quarta-feira, 15 de junho de 2011

Segunda despedida


Paulo Vinícius


A vida é boa. As coisas acontecem com uma força própria. Imensas mudanças se dão de modo arrebatador, mesmo quando silentes, ainda que não nos apercebamos, mesmo que não estejamos preparados. 

Eu nunca fiz festas de meus aniversários, exceto em mui tenra idade - portanto, fizeram-nas. O rigor financeiro milagroso e espartano de meus pais não ligou o nosso amor a este rito em particular. O adorado bolo mole de queijo e a ternura de minha mãe, e mesmo o silêncio aparentemente imune de meu pai para essas coisas sempre nos gritaram que amor jamais faltaria, mesmo que faltasse a festa. O mais importante do aniversário são aqueles que amamos estarem conosco.

Mas esse ano, pela conjunção das efemérides, decidi comemorar. Afinal, em maio completei 34 anos de vida, vinte dos quais comunista. E como minha filha fez seus dois aninhos nesse principio de junho, pensei comigo: "Há que celebrar!" 

Uma razão a mais se impunha, ainda que dolorosa, mas não incomum para os da nossa fôrma. A sina errante dos cearenses, a generosidade de minha mãe e irmão e a força irresistível de minha filha nos tangem a viver em Brasília, os vivos juntos outra vez.  Nos oito anos em que vivo longe da Loira Desposada do Sol,  como o muçulmano se volta para Meca, meu coração se volve todos os dias à Fortaleza amada. Mas há concretamente um trecho inexplorado  e incerto a percorrer, na cidade em que meu pai e avô também pingaram seu suor para erguer esse feito ímpar do Brasil, Brasília. Como predicava o Padim Ciço, "primeiro a obrigação, e depois a devoção".

A festa foi ótima. Rimos bastante e eu até ganhei um carrinho vermelho - claro - da Ana Lúcia, minha primeira secretária de juventude. Claro que sabíamos tudo o que significava aquele fim de tarde, lado a lado, os que militaram comigo desde a adolescência, amigos que viraram família nas duras lidas militantes, na doce boemia estudantil alencarina, na solidariedade tão especial que faz dos comunistas gente boa e querida. Nem uma palavra precisou ser dita sobre a segunda despedida.

Não pude conversar o tanto que queria, nem ver a todos(as) tão amados, só três dias não mo permitiram. A consternação dos poucos que nos desencontramos foi mais que capaz de justificar as ausências. E dado o pungente do momento, só mesmo Mariana poderia irradiar irreverência para todos os lados, poupando-me do vexame quase certo de meu coração manteiga. Cumpriu magistralmente seu mister. Ela jamais estivera comigo em minha terra natal, meus amigos não a  conheciam, e isso ajudou, porque na verdade o aniversário foi para ela.

A vida é boa e arrebatadora.  Mas eu volto. O mundo é até pequeno. Grande é o coração da gente.