quinta-feira, 19 de julho de 2012

Em defesa da Síria, do Brasil e do multilateralismo - Paulo Vinícius Silva

Existe uma opinião supostamente fiadora do marxismo-leninismo, pretende-se comunista, portanto, que nega a importância de um mundo multipolar. Segundo essa visão, a defesa de um mundo multipolar seria uma espécie de reformismo nacionalista vindo dessa vez do Sul. Destaque-se sua origem no Norte. Pois bem, essa opinião chega a denominar articulações de integração regional tais como a Alba, Mercosul, Unasul, CELAC como rearranjos imperialistas.
A Síria de Saladino, o grande general que retomou Jerusalém para dela fazer uma cidade aberta

Na verdade, infelizmente, tal opinião é antileninista. Assemelha-se ao mais limitado trotsquismo em seu quantopiormelhorismo, só que ao nível das relações internacionais. E é antileninista porque o "corifeu da filosofia da praxis" era tão antidogmático que mandou os donos do marxismo de então para as cucuias e não se deteve ante a oportunidade da Revolução Russa, e sobre a dialética, o contexto e a correlação de forças encontrou o caminho marxista para a revolução, mudando a face da Terra.
A Mesquita dos Omíadas, no centro de Damasco, primeira visitada pelo Papa João Paulo Segundo, exposta à guerra.

Por que o paralelo? Porque não paro há muitos dias de pensar nas ruas de Damasco, Síria. Não me esqueço do Castelo que foi fortalezade Saladino, nem de sua imagem em Damasco. Não me esqueço sobretudo dessa foto, que mostra um grupo de jovens palestinos que dançavam no referido castelo, celebrando a vida e falando da Palestina ocupada. Eu estive nas favelas para onde foram os palestinos após o massacre de Sabra e Shatilla em Beirute. Eu vi a divisão dos libaneses, cindidos entre credos e incapazes de se verem como nação. E na Síria eu vi uma Nação a se colocar como ponto de unidade entre diversos credos, vi xiitas, sunitas, cristãos, lado a lado, numa vida boa, num país lindo.
Com meus camaradas em Damasco na sede do Partido Comunista Sírio Khaled Bagdash

E eu percebo nesse padrão estadunidense o quanto de crime e monstruosidade há e os riscos que nos oferece. Eles fazem uma defesa hipócrita da democracia, estimulam cisões étnicas, promovem a insurgência interna baseando-se no fundamentalismo e em interesses mercenários. E depois, vem a ONU para legalizar o crime, e se não vem, foda-se a ONU, vem a OTAN e as tropas.

Na Síria há uma frente popular e uma sincera solidariedade anti-imperialista que forjou um país soberano que sempre apoiou a causa palestina e a resistência libanesa às manipulações de Israel e EUA. Esse é o maior crime de Hafez el Assad e de Bashar el Assad e de seu povo. Não tenho dúvida do meu lado e louvo a coragem de China e Rússia ao se contraporem às "sanções" da ONU. É o fim da picada... o governo Sírio e a população são vítimas de inúmeros e cotidianos ataques terroristas e a ONU chancela o terrorismo made in USA e na Turquia, com clara infiltração, financiamento.
Era um hospital na região do Golan,veja como o imperialismo tem senso humanitário.

E depois? Depois o massacre, a divisão sectária, mais terrorismo, inúmeras vítimas, a destruição do país de Saladino, crimes e mais crimes. E então, o Irã. E outra vez veremos a pusilanimidade da esquerda liberal se somar ao imperialismo para preparar o caminho para o mesmo script da Líbia, do Iraque, do Afeganistão e da Síria. Profundo asco da cumplicidade dessa esquerda que a direita ama...

Aí, com a vanguarda posicionada, mirando China e Rússia, nesse mapa geopolítico da energia assegurado, os EUA voltar-se-ão para assegurar sua retaguarda. Observemos atentamente como o imperialismo joga em múltiplas arenas, desde a suposta defesa do meio ambiente, desde a infiltração na Amazônia, desde o golpe no Paraguai e a subversão mercenária na Bolívia. O mundo é um grande tabuleiro. Por isso mesmo, melhor se multipolar, melhor se for possível aproveitar as contradições, melhor se se puder impedir essa sanha guerreira e genocida, melhor se com múltiplos jogadores. O quantopiormelhorismo em relações internacionais só favorece o imperialismo, e devia se reivindicar trotsquista, por partilhar sua tacanha visão política em que tudo é preto e branco. O leninismo é criativo, baseia-se em princípios sim, mas também em contexto e correlação de forças. Jamais num contexto tão difícil como o que vivemos, um leninista diria que tanto faz um mundo multipolar ou não porque tudo é imperialismo.
Igreja Cristã alvo de bombardeio na Guerra dos seis Dias

Ao votar contra as "sanções" da ONU, Rússia e China cumprem papel de grande vulto na defesa dos interesses da Humanidade e do povo Sírio. Unamos ainda mais a América Latina, libertemo-nos, isso sim, do absurdo tributo que nos cobra o capital financeiro, parasita, poluidor e belicoso, que sustenta não apenas a poluição, mas a guerra, com o suor de nosso povo, graças à jogatina que alimenta a SELIC e o superávit primário. São recursos que poderiam preservar nosso meio ambiente, educar nosso povo, mudar a face do Brasil com grandes e inovadoras obras, gerando empregos para todos e todas, e preparando as nossas defesas econômicas, com a integração solidária com nossos vizinhos, e militar, porque não dá mais para deixar Pré-Sal e a Amazônia sob o olhar de forças armadas desarmadas ante um mundo em convulsão.
Juventude Palestina nas ruas de Bosra

Como dizia o Che, "ao imperialismo não se deve conceder um tantinho assim, nada!". É hora de ser internacionalista, de defender a Síria, de denunciar tanta agressividade imperialista. Não nos iludamos. O silêncio pusilânime pela mídia estimulado é o compromisso inaceitável com os inimigos que hoje miram a Síria, mas que amanhã se voltarão contra o Brasil.