segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O governo só terá sucesso no plano Brasil sem Miséria se assumir a bandeira da reforma agrária - David Wilkenson - CONTAG

O governo só terá sucesso no plano Brasil sem Miséria se assumir a bandeira da reforma agrária - A Entrevista da semana - :: CTB :: Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil

david_entrevistaDavid Wylkerson de Souza, nascido em 1974, em América Dourada, cidade baiana da Região de Irecê. É filho de uma família de agricultores familiares. Sua militância sindical teve início em 1995, quando se filiou ao Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) de João Dourado, município onde mora desde 1990.

É secretário Geral da Contag- Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura e vice-presidente da CTB. A sua projeção no movimento sindical dos trabalhadores e trabalhadoras rurais (MSTTR) foi meteórica. Em agosto de 1997, recebeu um convite para participar da Coordenação do Pólo Sindical da Região de Irecê, e dois anos depois assumiu a Presidência do STTR de João Dourado.

A chegada à Secretaria Geral da Fetag/BA, em 2002, foi um desdobramento natural de sua militância. Porém, o mandato foi interrompido devido à indicação de seu nome para a Secretaria Geral da Contag, em 2005. David Wylkerson milita na Corrente Sindical Classista desde 1997.

Liderou importantes lutas na Bahia pelos direitos previdenciários dos agricultores e das agricultoras familiares, pela reforma agrária e pelo reenquadramento do município de João Dourado no zoneamento agrícola. Ele participa das manifestações do Grito da Terra desde 1996 e sempre teve uma forte ligação com os movimentos de cooperativismo de seu estado.

David relata como caminha o movimento sindical no campo em entrevista ao portal CTB:

Portal CTB: Como você analisa o atual momento do movimento sindical do campo e quais são as perspectivas do trabalhador e trabalhadora rural após o anúncio do Plano Safra para o ano agrícola que se inicia neste mês?
David de Souza: A luta do movimento sindical no campo é uma luta que se renova a cada dia e a cada momento. Nossa demanda atual tem se concentrado pela prioridade da bandeira da reforma agrária, que é uma necessidade urgente do país, uma dívida histórica da nação com os trabalhadores rurais.

Defendemos também atualmente o fortalecimento da Agricultura Familiar e para que isso aconteça é preciso que o governo consolide e implante uma política de assistência técnica pública para o campo, uma assistência técnica de qualidade e gratuita para que ajude o agricultor familiar no exercício da sua função e da produção de alimentos.

Para auxiliar que o produtor rural tenha condições de produzir mais, de pagar o crédito e manter sua propriedade e ter condições de viver com dignidade na sua atividade principal, que é a produção agrícola.

Temos intensificado ainda a defesa intransigente dos direitos dos assalariados do campo, é lamentável que no Brasil em pleno século XXI a gente ter que conviver com casos de exploração de trabalhadores e encontrar condições análogas de trabalho escravo, convivendo ainda com casos de configurados de trabalho escravo.

É rotina presenciarmos na imprensa casos de libertação de trabalhadores rurais em condição de trabalho escravo em propriedades de grandes figuras do cenário nacional, de políticos e ultimamente temos assistido até casos em que magistrados mantêm em sua propriedade trabalhadores rurais nestas condições.

Nossa luta é diária e constante em defesa do trabalhador do campo, em defesa de várias bandeiras. Estamos em contato constante com o governo e os ministérios para implantar a política de habitação rural, o país tem um déficit de moradias, mas ele é muito maior no meio rural, no campo.

Conseguimos avanços no Grito da Terra Brasil deste ano com a criação de uma secretaria especifica para tratar da habitação rural na Caixa Econômica Federal e esperamos que a burocracia não emperre a demanda por novas moradias no campo. A peculiaridade e o perfil dos moradores do campo são diferentes dos que moram nos centros urbanos, e nós temos que ficar atentos, pois não basta boa vontade, e sim ações mais objetivas para que a burocracia não impeça dos trabalhadores rurais conquistarem suas residências.

Portal CTB: A Marcha das Margaridas é o maior movimento de mulheres das Américas e traz esse ano uma pauta de reivindicações com mais de 100 itens, o que representa para a vida no campo esse movimento?
David de Souza: A Marcha das Margaridas tem um caráter de reivindicação, de mobilização e de protesto, de denuncia quanto è exploração dos diversos direitos das mulheres. Se o país tem divida com o segmento dos rurais, o Estado brasileiro tem uma dívida muito maior em relação às companheiras do campo.

A marcha tem um objetivo de denunciar a violência sofrida pelas mulheres do campo, a falta de acesso as políticas publicas, pois ainda existe uma discriminação muito grande. A marcha é um processo em construção.

A ideia é parar Brasília e esperamos reunir mais de 80 mil mulheres nos dias 16 e 17 de agosto, com objetivo de chamar a atenção da sociedade sobre a realidade que as mulheres do campo vivem.

Apesar de a mobilização acontecer somente em dois dias, as reivindicações e o processo de negociação com o governo persiste o tempo todo. Os movimentos sociais e especificamente a Contag devem continuar pressionado o governo através do diálogo para conquistarmos nossos objetivos.

Por exemplo, uma das conquistas que devemos ressaltar é o programa Mulher Pronaf, que conseguimos aprovar durante o grito da Terra, mas só no papel. Apesar de aprovado o programa não tem se tronado efetivo lá na ponta, no município.

Por que ainda há uma política discriminatória, uma política de rejeição à mulher, que tem a sua autonomia cidadã e os próprios órgãos públicos e os financeiros trabalham com essa limitação, impedindo que as mulheres consigam aprovação de crédito.

Precisamos romper essas barreiras e dizer que as mulheres têm os mesmo direitos que os homens. Nós esperamos que a marcha consiga visibilidade para pressionar o governo a reparar esse erro entre outros obstáculos burocráticos que impedem a igualdade de condições das mulheres em relação aos homens.

Portal CTB: Comenta-se que desde o descobrimento do país acumulamos uma dívida dos governos pela não realização da reforma agrária, o que o atual governo sinaliza com a posição sobre a política agrária?
David de Souza: A primeira atitude do governo seria a vontade política, a falta de realização de uma reforma agrária no Brasil passa primeiro por uma decisão política de o governo assumir essa bandeira. Infelizmente a composição política do governo tem impedido de posições mais audaciosas, e não enfrentar as barreiras que foram instaladas ao longo da história do Brasil de romper com esses obstáculos que não permitem a reforma agrária.

Infelizmente não foi no governo passado à prioridade da reforma agrária e o governo da presidenta Dilma sinaliza com alguns avanços, mas muito tímidos ainda. Demonstrando que também não é prioridade de seu governo a realização da reforma agrária, porque não interessa aos grandes latifúndios, não interessa para os banqueiros, não interessa para o agronegócio.

Mas, o Brasil há de reconhecer que com a realização da reforma agrária nós vamos consolidar a soberania alimentar, porque a agricultura familiar é a grande responsável pela produção de alimentos para a mesa do brasileiro. Infelizmente isso não é reconhecido na sociedade, não é visível para a sociedade a grande importância da agricultura familiar na produção de alimentos.

O primeiro passo é o governo ter vontade política, e o segundo passo é a atualização dos índices de produtividade rural, porque enquanto não atualizar os índices nós vamos continuar ver a crescente concentração de terra. E os dados do governo comprovam isso, nos últimos 11 anos aumentou a concentração de terra no país.

Enquanto outros países focam a igualdade no acesso a terra, no Brasil infelizmente a gente retrocedeu nesse aspecto. É inconcebível que um governo de caráter popular, um governo eleito com apoio da massa popular não tenha compromisso e prioridade com a reforma agrária.

Portal CTB: O levantamento que gerou o programa “Brasil sem Miséria” apontou que dos brasileiros residentes no campo, um em cada quatro se encontra em extrema pobreza, e que 46,7% dos extremamente pobres moram na zona rural, a reforma agrária poderia mudar esse quadro?
David de Souza: Seguramente e isso está demonstrado nas estatísticas do governo e também nas entidades privadas. O que é positivo para a reforma agrária não é tão divulgado, só são divulgados os aspectos negativos pontuais, que não são da política agrária. Estatísticas do PENAD (Pesquisa Nacional de Amostras a Domicílio) apontam que os investimentos na agricultura familiar geram quatro postos de trabalho, enquanto outros setores apenas um.

Os conflitos da terra são gerados por falta de políticas públicas e pela impunidade, a gente assiste a todo o momento assassinatos de trabalhadores rurais, que estão em defesa de sua existência, e muitos crimes nem são investigados, ficam impunes.

Nós temos que mostrar que os conflitos só acabarão com a reforma agrária, esse novo programa do governo “Brasil sem Miséria”, só terá sucesso se o governo olhar mais para o campo, para as dificuldades dos trabalhadores e trabalhadoras rurais, em ter acesso a saúde, educação e moradia.

Conversamos recentemente com lideranças do governo e com os ministros de ministérios ligados a agricultura, e deixamos bem claro nossa opinião sobre o programa “Brasil sem Miséria” e acreditamos que “O governo só terá sucesso no projeto de combate à pobreza extrema e a erradicação da miséria se assumir a bandeira da reforma agrária”.

Celso Jardim - Portal CTB