quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Maurício Grabois, o centenário de um herói do povo brasileiro - PCdoB. O Partido do socialismo.

Maurício Grabois, o centenário de um herói do povo brasileiro - PCdoB. O Partido do socialismo.

Maurício Grabois, o centenário de um herói do povo brasileiro

Nascido em 1912, Maurício Grabois completaria 100 anos neste 2 de outubro. Mais que um dirigente destacado do Partido Comunista do Brasil, Grabois foi um herói do povo brasileiro. Ao tombar lutando nas selvas do Araguaia, semeou o solo desta Nação com as sementes da coragem que até hoje frutificam na luta dos que acalentam sonhos de justiça e igualdade para seu povo. Sua história e seu legado precisam e merecem ser cultivados pelas atuais e futuras gerações.

Por Renato Rabelo*
Na apresentação da biografia de Maurício Grabois – que será relançada em breve –, o camarada Quartim de Moraes registra que “do gesto à palavra, do punho erguido à mão estendida, do tiroteio ao debate, na ofensiva e na defensiva, são militantes imprescindíveis como Grabois que conferem consistência histórica aos partidos portadores de um programa revolucionário”.

Filho de judeus ucranianos que vieram para o Brasil durante a onda migratória do século 20, Grabois nasceu em Campinas, no interior de São Paulo, mas ainda criança percorreu o Brasil com os pais, morando em cidades diversas até que a família se fixasse em Salvador, onde ele e seu irmão caçula (José) receberam novos registros de nascimento. Assim, Maurício Grabois, paulista de nascença, passou oficialmente a ser meu conterrâneo, um novo baiano que carregaria para o resto de sua vida os traços de alegria, simpatia e coragem que são marcas comuns ao povo da Bahia.

Em 1931, com pouco menos de 20 anos, Grabois ingressou na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, sob a influência de jovens amigos revolucionários, aderiu à Federação da Juventude Comunista e logo em seguida entrou para o Partido Comunista do Brasil. Começava ali uma trajetória militante que converteria definitivamente sua vida numa jornada de combates em defesa da liberdade, dos trabalhadores, do Brasil e do socialismo.

Desde o levante da Aliança Nacional Libertadora (ANL), em 1935, até a derradeira batalha contra a ditadura nas selvas do Araguaia, Maurício Grabois se fez presente em todas as lutas do povo brasileiro, enfrentando com bravura as perseguições promovidas contra os comunistas na maior parte deste período conturbado da nossa história. Marinho, Joaquim, Amadeu, Celso foram alguns dos nomes que ele teve de adotar para despistar a repressão enquanto esteve na clandestinidade.

As batalhas que travou em nome da causa socialista se deram em diversos fronts. Um dos mais profícuos foi na frente de comunicação e elaboração teórica. Jornalista nato, Grabois foi um dos responsáveis pelo resgate do jornal A Classe Operária, órgão central do Partido Comunista do Brasil e, nas décadas seguintes, ajudou na criação de diversos outros instrumentos de agitação e propaganda das ideias comunistas.

No final da década de 1930, Maurício Grabois já integrava o núcleo nacional de direção do Partido e foi, desde então, um dos pilares da construção e da resistência partidária ao lado de outros dirigentes como João Amazonas, Luiz Carlos Prestes, Amarílio Vasconcelos, Pedro Pomar, Diógenes Arruda e tantos outros.

Em meados da década de 1940, com o Partido fortalecido e vivendo um de seus breves momentos de legalidade, o coletivo dirigente do qual Grabois fazia parte ajudou a democracia brasileira a alcançar êxitos notáveis, entre eles a convocação da Assembleia Nacional Constituinte e a realização de eleições em dezembro de 1945, nas quais foram eleitos Grabois e mais treze deputados comunistas, além do senador Luiz Carlos Prestes. Era a segunda grande vitória dos comunistas desde a reorganização da legenda na Conferência da Mantiqueira. Quase oito meses depois, o país recebeu a Constituição que enterrou os entulhos do Estado Novo.

O escritor Jorge Amado, que integrou a mesma bancada constituinte, escreveu em suas memórias que Grabois era, de todos os parlamentares comunistas, o de maior vocação, “um brilhante deputado”. “Não da mesma forma que era brilhante Marighella: diferente, menos zombador, mais malicioso”, escreveu. “Recordo ainda hoje um discurso que Maurício pronunciou às vésperas da cassação da bancada comunista, respondendo a Flores da Cunha que nos acusara de traidores da pátria. Um primor de discurso, de exemplar dignidade”, registrou Jorge Amado, enfatizando que, além de companheiros, tinham sido amigos.

Com os mandatos comunistas cassados em 1947, Grabois passou a atuar com afinco, tanto no plano teórico como na articulação política, para que o Partido Comunista mantivesse o rumo revolucionário.

Grabois deixou uma vasta e respeitada obra que analisa diferentes aspectos da teoria marxista e da realidade brasileira. Muito do que escreveu serviu de orientação política para ajudar nos embates que garantiram a passagem do país pelos governos de Juscelino Kubitscheck e João Goulart, em seu início, sem retroceder ao regime de força que combatera no final dos anos 1930.

Ao lado de Amazonas e Pomar, Grabois foi artífice e dirigente da reorganização histórica do PCdoB em 1962. E alguns anos depois comandou uma frente de resistência heroica à ditadura militar, liderando os combatentes que se embrenharam na selva amazônica e protagonizaram a famosa Guerrilha do Araguaia. Nela, Grabois tombou em combate, em 25 de dezembro de 1973, aos 61 anos. Também no Araguaia tombou seu filho André Grabois, junto com outras dezenas de guerrilheiros que combateram o bom combate em prol de um Brasil democrático com justiça e igualdade para seu povo.

Quatro décadas depois, a sociedade brasileira – em especial os familiares – ainda reclama o resgate dos restos mortais dos guerrilheiros e camponeses assassinados no Araguaia, até hoje tidos como “desaparecidos”. Neste sentido, o Estado brasileiro acumulou uma dívida histórica que só agora começa a ser quitada com a abertura dos arquivos da ditadura e a constituição da Comissão da Verdade, encarregada de esclarecer as graves violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988.

Memória e legado


No último mês de março, promovemos no Rio de Janeiro uma grande festa para celebrar os 90 anos do Partido Comunista do Brasil. Na mesma cidade onde o Partido foi fundado em 1922, celebramos agora, com um novo evento, o centenário de Maurício Grabois. E o fazemos num ambiente de conquistas para o povo brasileiro, com avanço da nossa democracia, inserção soberana e altiva do Brasil no mundo e diminuição histórica da desigualdade.

Ao mesmo tempo, celebramos a trajetória histórica dos comunistas num momento de franca expansão e de fortalecimento do nosso Partido. O PCdoB cresce em ritmo acelerado, ultrapassa marcas históricas em número de filiados e de militantes; está presente em todos os níveis de governo (da presidência da República a prefeituras), tem uma bancada parlamentar atuante e muito respeitada, uma presença forte e ativa nos movimentos sociais, atuando como força dirigente em muitas organizações populares e de trabalhadores. Na campanha eleitoral em curso, os comunistas ganham protagonismo inédito na disputa de poder local com candidaturas competitivas em diversas capitais e cidades importantes do país. No exterior, o PCdoB é reconhecido e respeitado pelas organizações e os partidos revolucionários de todos os quadrantes.

Estes resultados não são obra exclusiva da atual geração. Foi graças à militância abnegada de diversas gerações de comunistas e lutadores do povo que acumulamos forças para chegar a esta conjuntura positiva para o Partido, para o Brasil e seu povo. Ainda temos enormes desafios pela frente até alcançarmos o objetivo maior de construção de uma sociedade socialista. E são exemplos como o de Maurício Grabois, que deu a vida em prol desta causa, que nos animam a continuar a jornada pela emancipação definitiva dos trabalhadores e do povo.

* Renato Rabelo é presidente nacional do Partido Comunista do Brasil