quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Juscelino e a ilusão de 2018  - Joan Edesson - Portal Vermelho

Juscelino e a ilusão de 2018  - Portal Vermelho

Joan Edesson de Oliveira *


Às
vésperas do natal de 1963, Juscelino subiu a Petrópolis para uma
conversa com o presidente da República, João Goulart. No Palácio Rio
Negro o mineiro comunicou a Jango que o seu PSD desembarcava da base de
apoio ao governo.





A história é contada por João Pinheiro Neto no seu livro
Juscelino: Uma história de amor. Jornalista no “Última Hora”, “Correio
da Manhã” e revista “Manchete”, João Pinheiro Neto trabalhou com
Juscelino no governo de Minas e na Presidência da República, e era o
titular, naquela manhã de dezembro, da Superintendência de Política
Agrária (SUPRA), criada por Jango.



No livro, João Pinheiro Neto conta que também subira a serra para
desejar feliz natal a Jango, em companhia do governador do Ceará,
Virgílio Távora. Chegando ao Palácio Rio Negro, encontrara Juscelino,
com quem havia trabalhado desde 1951, a portas fechadas com o presidente
Jango. Após cumprimentar Goulart e lhe desejar boas festas, João
Pinheiro Neto voltou ao Rio no mesmo carro de Juscelino. No caminho,
conta ele, Juscelino lhe revelara o teor da conversa, e ele reproduziu
no livro a fala do ex-presidente para Jango.



“─ Como você sabe, meu caro Jango, a minha candidatura para a
Presidência, nas eleições de 1965, é imbatível, mas, sem o PSD unido,
corro o risco de não me eleger. E grande parte do PSD, como é sabido, é
contra a orientação política que você vem dando ao seu Governo,
particularmente no que diz respeito à reforma agrária.”



Jango, ainda segundo o relato de Juscelino contado por Pinheiro Neto,
ouviu as ponderações em silêncio, a perna esticada, limitando-se, ao
final, a responder:



“─ Compreendo, Juscelino, compreendo muito bem.”



O desfecho da história todos conhecemos muito bem. A retirada do apoio
por parte do PSD de Juscelino aprofundou a crise política e o isolamento
de Jango. Ao mirar nas eleições presidenciais que se avizinhavam,
Juscelino, como tantos outros, não conseguiu enxergar que não era o
apoio a Jango que lhe impediria de chegar novamente à Presidência da
República. Meses depois daquela conversa, um golpe urdido em palácios,
embaixadas, sedes de jornais e de empresas, cujo comando foi entregue
aos quartéis, sepultou as pretensões tanto de democratas como Juscelino,
quanto de golpistas confessos e descarados como Carlos Lacerda. Pouco
mais de uma década depois Juscelino morreria num acidente de carro nunca
suficientemente esclarecido, com o país amordaçado e mergulhado numa
brutal repressão.



Bem depois de 1964, conta Pinheiro Neto no livro, um amargurado e arrependido Juscelino confessava:



“ ─ Caí na armadilha do Castello Branco. (...) ‘Somos os arquitetos da nossa própria infelicidade’, como dizia Napoleão...”



No mesmo fatídico agostoem que se completam quarenta anos do misterioso
acidente que vitimou Juscelino, a história parece brincar de repetição,
como na afirmação de Hegel citada por Marx.



Fazendo-se alguns ajustes na fala de Juscelino, colocando-se Dilma no
lugar de Jango e trocando-se as eleições presidenciais de 1965 pelas de
2018, a história contada parece a mesma de agora. O Senado da República é
hoje o palco onde se desenrolam os lances finais do golpe perpetrado
contra Dilma, urdido, da mesma forma que aquele de 1964, em palácios,
embaixadas, sedes de jornais, revistas, tevês e grandes entidades e
conglomerados empresariais. Os quartéis, ausentes por ora, parecem ter
sido substituídos por setores do judiciário e do Ministério Público. A
República de Curitiba parece ser a reedição da República do Galeão de
1954, quando Vargas tirou a própria vida em outro agosto aziago.



Juscelino foi vítima da própria quimera. Enxergava apenas as eleições de
1965. No Brasil de hoje há também os que enxergam apenas as eleições de
2018, amarga ilusão a lhes toldar a visão e a impedir-lhes de ver o
longo caminho que há até lá. O golpismo ergue a sua forca na Praça dos
Três Poderes, como bem disse o poeta Adalberto Monteiro. Ali se pretende
enforcar publicamente a democracia, simbolizada numa presidenta eleita
com cinquenta e quatro milhões de votos. Dilma tem dado mostras de que
vai resistir até o fim. Mas há os que julgam ser possível a vitória no
futuro sem lutar no presente. Sonham em ganhar em 2018 arriando as
bandeiras agora.



Os que defendemos a democracia e combatemos o golpe não podemos, nesse
momento crucial, depor as armas. É necessário resistir e lutar até o
fim. “Si vis pacem, para bellum”, eis uma lição que não podemos
esquecer.




* Educador, Mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará.