sábado, 17 de março de 2012

Aziz Ab´Saber

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Paulo Vinícius Silva

Estive duas vezes com Aziz Ab´Saber. A primeira, na 50ª edição da SBPC em Natal-RN, em 1998. Ele chegou, tão gentil e querido, com uma coxinha na mão e um guaraná na outra - era seu almoço, pedindo para sentar na mesa em que estávamos eu e quem então namorava, porque estava lotado o restaurante. Loteria. Eu acho que, no máximo, tinha concluído o 1º semestre das Ciências Sociais na UFC. Fiquei encantado com sua candura, sua simplicidade, tão gente boa!

Depois, acho que já em 2003, na UNE, em São Paulo, tive a honra de dividir com ele uma mesa de debate, na USP. Na ida, chocara-me o fato de um estudante bicho-grilo de geografia de quem me aproximara no ônibus para trocar uma ideia, dar-me uma informação sobre o local, tinha me dito, ao entrar no campus, que agora podia me "deliciar" porque adentrava no campus da USP... Perguntei-lhe se conhecia o campus da UFMG, da UFRN etc... Pensei cá comigo, então: se esse é o bicho-grilo, avalie o que o cearense aqui há de enfrentar no debate...

Mas era o Aziz. Outra vez pude escutá-lo, sentado ao lado, fazendo aquelas lindas descrições do Brasil, os olhos semicerrados e as palavras a descrever as regiões, os biomas, uma coisa poética, dulcíssima, uma fala de um patriota, e a mesma despretensão pungente, a cordialidade do debate sem um argumento de autoridade. E sua decepção pelos limites que o novo ciclo político já demonstrava dolorosamente à esquerda que nele apostara. Doído estava o Aziz, é preciso que o diga. Isso no entanto não o impediu de ser de uma generosidade total, que invejo até hoje, e que mostrava a sua grandeza e a de tantos intelectuais que honraram e honram o Brasil por seu amor a esse país, e que são a antítese do bicho-grilo que tão mal me impressionara. E o jeito dele tocava a todos, era uma espécie de luz, foi ótimo, foi lindo. Mais um dos momentos transcendentes de que não tenho uma foto sequer, mas que dão sentido à caminhada.

Sua partida, aos 87 anos, tendo trabalhado até a véspera, produzindo uma memória de sua obra, ilustra a sua entrega e a necessidade imperiosa de que se o homenageie devidamente, compilando sua obra, propagando seu exemplo de ternura, de patriotismo, de amor pelo Brasil e seu povo. Pensava o grande, o país, o povo, era um gigante. Dá medidas ao que deveríamos aspirar a construir - quanto à ousadia, à determinação e à profundidade que se impôs na sua produção - e de como (se bem sucedidos) portar-se diante dos jovens - com aquela sincera, despretensiosa e amável modéstia.

E ele, postado diante de nós, meninos, brindava-nos indistintamente com o seu melhor, o mais importante, com uma sinceridade e um desprendimento que era muito mais que aula, palestra, verdadeiro gesto de amor através da Ciência. O Brasil perde muito, ele fará falta, muita falta.