terça-feira, 31 de julho de 2012

Em assembleia tumultuada, professores decidem manter greve - UnB Agência - Universidade de Brasília (UnB)

UnB Agência - Universidade de Brasília (UnB)

Emília Silberstein/UnB Agência

Em assembleia tumultuada, professores decidem manter greve
219 docentes votaram a favor da continuidade da paralisação e 54 contra. Descontrolado, o presidente da ADUnB foi afastado do comando da reunião

Ana Lúcia Moura e Diogo Lopes de Oliveira - Da Secretaria de Comunicação da UnB

Depois de três horas de bate boca, os professores da Universidade de Brasília decidiram manter a greve, iniciada em 21 de maio: 219 docentes foram a favor da continuidade da paralisação. Apenas 54 aceitaram a proposta do Governo Federal, apresentada na semana passada. Não foram contabilizadas abstenções. A decisão foi tomada em assembleia tumultuada. Descontrolado, Rafael Morgado, presidente da Associação do Docentes (ADUnB), foi afastado, sob vaias e protestos, do comando da reunião pelos próprios aliados.
O embate começou na abertura da assembleia, às 15h38, quando a ADUnB propôs consulta por meio de urna, que seria aberta após os debates e ficaria à disposição dos professores até às 21h de terça-feira. O resultado, a ser apurado na quarta-feira, definiria os rumos da paralisação. Por 162 votos a 146, e em meio a forte discussão, os docentes rejeitaram o modelo de votação proposto, elaboraram uma nova pauta e iniciaram os debates para encaminhamento da votação durante a própria assembleia. Veja aqui vídeo. Aproximadamente 400 professores lotaram o Anfiteatro 12, no Instituto Central de Ciências.
Durante a contagem dos votos, no entanto, após ouvidas as manifestações favoráveis e contrárias à continuidade da paralisação, o presidente da ADUnB, Rafael Morgado, decidiu, abruptamente, retomar o modelo de votação em urna, rejeitado pelos professores uma hora antes. “Estamos em regime de votação”, informou. “Aqueles que são favoráveis à proposta da ADUnB se manifestem”, pediu. Menos da metade dos professores presentes à assembleia ergueu os braços. “Há vários professores lá fora que estão alijados do processo de votação. Eles também têm o direito de votar e por isso o processo de votação será em urna”, disse, fazendo referência aos cerca de 40 professores que estavam no corredor do Instituto Central de Ciências no momento da votação. 
Emília Silberstein/UnB Agência

A declaração provocou revolta dos professores. Alguns levantaram, foram até a mesa e exigiram que o presidente da ADUnB mantivesse a decisão tomada no início da assembleia. Rafael Morgado insistiu que a votação seria em urna e ordenou que os funcionários do sindicato iniciassem a coleta de votos. “Golpista”, gritava, da plateia, a maioria dos professores. Estudantes engrossaram o côro.

Enquanto a gritaria ocorria, pelo menos dez professores formavam fila para preencher a cédula de votação. Alguns chegaram a assinalar a opção desejada e depositar na urna. Indignados, os professores contrários à medida cercaram a mesa exigindo que fosse cumprida a decisão tomada no início da assembleia. “Você sabe que essa votação não tem legitimidade”, bradava o professor Rodrigo Dantas, do Departamento de Filosofia, ao lado de Perci Coelho, integrante do Comando Local de Greve, e de outros professores. Rafael Morgado manteve a votação.
Emília Silberstein/UnB Agência

Rodrigo Dantas chegou a pegar o microfone, mas, antes de iniciar sua fala, Rafael Morgado arrancou os fios das tomadas, desligando o aparelho de som. “Impeachment”, gritavam professores. Após seguidas tentativas de diálogo, os professores Ebnezer Nogueira, ex-presidente da ADUnB, Itiberê Saldanha e Paulo Celso dos Reis Gomes, convenceram Rafael Morgado, de quem são aliados, a sair da assembleia para uma conversa reservada. Pediram que reconhecesse o resultado. “Nós perdemos”, disse Ebnezer. “Esse é um compromisso de campanha, que assumi ao entrar para o sindicato. Sou um homem de palavra”, respondeu Rafael, que chorava diante dos colegas.
De volta ao anfiteatro, Rafael Morgado fechou a urna e ameaçou deixar a assembleia, mas foi impedido por estudantes, que bloquearam a saída do anfiteatro. O bloqueio foi desfeito após Ebnezer Nogueira e Paulo Celso Gomes afirmarem aos alunos que a votação tal qual aprovada no início da assembleia estava assegurada. “O que vale é o que está na urna”, protestou Rafael Morgado, sinalizando discordância com os colegas. Com a saída do presidente, a secretária-geral da ADUnB, Sandra Maria da Luz, prosseguiu com a votação sem uso de urna, que resultou na continuidade da greve. Os votos foram contados um a um, em voz alta.
DISPUTA – As divergências sobre a proposta da ADUnB começaram ainda na sexta-feira, 27 de julho, quando a diretoria da Associação encaminhou e-mail aos filiados convocando para a assembleia. O documento informava que a assembleia permaneceria aberta, em regime de votação em urna, até às 21h de terça-feira, para analisar a proposta do Governo Federal.

A cédula de votação traria duas alternativas. De um lado, a proposta da ADUnB, que sugeria a aceitação da proposta do Governo Federal com o condicionante de que, dentro de 180 dias, fosse definido cronograma de equiparação dos salários dos aposentados nível adjunto 4 com os dos professores da ativa. De outro, a proposta do Comando de Greve de rejeitar o plano apresentado pelo Governo Federal. “A assembleia abrirá neste momento e seguirá até terça-feira, às 21h, quando a urna fechar. Será em urna porque este foi um compromisso assumido em campanha e que tenho a obrigação de executar, segundo o regimento”, explicou Rafael Morgado, sob vaias, ao apresentar a proposta durante a assembleia.

Os protestos foram reforçados por nota dos ex-diretores da ADUnB, lida pela professora Rachel Nunes da Cunha, do Instituto de Psicologia: “A atual diretoria da ADUnB pretende controlar o processo deliberativo via mecanismos que, sob seu estrito domínio, tolhem o nosso direito de, democrática e publicamente, definir os rumos de nossas lutas que, tradicionalmente, vimos definindo reunidos em assembleia”, afirma o documento. O momento de tumulto que se seguiu foi controlado após proposta do professor Carlos Saito, do Departamento de Ecologia, e membro do Comando Local de Greve, de votar cada item da proposta original da ADUnB, quando foi rejeitada a votação em urna.

DEBATE – Após vencido o impasse sobre o modelo de votação, os professores iniciaram o debate. Argumento central dos contrários à proposta do Governo Federal: era precipitado aceitar proposta considerada insuficiente uma vez que a categoria conseguiu garantir a negociação. “O Governo não contemplou a nossa proposta. Não entrei em greve por 5%, 10% ou 25% de reajuste, mas pela reestruturação da carreira. A greve é um compromisso com o país ”, completou Rafael Villas Bôas, professor da Faculdade UnB Planaltina. “Entre uma proposta e outra das que o Governo Federal apresentou, mudaram-se vírgulas”, disse Claus Akira, do Departamento de Matemática.

O vice-presidente do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN), Luiz Henrique Schuch, lembrou que 35 assembleias de representações sindicais ligadas ao Andes-SN rejeitaram a proposta do Governo Federal. “Rejeitaram porque ela não atende à reivindicação principal da categoria, que é a reestruturação da carreira”, afirmou.

A ADUnB não definiu quando será a próxima assembleia. Na quarta-feira, os sindicatos que participam da mesa de negociação com o Governo Federal – Andes, Proifes e Sinasefe – se reúnem com representantes do Ministério do Planejamento para apresentar o resultado final das deliberações das universidades. Leia mais aqui.
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