quarta-feira, 16 de março de 2016

Em defesa da direita, FHC chama Lula de “analfabeto” - Portal Vermelho


Ao chamar, deselegantemente, Lula de "analfabeto", Fernando Henrique Cardoso expõe seu elitismo e repete velhos preconceitos reacionários das décadas de 1940 e 1950. Oh cabeça ultrapassada!

Por José Carlos Ruy



A elite incomodada Além de deselegante e preconceituosa, a declaração de hoje (16) do grão-tucano Fernando Henrique Cardoso revela a verdadeira linha de classe que corta, alto abaixo, a conjuntura brasileira de hoje e separa o país entre uma minoria muito reduzida, e que ele representa muito bem e se manifestou pelo impeachment neste domingo (13), e a grande maioria do povo brasileiro, que vai ocupar as ruas, pela legalidade e pelo mandato de Dilma Rousseff, na sexta-feira (18).

Fernando Henrique Cardoso não teve o pudor de declarar que o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva não pode governar “porque é analfabeto”.

Demonstrando forte contrariedade com a decisão da presidenta Dilma Rousseff de nomear Lula para a chefia da Casa Civil da presidência da República, FHC saiu-se com esta preciosidade reveladora de seu pensamento elitista e anti-povo: a nomeação, disse, é "um erro do ponto de vista da organização do governo". E continuou: "Tem que ter cabeça nova, não é só ser político, é preciso conhecimento. Conhecimento é fundamental. Você não pode dirigir esse país sendo analfabeto. Não dá"!

Além de seu elitismo, de sua opção de classe, contra os trabalhadores, o povo e os brasileiros, FHC deixou claro, nesta frase, o forte ciúme que sente de Lula.

Afinal, tendo apenas um humilde diploma de torneiro mecânico, pelo Senai, Lula é amplamente considerado como o melhor residente que o Brasil já teve (muito à frente de FHC), e foi o mais agraciado por diplomas de todo tipo. São mais de 260, e entre eles se destacam os chamados honoris causa, de universidades brasileiras e estrangeiras - entre estas a Universidade de Coimbra (Portugal), Politécnica de Lausanne (Suíça) Sciences-Po (Institut d'Etudes Politiques de Paris), pela Universidad Nacional de La Matanza e Universidad Metropolitana de la Educación y el Trabajo (Argentina).

Afinal, FHC, sendo doutor pela Universidade de S. Paulo, jamais teve reconhecimento tão grande! Neste particular, trata-se de um sentimento pessoal que a elegância e a boa educação recomendam que não se deve revelar.

Na sequência de sua tentativa de desqualificar Lula, FHC deixou claras as razões de sua fúria e temor contra o presidente de origem operária. Ele convocou a sociedade (isto é, a camada de alta renda, escolaridade e branca que saiu nas ruas no domingo). Fez um chamado para a sociedade "reagir energicamente" contra a nomeação. E reconheceu: "Lula é competente no jogo político” e vai atrapalhar o golpismo em curso no país.

Colocar limite ao exercício dos direitos políticos é uma pretensão antiga dos setores mais reacionários da classe dominante brasileira. A restrição ao direito de voto sempre foi uma forma pela qual estes conservadores tentaram reduzir a expressão da vontade popular a um limite que não ameaçasse a ordem vigente e os privilégios da classe dominante.

O jurista democrático Osny Duarte Pereira mostrou como, na Assembleia Nacional Constituinte de 1946, um grupo de deputados tentou favorecer candidatos a cargos eletivos formados em Ciência Política, Administração ou Direito. Um deles, o arquiconservador Ataliba Nogueira (PSD-SP) quis que os votos dados a candidatos advogados fossem contados em dobro! (Osny Duarte Pereira, Que é constituição? Rio de Janeiro, 1964).

Anos depois essa pretensão antidemocrática ainda se mantinha. Na década de 1950 o jornalista da UDN (antecessor do atual PSDB) Afonso Henriques defendeu o que chamou de “voto cultural progressista”: proibição do voto aos analfabetos; valia um o voto do eleitor alfabetizado sem ter concluído o curso primário; valia dois o voto do eleitor com primário completo; valia quatro o voto do eleitor com curso superior.

Isto é, como FHC, aqueles conservadores aceitavam a contragosto a existência de eleições livres, e queriam regras para, a pretexto de valorizar os mais escolarizados (dentro do velho preconceito elitista de que “o povo não sabe votar”), dar maior peso ao voto da classe dominante e seus serviçais diretos (Armando Boito Jr. O golpe de 1954: a burguesia contra o populismo. São Paulo, 1982).

Em sua frase deselegante, FHC diz que o governante precisa “ter cabeça nova”. Mas, incoerente com essa exigência, ele revela uma cabeça antiga, ultrapassada, perdida nos temas da direita brasileira das décadas de 1940 e 1950. Que exige privilégios para a classe dominante e que limitar o exercício dos direitos políticos aos trabalhadores e ao povo brasileiro. Vencer este tipo de pretensão tem o significado democrático de reconhecer, como está na Constituição, a igualdade entre todos os brasileiros. E isso a direita não quer, como FHC deixa claro mais uma vez.