terça-feira, 27 de setembro de 2011

Vermelho: Entrevista de Socorro Gomes, do Conselho Mundial da Paz,em seu retorno da Palestina ocupada

Socorro Gomes: "É uma obrigação aprovar o Estado palestino" - Portal Vermelho


Em terras brasileiras, após liderar uma missão do Conselho Mundial da Paz (CMP), na Palestina, Socorro Gomes, presidente do CMP e do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), falou com exclusividade ao Vermelho sobre a experiência de estar em território palestino e de acompanhar, de lá, a repercussão da abertura da 66º Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).




Vermelho: O objetivo da missão na palestina foi atingido?Socorro Gomes: Sim. Entre as 12 organizações que formaram a missão, havia duas entidades internacionais, o Conselho Mundial da Paz (CMP) e a Federação Mundial da Juventude Democrática (FMJD), liderada por Tiago Vieira, que foram até lá com objetivo de intensificar a campanha pela paz no Oriente Médio. Fomos levar a solidariedade do Conselho Mundial da Paz (CMP) ao povo palestino, à sua luta pela desocupação de seu território, e demonstrar a indignação com a política criminosa de Israel. Além disso, apoiamos seu pleito como Estado soberano na Organização das Nações Unidas [ONU].

Vermelho: E a população está otimista com relação à criação do estado Palestino?
SG: Estão todos extremamente otimistas e de acordo com a estratégia da OLP [do pedido de reconhecimento pela ONU]. Para se ter ideia, 80% dos palestinos apóiam o pedido de reconhecimento do Estado palestino. Em Israel, segundo dados passados por parlamentares, 64% aceitam o Estado palestino.

Vermelho: E na sua avaliação, quais as chances que a Palestina tem de ser reconhecida como um estado soberano?
SG: Tudo indica que a grande maioria das Nações Unidas apóia a criação do Estado palestino. Isso porque há uma questão primordial que está em jogo, que é a premissa de estar de acordo com o direito internacional. A OLP está seguindo as determinações feitas pela própria ONU, em 1947,de partilhar o território a partir da criação de dois Estados: o de Israel e o da Palestina. Por isso, é essencial que as Nações Unidas assumam suas responsabilidades, é uma obrigação aprovar a criação do Estado palestino.

No entanto, os Estados Unidos (EUA) já disse que vai interceder pela não criação do Estado palestino, argumentando que os palestinos têm que se entender com os israelenses. Ora, é isso que vem sendo tentado há 20 anos e não há avanços justamente pela postura militarista de Israel, que insiste em usar a força bruta para continuar saqueando os palestinos e, assim, mantendo esse crime contra a humanidade, visando a dominação da região que é rica em água e petróleo. São interesses comerciais e estratégicos que estão se sobrepondo aos interesses humanitários.

Vermelho: Quais os compromissos e encontros marcaram a viagem?
SG: Fomos recebidos pelas principais organizações e grupos representativos como a Autoridade Nacional da Palestina (ANP), a Organização Pela Libertação da Palestina (OLP), a Frente Democrática pela Libertação da Palestina e a Frente Popular pela Libertação da Palestina, o Conselho Legislativo do parlamento palestino, o Partido Popular da Palestina ( PPP) , além de movimentos sociais israelenses e membros do parlamento de Israel e do Partido Comunista de Israel, com quatro membros no parlamento. O partido é composto por israelenses e árabes que atuam juntos contra a ocupação criminosa do território da Palestina.

Vermelho: Com relação aos efeitos diretos dos conflitos na Palestina, o que mais impressionou a delegação durante a visita?
SG: Alguns relatos dão conta de que atualmente 5.800 pessoas estão presas, sendo 250 menores de 18 anos,34 mulheres, 21 membros do Conselho Legislativo(parlamento). O próprio presidente do parlamento se encontra numa solitária há dois anos, com outros cem prisioneiros. O muro erguido em torno dos reservatórios de água e do petróleo, descoberto recentemente, já tem 820 quilômetros de extensão. Centenas de árvores foram queimadas e cinco aldeias atacadas em represália à presença da Autoridade Nacional Palestina (ANP) na ONU. Além disso, o muro divide famílias, trabalhadores de seus locais de trabalho. Soubemos que há a intenção de expulsar mais de 30 mil árabes palestinos, sendo mais de 27 mil só na Cijordânia.

Vermelho: E como foi entrar na Palestina? Ainda é muito difícil entrar por conta da segurança israelense?
SG: No aeroporto fomos totalmente revistados, no checkpoint [postos israelenses de controle militarizados] também fomos obrigados a esperar por um longo tempo e novamente revistados. Na volta , a delegação também ficou uma hora numa barreira militar e outro tempo no aeroporto israelense, correndo o risco de perder o vôo. É uma situação que se assemelha muito ao aparteid da África do Sul. É um estado militarizado completamente. Inclusive, tem retirado recursos de suas áreas sociais para injetar na militarização, com treinamento militar feito com colonos israelenses. Trata-se de uma política que está a serviço dos EUA, que tem se colocado como inimigos da paz para manter hegemonia militar no mundo.

Vermelho: Quais os próximos passos?
SG: Vamos dar continuidade à campanha, exigindo que os países se posicionem oficialmente contra a política armamentista de Israel , que é o terceiro maior exportador de armas. É preciso tomar medidas para sinalizar claramente que o mundo quer a paz. O CMP enviou uma carta aberta a Assembleia Geral da ONU. Um novo documento será redigido nos próximos dias, em conjunto com a Federação Mundial da Juventude Democrática (FMJD).


Deborah Moreira, da redação do Vermelho