sexta-feira, 22 de julho de 2011

Reflexões sobre heróis e a História do Partido Comunista do Brasil - Paulo Vinícius Silva

Gregório Bezerra


“Gostaria de ser lembrado como o homem que foi amigo das crianças, dos pobres e excluídos; amado e respeitado pelo povo, pelas massas exploradas e sofridas; odiado e temido pelos capitalistas, sendo considerado o inimigo número um das Ditaduras Fascistas”.
Gregório Bezerra

Lendo o texto de Anita Leocádia Prestes sobre o Gregório Bezerra, que tem seu livro Memórias reeditado, felizmente, aproveito e rendo homenagem a esse verdadeiro herói do povo brasileiro, que ela tão bem retrata. Seu exemplo pessoal de dignidade e fidelidade é inquestionável. Ainda assim, sinto-me obrigado a dizer que Gregório Bezerra faz parte de uma geração de líderes comunistas que se confrontou duramente desde o fim dos anos cinquenta do século passado. Como infelizmente sói ocorrer entre seus pares de geração, é tremendamente injusto e duro em seu livro Memórias ao tratar de Diógenes Arruda Câmara, o que não é de todo estranho.

Zé Duarte, João Amazonas, Diógenes Arruda Câmara na chegada de Amazonas do Exílio. Arruda, emocionado, passou mal, e faleceu a caminho do hospital, ele que saiu com a saúde devastada dos porões da tortura. Essa é uma de suas últimas fotos. Fonte:Vermelho.
Curioso é que, pelo que lembro, citando de memória, Gregório Bezerra critica Arruda Câmara de modo até divertido em certo momento, quando diz que ele era o "Stalin Brasileiro", mas "sem a genialidade do camarada Stalin" (sic).

Dois homens frutos do sertão nordestino, signos de uma sertaneja raiz rubra, tenaz ao extremo, dois heróis dos oprimidos.

Ainda assim, pessoas, seres humanos, gente que luta, procurando acertar. Mas o conflito, de concepções inclusive, é da vida, e é bom que seja assim. Arruda Câmara ainda está para ser resgatado. Para isso, quero coletivizar com vocês dois artigos de Augusto Buonicore, que mitigam esse silêncio: Diógenes Arruda, o guerreiro sem repouso.

Sobre heróis a resgatar
Infelizmente, a historiografia de esquerda no Brasil deu pouco destaque a lutadores extraordinários como Maurício Grabois, João Amazonas, Diógenes Arruda Câmara, Carlos Nicolau Danielli, Zé Duarte e Elza Monerat, para citar alguns. A democracia, a esquerda e o movimento comunista no Brasil, no entanto, devem muitíssimo a eles.

Elza Moneratt
Na Conferência clandestina da Mantiqueira (1943), o Partido Comunista do Brasil foi reconstruído dos golpes sofridos pela ditadura do Estado Novo varguista. Os Estados pariram uma geração de líderes responsáveis pelo sólido crescimento vivido no período seguinte. Mais que isso, forjaram a principal referência comunista para as décadas seguintes. Pedro Pomar e Amazonas do Pará, Maurício Grabois, Diógenes Arruda Câmara, Carlos Marighella e Mário Alves seriam parte da Comissão Nacional de Organização Provisória, que tinha ligação com Prestes na prisão e que retomou o Partido, esfacelado pela repressão.

Aí residiu um ponto de inflexão. Uma direção sólida conduz o PCB a um caminho de crescimento, eleitoral inclusive. O Partido intervém na vida nacional cumprindo destacado papel na unidade contra o eixo e na composição da FEB. Os Comunistas na  Constituinte de 1946 propugnam pela liberdade de culto e religião e a natureza laica do Estado, pelo direito de greve, o Partido realiza os comícios com Prestes para milhares de pessoas, possuía uma rede impressionante de jornais etc.

Bancada Comunista na Constituinte de 1946: Observem Amazonas , Prestes e Grabois no centro da fotografia.
Gregório Bezerra, José Maria Crispim, Maurício Grabois, Claudino José da Silva, Joaquim Batista Neto, Osvaldo Pacheco, Abílio Fernandes, Alcides Sabença, Agostinho Dias de Oliveira, João Amazonas, Carlos Marighela, Milton Caires de Brito, Alcedo Coutinho e Jorge Amado, a que se somaram posteriormente, eleitos sob outra legenda (do Partido Social Progressista, PSP), Pedro Pomar e Diógenes Arruda Câmara.


É essa direção, em essência, que se cindirá com os desdobramentos do 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Daí, seja o PCB (Brasileiro), seja o PCdoB (do Brasil - como era o nome antes), reivindicarem o legado do mesmo PCB. Por um tempo isso ficou referenciado numa suposta oposição entre líderes, projetando as imagens de Prestes - uma referência imensa - e Amazonas. Esse mito esboroou-se já em 1980, quando, após seu regresso da URSS, Prestes rompe com a direção do PCB através da Carta aos Comunistas. O problema era bem maior que uma mera oposição de personalidades. E vêem-se as dificuldades de quem persistiu no PCB - sem Prestes e sem Gregório Bezerra - até a sua debandada, e  agora reivindica a memória desses próceres como fio histórico que lhes ligue a 1922, muito diferentemente dos que não aceitaram desde os anos 60 o reformismo kruschevista.

A saída do próprio Prestes do PCB, para mim, simboliza o fim de uma diáspora progressiva e incontornável que varreu a maioria vitoriosa no cisma do PCB, corporificada na Declaração de Março de 1958, que marca o enquadramento brasileiro às teses exaradas desde Moscou no congresso precedentemente citado. De um lado, Prestes e a URSS e a maioria. Do outro lado, em defesa do legado de 1922 e da Mantiqueira, reivindicando um congresso, cem camaradas. Parece que teve um que retirou a assinatura. O detalhe é que dentre esses 99 estavam quadros de altíssimo relevo, figuras de proa em todo o momento anterior. dentre eles Grabois, Amazonas e Pomar, e depois, Arruda. E se o PCB foi de abismo em abismo, o PCdoB, ao contrário, escalou uma imensa serra com uma determinação inexorável.

O tempo cobraria caro o seguidismo de Moscou. Os erros do PCB no trato da escalada golpista de 1964 e na resistência que poderia lhe ter oposto, em parte podem ser atribuídos à mecânica incorporação ao cenário nacional da tese do "caminho pacífico" de Kruschev. Desmoralizou-se o instrumento central dos oprimidos ante o arbítrio da gorilada. O impacto da derrota iniciou a dispersão dos que firmaram a Declaração de Março de 1958. Marighella e Mário Alves foram dois expoentes e heróis do povo que romperam e compuseram parte do exemplo dos anos seguintes, que viram o PCB minguar e a esquerda se dividir em uma série de organizações. A Ditadura, ademais, cobrou altíssimo preço em sangue de ambas organizações. O PCdoB, ademais, fez a Guerrilha do Araguaia,  que é o ponto mais alto no combate com a Ditaura, enfrentando as forças regulares. O primeiro reconhecimento da capacidade de superação e do heroísmo do Araguaia, no entanto, veio primeiro dos que protagonizaram o cruel martírio dos guerrilheiros que de boa parte da esquerda, infelizmente.

A despeito disso, O PCdoB manteve uma linha que, malgrado acidentada, tem um curso de avanços. Por muito pequeno, no entanto, além de atingido de modo terrível pela repressão, os seguidores de Amazonas, Grabois, Pomar e Arruda Câmara prosperaram no tempo. E contaram com um trunfo valioso para o futuro, incorporaram a Ação Popular, principal liderança da juventude estudantil da época.

Um reconhecimento que os revisionistas jamais fizeram
A História cobra caro o erro em política. A rebeldia de parte do núcleo central da conferência da Mantiqueira foi o Grito do Ipiranga da independência intelectual dos comunistas no Brasil. Os caminhos dos anos seguintes, no entanto, mostraram-se sumamente duros para os que ousaram pensar com a própria cabeça. No fim do túnel dos 21 anos de arbítrio, de tortura e cárcere, de morticínio e desaparecimentos de camaradas que perdura até hoje, depois de tudo, os duzentos e sessenta mil comunistas no Brasil filiados ao PCdoB significam a continuidade prática e viva do Partido de 1922, ou pelo menos da Conferência da Mantiqueira, que inaugura um núcleo nacionalmente sólido da direção comunista no Brasil.

Não foi à toa que esse aparente "milagre" aconteceu. Pode-se buscar outros exemplos pelo mundo, em que o cisma do movimento comunista originou no geral dois partidos, um pró-soviético e um crítico, no geral simpático à China. Pelo mundo afora, quantos desses partidos se mantiveram, quantos cresceram e quantos chegaram ao governo de seus países? E quantos inverteram a tendência, tornando-se a ampla maioria do movimento comunista num país com o potencial do Brasil? Aí tem tecnologia nacional. E o seguidismo mostrou-se um guia pouco confiável.

A contribuição do Brasil ao socialismo tem de ser brasileira
Entre outras coisas, o PCdoB encerra nas suas formulações qualidades nacionais, como a capacidade de fazer mediações e ousar em encontrar saídas próprias. Firmeza de princípios e flexibilidade tática. Diógenes Arruda talvez dissesse "Ampliar radicalizando, radicalizar ampliando". Não poderia ser diferente, num país como o Brasil. Nossa formação é complexa e está fora dos parâmetros europeus que, no entanto, por muito tempo influíram de modo exagerado em nossa formação e rumos.

Se a transição para o socialismo é um debate central e decisivo, que dirá a transição brasileira! Herdeiros somos ainda hoje das contribuições de José Bonifácio. Nosso povo é mestiço, temos profunda, fluida e sincrética religiosidade, somos sensuais e carnavalescos, diferentes. Então tem coisa que não cabe na cabeça de quem está muito acima do Equador.

Daí que pudemos sem grandes sofrimentos dar uma resposta simples e efetiva a um problema gravíssimo, a solução do conflito internacional que ainda dividia o movimento comunista internacional em plena derrota do ciclo europeu iniciado na União Soviética. Numa sessão com as delegações internacionais presentes ao 8º Congresso do PCdoB, realizado em Brasília, de 3 a 8 de fevereiro de 1992, João Amazonas profere suma fala entitulada "Pela unidade do Movimento Comunista".  Tratou a questão frontalmente:


"Achamos que é necessário alargar os horizontes, e entender bem o processo objetivo e subjetivo que se passa no movimento comunista mundial. A derrota do socialismo na União Soviética despertou não apenas a nós, que nos consideramos marxistas-leninistas. Influiu também no que há de movimento organizado. Partidos que seguiam o PCUS, face à nova situação, tratam de fazer certo realinhamento no terreno ideológico. Não são todos, mas diversos o fazem, e com relativa segurança. Como devemos encarar esse problema? Desconhecer o fato? (...) Também aí há forças revolucionárias que despertam face ao sucedido na União Soviética. (...) aqui ainda não estão todos os revolucionários do mundo." 

E foi além:

"A verdade é que vivemos uma crise que já dura mais de 30 anos. E muita gente não se deu conta que essa é uma questão fundamental. (...) Temos de nos debruçar seriamente sobre esse problema da crise do socialismo, temos de enfrentá-la, ou não conseguiremos passar à ofensiva contra o capitalismo e fazer a revolução."

Uma palavra sobre Amazonas
Se 1943 marcou o surgimento daquela geração. 1962 marcou sua divisão e a luta pela sobrevivência da direção surgida em 1943. Já o 8º Congresso, em plena crise, tinha como testemunha atuante de todo aquele ciclo histórico aquele decano, filho de um padeiro que viria de uma família humílima do Pará. Observem, todos os antigos já haviam partido ou perdido sua força e liderança, exceto Elza Moneratt. Amazonas, no entanto, liderava uma organização pródiga em quadros, rejuvenescida e com futuro. Assim, mais uma vez, essa correção política assegurou o futuro até hoje. Vale a pena assistir o vídeo com a última entrevista de João Amazonas, lúcido e sereno, realizada poucos meses antes de sua morte, para aproveitar um pouco desse manancial de que ainda bebemos.

Podemos olhar a trajetória de tantos heróis que nos antecederam, com o sereno respeito da responsabilidade de lhes continuar a caminhada. E isso implica, sim, resgatar uma história que não está escrita, nomes e biografias de mártires que seguem insepultos clamando por justiça, como os guerrilheiros do Araguaia. Nesse terreno é que chafurdou a Carta Capital com o infeliz artigo de Lucas Figueiredo acerca de Maurício Grabois, herói e mártir do Araguaia, ao portar-se como detrator, não um jornalista. Por sorte, Osvaldo Bertolino e Adalberto Monteiro levantaram-se contra a injustiça. Vale lê-los. Como se vê, há uma disputa intelectual acerca do nosso legado.

Mas o olvido é passageiro. Graças ao PCdoB, o fio vermelho da História não se perdeu, malgrado as intempéries. Recordo ainda transido de emoção tantos e tantas jovens a circular pelo 52º Congresso da UNE, orgulhosos de seus juvenis e baratos adereços a exaltar o emblema da foice e do martelo, e por isso mesmo a valer tanto! E eu, confesso, ainda meio solitário a pensar nessas questões quiçá inverossímeis. E sobretudo a pensar que é possível sim, traçar esse continuum histórico do PCdoB até a Mantiqueira, e desde lá até o futuro socialista. e neste caminho render nosso tributo aos nossos próceres, a Gregório Bezerra, a  Diógenes Arruda, a Pedro Pomar, a Maurício Grabois, a Prestes e a Amazonas. Há que conhecê-los, buscar o fio da meada de quem fomos, do que somos e do futuro que realizaremos.

Obs.: alterado a 15/04/2012