domingo, 27 de julho de 2008

Juros altos: a ponta do iceberg

www.ctb.org.br


25/07/2008
João Batista Lemos




O combate ao ciclo de elevação da taxa básica de juros, a Selic, adotado pelo Banco Central (BC) e que tende a ser longo, é a tarefa mais importante para os trabalhadores nos dias atuais. Ao analisar as condições históricas, políticas e econômicas que se entrelaçam nesta questão, vemos que o Brasil vive atualmente uma situação de aberto confronto entre a elite e o povo — com fortes repercussões no mundo do trabalho.


No Brasil, apesar dos avanços democráticos ocorridos nestes anos de governo Lula, ainda vivemos uma situação que torna difícil a tarefa de fazer dos trabalhadores agentes sociais e políticos efetivos. Ou por outra: é difícil construir avanços sociais numa economia historicamente controlada com mão de ferro por uma minoria da sociedade insensível às necessidades da imensa maioria da população — o que se traduz num sistema econômico rapinesco pelo qual poucas leis fazem tanto sentido quanto a lei do mais forte.


Agora, com a inflação ameaçando sair do rígido controle da política monetária, voltam à tona velhas teses que atingem frontalmente os trabalhadores. É o caso da campanha de setores empresariais — e até de economistas com perfil progressista — que defende o corte de investimentos públicos como meio para domar a inflação. O fato é que tanto o aperto monetário do BC por meio dos juros elevados quanto o “ajuste fiscal” dos cortes em investimento atingem diretamente os trabalhadores.


Estas duas alternativas procuram descarregar nas costas dos assalariados o peso do combate à inflação. A primeira significa estancar o crescimento econômico e reprimir o consumo. Já o “ajuste fiscal” implica em cortar investimentos em estradas, ferrovias, escolas e hospitais de que o povo precisa para abastecer o superávit primário — que paga os juros e encargos da especulação financeira. Nenhuma dessas alternativas vai à raiz do problema. As duas trazem de volta, para os trabalhadores, o velho dilema: se ficar o bicho pega, se correr o bicho come.


Arquitetura social brasileira


Qual é a saída? O Brasil precisa de mais produção, de mais emprego e de mais renda para dinamizar a sua vida econômica e social e não ficar dependente do capital especulativo — principalmente o internacional. Aos trabalhadores cabe também a tarefa de exigir do governo mais investimento na produção agrícola para enfrentar a pressão externa da alta dos preços dos alimentos e estimular o mercado interno.


O consumo popular funciona como o estopim econômico de transformações sociais. Para o povo, ele é bem-vindo também por isso — a edificação de uma sociedade de consumo no Brasil trará muitos benefícios. Poderemos transformar muitos brasileiros em cidadãos, reintegrados pelo direito de exercer um poder de compra, mínimo que seja. O Estado precisa de um projeto de nação e gerenciar a produção, não a especulação.


Diagnósticos e prognósticos


Diante disso, duas questões surgem como essenciais: a geração de emprego e o estímulo ao consumo. O desemprego ainda alto precisa ser atacado com a retomada do desenvolvimento econômico e ao mesmo tempo com a valorização do trabalho. As alternativas de aperto monetário e “ajuste fiscal” ignoraram essa coisa simples de que fórmulas matemáticas não devem substituir o desenvolvimento de um povo que habita uma região cheia de riquezas naturais.


Hoje, o combate às sucessivas altas dos juros pelo BC, contrariando diferentes diagnósticos e prognósticos sobre seus males para o país, abarca diferentes setores da sociedade. Mas é preciso constatar que entre os que reprovam a política de juros altos estão os que propõem o “ajuste fiscal” — que também é nefasto para os trabalhadores. Não resta para nós outro caminho que não seja o de exigir com vigor uma mudança de rumo na condução da política macroeconômica e combater tanto o aperto monetário quanto o “ajuste fiscal”.


Assalariados pagam o pato


O desafio é transformar a indignação cada vez mais em energia para dar combate aos interesses que se beneficiam desta ciranda financeira. E uma das formas é mostrar, com consistência e profundidade, para os trabalhadores que seremos os primeiros — e os principais — a serem atingidos pela crise anunciada com a elevação dos juros. E mostrar que o “ajuste fiscal” vai na mesma direção. Se a mão pesada do BC não for detida já, em 2009 certamente haverá redução da atividade econômica, o que se desdobra em mais desemprego e achatamento salarial.Não resta dúvida: na crise, os primeiros a pagarem o pato são os assalariados.


No capitalismo, o consumo depende basicamente dos que vivem de salário e de lucro — para preservar o segundo, o primeiro precisa ser sacrificado. Trocando em miúdos: se o rico deixar de consumir caviar, muito antes vários trabalhadores perderão a condição obtida com a expansão do emprego e a elevação do salário por conta do crescimento econômico de comprar um quilo de carne.


Passos no presente


Um cenário menos sombrio para os trabalhadores depende dos nossos passos no presente, da defesa com ações concretas de um projeto de desenvolvimento com valorização do trabalho e com vocação soberana. Esta é a resposta que deve ser dada ao padrão conservador da macroeconomia brasileira. Ou seja: pensar o país estrategicamente. Esse é, sem dúvida, o fio da meada para se compreender a complexa equação econômica que define a atual situação brasileira. O pano de fundo é o papel do Estado, que dever ter um projeto de nação e agir como indutor da economia.


Para que este projeto se concretize, é preciso lutar com unidade e determinação. O Brasil não pode retroceder aos tempos em que prevalecia a política de o Estado atacar direitos dos trabalhadores, de enfraquecer o trabalho para fortalecer o capital. Ações políticas de massa Administrar o país tendo em perspectiva um novo rumo significa aferir perdas e ganhos de cada medida adotada, considerando sua escala de contextos. A busca do caminho mais curto — como é o caso desta escalada de alta dos juros para supostamente combater a inflação causada basicamente pela alta dos alimentos e das commodities, além da queda do dólar — não é a saída para melhorar as coisas.


O momento histórico do Brasil é muito rico e, por isso, propício para uma definição de rumo. Os passos que damos é que vão inventando o caminho, como no provérbio. Lógico que estamos diante de um cenário complexo. Mas, principalmente por isso, precisamos de mais ações políticas de massa. O país está completamente imerso nos fluxos internacionais de capitais especulativos e está deixando a política econômica ser determinada pelos "investidores". E isso leva o país a orientar as prioridades econômicas para o setor financeiro.


Raiz dos problemas


O país precisa de uma mudança contínua na política macroeconômica. É preciso taxar efetivamente a remessa de lucros e controlar a movimentação do capital especulativo. A liberdade total do dinheiro que entra e sai do país para se banquetear nas altas taxas de juros estipuladas pelo BC favorece somente os grandes especuladores nacionais — e, principalmente, internacionais. Há quase que um consenso de que o Brasil não pode mais dar-se ao luxo de continuar passivo diante da crise mundial, que tende a tragar para o centro do furacão as economias com pés de barro.


A hora de o Brasil enfrentar a raiz de seus problemas é agora. É um passo que, se não for dado já, mais tarde o preço a pagar será muito mais alto. Todos os sinais apontam para a exaustão do país diante de uma economia asfixiada por um prolongado e autoritário controle monetário, que continua gerando vulnerabilidade externa e mazelas sociais.


Tarefa monumental
É preciso olhar números, debater e discutir soluções. O Brasil tem, aproximadamente, 54 milhões de pobres, ou 34% dos habitantes do país. Isso corresponde a uma Itália. Desses 54 milhões, cerca de 30 milhões vivem abaixo da linha de indigência. Isso corresponde a uma Venezuela. Os 10% mais ricos da população ficam com quase metade de tudo o que é produzido no país. A metade mais pobre ganha menos do que o 1% mais rico. Virar esse jogo é uma tarefa monumental, que pode até ser dolorosa, é verdade. É, sem dúvida, uma engenharia de grande envergadura, que exige flexibilidade para fazer os objetivos encadear sempre na perspectiva da solução preconizada pelos trabalhadores, acompanhando a vida e suas nuances.


Para tanto, todos os nossos esforços devem estar a serviço da superação completa do neoliberalismo, que fez os ricos ficarem mais ricos, os pobres mais pobres, e os miseráveis excluídos até da discussão sobre a exclusão social.


Batista Lemos é Secretário adjunto de relações internacionais da Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB)
www.ctb.org.br
Assista o vídeo contra a alta de juros realizado pelas Centrais Sindicais no dia da última alta decretada pelo BC no endereço abaixo:

sábado, 26 de julho de 2008

Presidiários solidários a homem que roubou queijo


www.vermelho.org.br

25 DE JULHO DE 2008 - 12h19

O desempregado Wandevergue Rosas Paiva, um pernambucano de 41 anos, foi preso na quinta-feira (17) no Recife, por furtar duas latas de queijo de um supermercado. Foi libertado na noite da última quarta-feira (23) e foi dormir na casa onde vive com a companheira Andrea e os sete filhos, no bairro de Casa Amarela, na zona norte do Recife.

"É uma emoção muito grande estar ao lado dos meus filhos. Eu não esperava nem tão cedo", disse, emocionado. "Todo mundo me ajudou. Eu queria que todos vocês do Cotel (Centro de Triagem dos detentos de Recife) voltassem para suas casas", acrescentou.

O flanelinha disse ter ficado preso em uma cela com dez homens, que, conhecendo o caso, ofereceram para ele cama e roupas. A família também foi surpreendida nesses seis dias por inúmeras doações de alimentos, roupas, fraldas e eletrodomésticos, entre outros objetos.

Um dia antes de ser solto, Wandevergue sonhou com a liberdade. "Sonhei que uma águia branca me pegava e me deixava do outro lado do muro."

Disse que estava arrependido do que fez. Garantiu que, ao chegar em casa, iria pedir perdão aos filhos. O Jornal do Commercio, do Recife, entrevistou o desempregado, que ocupa seu tempo como flanelinha nas ruas da capital pernambucana.

Leia abaixo a entrevista, publicada na edição desta sexta-feira do Jornal do Commercio.

JC – O que passou pela sua cabeça antes de entrar naquele supermercado?

Wandevergue Paiva – Passou pela minha cabeça que minhas crianças estavam sempre com fome em casa. Eu estava agoniado, aperreado. Não podia chegar em casa com as mão vazias. Estava sem trabalho, sem nada. Precisava fazer alguma coisa.

JC – Mas você entrou no supermercado pensando em roubar?

Wandevergue – Não. Eu não tinha pensamento para fazer nada disso. Entrei para pedir alguma coisa. Pedi na frente do supermercado, mas ninguém me deu nada. Tinha bebido, aí decidi fazer isso. Errei. Sei que o que fiz estava errado, mas fiz no impulso.

JC – Você se arrepende do que fez?

Wandevergue – Me arrependo muito. Mas na hora a pessoa não pensa. Quem tem filho sente. Sei que errei, mas o erro da fome é maior. Sei que Jesus viu na hora que eu ia fazer aquilo. Mas era para comida.

JC – O que você ia fazer com os dois potes de queijo?

Wandevergue – Eu ia vender. Ia oferecer paras as pessoas. Não sabia nem o valor. Ia vender por qualquer preço. Queria qualquer coisa para comprar comida para os meus filhos.

JC – Muitas pessoas fizeram doações para você e sua família...

Wandevergue – Eu só tenho a agradecer a essas pessoas. Que Deus ilumine todas essas pessoas.

JC – Como foram esses dias dentro do presídio?

Wandevergue – O pessoal me tratou muito bem. Sabiam o que tinha acontecido comigo. Fiquei em uma cela com mais uns dez presos. Eles me deram colchão para eu dormir e até roupa. Agradeci muito a todos eles. Me ajudaram muito lá dentro.

JC – E agora que você está livre de novo, o que pretende fazer?

Wandevergue – Eu quero trabalhar. Preciso que alguém me dê uma força, me dê um emprego, uma carroça, qualquer coisa para eu negociar.

Da redação, com agências

quarta-feira, 23 de julho de 2008

90 anos da revolta de Córdoba e a nova hora americana



Dois mil e oito marca os 40 anos do Maio de 1968, mas não apenas. Celebramos também o aniversário de 90 anos da Revolta estudantil de Córdoba, episódio que alçou a Reforma Universitária à condição de uma das mais importantes bandeiras do movimento estudantil latino-americano.


O que foi a Rebelião de Córdoba


Naquele junho de 1918, a Europa saía da Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa dava seus primeiros passos que modificariam em profundidade o planeta. Desde o fim do século 19 e o princípio do Século 20 os estudantes já tinham peso como a parcela mais ativa da juventude quanto às questões políticas (1). No Uruguai, Chile e na Argentina, iniciavam-se as movimentações pela organização gremial e em Montevidéu já em 1908 reúne-se um “Primeiro Congresso de Estudantes Americanos. Na Argentina, a efervescência estudantil se dava em meio a um momento de renovação política com a ascensão ao governo nacional da União Cívica Radical, sob a presidência de Hipólito Yrigoyen (2). Naquela quadra é que se levantaram os estudantes da Universidade de Córdoba, província dominada pela

“ 'antiga classe letrada que junto ao clero instruído e com os funcionários públicos exercia o domínio espiritual na província'. Em um país cujas universidades eram os centros de discussão, crítica, elaboração e reprodução do discurso da modernidade, a Universidade de Córdoba, se exilava dos impulsos do mundo moderno. (...) fundada em 1613 pelos jesuítas, ademais de ostentar o prestígio de ser a primeira universidade estabelecida na Argentina, mantinha em sua estrutura de poder e na organização dos estudos e conteúdos os princípios de sua fundação, apesar de desde 1858 ter passado a depender administrativamente do governo nacional”. (3)

É contra esta tríplice aliança que se levantam os estudantes cordobeses. Seu Manifesto, belo e contundente ainda cala fundo e do qual reproduzimos alguns trechos:
“As universidades têm sido até aqui (...) o lugar aonde todas as formas de tiranizar e de insensibilizar acharam a cátedra que as ditasse (...) chegando a ser assim o fiel reflexo destas sociedades decadentes que se empenham em oferecer o triste espetáculo de uma imobilidade senil. Por isso a ciência frente a estas casas mudas e fechadas, passa silenciosa ou entra mutilada e grotesca para o serviço burocrático”.

“Nosso regime universitário - mesmo o más recente é anacrônico. Está fundado sobre uma espécie de direito divino; o direito divino do professorado universitário. Cria-se a si mesmo. Nele nasce e nele morre, mantendo um distanciamento olímpico”;

“A Federação Universitária de Córdoba se levanta para lutar contra esse regime (...). Reivindica um governo estritamente democrático e sustenta que na comunidade universitária, a soberania, o direito de dar-se governo próprio radica principalmente nos estudantes. O conceito de autoridade que corresponde e acompanha um diretor ou um professor em um lar de estudantes universitários não pode apoiar-se na força de disciplinas estranhas à substância mesma dos estudos. A autoridade, em um lar de estudantes, não se exercita mandando, mas sugerindo e amando: ensinando”.

“Se não existe uma vinculação espiritual entre o que ensina e o que aprende, todo ensino é hostil e por conseguinte infecundo. Toda a educação é uma longa obra de amor aos que aprendem. Fundar a garantia de uma paz fecunda no artigo combinatório de um regulamento ou de um estatuto é, em todo caso, amparar um regime de quartel, mas não um trabalho de ciência”.

“Nos acusam agora de insurretos em nome de uma ordem que não discutimos, mas que nada tem conosco. Se é assim, se em nome da ordem querem continuar nos enganando e embrutecendo, proclamamos bem alto o direito da insurreição”.

“A juventude (...) não se equivoca nunca na eleição de seus próprios mestres. Ante os jovens não se faz mérito adulando ou comprando. É preciso deixar que eles mesmos elejam seus professores e diretores, seguros de que o acerto vai coroar suas determinações. Doravante, só poderão ser professores na república universitária os verdadeiros construtores de almas, os criadores de verdade, de beleza e de bem”.

“Na Universidade Nacional de Córdoba e nesta cidade não foram presenciadas desordens; se contemplou e se contempla o nascimento de uma verdadeira revolução que há de agrupar bem rápido sob sua bandeira a todos os homens livres do continente”.

“A juventude universitária de Córdoba afirma que jamais fez questão de nomes nem de empregos. Se levantou contra um regime administrativo, contra um método docente, contra um conceito de autoridade. As funções públicas se exercitavam em benefício de determinadas camarilhas”.

“A juventude já não pede. Exige que se reconheça o direito de exteriorizar esse pensamento próprio nos corpos universitários por meio de seus representantes”.

O Manifesto e a Rebelião dos Estudantes levaram à ocupação da Universidade e ao convite à população para assistir as aulas. A Revolta impulsionou a estruturação da Federação Universitária dos Estudantes que realizou seu primeiro congresso aquela cidade no mesmo ano. A intervenção do governo nacional respaldou as reivindicações estudantis e levou a uma Reforma Universitária que rompeu em grande medida a dominação clerical e o alijamento dos estudantes das questões acadêmicas. Estes êxitos motivam até hoje a luta pela Reforma Universitária na América Latina.


Razões da longevidade do espírito de Córdoba


A longevidade impressionante desta rebelião deve-se à afirmação política da juventude estudantil e à defesa do seu direito a participar das decisões nas universidades, na definição da educação que recebemos e ao questionamento de seu conteúdo, exigindo sua vinculação com as aspirações mais amplas de nosso povo,exigindo que a universidade seja parte das mudanças mais profundas necessárias em nossos países. Como Hugo Cancino esclarece:

“Definitivamente, o projeto desta nova geração, foi, em termos gramscianos, a criação a partir da Universidade reformada de um tipo de intelectual moderno que substituísse os sacerdotes e aos intelectuais tradicionais articulados com a oligarquia. Estes novos intelectuais deveriam criar a nova hegemonia espiritual, cultural e ética que permitisse às camadas médias e subalternas realizar a modernização das sociedades da América Latina”. (4)

Como disseram, “as batidas do coração nos advertem: estamos pisando sobre uma revolução, estamos vivendo uma hora americana”. Cumpre inquirir-nos se neste alba do século 21 se o espectro de Córdoba não deve novamente percorrer as salas de aula da América Latina na execução plena desta titânica tarefa histórica, antevista pelos heróicos estudantes de Córdoba, mas inconclusa ainda.

Uma nova hora americana


Nosso destino comum latino-americano impõe-nos tirar as devidas lições, do nosso passado, imprescindíveis ao escrever a inédita história que se descortina graças a nossas ações e lutas. Revisitar as memoráveis páginas da Revolta dos estudantes da Universidade Córdoba, inscreve-se entre as responsabilidades intelectuais de nossa geração, desafiada a intervir como nunca nas mudanças porque passa a América Latina com o advento de novas forças sociais e políticas que ascendem aos governos centrais de Brasil, Argentina, Venezuela, Uruguai, Equador, Bolívia, Paraguai, Panamá e Nicarágua, que se somaram a Cuba Socialista.


Conhecer o ideário e as repercussões deste evento transcendente surgido no país vizinho é afirmar uma contribuição original, latino americana, à concepção da universidade, plenamente vigente e necessária. Afinal, as mudanças políticas que vivemos na América Latina acenam para novas conquistas . É possível implementar mudanças de profundidade no ensino superior em nossos países, e a reforma universitária reafirma-se como bandeira de dimensão continental, vinculada à busca de projetos nacionais de desenvolvimento próprios, baseados em nossa própria história e sociedades. A integração latino-americana é o que pode dar a cada projeto nacional a sua viabilidade geopolítica e econômica, e são imensas as possibilidades de que a unidade dos estudantes num contexto favorável impulsione à construção de uma universidade mais popular e democrática, com medidas que já ocorrem no Brasil e na Venezuela, por exemplo, mas que exigem uma sistematização e um sentido unitário, como o do Manifesto de 1918.


A integração educacional dá passos largos com a construção de instituições latino-americanas, como a Universidade Pan Amazônica e a Unila (Universidade Latino Americana), que se somam à Escola Latino Americana de Medicina, em Cuba. O intercâmbio estudantil ganha um novo sentido e imensas possibilidades. A luta por Reformas estruturantes é fundamental, e entre elas e entre elas a Reforma Universitária. E a História do movimento estudantil latino-americano é clara. Aqueles que na Venezuela se opõem às universidades experimentais em defesa dos privilégios de uma universidade elitista, e os que no Brasil não percebem a importância de medidas como o Prouni, o Reuni, as cotas e a reserva de vagas, situam-se ao lado dos conservadores de todos os tempos, por medo de construir uma ampla unidade em defesa do co-governo, da ampliação do financiamento e da popularização das universidades. Mas a mudança já está em curso.

Há um espectro que ronda a América Latina, o espectro da Revolta Estudantil de Córdoba, o espectro da luta pela Reforma Universitária, que influenciou todas as gerações nos últimos 90 anos, especialmente a visão dos revolucionários sobre o que deve ser a universidade, como Che, ícone de 1968, a dizer-nos, como só ele sabia, de tão bonito e verdadeiro:

“que tenho a dizer à Universidade como artigo primeiro, como função essencial de sua vida nesta Cuba nova? Tenho a dizer-lhe que se pinte de negro, que se pinte de mulato, não só entre los alunos, mas também entre os professores; que se pinte de operário e de camponês, que se pinte de povo, porque a Universidade não é patrimônio de ninguém e pertence ao povo (...) e o povo, que tem triunfado, está até malcriado no triunfo, pois conhece sua força e sabe se perfilar, está hoje às portas da Universidade, e a Universidade deve ser flexível, pintar-se de negro, de mulato, de operário, e camponês, ou ficar sem portas, e o povo as romperá e pintará a Universidade com as cores que desejar” (5).

Leia também:

O co-governo na educação: elemento central para uma educação de qualidade


Notas:

1 - No Brasil, os versos abolicionistas de Castro Alves, estudante da Faculdade de de Direito Recife, a ousadia de Euclides da Cunha, estudante da Escola Militar do Rio de Janeiro que atira aos pés do Ministro da Guerra do Império seu sabre de estudante em protesto contra o Império são expressões da importância do protagonismo da juventude estudantil já em fins do século 19.

2 - CANCINO, Hugo. El movimiento de reforma universitaria en Córdoba, Argentina, 1918. Para una relectura de su discurso ideológico.
Disponível aqui

“Nuevos grupos sociales, las capas medias y sectores populares irrumpían en el escenario social poniendo en tela de juicio el viejo sistemas de alianzas y exigiendo la participación en el Estado y en el sistema político. Ello exigía naturalmente una reforma del sistema político, que hiciera posible la participación electoral de los sectores marginados. La Unión Civica Radical canalizó los movimientos de protesta anti olígarquíca de los nuevos grupos sociales, proyectándose como el partido de la reforma política y de la modernización”.

3 – Ibidem.

4 - CANCINO, Hugo. Ibidem.

5 - GUEVARA, Che. Discurso al recibir el doctorado honoris causa de la Universidad Central de las Villas(28 de diciembre de 1959). Disponível aqui

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Sobre a liberdade da propaganda e quando dois israelenses valem mais que duzentos libaneses.

Causa-me não raro imensa repulsa assistir o noticiário. É algo meio masoquista, mas importante porque é preciso entender como pensa esta facção poderosíssima, as grandes empresas de comunicação, em aliança com os principais fiadores do neoliberalismo no Brasil, rentistas, oligarquias, terratenentes, a direita brasileira.

E não posso esconder que sempre quis num artigo dar um retorno a tanto lixo que tenho de assistir. Acho que é muito importante que não deixemos impune tanta mentira a nos bombardear, praticamente sem opções, ante grandes e poderosas empresas especializadas em mentir. Por isto este artigo.

E mentira é também a ênfase em determinados temas e as auto-notícias, a glorificação da mídia por si mesma, um descaro em que se têm especializado, a cínica propaganda de si mesmos, mais falsa que uma moeda de três reais. Exemplo foi no dia 15 de julho, no JN, a privilegiada notícia de um tal congresso brasileiro de publicidade com declarações importantíssimas de ilustres desconhecidos. Curioso ninguém saber quem são os caras quando já estamos no terceiro dia de cobertura do tal congresso de publicidade no Jornal Nacional. Repito, publicidade.

E não sabemos quem são os caras porque o tal convescote reuniu quem sempre se esconde atrás da imagem, sem desvelar o véu de seu surgimento na cena política brasileira. Por que estes grandes veículos de imprensa têm tais posições políticas, e não outras? Por que de seus serviços ao Regime Militar, à defesa dos interesses dos EUA e a difusão de sua cultura? Por que serviram ao desmonte da Nação durante os tristes anos FHC, quando tivemos os destinos de nossa economia submetidos ao regime de cassino dos rentistas? Uma dica para entender o tema é assistir Muito Além do Cidadão Kane.1

O documentário é importante por ser o primeiro a desentranhar a nossa mídia a negar-lhe a imparcialidade que se atribui, a levá-los em conta como atores políticos com interesses muito questionáveis. O congresso em questão deve ser visto sob a mesma lupa, que permite identificar seus interesses quando saem à ribalta para defender posições tão fortes, falando de "ameaças" à liberdade de imprensa, e argumentando candidamente que:

"É a publicidade que viabiliza do ponto de vista financeiro a liberdade de imprensa e a difusão de cultura e entretenimento para toda a população".

"É a publicidade que torna possível a existência de milhares de jornais, revistas, emissoras de rádio e TV, assim como de outras expressões da mídia"2.

Ou seja, a publicidade que sustenta a grande imprensa! Agora sim tá entendido o sentido da liberdade...E tudo isto às oito e meia da noite... Pelo menos a gente não se confunde, e entende de cara que, mesmo no jornal, não se trata de jornalismo, são apenas "business".


Quando o mercado não vale mais que a vida e a verdade.

Faço um paralelo com a revolta dos comerciantes com a dita “lei seca”, que se baseia sobretudo no direito coletivo à vida, proibindo o álcool ao volante. Vemos alguns donos de bares que acham mais importante as suas vendas. A defesa disto não é ilegítima quando sabemos quem são e o porque de suas posições e o sentido que dão ao termo liberdade. Eles vivem disto. Não é diferente o tal Congresso de Publicidade. E sinceramente não me comove o fato de o Faustão ter ido lá, ou qualquer outro do "elenco", ou da folha de pagamento, nem um pouquinho.


Afinal o que interessa é o que eles defendem. E a vantagem é a comunicação fácil de que não haja nenhuma regulação a estas pessoas jurídicas e ao seu poder. Os donatários defendem naturalmente as novas sesmarias e seu caráter sagrado, e neste intento é que dizem que a publicidade não deve ter nenhuma limitação, mesmo que minta, mesmo que estimule um consumismo insano, mesmo que sujeite as mulheres a uma coisificação enojante e sedutora, mesmo que estimulando a dependência química, mesmo se utilizando de psicologia, mesmo que para crianças. E eles são tão legais que expressam uma indignação comovente ao defender que este seu poder não pode ser questionado pela cidadania nem com as melhores "intenções".


Este fenômeno é contemporâneo de outro, que mais os desespera. Ocorre que estes setores foram derrotados, e não apenas uma ou duas vezes. Eles têm uma agenda para o país. E uma péssima agenda, derrotada como a ALCA, o Alckmin, e desculpem o trocadilho, mas é compreensível que defendam não haver limites para a publicidade do álcool. Fundamentalmente, eles estão defendendo o deles. E o povo entende mais claramente que não partilha dos mesmos interesses da grande mídia. Os "formadores de opinião" babam impotentes diante da indiferença popular quanto a alguns temas que lhes são caros. Quanto a outros, o bombardeio massivo não permite dúvida, infelizmente.


Quando dois soldados israelenses valem mais que duzentos libaneses e sete brasileiros.

Na mesma edição do JN, uma matéria inteiramente pró-israelense ataca o Hizbollah, sem jamais reconhecer que este logrou importante vitória quanto ao seu reconhecimento como ator político destacado na região. Afinal, o Hizbollah é um movimento político muito forte que têm o apoio de grande parte da população libanesa, e não apenas, mas de todos os árabes. E não é à toa, pois o que não pode ser noticiado é que Israel não pôde vencer o Líbano graças à resistência de sua juventude, que organizou-se e derrotou militarmente por duas vezes o Exército de Israel, fato inédito e incontestável prova de organização e força. No episódio mais recente da invasão do Líbano por Israel, justificado pela captura de dois soldados israelenses, morreram centenas de libaneses.

Tive a oportunidade de visitar os subúrbios de Beirute e o Sul do Líbano, em uma visita de solidariedade da Federação Mundial das Juventudes Democráticas em 2007. Vi edifícios inteiros afundados até dois ou três subsolos, vi sacadas de apartamentos varadas de balas, e as imagens dos cadáveres das crianças que escandalizaram o mundo, assim como os jovens da União da Juventude Democrática Libanesa, assassinados, como os sete brasileiros vitimados pelos ataques. O destaque dado pelo JN ao tema tem lado, por isto omite todas estas barbaridades, solidários com Israel e seus soldados. Ocorre que o exército de Israel, um exército regular e o mais poderoso da região, matou crianças, atacou a população civil, inclusive brasileiros que estavam neste país irmão. Por que isto passa desapercebido na notícia?

Outro detalhe que não saiu na cobertura é que graças à Síria inúmeras vidas foram salvas em meio a este momento de grande dificuldade, inclusive brasileiros, porque foi neste país acolhedor que os libaneses e os brasileiros em fuga encontraram guarida ante a sanha assassina de Israel, que recebe a maior ajuda militar dos EUA, que detém ogivas nucleares clandestinas e mantém milhares de pessoas presas, seqüestradas, especialmente palestinos. Quando Bachar el Assad, presidente da Síria, na recente cúpula mediterrânea não cumprimenta Olmert, não cumprimenta quem deu as ordens desta chacina contra o Líbano, não confraterniza com o representante de um país que ocupa parte do Golã Sírio, onde jamais houve presença judaica. E é na Síria de Saladino que vivem mais de um milhão de iraquianos e milhares de palestinos expulsos de seus lares pela violência patrocinada pelos EUA e Israel.


Então, é surpreendente observar a vitória política do Hizbollah, que é um partido legal no Líbano, com ampla representação parlamentar, que já teve ministros e um dos três postos mais importantes do país. Tendo defendido o Líbano da agressão israelense, expulsando-os por duas vezes, agora realiza a troca de mortos de guerra, entre os quais os dois soldados israelenses, foco do jornal em questão. Sua história foi contada em detalhes, com requinte, um drama humano a que não podemos ficar indiferentes. Mas não menos indiferentes ficaríamos se nos fosse dada a oportunidade de ouvir mais sobre um "detalhe" da notícia, o de que foram devolvidos duzentos corpos de libaneses mortos por Israel. E é enojante perceber que estes duzentos libaneses – não sabemos se homens, mulheres ou crianças – são para o Jornal Nacional menos dignos de nota que os dois soldados israelenses, assim como os sete brasileiros mortos por Israel neste mesmo conflito, que não mereceram jamais a indignação global3.


E quando se trata de temas tão graves, como ficamos, diante de toda a liberdade desta meia dúzia de ricaços, como fica o nosso direito à verdade, à informação, ao outro lado da história? Não podemos permitir que nos confundam, pois o fundamentalismo da liberdade de empresa, que é a ditadura do mercado, é hoje o principal obstáculo à liberdade de imprensa.



NOTAS:

1 Assista no YouTube no endereço: http://www.youtube.com/watch?v=JA9bPyd1RKQ . Diga-se de passagem que a interdição deste documentário foi promovida judicialmente pelos tais paladino das "liberdades".

2 Para ver a matéria em questão: http://jornalnacional.globo.com/Telejornais/JN/0,,MUL649145-10406,00-PUBLICITARIOS+QUEREM+LIBERDADE+DE+EXPRESSAO.html

3 Para ver a matéria em questão: http://jornalnacional.globo.com/Telejornais/JN/0,,MUL649153-10406,00-ISRAEL+E+HEZBOLLAH+TROCAM+CORPOS+DE+PRISIONEIROS.html

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Legalizada, CTB fez o que parecia impossível, diz Medeiros


8 DE JULHO DE 2008 - 21h45

Ao discursar no coquetel de inauguração da sede da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), realizado na noite de segunda-feira (7) em São Paulo, o secretário nacional de Relações do Trabalho do Ministério do Trabalho, Luiz Antônio de Medeiros, sugeriu que a legalização da CTB deve ser festejada como um grande feito. “Vocês fizeram o que parecia impossível. Em apenas seis meses organizaram uma central”, destacou o secretário.

Também presente ao ato, o presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), Ricardo Patah, ressaltou a importância da unidade das centrais na luta em defesa da classe trabalhadora. “Estamos irmanados pela mudança, unificando as centrais na ação em favor do povo brasileiro”, disse.

O vice-presidente da Força Sindical, Heleno José Bezerra, também fez um discurso com o mesmo sentido, exaltando o “trabalho conjunto pela unidade. Nossa unidade é o que tem de mais importante e está incomodando muita gente, pois fortalece nossas bandeiras e confere maiores possibilidades de êxito a nossas lutas”.

Outro que ressaltou a relevância da unidade foi o presidente nacional do PCdoB, Renato Rabelo. “Sem unidade o movimento sindical é débil. Defendemos um programa comum para atuação unificada das centrais e já vemos que a unidade é possível e vem sendo alcançada na luta pela redução da jornada sem redução de salários e pela ratificação das convenções 158 e 151 da OIT”, destacou.

Conjuntura favorável

O deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP), candidato a vice-prefeito da capital paulista na chapa liderada por Marta Suplicy (PT), transmitiu o “abraço enviado pela nossa futura prefeita, que não pode comparecer” e ressaltou que a “inauguração da sede da CTB é uma demonstração da vitalidade da democracia e do movimento sindical brasileiro”.

“O momento político, marcado pelo governo de um líder sindicalista, é favorável às lutas e às demandas dos trabalhadores e trabalhadoras, apesar das adversidades. Louvo o esforço de construir a CTB com amplitude e unidade. Desunidos, os trabalhadores só jogam contra o próprio patrimônio. Unidade não é fácil, pois exige sacrifício e desprendimento em favor de objetivos maiores, mas é possível”, complementou o parlamentar.

O vice-presidente da UGT, Antonio Carlos dos Reis (Salin) e a dirigente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Flávia Calé, também saudaram a inauguração da sede da CTB e destacaram a necessidade de unificar os movimentos sociais na luta por mudanças.

Unidade é a chave

O presidente da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), Wagner Gomes, destacou nesta terça-feira (8), durante reunião da direção nacional da central, que a unidade das centrais sindicais é “uma questão chave para o sucesso das lutas da classe trabalhadora”.

O sindicalista apontou cinco bandeiras prioritárias da classe trabalhadora na atual conjuntura que demandam uma ação unificada do sindicalismo nacional. São elas: a redução da jornada de trabalho sem redução de salários; o fim do fator previdenciário; a Convenção 158 da OIT (que coíbe demissão sem justa causa); reforma agrária e fortalecimento da agricultura familiar; Convenção 151 da OIT (que garante o direito de negociação e organização para os servidores públicos) da OIT.

Fragilidade

Wagner salientou que, embora vivendo uma conjuntura mais favorável neste segundo governo Lula, o movimento sindical brasileiro ainda padece muitas debilidades e tem revelado dificuldades para mobilizar as bases. Isto reforça a necessidade de unificar forças nas ações concretas em defesa dos interesses dos trabalhadores e trabalhadoras.

“Nenhuma central sozinha tem força suficiente para conduzir com êxito as lutas em torno das nossas bandeiras prioritárias. A experiência mostra que quando prevalece o espírito unitário as coisas mudam de figura'', afirma.

As marchas em Brasília pela valorização do salário mínimo e a campanha unificada pela redução da jornada de trabalho são exemplos bem recentes da verdade contida no ditado popular de que a união faz a força. A unidade é o caminho para superar as fragilidades e enfrentar com mais energia os desafios do momento, segundo o presidente da CTB.

Neste sentido é indispensável fortalecer o fórum das centrais e abrir caminho para a realização de uma nova Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat), com a participação de milhares de líderes e militantes dos sindicatos, para definir um programa comum de ação e uma coordenação geral das lutas.

Protesto

Além da discussão em torno da organização e estruturação da CTB, a diretoria plena também aprovou um documento da central com orientações para as eleições de 2008. O documento foi distribuído à todos os membros presentes à reunião.

Na tarde desta terça-feira, eles ainda definiram realizar protestos no dia 22 de julho, em conjunto com a Coordenação dos Movimentos Socias (CMS) onde for possível, em frente à todos as sedes do Banco Central do país. O objetivo é garantir que na próxima reunião do Copon (Conselho Político Monetário) os juros não continuem subindo.

Foi aprovada ainda uma nota de apoio à greve dos Correios e outra sobre a derrota da Convenção 158 da OIT na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados. ''A Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) manifesta sua indignação com este resultado, que representa uma vitória do lobby patronal e uma lamentável derrota da classe trabalhadora, do sindicalismo e da sociedade brasileira'', diz o texto.

Leia também sobre a reunião da direção plena da CTB:

- Em nota, CTB dá apoio total à greve geral no Peru

- Milhares de sindicatos não estão filiados às centrais

- Joílson Cardoso: patrões decretaram guerra à Convenção 158

Fonte: Da redação, com informações do Portal da CTB


Portal da CTB

Altamiro Borges: Daniel Dantas, o símbolo da privataria

8 DE JULHO DE 2008 - 22h22

Num ato inimaginável no passado, a Polícia Federal deteve nesta terça-feira o megaespeculador Daniel Dantas, dono do banco OPP (ex-Opportunity) e uma das figuras mais sinistras da onda de privatizações que varreu o país a partir dos anos 1990.

Por Altamiro Borges*

Na mesma operação, batizada de Satiagraha, a PF ainda prendeu o ex-prefeito da capital paulista Celso Pitta, o banqueiro Naji Nahas e outros envolvidos “num universo dantesco pela prática dos seguintes crimes: formação de quadrilha, gestão fraudulenta, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal”, segundo relato do jornalista Bob Fernandes. Dantas também foi acusado de tentar subornar um delegado da PF.

A prisão ocorre apenas três meses após o mafioso fechar um dos maiores negócios do mercado de telecomunicações do mundo: a venda de suas ações na Brasil Telecom e na Telemar (OI) por quase 1 bilhão de dólares. Além disso, ele obteve estranho acordo com os fundos de pensão pelo qual se livrou de todas as suas demandas judiciais.

Durante dois anos, o megaespeculador sofreu investigação da PF, numa ação conjunta com técnicos do Banco Central e da Receita Federal. A conclusão final é de que ele e Naji Nahas, rotulados pelo relatório de capos, são chefes de uma poderosa organização criminosa no Brasil, com ramificações em vários paraísos fiscais.

ACM, FHC e a meteórica ascensão

A Operação Satiagraha, nome que relembra o método da não-violência idealizado por Mahatma Gandhi na resistência indiana ao domínio britânico, consegue finalmente levar à prisão o chefão das privatizações.

Antes dela, a Operação Chacal já havia indiciado o banqueiro pela contratação da multinacional de espionagem Kroll, que bisbilhotou ilegalmente integrantes do governo Lula. Já na apuração das denúncias do chamado “mensalão”, envolvendo ministros e dirigentes do PT, o nome de Daniel Dantas ressurgiu com desenvoltura em negociatas ilícitas, o que evidenciou a contínua e impressionante influência deste megaespeculador, que ultrapassa distintos governos.

O engenheiro e economista Daniel Dantas iniciou sua meteórica trajetória capitalista na Bahia, ligado ao grupo do ex-senador ACM. Ele foi conselheiro do PFL e chegou a ser cogitado para o Ministério da Fazenda por Collor de Mello. Também foi sócio de Nizan Guanaes na agência de publicidade preferida dos tucanos.

Após fazer doutorado nos EUA, trabalhou no Bradesco. Seu banco, Opportunity, começou a operar em 1996, exatamente quando ganhou impulso a onda de privatizações desencadeada por FHC. Sua fortuna desabrocha com a criminosa privataria e com suas obscuras ligações com o poder. Pérsio Arida, ex-presidente do Banco Central, foi seu sócio.

Influente nos corredores de Brasília

Em 1988, Daniel Dantas foi acusado por favorecimento na privatização das empresas do Sistema Telebrás. As denúncias surgiram devido aos conflitos entre os fundos públicos de pensão e várias corporações estrangeiras, como a italiana Telecom e a canadense TIM, com quem o especulador mantinha íntimas relações.

Em 2000, os fundos de pensão acionaram a Justiça contra o Opportunity por manobras societárias. Ele também foi acusado por um ex-sócio, Luis Demarco, por desvio de dinheiro do fundo que geria no Caribe com capital do Citibank destinado à privatização. Através deste fundo, Dantas arrematou o controle da Tele Centro Sul, da Telemig e da Amazônia Celular.

Apesar de toda sujeira na construção do seu império, Dantas continuou influente nos corredores de Brasília. Além do setor de telecomunicações, tem investimento em mineração e agropecuária. Ele é sócio da GME4, empresa especializada em pesquisar reservas minerais. Em sete meses de operação, ele adquiriu alvarás de pesquisa em 4 milhões de hectares de terra.

Na agropecuária, participa através da poderosa empresa Santa Bárbara. Como afirma uma reportagem bajuladora da revista IstoÉ Dinheiro – Dantas tem ações na Editora 3 que administra o semanário –, “poucos empresários brasileiros conseguiram amealhar tanto dinheiro em tão pouco tempo. Seu banco de investimentos, criado há cerca de 20 anos, administra ativos de US$ 8 bilhões”.

Durante a CPI do Mensalão, a senadora petista Ideli Salvatti foi taxativa. “O senhor é diabólico. Se 10% do que dizem a seu respeito for verdade, o senhor já deveria estar preso”. Agora, ele está na cadeia. Mas até quando? O protagonista da privataria das telecomunicações é um homem com fortes vínculos nos bastidores do poder.

Foi amigo de Luis Carlos Mendonça de Barros, ministro das Comunicações de FHC que acionou os fundos de pensão na venda da estatal do setor. Levou para o seu banco Pérsio Arida, Elena Landau, ex-diretora do BNDES responsável pela área de privatizações, Luis Octavio Motta Veiga, que presidiu a Petrobras no governo Collor de Mello, entre outros nomes já conhecidos. Quem mais fará parte deste conluio patrimonialista?

*Altamiro Borges é jornalista e membro do conselho editoria da revista Debate Sindical.


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