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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Haroldo Lima: Alípio de Freitas se foi - Portal Vermelho

Haroldo Lima: Alípio de Freitas se foi - Portal Vermelho:



 Alípio de Freitas Alípio de Freitas
Ordenado padre em Portugal, por lá mesmo teve suas primeiras experiências de vida no meio dos estratos sociais mais pobres e com a gente mais simples. De Portugal, veio para o Brasil, para o Maranhão, onde organizou trabalhadores rurais na luta contra o latifúndio. Sua atividade política, antes de 1964, se espalhou, tornou-se líder de Ligas Camponesas pelo Nordeste, o que lhe valeu dois processos políticos antes do golpe.

A ditadura, logo após instalada, procurou o Alípio como a poucos, mas não o encontrou, pois que ele logo se escondera, não esperou o golpe. Entrou então em Ação Popular, jovem organização revolucionária.

Esteve em Cuba, estudando táticas de guerrilha. Voltou ao Brasil, na mais completa clandestinidade. Na época, AP já tinha deliberado oferecer resistência armada ao regime militar, mas não tinha ainda se decidido por que tipo de luta armada iria optar. Discutia-se a teoria do “foco guerrilheiro”, de suposta inspiração cubana, e a teoria da “guerra popular”, vitoriosa na China e no Vietnam. Estudávamos arte militar, ardis de guerrilha, pesquisávamos o Brasil, viajávamos muito, procurávamos áreas para guerrilha.

Na direção de AP, aí pelos meados de 1968, eu estava me preparando para entrar na clandestinidade, mas ainda morava em apartamento no bairro de Brotas em Salvador, com minha companheira Solange, quando recebemos a notícia de que chegaria na Bahia, para ministrar aulas, simplesmente Alípio de Freitas. Onde escondê-lo, ele, que era, provavelmente, dos políticos mais procurados pela repressão na época. Ainda não estávamos calejados na rigidez da segurança clandestina. Também não tínhamos muitas alternativas. Resolvi “esconder” o Alípio de Freitas em meu próprio apartamento. E lá ele passava os dias estudando, de onde saia, escondido, para dar suas aulas, também no apartamento de Péricles de Sousa, esvaziado para esse fim.

Certo dia o ex-padre disse-me estar desejoso de conhecer D. Timóteo Amoroso Anastácio, o Arquiabade do Mosteiro de S. Bento, em Salvador, figura de grande tirocínio, coragem, humildade e muito amigo meu. Foi montada uma operação absolutamente sigilosa para levar D. Abade até minha casa e lá encontrar o ex-padre, com quem o beneditino conversou bastante e a quem ministrou a comunhão. Tudo numa noite.

Preocupado com a segurança do Alípio, resolvemos transferi-lo para lugar “mais seguro”, o apartamento de Rubem e Anete Ivo, de AP, que ficava no andar de cima do meu, no mesmo prédio na D. João VI, em Brotas.

Fizemos uma viagem pelo interior, até a região de Palmas de Monte Alto, no vale do São Francisco, olhando lugares apropriados para a luta guerrilheira. Voltamos para Salvador e finalmente Alípio partiu para outra viagem com Ronald Freitas.

Por divergência políticas, Alípio deixa AP e funda, com alguns outros, o PRT, Partido Revolucionário do Trabalhador, de vida efêmera.

Preso, foi barbaramente torturado e ao sair da cadeia, 8/9 anos depois, voltou às terras de sua origem, Portugal.

Pelo final da década de 1990, eu já fora preso, já fora solto, Solange também. Estava deputado federal, quando fomos a Portugal, eu representando o PC do B em um congresso partidário. O Alípio soube, apareceu pelo congresso, nos abraçou comovido. Convidou-nos a um jantar, regado a vinho e a manifestações de amizade. Cada um expressou ter boas recordações dos demais.

O jantar foi regado também a reminiscências de um período áspero, de arbítrio e truculência no Brasil, em que, altivo, desafiando a tudo e a todos, desfilava a figura de um revolucionário, Alípio Cristiano de Freitas, procurado intensamente pela repressão, admirado profundamente pelos seus companheiros e pelo povo, que o conheciam como o padre Alípio.

Ficam aqui as homenagens a Alípio de Freitas, seguramente de todos os que o conheceram.





*Foi da Direção Nacional da Ação Popular quando Alípio de Freitas era da mesma entidade. Hoje é do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil.

PCdoB na TV aborda resistência contra retrocesso de Temer


O programa nacional do PCdoB foi exibido nesta terça-feira (24) em cadeia de rádio e televisão em todo o país. Ele retrata de forma lúdica a conjuntura de crise que o país atravessa e chama a atenção aos graves retrocessos nos direitos sociais promovidos pelo governo de Temer. Gravado em Olinda e no sertão pernambucano, o programa fala da resistência sertaneja por meio de cordel animado. Para o PCdoB, “se for necessário o povo, para fazer um país novo, ele não vai faltar”.


Assista a íntegra abaixo:

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O PCdoB, a Juventude e a Classe Trabalhadora – III - Paulo Vinícius Silva - Tribuna de Debates do 14º Congresso do PCdoB

“Tudo muda o tempo todo no mundo”
Lulu Santos – Zen Surfismo
O sindicalismo classista acumulou exponencial influência no decorrer da última década, após a criação da CTB. É esse patamar atual – exatamente – o que está em xeque, e por isso se exige que o sindicalismo classista atue ainda mais organizadamente junto à sua base, a fim de mobilizá-la em defesa dos seus direitos, de suas entidades e da sua representação no legislativo. Primeiro, porque é preciso tirar lições da experiência concreta que o povo faz sobre o erro de desconhecer a política, ignorância que lhe tem afetado de modo cada vez mais duro. Segundo, pois pode ser uma eleição em que ainda é possível às representações classistas se dirigirem de modo pleno e organizado para a ampla maioria de suas bases e para o povo. Quem melhor falará para as nossas bases, senão nós?!
Por Paulo Vinícius Santos da Silva*
Em terceiro lugar, porque devemos responder à questão de como as vias de acumulação de forças – luta de ideias, de massas e político-eleitoral – se entrelaçam com nosso crescimento orgânico e eleitoral. Por que decrescemos em influência eleitoral em grandes municípios? Como a crise de legitimidade e a derrota na esquerda nos afeta, e que laços devemos ter com o povo? Objetivamente há um natural desnível quando vemos as influências eleitorais possíveis a partir de espaços de governo/parlamento, luta social, intelectualidade/cultura. É preciso sabedoria e realismo para não embarcarmos num eleitoralismo marqueteiro de quinta, desconhecendo muitas vezes a nossa influência real e potencial, acabando nem lá, nem cá, deixando de falar para quem devemos e podemos. Será que não é possível uma via orgânica de crescimento eleitoral, inclusive dirigindo esforços de recrutamento de lideranças de esquerda?
Congresso eleito de 2014

Ou seja, é preciso destapar o bloqueio natural da “democracia burguesa” que impede a projeção político-eleitoral de lideranças populares, notadamente juvenis e de trabalhadores(as), no curso de uma eleição que amplia a necessidade de o Partido dirigir-se ao povo. Uma parte disso pode ser respondida no primeiro turno, com uma candidatura própria, persistindo o quadro mais amplo de fragmentação da esquerda. Uma candidatura nacional é possibilidade de o PCdoB falar direto ao povo. Mas é decisivo montar chapas que encarnem a dimensão do atual peso institucional conquistado, da força de nosso crescimento na classe trabalhadora e o nosso celeiro de quadros juvenis, e ampliar a cesta de votos do PCdoB na Câmara dos Deputados. Temos condições para afirmar esse lastro classista e nele expressar a sua diversidade, projetando lideranças mulheres, negras, LGBTT, do campo e da cidade, da cultura e da intelectualidade, expressas nas candidaturas, feitas de pessoas reais e diversas. Se não ousarmos, notadamente quanto às candidaturas de trabalhadores(as), poderemos perder um espaço importante e sob ameaça, em que progredimos, mas que precisa se reforçar quanto à sua capacidade de sair da luta corporativa e econômica, lançando-se à luta política e dirigindo-se a toda à sociedade.
Essa ousadia passa por enfrentar a necessidade da renovação geracional, da ampliação dos espaços sindicais às mulheres e da preocupação crescente com a nossa capacidade de representar a nossa base inclusive na composição geracional, de gênero e no entrelaçamento das lutas dos direitos humanos com a luta dos trabalhadores. Parte dessas orientações já foram aprovadas nos Encontros Sindicais Nacionais do PCdoB. Isso é um movimento necessário, que em nosso meio ocorre já atrasado, sob o ataque da direita. Não adianta escandalizar-se quando parte da juventude e dos trabalhadores(as) ouve a direita, precisamos é falar pra nossa base. Em vez da fragmentação devemos afirmar a síntese expressa na constituição da Classe, a união das pautas e o reconhecimento das lideranças que temos projetado.

Para enfrentar tais desafios, urge o fortalecimento das Secretarias Sindicais, de Juventude e de Organização, aprofundando a política de quadros voltada às lideranças intermediárias. Que o PCdoB se dirija ao povo brasileiro através de um veículo unificado e de massas periódico que torne mais nítidas suas posições. E para os(as) comunistas na luta dos trabalhadores, urge ousar libertar-se da pirâmide invertida, reconhecer que ela desabará. Ter a coragem de pô-la sobre sua verdadeira base, dirigir-se aos trabalhadores(as), à juventude, às mulheres, chamá-los a defender a democracia e posicionar-se no decisivo embate em que o povo possa outra vez decidir o destino do Brasil.
*Milita em Brasília. Sociólogo e Bancário, é egresso da UJS

O PCdoB, a Juventude e a Classe Trabalhadora – II - Paulo Vinícius Silva - Tribuna de Debates do 14º Congresso do PCdoB

O Socialismo como necessidade histórica e o papel da Classe Trabalhadora
“Tudo, tudo o que existia. Era ele quem o fazia. Ele, um humilde operário. Um operário que sabia. Exercer a profissão.”
Vinícius de Morais, O Operário em Construção

Amplia-se a centralidade da Classe Trabalhadora para a Humanidade, ela, classe que já é central para o Partido Comunista, por sua história e sentido. Mas também pelas mudanças tecnológicas que avançam para a precarização do trabalho e para uma escalada de substituição do trabalho vivo, no curso da 4ª Revolução Tecnológica. O sistema capitalista, no curso de sua crise, aprofunda a polarização social. Apenas 1% da humanidade possui mais riqueza que os 99% restantes, a maioria dos quais parte da Classe Trabalhadora, produtora da riqueza e da economia real. Nos dizeres de Engels, “a classe dos trabalhadores assalariados modernos, os quais, não tendo meios próprios de produção, estão reduzidos a vender a sua força de trabalho para poderem viver”.
Por Paulo Vinícius Santos da Silva*
Cumpriu-se – infelizmente – a previsão marxista da inevitável concentração de riqueza e polarização social sob o capitalismo. Mais do que nunca, o socialismo é necessidade histórica, de libertar a humanidade do jugo parasitário do capitalismo financeiro, jugo que ameaça a vida na Terra, e também o nosso Brasil. O socialismo pontua como sociedade organizada em favor das amplas maiorias, que busca elevar o desenvolvimento à condição de Ciência, utilizando-se do Estado e do Mercado, tendo em conta a complexidade da humanidade e o desafio de redefinir a relação da espécie humana com a natureza, a fim de assegurar a própria sobrevivência da espécie.

O retrocesso civilizacional e em curso no país é parte do esquema geral da subordinação de todos os interesses da humanidade à Ditadura do capital financeiro, com a exclusão de um potencial ator de primeira grandeza no mundo multipolar. O caráter subalterno, rentista e corrupto de nossa classe dominante ficou exposto no Golpe que depôs a Presidenta Dilma, antecipando a atual ofensiva de direita contra a CLT, a Constituição de 1988 e as políticas públicas de Lula e Dilma. Por que?
Ora, do Orçamento da União se reserva religiosamente (com FHC, Lula e Dilma) quase a metade para despesas de juros e amortização da dívida pública. Ora, agora, com o “teto de gastos”, a fatia que é uma banda poderá tranquilamente crescer (e viva à “responsabilidade fiscal”). Por isso que pagamos tamanhos juros em empréstimos pessoais, cartões, financiamentos e dívidas, por isso o empresário tanto paga e deve aos bancos. Cada família a receber a sinistra visita da fome, cada choro de pai e mãe demitido, a destruição dos serviços públicos, o abandono da velhice na Reforma da Previdência, a juventude sem trabalho e sem estudo, a morte na fila do médico, as mentiras do Partido da Imprensa Golpista, a escola sucateada, a professora mal paga, a mordaça e a lavagem cerebral da “teologia da prosperidade” e do ódio, tudo, tudo isso e o Golpe só existem para aprofundar a já vergonhosa supremacia da especulação financeira sobre a economia real, sobre quem trabalha e produz. É por isso que sobressaem como objetivos destacados unir a Classe Trabalhadora a uma ampla frente de classes e setores sociais para resgatar a Democracia violentada e isolar o rentismo parasitário que ameaça a Nação Brasileira.
Vivemos um cenário de destruição de direitos, precarização e terceirização, que se soma à desindustrialização, à queda dos investimentos, à reprimarização e aos intentos de desmonte do Banco Central, do BNDES, da Caixa Econômica Federal, do Banco do Brasil, do sistema ELETROBRÁS e das Universidade Públicas. Isso é feito a mando de fora, para destruir qualquer chance de Desenvolvimento, é uma expedição punitiva de uma ocupação estrangeira.
Pirâmide invertida, representatividade política e autonomia financeira

Essa situação de terra arrasada afeta o movimento sindical de múltiplas e decisivas formas. O ataque brutal promovido pela Deforma Trabalhista não está ainda mensurado, mas aponta para uma fragmentação das categorias pela terceirização ilimitada, o que nos obriga a aprofundar a consciência da unidade da classe trabalhadora por ramos, rompendo com o corporativismo. Precisamos romper com as barreiras que ainda separam trabalhadores(a) com as mesmas funções e locais de trabalho. A Deforma quer quebrar o papel dos sindicatos como representação unificada dos trabalhadores(as). Devemos ampliar e lutar incansavelmente pela unidade e a representação do conjunto dos trabalhadores(as).
Devemos ousar também nas respostas à crise do Financiamento Sindical. Para além de um criterioso estudo de racionalização econômica, precisamos refletir sobre alternativas organizativas que monetizem uma base que já possuímos, para responder ao problema financeiro pelo fortalecimento dos laços com nossa base. Dado o exponencial crescimento dos últimos 10 anos, o sindicalismo classista se depara com uma realidade nova em três aspectos: 1) uma base social maior, no campo e na cidade, cerca de 10% das entidades sindicais do país; 2) as mudanças tecnológicas que afetam em profundidade o mundo do trabalho; 3) o ataque sem precedentes contra a organização sindical. É preciso um estudo abrangente sobre a composição do proletariado brasileiro, as mudanças do seu perfil, sua subjetividade e a nossa maneira de nos relacionarmos com a nossa classe na nova realidade, que de acirramento a luta de classes e ofensiva da direita.
Diante de tais problemas, exige-se da vanguarda para a Classe uma praxis virtuosa. Segundo nosso 4º Encontro Sindical, isso passa por superar a pirâmide invertida:
A pirâmide invertida (muitos militantes na cúpula sindical e poucos na base) acaba sendo o caldo de cultura para o burocratismo sindical, para o espírito de rotina e o rebaixamento do trabalho sindical. Esse engessamento da vida partidária e sindical afunila os espaços para o surgimento de novas lideranças e estimula a prática da reeleição indefinida dos mesmos dirigentes. Em alguns casos, esse fenômeno gera fadiga de material, desgaste na base e mesmo derrotas eleitorais”.
A torre de marfim em que se rodiziam as principais funções – geralmente em mãos masculinas – nas direções sindicais, ironicamente também nos distancia de nossa base, é topo e fim de carreira, impede a existência de uma corrente de opinião nítida da Classe Trabalhadora, assim como uma base eleitoral que nos assegure a legalidade e maiores espaços à disputa da hegemonia. Por isso o projeto CTB é decisivo, um passo adiante na consciência da classe para si, um processo que carece da direção comunista consciente, de prioridade e investimento.
A busca da unidade das centrais sindicais evidenciou limites, divisões e problemas que terão novos contornos com a mudança geral promovida pelo ataque ao movimento sindical. Devemos nos preparar para as mudanças nas categorias e entidades, sem temor de avançar como força organizada. É essa perspectiva estratégica de reforço dos laços com a Classe que deve animar o movimento sindical classista para estreitar seus laços com o movimento juvenil e de mulheres numa ofensiva consciente para a ação na juventude trabalhadora, em especial em categorias-chave.
*Milita em Brasília. Sociólogo e Bancário, é egresso da UJS

Conferência do PCdoB-CE - Joan Edesson: Uma rosa para os que partiram - Portal Vermelho

Conferência do PCdoB-CE - Joan Edesson: Uma rosa para os que partiram - Portal Vermelho

21 de Outubro de 2017 - 17h34 

 

Conferência do PCdoB-CE - Joan Edesson: Uma rosa para os que partiram



“Nosso dever, nossa tarefa, é dar continuidade a essa luta. E lembrar com carinho desses homens e dessas mulheres. E lembrar deles com alegria, mesmo que a dor ainda seja tão grande, mesmo que o espinho ainda esteja cravado em nosso coração e que o nó ainda esteja preso em nossa garganta. Por eles, por elas, continuamos lutando”.

Por *Joan Edesson


A revolução se faz com homens e mulheres. Com homens e mulheres que amam, choram, riem, constroem laços de amizade, e que lutam incansavelmente para que, no mundo inteiro, outros homens e mulheres possam ter direito a um mundo novo, a uma sociedade nova.

Esses homens e mulheres lutam, na maioria das vezes, por pessoas que sequer conhecem. Não lutam por alguém especificamente, lutam pela humanidade em geral. O que os move é a confiança de que, coletivamente, braços dados, mãos entrelaçadas, os trabalhadores podem construir uma sociedade nova, um mundo novo; é a confiança de que os trabalhadores podem e irão construir o socialismo.

Ocorre que, humanos, esses homens e mulheres que têm defeitos e virtudes, são finitos. E por mais que doa naqueles que ficam um pouco mais, esses homens e mulheres partem um dia. Nós, que ainda permanecemos por mais tempo, sofremos com a partida desses homens e mulheres.

Sofremos porque fomos seus amigos, porque ombreamos com eles na luta pelo futuro, porque partilhamos com eles dos mesmos sonhos, porque dividimos com eles alegrias e tristezas, porque tantas vezes, junto com eles, sofremos também por outros que haviam partido. Nós sofremos de saudade, quando partem esses homens e mulheres que conviveram e lutaram conosco, lado a lado, e que brindaram à vida conosco tantas vezes.

Nos últimos dois anos nós tivemos algumas grandes perdas. Pessoas partiram do nosso convívio. Não os veremos mais, não os teremos mais ao nosso lado nas batalhas do dia a dia, no papo besta do bar, nas discussões e debates sérios sobre os nossos rumos. Não os veremos mais, partiram para não mais voltar.

Partiu Gilse, o “aço em flor”, a “moça de Minas”, a que não se dobrou e que, como grande que era, jamais perdeu a ternura. Partiu Edson Pereira, veterano combatente das causas populares, permanente abraço aberto para os amigos. Partiu Marcinha, com sua inabalável confiança de que o futuro será melhor para as mulheres. Partiu Expedito, o sonoro bom dia a nos receber e a nos envolver em amizade e camaradagem. Partiu Miguel, que cultivava a crença na luta e na folia, no socialismo e no carnaval. Partiram para não mais regressar. E nos deixaram com nossa dor imensurável, com nossa dor que não tem nome e nem tamanho.

Cada uma dessas partidas levou um tanto de nós, arrancou um pedacinho da nossa alma, tornou mais miúda e mais triste a nossa existência. Cada uma dessas partidas, num momento em que vivemos uma tão grande ameaça à paz, à democracia, aos direitos de homens e mulheres, cada uma dessas partidas tornou ainda mais dura a nossa luta, pois que as lacunas deixadas não se preenchem. Esses homens e mulheres que partiram eram únicos, insubstituíveis.

Por isso choramos tanto quando eles se foram. Por isso choramos até hoje, ao lembrar de cada um deles.

Mas não devemos. Não devemos porque aquilo que motivou cada um desses a viver, a luta que os movia, permanece. Os sonhos que eles sonharam são os mesmos que ainda sonhamos. Nós, que permanecemos mais um pouco antes de nos irmos também, temos o dever, a tarefa, de continuar a luta que esses homens e essas mulheres travaram conosco, ombro a ombro.

Nosso dever, nossa tarefa, é dar continuidade a essa luta. E lembrar com carinho desses homens e dessas mulheres. E lembrar deles com alegria, mesmo que a dor ainda seja tão grande, mesmo que o espinho ainda esteja cravado em nosso coração e que o nó ainda esteja preso em nossa garganta. Por eles, por elas, continuamos lutando.

Por eles, por elas, cultivamos a rosa rubra da revolução, a rosa vermelha do futuro. E diremos, como da nossa tradição, quando se pronunciarem os nomes de Gilse, Edson, Márcia, Expedito e Miguel, quando eles forem nomeados, nós diremos, ainda que embargada a voz, nós diremos: PRESENTE!




*Joan Edesson é educador, Mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará e colunista do Portal Vemelho.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Falarei na Semana Universitária da UnB, 24/10, das 14h-16h “100 Anos da Reforma Universitária de Córdoba”

Falarei na Semana Universitária da UnB, terça, 24/10, das 14h-16h “100 Anos da Reforma Universitária de Córdoba”

A Reforma de Córdoba foi a afirmação do governo democrático para a gestão nas universidades pelo co-governo, a partir de uma revolta estudantil em Córdoba, Argentina, que projeta o movimento estudantil latino-americano.

A mesa está muito boa!

Moderação- Murilo Camargo (UnB)
- Paulo Speller (OEI)
- Rony Corbo (Diretor de Ensino Superior do Ministério de
Educação e Cultura do Uruguai)
- Paulo Vinícius Silva(Sociólogo, Ex- RRII da UNE) - Executiva Nacional da CTB)
- Mateus Barroso - Coord Geral do DCE UnB
- Luiza Calvette - Cientista Política
Local: Anfiteatro 10 - Campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília (UnB)


sexta-feira, 20 de outubro de 2017

All things must pass - Paulo Vinícius Silva


Toda noite - tem auroras, 
Raios - toda escuridão, 
Moços, 
creiamos, não tarda 
A aurora da redenção.
 Castro Alves

Faz escuro mas eu canto,
porque a manhã vai chegar.
Vem ver comigo, companheiro,
a cor do mundo mudar.
Vale a pena não dormir para esperar
a cor do mundo mudar.
Já é madrugada,
vem o sol, quero alegria,
que é para esquecer o que eu sofria.
Quem sofre fica acordado
defendendo o coração.
Vamos juntos, multidão,
trabalhar pela alegria,
amanhã é um novo dia.
Thiago de Mello





Tudo há de passar, inclusive nós mesmos. Perpétua impermanência, movimento, e estamos nesse fluxo. Não é possível voltar. Nada se repete, nunca. Tragédia e farsa são coisas diametralmente opostas. E temos essa busca incessante de, hoje, dirigir nossos passos segundo fins e meios, na "esperança de um bem", como diria Aristóteles. Ora, o futuro não existe, o devir é em grande medida imperscrutável. A gente tenta.

Essa percepção do fluxo, da dialética da vida, é um desafio. A gente ganha, perde, sofre, goza, erra, luta, luta muito, e o tempo passa com a sua força, afastando, unindo, colocando e tirando as pessoas na nossa vida. Aí, entramos nós. E não pode vacilar, porque, num instante, sabe-se lá quando, como, já era.

Então, só por isso, que dia lindo! Faz escuro, mas eu canto. Indignação para lutar e alegria para lutar, sempre, na fraternidade de muita gente de bem que não aceita o injusto.

Queremos que o mal passe e o bem dure para sempre, só isso... Outrossim, não estranha ansiarmos por reter as pessoas que amamos iguaizinhas a esse instante amável, segurar as coisas boas, a perpetuação do prazer, do conforto, do belo, isso tudo igual. Ilusão. Alertam Vinícius e Baden, no Canto de Ossanha: “Pergunte pr'o seu Orixá / O amor só é bom se doer.”


Então, nesse intervalo que me é dado, que pessoas lindas e cheias de amor pontilham exatamente essa minha passagem (oxalá só tenha meiado)! E, se contra terríveis inimigos nos temos batido, não menos verdadeiro é termos os mais belos ideais a defender!

O movimento é perpétuo porque a contradição é inexorável. E dessa contradição - que existe até realidade até física - emerge a luta. A contradição, que gera a luta é o motor desse movimento. Viver é lutar, ensinou Gonçalves Dias, na Canção do Tamoio. E essa mesma luta também é fluxo e perpetuidade. Nela, muitas vezes, jogamos a nossa vida, ganhando, perdendo-a para dá-la à Humanidade, vivendo o seu dia-a-dia, no movimento estonteante da política. E nessa época de derrotas é preciso ter fibra para ver que podemos conquistar um futuro melhor, unindo amplas forças. A luta é complexa, não nos é dado perder-se, muito menos ser instrumentalizados por interesses estranhos ao Brasil, à Democracia, aos direitos e ao bem estar dos trabalhadores e do povo. Isso que vivemos não é eterno. Pode piorar, inclusive, se prevalecer “o silêncio dos bons”, de que falava Martin Luther King, . Daí a urgência do nosso engajamento nessa causa.

A realidade é conosco, até parados, influenciamos. "Estamos condenados a perserverar", diz-me um amigo brizolista, com o riso de quem quem se anima ao ver uma briga boa para entrar. Afinal, a despeito da impermanência, ou talvez por ela, há que se definir, decidir que lugar, que marca havemos de ter nesse ser e vir-a-ser em disputa. Os caras estão numa desfaçatez que merece resposta, e já é tempo de cair a ficha de que fomos golpeados por uma minoria corrupta, parasita, baba-ovo do imperialismo ianque.


Tudo bem? Fora Temer, tudo bem. Estamos aqui firmes na luta. E vamos juntar gente, vontades, forças, para empatar e virar o jogo.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O PCdoB, a juventude e a Classe Trabalhadora - I - Paulo Vinícius Silva - Tribuna de Debates do 14º Congresso do PCdoB

Tribuna de Debates do 14º Congresso do PCdoB
Juventude e Classe Trabalhadora, o PCdoB e o Projeto Nacional de Desenvolvimento - I
(Título original).

PAULO VINÍCIUS SANTOS DA SILVA


Na medida em que vençamos o golpe, o PCdoB chegará ao seu centenário vitorioso. Ainda assim, no momento atual, é notável o rol de vitórias que acumulamos, haja vista termos enfrentado incomparáveis pressões para nos afirmar na vida brasileira. A formação do núcleo marxista-leninista na Conferência da Mantiqueira, em 1943, marca um ponto de partida, uma visão nacional própria, que se prova na crise do movimento comunista do 20º Congresso do PC soviético, em 1956. Da Carta dos Cem, outra vez pequenino, sem a URSS; depois, sangrado no Araguaia, nos Estados, na Lapa, mantendo a bandeira do socialismo mesmo com a queda do Leste, quem diria, foi exatamente essa raiz que sobreviveu. São, afinal, os, as comunistas do Brasil.

Representamos os comunistas na urna eletrônica em todo o território nacional. Fizemos muito pelo Brasil, através dos governos de Lula e Dilma. Com Flávio Dino e o povo do Maranhão travamos uma Histórica batalha do desenvolvimento e da democracia. Somos o Partido das líderes mulheres. No que pese o inclemente tiroteio, somos reconhecidos pelo trato republicano e ético e podemos olhar o povo olhos nos olhos. O PCdoB foi o primeiro a denunciar o golpe contra a Presidenta Dilma e a hastear a bandeira das Diretas Já, mas defende seja levantada por uma Frente Ampla. Estamos firmes na luta, em defesa do Brasil, da Democracia e dos direitos do povo.

Dois êxitos importantes, após o fim da Ditadura de 1964, foram a criação da União da Juventude Socialista e da Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, feitos dos comunistas, mas também resultado do apoio de aliados e de lideranças independentes. Têm especial importância nesse desafio de ligar o Partido às massas. São organizações amplas, de luta, da juventude e da classe trabalhadora, e classistas. A direção nelas se exercita pela política justa, combativa e capaz de unir amplas massas do povo, não se faz por decreto, e obedece sua institucionalidade autônoma própria, estutária. A CTB tem sentido especial para o Partido da classe trabalhadora, é nosso maior legado orgânico após 2003, e alcançou grande dimensão.

São esses movimentos escadas para a consciênca popular ascender da luta corporativa mais simples, pelo salário e pela saúde no trabalho, pela solidariedade, pela liberdade e contra qualquer discriminação. São como colunas do lastro de classe de nosso Partido: a juventude filha da classe e a própria classe trabalhadora. Contém em seu seio as mulheres, o movimento negro e comunitário, a luta pelo respeito à diversidade. São os espaços de formação das lideranças intermediárias e de base a fisionomia e o modo de fazer política do PCdoB.

Mas é nesses espaços que enfrentamos desafios à expansão partidária e à nossa afirmação eleitoral que constituem a própria defesa da nossa legalidade. E é a partir desses espaços que devemos dar resposta ao dilema e ao escândalo que nos causa o avanço das posições de extrema direita entre jovens e trabalhadores e a nossa forma de organizar-nos é parte da resposta. Aqui também se explicitam dois graves gargalos que tem impedido o avanço da ligação do Partido com o povo, que ocorrem num momento da vida dos e das militantes quadros intermediários: na juventude, quando da passagem da condição estudantil para o mundo do trabalho; entre trabalhadores(as), quando precisamos projetar as lideranças consolidadas para a sociedade como um todo, e em especial a política eleitoral.

Nos dois casos, formamos as lideranças até um certo momento, e depois há um desvio movimentista que prejudica a militância, a liderança e mesmo os projetos de vida. Muitos se perdem, infelizmente. E uma grande parcela, precarizada, terceirizada, informal e desempregada fica sem política, e são parte cada vez maior da classe trabalhadora. Solucionar esse gargalo significa ter mais tempo na formação desse contingente e a ampliaçao de nosa ligação com o povo.

Nosso projeto juvenil exclusiviza a luta estudantil. À militância juvenil falta o coroamento da juventude socialista: o ingresso no mundo do trabalho e na vida adulta. É a hora da opção de ser comunista, que poderá ser perene, ou perder-se. Uma efetiva ligação com o povo se faz com o tempo, com a vida, a partir de uma disciplina pessoal e coletiva que estimule uma vida mais completa e sustentável como coluna para uma consciência e ações livres. É a liberdade que a profissão, o trabalho e a saúde conferem.

O ideal do e da militante comunista na juventude deve ser uma vida completa, autônoma, que lhe permita exercer sua opção ideológica por toda a vida. Há que responder à incômoda pergunta de Renato Russo: “O que você vai ser quando você crescer?” para ter independência necessária e manter a ideologia adquirida ainda na escola, na universidade. Esse enfoque é necessário e contribui para o sentido de viver e lutar, elemento subjetivo destacado para o resgate da juventude exposta a fenômenos como a dependência química, a violência e a pobreza.

Só uma parte da militância terá atividade política integral, e deve ser uma minoria. Muito mais gente deve ser do Partido no meio do próprio projeto de desenvolvimento, na sociedade, pelo trabalho, com diferentes contribuições à causa a partir do lugar de cada um(a) no mundo. E a arte é fazê-lo de modo a ampliar nossa vinculação com amplas massas do povo. Ou seja, vida militante real na vida real, tarefas correspondentes às categorias de pertencimento (filiados(as), militantes e quadros) e uma vinculação profunda com o povo brasileiro.

Assim, a juventude que trabalha, que estuda, que nem trabalha nem estuda, do campo, da cidade, da periferia, a juventude negra, vítima diária do estado policial desde a escravidão, a maioria proporcional de desempregados, as jovens mulheres que lutam contra o machismo, essa geração vem encontrar no nosso Partido uma escola de formação política e de vida. Face a essa diversidade, o trabalho da UJS não pode terminar na luta estudantil, deve desenhar um capítulo novo à juventude, e formar seus melhores filhos e filhas para a Classe Trabalhadora, estimulando que floresçam por toda a vida as convicções semeadas nas lutas desde o grêmio estudantil. Por isso, também, há que romper com uma visão estanque que não estabelece a continuidade de laços entre a juventude e a classe trabalhadora e entre a educaçao e o trabalho.

Indicações preciosas ao nosso trabalho juvenil foram dadas por Che Guevara - que há 50 anos deixou a vida, mas jamais deixou nossa luta. Ele dizia que

“coloca-se para todo(a) jovem comunista ser essencialmente humano, ser tão humano que se queira chegar ao melhor do ser humano, purificar o melhor do ser humano através do trabalho, do estudo, do exercício da solidariedade continuada com o povo e com todos os povos do mundo”. E “lutar para melhorar, por ser primeiro lugar. Claro que todos não podem estar em primeiro, mas sim estar entre os primeiros(as), no grupo de vanguarda. Ser um exemplo vivo, ser o espelho em que se mirem os companheiros(as) que não pertençam às juventudes comunistas”.
14º Congresso da UJS, junho de 2008, em São Paulo

É a esse desafio mais completo que somos chamados, a uma formação integral, poder lutar pela vida inteira, no trabalho, no desevolvimento brasileiro. Um passo adiante no projeto da UJS após o Relançamento. Precisamos de uma juventude que tenha como consignas estudar, trabalhar e lutar por toda a vida, e ser felizes com a nossa luta. Isso não guarda contradição, mas impulsiona a conquista de mais espaço não só nas entidades, mas na sociedade e na vida política do país. É uma das tarefas da Revolução Brasileira.

Seguiremos com a reflexão em artigo voltado ao debate sobre a Classe Trabalhadora.

Paulo Vinícius Santos da Silva – Milita em Brasília. Sociólogo e Bancário, é egresso da UJS e membro da Executiva Nacional da CTB e do Sindicato dos Bancários de Brasília.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Morte em viatura policial é inacreditável, repudia Vanessa Grazziotin - Portal Vermelho

Morte em viatura policial é inacreditável, repudia Vanessa Grazziotin - Portal Vermelho:

12 de outubro de 2017 - 9h13 

 Morte em viatura policial é inacreditável, repudia Vanessa Grazziotin



Jefferson Rudy/Agência Senado
  
De acordo com notícias divulgadas pela imprensa, Laís, 30 anos, mãe de uma criança de 8 anos, descobriu que o ex-companheiro havia colocado uma câmera filmadora dentro do banheiro da casa dela e foi registrar a denúncia. Mas quando foi dar o depoimento, foi colocada no mesmo carro que o agressor.

“Aí o agressor, o ex-companheiro, pediu aos policiais que dessem uma paradinha na casa dele, porque precisava pegar um documento. E, quando parou na casa, sabem o que pegou? Uma faca. E, com a faca, matou a mulher dentro da viatura da Polícia Militar. É algo inacreditável”, disse.

Segundo Vanessa, é comum que autoridades façam “pouco caso” da violência contra a mulher. “Dizem que mulher fica no mimimi. Não há nada de mimimi. O que há aqui é uma realidade nua e crua da situação em que vivem as mulheres hoje no país”, disse.

A procuradora Especial da Mulher do Senado disse que as mulheres têm um maior nível de escolaridade e ganham menos; são penalizadas pela concepção, por darem à luz e terem que ter licença-maternidade para garantir os primeiros cuidados dos filhos, sendo que 90% delas, dois anos depois, são demitidas do emprego, como uma prevenção do patrão para que não engravidem novamente e não peçam outra licença-maternidade.

A Procuradoria Especial da Mulher do Senado emitiu uma nota de solidariedade sobre o caso do assassinato de Laís Andrade Fonseca e acompanha o caso.



Fonte: Procuradoria Especial da Mulher

XAMBIOÁ - Itamar Correia - imagens dos heróis desaparecidos pela Ditadura no Araguaia

Calle 13 - Latinoamérica - Lindo

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

PCdoB pode lançar Manoela candidata a Presidenta - Blog do Renato e Portal Vermelho


A presidenta nacional do PCdoB, deputada federal (PE), Luciana Santos falou sobre a possibilidade de seu partido lançar candidatura própria  à Presidência da República nas eleições de 2018. A dirigente participou do ato político na conferência municipal da legenda em Porto Alegre, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, nesta sexta-feira (6), ao lado da deputada estadual do PCdoB, Manuela D’ávila.
Luciana Santos apresentou o debate da candidatura própria, que a sigla está discutindo pela primeira vez depois da redemocratização do Brasil. Entre os nomes debatidos para representar as ideias do PCdoB estão três mulheres: a deputada federal Jandira Feghali (RJ), a senadora Vanessa Grazziotin (AM) e a deputada estadual Manuela d`Ávila (RS).
A presidenta do PCdoB relembrou ainda a ofensiva que a esquerda brasileira sofreu ano passado, “o golpe que tirou a presidenta Dilma do poder foi totalmente sem fundamentos, baseado no combate à corrupção, mas o que vemos hoje em dia é um cenário bem diferente daquele que os golpistas defendiam”. Sobre o assunto, ela ainda finalizou, “sofremos uma derrota estratégica, não podemos aceitar que a corrupção seja o motivo para barrar um projeto de nação”.
As principais pautas em discussão na conferência muncipal foram relacionadas a situação do país e as estratégias que podem ser traçadas para que o atual quadro de crise seja superado, com a defesa e articulação de uma frente ampla.
O encontro contou ainda com a presença do presidente da Fundação Maurício Grabois, Renato Rabelo . Em sua fala, o ex-presidente do Partido alertou para o declínio do capitalismo no mundo, “o mundo de hoje tem tendências fundamentais na transição dos polos de poder, vindo da periferia, como em países como a China e a Rússia”. O presidente da fundação Maurício Grabois também destacou o atual cenário político brasileiro. O governo federal está nem aí para o povo brasileiro, temos é que unir a classe trabalhadora, que é a maior parte da classe média, para que juntos revertemos esse quadro”, disse.
Entre a fala de Renato Rabelo e da presidente Luciana Santos, a deputada Manuela aproveitou para saudar os novos filiados do partido, em especial, Roberto Seitenfus, organizador da Parada de Lutas LGBT de Porto Alegre, do Coletivo Desobedeça e das lutas dos povos de matriz africana, e que agora junta-se às fileiras do PCdoB. Manuela destacou que a filiação de Seitenfus “ é uma amostra de que os ideais traçados pelo partido estão no caminho certo, uma vez que ele se desliga de um partido onde milita há 20 anos para se juntar a nós, pois aqui, acredita que seus ideais poderão ser concretizados”.
Do Portal Vermelho, com informações de Porto Alegre

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Inscreva-se no curso Jornalismo de guerra na América Latina - Barão de Itararé


Inscrições abertas para o curso Jornalismo de guerra na América Latina; participe

ÉRIKA CECONI - Portal CTB


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Entre os dias 23 e 26 de outubro, o Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé promove curso com o tema O jornalismo de guerra na América Latina. Serão quatro noites (das 19h às 22h) com quatro nomes gabaritados e reconhecidos para discutir a conjuntura política, a onda conservadora e os horizontes da resistência no continente, além do papel jogado pelos meios de comunicação nesse cenário. O curso, que contabiliza 12 horas, conta com certificado e tem apoio de Opera Mundi e Cebrapaz.

A proposta da atividade é traçar um breve panorama das relações entre mídia, democracia e geopolítica na região, produzindo subsídios para os participantes compreenderem e refletirem sobre o processo histórico, as lutas e os desafios colocados para os povos do continente.

Confira a programação completa:

23/10 - O contexto da radicalização poítica no continente

Com Breno Altman, diretor do portal Opera Mundi

24/10 - Os passos da integração regional

Com Paola Estrada, integrante da Alba Movimentos (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América) e uma das coordenadoras do Comitê Brasileiro pela Paz na Venezuela

25/10 - O papel imperial dos EUA no "quintal"

Com José Renaldo de Carvalho, jornalista, escritor, cientista político, especialista em Política e Relações Internacionais e Secretário de Política e Relações Internacionais do PCdoB

26/10 - O papel da imprensa na América Latina

Com Laurindo Leal Filho, sociólogo, jornalista, professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP) e ex-apresentador do programa VerTV, na Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

Inscrições

As inscrições custam R$ 200, podendo ser parceladas em até 10 vezes sem juros. A adesão deve ser feito através do preenchimento do formulário (clique aqui e preencha) e o pagamento via PagSeguro. Dúvidas e maiores informações podem ser esclarecidas pelo e-mail contato@baraodeitarare.org.br ou pelo telefone (11) 31591585.

Barão de Itararé

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Fala em nome da CTB na Audiência Pública na Câmara - A Conjuntura e a Deforma Trabalhista e a Saúde e Segurança do Trabalho - (CETASP e CLP)

AUDIÊNCIA PÚBLICA DA COMISSÃO DE TRABALHO, DE ADMINISTRAÇÃO E SERVIÇO PÚBLICO E DE LEGISLAÇÃO PARTICIPATIVA

A conjuntura política da segurança e medicina do trabalho. DIA 05/10/2017 - Câmara dos Deputados - Plenário 3 - Paulo Vinícius Silva, representando a CTB

Será que não é hora de nos unirmos? - Des. Laédio Andrade na sessão solene fúnebre do Conselho da UFSC (texto integral)

Transcrição do Diário do Centro do Mundo


Tentarei, num esforço muito grande, manter o mínimo de racionalidade, porque, confesso, que, neste momento, o sentimento, a emoção me toma. Uma tristeza profunda me corrói por dentro. Uma raiva forte. Uma indignação maior ainda diz que nós temos que ir adiante, que não podemos parar, porque o momento por que o nosso país passa é grave, é perigoso e precisa de ação.

Acioly, Julinho, que saudade da rua Santos Dumont, onde morávamos como crianças, onde passamos nossa juventude, onde jogávamos bola na rua e xadrez dentro de casa, tênis de mesa nos dias de chuva, onde cometemos nossos primeiros crimes, temos que confessar, pois ali furtamos umas goiabas, também rosas para nossas namoradas. Todos nós juntos, você era pequeno, Julinho, Acioly um pouco mais adulto, eu e o Cal da mesma idade.

Frequentamos o Colégio Deon (grafia pode não estar correta), brincamos, brigamos, estudamos, porque éramos de famílias humildes. Só tínhamos a nós e a nossa capacidade. E assim seguimos adiante.

Chegamos a esta universidade como alunos. Alunos de direito. E enfrentamos a ditadura militar, a arma no governo. O reitor Ernani, que há pouco falou, administrava tendo que aturar, na marra, um sala para os agentes da polícia que fotografavam, que nos espionavam, que poderiam nos prender se escutássemos o Chico Buarque ou o Vandré.

E que ironia da história e do destino, porque foi naquele hall da reitoria que eu, o Cal e tantos outros líderes estudantis, como o Adolfo, já falecido, o Jailson Lima, que jantamos juntos, e o Julinho, esta semana lá em casa com o Cal. Ali, naquele hall, nós fizemos as maiores assembleia do tempo da ditadura. Milhares e milhares de alunos sentamos no chão e nós usávamos a escada como palanque para denunciar a prepotência e para defender a autonomia e a liberdade da universidade pública e gratuita.

Nós sabíamos que nós não estávamos no estado democrático de direito. Nós sabíamos que poderíamos ser presos. Nós sabíamos que tivemos colegas e amigos presos, torturados e alguns assassinados, porque aquele era o regime que nos administrava.

Mas não esmorecemos, fizemos a nossa luta. E ganhamos, porque acabamos com a ditadura. Ela terminou. A vida seguiu.

O Cal foi para Brasília acompanhar o combatente senador Wedekin. Voltou e terminou seu curso de direito. Fez metrado, fez doutorado, e eu tive a honra de estar nas duas bancas dele. Discutíamos, conversávamos, estudávamos, pesquisávamos, porque sempre fomos contra o fundamentalismo, sempre fomos contra os argumentos fáceis, néscios, cheios de verdade, mas ocos, vazios, fórmulas vazias.

Trocamos de lado. De estudantes passamos a professores desta casa. E como Cal se orgulhava disso. Como ele gostava disso. Como ele tinha nisso a sua vida. E da vida humilde da rua Santos Dumont, do nosso querido Tubarão, construiu outra vida, típica de professor aqui em Florianópolis. Apartamento de professor. Nem carro tinha. Vida de professor, prática de professor.

E foi nestas condições que chegou a seu maior sonho, a reitoria desta universidade. Claro que todos nós temos vaidade, todos nós temos um ego e precisamos dele para viver o dia a dia. É claro que chegar a reitor tem um pouco de ambição, de todos que lá chegaram. Mas, acima de tudo, Cal tinha vocação, tinha o desejo pelo ensino, tinha a vontade de fazer da UFSC o que estava fazendo, com sua equipe, uma das maiores universidades deste país.

E vejam que coisa: a ditadura não nos prendeu. E nós achávamos que tínhamos derrubado. Cometemos um erro porque os ditadores de espírito nunca morrem. Estão sempre aí, estão aqui, neste momento, alguns deles, esperando a hora de voltar. Sempre.

Esta luta não acaba. Nunca acaba esta luta. E se nós descansarmos, eles voltam. Eles voltam. Quando se fala em estado democrático de direito, nós estamos falando de muito sangue, de muita guerra, de conquistas feitas com suor e com esforço de nosso antepassados.

Quando se fala em ampla defesa, estado democrático de direito, contraditório, isso não é brincadeira.

Esse néscios que estão por aí dizendo bobagem não sabem o que é uma ditadura. Não sabem que eles serão os primeiros a clamar por estado democrático de direito daqui a pouco.

E foi dentro dessas condições que o Cal se deparou com a mais perfeita ditadura, que é a ditadura feita em nome da moral, a ditadura feita em nome da justiça, a ditadura feita em nome da democracia.

É claro que estado democrático de direito precisa de imprensa livre, é claro que estado democrático de direito precisa de independência do Judiciário, para que o Judiciários e os juízes julguem livremente, sem pressão. Só que também é claro que essas instituições, absolutamente importantes para a democracia, a cada dia, a cada momento, são deturpadas.

Em nome da liberdade de imprensa, se exerce a liberdade de empresa, privada, para impor desejos privados à coletividade.

Em nome da liberdade de julgar, neofascistas humilham, destroem, matam.

Como professor de criminologia, eu levei meus alunos para a penitenciária. E me levaram no setor de segurança máxima, onde o Cal passou uma noite. Eu tive uma crise de pânico pela opressão arquitetônica. Não entrei. Saí correndo lá de dentro.

E fique a imaginar — eu estava por livre e espontânea vontade, com meus alunos —: e se tivessem tirado minha roupa? E se tivessem me feito uma revista íntima? E se tivessem me acorrentado nos pés e nas mãos? Eu morreria lá naquela noite. Eu não sairia de lá vivo. E o Cal saiu.

O Cal, que sempre lutou com flores na mão contra canhões, que sempre usou a palavra contra a insensatez, que sempre conversou e que nunca causou mal a ninguém, acabou encontrando a pior das ditaduras e oprimido. Acabou encontrando aquilo por que nenhum de nós quer passar.

E eu termino falando: o Cal sempre foi um professor e morreu como professor, nos dando a última lição. A última lição do nosso mestre foi de que contra a mais absoluta injustiça, que contra o terrorismo de estado, só a tragédia pode chamar a atenção de uma população que vive uma histeria coletiva. Só a tragédia… só a tragédia…

Esta noite, com dificuldade de dormir, eu fiquei a pensar: quando a humanidade errou e não parou Hitler no momento certo? Quando a humanidade errou e não parou Mussolini no tempo certo? E fiquei pensando: eles estão de volta. Será que nós vamos errar de novo e deixá-los tomar o poder, para nós termos que trocar as flores e pegar de novo em armas para fazer outra guerra e derrubá-los?

Será que já não basta? Será que não é hora de nos unirmos e exigirmos consequências, se a família assim quiser? De irmos até as últimas consequências pedindo que sejam apurados esses atos de arbitrariedade?

Já não é hora?

Bertold Brecht já nos disse. Já prenderam não só nossos vizinhos. Já estão levando nossos amigos próximos e vão nos levar.

A vida é isso, companheiros. É luta permanente. E a democracia não permite descanso. Não permite descanso.

Eu hoje, como professor da UFSC, sou uma pessoa que tem orgulho e alegria. Como desembargador, tenho vergonha.

Porcos e homens se confundem. Fascistas e democratas usam as mesmas togas. Eles estão de volta. Temos que pará-los. Vamos derrubá-los novamente.”

Outra imagem me vem à mente. O homem alto Marcelo Bretas com a mulher, ao lado de Sergio Moro com a mulher, andando sobre o tapete vermelho da estréia do filme sobre a Lava Jato.

Eles estão de volta.

Usam toga e são incensados pelas empresas de jornalismo e de entretenimento, numa aliança que destrói reputações e mói ossos, com gritos de dor e desespero que começam a se tornar audíveis.

A imagem que agora me vem à mente é de outra natureza. Elis Regina cantando:

“Uma dor assim pungente não há de ser inutilmente.”

Vídeo - Des. Lédio de Andrade - UFSC homenageia Reitor Cau, sacrificado - Um juiz contra o fascismo. O que você não vê na TV - FERNANDO BRITO em Tijolaço·

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POR FERNANDO BRITO em Tijolaço· 05/10/2017

Na nossa mídia, sempre ávida por desgraças e tragédias, sempre pronta a “fechar” a camera para os rostos emocionados, da lágrima, da voz embargada, quase nada se viu da cerimônia fúnebre do reitor Luiz Cancellier, da Universidade Federal de Santa Catarina, que se matou pela humilhação pública a que foi submetido, sem culpa formada, sem defesa, apenas pela força.


Muito menos do discurso do desembargador Lédio Rosa de Andrade, que tomo como o desabafo de minha geração.

Não é de estranhar, mas é de apavorar. Trago para cá o que diz Nilson Lage, 60 anos de profissão e de janela na imprensa brasileira, que pode dimensionar melhor do que quem, como eu, só percebeu a ditadura na adolescência.

Muito sério, no episódio da morte do reitor da UFSC, é o fato de a grande mídia não ter dado destaque à notícia.
Indica que o vínculo da canalha jurídica-policial com a mídia é mais profundo do que se imaginava – escudo que, mais grave do que na ditadura anterior, protege o arbítrio e oculta os crimes de Estado..
Havia, na época censura; agora, ela é dispensável. O controle é mais inteligente (consiste em registrar o fato e dar ênfase editorial a outra coisa) e é espontâneo, automático, introjetado..
Não fosse isso, tratava-se, como tragédia humana e fato político de uma grande história jornalistica, com, com muitos ângulos a serem abordados, capaz de despertar profundas reflexões.

As palavras de Lédio não são apenas um lamento. São uma convocação.

E lançam um taça de vergonha, se isso adianta, no rosto dos que acham que “as coisas não são bem assim” e se perdem em discussões laterais.

Há uma matilha de feras, seguida por uma vara de porcos, tornando sangrenta e imunda a vida brasileira, onde só a escuridão, o xingamento, a ofensa, a polícia e a prisão valem alguma coisa.

Assista e divulgue o quanto puder. Especialmente para jornalistas, advogados, promotores e juízes jovens.

Talvez um deles possa ver no espelho aquilo que se transformou.




quarta-feira, 4 de outubro de 2017

"Reitor exilado" - Luiz Carlos Cancellier - Reitor da UFSC

A humilhação e o vexame a que fomos submetidos — eu e outros colegas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) — há uma semana não tem precedentes na história da instituição. No mesmo período em que fomos presos, levados ao complexo penitenciário, despidos de nossas vestes e encarcerados, paradoxalmente a universidade que comando desde maio de 2016 foi reconhecida como a sexta melhor instituição federal de ensino superior brasileira; avaliada com vários cursos de excelência em pós-graduação pela Capes e homenageada pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina. Nos últimos dias tivemos nossas vidas devassadas e nossa honra associada a uma “quadrilha”, acusada de desviar R$ 80 milhões. E impedidos, mesmo após libertados, de entrar na universidade.

Quando assumimos, em maio de 2016, para mandato de quatro anos, uma de nossas mensagens mais marcantes sempre foi a da harmonia, do diálogo, do reconhecimento das diferenças. Dizíamos a quem quisesse ouvir que, “na UFSC, tem diversidade!”. A primeira reação, portanto, ao ser conduzido de minha casa para a Polícia Federal, acusado de obstrução de uma investigação, foi de surpresa.

Ao longo de minha trajetória como estudante de Direito (graduação, mestrado e doutorado), depois docente, chefe do departamento, diretor do Centro de Ciências Jurídicas e, afortunadamente, reitor, sempre exerci minhas atividades tendo como princípio a mediação e a resolução de conflitos com respeito ao outro, levando a empatia ao limite extremo da compreensão e da tolerância. Portanto, ser conduzido nas condições em que ocorreu a prisão deixou-me ainda perplexo e amedrontado.

Para além das incontáveis manifestações de apoio, de amigos e de desconhecidos, e da união indissolúvel de uma equipe absolutamente solidária, conforta-me saber que a fragilidade das acusações que sobre mim pesam não subsiste à mínima capacidade de enxergar o que está por trás do equivocado processo que nos levou ao cárcere. Uma investigação interna que não nos ouviu; um processo baseado em depoimentos que não permitiram o contraditório e a ampla defesa; informações seletivas repassadas à PF; sonegação de informações fundamentais ao pleno entendimento do que se passava; e a atribuição, a uma gestão que recém completou um ano, de denúncias relativas a período anterior.

Não adotamos qualquer atitude para abafar ou obstruir a apuração da denúncia. Agimos, isso sim, como gestores responsáveis, sempre acompanhados pela Procuradoria da UFSC. Mantivemos, com frequência, contatos com representantes da Controladoria-Geral da União e do Tribunal de Contas da União. Estávamos no caminho certo, com orientação jurídica e administrativa. O reitor não toma nenhuma decisão de maneira isolada. Tudo é colegiado, ou seja, tem a participação de outros organismos. E reitero: a universidade sempre teve e vai continuar tendo todo interesse em esclarecer a questão.

De todo este episódio que ganhou repercussão nacional, a principal lição é que devemos ter mais orgulho ainda da UFSC. Ela é responsável por quase 100% do aprimoramento da indústria, dos serviços e do desenvolvimento do estado, em todas as regiões. Faz pesquisa de ponta, ensino de qualidade e extensão comprometida com a sociedade. É, tenho certeza, muito mais forte do qualquer outro acontecimento".

Sobre o reitor da UFSC, Dr. Cancellier: Investigado, difamado, exilado e sepultado - Rogério Christofoletti*



OBJETHOS - Observatório da Ética Jornalística

*Professor da UFSC e pesquisador no objETHOS

A morte trágica e repentina do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, é o resultado mais visível desses tempos terríveis que vivemos. Dias de julgamentos e condenações apressadas. Dias de espetacularização, de soberba e vaidade. Dias odiosos e punitivos. Dias em que somos tragados para um turbilhão que massacra reputações e que pouco se preocupa com as consequências humanas e sociais dos nossos atos. Os acontecimentos das últimas três semanas apontam para diversos erros e exageros cometidos pelas autoridades judiciais e policiais e pela mídia. Analisar o noticiário e refletir sobre seu papel na construção de uma opinião pública é uma maneira de tentar evitar novos linchamentos sociais.

Há alguns dias, eu me preparava para escrever sobre a cobertura jornalística do caso Cancellier. A exemplo do que fazemos no Observatório da Ética Jornalística (objETHOS), pretendia analisar como a mídia local abordava um assunto tão trepidante, afinal, em 57 anos de história, nunca a UFSC tinha assistido à prisão de um reitor. Colecionei algumas matérias e me contive para escrever, já que o assunto parecia longe do seu desfecho. Não posso me deter agora. Em mais de uma ocasião, disse em sala de aula que nenhuma notícia seria tão amplamente disseminada sobre Cancellier depois do festival que cercou sua prisão em 14 de setembro. Eu me referia a um comportamento frequente no jornalismo de priorizar a denúncia ao desmentido, a acusação à retificação. Infelizmente, eu estava errado, e a notícia de sua morte não apenas pegou a todos de surpresa como também escancarou um processo bárbaro de perseguição que ainda não cessou.

Dificuldades de apuração

Em dezoito dias apenas, acompanhamos a prisão, a negação dos crimes, a soltura, o afastamento do cargo, o isolamento e o pior final. Vimos também a disseminação da suspeita com um grau muito maior de empenho do que propriamente a disposição de se refinar a verdade, a fidelidade aos fatos. Denúncias motivaram a Polícia Federal a iniciar uma investigação na UFSC com a suposição de que recursos públicos teriam sido desviados em um programa educacional. O reitor Cancellier e outras pessoas chegaram a ser presos sob a acusação de que estariam dificultando o trabalho de apuração policial ou estariam envolvidos na possível fraude. A exemplo de outras vezes, as ações da Polícia Federal tiveram ampla cobertura da imprensa, ampliando o círculo de desconfiança sobre os acusados. A pressa na apuração aliada à negativa por parte da PF de dar mais informações provocou um vendaval sobre a reputação das pessoas envolvidas.

Os jornalistas que cobriam o caso estavam com muitas dificuldades iniciais para verificar as informações: não tiveram acesso à denúncia e as próprias autoridades evitaram dar detalhes. Na entrevista coletiva concedida na manhã de 14 de setembro, é possível ver como os repórteres tentam extrair as informações e como as fontes resistiam em dizer até mesmo qual era a natureza da detenção, se condução coercitiva ou prisão preventiva ou temporária (Veja a íntegra da coletiva e os questionamentos dos repórteres a partir dos 20 minutos no vídeo: https://www.facebook.com/jornalzero/videos/848009365381285/). As informações eram muito desencontradas e havia lacunas na história. Isso levou a um primeiro erro fatal na cobertura: como rastilho de pólvora, a informação de que havia um desvio de 80 milhões de reais agitou as redes sociais e levou inclusive um grupo de estudantes a protestar na reitoria. O jornal Notícias do Dia cobriu a manifestaçãoe chegou a mencionar a estimativa policial do rombo, R$ 20 milhões, informação ainda não totalmente sustentada em provas ou perícias sobre o caso. Isso mesmo! Nem a PF sabe ainda quanto teria sido desviado…

A pressa em dimensionar o mal feito fez com que algumas paredes na UFSC aparecessem pixadas cobrando os tais 80 milhões e espalhou publicamente uma informação ainda não completamente apurada nem pela polícia nem pelos jornalistas.

Em praticamente todas as emissoras de TV, jornais e sites da imprensa catarinense, o reitor Cancellier teve seu nome divulgado e imagem exposta, vinculando-o à investigação. Na edição de 15 de setembro, o Diário Catarinense reservou amplo espaço em sua primeira página com a manchete “A operação policial que abalou a UFSC”. Em uma das chamadas, mencionou a prisão temporária do reitor, mas não chegou a citar seu nome ou fotografia. O concorrente Notícias do Dia não teve o mesmo cuidado. Sua manchete não dá margem para dúvida, o crime aconteceu: “Fraude com recursos do ensino a distância”. No complemento, o texto reforça o erro da informação: “Investigação apura desvios de dinheiro na UFSC, que somam R$ 80 milhões”. No Diário do Litoral, jornal que circula em Itajaí e Balneário Camboriú, a chamada na primeira página faz uma perigosa vinculação: “Reitor da UFSC é preso em operação de delegada que iniciou a Lava-Jato”. A informação não está incorreta, mas ela contribui para outro contexto, mais inflamável.



Reputação em frangalhos


A cobertura dos dias seguintes tentou se reequilibrar, e não se pode negar que houve alguns esforços para que o mais visível acusado se defendesse. Entrevistas com o reitor Cancellier foram publicadas, mas o estrago à sua reputação estava feito e a imagem da própria UFSC bastante abalada.

A difamação é um processo rápido, insidioso e necrosante. Quando um conjunto de suspeitas recai sobre uma pessoa ou organização e quando essas suposições ganham caráter público na mídia, a potencialidade do dano sobre a imagem é avassaladora. Não há controle para deter a avalancha de pré-julgamentos e de condenações apressadas. Nas redes sociais, o festival de linchamento moral de Cancellier já estava acontecendo. Não só isso. A UFSC, seus docentes, técnicos e alunos foram motivo de comentários de escárnio, intolerância e ódio, abrindo espaço para críticas à educação pública e gratuita e ao papel da universidade na sociedade.

De forma majoritária, a presunção de inocência foi simplesmente deixada de lado. E Luiz Carlos Cancellier de Olivo, mesmo depois de libertado por ordem judicial, colheu os frutos estragados da intensa exposição de seu nome e imagem a uma suspeita de crime. Afastado de suas funções, não podia nem frequentar o seu local de trabalho. Sob observação e escrutínio público e policial, ficou isolado. Queixou-se na semana passada em artigo publicado em O Globo, dizendo que se sentia exilado. Negou que tivesse atrapalhado as investigações, mas a turba sedenta por “justiça” preferiu sua condição de réu. Percebam: ele foi julgado e condenado antes mesmo de ter sido completamente investigado.


Na segunda-feira, 2 de outubro, minutos após a confirmação de sua morte, os principais portais noticiosos vinculavam o fato à sua condição de investigado, alimentando ainda mais os odiosos de plantão que podem ter visto naquele desfecho a justiça sendo feita. Não foi. Nenhuma justiça se faz com cadáveres. Nenhuma notícia vale uma vida. Nenhuma sanha de investigação deve produzir vítimas fatais.

Como cobrir?

As circunstâncias da morte – um suicídio – e o contexto que a cercam – uma espalhafatosa operação policial, respaldada pela justiça e alimentada pela condenação precipitada de parte da imprensa – chacoalham todas as convicções. É ainda mais trágico que Cancellier tenha recorrido ao último gesto dois dias após o chamado Setembro Amarelo, mês que vem se consagrando para desmitificar e combater o suicídio, um tabu social que todos precisamos enfrentar. Não existe no jornalismo brasileiro um consenso sobre como cobrir casos como esse. Durante décadas, as redações evitavam dar notícias de suicídios temendo que isso contribuísse para novos atos semelhantes de desespero.

Felizmente, o jornalismo vem se abrindo para discutir seus procedimentos. Um exemplo é a reportagem de Emerson Gasperin e Karine Wenzel para o caderno Nós, do Diário Catarinense, publicada há poucos anos. Em 2009, a Associação Brasileira de Psiquiatria publicou uma cartilha que orienta jornalistas e a população em geral a como lidar com situações extremas e que necessitam de intervenção.

Apesar dessas iniciativas, a cobertura sobre a morte de Cancellier apresenta diversos problemas, que vão do dispensável detalhamento da morte (informam o local preciso e a forma adotada) à mais abjeta exploração sensacionalista. Na primeira página do Diário do Litoral, por exemplo, a manchete desumana e insensível é “Protestou com a vida: Reitor da UFSC se mata em shopping”, acompanhada de foto que ajuda a estigmatizar a pessoa e sua família.




Não bastasse tudo isso, a notícia da morte trágica ainda ressalta a condição de investigado de Cancellier. No rodapé da primeira página da Folha de S.Paulo, a chamada é “Investigado, reitor afastado da UFSC é achado morto”. Em O Globo, “Reitor investigado é achado morto”. Sim, é verdadeiro dizer que Luiz Carlos Cancellier de Olivo estava sendo investigado, mas é também verdade afirmar que ele negava a participação em crimes ou a descontinuação das investigações. Isto é, as manchetes negam ao acusado que se defenda, impedem que ele contradiga a acusação, enfim, que fale.

Como disse antes, a difamação é um processo rápido, insidioso e necrosante. Ela se espalha como um vírus, perverte, corrompe, esgarça e destrói os tecidos que ajudam a formar um nome, uma imagem, o reconhecimento de uma personalidade. O colunista do Notícias do Dia, Carlos Damião, corajosamente, pergunta quem matou o reitor da UFSC. Seu texto expressa uma indignação e uma fúria que precisam alimentar a sociedade e as redações a buscarem formas para reencontrar respostas. Que essa disposição para responder não se deixe alimentar por um tom justiceiro, de assassinato de reputações, de linchamento social e de condenação prévia.