segunda-feira, 14 de outubro de 2013

General Giap (Vietnã): O homem e a arma - Portal Vermelho





Artigo de Vo Nguyen Giap: O homem e a arma - Portal Vermelho
Falecido na última sexta-feria (4), um dos maiores estrategistas militares do século 20 reflete os debates dos anos 1960, sobre os limites estratégicos que impunha a hegemonia nuclear e armamentista do exército dos EUA na luta de libertação nacional e anticolonial. Um debate sobre consciência de classe como estratégia para derrotar a luta apoiada apenas no poderio bélico.

Por Vo Nguyen Giap*







Presidente Ho Chi Minh (centro), General Vo Nguyen Giap (primeiro à direita) e seus camaradas discutem a batalha de Dien Bien Phu em 1954.

Segundo o marxismo-leninismo, o motor do desenvolvimento da sociedade humana dividida em classes, é a luta de classes, e são as massas populares as que sempre fazem a história. Portanto, ao analisar a relação entre o homem e a arma, nosso partido afirma que é o homem o fator decisivo, e critica energicamente a teoria burguesa de que a arma é o decisivo.

Tratando de salvar-se do perigo de seu aniquilamento, o imperialismo leva a cabo, com todos seus esforços, a propaganda sobre a “onipotência das armas” e na realidade utiliza a arma para dominar o homem, ameaçando e reprimindo o movimento revolucionário dos povos trabalhadores. Para revisar os pontos de vista fundamentais do marxismo-leninismo sobre a luta de classes, os revisionistas contemporâneos se apoiam sobre a arma nuclear. Consideram que, ante o grande poderio da arma nuclear, os povos trabalhadores oprimidos e explorados não têm outro caminho que o de substituir a luta de classes pela conciliação de classes. Tomam a chamada “contradição entre a humanidade e a arma nuclear” para substituir a contradição de classes e não distinguem o amigo do inimigo, as guerras justas das injustas, os instigadores de guerra dos defensores da paz.

Os marxistas consideram que a arma nuclear tem grande potência, mas que não é mais que um instrumento da luta de classes e que não a substitui. A arma nuclear influi enormemente na estratégia e tática militares, mas não muda a estratégia revolucionária do proletariado nem a faz confundir acerca de quais são seus inimigos e quais seus amigos. As armas nucleares influem no desenvolvimento das hostilidades e na vitória, mas não é o elemento determinante da vitória e tampouco fazem mudar a perspectiva de desenvolvimento da sociedade. Na guerra, o fator decisivo é e será sempre o homem; as massas populares são e seguirão sendo as forjadoras da história. O proletariado e o povo trabalhador, oprimidos e explorados, hão derrubado, na luta de classes, o jugo dominante da classe exploradora, hão conquistado triunfos consecutivos e continuam vencendo apoiados principalmente em seu nível de consciência e espírito organizativo. Por haver escutado as teses que consideram a arma como fator decisivo e ao possuidor de muitas e boas armas como vencedor certo sobre o que tem poucas e ruins, o proletariado e os povos trabalhadores oprimidos teriam cruzado os braços e entrado por um beco sem saída e não teriam podido construir, partindo com as mãos vazias, a obra que atualmente hão realizado. (...)

A guerra é a continuação da luta política mediante as armas. Toda guerra tem caráter de classe. A luta armada dos povos oprimidos e explorados é a luta contra a classe opressora e exploradora pela conquista da independência nacional, a democracia e o direito a viver do homem. Assim, na formação das forças armadas, a fim de lograr a vitória na guerra, como conceber e resolver o problema do homem e a arma?

Partindo da afirmação de que os promotores principais de nossa revolução são as massas obreiras e campesinas sob a direção do Partido da classe trabalhadora, nosso partido preconizou, desde o dia de sua fundação e em seu programa político: “fundar um exército obreiro-campesino”. Os homens das forças armadas de nosso partido e povo não são mais que o obreiro, o camponês e o povo trabalhador. São os que têm como objetivo de luta a independência nacional, a terra para os que a trabalham e o avanço até o socialismo. Com tão justa causa por objetivo, com o invencível ideal do marxismo- leninismo, os combatentes e cuadros revolucionários das forças armadas do povo vietnamita são persistentes e férreos núcleos unidos que nenhuma violência poderá quebrantar; por cruel que seja o inimigo, não o temem; por mais armas modernas que este tenha a seu alcance não poderá derrotá-los. A história da luta e o crescimento durante vinte anos de nosso exército e sua tradição de “resolvidos a combater e a vencer” demonstram eloquentemente que nosso exército conseguiu uma poderosa força de luta porque é um exército obreiro-campesino, formado por elementos destacados do proletariado e campesinato, criados pelo povo, organizado e dirigidos pelo Partido da classe trabalhadora.

Assim, quando apreciamos o papel do homem na luta armada e nas forças armadas, devemos assinalar claramente seu caráter de classe, é dizer, ver qual é a classe que leva a cabo a guerra e a natureza de classe dessas forças armadas. Ali reside a diferença fundamental entre a ciência militar proletária e a ciência militar burguesa. (...)

Alcançado o ponto de vista marxista sobre o papel do homem, vemos, imediatamente, a perspectiva do exército e do lado de quem se encontra a vitória. Isto reflete o caráter invencível da guerra justa dirigida pelo proletariado -e de seu exército- representante do modo de produção mais progressista da história. Reflete também a derrota inevitável da guerra injusta levada a cabo por uma classe moribunda e a desagregação inevitável de todos os exércitos da classe exploradora. Nosso Partido enfrentou firmemente o problema chave, vital, qual é a natureza proletária na formação do exército. Assim nosso exército foi provado no fogo da luta e cresceu rapidamente como o “Apóstolo Llong” (1). De hoje em diante, quanto a nossa observação da situação do homem dentro das forças armadas, devemos manter firmemente este problema vital.

Qualquer que seja o exército, ao analisar suas características, vemos que elas resultam da coordenação entre dois fatores fundamentais, cujas relações são inseparáveis: o homem e a arma. Mas o caráter da relação entre esses dois fatores decide a natureza de classe do exército e da guerra que leva a cabo. No exército da classe exploradora, dedicado a realizar guerras injustas, de acordo com a contradição antagônica existente entre os exploradores, donos das armas, e as massas militares pertencentes às classes exploradas, obrigadas a ser carne de canhão e a lutar como mercenários, a lei da coordenação entre o homem e a arma é oposta, a arma é a que domina o homem; também aqui, entre o homem e a arma, existe uma contradição antagônica, reflexo do antagonismo de classe entre o homem explorador e o explorado, entre os exploradores donos das armas e os que as empunham como mercenários. Não obstante, quando o soldado ignorante de seus interesses de classe empunha a arma para combater e obtém vitórias, cada vitória obtida é sua própria derrota, já que é um trabalhador oprimido e explorado. Os interesses dos trabalhadores somente serão garantidos quando rechaçar o uso das armas para combater como mercenário, realizar a luta contra a guerra e voltar o canhão do fuzil para disparar à cabeça dos exploradores, possuidores das armas.

Esse é o caminho de lógico desenvolvimento dos exércitos da classe exploradora, especialmente os do imperialismo, seus títeres e lacaios; porque, de acordo com as leis da história, são as massas exploradas as que vencerão as classes exploradoras; porque, o homem é quem fabrica o material e o domina e não se deixa nunca dominar pelo material. Apesar de que os exploradores realizam todas as manobras possíveis, desde a ação psicológica, o suborno, a demagogia, a corrupção, a libertinagem, até a urgência brutal –atam com correntes as pernas do soldado às metralhadoras para conseguir em suas tropas a coesão entre a arma e o homem- e pese a que alcancem alguns êxitos momentâneos, seu exército não poderá escapar da derrota. Assim o demonstrou a realidade do Corpo expedicionário francês e das tropas títeres de Bao Dai na guerra passada em todo o país, como a atual do exército ianque no sul.

Pelo contrário, no exército do proletariado, devido a que não existe a contradição de classe antagônica, e em que os interesses de classe são unânimes –bases da coesão política e moral-, a lei da coordenação entre o homem e a arma é a do domínio do homem sobre a arma. No seio desta relação entre o homem e a arma, não existe a contradição antagônica entre o homem e a arma, senão uma relação dialética de mútua influência na qual o homem joga o papel dirigente. Por isso, somente aqui se realiza a unidade entre o homem e a arma de maneira completa e íntegra; o homem pode desenvolver sua moral e todas suas capacidades a fim de desenvolver ao máximo o poderio das armas, de manter-se firme frente a todas as circunstâncias políticas complexas, assim como vencer nas mais difíceis fases do combate. Isso faz do exército proletário um exército invencível, resolvido a combater e a vencer.

A coesão no exército proletário entre o homem e a arma tem bases de classe, se move e desenvolve através das atividades conscientes do homem. Este realiza seu papel decisivo no combate em um todo unido estreitamente com a arma, porque, na particularidade da forma de ação armada, a arma é o instrumento fundamental do homem para converter a possibilidade de suas forças morais em forças materiais capazes de destruir o inimigo. Por isso, ao apreciar o homem dentro das forças armadas, depois de assinalar claramente sua natureza de classe, deve ser visto em sua relação orgânica com a arma e o desenvolvimento dialético desta relação segundo o desenvolvimento da revolução, da luta de classes em cada momento.

Nota: (1) Segundo uma lenda vietnamita, o “Apóstolo Llong”, com a idade de 3 anos, frente à agressão estrangeira, cresceu vertiginosamente, convertendo-se em chefe das tropas da dinastia de Hung e libertou gloriosamente sua pátria.

*General vietnamita, comunista, historiador, estrategista que venceu Japão, França e EUA
Publicado em Sin Permiso, Política y Teoría nº 61, Febrero 2007 (www.sinpermiso.info)
Tradução do espanhol por Cezar Xavier, Portal da Fundação Mauricio Grabois