domingo, 25 de agosto de 2013

Entrevistas com os médicos: 'Viemos para ser parceiros dos médicos brasileiros, respeitar e ser respeitados' - Rede Brasil Atual

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Cinco dos 176 médicos cubanos que desembarcaram em Brasília disseram não temer opiniões contrárias e demonstraram acreditar que, no final, trabalho será reconhecido
por Hylda Cavalcanti, da RBA publicado 25/08/2013 12:35, última modificação 25/08/2013 15:28Comments

BRUNO PERES/RBA


Oscar Martinez considera que a resistência de segmentos vai desaparecer com o bom trabalho


Brasília – As principais expectativas dos médicos cubanos recém-chegados ao Brasil consistem em trocar experiências com os demais profissionais e contribuir para melhorar a saúde pública no país. Mas eles demonstraram, desde que apareceram no saguão do aeroporto Juscelino Kubitschek, ontem (24) à noite, cuidado ao falar dos médicos brasileiros ao ressaltar que têm, como missão principal, zelar pelo trabalho em conjunto com os colegas da terra. Os cubanos também fizeram questão de citar detalhes sobre seus currículos, diante das críticas feitas por entidades médicas brasileiras a eles, nos últimos dias.


Muitos deixaram clara, ainda, a preferência em atuar no estado do Amazonas – pela grandiosidade e diversidade daquela unidade da federação e suas populações ribeirinhas – bastante mencionada durante a entrevista (com certo ar reservado, para não causar transtornos no caso de serem escolhidos para outros locais). Assim como por áreas do semiárido nordestino, como o interior do Ceará. Mas, repetindo o tom de cautela e diplomacia, frisaram várias vezes que não farão pedidos específicos e estão prontos para atuar em qualquer local do território brasileiro.


Nesta entrevista, cinco deles – a médica Yasiel Perez e os médicos Rodolfo Garcia,Oscar Martinez, Juan Rodriguez e Angel Perez – falam sobre o que os move na empreitada:


Qual a principal expectativa do trabalho a ser realizado por vocês no Brasil?


Yasiel Perez: Sou médica, especialista em medicina geral integral. Como todos os médicos que agora estão chegando a este país, para nós é um prazer, algo muito grande para expressarmos. Sou a mais jovem da brigada, mas tenho 32 anos e muita experiência. Em meu país se estuda medicina durante seis anos consecutivos e se trabalha quatro anos com as famílias mais necessitadas, além de passar outros dois anos atuando no serviço social. Além dessa formação, trabalhei na Bolívia durante dois anos e quatro meses, com uma população muito difícil, bastante carente. Mediquei em lugares distantes, mas não é por isso que essa mulher que vocês veem hoje aqui voltou correndo para Cuba quando deparou com problemas.


Não temem protestos e manifestações de pessoas que se posicionem contrárias à vinda dos senhores ao país?


Yasiel Perez: Vi e enfrentei muitas dificuldades na Bolívia e fiquei lá até o final da missão. Retornei ao meu país com uma qualificação satisfatória e é isso que quero repetir no Brasil, ao lado de todos os colegas. Queremos vencer, estamos contentes e esperamos cumprir nossa missão aqui. Esperamos que o povo brasileiro nos respeite como respeitamos a toda a população. Somente queremos ajudar, apoiar e contribuir para melhorar a saúde, para que a população tenha mais acesso aos serviços médicos. Somente queremos dar e receber amor.


Os senhores imaginam encontrar algo diferente do que já viram em outros países no trabalho a ser realizado agora, no interior do Brasil?


Rodolfo Garcia: Tenho 36 anos como médico, já estive no Brasil e conheço bem o país. Uma turma de médicos que chega já conhece a região Norte do Brasil profundamente. Além disso, muitos dos colegas que compõem o grupo possuem mais de 20 anos formados como médicos, possuem mestrado e cursos de especialização e participaram de trabalhos diversos de cooperação em outros países da África e América Central, com participações no tratamento de vítimas de desastres naturais. Não acho que teremos qualquer dificuldade nesta missão.


Como os senhores avaliam os comentários de que médicos cubanos não estariam preparados para atender aos problemas de alta complexidade que possam vir a ser observados ao longo da missão?


Rodolfo Garcia: Viemos empolgados para a realização de um trabalho em regiões diferentes. Sabemos que no Brasil não há médicos em muitos lugares distantes. Sabemos também que há no Brasil muitos municípios carentes de médicos. Posso te assegurar que somos preparados e viemos com muita vontade de trabalhar e fazer a coisa andar. Cuba é um país pobre que não tem muitos recursos naturais, mas tem muitos médicos e especialistas que estão com disposição de ajudar o Brasil e fazer parcerias para aumentar a saúde do povo brasileiro. Estamos preparados, tenha a certeza.


E sobre a questão da remuneração que os senhores receberão, alvo de tantas polêmicas nas últimas semanas? O que têm a dizer sobre isso?


Rodolfo Garcia: A primeira coisa que queremos que vocês compreendam é que o dinheiro, para nós, neste caso em questão, fica em segundo lugar. Vamos receber uma remuneração suficiente para ficar no Brasil. O restante do dinheiro vai voltar para Cuba, para ajudar hospitais, os doentes que estão precisando porque no nosso país a saúde é de graça. O nosso dinheiro está lá, nosso salário está sendo pago lá.


Na opinião dos senhores, o programa ‘Mais Médicos’, do governo federal, foi uma escolha acertada?


Rodolfo Garcia: Não estamos a par do projeto em sua totalidade, mas reconhecemos que o governo precisa de muita coisa e deu um bom passo na vinda dos médicos estrangeiros. Por tudo o que temos lido, a percepção que temos é de que estão sendo criadas condições para melhoria da saúde pública no país. Queremos fazer todo o esforço para caminhar juntos na resolução dos problemas e pela melhoria da qualidade de vida do povo mais carente do Brasil, aquele que não tem dinheiro para pagar médicos particulares, populações como as dos interiores mais distantes do Pará, Tocantins ou Amapá, onde muitos de nós já estivemos. Sinceramente, viemos com muita vontade de ajudar as pessoas.


Esperavam encontrar tamanha receptividade por parte das pessoas que vieram ao aeroporto recebê-los?


Rodolfo Garcia: Não. É um prazer estar aqui. Estamos muito nervosos porque não esperávamos que vocês todos estivessem aqui, desse jeito. Mas estamos muito felizes também.


Como avaliam o estreitamento da cooperação entre Brasil e Cuba a partir deste trabalho?


Oscar Martinez: Sem dúvida, como bastante positivo. Sou especialista em saúde da família, sou médico há 23 anos e há 19 concluí minha especialização. Não sei para onde vou, mas vim para fazer este trabalho. Queremos agradecer ao povo brasileiro. Os povos de Cuba e Brasil são irmãos há muito tempo, mas este trabalho de agora estreita muito mais os laços de cooperação e de irmandade entre nós. Temos várias expectativas boas. A mais importante é colaborar para haja acessibilidade para todos os que carecem de um serviço de saúde neste país.


Como imaginam que será a receptividade à chegada dos senhores pelo conjunto dos médicos brasileiros com quem vão trabalhar?


Oscar Martinez: Viemos para trabalhar juntos. Nosso sentimento é de consideração para com os problemas dos médicos brasileiros. Vamos ter a oportunidade de trabalhar com eles, em lugares de acesso complicado, sabemos disso tudo, mas vamos acompanhá-los e trabalhar juntos pela nação brasileira. O principal objetivo nosso, a parte de trabalho como médicos, nesta missão, é estreitar a solidariedade do povo de Cuba com o povo brasileiro. Somos irmãos e a irmandade entre nós tem, agora, que ser mais forte.


E em relação aos protestos feitos por entidades medicas que são contrárias à chegada de médicos cubanos ao país?


Oscar Martinez: Ainda estamos chegando no Brasil, não temos todos os elementos para responder completamente à sua pergunta. Só vou falar o seguinte: todas as questões ou programas, quando iniciados, estão sujeitos a críticas e compreendemos isso. Agora, vamos ficar aqui e esperar as últimas palavras sobre o nosso trabalho depois de algum tempo, quando nos conhecerem melhor. Certamente serão bem diferentes.


Alguns dos senhores têm preferência por algum estado específico para trabalhar?


Juan Rodrigues: Conheço o Brasil, preferiria o estado do Amazonas, no Norte, ou estados nordestinos, mas tudo no Brasil nos interessa.


O que mais os incentiva na realização deste trabalho?


Angel Perez: o exercício da profissão em regiões remotas e a cooperação médica. Estive recentemente em Honduras e em lugares também distantes e repletos de dificuldades, mas sempre trabalhando duro para que as pessoas possam desfrutar de boa qualidade de vida e a mesma coisa acontecerá no Brasil. Estamos vindo com o sentimento e o coração aberto para trabalhar junto com os médicos e todo o pessoal da área de saúde brasileira. Queremos ajudar a população e contribuir para melhoria da saúde pública no país.