Silêncio. Essa foi a primeira reação. Silêncio. Calou para sempre a voz do bardo, o que um dia pesou no norte e, pela lei da gravidade, foi cair na grande cidade do sul. Calou o que já havia calado há algum tempo, embora todos nós alimentássemos a esperança, no mais dentro de nós, que um dia ele reaparecesse. No fundo, a gente acreditava que ele, como na sua canção, morrera no ano passado mas que não morreria nesse ano.

Custamos a crer, todos nós. Os amigos com os quais falo desde a metade da manhã se recusam a acreditar. “Será que não vem um desmentido por aí?” – indaga um deles, com esperança de órfão.
Depois do silêncio veio a sensação de desamparo. Porque Belchior fará muita falta. Porque parece que bate de novo à nossa porta um tempo difícil, um tempo em que a força se apresenta disposta a fazer todo o mal que a força sempre faz. Foi num tempo assim que a voz do poeta cantou desafiadora. Mesmo que o medo morasse no peito de muitos, o poeta desafiou a força e cantou, um canto de denúncia, um canto de lirismo e guerra.
O canto de Belchior foi isso, um canto de lirismo e guerra, um canto de amor e de desafio ao arbítrio, um canto de desenfreada paixão e de incontida rebeldia. E agora, quando mais precisamos dele novamente, o poeta nos deixa para sempre.
Exilado de si mesmo há algum tempo, Belchior agora volta para casa, volta para Sobral. É justo que venha para cá, para o seu repouso final. É justo. Um dia ele cantou que não precisava que lhe dissessem de que lado nascia o sol, pois lá batia o seu coração. O poeta agora volta para onde sempre bateu o seu coração.
E nós, que faremos? Agora que um canto torto corta a nossa alma, que faremos? Agora que o arbítrio invade a nossa casa, que o autoritarismo explode violentamente sobre nós, que faremos? Ou silenciamos, e deixamos que o medo tome conta de nós, ou faremos como o rapaz latino-americano que se foi um dia, e cantaremos alto e forte, um canto torto que feito faca corte a carne do arbítrio e da intolerância.
No seu retorno para casa, Belchior não será recebido com o silêncio. Belchior será recebido com a voz do povo a entoar as suas canções, e a fazer delas arma e combate pela justiça e pela felicidade.
*Joan Edesson de Oliveira é educador, Mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará.
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