terça-feira, 4 de abril de 2017

Caso comum de trânsito nos arrancou Miguel Silva

Perdemos hoje o Miguel Silva. Querido camarada. Pessoa amabilíssima, fala mansa, firmeza e luta. Gente do povo, negro, do interior do Ceará, de Ibiapina, despontou no movimento estudantil de Sobral. e a partir da Universidade do Vale do Acaraú foi diretor da UNE, em 1997. Pessoa agregadora, simples, querida, do bem.
Miguel, à minha esquerda, carequinha como eu, chegado num boné estilo Lênin.

Quando fui a Fortaleza em 3 de dezembro, meio chateado, não esperava ver os amigos. No entanto, o Tales e o Miguel foram, naquele dia, no Cantinho Acadêmico, em que Elis ressurgiu de um longínquo ano de 1999 para retornar à minha vida, com a força que o amor tem. Ele viu a minha mensagem, e mesmo sem ser tão próximo, estava lá, foi me ver. Gestos assim, desinteressados, desse garoto pobre do Ceará, estudioso, comunista, professor de matemática, que me falou naquela noite do seu projeto de doutorado na UFSCAR, sobre o ensino de matemática.
Eu o revi há uns dias, 31 de março. Estava no Municipal. Peguei-lhe a bandeira do PCdoB e por um tempo a empunhei, a seu lado, enquanto a
concentração na Praça da Bandeira crescia.
                                                                                           
Prometera vir a Brasília, ofereci-lhe pouso, e nos desvencilhamos para as obrigações tão conhecidas da nossa luta, obrigações que por vezes nos afastam de casa, nos espalham pelo mundo, mas nos fazem rever também, antes que seja tarde.

Um querido camarada, um ser humano digno desse título, um lutador, um dos melhores filhos do povo, foi o que perdemos hoje num caso comum de trânsito. Miguel, querido, sempre presente, um dos melhores da minha geração. Há que chorar, sim, hoje há que chorar.




Caso Comum de Trânsito
Belchior

Faz tempo que ninguém canta uma canção falando fácil... claro-fácil, claramente... das coisas que acontecem todo dia, em nosso tempo e lugar. Você fica perdendo o sono, pretendendo ser o dono das palavras, ser a voz do que é novo; e a vida, sempre nova, acontecendo de surpresa, caindo como pedra sobre o povo.

E à tarde, quando eu volto do trabalho, mestre Joaquim pergunta assim pra mim:
- Como vão as coisas ? Como vão as coisas ? Como vão as coisas, menino ?

E eu respondo assim:
- Minha namorada voltou para o norte, ficou quase louca e arranjou um emprego muito bom. Meu melhor amigo foi atropelado, voltando para casa... Caso comum de trânsito, caso comum de trânsito, caso comum de trânsito.

Pela geografia, aprendi que há, no mundo, um lugar, onde um jovem como eu pode amar e ser feliz. Procurei passagem: avião, navio... Não havia linha praquele país.

- E aquele poeta, moreno e latino, que, em versos de sangue, a vida e o amor escreveu... Onde é que ele anda?

- Ninguém sabe dele...
- Fez uma viagem ?
- Não, desapareceu.

Deita ao meu lado. Dá-me o teu beijo. Toda a noite o meu corpo será teu. Eles vêm buscar-me na manhã aberta: a prova mais certa que não amanheceu. Não amanheceu, menina. Não amanheceu, ainda