quinta-feira, 30 de abril de 2015

Primeiro de Maio com Victor Jara, que vive e luta - Paulo Vinícius Silva

Às vésperas do Primeiro de Maio lutamos contra a ganância dos capitalistas que desejam destruir a CLT, retirar os direitos básicos dos trabalhadores, favorecer os patrões que dão calote e desproteger os trabalhadores que mais duro trabalham, mais sofrem acidentes, os que mais morrem.  E mais, pois também o sistema ataca a vida dos filhos dos trabalhadores, em especial se jovens negros, que são vítimas da violência do crime e do Estado, e são os que mais morrem. É a pena de morte não declarada, que agora eles querem ampliar, para colocar nas penitenciárias jovens de 16 e 17 anos. Querem por essa juventude nas penitenciárias com os maiores bandidos, e esperam que isso não tenha volta. Há motivos suficientes para lutar contra o que Eduardo Cunha representa como a liderança de uma Câmara dos Deputados que tem uma agenda de retrocesso social, antipopular, dominada pelo capital, e com uma agenda moral conservadora e antidemocrática. Nessa hora, precisamos de convicção e esperança para lutar ainda mais em defesa das conquistas do povo e do Brasil. A poesia é uma arma fundamental nessa luta.

Por isso, tão perto do Primeiro de Maio, fortaleçamo-nos conhecendo um músico que deu sua voz e sua vida pelos mais humildes. Lembremo-nos de Victor Jara, um artista comunista chileno admirável. Victor, poeta, professor, músico, compositor, homem do teatro, produtor cultural, pesquisador, militante das Juventudes Comunistas do Chile, de seu Partido.

Victor que cantava à alma e à consciência com uma doçura e verdade que impactavam profundamente. Nesse concerto gravado para uma  televisão Peruana, podemos vê-lo e ouvi-lo, ver o sorriso, ouvir o violão, a prosa e as palavras que Victor tão doce e real pronuncia.

Victor que foi perseguido pelo que compunha e cantava e tocava. Victor que foi preso no Estádio Nacional com milhares de outras pessoas que apoiavam o governo de Allende, deposto pelo General Pinochet à custa de guerra econômica, conspiração e até bombardeio do Palácio de la Moneda, e a morte de Allende, tudo a mando dos EUA. Muitos milhares de mortos e torturados.
Mas antes do bombardeio aéreo ao palácio de la Moneda, outro o precedeu, o bombardeio midiático, a campanha incessante de desestabilização que o povo resistia com as canções de Victor que, de tão bonitas, atraíram o ódio criminoso e cruel da ditadura.

Pinochet e a direita não perdoaram jamais as verdades que Victos dizia cantando, com toda aquela doçura, com aquela luz que descortina ante nosso olhar a dura realidade de vida, e o herói e a heroína
cotidiano, o trabalhador, a trabalhadora. Eles transparecem em sua beleza e sofrimento, ouvindo-o
é possível sentir a identidade desse artista com a gente mais simples e seus padeceres e a contribuição
gigantesca que dão, pois são os trabalhadores e as trabalhadoras  que fazem a roda da vida girar, porque produzem tudo o que existe ao nosso redor. É a classe trabalhadora a classe produtiva. E esse olhar próximo do artista e de seu povo, dá a voz a páginas incríveis do cancioneiro popular e da
canção latinoamericana.

Victor era "apenas" uma pessoa, mas não estava sozinho, e essa é uma razão fundamental de sua grandeza artística. Seu canto e músicas tinham a a humanidade como alicerce, a justiça, a beleza e o olhar com os olhos do povo, de seu interesse, de sua verdade, de seu projeto. E isso, essas multidões que tinha atrás de si amedrontavam, porque diferente da bala, o canto de Victor não tinha fim, reproduzia-se como chama no mato seco, abrindo até hoje os olhos das pessoas. Victor cantava a vida, a luta, os padeceres e a beleza da classe trabalhadora.

O camponês, o operário, a luta, o acidente de trabalho, a dureza do trabalho, o amor. Sobretudo o amor, como ele mesmo declara durante o concerto, o amor de um homem por uma mulher, de um homem por um homem, do amor à humanidade. Assim ele explica como fez Te recuerdo Amanda. Trata do amor entre dois operários, Manuel e Amanda, dois simples trabalhadores, que ele retrata nos cinco minutos em que eles se encontravam, quando ele ia receber a marmita, apenas em cinco minutos vemos o carinho e a ternura do amor entre esses dois personagens que simbolizam todas as pessoas que lutam a vida dura e que amam.

Por isso o prenderam, torturaram e mataram com 33 tiros, tamanho era o ódio que o regime de Pinochet teve contra Victor e a Unidade Popular.  Ouçamo-lo, aproveitemos a oportunidade da beleza e da verdade dessas canções da luta do povo. Por mais de uma hora estejamos com ele, para entender seu enorme talento, e para perceber o papel transcendente que tem a consciência para tocar o coração e a mente das pessoas, unindo-as num poder transformador irrefreável, o poder do povo unido, invencível. Por isso, longe de tristeza, lembremo-nos de que o povo unido jamais será vencido!

Nesses minutos do programa na Panamericana Televisión de Lima, Perú, el 17 de julio de 1973, Victor  e sua arte mostram-nos porque ele segue tão vivo no coração das pessoas. Victor vive.