sábado, 8 de março de 2014

Vladimir Putin sobre a situação na Ucrânia (2/3) - Coletivo Vila Vudu

4/3/2014, Encontro com jornalistas, Kremlin (texto transcrito)
http://eng.news.kremlin.ru/news/6763



[continuação]

VLADIMIR PUTIN, PRESIDENTE DA RÚSSIA: Suas perguntas, por favor.

PERGUNTA: Sr. Presidente, pode dizer se o senhor esperava reação tão forte dos seus parceiros ocidentais, contra as ações da Rússia? Pode dar-nos detalhes de suas conversas com seus parceiros ocidentais? A única coisa que se ouviu foram notícias do seu serviço de imprensa. E o que pensa sobe a reunião do G8 em Sochi – acontecerá?

VLADIMIR PUTIN: Sobre a reação esperada, se o G8 se realizará e sobre as conversas. Todas essas conversas são confidenciais, algumas acontecem até por linhas protegidas. Assim sendo, não estou autorizado a divulgar o que discuti com os parceiros. Mas posso comentar algumas declarações públicas, feitas por meus colegas ocidentais; sem dar nomes; comento-as só em termos gerais.

A que prestar atenção? Sempre há alguém a dizer que o que a Rússia faz não seria ilegítimo. Pergunto: “Será que supõem que tudo que o que eles fazem é sempre legítimo?” A resposta é “Sim, eles supõem”. Então, tenho de lembrar-lhes o que os EUA fizeram no Afeganistão, Iraque e Líbia, onde agiram sem autorização da ONU ou distorceram completamente o conteúdo daquelas resoluções, como no caso da Líbia. Nesse caso, como vocês sabem, a resolução só autorizava a fechar o espaço aéreo para a aviação de Gaddafi. E a coisa terminou, como se sabe, com bombardeios aéreos e operação em terra, pelas forças especiais.

O que se vê é que nossos parceiros, especialmente os EUA, sempre claramente formular seus próprios interesses geopolíticos e de estado, e os seguem persistentemente. Então, usando o princípio “Ou estão conosco ou estão contra nós”, dividem o mundo. E os que não se enquadrem, são ‘espancados’ até se enquadrar.

Nossa abordagem é diferente. Partimos da convicção de que sempre temos de agir com legitimidade. Eu, pessoalmente, sempre defendi que temos de agir em estrito cumprimento da lei internacional. Quero reforçar, mais uma vez, que, se tomarmos a decisão, se eu decidir usar as Forças Armadas russas, será decisão legítima, em plena obediência a todas as normas gerais da lei internacional – porque recebemos um pedido de ajuda do presidente legítimo –, e, também, em plena obediência aos nossos compromissos, que, nesse caso, coincidem com nossos interesses de proteger um povo com o qual temos estreitos laços históricos, culturais e econômicos. Essa é missão humanitária. Não visamos a subjugar ninguém nem a dar ordens a ninguém. Mas não podemos ficar indiferentes se vemos aquele povo ser perseguido, destruído e humilhado.

Seja como for, espero sinceramente que não seja necessário chegar até isso.

PERGUNTA: Como o senhor avalia a reação do ocidente aos eventos na Ucrânia e as ameaças contra a Rússia: estamos diante de possíveis sanções ou da expulsão do G8?

VLADIMIR PUTIN: Quanto às sanções. Quem mais se deve preocupar com as consequências das sanções é quem aplica as sanções. Entendo que, no mundo moderno, no qual tudo está interconectado e é interdependente, é possível causar danos a outro país, mas sempre será dano mútuo. Aí está algo que todos devem manter sempre em mente. Isso é uma coisa.

A segunda coisa, e a mais importante: já disse aos senhores o que nos motiva. Mas... o que motiva nossos parceiros? Eles apoiaram um golpe para tomada armada e inconstitucional do poder; declararam o novo poder legítimo e agora estão tentando dar-lhes apoio.

Devo dizer que, apesar de tudo isso, temos sido pacientes e até dispostos a cooperar; não queremos romper nossa cooperação. Como vocês devem saber, há alguns dias instruí o governo a considerar como se podem preservar os contatos até com aqueles poderes em Kiev que não consideramos legítimos, para não comprometer nossos laços na economia e na indústria. Entendemos que nossas ações têm sido absolutamente razoáveis. Entendemos também que ameaçar a Rússia sempre é contraproducente e danoso.

Quanto ao G8, não sei. Estaremos prontos para hospedar o encontro com nossos colegas. Se não querem vir... que seja.

PERGUNTA: Posso acrescentar algo, sobre os contatos? Como vejo as coisas, o senhor considera legítimo o primeiro-ministro da Crimeia, sr. Aksyonov, como representante das autoridades do governo. O senhor está pronto a ter contatos com os que se consideram legítimas autoridades em Kiev?

VLADIMIR PUTIN: Já falei sobre isso. O senhor talvez não tenha ouvido.

PERGUNTA: Quero dizer, em alto nível, para uma solução política.

VLADIMIR PUTIN: Não parceiro no alto nível, lá. Lá não há presidente. E não pode haver, até que haja eleições gerais.

Quanto à Crimeia, o Parlamento foi formado em 2010, em dezembro de 2010, se bem me lembro. Há 100 deputados eleitos, que representam seis partidos políticos. Depois da renúncia do ex-primeiro-ministro, o Parlamento da Crimeia, como ordena a legislação vigente e pelos procedimentos legais, elegeram um novo primeiro-ministro em sessão do Conselho Superior da Crimeia. É claro que é definitivamente legítimo. Foram respeitados todos os procedimentos de lei; não houve sequer um ato ilegal.

E, quando há alguns dias, um grupo de homens armados tentou ocupar o prédio do Soviet Superior da Crimeia, houve indignação dos habitantes locais. Pareceu-lhes que alguém tentava aplicar na Crimeia o mesmo cenário de Kiev, lançar séries de atos terroristas e provocar o caos. É claro que os habitantes locais têm boas razões para preocupação. Por isso organizaram comitês de autodefesa e assumiram o controle sobre as forças armadas da Crimeia.

Casualmente, examinei as notícias, ontem, para ver sobre o que, exatamente, a população da Crimeia assumiu o controle. Há várias dúzias de unidades C-300, várias dúzias de sistemas de mísseis de defesa aérea, 22 mil soldados e mais. Mas, como eu disse, tudo já está sob controle do povo da Crimeia, e sem disparar um único tiro.

PERGUNTA: Sr. Presidente, um esclarecimento, por favor. As pessoas que bloqueavam o acesso às unidades do Exército da Crimeia usavam uniformes muito parecidos com o uniforme do Exército Russo. Eram soldados russos, o exército russo?

VLADIMIR PUTIN: Examine os uniformes dos exércitos dos soldados dos estados pós-soviéticos. Há muitos uniformes parecidos. E sempre se pode entrar numa loja e comprar qualquer tipo de fardamento.

PERGUNTA: Mas eram ou não eram soldados russos?

VLADIMIR PUTIN: Eram unidades locais de autodefesa.

PERGUNTA: Eram treinados? Se se comparam aqueles soldados com as unidades de autodefesa em Kiev…

VLADIMIR PUTIN: Meu caro amigo, veja o quão bem treinado era o pessoal que operou em Kiev. Todos sabemos que foram treinados em bases especiais em estados vizinhos: na Lituânia, na Polônia e na própria Ucrânia. Foram treinados por instrutores, por longos períodos. Foram divididos em dúzias e centenas, as ações foram coordenadas e havia bons sistemas de comunicação. Funcionava como um relógio. Você os viu em ação? Operavam como profissionais, pareciam forças especiais. Por que você pressupõe que os defensores da Crimeia teriam de ser menos bem organizados, piores?

PERGUNTA: Então, me explico melhor: tomamos parte no treinamento das forças de autodefesa da Crimeia?

VLADIMIR PUTIN: Não.

PERGUNTA: Como o senhor vê o futuro da Crimeia? O senhor considera a possibilidade de a Crimeia unir-se à Rússia?

VLADIMIR PUTIN: Não, não consideramos. De modo geral, creio que só residentes de um determinado país, com plena liberdade para escolher e em completa segurança, podem determinar o futuro do próprio país. Se isso sempre tivesse sido garantido aos albaneses do Kosovo, se fosse tornado possível em muitas diferentes partes do mundo, ninguém teria roubado a ninguém o direito à autodeterminação, o qual, que eu saiba, está fixado em vários documentos da ONU. Não, de modo algum. Não provocaremos essa decisão, nem promoveremos esses sentimentos.

Quero destacar que acredito que só quem viva num dado território tem o direito de determinar o próprio destino naquele território.

PERGUNTA: Duas perguntas. O senhor disse que enviar tropas à Ucrânia é medida extrema, mas o senhor não a descartou. Mas, se tropas russas entrarem na Ucrânia, pode ser o início de uma guerra. Isso não o preocupa?

E uma segunda pergunta: o senhor diz que Yanukovych não deu ordem para seus policiais atirarem contra o povo. Mas alguém atirou e, claramente, eram atiradores treinados.

VLADIMIR PUTIN: Muita gente, inclusive pessoas que estavam entre os manifestantes, manifestaram a opinião de que eram provocadores, de um dos partidos da oposição. O senhor não ouviu esses relatos?

RESPOSTA: Não, não ouvi.

VLADIMIR PUTIN: Procure esses relatos – não é difícil encontrá-los. Por isso é tão difícil chegar ao fundo dessa situação. Mas não há dúvidas de que o senhor e eu vimos, com certeza, quando os policiais Berkut lá estavam, só com seus escudos, sob fogo – e não eram armas de ar comprimido, que foram usadas contra eles, mas armas de assalto, que perfuraram os escudos. Isso, com certeza, nós vimos, todo mundo viu. E quanto a quem ordenou os tiros, não sei. Sei o que o sr. Yanukovych contou-me. E ele me disse que não deu ordem de tiro, em nenhum momento. Mais do que isso, depois de assinar o acordo de 21/2, ele deu instruções para que todas as unidades policiais se retirassem da capital.

Posso, até, lhe contar mais. Yanukovych telefonou-me; e eu lhe disse que não retirasse os policiais das ruas. Disse a ele “Você terá anarquia, você gerará o caos na capital. Pense no povo.” Mas, mesmo assim, ele retirou os policiais. Imediatamente seu próprio gabinete foi tomado, e o prédio do governo, e foi o caos, o mesmo do qual eu falei a Yanukovych, e que continua até hoje.

PERGUNTA: E sobre a primeira pergunta? Não o preocupa a possibilidade de uma guerra?

VLADIMIR PUTIN: Não. Porque não planejamos guerra alguma, nem combateremos contra o povo da Ucrânia.

PERGUNTA: Mas há soldados ucranianos, o exército ucraniano.

VLADIMIR PUTIN: Ouça com atenção. Quero que me compreendam claramente: se nós tomarmos essa decisão, será, sempre e necessariamente e unicamente, para proteger os cidadãos da Ucrânia. Quero ver que exército ucraniano se atreverá a atirar contra o próprio povo, com os russos lá, com os ucranianos; por trás dos ucranianos, não à frente, mas no apoio. Queria saber quem, na Ucrânia, daria ordem ao exército ucraniano para atirar contra mulheres e criança ucranianas que estão sob nossa proteção.

PERGUNTA: Posso fazer uma pergunta, sr. presidente? Nossos colegas, meus colegas jornalistas que estão atualmente trabalhando na Ucrânia, dizem, todos os dias, que a situação dos Berkut piora dia a dia (com exceção, talvez, da Crimeia). Em Kiev, especialmente, há oficiais da polícia antitumultos feridos, agora hospitalizados, mas que não recebem nenhum tipo de tratamento. Alguns, sequer recebem comida. E as famílias deles não podem nem sair de casa, porque estão cercados: há barricadas em torno das casas. Não têm comida, são humilhados. O senhor pode comentar isso? Há meio de a Rússia ajudar aquelas famílias e os policiais?

VLADIMIR PUTIN: Sim, é assunto que muito nos preocupa. Não são soldados nossos, nem estamos diretamente envolvidos nessa situação. Mas é, sim, uma questão humanitária grave. Seria oportuno que nossas organizações de direitos humanos se envolvessem nessa questão. Podemos pedir que Vladimir Lukin, só ou com seus colegas [da ONU], representantes da França, Alemanha e Polônia, que trabalharam para construir o conhecido acordo de 21/2/2014, que viajem até lá e verifiquem in loco a situação desses policiais Berkut, que não ofenderam nenhuma lei e agiram em obediência às ordens. São oficiais militares, enfrentaram os tiros, os coquetéis molotov, foram feridos. Aquela situação é difícil até de imaginar. Há leis que obrigam a alimentar e dar tratamento médico até a prisioneiros de guerra. As organizações de direitos humanos devem dar toda a atenção a esse caso. Desde já, garanto que receberão atendimento médico aqui na Rússia.

PERGUNTA: Sr. Presidente, voltando à reação ocidental. Depois do duro pronunciamento do secretário de Estado dos EUA, o Conselho da Federação sugeriu que chamássemos de volta nosso embaixador nos EUA. O senhor apoia essa ideia?

VLADIMIR PUTIN: O secretário de Estado dos EUA é, sem dúvida, homem muito importante, mas não é a autoridade que determina a política externa dos EUA. Ouvimos declarações de vários políticos e representantes de variadas forças políticas. A medida sugerida é medida extrema. Será usada, se for necessária. Mas realmente não quero usá-la, porque acho que a Rússia não é a única interessada na cooperação com nossos parceiros num plano internacional, e em áreas como economia, política e segurança internacional, a cooperação interessa tanto a nossos parceiros quanto a nós. É muito fácil destruir esses instrumentos de cooperação, e seria muito difícil reconstruí-los.

PERGUNTA: Rússia envolveu-se no destino de Yanukovych. Como o senhor vê seu papel futuro e seu destino futuro?

VLADIMIR PUTIN: É difícil dizer, não analisei detidamente essas questões. Acho que ele não tem nenhum futuro político – e disse a ele. Quanto a nos ter envolvido no “destino” dele – o que fizemos foi feito por questão de consideração humanitária. Assassinar presidente legítimo é o meio mais fácil para livrar-se dele. Acho que, se ficasse lá, teria sido assassinado. Mais uma vez, ressurge a mesma pergunta: mas por quê?

Afinal, vejam como tudo começou, o que desencadeou esses eventos. A razão formal é que ele não assinou o Tratado de Associação com a União Europeia. Hoje, já soa como total nonsense; é ridículo, até, falar disso. Mas o que quero dizer é que ele não se recusou a assinar o tal Tratado.

Yanukovych disse: “Analisamos detidamente esse Tratado e o conteúdo dele não atende aos nossos interesses nacionais. Não podemos aumentar o preço do combustível para os ucranianos, tanto quanto o Tratado exige, porque os ucranianos já vivem situação muito difícil. Não podemos fazer isso, nem isso, nem aquilo. Não podemos romper completamente e imediatamente nossos laços econômicos com a Rússia, porque nossa cooperação é muito extensa. (...) Yanukovych disse “Não posso fazer isso, assim, de repente. Vamos discutir mais.” Yanukovych não se recusou a assinar o Tratado: só pediu mais tempo para discutir o documento. E, na sequência, essa loucura toda começou.

E por quê? Teria feito algo que extrapolasse a autoridade que tinha? Não. Agiu estritamente no limite de sua autoridade; não infringiu lei alguma. Simplesmente se recusou a apoiar as forças que lhe faziam oposição, numa luta pelo poder. Nada há aí de excepcional. Como, por que, esse ‘nada’ inicial foi levado ao atual nível de anarquia, à derrubada ilegal de governo legítimo, com a Ucrânia lançada no caos em que está hoje? Tudo, aí, me parece inaceitável.

Não é a primeira vez que nossos parceiros ocidentais fazem isso na Ucrânia. Às vezes tenho a sensação de que em algum lugar naquele poço imenso, nos EUA, alguém senta-se num laboratório e põe-se a fazer testes, como se todos fôssemos ratos de gaiola, sem realmente compreender as consequências do que fazem. Por que tinham de fazer isso? Quem explica o que fizeram? Não há explicação.

O mesmo aconteceu durante o primeiro levante na praça Maidan, quando Yanukovych foi bloqueado longe do poder. Quem precisava daquele terceiro turno de eleições? Em outras palavras, a coisa toda virou farsa – a vida política da Ucrânia foi convertida em farsa. Nenhuma consideração à Constituição. Agora, vocês veem, estão ensinando às pessoas que, se uma pessoa pode violar a lei, todos podem; assim, geraram o caos. O perigo é esse.

Em vez disso, é preciso ensinar as sociedades a seguir outras tradições: a tradição de respeitar a lei maior do país, a Constituição, e todas as demais leis. Claro, nem sempre se conseguirá. Mas... agir como touro em loja de porcelana é contraproducente e muito perigoso. Há mais perguntas, por favor? [Continua]