quinta-feira, 24 de outubro de 2013

LÊNIN E OS DILEMAS DA REVOLUÇÃO RUSSA DE 1917 * - Augusto Buonicore Fundação Maurício Grabois


Por Augusto C. Buonicore **
A revolução socialista na Rússia, ocorrida em novembro de 1917, foi um dos principais marcos do século XX, pois traçou um risco vermelho que percorreu cerca de oito décadas da história mundial e alimentou, em milhões de pessoas, a esperança de um futuro melhor, sem opressão e miséria.
O grande arquiteto da vitória socialista foi Vladimir Ilitch Lênin. Apesar do muito que já foi escrito, ele continua sendo um desconhecido. O seu pensamento crítico, avesso ao dogmatismo, profundamente dialético, acabou sendo reduzido a fórmulas esquemáticas e empobrecidas. Muitos de seus ricos ensinamentos, especialmente no campo da construção da tática e da estratégia revolucionárias, foram deturpados por doutrinários de direita e de esquerda.
Este artigo abordará a contribuição teórica de Lênin ao processo revolucionário russo entre fevereiro e outubro de 1917 e recuperará alguns aspectos menos conhecidos de sua elaboração política, especialmente de sua tese sobre o "desenvolvimento pacífico da revolução" e a necessidade de um período de transição entre o capitalismo e o socialismo.
O objetivo do artigo não será apresentar receitas universais para as revoluções socialistas passadas ou futuras, mas mostrar as inúmeras possibilidades que as revoluções reais — e não imaginárias — colocam para as correntes marxistas revolucionárias, e como é difícil se posicionar diante delas.
A particularidade da revolução democrática na Rússia: o duplo poder.
Em fevereiro de 1917 o povo russo pôs abaixo a odiada autocracia czarista. Em seu lugar surgiu um governo provisório composto por setores da oposição liberal-burguesa e por socialistas reformistas. Ao lado dele ste surgiu outro poder, criado pela ação revolucionária das massas populares: os Sovietes. Estava assim estabelecido um duplo poder.
Desde o seu nascedouro o governo provisório deu sinais de que não poderia corresponder aos grandes acontecimentos que estavam sacudindo a Rússia. Não se mostrava disposto a atender às principais reivindicações dos trabalhadores, que haviam sido a força decisiva na derrocada do czarismo. Não se comprometia com a decretação da paz, com a reforma agrária e nem mesmo com as bandeiras democráticas, como a convocação de uma assembleia éia nacional constituinte. E, por outro lado, os Sovietes, dirigidos pelos social-revolucionários e mencheviques, não estavam determinados a arrancar dele essas conquistas. A própria direção bolchevique vacilava em relação a que atitude tomar frente ao novo governo  democrático-burguês.
Lênin, que estava exilado na Suíça, mostrava muita preocupação com o desenvolvimento do processo revolucionário. Assim, escreveu cinco cartas analisando a situação política aberta após a revolução e expondo suas opiniões sobre qual devia ser uma tática justa naquela nova, e imprevista, situação. Estas seriam denominadas Cartas de Longe. Ele iniciou sua correspondência vaticinando: "Seguramente, esta primeira etapa não será a última de nossa revolução".
"Ao lado deste governo (provisório)”, continuou ele, “apareceu um governo operário (...) ainda, relativamente débil, que expressa os interesses do proletariado e de todos os elementos pobres da população da cidade e do campo. Este governo é dos Sovietes (...). Quem pretende que os operários devem apoiar ao novo governo (provisório) em nome da luta contra a reação czarista (...) trai a causa do proletariado, a causa da paz e da liberdade. Porque, de fato, este novo governo já está atado pelas de mãos e os pés ao capital imperialismo, à política imperialista belicista, de rapina, e já iniciou as transações (sem consultar ao povo) com a dinastia". E, concluiu, que aquele governo não podia dar ao povo "nem a paz, nem o pão, nem a liberdade".
Em abril, Lênin chegou a uma Rússia ainda convulsionada e apresentou, pela primeira vez, a palavra de ordem revolucionária: "Todo o Poder aos Sovietes!". Neste período, também, elaborou dois importantes documentos: Teses de Abril e As tarefas do proletariado na presente revolução.
"Na Rússia”, escreveu ele, “o poder de Estado passou para as mãos de uma nova classe, a saber, da burguesia e dos latifundiários que se tornaram burgueses. Desta forma, a revolução democrático-burguesa está consumada (...). A característica principal de nossa revolução (...) é a duplicidade de poderes (...). Esta circunstância excepcionalmente original, sem precedente na história da humanidade, levou ao entrelaçamento de duas ditaduras: a ditadura da burguesia (...) e a ditadura do proletariado e dos camponeses (o Soviete de deputados operário e soldados)".
Ele tinha plena consciência da instabilidade desta situação e dos perigos, e possibilidades, que ela colocava diante do proletariado. "Não há sombra de dúvida de que esse 'entrelaçamento' não está em condições de se sustentar por muito tempo. Não podem subsistir dois poderes num mesmo Estado. Um deles precisa desaparecer (...). A duplicidade de poder não exprime senão um instante transitório no desenvolvimento da revolução, quando ela já ultrapassou os limites da revolução democrático-burguesa comum, porém ainda não atingiu uma ditadura 'pura' do proletariado e do campesinato".
No entanto, deixou claro que não acreditava na possibilidade da implantação imediata do socialismo e que seria necessário um período de transição mais ou menos longo, dependendo de uma série de fatores objetivos e subjetivos. "Nossa tarefa imediata não é a 'introdução' do socialismo (...). O partido do proletariado não pode propor-se, de forma alguma, 'estabelecer' o socialismo num país de pequenos camponeses enquanto a grande maioria da população não tiver tomado consciência da necessidade da revolução socialista".
Ainda em abril escreveu o artigo Sobre a Dualidade de Poderes, no qual contestava aqueles que pretendiam derrubar imediatamente o governo provisório. O governo devia ser derrubado por ser oligárquico-burguês, mas isto não poderia ser realizado em curto prazo, pois ele ainda tinha apoio dos Sovietes e de parte significativa da população. Era preciso, em primeiro lugar, conquistar a maioria do povo para o lado da revolução. "Não somos blanquistas”, afirmou, “não somos partidários da tomada do poder por uma minoria. Somos marxistas, partidários da luta proletária de classe contra a embriaguez s pequeno-burguesa".
O comitê bolchevique de Petrogrado rejeitou as teses de Lênin por 14 votos contra 2. Na maioria dos comitês, a nova tática proposta foi recebida com desconfiança. A respeito dessas sucessivas derrotas sofridas, Sukhanov escreveu: "a massa do partido eleva-se contra Lênin para defender os princípios elementares do socialismo científico tradicional". Bogdanov comentou: "É um delírio, o delírio de um louco". Goldenberg afirmou irônico: "Durante muitos anos, o lugar de Bakhunin e na revolução russa tinha estado vazio; agora, foi ocupado por Lênin". Kamenev, importante líder bolchevique, resistiu em publicar os artigos de Lênin. O primeiro deles acabou saindo endo publicado no dia 7 de abril com o título Sobre os objetivos do proletariado na revolução atual.
Alguns velhos bolcheviques estavam presos a esquemas enrijecidos. Ao contrário do que pensavam, não aplicavam as teses presentes em Duas táticas da social democracia na revolução democrática — escritas por Lênin em 1905 — e sim recuavam para a posição esquemática predominante na II Internacional, que encarava a revolução como uma sucessão de etapas rígidas, estanques, sem comunicação entre si. Segundo esta concepção, era preciso um longo período de desenvolvimento capitalista, sob o domínio político burguês, para que se pudesse avançar a uma segunda etapa socialista. Tese rejeitada por Lênin desde 1905.
Lênin, buscando novamente esclarecer suas reais posições, escreveu uma série de cartas. A primeira intitulava-se Análise da situação atual. Nela, defendeu a justeza da estratégia e da tática bolcheviques aplicadas até a revolução de fevereiro. "Desde a revolução, o poder está nas mãos de uma classe diferente, uma classe nova, isto é, a burguesia (...). A este nível, a revolução burguesa, ou democrático-burguesa, está concluída (...). As palavras de ordem e ideias éias bolchevistas, no seu todo, têm sido confirmadas pela história; mas, concretamente, as coisas resultaram de forma diferente; são mais originais, mais peculiares, mais variadas do que se podia ter esperado (...). 'A ditadura revolucionária e democrática do proletariado e campesinato' já se tornou uma realidade”. No entanto, "temos lado a lado, coexistindo simultaneamente, a regra burguesa (...) e uma ditadura revolucionária e democrática do proletariado e campesinato que vai cedendo voluntariamente poder à burguesia, tornando-se voluntariamente um apêndice da burguesia. Este fato não se enquadra nos velhos esquemas".
De novo, ele se defendeu da acusação de querer saltar etapas na revolução. "Mas não estamos nós em perigo de cair no subjetivismo, de querer chegar à revolução socialista 'saltando' sobre a revolução democrático-burguesa -– que ainda não está concluída e quando não se esgotou o movimento camponês? Eu poderia incorrer neste erro se dissesse: 'Não ao czar, sim a um governo operário'. Mas, eu não disse isso (...). Afirmei que não pode haver outro governo (exceto um governo burguês) na Rússia que não seja o dos Sovietes de Deputados operários, trabalhadores rurais, soldados e camponeses (...). E nestes Sovietes (...) são os camponeses, os soldados, isto é, a pequena burguesia, que tem preponderância, para usar um termo científico, marxista, uma caracterização classista (...). Nas minhas teses, precavi-me seguramente a fim de não saltar sobre o movimento camponês (...) ou sobre o movimento pequeno -burguês em geral, contra qualquer brincadeira de 'tomada do poder' por um governo operário, contra qualquer tipo de aventureirismo blanquista (...). O controle sobre a banca, a fusão de todos os bancos num só, não é ainda socialismo, mas um passo rumo ao socialismo".
O "desenvolvimento pacífico da revolução" e o problema da transição ao socialismo
Lênin passou os meses seguintes, pacientemente, esclarecendo suas posições junto à militância partidária. Os primeiros que aderiram às elas suas foram Krupskaia, Stálin e Zinoviev.  A crise político-revolucionária recrudesceu, com as sucessivas derrotas militares russas, e Lênin conseguiu enfim impor suas ideias. A primeira grande vitória se deu na Conferência das seções bolcheviques de Petrogrado, que se iniciou no dia 14 de abril e na qual conseguiu obter 20 votos contra 6.
No dia 18 de abril o ministro de negócios estrangeiros do governo provisório, Miliukov, lançou uma nota acintosa afirmando: que "o povo desejava continuar a guerra até a à vitória total e que o Governo Provisório mantivesse todos os tratados". Dois dias depois mais de 100 mil manifestantes saíram às ruas contra a declaração belicosa do ministro e entraram em choque com tropas do governo. Um grupo de bolcheviques, contra as indicações de Lênin, chegou a levantar a palavra -de -ordem "abaixo o governo provisório!".
Isto contrariava frontalmente a tática apregoada por Lênin, que escreveu: "Dissemos que a palavra de ordem ‘Abaixo o governo provisório!’ era aventureira, que agora não se podia derrubar o governo e, por isso, lançamos a palavra de ordem de manifestação pacífica. Só queríamos fazer um reconhecimento pacífico das forças do inimigo, sem lhe dar combate, mas o Comitê de Petersburgo virou um pouco mais para a esquerda, o que neste caso é, naturalmente, um gravíssimo crime (...) (pois) era despropositado ir 'um pouco mais para a esquerda'".
Imediatamente o governo provisório e as forças conservadoras acusaram os bolcheviques de serem  agentes do governo alemão. A onda reacionária foi tão forte que levou que se efetuasse um amplo acordo: os bolcheviques lançariam uma nota desmentindo as acusações e a direção dos Sovietes exigiria a retirada da nota do ministro. Esta foi a primeira grande crise enfrentada pelo governo provisório e acarretou na demissão de Miliukov. Lênin criticou a vacilação dos Sovietes que poderiam ter se aproveitado da crise para exigir que todo o poder lhes fosse transferido para eles e, assim, conduzir a revolução por um caminho menos traumático, através da constituição de um governo efetivamente operário e popular, ainda que sob hegemonia dos mencheviques e social-revolucionários.
A crise, ao contrário do que propunha Lênin, levou à constituição de um governo de coalizão  no qual ingressaram dois mencheviques e vários social-revolucionários, a maioria dirigente dos Sovietes. O líder social-revolucionário Kerensky tornou-se figura central desse novo governo.  Houve, assim, uma gradual submissão dos Sovietes à hegemonia liberal-burguesa.
Na 7ª Conferência dos bolcheviques, iniciada em 24 de abril de 1917, as posições de Lênin foram vitoriosas por 71 votos contra 38. Ratificou-se a tática de "desenvolvimento pacífico da revolução", que se expressava na palavra de ordem "Todo poder aos Sovietes!". Rejeito-se, mMais uma vez, era rejeitada a consigna "Abaixo o governo provisório!".
Outra divergência surgida foi quanto à existência ou não de uma fase de transição na rRevolução rRussa, que conduziria ao socialismo. Neste ponto Lênin condenou, novamente, a tese que afirmava ser preciso passar diretamente ao socialismo, sem etapas intermediárias — sem nenhum processo de transição. "O camarada Rikov diz não haver período de transição entre o capitalismo e o socialismo. Não é assim. Isso é romper com o marxismo", afirmou Lênin. “Esse é o defeito principal de todos os raciocínios em que a questão é formulada em termos demasiados gerais (...). Entretanto, é necessário falar dos passos e medidas concretas. Alguns deles amadureceram, outros ainda não. Vivemos um momento de transição. É evidente que avançamos formas que não parecem com as dos Estados burgueses: os Sovietes de deputados operários e soldados (...). São formas que representam os primeiros passos para o socialismo (...). Os Sovietes (...) devem tomar o poder, mas não para implantar uma república burguesa corrente, nem passar diretamente para o socialismo (...). Para que então? Devem tomar o poder para dar os primeiros passos concretos, que podem e devem ser dados, para esta transição".
Na resolução “sobre o momento atual” escreveu: "o proletariado da Rússia que atua num dos países mais atrasados da Europa, no meio de uma imensa população de pequenos camponeses, não pode propor-se como fim para a realização imediata de transformações socialistas". E, em seguida, apresentou o programa desta “transição ao socialismo” na Rússia pós-fevereiro: nacionalização da terra, o controle do Estado sobre os bancos -– e a sua fusão num banco central único -–, controle sobre os maiores consórcios capitalistas, sistema mais justo de impostos progressivos sobre rendimentos e bens. Mesmo na aplicação destas medidas, ainda não socialistas, seria necessário "uma extraordinária prudência e precaução" se quisessem "conquistar uma sólida maioria da população e conseguir a sua convicção na preparação prática desta ou daquela medida".
Em primeiro de junho se reuniu o I Congresso de Toda a Rússia dos Sovietes. Num total de 1090 delegados os bolcheviques tinham apenas 105. Todas as suas teses foram fragorosamente derrotadas, mas Lênin teve uma grande atuação na defesa das propostas bolchevistas. Quando o ministro dos correios e telégrafos, o menchevique Tseretéli, afirmou: "Não existe neste momento, na Rússia, um partido político que possa dizer: dêem-nos o poder, vão-se embora, nós ocuparemos o vosso lugar" . Uma voz ao fundo respondeu: "Existe! O nosso partido não o recusa: a à todo momento está pronto para tomar todo o poder". Era Lênin. Muitos riram do que parecia uma petulância do dirigente de uma corrente política que tinha apenas 10% do Congresso.
Nesta mesma ocasião os bolcheviques resolveram convocar uma grande manifestação contra a guerra. Esta decisão foi duramente criticada e acusada de fazer o jogo da contra-rrevolução. O partido, com a concordância de Lênin, resolveu recuar para não se isolar das massas que ainda confiavam na direção dos Sovietes. No entanto, para mostrar força e influenciar o governo provisório, esta própria direção foi obrigada a realizar uma manifestação. No dia 18 de junho mais de 500 mil pessoas tomaram as ruas de Petrogrado e grande parte delas aderiu às palavras de ordem "Abaixo os dez ministros capitalistas!" e "Todo poder aos Sovietes!". Os bolcheviques ainda possuíam uma organização relativamente pequena, mas suas ideias éias já começavam a influenciar milhões de pessoas.
A ofensiva reacionária e o fim do desenvolvimento pacífico
No final de junho a situação se tornou ainda mais desesperadora após novas derrotas do exército russo. A mortandade nos campos de batalha e a fome adubavam o solo da revolução. Finalmente, alguns regimentos decidiram pôr abaixo o governo provisório.
Os bolcheviques desaconselharam a rebelião, afirmando que as condições ainda não estavam maduras. No entanto, a situação havia fugido do controle da vanguarda revolucionária. Os operários também estavam agitados e aderiram ao movimento. Não podendo impedi-lo, sob pena de agora se isolar das massas avançadas, decidiram participar transformando-o numa manifestação pacífica — evitando assim provocações desnecessárias. Uma curiosidade: o jornal bolchevique, Pravda, chegou a sair com um espaço em branco na capa. Ali seria publicada uma conclamação do partido contra a realização da manifestação que acabou sendo retirada, mas não houve tempo de incluir o outro texto trazendo a nova diretiva partidária.
Entre 3 e 4 de julho ocorreram manifestações de caráter revolucionário que reuniram cerca de 500 mil pessoas.  O movimento foi reprimido à bala pelo governo de Kerensky. Nos choques morreram centenas de pessoas. Lênin afirmou que aquele movimento havia sido "algo significativamente maior que uma manifestação e menor do que uma revolução".
As forças conservadoras não perderam tempo e passaram à ofensiva contra os bolcheviques. Lênin, por segurança, refugiou-se na Finlândia. Os jornais bolcheviques foram fechados, e o Ppartido passou para a clandestinidade. Temerosa, a direção dos Sovietes capitulou e o duplo poder se esvaiu. Agora, o único poder era o do governo provisório (burguês) e este rapidamente se transmutou num regime sustentado nas forças militares reacionárias.
A revolução passava, segundo Lênin, por mais uma "viragem histórica” que exigia uma nova tática. "Todas as esperanças de um desenvolvimento pacífico da revolução russa se desvaneceram definitivamente. A situação é esta: ou a vitória da ditadura militar ou a vitória da insurreição armada dos operários (...). A palavra de ordem da passagem de todo o poder aos Sovietes foi a palavra de ordem do desenvolvimento pacífico da revolução possível em abril, em maio, em junho e até 5-9 de julho, isto é, até o poder passar de fato para as mãos da ditadura militar".
No artigo A propósito das palavras de ordem, escrito poucos dias depois da vitória da contra-rrevolução, Lênin voltou ao tema: "A palavra de ordem de passagem de todo poder aos sSovietes foi justa durante o período passado de nossa revolução” no qual “reinava a chamada 'dualidade de poder' (...). Eis o que garantia a via pacífica de desenvolvimento (...). E isto teria sido o mais fácil, o mais vantajoso para o povo. Tal caminho seria o mais indolor e por isso mesmo era preciso lutar por ele com toda energia (...). A via pacífica do desenvolvimento da revolução foi tornada impossível. Começou a via não-pacífica, a mais dolorosa". Assim, os bolcheviques abandonaram a consigna “todo poder aos sSovietes!" e a insurreição armada começou a ser preparada.
Aqui cabe uma advertência: o denominado "desenvolvimento pacífico da revolução", apregoado por Lênin, não tinha nenhuma relação com a tese de "via pacífica para o socialismo", defendida pelas correntes reformistas. Não se confundia com a gradual conquista do poder através da institucionalidade democrático-burguesa. O pressuposto de Lênin era a existência de um duplo poder, no qual o poder operário e popular possuía força política, moral e militar. Era preciso construir e fortalecer outra institucionalidade, mais avançada e democrática de caráter operário e popular.
Derrotados os bolcheviques, a reação burguesa voltou-se contra os Sovietes e o próprio governo provisório. O general Kornilov, comandante-em-chefe do exército, exigiu a dissolução imediata dos Sovietes. Não conseguindo seu intento, no dia 25 de agosto, lançou seu exército contra Petrogrado. Constituiu-se, então, um vigoroso movimento de resistência dirigido pelos bolcheviques. Kornilov foi rapidamente derrotado e preso. O governo de Kerensky se enfraqueceu e os bolcheviques adquiriram grande autoridade moral e política.
O crescimento do Partido bolchevique foi assustador. O número de filiados passou de 24 mil em fevereiro para 240 mil em julho e, em poucos meses, passou a ser maioria nos Sovietes de Petrogrado e de Moscou. Lênin constatou uma nova "viragem” no processo revolucionário e propôs outra alteração na tática, — retomando a linha do “desenvolvimento pacífico”.
Os compromissos e as novas perspectivas do "desenvolvimento pacífico"
No dia primeiro de setembro Lênin escreveu o artigo Sobre os compromissos.  Nele afirmou: "A ideia éia corrente que o homem de rua tem dos bolcheviques, encorajada por uma imprensa que os calunia, é de que os bolcheviques nunca concordarão com um compromisso com ninguém (...). Contudo, devemos afirmar que esta é uma ideia éia errada (...). A Revolução Russa está a experimentar uma viragem tão abrupta e original que nós, como partido, podemos conceder um compromisso voluntário (...) com os nossos adversários mais próximos, os partidos pequeno-burgueses 'dominantes', os socialistas revolucionários e os mencheviques".
Continuou: "O compromisso da nossa parte é o nosso regresso à exigência de antes de julho de todo poder aos Sovietes e um governo de social-revolucionários e mencheviques responsável perante ele (...). Tal governo poderia ser instalado e consolidado de um modo perfeitamente pacífico (...) e proporcionar fortes possibilidades para grandes progressos nos movimentos mundiais pela a paz e vitória do socialismo (...) uma oportunidade extremamente rara na história e extremamente valiosa (...). O compromisso equivaleria ao seguinte: os bolcheviques, sem fazerem qualquer exigência de participação no governo (...) abster-se-iam de exigir a transferência imediata do poder para o proletariado e camponeses pobres e de empregar métodos revolucionários de luta por essa exigência. Uma condição evidente (...) consistiria na liberdade completa para propaganda e convocação da Assembleia éia Constituinte sem mais demora".
Segundo Lênin, os bolcheviques não apresentariam outras condições, pois confiavam "na evolução pacífica da revolução", e que suas posições triunfariam "pacificamente" graças "à verdadeira e completa liberdade de propaganda e à instalação imediata de uma nova democracia na composição dos Sovietes e no seu funcionamento". E concluiu: "Talvez isto já seja impossível? Talvez. Mas se ainda houver uma probabilidade em cem, o esforço para a concretização desta oportunidade ainda valerá a pena".
Dentro deste espírito Kamenev propôs ao Soviete de Petrogrado a seguinte resolução: "Dado que a rebelião contra-rrevolucionária de Kornilov foi preparada e apoiada por certos partidos cujos representantes pertencem ao governo, o Comitê Executivo Central dos Sovietes considera que a única solução possível atualmente é a formação dum governo composto por representantes do proletariado revolucionário e dos camponeses".  O programa proposto pelos bolcheviques era: República democrática, dissolução da Duma e do Conselho de Estado, convocatória de uma Assembleia éia Nacional Constituinte, confisco ação dos latifúndios e sua entrega aos comitês agrários, controle operário da produção, nacionalização das principais indústrias, impostos severos sobre capitais e lucros e proposta imediata da paz às potências beligerantes.
Uma proposta bolchevique conseguiu, pela primeira vez, ser aprovada no Soviete. Foram 279 votos numa reunião com 400 delegados. A palavra de ordem "Todo poder aos Sovietes!", que havia sido abandonada em julho, voltava ou a ter atualidade.
A hora da insurreição armada
Infelizmente, poucos dias depois, esta situação propícia para uma transição pacífica ao socialismo já havia passado. Os mencheviques e os social-revolucionários não acataram a proposta dos bolcheviques, criando novamente um impasse no processo revolucionário. Lênin chegou à conclusão de que a insurreição armada voltava à ordem do dia.
Esta posição sofreu uma dura oposição. Numa reunião do Comitê Central, no dia 15 de setembro, a proposta de Lênin não conseguiu ser aprovada e ele resolveu abandonar o exílio e voltar ao centro da revolução. Em outubro já estava em solo russo e em outra reunião do CC, ocorrida em 10 de outubro, as suas posições saíram vitoriosas.
Logo se abriu a polêmica em relação à a data da insurreição e quem a dirigiria. Trotsky advogou que ela deveria ser comandada pela direção do congresso dos Sovietes. Lênin, por sua vez, defendeu que não se devia esperar e sim colocar a tomada do poder como fato consumado ao congresso e simplesmente entregar-lhe o poder. O impasse continuou até o dia 16 de outubro, quando uma nova reunião decidiu pelas posições de Lênin.
Kamenev e Zinoviev discordaram da posição do CC e fizeram uma campanha interna contra as posições do partido, e a notícia da decisão dos bolcheviques sobre a insurreição acabou chegando à a imprensa burguesa, comprometendo gravemente o sucesso do movimento revolucionário. Lênin pediu a expulsão dos dois dirigentes sob acusação de traição. Proposta que foi prontamente recusada.
No dia sete de novembro, coincidindo com a abertura do II Congresso dos Sovietes, os bolcheviques tomaram o poder em nome do proletariado revolucionário. "Vamos proceder agora à a construção da ordem socialista". Estas foram as primeiras palavras que Lênin pronunciou na plenária daquele histórico congresso. Mais tarde ele diria que tinha sido mais fácil tomar o poder na Rússia do que dar os primeiros passos na construção da nova sociedade socialista.
* Este artigo foi publicado originalmente no sítio Vermelho em 2004 e republicado na revista Princípios em 2007.
** Augusto Buonicore é historiador, secretário-geral da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira e Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas, ambos publicados pela Editora Anita Garibaldi.
Bibliografia
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