domingo, 8 de março de 2015

Washington trabalha para derrubar o governo argentino - Portal Vermelho

Washington trabalha para derrubar o governo argentino - Portal Vermelho

Foi publicada pela Strategic Culture Foundation uma reportagem de Mahdi Darius Nazemroaya sobre o esforço em curso levado a efeito por Washington e pela inteligência argentina para derrubar a presidenta reformista da Argentina.

Por Mahdi Darius Nazemroaya e Paul Craig Roberts, no Global Research



Presidenta da Argentina, Cristina KirchnerPresidenta da Argentina, Cristina Kirchner
Nenhum governo reformista será tolerado por Washington na América Central e do Sul. Por exemplo: a interferência de Washington em Honduras até conseguir derrubar o governo reformista foi legendária. Um dos primeiros atos de governo de Obama foi a derrubada do presidente de Honduras, Manuel Zelaya. Aliado do presidente reformista da Venezuela, Hugo Chávez, Zelaya, como Chávez, foi retratado como sendo um ditador e uma ameaça.

Neste momento, Venezuela, Bolívia, Equador e Argentina estão na lista de governos a serem depostos por Washington.

Por décadas, Washington teve o que eufemisticamente chamava de “relações próximas” com o exército hondurenho. Já na Venezuela, Bolívia e Equador, a aliança se dá com as elites hispânicas, que tradicionalmente prosperam permitindo que os interesses financeiros dos Estados Unidos saqueiem seus países. Na Argentina, Washington aliou-se ao serviço de inteligência argentina, que neste mesmo instante está trabalhando com Washington e os oligarcas daquele país contra a presidenta reformista Cristina Kirchner.

Washington luta contra as reformas até esmagá-las no intento de proteger a capacidade de saquear e de seus interesses comerciais. Sobre seu tempo de serviço na América Central o general dos fuzileiros dos Estados Unidos, Smedley Butler, disse:

Servi em todas as patentes, de Segundo Tenente a General. Durante todo este período, gastei a maior parte do meu tempo fazendo as vezes de “Leão de Chácara” para as grandes empresas, para Wall Street e banqueiros. Resumindo, eu não passava de um chantagista do capitalismo.

Com a já longamente documentada história da interferência dos Estados Unidos nos acontecimentos internos de seus vizinhos do Sul, a charada é saber por que esses países facilitam a derrubada de seus governos acolhendo embaixadas dos EUA e permitindo que empresas norte americanas operem em seu território?

Sempre que um processo político coloca no poder, em qualquer destes países, um líder que pensa em colocar o interesse de seu povo em confronto com os interesses dos Estados Unidos, este líder ou é derrubado através de um golpe ou assassinado. Para os Estados Unidos, a América do Sul existe apenas para servir aos seus interesses, e cuidam, a cada instante, para que isso continue exatamente assim. Com a aliança eventualmente desenvolvida pelos EUA com a “elite” e as Forças Armadas de determinado país, as reformas sofrem um processo de sabotagem contínua.

Países que se abrem para a entrada de embaixadas dos Estados Unidos, de seus interesses comerciais e de ONGs fundadas nos Estados Unidos não perdem por esperar: mais cedo ou mais tarde sua independência ou sua soberania será subvertida.

Uma real reforma na América Latina só acontecerá com a expulsão dos agentes do interesse estadunidense e com a desapropriação dos oligarcas.

Leia abaixo a íntegra do artigo comentado acima por Paul Craig Roberts:

A politização da Investigação sobre a Amia: Pretexto para “Mudança de Regime” na Argentina?

Por Mahdi Darius Nazemroaya, no Strategic Culture Foundation

A história tem um jeito estranho de se repetir. Hoje a Argentina está passando por processo semelhante ao acontecido logo depois da queda de Boris Iéltsin, nos anos que se seguiram a 1999, quando Vladimir Putin assumiu o poder, tomando seu lugar no Kremlin como presidente da Federação Russa. Enquanto tenta se safar do jugo estrangeiro, o governo da Argentina em Buenos Aires tem consolidado seu poder econômico e político.

No entanto, o governo argentino tem sofrido a oposição ao mesmo tempo do velho regime e da oligarquia que colaboram, ambos, com os Estados Unidos. Tais forças fazem oposição cerrada contra os maiores projetos nacionais, como a renacionalização de grandes companhias e o fortalecimento do Poder Executivo. Dessa forma, o confronto entre a presidenta argentina, Cristina Fernandez de Kirchner, e seus oponentes são similares aos confrontos entre o presidente russo, Vladimir Putin, com os oligarcas e políticos russos que querem subordinar a Rússia a Wall Street e Washington, assim como à Europa Ocidental, grandes centros financeiros.

Não se perde uma oportunidade de enfraquecer o governo argentino. A presidenta Fernández de Kirchner chegou mesmo a acusar publicamente seus oponentes domésticos e os Estados Unidos e trabalharem em conjunto para a mudança de regime.

Quando o DAESH ou “Estado Islâmico” ameaçou matá-la em 2014, ela aludiu ao fato de que a ameaça veio na realidade dos Estados Unidos, já que Washington é a entidade que procura fazê-la desaparecer, assim como é quem está por trás do Estado Islâmico e suas brigadas terroristas na Síria e no Iraque. [1]

A morte de Alberto Nisman

O último capítulo da luta do governo argentino começou em janeiro de 2015. No mesmo dia em que Israel matou o General da Guarda Revolucionária iraniana, General Mohammed Allahdadi, dentro da Síria, o antigo promotor especial Alberto Nisman foi morto por um tiro disparado no lado de sua cabeça no banheiro de seu apartamento fechado em 18/1/2015. [2]

Nisman tinha investigado o atentado a bomba em 1994 contra um edifício de propriedade da Amia – Asociación Mutual Israelita Argentina por um período de dez anos. Em 2003 fora nomeado para a tarefa pelo presidente Néstor Kirchner, o marido já falecido da atual presidenta.

Alguns dias antes, ele tinha feito acusações contra a presidenta da Argentina, Cristina Fernandez de Kirchner e seu Ministro do Exterior, Hector Timerman, ele mesmo um judeu. Nas palavras do New York Times Nisman havia “lançado graves acusações”, [3] afirmando que:

(…) funcionários iranianos teriam planejado e financiado o ataque; que o Hezbolá, aliado do Irã no Líbano o havia executado; e que a presidenta da Argentina, Cristina Fernandez de Kirchner, e seus principais assessores tinham conspirado para encobrir o envolvimento iraniano como parte de um acordo para o fornecimento de petróleo do Irã para a Argentina. [4]

Tendo fugido da Argentina após a morte de Nisman, o jornalista judeu Damian Pachter jogou lenha na fogueira desde Israel tendo mesmo escrito um artigo para o Haaretz que não foi apoiado por ninguém, mas mesmo assim muito citado, no qual busca polemizar com o governo argentino. O artigo de Pachter faz a Argentina parecer um país que vive à sombra do nazismo alemão ou de algum regime fascista.

Vejam alguns de seus comentários [5]:

1-Não tenho ideia de quando voltarei para a Argentina. Aliás, nem sei se quero voltar. O que eu sei é que o país no qual nasci não é mais o lugar feliz sobre o qual meus avós costumam contar histórias.

2-A Argentina transformou-se em um lugar escuro dominado por um sistema político corrupto. Ainda não entendi direito tudo o que me aconteceu nas últimas 48 horas. Mas nunca imaginei que meu retorno para Israel aconteceria desta forma.

Antes de seguirmos em frente, deve ser acrescentado que nos dez anos de investigação de Alberto Nisman, ele nunca chegou a acusar o Irã ou o Hezbolá. Acrescente-se que foi revelado que Nisman consultou frequentemente os Estados Unidos sobre o caso Amia e que foi frontalmente acusado por Ronald Noble, antigo presidente da International Criminal Police Organization (Interpol) de ser um mentiroso em relação a muitas das acusações que fez sobre o caso Amia. [6]

A morte de Alberto Nisman foi noticiada como suicídio. No entanto, o momento em que a morte se deu é muito suspeito. Ele faleceu apenas algumas horas antes de depor no Congresso Argentino. O governo argentino disse que o que aconteceu na realidade foi um homicídio destinado a prejudicar o governo. [7] Essa assertiva se tornou plausível tendo em vista que a morte de Alberto Nisman está sendo usada para fins políticos, como munição para a tentativa de remoção do governo argentino.

A quinta coluna na Argentina

O jornal The Guardian publicou um artigo em 27/1/2015 onde relata que a morte de Alberto Nisman aconteceu

(…) depois de uma luta acirrada entre o governo argentino e uma importante agência de inteligência, o que foi revelado depois da morte suspeita de Nisman, tendo a presidenta acusado espiões desonestos que tentam solapar o seu governo. [8]

A partir da reportagem, alguns pontos importantes podem ser notados, entre os quais os que segue:

1- Funcionários do governo acusaram diretamente alguns espiões que eles dizem que trabalhavam junto com Nisman e ao qual forneciam gravações de escutas.

2- Entre eles estava Antonio Stiuso, o qual até o mês passado era o diretor geral de operações para interceptação dos adversários políticos da presidenta. Foi demitido quando a presidenta Cristina descobriu que ele estava trabalhando em conluio com Nisman na construção de um caso contra ela. Acredita-se que esteja agora nos Estados Unidos.

3- Em um discurso em cadeia de televisão – que pronunciou a partir de uma cadeira de rodas depois de recente acidente – Fernandez criticou também Diego Lagomarsino, o qual foi acusado na segunda feira de ter fornecido ilegalmente uma arma para Nisman. [9]

O que se conclui de todas as informações acima é que a segurança e a inteligência argentina desenvolvem operações destinadas a derrubar seu próprio governo. Acrescente-se que Antonio Stiuso e Nisman estavam trabalhando secretamente para estabelecer um caso que possibilitasse a remoção de Kirchner do poder.

A quinta coluna está presente na Argentina.

Note-se que muitos dos indivíduos envolvidos neste caso são elementos que restaram do período de ditadura militar na Argentina, a qual colaborava intimamente com os Estados Unidos. Isso pode explicar porque se acredita que Stiuso tenha voado para os Estados Unidos. Além disso, este é o motivo que levou o governo argentino a iniciar uma investigação sobre as atividades de vários agentes da polícia federal que estavam monitorando Nisman e porque decidiu substituir a Secretaria de Inteligência (SI – anteriormente Secretaria de Inteligência do Estado ou SIDE) por uma nova agência federal de inteligência. [10]

Todas essas coisas me levaram a tomar a decisão de remover agentes que atuam desde antes da implantação da democracia, afirmou a própria Kirchner. [11]

Nós precisamos trabalhar em um projeto para a reforma do Sistema de Inteligência da Argentina a fim de clarificar um sistema que hoje não está a serviço dos interesses nacionais, declarou a presidenta Kirchner sobre as reformas. [12]

Kirchner revelou ainda que a SI estava trabalhando para minar seu governo e anular um acordo que a Argentina tinha assinado com o Irã. O jornal Buenos Aires Herald escreveu que a presidente Kirchner asseverou que: “(…) desde o instante em que foi assinado o Memorando de Entendimento com o Irã sobre o episódio do atentado contra a Amia em 1994, você pode notar que o acordo vem sendo bombardeado a partir da SI (Secretaria de Inteligência). [13]

A Argentina é um front da guerra global de múltiplo espectro e a Amia não passa de um pretexto.

O caso Amia foi politizado em dois frontes. Um deles é a luta interna e o outro está no campo das relações internacionais. Um grupo de oligarcas argentinos está usando o caso Amia para retomar o controle sobre o país, enquanto por outro lado os Estados Unidos estão usando o caso Amia como mais uma ferramenta adequada, como aconteceu com os fundos abutres, para pressionar a Argentina e interferir em seus assuntos internos.

As opiniões estão se radicalizando dentro da Argentina enquanto os ataques são cada vez mais duros. A morte de Alberto Nisman está sendo usada pelos adversários políticos do governo argentino para demonizá-lo. A oposição está até se referindo a Nisman como um mártir na luta pela democracia e liberdade no país, que supostamente estaria sendo conduzido para um regime cada vez mais autoritário.

O confronto político na Argentina sobre o atentado contra a Amia reflete uma realidade muito mais grave. O Irã não é o único alvo a ser atingido com a polarização sobre o caso Amia. Nem se trata de procurar justiça para as vítimas do atentado.

China, Rússia, Cuba, Brasil, Venezuela, Equador, Bolívia e uma série de outros países independentes também são alvos do que é, na realidade, uma guerra que se trava entre os EUA e os países soberanos que resistem à influência dos Estados Unidos.

O objetivo final dos Estados Unidos é retomar sua influência perdida na Argentina, redirecionar suas relações comerciais e controlar sua política externa. Isto inclui o fim das medidas lançadas por Buenos Aires no sentido de retomar o controle sobre as Malvinas (Falklands) do Reino Unido. As Malvinas estão situadas em uma região rica em recursos energéticos no Atlântico Sul.

Além da guerra por recursos que incluem as reservas de energia, a guerra de múltiplo espectro lançada pelos Estados Unidos contra seus rivais vai cada vez mais em direção a um assalto à agricultura do qual resultará a desestabilização dos preços dos alimentos e eventualmente a fome. Além de uma ainda não explorada reserva de petróleo e gás natural, a Argentina é uma potência agrícola. Controlar Buenos Aires seria útil para os Estados Unidos.

Notas (em inglês):

[1] Mahdi Darius Nazemroaya, «Eagles of Empire and economic terrorism: Are vulture funds instruments of US policy?» RT, October 24, 2014.

[2] Almudena Calatrava, «Supporters doubt Argentine prosecutor killed self», Associated Press, Janaury 20, 2015; Jonathan Watts, «Argentinian government moves to dissolve domestic intelligence agency», Guardian, January 27, 2015.

[3-4] Isabel Kershner, «Journalist Who Reported on Argentine Prosecutor’s Death Flees to Israel», New York Times, January 26, 2015.

[5] Damian Pachter, «Why I fled Argentina after breaking the story of Alberto Nisman’s death», Haaretz, January 25, 2015.

[6] «Ex Interpol head Roland Noble: What prosecutor Nisman says is false», Buenos Aires Herald, January 18, 2015.

[7-10] Jonathan Watts, «Argentinian governments moves…», op. cit.

[11-13] «CFK announces plan to dissolve SI intelligence service», Buenos Aires Herald, Janaury 26, 2015.

Paul Craig Roberts (nascido em 3 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século 21, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

Mahdi Darius Nazemroaya é cientista social, escritor premiado, colunista e pesquisador. Suas obras são reconhecidas internacionalmente em uma ampla série de publicações e foram traduzidas para mais de vinte idiomas, incluindo alemão, árabe, italiano, russo, turco, espanhol, português, chinês, coreano, polonês, armênio, persa, holandês e romeno. Seu trabalho em ciências geopolíticas e estudos estratégicos tem sido usado por várias instituições acadêmicas e de defesa de teses em universidades e escolas preparatórias de oficiais militares. É convidado frequente em redes internacionais de notícias como analista de geopolítica e especialista em Oriente Médio.

Recentemente, em viagem pela América Central, contatou a Frente Sandinista de Libertação Nacional, em sua base em León, na Nicarágua. Como Observador Internacional esteve em El Salvador no primeiro turno das eleições.

Fonte: Global Research