sexta-feira, 18 de maio de 2012

Pesquisadores analisam movimentos políticos no mundo nos 25 anos do CEPPAC - Agência UnB de notícias

UnB Agência - Universidade de Brasília (UnB)
LF Barcelos/UnB Agência
Pesquisadores analisam movimentos políticos no mundo
Debate integra série de seminários que celebra o cinquentenário da UnB e os 25 anos do Centro de Pesquisa e Pós-Graduação sobre as Américas
Daniela Gonçalves - Da Secretaria de Comunicação da UnB

Como é a militância política do século XXI? Em conferência promovida pelo Centro de Pesquisa e Pós-Graduação sobre as Américas (Ceppac), o professor Marco Aurélio Nogueira, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), descreveu a atuação da militância política em uma época de descrença generalizada no sistema democrático.

“O militante dos anos 70, 80 e 90 tinha uma ideologia, era disciplinado e disposto a se sacrificar pela causa, vivia em atividade 24 horas por dia e manifestava-se com meios sérios, ‘tristes’. Já o militante de hoje é o contrário. Ele não tem uma ideologia claramente definida, manifesta-se de forma ruidosa, opera pelo escracho e atua de forma esporádica”, avalia. Para ele, essas ocorrências indicam uma reorganização da democracia e quem sabe, a chave para a reinvenção da política.
Vários fatos relacionados ao modo de vida da sociedade interferem na “desorganização” da democracia, isto é, a crise do sistema de representação política, segundo o professor. Um deles diz respeito à individualização, ou seja, o indivíduo tem maior facilidade para proclamar sua autonomia diante dos grupos no século XXI. “Para que os humanos mantenham organizações funcionando, precisam dispensar uma quantidade de energia absurda. É difícil chegar a consensos, as pessoas estão sempre insatisfeitas. Isso eu chamo de estado de sofrimento”, define. Uma constatação disso seria a menor visibilidade das classes sociais na arena política e o esvaziamento das assembléias estudantis. Apesar disso, haveria uma multiplicação de lutas de afirmação particular como, por exemplo, aquelas relacionadas às questões de gênero, etnia e sexualidade. 
O professor Luis Filipe Miguel, do Instituto de Ciência Política da UnB, afirma que as novas formas de militância política estão mais voltadas para o desejo de autoexpressão do que de ação política propriamente dita, o que exigiria uma transcendência dos anseios individuais. Para a pesquisadora Adriana Saraiva, os movimentos contemporâneos expressam um desejo dos novos militantes de atuar diretamente na realidade sem mediadores, o que é uma característica do Anarquismo. “Não acho que movimentos como o Occupy Wall Street, Os Indignados na Espanha e Primavera Árabe estejam ligados a uma vontade de autoexpressão. Eles indicam a gestação de um processo político novo”, definiu. 
Nogueira explica que o questionamento do sistema político passou, nas últimas três décadas, de um centro unitário para milhares de pessoas. “Elas não estão conseguindo se organizar para promover mudanças. Essas acontecem em razão da pressão exercida por elas, mas não existe uma força que direcione as transformações.” Nogueira critica que, em contraposição aos vários setores da vida, a política não seja globalizada, isto é, permaneça sendo feita no âmbito dos Estados Nacionais. “Observamos nas pesquisas um déficit de legitimação dos governos e isso acontece porque eles estão descolados da sociedade”, disse.
VOLUNTARIADO - Segundo o professor Nogueira, o século XXI é caracterizado pela alta mobilidade ou disposição participativa, isto é, “as pessoas não aceitam mais ordens puramente emanadas de autoridades, elas querem dialogar, discutir”, disse. “Vejo nos meus filhos essa vontade de fazer alguma coisa para melhorar a vida de outras pessoas”, completa. Para ele, essa atitude é uma compensação ao baixo interesse pela política institucional. Além da atuação em ONGs, o indivíduo também participa da esfera estatal por meio de ferramentas como o orçamento participativo e o programa de voluntariado.

“Apesar de não estarmos saindo de uma guerra ou revolução, o tempo é sombrio porque há uma ausência de marca e espírito de luta. Vivemos em um mundo fragmentado, onde os estímulos unificadores se perdem”, analisa Maria Francisca Coelho, doutora em Sociologia pela UnB. Para ela, essa indisposição é um efeito dos muitos anos de luta por que o povo passou para estabelecer o sistema democrático. “Seríamos alienados se não estivéssemos frustrados com a política institucional de hoje. Em Brasília, os índices de abstenção nas votações entre jovens de 16 a 18 anos são os maiores do país. Muitos vêm nisso um indício de falta de consciência política, mas a omissão pode sinalizar uma profunda descrença no sistema”, argumenta.
Além disso, ela avalia que uma “cultura do não-aprofundamento” acaba fazendo com que as pessoas não se sintam incentivadas a se manifestar, mesmo que seja por meio do voto. “No Brasil, há uma disposição menor em relação à memória, ao conhecimento do passado recente, em comparação com o Chile e a Argentina. O país adora versões em detrimento da verdade dos fatos. Coisas sérias são discutidas com confetes”, disse.
Apesar disso, Maria Francisca não vê esse panorama como uma crise da sociedade, mas sim da Sociologia. “O nosso desafio é descrever as novas situações. Por isso acredito na força da pesquisa empírica. Temos que deixar um pouco de lado o que aprendemos”, acredita.
O questionamento sobre como fazer Sociologia em uma sociedade fragmentada também foi levantado pela professora do Ceppac Lilia Gonçalves. “Talvez nós devamos deixar de lado a totalidade e tentar explicar as sociedades, as américas latinas, adotando uma perspectiva mais antropológica para entender o que acontece em um lugar e não no outro”, propôs.
SEMINÁRIOS - Associado aos 25 anos do Ceppac e 50 anos da UnB, o I Ciclo Internacional de Seminários Afro-Latino-Américas Compartilhadas reúne os eventos que aconteciam antes de forma individualizada. “Percebemos que houve um esvaziamento desses encontros. Por isso, transferimos o evento para uma sala menor, assumindo um caráter mais intimista”, explicou o professor do Ceppac Cristhian Teófilo da Silva. Segundo ele, a reunião dos encontros em um ciclo permitiu que a produção das ciências sociais tivesse uma maior visibilidade, além de possibilitar que as pessoas se programassem previamente para participar das atividades, que seguem até o mês de setembro.
“Com isso, pretendemos também adotar uma visão de conjunto e interdisciplinar as discussões desses temas. É também uma maneira de repensar a metodologia de trabalhos dentro da universidade”, avalia.  O ponto comum de todos esses seminários são as problemáticas sociais continentais, como o desenvolvimento social e econômico, a crise da representação política e a migração.
Veja a programação completa: http://www.ceppac.unb.br/
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