quarta-feira, 1 de abril de 2015

O poema de Pablo Neruda a Prestes no comício do Pacaembu (1945) - Portal Vermelho


Uma homenagem de Neruda ao Partido Comunista do Brasil - Portal Vermelho

Na última quarta-feira (25) o PCdoB completou 93 anos de resistência e luta. O partido do socialismo, reconhecido por sua forte presença junto aos trabalhadores e influência na juventude, comemora mais um ano de batalhas e conquistas e o caderno cultural do Portal Vermelho, o Prosa, Poesia e Arte, é especial sobre este tema nesta semana.




Pablo Neruda


Em julho de 1945, durante um comício do Partido Comunista do Brasil no estádio Pacaembu, na capital paulista, o renomado poeta Pablo Neruda leu o poema Mensagem que ele escreveu em homenagem ao partido. A obra viria a ser publicada cinco anos depois no livro “Canto Geral”.

Segundo Gabriel García Márquez, Neruda foi “o maior poeta do século 20 em qualquer idioma”. Em 1971 ganhou o Prêmio Nobel de Literatura e um doutorado honoris causa pela Universidade de Oxford, foi considerado um dos melhores e mais influentes artistas de seu século.


Além disso, Neruda foi um destacado ativista político, membro do Comitê Central do Partido Comunista do Chile, foi senador e pré-candidato à presidência, mas abriu mão da candidatura para apoiar Salvador Allende. Na ocasião justificou dizendo que “ambos eram socialistas e acreditavam em uma América Latina mais justa”.



Pablo Neruda durante o comício no Pacaembu


Leia o poema Mensagem na íntegra:


Quantas coisas quisera hoje dizer, brasileiros,

quantas histórias, lutas, desenganos, vitórias,

que levei anos e anos no coração para dizer-vos, pensamentos

e saudações. Saudações das neves andinas,

saudações do Oceano Pacífico, palavras que me disseram

ao passar os operários, os mineiros, os pedreiros, todos

os povoadores de minha pátria longínqua.

Que me disse a neve, a nuvem, a bandeira?

Que segredo me disse o marinheiro?

Que me disse a menina pequenina dando-me espigas?


Uma mensagem tinham. Era: Cumprimenta Prestes.

Procura-o, me diziam, na selva ou no rio.

Aparta suas prisões, procura sua cela, chama.

E se não te deixam falar-lhe, olha-o até cansar-te

e nos conta amanhã o que viste.


Hoje estou orgulhoso de vê-lo rodeado

por um mar de corações vitoriosos.

Vou dizer ao Chile: Eu o saudei na viração

das bandeiras livres de seu povo.

Me lembro em Paris, há alguns anos, uma noite

falei à multidão, fui pedir auxílio

para a Espanha Republicana, para o povo em sua luta.

A Espanha estava cheia de ruínas e de glória.

Os franceses ouviam o meu apelo em silêncio.

Pedi-lhes ajuda em nome de tudo o que existe

e lhes disse: Os novos heróis, os que na Espanha lutam, morrem,

Modesto, Líster, Pasionaria, Lorca,

são filhos dos heróis da América, são irmãos

de Bolívar, de O' Higgins, de San Martín, de Prestes.


E quando disse o nome de Prestes foi como um rumor imenso.

no ar da França: Paris o saudava.

Velhos operários de olhos úmidos

olhavam para o futuro do Brasil e para a Espanha.


Vou contar-vos outra pequena história.


Junto às grandes minas de carvão, que avançam sob o mar,

no Chile, no frio porto de Talcahuano,

chegou uma vez, faz tempos, um cargueiro soviético.



(O Chile não mantinha ainda relações

com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Por isso a polícia estúpida

proibiu que os marinheiros russos descessem,

e que os chilenos subissem).

Quando a noite chegou

vieram aos milhares os mineiros, das grandes minas,

homens, mulheres, meninos, e das colinas,

com suas pequenas lâmpadas mineiras,

a noite toda fizeram sinais, acendendo e apagando,

para o navio que vinha dos portos soviéticos.


Aquela noite escura teve estrelas:

as estrelas humanas, as lâmpadas do povo.

Também hoje, de todos os rincões

da nossa América, do México livre, do Peru sedento,

de Cuba, da Argentina populosa,

do Uruguai, refúgio de irmãos asilados,

o povo te saúda, Prestes, com suas pequenas lâmpadas

em que brilham as altas esperanças do homem.

Por isso me mandaram, pelo vento da América,

para que te olhasse e logo lhes contasse

como eras, que dizia o seu capitão calado

por tantos anos duros de solidão e sombra.


Vou dizer-lhe que não guardas ódio.

Que só desejas que a tua pátria viva.

E que a liberdade cresça no fundo do Brasil como árvore eterna.

Eu quisera contar-te, Brasil, muitas coisas caladas,

carregadas por estes anos entre a pele e a alma,

sangue, dores, triunfos, o que devem se dizer

o poeta e o povo: fica para outra vez, um dia.


Peço hoje um grande silêncio de vulcões e rios.


Um grande silêncio peço de terras e varões.


Peço silêncio à América da neve ao pampa.

Silêncio: com a palavra o Capitão do Povo.

Silêncio: que o Brasil falará por sua boca.


(Pablo Neruda, 1945)


Assista ao vídeo que faz um registro histórico do comício no Pacaembu: