segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O programa Mais Médicos e a luta pela saúde pública - Paulo Vinícius Silva

Para Seu Louro, meu pai.



Fui muito afetado pela proposta do Programa Mais Médicos. Não sai da minha cabeça esse poema e carta, de Mário de Andrade a Câmara Cascudo, em 1925:

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti uma friagem por dentro
Fiquei tremendo muito comovido.
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte,
meu Deus !,
muito longe de mim,
na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem alado, negro de cabelo
nos olhos.
Depois de fazer uma pele com a
borracha do dia
Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse homem é brasileiro que nem eu.


O Mais Médicos é essa esperança para o nosso povo: de que será possível ser atendidos por um(a) médico(a), humanamente. Significará a Saúde Pública chegar às periferias a que só comparecem as balas e a violência do Estado. Será chegar às zonas rurais, ao gigantesco Norte, aos sertões, aonde se sofre sem remédio. É o sinal de que não será a pobreza e a distância a impedir a universalização do direito à saúde, e preventiva.

O bolsa família deu possibilidade à população mais vulnerável de não depender tanto, pela fome, do clientelismo municipal, aquelas "ajudas" nas mãos de cabos eleitorais, o cabresto da fome a constranger quem nada podia. O crescimento da economia e a valorização do salário mínimo possibilitaram  a ampliação da classe trabalhadora, com toda a dignidade do trabalho, que chegou até as tão exploradas empregadas domésticas. As cotas raciais e sociais nas universidades, escolas técnicas, a sua ampliação inédita; e mesmo as vagas do PROUNI mostraram que há um caminho, pelo estudo, que agora ainda mais se ampliará com a conquista da vinculação do fundo social e dos royalties do Pré-Sal que farão o investimento na Educação chegar a 10% do PIB.

Tudo isso é fruto da luta do povo. Do movimento sindical, estudantil, juvenil, negro, de mulheres,da esquerda. Foi essa a base das vitórias. Mas ainda há muito a conquistar.

E agora, como será quando milhões de pessoas se libertarem do clientelismo promovido por tantos doutores políticos que servem à direita?

Como será quando esse povo entender que tem direito a ter médico, que há muito mais médicos humanos e
solidários, no Brasil e em Cuba, Espanha, Portugal, Argentina. Como será o impacto na população pobre quando perceber tantos médicos negros e negras? sinalizando-lhes que, sim, é possível. Como será ver a integração latino-americana funcionando, com essa mão amiga, de Cuba, ao nosso povo mais carente da saúde?


Os cabrestos serão rompidos, a saúde melhorará, porque o povo não admitirá retrocessos. Isso fortalecerá a luta pelos avanços na saúde, por maior destinação do PIB, pela carreira dos médicos, valorizando-os e libertando-os dos achaques do mercado da vida. O bom não precisa ser inimigo do ótimo.Depende se gerará mais avanços, ou se acomodará. Isso está em disputa. As medidas emergenciais podem constituir importante base para mudanças cada vez maiores. Quem defende a irrelevância do emergencial para o povo, sua incompatibilidade com as mudanças profundas, longe de ser gesto revolucionário, contribui para o conservadorismo, porque a vida é movimento, é complexidade, é atalho, é desvio, nunca há linha reta para os sonhos. E o mérito do revolucionário não é o andar impossível da linha reta e burra, mas aquele que, mesmo curvo e acidentado, guarda em si a firme e inquebrantável convicção da meta em cada passo.

Os médicos(as) comprometidos com o povo devem sentir-se felizes, porque contarão com 6000 colegas  com quem poderão contar na sua difícil missão de salvar vidas, porque estão cercados pela população desesperada, diante de um estado clientelista e que não oferece condições, e submetidos ao grande esquema da ganância da medicina privada.

A percepção da saúde como direito avançará, assim como se evidenciarão as imensas dificuldades advindas do financiamento insuficiente da saúde e do peso da corrupção. Será também um duro golpe na medicina privada que nos explora, que nos adoece, que nos entope de remédios e nos mata e a nossos entes queridos sem qualquer misericórdia. Medicina privada que enriquece alguns e que adoece, enlouquece, corrompe e embrutece tantos outros profissionais da saúde. É preciso golpear o mercado de vidas, retirar-lhe essa condição de corromper, esse pode que exerce com base na sabotagem do SUS.

Para isso precisamos politizar ainda mais a luta pela saúde pública, colocar o povo no centro e combater o corporativismo. Por que? Porque o corporativismo é uma ideologia burguesa, é oposto ao classismo, ainda mais numa categoria como a dos médicos. É gêmeo siamês do economicismo, é o pai da aristocracia operária. É um completo engano para a classe trabalhadora, negando-lhe o papel de transformar o mundo pelas migalhas que a deformam.

Que história é essa que a categoria é um bloco só? É como o dono do jornal chamar o jornalista de colega. É como chamarem o trabalhador de colaborador, de nova classe média. É um estratagema para que os médicos vocacionados ao serviço público, por amor à vida, por amor às pessoas, estejam vinculados ao grande negócio comandado por laboratórios farmacêuticos internacionais, as empresas gigantescas e pequenas que atuam infinitas vezes de modo antiético, porque não pode ser ética uma medicina tão aferrada ao lucro. Não há ética sob o primado da ganância.

O corporativismo cega os médicos diante da brutal exploração de que padecem tantos deles, pela falsa esperança de serem burgueses. Fundamenta o silêncio diante da própria lógica do negócio que faz a medicina sempre correr atrás do prejuízo, que não previne, remedia com o estrago feito, e o faz mal, mas com imensos dividendos manchados em sangue e lágrimas.

Não poderemos vencer a batalha da saúde pública enquanto tanta gente boa, de bem, não perceber que o sistema impulsiona o corporativismo para separar os médicos do povo, e perpetuar a lógica do mercado, a lógica funesta que impede o SUS de funcionar, por sabotagem, por competição, por corrupção, por leniência do Estado, por falta de financiamento adequado e por falta da valorização profissional que eleve a medicina à condição de carreira de Estado, libertando os bons profissionais desse labirinto kafkiano que os impede de ver que não são a mesma coisa que os barões da medicina e seu business.

Para tudo isso, o Mais Médicos é um primeiro passo porque coloca o povo no centro do debate da saúde pública, porque amplia a consciência do direito, porque abre condições para fortalecer a luta pelo SUS e a saúde pública.

Não é à toa que o corporativismo leva a categoria ao anticomunismo, ao ódio à esquerda, à aliança com a direita, à xenofobia e à hostilidade contra a Cuba Socialista e solidária que vem em nosso auxílio. Não é toa que o corporativismo é o refúgio dos maus profissionais, da fraude ao SUS. Não surpreende que seja o esteio da insensibilidade, que considera normal o estado gastar 800 mil reais para formar um médico da classe média que tem ainda a pachorra de criticar o bolsa família. Não é à toa que inspira seres humanos a qualificarem de escravidão um programa que pagará 10 mil reais por mês, e que dará moradia e alimentação, além de R$ 20 mil reais para se mudarem para o Nordeste, e R$ 30 mil reais para o Norte. E ao mesmo tempo, motiva a vergonhosa contra-proposta de que as milhões de pessoas sem médicos devem esperar que tudo esteja perfeito para que, enfim, eles possam ir em direção ao povo. É o corporativismo que cegou parte da juventude médica avançada, que poderia liderar uma amplo movimento solidário e de fortalecimento do SUS, mas que os levou, pela condução da direita, ao torpe papel de obstáculo a uma iniciativa que salvará tantas vidas.

Por tudo isso, o corporativismo é grave obstáculo a ser batido e denunciado, porque ele cega, corrompe, insensibiliza aqueles que deveriam ser os profissionais mais humanos, a quem entregamos a nossa vida, em quem depositamos nossa esperança, e em quem as deformações morais se fazem ainda mais graves por esse imenso poder.

E esse momento é um ponto de inflexão dessa luta.A Saúde deixa de ser assunto de doutor e passa a ser tema até das populações hoje esquecidas, é uma mudança de vulto. Novas exigências e clamores imporão limites à saúde privada e criarão ambiente para pressionar ainda mais o governo para investir na saúde em vez de se dobrar à chantagem dos banqueiros e do PIG. E o povo quererá também fazer medicina.

O Brasil está mudando, e acho que essa direita e esse pedaço tão ruim da classe média, rancoroso, que fez Vargas se matar, que achincalhou JK por construir Brasília, que apoiou a Ditadura de 1964, e que tentou em vão derrubar o Lula, essa galera se expõe cada vez mais ao escárnio do povo. Povo que pressionará por mudanças ainda mais profundas, porque a consciência de que temos direitos avança. E o próprio povo ampliará sua capacidade crítica, sua possibilidade de fiscalizar.

Desejo que a direita  ataque muito o Mais Médicos, em público. Nas tribunas, nas tevês. Gravemo-lo. Veremos o veredito do povo sobre quem é contra a vinda dos médicos que salvarão vidas e minorarão o sofrimento de tanta gente.

E oxalá se fortaleçam as convicções de gestores, líderes médicos de esquerda, dos médicos humanistas, para que possam reunir-se numa corrente progressista que tenha mais apego à vida e à saúde do povo que ao sentimento corporativo. E que essa legitimidade seja o maior impulsionador das vitórias na carreira.
Oxalá possam eles se fortalecerem para não aceitar a ditadura do mercado, nem a ela se dobrarem, reforçando as convicções humanistas e apontando o difícil caminho que tem de percorrer, defendendo os direitos dos médicos e defendendo a saúde do povo, sem criar entre ambos uma barreira intransponível.

Claro que é preciso aperfeiçoar e corrigir o Mais Médicos, mas nunca o sabotar, destruir. E o primeiro passo ético é entender e apoiar a prioridade de fazer os médicos chegarem ao povo, sem a discriminação social, sem as desigualdades regionais o impedirem. Isso abrirá caminhos.

Oxalá possam entender que o Mais Médicos é um primeiro passo, que oferece oportunidades de maiores demandas, de vitórias, sobretudo contra a considerável banda podre que tem merecido tantas críticas da população, e não podia ser diferente. Representam o passado. A medicina dos filhos da elite para o povo pobrezinho, sem direitos, sem educação, sem condição nem legitimidade para falar de saúde diante de profissionais tão poderosos nessa moldura. Representam o negócio da saúde, comércio que lucra com a dor, a doença, com a vida, uma abominação.

O Mais Médicos é um primeiro e importante passo para a Reforma da Saúde, para a plena efetivação do SUS. É preciso que dê certo pelo potencial que encerra, pelas vidas que salvará, pelos direitos que afirmará. Defendamo-lo. Aperfeiçoemo-lo. E acolhamos de braços abertos os médicos do Brasil e do exterior que toparam o desafio de ir ao povo mais pobre e abandonado para mitigar a dor, para semear a saúde, para curar e salvar. Como é linda a Cuba Revolucionária que exporta a saúde e a solidariedade, em contraste com o imperialismo estadunidense que exporta a guerra, a infiltração divisionista, o terrorismo, da espionagem, que exporta a morte e a opressão.Seremos eternamente gratos.

Os médicos(as) irão em direção ao nosso povo pobre e por isso enfrentarão imensas dificuldades. Precisam do nosso carinho e apoio para cumprir uma missão de amor em nossa pátria tão grande e tão desigual. Será um passo a mais para derrubar tão imensos muros que separam os que tem tudo e os que não tem seus direitos mais básicos assegurados, brasileiros, como nós. E é uma batalha que é possível vencer, e venceremos!