domingo, 28 de abril de 2013

Dona Iracema e alguns de seus sonhos - Waldemir José da Silva

Há sete dias perdemos na minha família alguém muito querida, Tia Iracema, de Manaus, esposa de Titente, irmão de minha mãe.

Quando se é criança, vemos os nossos pais como gigantes. Adolescentes, chocamo-nos e os desfazemos em meio à imaturidade das críticas de quem se angustia e não sabe como reagir diante de tantas mudanças que nos acometem. Com o passar dos anos e a juventude em seu fim, se temos a graça, retomamos a mirada sobre os gigantes que foram, de um modo ainda mais completo. E à medida que a vida avança, vamos percebendo o tanto que foram mesmo antes de nós, e como se defrontaram com dilemas que só principiamos a viver nessas vidas de adultos.

Mas há um vazio, ainda assim, não só na nossa percepção do extraordinário que foram, mas de suas vidas como pessoas para além de nosso olhar filial. E são heróis e heroínas da vida cotidiana, que nos fizeram, e cujo exemplo nos desafia, a ser melhores, a ter paciência, a retribuir aos filhos e irmãos e às pessoas o que nos foi dado.

No texto a seguir, meu primo Waldemir Silva, vereador do PT de Manaus, rememora Tia Iracema e ajuda a preencher um pouco desse vazio, que precisa ser preenchido com um preito de gratidão, porque na verdade - a despeito da falta dessas pessoas - mais que vazio, há a presença. Olho à vezes para mim mesmo e vejo o beijo do Seu Louro e Dona Lourdes nas minhas feições. Escutá-los-emos sempre, suas vozes, seus critérios, seu desafio de sermos dignos pelo menos em uma parte do tanto que eles e elas foram. Não são de fato, pessoas comuns. Não apenas em nossas vidas, mas também por aquele princípio antiquíssimo em que na vida de um(a) está retratada a vida de todo ser humano. Sempre as nossas vidas acabam por representar esses papéis universais que se escondem na vida cotidiana, como Tia Iracema, mulher, trabalhadora da saúde, mãe e esposa dedicada, matriarca, preocupada com as dores alheias, mulher de fé, de ações e de sonhos, que não deixou apenas saudades - apesar de tantas e doloridas. Ela e Titio deixaram uma linda família, com as raízes firmes e fundas do amor que partilharam. 



Paulo Vinícius


Dona Iracema e alguns de seus sonhos - Waldemir José da Silva

Quando me dei por gente, já percebi que ela tinha uma grande motivação na vida. Lutava para criar seus oitos filhos e filhas de forma digna, com valores humanos e com sua fé cristã católica. Contou sempre com o esposo Vicente Ferreira da Silva, seu grande parceiro nessa empreitada.
Sr. Ferreira trabalhava destacado no interior do Estado, nessa época, como sargento de polícia. Dona Iracema, percebendo que o salário do militar não era suficiente, trabalhou como costureira em casa, mas não sendo o bastante, teve que deixar seus filhos e filhas com uma irmã para seu primeiro trabalho profissional que foi o de tirar sangue para fazer exames, no Ambulatório do Hospital Beneficente Portuguesa do Amazonas. Para quem a conheceu neste ofício, percebia que ela sabia coletar sangue com maestria e precisão, uma arte que dominava como poucos de seu tempo. Depois trabalhou como Parteira no Balbina Mestrinho, no próprio Beneciente Portuguesa, no Hospital Militar de Manaus, na Clínica Dr. Gester e por fim trabalhou no Unimed por onde se aposentou. Lembro que era muito comum, na década de 60 e 70, a condenação e o preconceito para com as mulheres que trabalhavam fora de casa. Enfrentou esse sentimento hostil para criar os filhos e como tantas mulheres de seu tempo mostrou que trabalhar fora de casa é tarefa para as mulheres também e elas, pelo contrário, eram muito bravas por tal atitude.
O segundo sonho de Dona Iracema que presenciei foi o de construir uma casa no bairro de Petrópolis. Morávamos às margens do Igarapé de Manaus, no Beco Ipixuna, no Centro da Cidade. No começo tudo era bom, mas com o passar do tempo nossa casa começou a ser invadida por águas do Igarapé, tanto no período das cheias como também por grandes tempestades. Momentos que faziam seu coração ficar cheio de tristeza ao ver sua casa alagada, ter quer cuidar dos filhos e filhas, levantar os móveis para tentar salvá-los. Sem dúvida eram momentos de grande frustração, angústia e humilhação. Situação que acabou fazendo que minha mãe se empenhasse na construção da casa no bairro de Petrópolis. Uma luta que durou mais de dez anos. Quantos plantões aceitou para comprar cimento, tijolos, areia, para que esse sonho se realizasse. Meu pai também se submeteu, na vida militar dele, a ir e a estar no interior do Amazonas para aumentar o conforto de seus filhos e filhas. 
A cheia do Igarapé de Manaus, no ano 1982, acabou precipitando a nossa ida para a Casa ainda inacabada no Bairro de Petrópolis. Quando chegamos na casa, ainda faltava muitas coisas. Embuçar, pintar, colocar cerâmica e muito mais. Mas realizou seu sonho e deu para alguns de seus filhos mais novos a possibilidade de moradia digna, já que alguns deles já haviam casado.
Um terceiro sonho se revelou a partir da sua integração a Igreja de São Pedro Apóstolo no bairro de Petrópolis. Dona Iracema já era Católica, participava regulamente das missas na Paróquia de São Sebastião e da Renovação Carismática Católica. Mas na Paróquia de São Pedro Apóstolo, deu-se um novo chamado a sua fé católica. Continuou a participar da Renovação Carismática Católica em Petrópolis, mas foi na animação da Diaconia Sete, de Santa Inês, que ela e seu Ferreira tiveram novo sentido de vida. Ela foi agente de pastoral, Ministra da Eucaristia, buscou e articulou com seus irmãos e irmãs a efetivação da ação evangelizadora da Igreja nessa área. Neste caminho, encontrou uma paixão em sua vida, a Pastoral da Saúde do Bairro de Petrópolis. Fez dessa nova forma de ver a saúde, seu novo objetivo de vida. Montou a Farmácia Alternativa. Com remédios caseiros, método popular de tratar a vida das pessoas. Com base no conhecimento popular tradicional e às vezes até milenar, fez da Farmácia Alternativa um espaço de esperança, de amor ao próximo, e da Igreja que cria e estimula a vida plena. 
Dona Iracema e Sr. Ferreira também cederam o espaço de sua casa para vários sonhos coletivos. Um desses foi o Curso Pré-vestibular Alternativo de Petrópolis, que ajudou vários jovens e adultos a entrarem na Universidade Federal do Amazonas. Hoje uma Organização Não Governamental instalada aqui na frente da Igreja de São Pedro, mas que teve início na sua Casa e por lá ficou por mais de vinte anos, o ALTPET (o Alternativo de Petropólis). Também em sua casa houve frequentes reuniões de base da Igreja. Muitos outros sonhos se desenvolveram por lá. 
Muitos dos sonhos de dona Iracema ela levou consigo; alguns, realizou, como mostrei aqui, outros planos ela compartilhava com outras irmãs e outros irmãos que agora têm a tarefa de lavá-los adiante. 
A vida de Dona Iracema mostra que uma pessoa humilde, não deve aceitar as coisas e se conformar com as dificuldades. Com tempo, com luta, com garra, pode superar as adversidades e construir uma realidade melhor. 
Eu penso que a mamãe foi o que o Poeta Milton Nascimento cantou em sua música “Maria, Maria”, falando da mulher brasileira, dizia assim:
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida.
Eu tenho muito orgulho da vida de dona Iracema. Como disse Jó: Deus me deu, Deus me tirou, louvado seja pela vida de minha Mãe.