sábado, 18 de maio de 2013

Quem tem medo dos médicos cubanos? | UJS

Quem tem medo dos médicos cubanos? | UJS




Pediatra cubano examina criança

O médico brasileiro que trabalha em Portugal, Pedro Saraiva, afirma achar estranho “o governo ter falado em atrair médicos cubanos, portugueses e espanhóis, e a gritaria ser somente em relação aos médicos cubanos. Será que somente os médicos cubanos precisam revalidar diploma?” ele complementa seu raciocínio e garante: “sou médico e vivo em Portugal, posso garantir que nos últimos anos conheci médicos portugueses e espanhóis que tinham nível técnico de sofrível para terrível”.

Para Saraiva, “profissional ruim há em todos os lugares e profissões. Do jeito que o discurso está focado nos médicos de Cuba, parece que o problema real não é bem a revalidação do diploma, mas sim puro preconceito”. Visão que se baseia na informação de que apenas 20 médicos cubanos, num universo de 182, foram aprovados no Revalida, exame brasileiro para avaliar a aptidão de estrangeiros para atuar no Brasil. Saraiva pergunta “será que estamos avaliando corretamente os médicos estrangeiros?”, porque, diz ele, em Portugal, 60 médicos cubanos prestaram exame e 44 foram aprovados (73,3%). Segundo Saraiva “há algo de estranho em tamanha dissociação”.

O preconceito é reforçado por texto da AMB (Associação Médica Brasileira) no qual afirma que “permitir que médicos, brasileiros ou não, formados fora do nosso país, especialmente em Cuba e Bolívia, venham trabalhar no Brasil sem que sejam testados seus conhecimentos, habilidades e atitudes é colocar a população em risco. Pior é dizer que esses irão para as cidades de mais difícil acesso, para as comunidades mais pobres”.

Posicionamento reforçado pelo CMF (Conselho Federal de Medicina). Editorial em seu site “condena veemente qualquer iniciativa que proporcione a entrada irresponsável de médicos estrangeiros e de brasileiros com diplomas de medicina obtidos no exterior sem sua respectiva revalidação. Medidas neste sentido ferem a lei, configuram uma pseudoassistência com maiores riscos para a população”. Será que se fossem médicos oriundo dos EUA e Europa, brancos de olhos azuis a posição seria a mesma?

Contraditoriamente, as entidades médicas brasileiras, que deveriam zelar pelo bem estar da população, atacam o projeto de lei 168/2012, do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), que obriga médicos recém-formados a trabalhar por dois anos em municípios com menos de 30 mil habitantes. O vice-presidente do CFM, Carlos Vital Corrêa Lima afirma que “não se pode exigir de um egresso que, contrariamente a sua consciência, ele vá exercer a profissão numa área desprovida de recursos, equipamentos e infra-estrutura minimamente adequada para assistência à população”.

Para tentar resolver essa demanda, o governo criou em 2011 o Provab (Programa de Valorização do Profissional de Atenção Básica) e ofertou salários de 8 mil reais para médicos que aceitassem trabalhar nas localidades onde não há assistência médica, mas até hoje somente 4 mil médicos aderiram. Isso mostra a elitização da Medicina no país. O acesso às universidades concentra-se na classe média alta devido aos altos custos dos cursos e os dados comprovam que nas universidades públicas 88% dos estudantes têm origem no ensino médio e fundamental privados.

Pior ainda. O Brasil conta com 371.788 médicos, sendo que 266.251 localizam-se nas regiões Sul e Sudeste, 70% do total, os outros 30% dividem-se no restante do país. Já começa pelo ensino superior do setor, no qual 58% das universidades são privadas e os quase 13 mil médicos que se formam anualmente já aprendem a lógica do mercado e voltam-se para instituições privadas ou consultórios particulares. Dados revelam que mesmo onde há mais médicos no setor público a presença é 4 vezes menor do que no privado.

De acordo com a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) existem no Brasil 46.634.678 usuários de planos de saúde e 354.536 postos de trabalho privados e consultórios particulares. Atendidos pelo SUS (Sistema Único de Saúde) os outros 144.098.016 de brasileiros em 281.481 postos ocupados por médicos no setor público.

A briga não é de hoje. Em 2005, o governo de Tocantins, por não conseguir profissionais para os locais mais afastados, contratou os cubanos. As entidades médicas do estado, comprometidas com o setor privado de assistência médica somente descansaram quando em 2007 um juiz concedeu liminar proibindo o trabalho dos médicos cubanos.

Para Pedro Saraiva, “infelizmente até a classe médica aderiu ao ativismo de Facebook. O cara lê a Veja ou O Globo, se revolta com o governo, vai no Facebook, repete meia dúzia de clichês ou frases feitas e sente que já exerceu sua cidadania” e acrescenta que “enquanto isso, a população carente, que nem sabe o que é Facebook morre à míngua, sem atendimento médico brasileiro ou cubano”. Ele afirma ainda que Portugal importou médicos cubanos em 2009 e “em 2012, sob pressão popular, o governo português renovou a parceria, com amplo apoio dos pacientes”.

Diferenças entre Cuba e Brasil

A OMS (Organização Mundial de Saúde) assegura que Cuba tem os melhores índices de saúde do continente americano e do Terceiro Mundo. Texto de Pedro Porfírio, em seu blog, afirma que a medicina cubana “prioriza a prevenção e educação para a saúde” e com isso reduz custos com o setor na ilha caribenha. Os cubanos têm um médico para cada 148 habitantes com 100% de cobertura no país, prevalece o “médico de família” na ilha socialista. O Distrito Federal, que tem a maior média brasileira, conta com 4,02 médicos por mil habitantes. O índice nacional brasileiro é de 1,95 médicos por mil habitantes.

A mortalidade infantil dos cubanos faz inveja é de 4,9 nascidos por mil habitantes, inferior aos índices de EUA e Canadá. A expectativa de vida está em 78,8 anos.

Os que se “indignam” com a contratação dos médicos estrangeiros, são os mesmo que não aceitam atender a população mais carente do interior do Brasil, esta visão não é somente corporativista, mas, extremamente elitista, pois, a entrada de médicos estrangeiros não mudara em nada a situação salarial dos médicos brasileiros, mas, poderá mudar profundamente a lastimável situação da saúde pública.