco, quando se sabe que Obama prometeu um novo enfoque para Cuba. Voltemos a seu caso pessoal. Como explica esta avalanche de prêmios, assim como seu sucesso internacional?

YS
- Não tenho muito a dizer, a não ser expressar minha gratidão. Todo prêmio implica uma dose de subjetividade por parte do jurado. Todo prêmio é discutível. Por exemplo, muitos escritores latino-americanos mereciam o Prêmio Nobel de Literatura mais que Gabriel García Márquez.

SL - A senhora afirma isso porque acredita que ele não tem tanto talento ou por sua posição favorável à Revolução cubana? A senhora não nega seu talento de escritor, ou nega?

YS
- É minha opinião, mas não direi que ele obteve o prêmio por esse motivo nem vou acusá-lo de ser um agente do governo sueco.

SL - Ele obteve o prêmio por sua obra literária, enquanto a senhora foi recompensada por suas posições políticas contra o governo. É a impressão que temos.

YS
- Falemos do prêmio Ortega y Gasset, do jornal El País, que suscita mais polêmica. Venci na categoria "Internet". Alguns dizem que outros jornalistas não conseguiram, mas sou uma blogueira e sou pioneira neste campo. Considero-me uma personagem da internet. O júri do prêmio Ortega y Gasset é formado por personalidades extremamente prestigiadas e eu não diria que elas se prestaram a uma conspiração contra Cuba.

SL - A senhora não pode negar que o jornal espanhol El Paístem uma linha editorial totalmente hostil a Cuba. E alguns acham que o prêmio, de 15.000 euros, foi uma forma de recompensar seus escritos contra o governo.

YS
- As pessoas pensam o que querem. Acredito que meu trabalho foi recompensado. Meu blog tem 10 milhões de visitas por mês. É um furacão.

SL - Como a senhora faz para pagar os gastos com a administração de semelhante tráfego?

YS
- Um amigo na Alemanha se encarregava disso, pois o site estava hospedado na Alemanha. Há mais de um ano está hospedado na Espanha, e consegui 18 meses gratuitos graças ao prêmio The Bob's.

SL - E a tradução para 18 línguas?

YS
- São amigos e admiradores que o fazem voluntária e gratuitamente.

SL - Muitas pessoas acham difícil acreditar nisso, pois nenhum outro site do mundo, nem mesmo os das mais importantes instituições internacionais, como as Nações Unidas, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, a OCDE, a União Europeia, dispõe de tantas versões de idioma. Nem o site do Departamento de Estado dos EUA, nem o da CIA contam com semelhante variedade.

YS
- Digo-lhe a verdade.

SL - O presidente Obama inclusive respondeu a uma entrevista que a senhora fez. Como explica isso?

YS
- Em primeiro lugar, quero dizer que não eram perguntas complacentes.

SL - Tampouco podemos afirmar que a senhora foi crítica, já que não pediu que ele suspendesse as sanções econômicas, sobre as quais a senhora diz que "são usadas como justificativa tanto para o descalabro produtivo quanto para reprimir os que pensam diferente". É exatamente o que diz Washington sobre o tema.

O momento de maior atrevimento foi quando a senhora perguntou se ele pensava em invadir Cuba. Como a senhora explica que o presidente Obama tenha dedicado tempo a lhe responder apesar de sua agenda extremamente carregada, com uma crise econômica sem precedentes, a reforma do sistema de saúde, o Iraque, o Afeganistão, as bases militares na Colômbia, o golpe de Estado em Honduras e centenas de pedidos de entrevista dos mais importantes meios do mundo à espera?

YS
- Tenho sorte. Quero lhe dizer que também enviei perguntas ao presidente Raúl Castro e ele não me respondeu. Não perco a esperança. Além disso, ele agora tem a vantagem de contar com as respostas de Obama.

SL - Como a senhora chegou até Obama?

YS
- Transmiti as perguntas a várias pessoas que vinham me visitar e poderiam ter um contato com ele.

SL - Em sua opinião, Obama respondeu porque a senhora é uma blogueira cubana ou porque se opõe ao governo?

YS -
Não creio. Obama respondeu porque fala com os cidadãos.

SL - Ele recebe milhões de solicitações a cada dia. Por que lhe respondeu, se a senhora é uma simples blogueira?

YS
- Obama é próximo de minha geração, de meu modo de pensar.

SL - Mas por que a senhora? Existem milhões de blogueiros no mundo. Não acha que foi usada na guerra midiática de Washington contra Havana?

YS
- Em minha opinião, ele talvez quisesse responder a alguns pontos, como a invasão de Cuba. Talvez eu tenha lhe dado a oportunidade de se manifestar sobre um tema que ele queria abordar havia muito tempo. A propaganda política nos fala constantemente de uma possível invasão de Cuba.

SL - Mas ocorreu uma, não?

YS
- Quando?

SL - Em 1961. E, em 2003, Roger Noriega, subsecretário de Estado para Assuntos Interamericanos, disse que qualquer onda migratória cubana em direção aos Estados Unidos seria considerada uma ameaça à segurança nacional e exigiria uma resposta militar.

YS
- É outro assunto. Voltando ao tema da entrevista, creio que ela permitiu esclarecer alguns pontos. Tenho a impressão de que há uma intenção de ambos os lados de não normalizar as relações, de não se entender. Perguntei-lhe quando encontraríamos uma solução.

SL - A seu ver, quem é responsável por este conflito entre os dois países?

YS
- É difícil apontar um culpado.

SL - Neste caso específico, são os Estados Unidos que impõem sanções unilaterais a Cuba, e não o contrário.

YS
- Sim, mas Cuba confiscou propriedades dos Estados Unidos.

SL - Tenho a impressão de que a senhora faz o papel de advogada de Washington.

YS
- Os confiscos ocorreram.

SL - É verdade, mas foram realizados conforme o direito internacional. Cuba também confiscou propriedades da França, Espanha, Itália, Bélgica, Reino Unido, e indenizou estas nações. O único país que recusou as indenizações foram os Estados Unidos.

YS
- Cuba também permitiu a instalação de bases militares em seu território e de mísseis de um império distante...

SL - ...Como os Estados Unidos instalaram bases nucleares contra a URSS na Itália e na Turquia.

YS
- Os mísseis nucleares podiam alcançar os Estados Unidos.

SL - Assim como os mísseis nucleares norte-americanos podiam alcançar Cuba ou a URSS.

YS
- É verdade, mas creio que houve uma escalada no confronto por parte de ambos os países.


Os cinco presos políticos cubanos e a dissidência

SL - Abordemos outro tema. Fala-se muito dos cinco presos políticos cubanos nos Estados Unidos, condenados à prisão perpétua por infiltrar grupelhos de extrema direita na Flórida envolvidos no terrorismo contra Cuba.

YS
- Não é um tema que interesse à população. É propaganda política.

SL - Mas qual é seu ponto de vista a respeito?

YS
- Tentarei ser o mais neutra possível. São agentes do Ministério do Interior que se infiltraram nos Estados Unidos para coletar informações. O governo de Cuba disse que eles não desempenhavam atividades de espionagem, mas sim que haviam infiltrado grupos cubanos para evitar atos terroristas. Mas o governo cubano sempre afirmou que esses grupos estavam ligados a Washington.

SL - Então os grupos radicais de exilados têm laços com o governo dos Estados Unidos.

YS
- É o que diz a propaganda política.

SL - Então não é verdade.

YS
- Se é verdade, significa que os cinco realizavam atividades de espionagem.

SL - Neste caso, os Estados Unidos têm de reconhecer que os grupos violentos fazem parte do governo.

YS
- É verdade.

SL - A senhora acha que os Cinco devem ser libertados ou merecem a punição?

YS
- Creio que valeria a pena revisar os casos, mas em um contexto político mais apaziguado. Não acho que o uso político deste caso seja bom para eles. O governo cubano midiatiza demais este assunto.

SL - Talvez por ser um assunto totalmente censurado pela imprensa ocidental.

YS
- Creio que seria bom salvar essas pessoas, que são seres humanos, têm uma família, filhos. Por outro lado, contudo, também há vítimas.

SL - Mas os cinco não cometeram crimes.

YS
- Não, mas forneceram informações que causaram a morte de várias pessoas.

SL - A senhora se refere aos acontecimentos de 24 de fevereiro de 1996, quando dois aviões da organização radical Brothers to the Rescue foram derrubados depois de violar várias vezes o espaço aéreo cubano e lançar convocações à rebelião.

YS
- Sim.

SL - No entanto, o promotor reconheceu que era impossível provar a culpa de Gerardo Hernández neste caso.

YS
- É verdade. Penso que, quando a política se intromete em assuntos de justiça, chegamos a isso.
SL - A senhora acha que se trata de um caso político?
YS - Para o governo cubano, é um caso político.

SL - E para os Estados Unidos?

YS
- Penso que existe uma separação dos poderes no país, mas é possível que o ambiente político tenha influenciado os juízes e jurados. Não creio, no entanto, que se trate de um caso político dirigido por Washigton. É difícil ter uma imagem clara deste caso, pois jamais obtivemos uma informação completa a respeito. Mas a prioridade para os cubanos é a libertação dos presos políticos.


O financiamiento dos dissidentes cubanos pelos Estados Unidos

SL - Wayne S. Smith, último embaixador dos Estados Unidos em Cuba, declarou que era "ilegal e imprudente enviar dinheiro aos dissidentes cubanos". Acrescentou que "ninguém deveria dar dinheiro aos dissidentes, muito menos com o objetivo de derrubar o governo cubano".

Ele explica: "Quando os Estados Unidos declaram que seu objetivo é derrubar o governo cubano e depois afirmam que um dos meios para conseguir isso é oferecer fundos aos dissidentes cubanos, estes se encontram de fato na posição de agentes pagos por uma potência estrangeira para derrubar seu próprio governo".

YS
- Creio que o financiamento da oposição pelos Estados Unidos tem sido apresentado como uma realidade, o que não é o caso. Conheço vários membros do grupo dos 75 dissidentes presos em 2003 e duvido muito dessa versão. Não tenho provas de que os 75 tenham sido presos por isso. Não acredito nas provas apresentadas nos tribunais cubanos.

SL - Não creio que seja possível ignorar esta realidade.

YS
- Por quê?

SL - O próprio governo dos Estados Unidos afirma que financia a oposição interna desde 1959. Basta consultar, além dos arquivos liberados ao público, a seção 1.705 da lei Torricelli, de 1992, a seção 109 da lei Helms-Burton, de 1996, e os dois informes da Comissão de Assistência para uma Cuba Livre, de maio de 2004 e julho de 2006. Todos esses documentos revelam que o presidente dos Estados Unidos financia a oposição interna em Cuba com o objetivo de derrubar o governo de Havana.

YS
: Não sei, mas...

SL - Se me permite, vou citar as leis em questão. A seção 1.705 da lei Torricelli estipula que "os Estados Unidos proporcionarão assistência às organizações não-governamentais adequadas para apoiar indivíduos e organizações que promovem uma mudança democrática não violenta em Cuba."

A seção 109 da lei Helms-Burton também é muito clara: "O presidente [dos Estados Unidos] está autorizado a proporcionar assistência e oferecer todo tipo de apoio a indivíduos e organizações não-governamentais independentes para unir os esforços a fim de construir uma democracia em Cuba".

O primeiro informe da Comissão de Assistência para uma Cuba Livre prevê a elaboração de um "sólido programa de apoio que favoreça a sociedade civil cubana". Entre as medidas previstas há um financiamento de 36 milhões de dólares para o "apoio à oposição democrática e ao fortalecimento da sociedade civil emergente".

O segundo informe da Comissão de Assistência para uma Cuba Livre prevê um orçamento de 31 milhões de dólares para financiar ainda mais a oposição interna. Além disso, está previsto para os anos seguintes um financiamento anual de pelo menos 20 milhões de dólares, com o mesmo objetivo, "até que a ditadura deixe de existir".

YS
- Quem lhe disse que esse dinheiro chegou às mãos dos dissidentes?

SL - A Seção de Interesses Norte-americanos afirmou em um comunicado: "A política norte-americana, faz muito tempo, é proporcionar assistência humanitária ao povo cubano, especificamente a famílias de presos políticos. Também permitimos que as organizações privadas o façam."

YS
- Bem...

SL - Inclusive a Anistia Internacional, que lembra a existência de 58 presos políticos em Cuba, reconhece que eles estão detidos "por ter recebido fundos ou materiais do governo norte-americano para realizar atividades que as autoridades consideram subversivas e prejudiciais para Cuba".

YS
- Não sei se...

SL - Por outro lado, os próprios dissidentes admitem receber dinheiro dos Estados Unidos. Laura Pollán, das Damas de Branco, declarou: "Aceitamos a ajuda, o apoio, da ultradireita à esquerda, sem condições". O opositor Vladimiro Roca também confessou que a dissidência cubana é subvencionada por Washington, alegando que a ajuda financeira recebida era "total e completamente lícita". Para o dissidente René Gómez, o apoio econômico por parte dos Estados Unidos "não é algo a esconder ou de que precisemos nos envergonhar".

Inclusive a imprensa ocidental reconhece. A agência France Presse informa que "os dissidentes, por sua parte, reivindicaram e assumiram essas ajudas econômicas". A agência espanhola EFEmenciona os "opositores financiados pelos Estados Unidos". Quanto à agência de notícias britânica Reuters, "o governo norte-americano fornece abertamente um apoio financeiro federal às atividades dos dissidentes, o que Cuba considera um ato ilegal". E eu poderia multiplicar os exemplos.

YS
- Tudo isso é culpa do governo cubano, que impede a prosperidade econômica de seus cidadãos, que impõe um racionamento à população. É preciso fazer fila para conseguir produtos. É necessário julgar antes o governo cubano, que levou milhares de pessoas a aceitar a ajuda estrangeira.

SL - O problema é que os dissidentes cometem um delito que a lei cubana e todos os códigos penais do mundo sancionam severamente. Ser financiado por uma potência estrangeira é um grave delito na Franca e no restante do mundo.

YS
- Podemos admitir que o financiamento de uma oposição é uma prova de ingerência, mas...

SL - Mas, neste caso, as pessoas que a senhora qualifica de presos políticos não são presos políticos, pois cometeram um delito ao aceitar dinheiro dos Estados Unidos, e a justiça cubana as condenou com base nisso.

YS
- Creio que este governo se intrometeu muitas vezes nos assuntos internos de outros países, financiando movimentos rebeldes e a guerrilha. Interveio em Angola e...

SL - Sim, mas se tratava de ajudar os movimentos independentistas contra o colonialismo português e o regime segregacionista da África do Sul. Quando a África do Sul invadiu a Namíbia, Cuba interveio para defender a independência deste país. Nelson Mandela agradeceu publicamente a Cuba e esta foi a razão pela qual fez sua primeira viagem a Havana, e não a Washington ou Paris.

YS
- Mas muitos cubanos morreram por isso, longe de sua terra.

SL - Sim, mas foi por uma causa nobre, seja em Angola, no Congo ou na Namíbia. A batalha de Cuito Cuanavale, em 1988, permitiu que se pusesse fim ao apartheid na África do Sul. É o que diz Mandela! Não se sente orgulhosa disso?

YS
- Concordo, mas, no fim das contas, incomoda-me mais a ingerência de meu país no exterior. O que faz falta é despenalizar a prosperidade.

SL - Inclusive o fato de se receber dinheiro de uma potência estrangeira?

YS
- As pessoas têm de ser economicamente autônomas.


SL - Se entendo bem, a senhora preconiza a privatização de certos setores da economia.

YS
- Não gosto do termo "privatizar", pois tem uma conotação pejorativa, mas colocar em mãos privadas, sim.


Conquistas sociais em Cuba?

SL - É uma questão semântica, então. Quais são, para a senhora, as conquistas sociais deste país?

YS
- Cada conquista teve um custo enorme. Todas as coisas que podem parecer positivas tiveram um custo em termos de liberdade. Meu filho recebe uma educação muito doutrinária e contam-lhe uma história de Cuba que em nada corresponde à realidade. Preferiria uma educação menos ideológica para meu filho. Por outro lado, ninguém quer ser professor neste país, pois os salários são muito baixos.

SL - Concordo, mas isso não impede que Cuba seja o país com o maior número de professores por habitante do mundo, com salas de 20 alunos no máximo, o que não ocorre na França, por exemplo.

YS
- Sim, mas houve um custo, e por isso a educação e a saúde não são verdadeiras conquistas para mim.

SL - Não podemos negar algo reconhecido por todas as instituições internacionais. Em relação à educação, o índice de analfabetismo é de 11,7% na América Latina e 0,2% em Cuba. O índice de escolaridade no ensino primário é de 92% na América Latina e 100% em Cuba, e no ensino secundário é de 52% e 99,7%, respectivamente. São cifras do Departamento de Educação da Unesco.

YS
- Certo, mas, em 1959, embora Cuba vivesse em condições difíceis, a situação não era tão ruim. Havia uma vida intelectual florescente, um pensamento político vivo. Na verdade, a maioria das supostas conquistas atuais, apresentadas como resultados do sistema, eram inerentes a nossa idiossincrasia. Essas conquistas existiam antes.

SL - Não é verdade. Vou citar uma fonte acima de qualquer suspeita: um informe do Banco Mundial. É uma citação bastante longa, mas vale a pena.

"Cuba é internacionalmente reconhecida por seus êxitos no campo da educação e da saúde, com um serviço social que supera o da maior parte dos países em desenvolvimento e, em certos setores, comparável ao dos países desenvolvidos. Desde a Revolução cubana de 1959 e do estabelecimento de um governo comunista com partido único, o país criou um sistema de serviços sociais que garante o acesso universal à educação e à saúde, proporcionado pelo Estado. Este modelo permitiu que Cuba alcançasse uma alfabetização universal, a erradicação de certas enfermidades, o acesso geral à água potável e a salubridade pública de base, uma das taxas de mortalidade infantil mais baixas da região e uma das maiores expectativas de vida. Uma revisão dos indicadores sociais de Cuba revela uma melhora quase contínua desde 1960 até 1980. Vários índices importantes, como a expectativa de vida e a taxa de mortalidade infantil, continuaram melhorando durante a crise econômica do país nos anos 90... Atualmente, o serviço social de Cuba é um dos melhores do mundo em desenvolvimento, como documentam numerosas fontes internacionais, entre elas a Organização Mundial de Saúde, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e outras agências da ONU, e o Banco Mundial. Segundo os índices de desenvolvimento do mundo em 2002, Cuba supera amplamente a América Latina e o Caribe e outros países com renda média nos mais importantes indicadores de educação, saúde e salubridade pública."

Além disso, os números comprovam. Em 1959, a taxa de mortalidade infantil era de 60 por mil. Em 2009, era de 4,8. Trata-se da taxa mais baixa do continente americano do Terceiro Mundo; inclusive mais baixa que a dos Estados Unidos.

YS
- Bom, mas...

SL - A expectativa de vida era de 58 anos antes da Revolução. Agora é de quase 80 anos, similar à de muitos países desenvolvidos. Cuba tem hoje 67.000 médicos frente aos 6.000 de 1959. Segundo o diário ingles The Guardian, Cuba tem duas vezes mais médicos que a Inglaterra para uma população quatro vezes menor.

YS
- Certo, mas, em termos de liberdade de expressão, houve um recuo em relação ao governo de Batista. O regime era uma ditadura, mas havia uma liberdade de imprensa plural e aberta, programas de rádio de todas as tendências políticas.

SL - Não é verdade. A censura da imprensa também existia. Entre dezembro de 1956 e janeiro de 1959, durante a guerra contra o regime de Batista, a censura foi imposta em 630 de 759 dias. E aos opositores reservava-se um triste destino.

YS
- É verdade que havia censura, intimidações e mortos ao final.

SL - Então a senhora não pode dizer que a situação era melhor com Batista, já que os opositores eram assassinados. Já não é o caso hoje. A senhora acha que a data de 1º de janeiro é uma tragédia para a história de Cuba?

YS
- Não, de modo algum. Foi um processo que motivou muita esperança, mas traiu a maioria dos cubanos. Fui um momento luminosos para boa parte da população, mas puseram fim a uma ditadura e instauraram outra. Mas não sou tão negativa como alguns.


Luis Posada Carriles, a lei de Ajuste Cubano e a emigração

SL - O que acha de Luis Posada Carriles, ex-agente da CIA responsável por numerosos crimes em Cuba e a quem os Estados Unidos recusam-se a julgar?

YS
- É um tema político que não interessa às pessoas. É uma cortina de fumaça.

SL - Interessa, pelo menos, aos parentes das vítimas. Qual é seu ponto de vista a respeito?

YS
- Não gosto de ações violentas.

SL - Condena seus atos terroristas?

YS
- Condeno todo ato de terrorismo, inclusive os cometidos atualmente no Iraque por uma suposta resistência iraquiana que mata os iraquianos.
SL - Quem mata os iraquianos? Os ataques da resistência ou os bombardeios dos Estados Unidos?

YS
- Não sei.

SL - Uma palavra sobre a lei de Ajuste Cubano, que determina que todo cubano que emigra legal o ilegalmente para os Estados Unidos obtém automaticamente o status de residente permanente.

YS
- É uma vantagem que os demais países não têm. Mas o fato de os cubanos emigrarem para os Estados Unidos deve-se à situação difícil aqui.

SL - Além disso, os Estados Unidos são o país mais rico do mundo. Muitos europeus também emigram para lá. A senhora reconhece que a lei de Ajuste Cubano é uma formidável ferramenta de incitação à emigração legal e ilegal?

YS
- É, efetivamente, um fator de incitação.

SL - A senhora não vê isso como uma ferramenta para desestabilizar a sociedade e o governo?

YS
- Neste caso, também podemos dizer que a concessão da cidadania espanhola aos descendentes de espanhóis nascidos em Cuba é um fator de desestabilização.

SL - Não tem nada a ver, pois existem razões históricas e, além disso, a Espanha aplica esta lei a todos os países da América Latina e não só a Cuba, enquanto a lei de Ajuste Cubano é única no mundo.

YS
- Mas existem fortes relações. Joga-se beisebol em Cuba como nos Estados Unidos.

SL - Na República Dominicana também, mas não existe uma lei de ajuste dominicano.

YS
- Existe, no entanto, uma tradição de aproximação.

SL - Então por que esta lei não foi aprovada antes da Revolução?

YS
- Por que os cubanos não queriam deixar seu país. Na época, Cuba era um país de imigração, não de emigração.

SL - É absolutamente falso, já que, nos anos 50, Cuba ocupava o segundo lugar entre os países americanos em termos de emigração rumo aos Estados Unidos, imediatamente atrás do México. Cuba mandava mais emigrantes para os Estados Unidos que toda a América Central e toda a América do Sul juntas, enquanto que atualmente Cuba só ocupa o décimo lugar apesar da lei de Ajuste Cubano e das sanções econômicas.

YS -
 Talvez, mas não havia essa obsessão de abandonar o país.

SL - As cifras demonstram o contrário. Atualmente, repito, Cuba só ocupa o décimo lugar no continente americano em termos de fluxo migratório para os Estados Unidos. Então a obsessão da qual você me fala é mais forte en nove países do continente pelo menos.

YS - 
Sim, mas naquela época os cubanos iam e regressavam.


Fonte: Rebelión, reproduzido por Opera Mundi

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