sábado, 8 de março de 2014

Entrevista de Vladimir Putin, sobre a situação na Ucrânia (1/3) - Coletivo Vila Vudu



4/3/2014, Encontro com jornalistas, Kremlin (texto transcrito)
http://eng.news.kremlin.ru/news/6763


VLADIMIR PUTIN, PRESIDENTE DA RÚSSIA: Boa-tarde, senhores.

Sugiro que organizemos as coisas do seguinte modo, como uma conversa, mais do que como entrevista. Peço então que apresentem suas perguntas, vou reunindo e tentarei respondê-las todas. Em seguida, podemos ter conversa mais detalhada sobre pontos específicos que os interessem mais. Podemos começar.

PERGUNTA: Sr. Presidente, queria perguntar-lhe (faz tempo que o senhor não conversa conosco, então há muitas perguntas) como o senhor avalia os eventos em? O senhor entende que o Governo e o presidente em exercício, que estão no poder em Kiev, são legítimos? O senhor está disposto a fazer contato com eles, e sob que termos? O senhor entende que seja possível agora voltar aos acordos de 21/2, sobre o qual todos nós falamos tanto?

PERGUNTA: Sr. Presidente, a Rússia prometeu ajuda financeira à Crimeia e, ontem, o Ministério das Finanças recebeu instruções. Já se sabe claramente quanto estamos dando, de onde está saindo o dinheiro, sob que condições está sendo entregue e quando? A situação lá é muito difícil.

PERGUNTA: Quando, em que termos e para que objetivo pode ser usada força militar na Ucrânia? Em que medida o movimento está sendo feito conforme acordos internacionais assinados pela Rússia? Os exercícios militares que acabam de ser encerrado tem algo a ver com o possível uso da força?

PERGUNTA: Queremos saber mais sobre a Crimeia. O Sr. entende que acabaram as provocações, ou que ainda há alguma ameaça contra os cidadãos russos que estão agora na Crimeia e contra os falantes de russo? Qual a dinâmica geral da situação lá – as coisas estão mudando para melhor ou para pior? Ouvem-se os relatos mais diferentes.

PERGUNTA: Se o senhor decidir usar a força, o senhor já avaliou os possíveis riscos para o senhor, para o país e para o mundo: sanções econômicas, menos segurança global, possível fim dos vistos de entrada em vários países ou maior isolamento para a Rússia, como estão exigindo políticos ocidentais?

PERGUNTA: Ontem, o mercado de ações caiu muito na Rússia, em resposta à votação no Conselho da Federação, e o rublo atingiu o recorde de menor valor de câmbio. O senhor esperava essa reação? Quais, na sua avaliação, são as possíveis consequências para a economia? São necessárias medidas especiais agora, e de que tipo? Por exemplo, o Sr. acha que a decisão do Banco Central de mover-se para uma taxa flutuante de câmbio para o rublo, pode ter sido prematura? Na sua opinião, a decisão deve ser revogada?

VLADIMIR PUTIN: Ótimo. Comecemos por essas perguntas. Depois, continuamos. Não se preocupem: tentarei responder o maior número possível de perguntas.

Para começar, minha avaliação de o que aconteceu em Kiev e na Ucrânia em geral. Só pode haver uma avaliação: foi tomada anticonstitucional, tomada armada, do poder. Alguém questiona isso? Não, ninguém questiona. Há aqui uma pergunta que nem eu nem meus colegas com os quais discuti muito a situação na Ucrânia nos últimos dias, como vocês sabem – uma pergunta que nenhum de nós pode responder. A pergunta é: por que tudo aquilo foi feito?

Queria chamar a atenção de vocês para o fato de que o presidente Yanukovych, através da mediação de Ministros de Relações Exteriores de três países europeus – Polônia, Alemanha e França – e na presença de um de meus representantes (o Comissário Russo para Direitos Humanos, Vladimir Lukin) assinou um acordo com a oposição, dia 21 de fevereiro. Quero destacar que, nos termos desse acordo (e não estou dizendo que seja bom ou ruim, só estabelecendo um fato), o Sr. Yanukovych, na verdade, entregou o poder.

Aceitou todas as demandas da oposição: aceitou que se antecipassem as eleições parlamentares, as eleições presidenciais, e o retorno à Constituição de 2004, como a oposição demandava. Deu resposta positiva ao nosso pedido, ao pedido dos países ocidentais e, sobretudo, ao pedido da oposição, para que não usasse a força. Não emitiu uma única ordem ilegal, para atirar naqueles infelizes manifestantes. Além disso, ordenou a retirada de todas as forças policiais da capital, o que elas fizeram. Foi a Carcóvia, para participar de um evento e, no momento em que ele saiu, em vez de esvaziar e liberar os prédios públicos ocupados, eles imediatamente ocuparam a residência do presidente e o prédio do governo. Exatamente o oposto do acordo que acabavam de assinar.

Pergunto-me a mim mesmo, qual o objetivo disso tudo? Quero muito entender por que isso foi feito. O presidente de fato já cedera o poder, e creio que, como eu disse a ele, ele não tinha chances de ser reeleito. Quanto a isso, todos concordam, todos com quem falei pelo telefone nos últimos dias. Qual o objetivo de todas aquelas ações ilegais e inconstitucionais? Por que criaram tamanho caos no país? As ruas de Kiev ainda estão cheias de milicianos mascarados e armados. Aí estão uma questão ainda sem resposta. Queriam humilhar alguém e mostrar poder? Aí, só vejo ações absolutamente tresloucadas. O resultado é o exato oposto do que esperavam, porque suas ações desestabilizaram significativamente o leste e o sudeste da Ucrânia.

Agora, sobre como isso tudo aconteceu.

Na minha opinião, essa situação revolucionária já estava fermentando há muito tempo, desde os primeiros dias da independência da Ucrânia. O cidadão ucraniano comum, a gente comum, sofreu durante o reinado de Nicolau 2º, durante o governo de Kuchma, e Yushchenko e Yanukovych. Nada, ou praticamente nada, jamais mudou para melhor. A corrupção alcançou dimensões das quais nunca nem se ouviu falar na Rússia. Acumulação de riqueza e estratificação social – problema também agudo na Rússia – são muito piores, radicalmente piores na Ucrânia. A coisa lá é além do que possamos imaginar. De modo geral, todas as pessoas queriam mudanças. Mas ninguém apoiará mudança ilegal.

No espaço pós-soviético, onde as estruturas políticas ainda são frágeis e as economias ainda são fracas, é essencial que se usem só meios constitucionais. Nessa situação, ir além do marco constitucional sempre será erro cardinal. Devo dizer que compreendo aquelas pessoas na praça Maidan, embora não apoie o rumo que as coisas tomaram. Entendo que as pessoas em Maidan exigissem mudança radical, não alguma simples remodelagem cosmética, do poder. Por que exigem isso? Porque cresceram vendo um grupo de ladrões trocar de lugar com outro grupo de ladrões. Além do mais, as pessoas da Regiões não participam sequer da formação de seus próprios governos regionais. Houve tempo, na Rússia, quando o presidente nomeava os líderes regionais, mas eles tinham de ser aprovados pelas autoridades regionais. Na Ucrânia, são diretamente noemados. Nós já temos eleições; eles ainda não estão nem perto disso. E, lá, puseram-se a nomear todos os tipos de oligarcas e bilionários para governarem as regiões leste do país. Não é surpresa que as pessoas não aceitassem isso. Não é surpresa que vejam que, como resultado de uma privatização desonesta (e também aqui há muita gente que tem o mesmo pensamento), alguns tenham ficado imensamente ricos e que, agora, estivessem sendo levados ao poder.

Por exemplo: Kolomoisky foi nomeado Governador de Dnepropetrovsk. É escroque conhecido. Conseguiu ludibriar até um oligarca russo, Roman Abramovich, há dois ou três anos. “Tungou” Roman Abramovich, como nossos intelectuais gostam de dizer. Os dois assinaram um negócio; Abramovich transferiu vários bilhões de dólares; o sujeito jamais entregou o que vendera e embolsou o dinheiro. Quando eu perguntei a ele [Roman Abramovich]: “Por que você fez aquele negócio?”, ele disse: “Nunca pensei que esse golpe fosse possível”. Não sei, até hoje, se conseguiu reaver seu dinheiro, ou se acabaram por consumar o negócio. Mas aconteceu, realmente, bem assim, há alguns anos. Agora, esse mesmo escroque aparece nomeado Governador de Dnepropetrovsk. Não surpreende que as pessoas estejam insatisfeitas. Estavam insatisfeitas e continuarão insatisfeitas, se os que se autodesignam autoridades legítimas continuam a gir do mesmo modo.

O mais importante é que as pessoas têm de ter o direito de decidir o próprio futuro, de suas família, da região onde vivem, e têm de ter participação igual. Aí está algo que quero destacar: não importa em que parte do país alguém viva, ele ou ela tem de ter o direito de participar em condições de igualdade, para determinar o futuro do país.

As atuais autoridades são legítimas? O Parlamento tem ainda alguma legitimidade, mas os demais não, não são legítimos. O presidente-em-exercício, esse, definitivamente não é legítimo. De um ponto de vista legal, só a um presidente. Sabemos que não tem poder. Mas, ainda assim, já disse e repito: Yanukovych é o único presidente legítimo.

Pela lei ucraniana há três modos de remover um presidente: por morte, se ele pessoalmente renuncia, ou por impeachment. O impeachment é processo constitucional, com regras bem claras. Envolve a Corte Constitucional, a Suprema Corte e o Rada (Parlamento). É procedimento complicado e demorado. Não houve nada disso. Portanto, do ponto de vista legal, não há sequer o que discutir.

Acredito, além do mais, que essa foi a razão pela qual extinguiram a Corte Constitucional – o que contradiz todas as normas legais, da Ucrânia e da Europa. Não apenas dissolveram a Corte Constitucional de modo ilegítimo, mas eles também – vejam só! – deram ordens ao Gabinete do Procurador Geral para iniciar processos criminais contra todos os juízes da Corte Constitucional. O que é isso? É o que chamam de justiça? Como é possível alguém mandar alguém iniciar processo criminal, sem acusação formal, sem inquérito? Iniciar um processo criminal por ordem superior é nonsense. É falcatrua.

Agora, sobre a ajuda financeira à Crimeia. Como vocês talvez já saibam, decidimos organizar o trabalho nas regiões russas, para ajudar a Crimeia, que nos pediu apoio humanitário. Claro que atenderemos o pedido. Não posso ainda dizer quanto, quando ou como – o governo está trabalhando nisso, reunindo as regiões que têm fronteira com a Crimeia, garantindo apoio adicional às nossas regiões, para que possam ajudar o povo da Crimeia. Não há dúvida de que ajudaremos, é claro.

Sobre o deslocamento de tropas, o uso de forças armadas. Até aqui, não houve necessidade, mas a possibilidade permanece. Quero dizer aqui que os exercícios militares que fizemos recentemente nada têm a ver com os eventos na Ucrânia. São exercícios planejados há muito tempo, mas não foram divulgados, naturalmente, porque era inspeção surpresa da prontidão da forças para combate. Estava planejado há muito tempo, o Ministro da Defesa informou-me e eu já tinha a ordem pronta para iniciar o exercício. Vocês talvez já saibam que os exercícios já foram concluídos; ontem, dei ordem para que as tropas voltem aos deslocamento regulares.

O que daria motivo para usar as Forças Armadas? – uma medida que, com certeza, só será tomada como último recurso.

Em primeiro lugar, a questão da legitimidade. Como vocês devem saber, recebemos pedido direto do presidente eleito e, como eu disse, do único presidente legítimo da Ucrânia, Sr. Yanukovych, que nos pediu o uso das forças armadas para proteger a vida, a liberdade e a integridade física dos cidadãos da Ucrânia.

Qual a nossa maior preocupação? Vemos o crescimento de forças reacionárias, nacionalistas e antissemitas em várias partes da Ucrânia, inclusive em Kiev. Vocês, jornalistas, com certeza viram um dos governadores algemado e preso com correntes a um poste, e atacado com baldes de água, no auge do inverno. Depois disso, foi trancado num celeiro e torturado. O que é isso? Seria democracia? Seria manifestação democrática? Esse governador havia sido nomeado recentemente, em dezembro, me parece. Ainda que se aceite que, lá, todos são corruptos, esse governador ainda nem teria tido tempo de roubar coisa alguma.

Sabem o que aconteceu quando tomaram o prédio do Partido das Regiões. Não havia no prédio membros do partido. Apenas dois, três empregados saíram, um deles um engenheiro, que disse aos invasores: “Por favor, deixem-nos sair. Deixem sair as mulheres, por favor. Sou engenheiro, nada tenho a ver com política.” Esse foi assassinado a tiros, ali, à frente de todos. Outro dos empregados foi preso num celeiro e o celeiro incendiado com coquetéis molotov. Foi queimado vivo. Seria manifestação de democracia?

Quando se veem essas coisas, entende-se o que preocupa os cidadãos da Ucrânia, sejam russos ou ucranianos, e a população que fala russo nas regiões leste e sul da Ucrânia. O que os preocupa é esse crime descontrolado.

Assim sendo, se virmos esse crime descontrolado espalhando-se para as regiões leste do país, e se aquele povo nos pedir ajuda, dado que já temos o pedido formal, legal do presidente legítimo, nos reservamos o direito de usar todos os meios ao nosso alcance para proteger aquelas pessoas. É resposta absolutamente legítima. Será usada como último recurso.

Há uma coisa que eu gostaria de dizer: nós sempre consideramos a Ucrânia não só como vizinho, mas como república vizinha irmã. E assim continuaremos. Nossas Forças Armadas são camaradas em armas, amigos, muitos dos quais se conhecem pessoalmente. Tenho certeza, e insisto, que militares ucranianos e russos jamais se enfrentarão: em combate, todos estarão do mesmo.

Aliás, isso de que estou falando – essa unidade – é o que já se vê na Crimeia. Vocês sabem que, graças a Deus, nenhum tiro foi disparado ali; não há mortes, exceto um atropelamento na praça há uma semana. O que se viu ali? As pessoas chegaram, cercaram unidades das forças armadas e conversaram com os soldados, convencendo-os a atender às demandas populares e o desejo do povo que vive ali. Não houve um tiro, um único confronto armado.

Assim, a tensão na Crimeia, associada à possibilidade de usarmos nossas forças armadas simplesmente se esvaiu, e não foi preciso usá-las. A única coisa que tínhamos de fazer e fizemos, foi reforçar a defesa de nossas instalações militares, porque estavam recebendo ameaças, e sabíamos de nacionalistas armados que tentavam aproximar-se. Reforçamos nossa proteção, e era a coisa certa a fazer e fizemos no momento certo. Parto da ideia de que não será necessário fazer nada desse tipo, no leste da Ucrânia.

Mas há algo que quero destacar. Obviamente, o que vou dizer não está compreendido na minha autoridade e não temos nenhuma intenção de interferir. Mas cremos firmemente que todos os cidadão da Ucrânia, repito: vivam onde viverem, devem ter iguais direitos de participar na vida de seu país e determinar seu futuro.

Se eu estivesse na pele daqueles que se consideram autoridades legítimas, não perderia tempo e cuidaria de seguir logo todos os procedimentos legais necessários, porque eles não tão mandado nacional para conduzir políticas domésticas, externas ou econômicas da, nem, especialmente, para determinar o futuro da Ucrânia.

Agora, a questão das Bolsas de ações. Como vocês talvez saibam, o mercado já estava oscilante antes de que a situação na Ucrânia deteriorasse. Tem a ver, basicamente, com a política do Federal Reserve dos EUA, cujas decisões recentes tornaram mais atraente investir na economia dos EUA, e os investidores puseram a mover seus investimentos, dos países emergentes para o mercado norte-americano. É uma tendência geral e nada tem a ver com a Ucrânia. Parece-me que o país que mais sofreu, dentre os BRICS, foi a Índia. A Rússia também foi atingida, não tão duramente como a Índia, mas foi atingida. A razão fundamental é essa.

Quanto aos eventos na Ucrânia, a política sempre influencia os mercados de ações, de um modo ou de outro. O dinheiro gosta de tranquilidade, estabilidade e calma. Mas acho que é desenvolvimento só tático, temporário, e influência temporária [continua].