terça-feira, 15 de julho de 2014

Robert Fisk: A verdadeira história de Gaza - Portal Vermelho

Robert Fisk: A verdadeira história de Gaza - Portal Vermelho

Nada do que se
vê hoje na Palestina tem a ver com o assassinato de três adolescentes
israelenses ou de um adolescente palestino. Tudo, ali, sempre, é disputa
por terra árabes



Por Robert Fisk, no The Independent






Cartaz em protesto na França contra agressão de Israel


OK, só nessa tarde (6 de junho), o escore de dois dias de mortes é
40 mortos palestinos e nenhum morto israelense. Passemos agora à
história de Gaza de que ninguém falará nas próximas horas.



É terra. A questão é terra. Os israelenses de Sderot estão recebendo
tiros de rojões dos palestinos de Gaza, e agora os palestinos estão
sendo bombardeados com bombas de fósforo e bombas de fragmentação pelos
israelenses. É. Mas e como e por que, para início de conversa, há hoje 1
milhão e meio de palestinos apertados naquela estreita Faixa de Gaza?



As famílias deles, sim, viveram ali, não eles, no que agora é chamado
Israel. E foram expulsas – e tiveram de fugir para salvar suas vidas –
quando foi criado o estado de Israel.



E – aqui, talvez, melhor respirar fundo antes de ler – o povo que vivia
em Sederot no início de 1948 não eram israelenses, mas árabes
palestinos. A vila palestina chamava-se Huj. Nunca foram inimigos de
Israel. Dois anos antes de 1948, os árabes de Huj até deram abrigo e
esconderam ali terroristas judeus do Haganah, perseguidos pelo exército
britânico. Mas quando o exército israelense voltou a Huj, dia 31/5/1948,
expulsaram todos os árabes das vilas… para a Faixa de Gaza! Tornaram-se
refugiados. David Ben Gurion (primeiro primeiro-ministro de Israel)
chamou a expulsão de “ação injusta e injustificada”). Pior, impossível.
Os palestinos de Huj, hoje Sderot, nunca mais puderam voltar à terra
deles.



E hoje, bem mais de 6 mil descendentes dos palestinos de Huj – atual
Sderot – vivem na miséria de Gaza, entre os “terroristas” que Israel
mente que estaria caçando, e os quais continuam a atirar contra o que
foi Huj.



A história do direito de autodefesa de Israel é a história de sempre.
Hoje, foi repetida e a ouvimos mais uma vez. E se a população de Londres
estivesse sendo atacada como o povo de Israel? Não responderia? Ora
bolas, sim. Mas não há mais de um milhão de ex-moradores de Londres
expulsos de suas casas e metidos em campos de refugiados, logo ali,
numas poucas milhas quadradas cercadas, perto de Hastings!



A última vez em que se usou esse falso argumento foi em 2008, quando
Israel invadiu Gaza e assassinou pelo menos 1.100 palestinos (escore:
1.100 mortos palestinos, a 13 mortos israelenses). E se Dublin fosse
atacada por foguetes – perguntou então o embaixador israelense? Mas nos
anos 1970s, a cidade britânica de Crossmaglen no norte da Irlanda estava
sendo atacada por foguetes da República da Irlanda – nem por isso a
Real Força Aérea britânica pôs-se a bombardear Dublin, em retaliação,
matando mulheres e crianças irlandesas.



No Canadá em 2008, apoiadores de Israel repetiram esse argumento
fraudulento: e se o povo de Vancouver ou Toronto ou Montreal fosse
atacado com foguetes lançados dos subúrbios de suas próprias cidades?
Como se sentiriam? Não. Os canadenses nunca expulsaram para campos de
refugiados os habitantes originais dos bairros onde hoje vivem.



Passemos então para a Cisjordânia. Primeiro, Benjamin Netanyahu disse
que não negociaria com o ‘presidente’ palestino Mahmoud Abbas, porque
Abbas não representava também o Hamás. Depois, quando Abbas formou um
governo de unidade, Netanyahu disse que não negociaria com Abbas, porque
‘unificara’ seu governo com o “terrorista” Hamas. Agora, está dizendo
que só falará com Abbas se romper com o Hamas – quando, então, rompido,
Abbas não representará o Hamas…



Enquanto isto, o grande filósofo da esquerda israelense, Uri Avnery – 90
anos e, felizmente, cheio de energia – ataca a mais recente obsessão de
seu país: a ameaça de que o ISIS mova-se para oeste, lá do seu
‘califado’ iraquiano-sírio, e aporte à margem leste do rio Jordão.



“E Netanyahu disse”, segundo Avnery, que “se não forem detidos por uma
guarnição permanente de Israel no local (no rio Jordão), logo mostrarão a
cara nos portões de Telavive”. A verdade, claro, é que a força aérea de
Israel esmagaria qualquer ‘ISIS’, no momento em que começasse a cruzar a
fronteira da Jordânia, vindo do Iraque ou da Síria.



A importância da “guarnição permanente”, contudo, é que se Israel mantém
seu exército na Jordânia (para proteger Israel contra o ISIS), um
futuro estado “palestino” não terá fronteiras e ficará como enclave
dentro de Israel, cercado por território israelense por todos os lados.
“Em tudo semelhante aos bantustões sul-africanos” – diz Avnery.



Em outras palavras: nenhum estado “viável” da Palestina jamais existirá.
Afinal, o ISIS não é a mesma coisa que o Hamas? É claro que não é.



Mas Mark Regev, porta-voz de Netanyahu, diz que é! Regev disse à Al
Jazira que o Hamas seria “organização terrorista extremista não muito
diferente do ISIS no Iraque, do Hezbolá no Líbano, do Boko Haram…”
Sandices. O Hezbolá é exército xiita que está lutando dentro da Síria
contra os terroristas do ISIS. E Boko Haram – a milhares de quilômetros
de Israel – não ameaça Telavive.



Vocês entenderam o ‘espírito’ da fala de Regev. Os palestinos de Gaza – e
esqueçam as 6 mil famílias palestinas cujas famílias foram expulsas
pelos sionistas das terras onde hoje está Sederot – são aliados das
dezenas de milhares de islamistas que ameaçam Maliki de Bagdá, Assad de
Damasco ou o presidente Goodluck Jonathan em Abuja.



Sim, mas… Se o ISIS está a caminho para tomar a Cisjordânia, por que o
governo sionista de Israel continua a construir colônias ali?! Colônias
ilegais, em terra árabe, para civis israelenses… na trilha do ISIS?!
Como assim?!



Nada do que se vê hoje na Palestina tem a ver com o assassinato de três
israelenses na Cisjordânia ocupada, nem com o assassinato de um
palestino na Jerusalém Oriental ocupada. Tampouco tem algo a ver com a
prisão de militantes e políticos do Hamas na Cisjordânia. E nem o que se
vê hoje na Palestina tem algo a ver com foguetes. Tudo, ali, sempre, é
disputa por terra dos árabes.



Fonte: Diário do Centro do Mundo