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domingo, 1 de janeiro de 2012

Centenário de João Amazonas - PC do Brasil: das primeiras lutas à reorganização da Mantiqueira -Artigo de João Amazonas

www,grabois.org.br - Fundação Maurício Grabois

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“O Partido é como a fênix: quando se pensa que acabou tudo, ele renasce das próprias cinzas” (João Amazonas) Por ocasião da passagem de um ano de seu desaparecimento, em 27 de maio de 2003, Princípios publica trecho de depoimento inédito do dirigente comunista João Amazonas, gravados pela Comissão de Redação da História do PC do Brasil em 2001.


"Meu pai era padeiro e minha mãe, doméstica. Tiveram oito filhos. Três mulheres – as primeiras –, e depois cinco homens – sendo eu o primeiro deles. Nasci em 1º de janeiro de 1912. Tivemos uma vida difícil. Meu pai ganhava um salário e, com família tão grande, não poderia ser de outra forma. Estudávamos num grupo escolar. Meu pai morreu, num 15 de novembro. Ele estava numa cidadezinha do interior passando uns dias para ver se melhorava de saúde (tinha tuberculose). Eu e um irmão fomos fazer-lhe uma visita. Quando chegamos lá, ele já estava principiando a morrer – em umas duas horas estava morto. Foi terrível. Uma barra muito grande para todos nós. Chegou a me dizer antes, caminhando, assim, na rua conosco: “Agora você tem de assumir a chefia da casa. Você é o homem da casa.” E o que eu ia fazer? Após o grupo escolar entrei para uma escola prática de comércio, porque ensinava à noite e de graça. Eu trabalhava até as 19 horas da noite e depois freqüentava essa escola, na qual cheguei a me formar.

As transformações democrático-burguesas começavam a entrar na ordem do dia e se refletiam fundamentalmente nas lutas que ocuparam toda a década de 1920-30. Vivendo no Pará, não fiquei ausente dos problemas e de toda essa movimentação. Começava a me interessar ainda muito jovem pelas questões sociais e políticas. O coronel Barata foi indicado interventor no Pará e fazia uma grande divulgação das propostas do governo Vargas.

Eu trabalhava numa fábrica que tinha uns 600 operários e operárias, e comecei a tomar algumas iniciativas pessoais – mas, sobre o Partido Comunista do Brasil ainda não sabia nada. Isso mostra que o Partido não tinha uma presença política no estado se não, eu teria observado de alguma forma. (À época, me parecia que Partido Comunista só existisse na Europa. Lembro-me de ter visto, aos meus sete anos, minha mãe abrir uma revista – nunca me esqueço disso – e numa das páginas tinha um bicho horrível.

Perguntei a ela: “O que é isso aí mãe?”. Ela disse: “Esse bicho está devorando a Europa.” Estava escrito lá: “bolchevismo”. Eu nunca me esqueci disso porque me impressionou, como garoto – um bicho daqueles estar devorando a Europa!).

Escrevi então uma carta para o secretário de Trabalho (a Secretaria de Trabalho havia sido criada com a revolução de 30), denunciando os abusos da fábrica e reivindicando jornada de oito horas de trabalho. Ia fazendo ações como essa por conta própria, achando que o movimento de 1930 trazia uma renovação e que a gente tinha de mudar algumas coisas.
Diógenes Arruda


Em seguida, descobri o Partido. Apareceu um livro sobre medicina e outro sobre um engenheiro brasileiro na União Soviética. Isso chamou a minha atenção para uma situação em que as coisas eram diferentes. Nessa época havia grande efervescência política em nosso país. Comecei a me interessar por esses assuntos maiores. Trabalhava todos os dias, até aos domingo pela manhã, na fábrica (de chocolates, biscoitos, doces e massas). Cheguei em casa num domingo, em abril de 1935, e como de costume fui me deitar após o almoço, já que era a nossa folga. Levei o jornal, deitei-me na rede e comecei a ler. De repente, vi: “Aliança Nacional Libertadora é comunista” – esse era o título de uma notícia sobre um comício que a ANL tinha feito no Rio de Janeiro sobre o qual havia ocorrido intervenção da polícia. Abaixo uma notinha dizia: “Hoje Comício da ANL no Largo da Pólvora, em Belém”. Desisti de dormir, botei o jornal de lado, vesti-me e fui correndo para o comício. Devia ser umas quatro horas da tarde, e lá havia umas 150 pessoas. Assim que pude, puxei o paletó de um homem que estava falando e perguntei onde ficava a sede daquele movimento. Ele me deu o endereço. No outro dia, saí da fábrica às sete horas da noite e fui imediatamente para lá. Cheguei, entrei e comecei a perguntar o que e como era aquele movimento, etc.

Encontrei o Partido. E ali apareceu acho que o Dalcídio Jurandir, um escritor interessante e um jovem combatente também. Perguntou-me se eu não queria entrar para a juventude comunista. Disse que sim, que estava lá para entrar para o Partido: “Quero ver como é esse negócio de Partido”. Passei uns quinze dias na juventude, e então eles resolveram que eu deveria entrar para o Partido, pois trabalhava numa fábrica que tinha muitos operários. Já como integrante do Partido convidaram-me para receber uma delegação da ANL que havia chegado ao Pará para fazer agitação (um jornalista e o comandante Roberto Sissom, da Marinha, eram as principais figuras). Porém, não puderam realizar nenhuma atividade, porque quando chegaram já tinham fechado a ANL.

Foi assim que eu entrei para o Partido. A Aliança teve papel na divulgação nacional do Partido, porque a própria imprensa a divulgava como uma organização comunista. E esse “comunista” chamava a atenção dos trabalhadores e das pessoas que tinham interesse numa nova vida. Desde aí passei a atuar no Partido Comunista. Até hoje. Entrei de vez, pra valer. Isso foi em abril de 1935.

No Partido, logo fui indagado sobre a possibilidade de organizar uma célula no meu local de trabalho. Respondi: “Vamos ver. Como é isso?”. Explicaram-me como era e fiquei pensando: “Nunca tinha ouvido falar do Partido e como vou saber agora quem é comunista?”. No outro dia comecei a prestar mais atenção nos operários e nas operárias que trabalhavam comigo. Alguns deles se destacavam; um era da Catalunha, o Vicente Alonso Dias – uma pessoa muito interessante. Fui até ele e perguntei: “Você não conhece um outro comunista?”. Ele respondeu: “Tem um outro companheiro espanhol muito bom”. Conversamos e decidimos ver se encontrávamos outros companheiros. Achamos uma companheira e organizamos uma célula do Partido na fábrica com uns seis ou sete membros.

Em seguida, avancei para a idéia de criar um sindicato. O Partido dizia que deveria haver organização de massa, etc; e na fábrica não tínhamos um sindicato. “Vamos ver como se organiza um”. Apoiados em nossa célula fomos trabalhando e acabamos organizando um sindicato da fábrica – uma ação importante.

Ao lembrar hoje de minha juventude, vejo que tinha muito arrojo – em tudo o que fazia. O governo começou a repressão sobre a ANL e anunciou, até mesmo, a pena de morte. Na esquina da fábrica, que ocupava quase um quarteirão inteiro, havia uma Caixa D’Água – um edifício de ferro que era o pico mais alto da cidade. Em seu topo havia um mastro em que se colocava uma bandeira brasileira em dia de festa, que era vista de toda a cidade. Falei para os companheiros: “Vamos botar uma bandeira lá” (o governo tinha anunciado que ia pedir a pena de morte para os comunistas). Mas era complicado porque havia vigias. Organizei um plano. Fui até a casa de uma companheira (que depois foi casada com o Jurandir) e pedi para ela fazer uma bandeira imensa de 12 metros, com a palavra de ordem “Viva a ANL! Abaixo a pena de morte!”. Observei a rotina do porteiro. Era ele que, no dia da festa do Círio do Nazaré, colocava uma bandeira brasileira naquele pico. A gente a podia ver de toda a cidade. Mas eu pensava: “Se botar a bandeira aí eles retiram logo”. Então, seria preciso bolar uma idéia para eles não conseguirem retirá-la. O negócio seria fazer um arranjo nas pontas onde se colocava a bandeira, com uma espécie de argola no próprio fio de arame grosso, e puxar para ficar apenas uma ponta. Fazendo

isso eu puxaria e a bandeira iria lá para cima. Assim, não haveria como baixá-la. Como a companheira não tinha força suficiente para fazer isso, arranjamos um camarada sapateiro, que mexia com alicates e sabia cortar.

Ficamos uma noite lá, pulamos o muro alto, com a ajuda da célula do Partido, e passamos para dentro dessa Caixa D’Água. Aí fomos subindo (devia ser umas 2 horas da madrugada), mas como a Caixa D’Água ficava na área da prostituição, a região era muito movimentada. Fomos subindo, subindo, e nunca chegava o fim daquela escada de ferro – e eu com a bandeira amarrada no peito. Quando conseguimos alcançar o topo, olhamos a movimentação da área, fizemos a operação e botamos a bandeira. O companheiro sapateiro fez a argola para ficar numa ponta só e aí nós a suspendemos. Era noite e ninguém estava vendo. Fizemos tudo certo. Ainda escrevemos com piche na parede, descemos e fomos embora. Voltamos para casa completamente sujos de piche. Naquele tempo, sem nenhuma experiência, na hora de lavar as mãos, custou para sair – seria necessário usar gasolina e nós não sabíamos. Levamos muito tempo para tirar o piche.

De manhã, foi um sucesso enorme: toda a cidade despertou e foi uma agitação daquelas. Em todo lugar e nas esquinas tinha gente olhando a bandeira vermelha na Caixa D’Água. Todo mundo falava naquilo e foi engrossando aquele movimento. A excitação tomou conta da cidade. Mobilizaram bombeiros e mais o que puderam para tirar a bandeira, e não houve jeito (só conseguiram à tarde; tiveram de chamar um moleque acostumado a subir em açaizeiro). Esse fato teve uma grande repercussão. Comecei assim, fazendo uma onda que não tem tamanho!

Essas são algumas passagens dos meus primeiros tempos no Partido.

Não é preciso dizer que esse período de 1935 é um período de grandes movimentos revolucionários no mundo. E também com grandes perseguições por toda parte. No Brasil a ANL durou apenas três meses. Teve apenas três meses de legalidade. Depois foi fechada. Os comícios eram gigantescos. Comícios enormes, imensos. Exatamente por isso, o Getulio fechou a ANL. Ela tinha à frente elementos de destaque, como o comandante Sissom, da Marinha, e o prefeito do Distrito Federal, Pedro Ernesto. Em seguida cometeu-se o erro – na minha opinião – de descambar para a ação militar, de quartel, mas ainda não se havia enraizado o movimento nas massas citadinas.

Fugindo da prisão para reorganizar o Partido

Depois de uma grande atuação no movimento sindical, passado algum tempo, fui preso. Fiquei quinze dias na prisão em abril de 1935. Tive a primeira sensação da prisão: de repente você se vê dentro de uma jaula, tudo cercado com grade, tudo fechado, ali, sozinho. Ficava pensando: “Isso não pode existir.

É um absurdo uns caras com poder para pegar a gente e botar dentro de um troço desses”. Enfim, o nosso advogado foi até lá e me soltaram. Em seguida, houve uma sucessão de prisões: fui preso, depois tornei a ser preso, condenado, fui para a cadeia e passei lá uma porção de tempo. Quando a União Soviética foi atacada pelos nazistas nós estávamos na cadeia! Fizemos então uma sessão memorável dentro da prisão – éramos uns oito ou dez companheiros – mostrando que o ataque à União Soviética era um ataque aos trabalhadores do mundo inteiro. “E nós, o que vamos fazer? Ficar na cadeia? Não, temos de sair daqui para reorganizar o Partido, para ajudar a reorganizá-lo”. E fizemos um plano de fuga muito bem construído. Numa noite a gente começou a serrar (com uma serrinha muito fina) o assoalho para passar ao porão da prisão. E em todas as noites serrávamos cada vez um pouquinho. E assim fizemos. Chegou a hora combinada. Uns saíram pela frente porque chovia. O nosso plano era sair por trás. Mas havia um cachorro que era preciso eliminar, mas não conseguíamos (colocávamos veneno na comida dele, e nada). No plano estabelecemos que o Pomar e eu iríamos ao Rio de Janeiro. Mas não havia avião. Por navio seríamos presos porque eles se comunicavam com os portos e fatalmente seríamos capturados num deles. Então, fizemos um plano mais complexo. Pomar e eu iríamos ao Rio de Janeiro, um estudante e um operário (da ParaEletric) iriam para Manaus, o Agostinho Oliveira (que depois foi deputado do Partido), para Santarém. E assim distribuímos as fugas.

Mas tudo isso precisaria funcionar naquela noite. Havia muitos navios que saíam para o Baixo Amazonas e para a área que tínhamos de ir: por Marabá. Ia ser necessário percorrer trajetos de uma verdadeira epopéia – caminhos não dantes navegados e não percorridos, como se diz. Assim, Pomar e eu fomos numa pequena embarcação até Marabá. Chegamos lá quase sem dinheiro – tínhamos uma arma e a vendemos para um médico, nosso amigo. Foi um dinheirinho que nos ajudou um pouco no resto da viagem. Navegando com aquele motorzinho pelo Tocantins, fizemos uma viagem longa. Da cidade de Peixe, a última do rio Tocantins, não havia caminho para lugar algum. Ficamos estudando para ver como iríamos fazer: tínhamos de cruzar pelo meio da mata. Fomos ver se encontrávamos algum guia que conhecesse o caminho para nos ajudar. Descobrimos havia chegado o primeiro caminhão, vindo de Anápolis, e que iria voltar no dia seguinte. Isso resolveria o nosso problema. Fomos até lá. O caminhão levava serras e machados, porque fora fazendo a estrada naquela região de planalto. Onde havia riacho ele cortava uma árvore, fazendo às vezes um “mata-burro”; na volta, ia comprando couro. Viajamos em cima do caminhão. O volume do couro ia aumentando, e nós ficando cada vez mais altos. Num desses mata-burros, o sujeito nos avisou: “É bom saltarem todos”. E pegava do outro lado. Num deles em que o sujeito disse que não precisaríamos sair, não é que quebrou o mata-burro no meio da passagem (de quase 4 metros de altura)? E a gente lá em cima do couro! Aquilo quebrou e nós fomos entornados. Caí com a cabeça na pedra e fiquei com o pescoço doendo...
No final, acabamos chegando em Anápolis. Ao todo demoramos um mês e tanto para chegar. Foi a nossa salvação: lá pegamos um trenzinho danado e fomos adiante.
Bancada comunista na Constituinte de 1946. Ao centro: Amazonas, Prestes e Grabois


Um mês e tanto de viagem com cenas incríveis. Nessa viagem pelo Tocantins, teve um lugar, acho que Santo Antonio, um lugar pobre em que tínhamos de esperar um outro motor que fosse adiante. E nesse local, vimos (de dentro de um quartinho que ficava de frente para o rio) os pecadores remando apressados. Havia uma gritaria na cidade, todo mundo chorando... Era um incêndio nas malocas. O Pomar e eu saímos correndo, fomos organizar o apagamento do incêndio. Pegávamos as latas que encontrávamos por lá e fizemos uma fileira de gente que ia do rio até onde estava o incêndio.

Passávamos o balde d’água de um para outro e ele voltava vazio para o lado de lá. E foi assim que se apagou o incêndio. Foi uma tristeza, queimou todos os pertences daquela gente pobre...

Em outra sanha interessante, numa noite chovia muito e o motor parou numa praia, porque não viajava durante a noite, e o cara disse: “Vamos entrar aqui na picada, dormir na casa de uns caçadores, e amanhã voltamos”. Lá fomos... E quando chegou na casa dos caçadores havia muitos couros de onça espalhados. Perguntei: “Tem muita onça por aqui?”. E ele disse: “Tem, às vezes elas urram aqui perto mesmo”. A casa era de palha e o quarto deles era fechado, mas os visitantes, como nós, cada um montava a sua rede na varanda do lado de fora. Foi um pesadelo...

A certa altura chegamos em Carolina, que já era uma cidade mais avançada, mas era tradicional. Conversamos com certas pessoas que eram progressistas – algumas falavam na Coluna Prestes, que havia passado por lá. Um senhor de Santarém que tinha um piano velho nos disse que ele havia sido tocado pelo João Alberto, um dos comandantes, durante uma noite inteira. Ficamos lá esperando por vários dias até aparecer uma condução que nos levasse a uma cidade chamada Porto Nacional, que, por sua vez, era dominada pela Igreja, a dona de tudo. O lugarzinho onde ficamos pertencia à igreja e tinha de ser pago. E de Porto Nacional para a cidade de Peixe foi preciso contratar dois canoeiros que faziam a viagem numa canoazinha com varas. Quer dizer, eles a iam tocando com varas contra a corrente. E lá fomos assim... Até a cidade de Peixe.

Bem, de Anápolis fomos ao Rio de Janeiro em setembro de 1941. A URSS havia sido atacada em junho. Era um momento de movimentação em todo o mundo. Hitler tinha subido ao poder na Alemanha e fazia a guerra. O fascismo tomava feições muito complexas. No Brasil, tivemos páginas terríveis na nossa história. Torturas, prisões... Foi um período difícil. Duro demais. Foi bárbaro esse período. Foram anos de perseguição. Até 1941-42 ocorreu a última revoada da reação contra nós, violenta, em que prenderam toda a direção do Partido. O Prestes já tinha sido preso antes, em 1936 e, em 1939, caiu o restante da direção do Partido. Prenderam todo mundo. Pensava-se: “O que é que se vai fazer agora? O que a gente vai fazer?”. Numa situação histórica em que o Partido era mais necessário do que nunca...

Na CNOP e na Conferência da Mantiqueira

A mãe do Pomar estava morando no Rio de Janeiro. Lembro-me que ficamos uns dois dias na casa dela e começamos a nos ligar, com dificuldades, ao Partido – ali também destroçado e sob muita vigilância. Depois propus ao pessoal: “Não seria o caso de eu ir para Minas Gerais e reconstruir o Partido lá (onde o Partido tinha sido destroçado e um companheiro dirigente nosso assassinado)?”. Então fui enviado para Minas em fins de 1941, início de 1942. Passei um ano e meio em Belo Horizonte. Recebi, lembro-me bem, 200 mil réis na época (uns 200 reais de hoje). Era tudo o que tinha: uma passagem de trem e 200 reais. Se não tem Partido, e o Partido está destroçado, é uma coisa terrível...

Cheguei lá, arranjei uma pensão e paguei por 15 dias. Fui procurar e consegui um emprego. Fiquei segurando a situação dessa forma para poder reorganizar o Partido. Reorganizei-o e saí de lá já às vésperas da Conferência da Mantiqueira. Fui para o Rio de Janeiro para ficar na organização nacional.
O Partido havia sofrido uma repressão violentíssima. Fomos sendo, todos nós, presos nos estados.

Todo mundo acabou preso. Foi assim no Pará. E o Partido destroçado... A reação por toda parte. Filinto Müller tinha feito uma declaração: “Dentro de 10 anos não se ouvirá mais falar de Partido Comunista do Brasil. Está liquidado!”. E isso numa hora crucial em que a URSS estava sendo atacada pelo nazismo... Então a nossa tarefa naquele período teve muita importância: a reorganização do Partido.

Quando chegamos ao Rio de Janeiro estabelecemos contato. Era o Grabois e o Amarildo Vasconcelos, que era jornalista. O Grabois tinha saído da prisão tinha pouco tempo – havia sido condenado a dois anos e já tinha cumprido a pena. Havia ainda o Ivan Ramos Ribeiro, que era oficial do Exército (também condenado, cumpriu a pena e saiu). Então, com eles foi sendo organizada o que se chamou Comissão Nacional de Organização Provisória (CNOP), buscando contato por toda parte. Depois chegou o Diógenes Arruda, que tinha vindo da Bahia para ajudar (como não podia ficar lá foi para São Paulo). E aí nos pusemos em ação. Porque até então se aglutinavam poucos na CNOP. E nela havia um capitão do Exército, Sérgio Machado, um homem abnegado que fazia trabalho junto às Forças Armadas. Pomar e eu nos agregamos a esse trabalho. Em conjunto, discutimos a necessidade da Conferência da Mantiqueira.

Eu trazia já o Partido reorganizado em Minas Gerais; precariamente, mas reorganizado. Em Minas consegui endereços de comunistas no Paraná. O Partido me mandou então ao Rio Grande do Sul para ver se fazia mais contatos. Fui para a cidade de Alegrete para procurar o pessoal que era ligado ao setor militar (que tinha sido condenado). No Rio Grande do Sul me reuni com antigos dirigentes do Partido (o Jacinto, um intelectual, e vários outros de quem não recordo os nomes, como um companheiro que esteve na guerra da Espanha – eram dois irmãos...). Tivemos, então, uma reunião no Rio Grande do Sul e tiramos delegados para a Conferência da Mantiqueira.

Passando por Florianópolis, tive uma conversa na rua e perguntei: “Aqui teve um estivador que foi deputado federal não é?” E o cidadão me disse: “É, o Ventura; o Álvaro Ventura”. “E ele ainda existe?”. “Existe, mora ali”. E me deu o endereço. Meti as caras e fui até lá falar com ele. Perguntei-lhe se poderia participar da Conferência da Mantiqueira. Ele me respondeu: “Não posso, não há jeito nenhum de eu poder ir. Mas pode dizer ao pessoal que apóio e dentro de um mês estarei no Rio de Janeiro para ajudar”.

Na minha passagem pelo Paraná procurei um professor de música. Tomei essa iniciativa porque havia conseguido o endereço de um companheiro de Belo Horizonte que morou muito tempo em Curitiba, conhecia o Partido e escreveu uma carta para ele. O camarada paranaense deu algumas indicações e levei dois companheiros do Paraná para a Conferência da Mantiqueira.

Estes foram os meus passos, juntamente com outros companheiros, para fazer a Conferência da Mantiqueira – um marco na história do Partido, sem dúvida nenhuma. Um marco importante: assinala a reorganização do Partido nacionalmente e elege uma direção.

O Partido é, como se diz, como aquela ave, a fênix, que nasce das próprias cinzas. Quer dizer, quando se pensa que acabou tudo, o Partido renasce das próprias cinzas. Porque é um movimento; uma necessidade histórica. E acaba surgindo de qualquer forma, acaba se reorganizando.

Na Conferencia da Mantiqueira, eu tinha 31 anos. A gente ia até Barra do Piraí e lá pegava um carro (daqueles mais antigos do mundo) para chegar a uma cabana (antigo local de produção, que não existe há muitos anos). Ali abrigamos a Conferência. E para fazer o plenário fomos buscar uns tocos de árvore, ou o que a gente encontrasse, para se sentar, porque tinha poucas cadeiras. Acho que reunimos 20 pessoas, ou um pouco mais. Assim de cabeça, posso dizer que havia os organizadores da CNOP:

Amarílio Vasconcelos, Maurício Grabois, De Marco, Ivan Ribeiro (capitão do Exército), Julio César (que já morreu); depois, vinha o Pomar e eu (que tínhamos ido numa correria para lá). Entrava o Arruda (que tinha aderido), o Armênio Guedes (que tinha ido junto com ele) e o Mario Alves; e, ainda, dois representantes do Rio Grande do Sul (Jacinto e outro) que eu havia levado; um outro do Paraná, levado por mim, o Jorge Erlam; e de Minas Gerais havia um de Juiz de Fora, o Leopoldo. O José Medina também estava presente. Foi essa, mais ou menos, a sua composição.

A Conferência da Mantiqueira é um marco na história porque mostra a capacidade do Partido de reagir às situações mais difíceis contra a reação. Conseguimos realizar uma conferência pobre do ponto de vista material. “Conferência da Mantiqueira” é um nome pomposo, mas seu local era um barraco sem condições de habitabilidade. Ali nós tivemos de improvisar, com tijolos, pedaços de árvores, etc, o local para poder realizar a Conferência. Mas, reinava aquela alegria dos comunistas, aquela confiança no Partido e no futuro. Foi um acontecimento histórico, ninguém se preocupou com as dificuldades. Todos nós vivíamos aquele momento de intensa alegria pela reorganização do Partido. Demos início, assim, à reorganização do Partido em todo o país. Na Conferência se elegeu o Comitê Central do Partido no qual foi incluído o companheiro Álvaro Ventura (que não estava na reunião, mas estava de acordo com ela).

E também foram incluídos o Prestes, que estava preso, e o Marighela (preso já fazia dez anos). Ali, foram eleitos o Ivan Ribeiro, o Pomar, o Mario Alves e eu, entre outros. Dessa maneira, foi criado um Comitê Central e começado um grande trabalho de organização do Partido.

Até então o Partido se organizava em alguns estados, mas tinha ainda pouca expressão nacional. O Partido ressurgiu como organização revolucionária no nosso país, e isso foi conseguido na Conferência da Mantiqueira. Nela, nós elegemos um marítimo para Secretário-Geral do Partido e a segunda pessoa vinha sendo o Arruda, o nosso Secretário de Organização. Depois, Maurício Grabois, esse companheiro Amarildo Vasconcelos e o Sergio Machado, que era capitão do Exército. O Pomar e eu também entramos. O Partido organizado é outra coisa, não é aquela organização isolada, ainda sem uma direção nacional. O papel da direção nacional é fundamental para a existência e para o desenvolvimento da luta de um Partido Comunista.

Estávamos salvos do incêndio. Quer dizer, dava para se reunir e organizar o Partido. Havia uma grande confiança mesmo. Em todo caso, o Partido mostrou que não estava afeito com o combate a pessoas, e sim preocupado com as questões maiores. O Getulio aparecia como um inimigo monstruoso, digamos assim. Mas nós, com o problema da guerra, com a Alemanha atacando a União Soviética, mobilizamos todos para ver se participávamos dessa grande luta contra o fascismo e o nazismo. Getúlio tinha mudado de posição devido ao Brasil ter sido obrigado a entrar na guerra contra o nazi-fascismo. Com isso, houve uma mudança muito grande, porque os comunistas deixaram de ser o alvo da perseguição.

Agimos com muita habilidade, assumimos a Liga de Defesa Nacional, uma instituição histórica que existia ali na Lapa, envolvendo o nosso pessoal e simpatizantes nossos das Forças Armadas. A entidade virou um grande centro de ação política. Foi nessa época que estimulamos a mobilização contra o nazi-fascismo. Depois disso, veio a campanha da anistia e a libertação do Prestes. Houve diversos comícios e conquistamos a redemocratização do país. Fizemos um movimento popular de envergadura. E o Getulio aparecia então na direção também desse novo quadro político no Brasil. Por isso os setores reacionários das Forças Armadas não tiveram dúvida (havia o general Dutra que jogava um papel importante) e deram o golpe. O golpe retirou Getulio do governo e colocou um presidente interino. Mesmo sob restrições, o Partido viveu um período de vida legal, com ampla presença diante das massas e obteve significativa vitória eleitoral, participando da Constituinte de 1946."

EDIÇÃO 69, MAI/JUN/JUL, 2003, PÁGINAS 38, 39, 40, 41, 42, 43, 44, 45, 46

Centenário de João Amazonas - Etapas Econômicas no Sistema Socialista - Artigo de João Amazonas (1991)

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Não basta tomar o poder e avançar em linha reta para o comunismo. Na transição socialista ocorrem saltos de qualidade que devem ser preparados com critérios científicos.


Em março de 1918, Lênin afirmou que a Rússia estava na "primeira etapa da transição do capitalismo para o socialismo". Disse, mais tarde, que “não se sabia, nem se poderia saber, quantas etapas de transição ao socialismo haveria" (l).

No curso da edificação socialista na URSS, que durou quatro décadas – de 1917 a 1957 – esta questão não foi suficientemente esclarecida. Parece ter sido tratada sem o necessário critério científico.

Tema ainda pouco abordado na discussão que se realiza sobre a crise do socialismo tem, entretanto, importância primordial na avaliação dos fatos negativos ocorridos na primeira grande experiência de implantação do regime econômico-social mais avançado que a história conhece.

Não se trata de constatações ou de simples enumerações de fases que se vão sucedendo na marcha para o comunismo. Mas, da compreensão de que o processo em curso não é apenas evolutivo, ou principalmente evolutivo. Registram saltos dialéticos que produzem qualidades novas sem alterar a essência da transição.

Também no capitalismo observa-se fenômeno semelhante que ocorre de maneira espontânea. Desde o seu surgimento até a época presente passou por várias fases. Na atualidade, encontra-se na etapa superior e última do seu desenvolvimento.

Focalizando esse tema, e para melhor elucidação do assunto, é conveniente fazer uma breve exposição retrospectiva da evolução do sistema capitalista.

O capitalismo nasce no seio do feudalismo, quando este começava a desintegrar-se, aí pela metade do século XVI. A primeira etapa do seu desenvolvimento é conhecida como cooperação capitalista simples, que tende a substituir a pequena produção individual. Surgem as oficinas que agrupam as produções artesanal e camponesa. Os meios de produção rudimentares encontram-se nas mãos dos incipientes capitalistas da época. Quem trabalha nessas oficinas são artesãos arruinados e mestres que já não conseguem tornar-se independentes, bem como camponeses pobres. A cooperação simples favorece a socialização inicial do trabalho, aumenta a produtividade ainda que em pequena escala, propicia o crescimento da produção. Essa primeira etapa, que dura largo período, cria as condições para a passagem a um estágio mais elevado do desenvolvimento do capitalismo: o estágio manufatureiro.

A divisão de trabalho na fase da manufatura representa um aumento das forças produtivas
A manufatura é um salto qualitativo na produção capitalista, outra etapa do seu crescimento. Os capitalistas, geralmente comerciantes por atacado, reúnem artesãos de diversas especialidades numa só oficina para produzir utilidades que envolvem vários componentes. Ou juntam numa oficina artesãos de uma única especialidade com o fim de manufaturar apenas um tipo de objeto. Alastra-se também o trabalho capitalista em domicílio. A divisão do trabalho na fase manufatureira representa um avanço considerável no aumento das forças produtivas, embora não tenha eliminado a pequena produção. Os trabalhadores são submetidos a violenta exploração. A jornada de trabalho é de 18 horas e o salário não dá para matar a fome. Marx dizia que a divisão manufatureira do trabalho "cria novas condições para que o capital domine sobre o trabalho”. Segundo ele, "isso representava, de uma parte, um progresso histórico e uma etapa necessária no processo econômico de formação da sociedade e, de outra parte, um meio de exploração civilizada e refinada" (2).

A manufatura, com a simplificação das operações e a repetição dos mesmos fatigantes movimentos, possibilitou a substituição dos operários pelas máquinas. Ajudou o aperfeiçoamento das ferramentas, permitindo passar dos instrumentos manuais às máquinas. Formou operários hábeis para lidar com o maquinário. O papel histórico dessa etapa consistiu em preparar as condições para a passagem à produção industrializada, representou a transição da pequena produção artesanal à da grande indústria. O sistema manufatureiro predominou na Europa Ocidental por mais de dois séculos.
A indústria baseada nas máquinas inicia-se nos fins do século XVIII e se estende à Europa e aos Estados Unidos no transcurso do século XIX. É um salto gigantesco no desenvolvimento do capitalismo, uma etapa nova e revolucionária. A grande indústria constitui a base material e técnica do capitalismo. As primeiras máquinas surgem no setor têxtil, são construídas de madeira e utilizam rudimentarmente a água dos rios como força geradora de energia. Mais adiante, começa-se a empregar a força-motriz do vapor, do gás, da eletricidade. A máquina a vapor impulsiona a produção capitalista. E a eletricidade, que aparece no último terço do século passado, revoluciona a produção. Já se havia criado a indústria da construção de máquinas, apoiada no progresso da metalurgia. A industrialização capitalista ganha impulso, tendo por base a produção dos meios de produção, a indústria pesada. Esta desenvolve-se paulatinamente durante vários decênios, devido a requerer grandes recursos financeiros. Com a industrialização crescem rapidamente os centros urbanos. Surge o proletariado industrial e, com ele, a luta de classes entre assalariados e capitalistas. A socialização do trabalho e da produção, com o emprego de máquinas, representa um enorme progresso da sociedade. O benefício desse progresso vai parar nas mãos dos capitalistas que exploram o trabalho assalariado. No decorrer do processo produtivo, as fábricas crescem rapidamente. A concorrência entre os capitalistas dá lugar à concentração e à centralização do capital. Manifesta-se uma etapa nova no desenvolvimento do capitalismo.

O monopólio conduz à passagem do capitalismo a um sistema econômico superior
Essa nova fase transcorre durante todo o século XX e, possivelmente, numa parte do século XXI. Lênin fez uma circunstanciada e fundamentada análise dessa fase no livro O Imperialismo, etapa superior do Capitalismo. Definiu assim o imperialismo, expressão característica dessa fase: "I) a concentração da produção e do capital, alcançada num grau muito elevado do desenvolvimento, criou os monopólios que desempenham um papel decisivo na vida econômica; II) a fusão do capital bancário com o industrial e a formação, sobre a base deste capital financeiro, da oligarquia financeira; III) a exportação de capital, diferentemente da exportação de mercadorias, adquire importância particular; IV) a constituição de associações internacionais monopolistas de capitalistas, os quais repartem o mundo entre si; e V) o término da partilha territorial do mundo entre as potências capitalistas mais importantes" (3). Sintetizando: "O imperialismo é o capitalismo na fase de desenvolvimento na qual tomou corpo a dominação dos monopólios e do capital financeiro, a exportação de capital adquiriu importância de primeira ordem, a partilha do mundo pelos trustes internacionais começou e também terminou a divisão de todo o território planetário entre os países capitalistas mais importantes" (4). O monopólio engendrado pela concentração da produção é uma lei geral e fundamental da fase atual do desenvolvimento do capitalismo. Esse capitalismo parasitário está em decomposição, o que não significa "acreditar que a decomposição descarta o seu rápido crescimento" (5).

A etapa monopolista, imperialista, prepara objetivamente a passagem a outra etapa, que já não será capitalista, pois o "monopólio, que nasce única e precisamente da livre concorrência, é o trânsito do capitalismo a uma ordem econômico-social mais elevada" (6).

Essas etapas, pelas quais passou o capitalismo, dão lugar a importantes mudanças na superestrutura da sociedade, manifestando-se aí a interação entre a base e a superestrutura. Não é nosso propósito, neste artigo, descrevê-las com suas particularidades próprias. Desejamos destacar, apenas, que tais etapas refletem processos regulares econômicos que se realizam independentemente da vontade dos homens. Vale ressaltar também não ser obrigatório que os povos e nações muito atrasados tenham de percorrer forçosamente todas as etapas anteriormente mencionadas. Particularmente se a revolução nessas nações contar com o apoio de países socialistas poderosos.

Tanto no sistema capitalista como no socialismo as etapas são leis objetivas
Do capitalismo monopolista, em sua última fase, a humanidade passará ao socialismo. Previsão científica comprovada pela transformação radical ocorrida na velha Rússia de 1917.

O socialismo se origina de uma revolução que modifica radicalmente o conteúdo do processo produtivo, apoiado em novo tipo de relações de produção. Do ponto de vista econômico é uma continuidade e, ao mesmo tempo, uma ruptura do sistema que vigorava anteriormente. Também se desenvolve por etapas cientificamente definidas.

As etapas, tanto no socialismo como no capitalismo, são leis fundamentais do desenvolvimento objetivo, exprimem crescimentos quantitativos seguidos de saltos qualitativos na produção, que se refletem igualmente na superestrutura. Por isso, as etapas não podem ser determinadas arbitrariamente, nem suprimidas ou aceleradas artificialmente. Tampouco, desconsideradas. Se não se adotar critérios científicos, cometem-se erros, perde-se a visão correta da transição que leva ao comunismo. Já Engels alertava para esse assunto. Dizia que "o problema das etapas de transição para o socialismo é a questão mais difícil de todas as que possam existir, pois as condições modificam-se constantemente" (7). E numa carta a Otto Boenigk, em agosto de 1890, asseverava que a sociedade socialista não é uma coisa pronta de uma vez por todas. "Tal como os outros estágios da sociedade, deve ser compreendida em contínua mudança e reorganização".

O que se conhece da construção do socialismo na URSS deixa dúvidas sobre se houve correto tratamento das etapas da transição para o comunismo. Sabe-se quando começou a primeira etapa, mas não se tem clara noção de como transcorreu essa fase e em que consistia, nem se distingue nitidamente a passagem à segunda, à terceira etc. Fala-se em termos muito gerais, descritivos, das tarefas realizadas. Houve saltos? Que nova qualidade decorrente de fatores objetivos aparece? É sabido que no socialismo as coisas não se dão de maneira espontânea, mas consciente. Isto significa que se deve conhecer a necessidade (leis econômicas objetivas em ação) e proceder a sua sábia utilização no interesse da sociedade.

Em 1954, foi publicado o Manual de Economia Política elaborado por numerosa equipe de economistas do Instituto de Economia da Academia de Ciências da União Soviética. Stalin, em Problemas Econômicos do Socialismo na URSS, opinou sobre temas essenciais desse livro, oferecendo valiosas contribuições teóricas. No Manual, faz-se uma sistematização do processo de construção econômica do socialismo, destacando a industrialização e a coletivização da agricultura. Abordam-se métodos de gestão da economia socialista. Dá indicações gerais das leis que aparecem no curso da nova formação econômico-social distinta do sistema capitalista. E enfatiza-se que "o trabalho prático de construção do socialismo somente pode ser coroado de êxito se estiver baseado nas leis econômicas que regem o desenvolvimento da sociedade”. O Manual, porém, não examina as etapas da edificação econômica do socialismo, problema intrinsecamente ligado a essas leis. É uma grave omissão.
A questão das etapas é abordada pelos soviéticos de diferentes modos, às vezes inadequadamente. De maneira equivocada, o Estado aparece determinando etapas do desenvolvimento do país. Afirma-se: “Na primeira fase do seu desenvolvimento, o Estado Soviético preparou as condições para acabar com os elementos capitalistas da cidade e do campo. Ao realizar-se a política de industrialização socialista e a coletivização da agricultura, assentaram-se os fundamentos da economia socialista e o problema de 'quem vencerá quem' resolveu-se em favor do socialismo" (8). (Tal problema não foi nem poderia ser resolvido em tão curto período. Nota de J. A.) Afirma-se ainda: “Na segunda fase, o Estado enfrentou as tarefas da organização da economia socialista em todo o país e da eliminação dos últimos restos dos elementos capitalistas, da revolução cultural, da organização de um Exército à altura das exigências modernas" (9). Assinala-se também: "No Segundo Plano Quinquenal foi levada a cabo a reestruturação técnica de toda a economia nacional (...) no Terceiro Plano Quinquenal projetou-se alcançar e ultrapassar os países capitalistas no aspecto econômico, tendo por base (!) o desenvolvimento contínuo da mesma linha geral bolchevique" (10). Ora, essa forma de definir as etapas (processos econômicos objetivos) não nos parece correta. Sem dúvida, o Estado cumpre importantes tarefas econômicas de construção do socialismo, mas não lhe cabe ditar as leis econômicas dessa construção. Criticando o voluntarismo, o subjetivismo idealista, Stalin observa, em 1952, que na URSS "havia pessoas que atribuíam ao Estado Soviético o poder de ditar leis da Economia Política”. "Tais pessoas – afirmava – confundem as leis da ciência, que refletem processos objetivos da natureza ou da sociedade que se realizam independentemente da vontade dos homens, com as leis promulgadas pelos governos, criadas pela vontade dos homens" (11).
Essa aguda observação de Stalin, a nosso entender, tem a ver com o que foi dito acima.

Equivocada a idéia de que a URSS se encontrava nos umbrais do comunismo em 1939
É bastante elucidativo o que ocorreu no XVIII Congresso do PCUS, realizado em março de 1939. A orientação adotada leva a uma falsa caracterização do estágio em que ingressara a União Soviética. "Terminamos – assinalava o congresso – mais outra etapa histórica da evolução comunista na URSS. Concluímos, no fundamental, toda uma época de trabalho construtivo, para entrar em uma época nova – a da passagem gradual do socialismo ao comunismo" (12). E mais: "Quando o socialismo já venceu, quando a URSS entrou numa nova fase do seu desenvolvimento, na fase do coroamento da construção da sociedade socialista sem classes e da passagem gradual do socialismo para o comunismo, se faz ainda maior a importância da vanguarda da classe operária" (13).
Tais manifestações indicam claramente ter havido voluntarismo na determinação das etapas necessárias. Declarar, em 1939, "que começava a etapa da passagem gradual do socialismo ao comunismo" era propagar generalidades divorciadas da ciência social. Passagem gradual ao comunismo, em termos genéricos, é todo o processo de construção da nova sociedade. A idéia que transmite o XVIII Congresso do PCUS era a de que a URSS já se encontrava nos umbrais do comunismo, idéia decididamente equivocada.

Baseados nessa conclusão, os dirigentes soviéticos colocaram em primeiro plano, como a tarefa primordial, "a educação das massas num espírito de atitude conscientemente comunista a respeito do trabalho, o aperfeiçoamento da educação ideológica dos próprios quadros do aparelho do partido e do Estado, assim como de toda a intelectualidade soviética no espírito do marxismo-leninismo, do bolchevismo" (14). Não há como negar que a educação comunista dos trabalhadores e das grandes massas da população é atividade importante e permanente da vanguarda proletária. Mas, seria essa, precisamente, a tarefa essencial que correspondia às exigências específicas do desenvolvimento econômico-social? Antes da passagem ao comunismo – ainda bem distante – não haveria outros objetivos fundamentais mais próximos e condizentes com a situação da época?

Em vários documentos do PCUS já salientara a importância da técnica em relação com o aumento da produtividade. Entretanto não se tratou, concretamente, do trânsito de uma economia fortemente extensiva, apesar dos imensos avanços alcançados, para uma economia de caráter intensivo, exigência do progresso econômico. O crescimento da economia não pode ser visto unicamente em termos quantitativos. A quantidade prepara saltos qualitativos, configurando formas mais altas de desenvolvimento. A verdade é que a URSS, sobretudo no pós-guerra, atrasou-se, e não acompanhou o rápido ascenso da tecnologia moderna na produção, ainda que tenha progredido significativamente em outros setores, como o da conquista espacial. Chegou-se a prever, em 1954, que "a energia atômica nos aproxima de uma nova revolução técnico-científica e industrial, cujo alcance superará em muito as revoluções industriais do passado" (15). Não se tirou, porém, a conseqüência devida.

O PCUS e o governo não viram a nova etapa em que o socialismo necessitava ingressar
Ao que tudo indica, no final da década de 1950, a URSS encontrava-se ante a necessidade de passar a outra etapa econômica do seu desenvolvimento, com características distintas da fase que então vivia. O PCUS e os órgãos estatais não identificaram essa necessidade objetiva e, por isso, mostraram-se incapazes de formular as tarefas dela decorrentes. Perderam-se em indicações abstratas como a da passagem gradual ao comunismo.

As modificações operadas na base econômica teriam forçosamente de se refletir na superestrutura, particularmente nas áreas do Estado e da atividade política das massas trabalhadoras. A democracia socialista tendia a ampliar-se. A participação direta dos trabalhadores nos assuntos do Estado e da vida da sociedade ganharia maior dimensão. A consciência política da população, em geral, especialmente da classe operária, elevar-se-ia mais e mais. Tais modificações iriam moldando a feição da nova sociedade em construção. Quanto maior a proximidade do comunismo, mais o governo das pessoas (o Estado) vai dando lugar à administração das coisas públicas. Por sua vez, as mudanças na superestrutura atuariam sobre a base econômica impulsionando o seu progresso.
É evidente que, em algumas questões, o PCUS, partido que primava por sua orientação científica, atuou empiricamente. Prova disso foi o surgimento, nos fins da década de 1940 e começo dos anos 1950, das tendências ao gigantismo. Falava-se, como tarefa do momento, nas "grandes obras do comunismo”. E não ficou somente nisso. Dispendiosos recursos foram empregados em construções desse porte, alheias ao nível de desenvolvimento até então alcançado na transição socialista. Estranhas também as exigências prementes ligadas ao bem-estar da população. Afinal, como será a fisionomia real da sociedade comunista? Terá uma contextura macrodimensional? Como materialista dialético, Lênin conjecturava: "a era da revolução social começou (...) isso sabemos e dissemos, porém quanto a saber agora como será o socialismo uma vez finalizado, isso não sabemos" (16).
A feição definitiva do mundo comunista surgirá provavelmente da conjugação do alto nível de desenvolvimento material da sociedade com a infinita criatividade espiritual dos homens do futuro. As obras relevantes do comunismo poderão ter caráter muito diferente das que se tentou erigir quarenta anos atrás.

Por tudo isso, consideramos de fundamental importância, na construção do socialismo, a definição rigorosamente científica das diversas etapas do desenvolvimento econômico-social, que tudo indica têm prazos bem mais longos do que os geralmente admitidos. Talvez nessa questão encontre-se um dos elos-chave para melhor compreensão dos fenômenos negativos verificados na União Soviética no curso da edificação socialista.

* Presidente Nacional do Partido Comunista do Brasil – PcdoB.


NOTAS
(1) LÊNIN, V. I. 7º Congresso Extraordinário do PC(b)R.
(2) MARX, Karl. O Capital, livro I.
(3) LÊNIN, V. I. O Imperialismo, Etapa Superior do Capitalismo.
(4) LÊNIN, V. I. Ibid, ibidem.
(5) LÊNIN, V. I. Ibid, ibidem.
(6) LÊNIN, V. I. Ibid, ibidem.
(7) Biografia do Instituto de Marxismo-Leninismo, Anexo ao CC do PCUS, F. Engels, p. 569.
(8) KONSTANTINOV, F. V. O Materialismo Histórico, p. 199.
(9) KONSTANTINOV, F.V. Ibid, ibidem.
(10) Academia de Ciências da URSS. Manual de Economia Política.
(11) STALIN, J. Problemas Econômicos do Socialismo na URSS.
(12) MOLOTOV, V. Discurso na Abertura do XVIII Congresso do PCUS.
(13) ZHDANOV, A. Intervenção no XVIII Congresso do PCUS (1939).
(14) PCUS – Resolução do XVIII Congresso (março/1939).
(15) Academia de Ciências da URSS – Manual de Economia Política, p. 55.
(16) LÊNIN, V. I. Contra a Emenda de Bukharin, in 7º Congresso do PC(b)R.

EDIÇÃO 23, NOV/DEZ/JAN, 1991-1992, PÁGINAS 4, 5, 6, 7, 8

Defender e Desenvolver a Teoria Marxista: Exigência da Época Atual - Artigo de João Amazonas (1991)

Fundação Maurício Grabois - www.grabois.org.br 

Artigo para a revista Princípios EDIÇÃO 20, FEV/MAR/ABR, 1991, PÁGINAS 36, 37, 38, 39 - 1991


Virou moda abarcar numa mesma categoria a construção do socialismo e sua destruição pelo revisionismo. Tudo é "socialismo real". Tal falta de referência científica não permite um exame crítico adequado à revolução.

Vão-se avolumando especulações de toda ordem acerca do socialismo e de suas perspectivas. Sob óticas as mais diversas, buscam-se explicações para os acontecimentos sucedidos na União Soviética e no Leste europeu. O debate é salutar, merece ser estimulado. São muitos os problemas exigindo reflexão. E ninguém é dono da verdade. Surgem, no entanto, conclusões pouco sólidas. Negam-se princípios fundamentais da natureza mesma do socialismo. Põe-se em dúvida a ciência social que, no dizer de críticos apressados, não passaria de "uma teoria ideologizada" ou de "ideologismo abstrato". Constroem-se projetos utópicos que, na essência, assemelham-se aos de Fourrier e Saint-Simon na metade do século passado. Pretende-se o socialismo sem revolução, sem luta de classes, sem teoria revolucionária.

Seguramente, torna-se necessário examinar com espírito aberto e construtivo os fenômenos indesejáveis ocorridos no processo da evolução social iniciada nos idos de 1917 e que conduziram a um retrocesso na marcha da História. É indispensável detectar as causas desse recuo, considerando as distintas correlações de forças que se apresentavam. Não é tarefa comum, fácil de empreender.
Somente o primarismo auto-suficiente dá respostas abreviadas e inconsistentes – foi o burocratismo, o estatismo, o Estado gigante fundido com o partido único, o socialismo sem capitalismo... foi o modelo "stalinista".

Duas questões importantes chamam a atenção nos debates em curso. O menosprezo pela teoria e a ausência de análise concreta da vigência do socialismo na URSS. O marxismo-leninismo teria perdido sua vitalidade, já não serviria para nada. E o socialismo fora algo confuso que durara várias décadas e terminara na volta ao capitalismo.

“Referência básica para o exame crítico sério do processo histórico”.

Grande número dos que discutem a crise do socialismo procura desconhecer que na União Soviética prevaleceu por muito tempo um novo sistema econômico-social que, mais tarde, foi substituído por outro regime, de natureza diversa. Quando muito, referem-se à época de Lênin, que morreu em janeiro de 1924. Alguns mencionam o começo dos anos 1930. Generalizam os erros, sem levar em conta que houve situações diferentes nos setenta anos de União Soviética. Para eles, tudo é socialismo real, uma coisa só. Desse modo, ficam incapacitados de compreender as questões de fundo que se relacionam com o progresso da humanidade. Não podem chegar a conclusões acertadas.

Na União Soviética não somente aconteceu a maior revolução da História como se conseguiu construir, em boa parte, a nova sociedade. Mesmo raivosos opositores são obrigados a reconhecer o enorme êxito alcançado sob o domínio socialista. Operou-se a revolução industrial, mudou-se radicalmente o sistema atrasado de propriedade rural, fez-se a revolução na esfera da cultura. A União Soviética converteu-se numa grande e respeitada potência, gozando de imenso prestígio internacional. Não por acaso venceu o poderio militar gigantesco da Alemanha de Hitler. É impossível esconder tais fatos que pertencem à História, e são irrefutáveis. Qualquer historiador, fiel aos dados da realidade, reconhece que na velha Rússia feudal-capitalista estabeleceu-se um regime social novo, distinto do capitalismo, uma sociedade dirigida pelo proletariado organizado em sovietes e pelo Partido Bolchevique, fundado por Lênin. Esse novo regime durou cerca de quarenta anos, prova insofismável de sua viabilidade.

Desapareceu há muito tempo, na metade da década de 1950. Nem todos se deram conta do fato, acontecido subrepticiamente. Com o 20º Congresso do PCUS (fevereiro de 1956) completado com o golpe de Estado Kruschev-Zukov (meados de 1957), o proletariado, enquanto classe avançada da sociedade, sofreu uma derrota de significação histórica. Perdia as principais conquistas da revolução de 1917. A partir daí, inicia-se a era do revisionismo, outra concepção, outra orientação política, econômica e social de extração pequeno-burguesa. Seus defensores – Kruschev, Brejnev, Gorbachev – cada qual em momentos diversos, assinalaram com muita ênfase as diferenças radicais que os separavam do passado da URSS condenado in totum por eles. A época do socialismo chamam-na de "stalinismo".

“O balanço do período de construção difere do da destruição”.


É evidente que há duas situações, de diferentes conteúdos sociais. Uma, que vai de 1917 a meados de 1950; outra, das proximidades de 1960 até os dias de hoje. Na primeira, o conteúdo é proletário-revolucionário, na segunda, reformista-burguês. Isso se expressa nitidamente no caráter da orientação posta em prática. Os resultados obtidos são distintos. Durante a vigência do socialismo, em que pesem as enormes dificuldades causadas pela guerra e pelos erros cometidos, melhoraram razoavelmente as condições de vida do povo – havia pão, casa e escola para todos. A crise econômica desapareceu e, com ela, o desemprego. A URSS era o baluarte de defesa da paz, contra as guerras imperialistas. Outro é o balanço do período revisionista, nele incluídos os 5 anos de Perestroika. Crise profunda, fome, miséria, desemprego; a humilhante ração de comida fornecida pelos exploradores derrotados em 1917 e na Segunda Grande Guerra. E a URSS de braço dado com os norte-americanos no conflito do Oriente Médio.

Estariam satisfeitas todas as aspirações de progresso e bem-estar dos trabalhadores vivendo no regime socialista? Não. Muito ainda era preciso fazer, equívocos e erros deviam ser corrigidos. A obra não terminara. Teria que continuar numa etapa socialista mais avançada. E o que ocorreu com o revisionismo? Entre uma parte da população predominam anseios individuais de pequenos grupos que sonham transformar-se em capitalistas, em integrantes da velha civilização ocidental. As massas trabalhadoras inquietas, sem perspectivas, interrogam o futuro.

Nesse contexto encontra-se a referência fundamental para a pesquisa séria e responsável. O método de análise tem de considerar fatores diferenciados. A base dos desacertos não é a mesma. Os defeitos no funcionamento dos sistemas utilizados diferem. Num há construção, noutro, demolição. A construção interrompeu-se aí pelos anos 1950. Ao instaurar-se o revisionismo, começou a destruição gradual, mas continuada, do sistema socialista que vai durar mais de três décadas. Destruindo, os revisionistas não conseguiram, simultaneamente, erigir em toda a plenitude o capitalismo. A operação resultou num regime híbrido que mistura formas socialistas com métodos de exploração capitalista. A desorientação gera o caos na vida econômica, política e social na União Soviética. A experiência demonstra, assim, ser difícil converter uma economia socialista consolidada em economia de mercado capitalista.

Não há como negar, existem duas realidades bem definidas, dois objetos precisos de pesquisa científica. Somente desse modo pode-se aprofundar o conhecimento de erros e enganos presumíveis na construção da nova sociedade, seus desencontros com a dialética que é a "alma do marxismo". E também avaliar devidamente o verdadeiro significado do falso socialismo – o socialismo real – que é a fase de transição para o capitalismo. Todos os críticos do socialismo (refiro-me às pessoas honestas) que não levam em consideração tais particularidades terminam caindo na confusão generalizada, incapazes de fundamentar o processo da crise que se desenvolve no movimento progressista. Perdem a perspectiva da transformação revolucionária do mundo. Giram nas órbitas cinzentas do praticismo.

A ausência de horizontes límpidos no campo da luta social relaciona-se com o desprezo, que se acentua, pela teoria, entre os contestadores do socialismo científico. As idéias de Marx, Engels e Lênin (para não falar nas de Stalin), no que tange à revolução e à luta pelo comunismo, são postas em suspeição. Todavia, não se pode ver o presente com olho crítico e enxergar o futuro com segurança sem o apoio da teoria revolucionária.

“Injustificável o menosprezo pelas conquistas da teoria científica operária”.


Antes de Marx e Engels, os estudiosos da vida social reconheciam os males que o sistema capitalista causava, mas não sabiam explicar suas origens. Dominava o empirismo, inventavam-se soluções artificiais. Foram aqueles dois gênios da humanidade que elevaram o movimento espontâneo da luta social à categoria de ciência. Daí por diante já não se caminhava às cegas. O proletariado passou a dispor de uma arma insubstituível em seu combate contra a burguesia. E foi assim que chegou à Revolução Socialista.

Os críticos do socialismo, que vêem erros em tudo e por toda parte, alheios à ciência social, ficam na superfície dos fenômenos localizados, não vão à sua essência. Geralmente equivocam-se, deixam sem respostas convincentes questões cruciais do movimento operário. Para eles vale somente a prática. Mas a teoria não é algo abstrato, sem relação com a vida. A prática é a base do conhecimento, no entanto, é a teoria que generaliza a experiência, que revela as leis objetivas em atuação, que dá ao homem a consciência da necessidade.

Como explicar e justificar ser a classe operária a força dirigente da revolução e da construção da nova sociedade? Por que se faz necessária a existência de um partido de vanguarda? Por que é impossível chegar ao socialismo sem confronto revolucionário com o Estado da burguesia? De onde provém o lucro dos capitalistas? Respostas precisas somente poderão ser dadas pela teoria que reflete a essência do fenômeno em questão. O lucro não se origina propriamente da ganância do explorador, como a hegemonia do proletariado na revolução não é ditada por razões voluntaristas. O socialismo ruiu na União Soviética. Há quem diga que a causa foi o marxismo ter envelhecido. A verdade é que, embora algumas teses do marxismo hajam sido superadas, ou mal aplicadas, apenas a doutrina marxista é capaz de revelar os motivos da ruína porque retrata a realidade em movimento, as leis objetivas em ação. É a única a indicar os caminhos verdadeiros do progresso social.

O que ocorreu na construção socialista, particularmente na URSS, constitui vasta experiência não sistematizada ainda, um enorme material de trabalho para a pesquisa. Essa imensa e complexa tarefa, que diz respeito ao futuro da humanidade, vai demandar muito esforço teórico, a mobilização de todas as energias criadoras do movimento operário. Não pode ser resolvida da noite para o dia. Exige perseverança, correta interpretação da doutrina dialética dos clássicos do marxismo, espírito criativo, inovador. Os novos problemas serão solucionados de maneira nova, com a ajuda, porém, do conhecimento científico.

“Tanto o mecanicismo como o espontaneísmo são categorias do idealismo filosófico”.

É falho o pensamento dos que, negando a ciência, falam de ideologização da teoria revolucionária. Desconhecem a estreita relação entre a ideologia e a teoria. O marxismo não é uma ciência neutra, como são em geral as ciências naturais. É a ideologia da classe operária, sua concepção revolucionária do mundo. Não serve, nem pode servir à burguesia ou mesmo a outras classes da sociedade. Sabe-se que há apenas duas ideologias – a burguesa e a proletária. Não existe teoria à margem ou acima das classes. Quando se fala em teoria procura-se exprimir de certo modo as idéias e inclinações substanciais de terminada classe, no caso, o proletariado.

É falho também o argumento sobre "ideologismo abstrato", ou sobre “esquemas teóricos preestabelecidos". Com isso, tenta-se atingir, deformando conceitos, o partido marxista-leninista. Mas patenteia-se, ao mesmo tempo, a subestimação da teoria como guia para a ação revolucionária. Declara-se que o partido "não deve possuir qualquer filosofia" e tem de evitar abstrações ideológicas. Sem filosofia própria e objetivos corretos apoiados na teoria de vanguarda, o partido se converte num ajuntamento eventual levado pela correnteza do movimento espontâneo. Em lugar da organização consequente da luta, a improvisação mal definida.

Lênin dizia que "não pode haver um forte partido socialista sem uma teoria revolucionária que agrupe os partidários do socialismo". E assinalava que "sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário". Verdades incontestáveis. Não chega a ser um partido socialista aquele que prescinde da teoria. Quando muito, será uma frente política agrupando inúmeras tendências. A unidade torna-se praticamente impossível.

Certamente, os praticistas, os espontaneístas também falam da importância da teoria. Mas a concepção que têm de teoria é sui generis. Dizem: "construir a teoria a partir das experiências de luta dos trabalhadores, com o aprendizado prático, com o constante avanço de nossa capacitação política, vista como reflexão, debate e estudos apoiados em nossa ação concreta". Que tem isso a ver com a teoria da transformação da sociedade? É puro espontaneísmo, ilusão fugaz. Dos conflitos entre patrões e operários nasce apenas o trade-unionismo. Dos recontros entre polícia, a serviço do dono do solo, e os invasores de terrenos que buscam construir seus barracos o que desponta é o populismo. Não nasce daí a teoria revolucionária, a consciência socialista.

Já dizia Karl Kautsky, quando era marxista, que "a consciência socialista moderna unicamente pode surgir sobre a base de um profundo conhecimento científico". É produto não da luta quotidiana, mas da elaboração intelectual que sistematiza a experiência da luta da classe operária tomada globalmente e não isoladamente, num só país. Essa elaboração teórica é a doutrina do socialismo científico. A luta dos partidos revolucionários inclui a transmissão dessa idéia fundamental aos trabalhadores, visando a dar-lhes consciência socialista. É adquirindo essa consciência que o proletariado compreende a sua missão e o verdadeiro conteúdo da luta de classes, aprende a ligar os conflitos diários com a perspectiva revolucionária. O movimento de emancipação dos trabalhadores toma formas mais combativas e avançadas quando estes ganham a compreensão de que o capitalismo é um sistema com trajetória definida, limitado por suas próprias contradições internas, que deve ser substituído, através da luta de classes do proletariado, por outro sistema, radicalmente oposto ao capitalismo, o socialismo.

Prescindir da teoria, ou rebaixar seu papel, é uma forma de descartar o socialismo, são tentativas de construir utopias com dados da realidade contraditória não trabalhados cientificamente. Constituem variantes das idéias, estas sim, ultrapassadas, da social-democracia. Na situação atual, quando passam a primeiro plano os problemas estratégicos da luta revolucionária, a teoria, que não deve ser confundida com dogmatismo, tem função ainda mais importante. Das três formas de luta de classes – econômica, política, teórica – a que se referia Engels, precisamente a luta teórica ganha maior dimensão nos dias que vivemos.

Defender e desenvolver a teoria marxista é uma exigência impostergável da época atual. E isso se faz não de maneira abstrata, mas ligada à luta concreta no terreno das idéias, no combate ao capitalismo cada vez mais selvagem, na ação política que organiza e educa as massas.

João Amazonas é presidente nacional do Partido Comunista do Brasil – PCdoB.

EDIÇÃO 20, FEV/MAR/ABR, 1991, PÁGINAS 36, 37, 38, 39

Crise do Marxismo e o Pensamento de João Amazonas Por Walter Sorrentino

Com a Fundação Maurício Grabois - www.grabois.org.br


A proposta para o debate ao qual fui convidado, ao que agradeço, é o de entrelaçar o exame da crise do socialismo com o pensamento de João Amazonas, e examinar as conseqüências disso para o pensamento estratégico do PCdoB


Amazonas nos conclamou a superar a crise do marxismo e do socialismo como uma tarefa notável, maior desafio de nosso tempo. O sentido que tem a crise do socialismo no seu pensamento, após anos de reflexão e elaboração sobre o tema, foi bem expresso no 8º Congresso, em 1992 e, sem dúvida, está na base dos ulteriores sucessos do PCdoB em vir enfrentando a crise e se fortalecer no cenário político brasileiro.

O 8º Congresso e a crise do socialismo

O 8º Congresso fala de crise interior do marxismo, que não é a primeira. Reporta-nos à crise da II Internacional, da qual Lênin emergiu como homem extraordinário de pensamento e ação revolucionária, desenvolvendo o marxismo para as condições de seu tempo.

A análise da crise dos anos 89-91, que leva ao fim dos Estados socialistas na URSS e Leste Europeu, alcançando até a Albânia, tem por ponto de partida os eventos de meados dos anos 50, que se aprofundou com a dominação revisionista desde Kruschev até Gorbachev. Essa análise do 8º Congresso envolveu fatores objetivos e subjetivos.

Não é crise de decadência, mas de desenvolvimento do marxismo e do socialismo. Reclama novos procedimentos científicos, para a reelaboração da teoria da construção do socialismo. Num determinado momento da construção avançada do socialismo, com Stalin e PCUS à frente, a vanguarda não esteve à altura teórica de interpretar os fenômenos novos que surgiam. A teoria revolucionária se apresentava em fase de estagnação, gerando um vazio e o descenso da onda transformadora.

Esse enfoque do 8º Congresso apontava para formular de maneira nova, a teoria revolucionária, defendendo e desenvolvendo os fundamentos marxistas, para uma teoria atualizada que abarque os problemas do nosso tempo. Estagnada como está a teoria não poderá cumprir sua missão.
Portanto, a crise do marxismo e do socialismo se resolve fundamentalmente no campo teórico.
A consciência da crise foi se impondo progressivamente: as perspectivas e impasses das revoluções do último quarto do século XX; a débâcle do Leste e ausência do campo socialista como sistema de Estados; a poderosa ofensiva ideológica do capital financeiro, sob hegemonia norte-americana, que perdura até hoje. Esse quadro impôs nova realidade ao movimento transformador, de defensiva estratégica, período de crise ideológica, ao qual poderíamos agregar uma crise programática e uma crise orgânica dos partidos revolucionários.

O pensamento de Amazonas

João Amazonas foi o principal ideólogo do Partido, homem de ação, político experiente, com uma obra prática e ideológica saliente. Seu pensamento foi elaborado na ação e para a ação, e de certo modo se confunde com o pensamento do PCdoB, de seus congressos. Abarca várias dimensões – teórica, ideológica, política, estratégica, tática, internacionalista, de ação de massas. Devido à sua formação marxista consolidada, esse pensamento tem papel central no exame dessa crise. Foi a alma da elaboração do 8º Congresso, acima descrita.

Pode-se falar que há dois marcos essenciais do pensamento e ação de Amazonas - 1962 e 1992. Um deriva do cisma histórico do movimento comunista, de 1956, do qual emergiu a reorganização do PCdoB; o outro, deriva da confirmação de uma derrota estratégica do movimento operário revolucionário com a queda da URSS e do leste europeu no fim dos anos 80. Para Amazonas, a elaboração do diagnóstico da crise do marxismo e do socialismo nasce com as contendas ideológicas de meados dos anos 50, após a morte de Stálin. Não se configurou em toda a inteireza, desde o início, mas se acertou no atacado, e a vida comprovou esse acerto. O tema abarca, assim, décadas, e ainda está em curso, mostrando quanto são prolongados tais combates.

O marco de 1962 tem Amazonas como protagonista destacado. Ele fora participante da célebre Conferência da Mantiqueira, em 1943, que reorganizou o PCB após as pesadas ofensivas da ditadura do Estado Novo, e passa a integrar o Secretariado Nacional. Vai fazendo suas experiências e consolidando suas concepções. No documento “50 anos de luta” (de 1972) ele vai relatar a falta de estabilidade da orientação política do PCB (direitismo em 45-46; esquerdismo do manifesto de agosto de 1950; certo artificialismo do Programa de 1954; direitismo escancarado do manifesto de março de 1958), relacionando-a com o pouco domínio do marxismo-leninismo. Faz curso na URSS em 55-56, que julgou importante, embora com críticas a seu esquematismo pró-soviético. Lá presenciou in loco a mudança da direção do PCUS, em prol de Kruschev. Sistematizou, anos depois, sua convicção da existência de um golpe nesse processo, e a ausência de reação da classe operária e do PCUS.

A reorganização do Partido Comunista do Brasil em 1962 nasce do embate frente a esses processos, e frente ao nacional-reformismo oportunista que tomou de assalto o PCB. Amazonas foi afastado da direção, apodado como “stalinista”, passando anos no RS e, após o 5º congresso, encabeça com Grabois, Pomar e outros o Congresso Extraordinário de reorganização do PCdoB em 1962.

Foram anos de intenso confronto ideológico, nos quais se buscou desmascarar o “revisionismo contemporâneo”, expresso nas opiniões encabeçadas pelo PCUS – a competição e coexistência entre capitalismo e socialismo, e o caráter do Estado e do Partido, “de todo o povo”. Registre-a aí a coragem da frontalidade que caracterizou Amazonas. O novo posicionamento tirou conseqüências no campo internacionalista – estabelecendo-se a ligação com China e Albânia, primeiro, e depois o rompimento com a China, face à teoria dos três mundos. Construiu-se campo internacional do marxismo-leninismo no combate anti-revisionista.

Tal combate perdurou por quase 45 anos, nos quais Amazonas amargou, junto com o PCdoB, forte pressão pelo isolamento ideológico.

No plano da reflexão nacional, mantém-se o pensamento de duas etapas estratégicas da revolução brasileira, que vem da 3ª. Internacional e da análise que se fazia da realidade brasileira - o caráter nacional, democrático, antiimperialista e anti-feudal da revolução na primeira etapa, e socialista na segunda. Esse relativo mecanicismo no pensamento do Partido, com o tempo, cedeu lugar a uma compreensão mais interligada das duas etapas. Nova conclusão só vai ser extraída nos marcos do aprofundamento da crítica e autocrítica no 8º Congresso em 1992.

Com a Perestroika e avanço da crise do campo socialista, relança-se em outro patamar exame da crise do socialismo, preparando o terreno do aprofundamento do exame da crise do socialismo que está na base da permanência e êxitos do PCdoB desde então. Retrospectivamente, pode-se verificar método de João Amazonas: esse foi um programa de investigação e pesquisa, válido ainda hoje, que esteve na base de toda sua produção até 1996-7. A teoria da traição dos dirigentes à frente do PCUS era insuficiente. Tampouco era suficiente bradar contra o stalinismo, ou deixar de refutar as mentiras e calúnias contra Stálin. A causa real era sim o abandono da causa do socialismo, a longa transição do socialismo ao capitalismo que se processara na URSS, mas elas provieram de erros reais na construção do socialismo na URSS e no modelo único de socialismo que se erigiu, com Stálin à frente. Eis aí o enfrentamento de certa unilateralidade que se verificara no combate – correto – ao revisionismo.

Enfim, chegou-se àquela conclusão já explanada do 8º Congresso – a teoria, ao não ter respondido às exigências da evolução social, entrou em crise”. De 1992 a 1998, Amazonas vai dar curso ao seu programa de investigação e extrair notáveis contribuições teóricas. Circunscreva-se aqui uma, absolutamente central: não há modelo único de socialismo. Daí partiu a re-descoberta de Lênin, a categoria da transição ao socialismo, o papel do capitalismo de Estado nessa transição. Essa foi a pedra angular que permitiu a João Amazonas descortinar os novos lineamentos do Programa Socialista do PCdoB para o Brasil.

Seu programa de investigação findou pelo exame da questão do Partido, à importância a dar aos desvios de concepção do partido e sua luta, que levvaram à degenerescência os partidos de molde soviético. “O Partido é força decisiva da revolução”, se ele degenera, degenera a obra de construção da nova sociedade. Afinal, o socialismo trata do primeiro regime econômico e social construído conscientemente, pela vontade humana. Sem teoria revolucionária não há edificação da nova sociedade.

As perspectivas

É preciso superar a crise no campo da teoria, desenvolve-la criadoramente, renovar o marxismo revolucionário; superar o dogmatismo que empobrece a criatividade e a dialética.

Socialismo não se firmará num golpe só – é mais difícil e complexo, não linha reta; é toda uma época de transição do capitalismo ao socialismo, com diversas etapas e fases intermediárias.
Não há modelo único de revolução e edificação do socialismo – diversidade de caminhos e modos na conquista do objetivo comum. Nessa luta, patriotismo e internacionalismo proletário se coadunam. Não há nação soberana sem Estado Nacional soberano.

A saída para o Brasil é o socialismo, abordado em cada aproximação, não mais como bandeira de propaganda, mas sim atuando no curso dos acontecimentos políticos cotidianos, lutando pela hegemonia do proletariado revolucionário, forjando a luta de amplas massas, e fortalecendo seu partido, o PCdoB.

Socialismo não é perspectiva longínqua, inacessível, mas sim exigência do desenvolvimento histórico. Sua realização vitoriosa depende da justa direção dos comunistas, resulta da luta tenaz e consciente das massas.

Esses são alguns dos ricos legados do pensamento de Amazonas, que se confundem com o próprio pensamento do PCdoB. Como ele mesmo disse, em perspectiva: “Assim será o século XXI – no início trevas, depois luz”. O socialismo vive

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* Alguns pontos que foram desenvolvidos em palestra no seminário sobre o pensamento de João Amazonas, IMG/SP, 27 de maio de 2004

Centenário de João Amazonas: Tributo a João Amazonas (1912-2002) - Um Comunista Brasileiro Por Augusto César Buonicore (1)

Fundação Maurício Grabois - www.grabois.org.br

“Há aqueles que lutam um dia; e por isso são bons;
 Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons; 
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda; 
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis." Brecht 


“Minhas cinzas devem ser espalhadas na região do Araguaia, onde houve a guerrilha. É uma forma de juntar-me aos que lá tombaram.” último pedido de João Amazonas


No dia 27 de maio, morreu João Amazonas. Seu último pedido traduziria muito bem a personalidade deste líder revolucionário brasileiro. Não queria monumentos em sua memória. Queria apenas que suas cinzas se juntassem às cinzas dos centenas de combatentes que tombaram na gloriosa guerrilha do Araguaia, da qual ele foi um dos principais idealizadores e dirigente.

Amazonas foi o grande dirigente dos comunistas brasileiros. Foi o seu ideólogo, o seu estrategista maior. Infelizmente Amazonas não viveu tempo suficiente para ver mais uma vitória de sua elaboração tática. Uma tática que propugnava pela necessidade de constituição de uma ampla frente política, tendo como núcleo a esquerda e base as lutas populares, como forma de derrotar o neoliberalismo e abrir caminho para a construção de um novo projeto democrático e nacional, que permitisse acumular forças para avançarmos no sentido da conquista de um socialismo renovado.

Por fim, a história de João Amazonas se confunde com a história de luta do povo brasileiro e de sua vanguarda revolucionário: o Partido Comunista do Brasil.

Uma história de luta

No dia primeiro de janeiro de 1912, em Belém do Pará, nasceu João Amazonas de Souza Pedroso. Filho de família modesta, desde muito cedo se rebelou contra as péssimas condições de vida e de trabalho que vivia submetida a classe operária de sua cidade. Após a revolução de 1930 enviou uma carta indignada ao secretário do trabalho estadual denunciando os abusos existentes na fábrica onde trabalhava e exigindo a imediata redução da jornada de trabalho.

João era também um jovem bastante curioso e se interessava por tudo que ocorria no mundo e no seu país. Um dia caiu-lhe nas mão o livro Um engenheiro brasileiro na URSS, seria o primeiro de vários outros sobre a “pátria do socialismo”. Ele começava a pressentir que naquele distante país se estava construindo um novo mundo, sem miséria e exploração. Mas este ainda parecia-lhe um mundo bastante distante, pois não tinha conhecimento da existência de um partido comunista no Brasil. Em breve, seu espírito indomado e sua vontade de mudar o país e o mundo o levaria a encontrá-lo.

Em 1935, quando tinha apenas 23 anos, num domingo, após sair do trabalho, leu no jornal uma pequena nota sobre a realização de um comício da Aliança Nacional Libertadora (ANL). Sem demora se dirigiu à praça do Largo da Pólvora, onde se realizava o evento. Os discursos inflamados defendendo a soberania nacional, a reforma agrária e a constituição de um poder popular empolgou os ouvintes, inclusive João.

No dia seguinte ele se apresentou na sede local da ANL para se integrar ao movimento. O rapaz foi imediatamente convidado para ingressar na Juventude Comunista na qual passou a militar. Poucos dias depois ingressava no Partido Comunista do Brasil. Era o início de uma relação que duraria mais de 67 anos.

A sua primeira tarefa militante foi organizar uma célula na sua empresa. Tarefa que realiza com sucesso. A partir desse núcleo de comunistas ele partiu para a organização de um sindicato da categoria, outra tarefa bem sucedida. Em seguida foi eleito delegado na União dos Proletários de Belém. Este envolvimento lhe acarretou a sua primeira prisão, que durou apenas 15 dias.

Em novembro de 1935 ocorreu o levante armado, dirigido pela ANL, que foi rapidamente esmagado pelas forças governamentais. Iniciava-se uma fase de violenta perseguição aos comunistas. Apesar da repressão, as atividades dos comunistas não cessaram.

Em 19 de dezembro de 1935 o jornal Folha do Norte anunciava: “Mãos misteriosas içam, pela calada da noite, nos mastros dos reservatórios da Lauro Sodré, uma flâmula comunista com legendas subversivas e ainda dispõem de tempo para deixar inscrições do mesmo gênero nas paredes do reservatório. O fato, notado desde cedo pelo público atrai ao local multidão de curiosos e provoca comentários acalorados (...) A polícia procede a investigação no sentido de apurar responsabilidades”. O reservatório era o ponto mais alto da cidade e nem mesmo o corpo de bombeiros conseguiu retirar a faixa colocada pelas “mãos misteriosas”.

Na faixa vermelha, assinada pela ANL, podia se ler “Abaixo a pena de morte” e nas paredes: “Viva Luís Carlos Prestes – Viva ANL!”. A polícia política ameaçou, prendeu os pobres dos vigias, mas os verdadeiros culpados jamais foram descobertos. Os responsáveis por tal façanha, que agitou Belém, foram dois jovens comunistas: João Amazonas e Pedro Pomar.

No início de 1936 a polícia realizou novas prisões de ex-integrantes da ANL. João e Pedro desta vez não escaparam. Mas, mesmo na cadeia não deram sossego aos seus opressores. Realizaram uma greve de fome contra a má-alimentação servida aos presos e aproveitaram o tempo para ministrar aulas de marxismo-leninismo aos demais companheiros. Depois de mais de um ano de prisão, em junho de 1937, foram julgados e absolvidos por falta de provas. Em novembro ocorreu o golpe de Estado que implantou o ditadura do Estado Novo. Amazonas e Pomar entrariam na clandestinidade.

A Reorganização do Partido Comunista

Em 1940, novamente, uma onda de repressão se abateu sobre os comunistas paraenses. Em 2 de setembro foi preso Pedro Pomar e em 10 de setembro foi a vez de João Amazonas, dois dos principais dirigentes do Partido no Pará. Assim o jornal Folha do Norte anunciou a sua prisão: “Fisgado mais um adepto do credo sinistro”. O artigo afirmava: “No inquérito, a Delegacia de Ordem Política e Social apurou ‘que João Amazonas agia no preparo de matrizes e boletins subversivos da propaganda moscovita, matrizes que eram entregues a Pedro de Araújo Pomar, detido há dias passados. Este se encarregava de mimeografá-los em grande quantidade para espalhar sorrateiramente pelos bairros da cidade. Pouquinhos mas teimosos os adeptos do credo sinistro. A polícia todavia os vai fisgando eficientemente”.

Em junho de 1941 as tropas nazistas iniciaram a ocupação do território soviético e o governo Vargas demonstrava, cada vez mais, simpatias pelos regimes nazi-fascistas. A situação era muito difícil para as forças progressistas no Brasil. Logo após receberem a notícia da invasão nazista, os comunistas João Amazonas, Pedro Pomar, Agostinho de Oliveira, Felipe Santiago entre outros, realizaram uma ousada fuga da prisão. A fuga se deu na noite chuvosa de 5 de agosto de 1941. Afirmou Amazonas: “Na prisão, recebemos a notícia da invasão da União Soviética pela Alemanha hitlerista. Nossa indignação foi enorme. Reunimos, nesse mesmo dia, e juramos sair da prisão para continuar a luta de vida e morte contra o nazismo”.

Depois de sua fuga Amazonas e Pomar fizeram uma difícil viagem até o Rio de Janeiro. Procurados pela polícia do Estado Novo foram obrigados a fazer uma rota cheia de dificuldades pelo interior do país, passando por Marabá e Anápolis.

Chegando ao Rio, em setembro de 1941, passaram a integrar o esforço de reorganização do Partido, cuja direção havia sido dizimada pela ditadura estadonovista. Entraram em contato com a Comissão Nacional de Organização Provisória (CNOP), dirigida por Maurício Grabóis e Amarílio Vasconcelos. Em seguida contataram com Diógenes Arruda, que tentava organizar o Partido em São Paulo.

Nos fins de 1941 Amazonas foi a Minas Gerais onde ficou até 1943. Depois seguiu para o sul do país. Esteve no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. Sua grande missão era reorganizar o Partido Comunista nesses Estado, criando as condições para a realização da conferência que iria reorganizar o Partido Comunista do Brasil.

A 2ª Conferência Nacional do PCB, que ficou conhecida como “Conferência da Mantiqueira”, realizou-se em agosto de 1943 na mais completa clandestinidade. Segundo Dinarco Reis, a reunião “foi realizada numa pequena cafua de telha-vã e chão de terra, com sala, quarto e cozinha, local bastante exíguo para tantas pessoas (...) Dormíamos no chão de terra forrado por sacos e jornais. A noite o frio castigava duramente, pois era inverno nessa região bastante alta”. Mas o esforço daqueles bravos comunistas valeria a pena.

Nesta Conferência João Amazonas foi eleito membro do Comitê Central e passou a compor a comissão executiva e o secretariado, ficando responsável pelo trabalho sindical e de massas. Nesta condição foi um dos organizadores do Movimento Unificador dos Trabalhadores (MUT), em 1945. Em dezembro do mesmo ano se elegeu deputado federal constituinte com 18.379 votos, uma das maiores votações do Distrito Federal.

Na assembléia nacional constituinte destacou-se na defesa do direitos sociais do trabalhadores e da liberdade sindical. Por sua ação decidida em defesa da democracia, da soberania nacional e dos direitos sociais dos trabalhadores, os deputados eleitos pela legenda do PCB foram cassados em janeiro de 1948. Após a cassação dos mandatos comunistas João Amazonas e os demais membros da comissão executiva do Partido caem na clandestinidade.

João Amazonas, ao lado de Arruda e Grabois, assumiram as principais responsabilidades da direção cotidiana do Partido nos difíceis anos do governo Dutra, no qual dezenas de comunistas foram assassinados. Prestes vivia isolado e não cuidava efetivamente do trabalho de direção e de organização partidária.

No IV Congresso do PCB, realizado em novembro de 1954, coube a João Amazonas apresentar o informe sobre as alterações dos estatutos do Partido. Um ano antes, em 1953, Amazonas esteve na União Soviética à frente de um grupo de cerca de quarenta comunistas que fariam um curso de marxismo-leninismo na Escola Superior do Comitê Central do PCUS.

A luta contra o revisionismo

A partir da segunda metade de 1950 ele participou ativamente da luta contra o surto revisionista-reformista que atingiu o Partido após o XX Congresso do PCUS, em 1956. Em 1957, por suas posições contrárias às teses reformistas que vinham ganhando corpo no interior da direção do Partido, João Amazonas, Maurício Grabois, Diógenes Arruda, Sérgio Holmos e Pedro Pomar foram destituídos da comissão executiva e do secretariado do Comitê Central.

Esses afastamentos foram necessários para que se conseguisse uma tranqüila maioria, o que permitiu aprovar as teses reformistas e mudar o rumo político do Partido. No início de 1958, numa reunião do Comitê Central, João Amazonas e Maurício Grabois foram os únicos a votar contra o documento que ficaria conhecido como Declaração de Março e que fora elaborado por uma comissão “ultra-secreta”, criada pelo próprio secretário-geral.

Este documento consolidou a guinada à direita do PCB. Entre outras coisas apregoava a possibilidade da transição pacífica do capitalismo ao socialismo no Brasil. Começava, assim, a se definir nitidamente duas tendências no interior do Partido: uma reformista e outra revolucionária. Estas duas tendências opostas iriam se enfrentar duramente nos debates preparatórios do V Congresso do PCB.
Graças ao domínio que tinha sobre a máquina partidária, a influência de Prestes, e o apoio recebido do PCUS, a corrente reformista ganhou o Congresso e conseguiu aprovar as suas teses. O Congresso também decidiu pelo afastamento de João Amazonas, Maurício Grabois, Diógenes Arruda e Orlando Pioto do Comitê Central do Partido. Os reformistas, então, tomaram a iniciativa.

Em 11 de agosto de 1961 o jornal Novos Rumos, órgão oficial do PCB, publicou um novo programa e estatuto que, segundo a comissão executiva, deveriam ser registrados no Tribunal Superior Eleitoral visando à legalização do partido. Entre as propostas de alteração incluía-se a mudança do nome da organização, que passaria a se chamar Partido Comunista Brasileiro. O novo programa apresentado era ainda mais atrasado do que a Declaração de Março e as Resoluções do V Congresso. Dos estatutos retirava-se qualquer referência ao internacionalismo proletário e ao marxismo-leninismo. Esta foi a gota d'água...

A resposta da corrente revolucionária foi imediata. Foi enviada uma carta ao Comitê Central, assinada por cem comunistas, criticando os desvios de direita e exigindo que se retirassem os documentos ou se convocasse um novo congresso para discutir a mudança do nome e as modificações no programa e nos estatutos do Partido. Segundo a Carta, “as mudanças feitas no nome, no Programa e nos Estatutos (...) objetivam o registro de um novo partido e, por isso, se suprime tudo o que possa ser identificado com o Partido Comunista do Brasil, de tão gloriosa tradições (...) os militantes (...) não aceitarão que se liquide o velho Partido, e a ele permanecerão fiéis, mantendo bem alta a bandeira de suas melhores tradições”.

No final de 1961 a direção do PCB expulsou Amazonas, Pomar, Grabois, Ângelo Arroyo, Carlos Danielli, Calil Chade, José Maria Cavalcante, entre outros. Diante da impossibilidade, por vias da democracia partidária, de mudar os rumos que tomava a direção do PCB, os membros da corrente revolucionária resolveram dar o passo decisivo no sentido de romper com os reformistas e reorganizar o Partido Comunista do Brasil. João Amazonas, como em 1943, estava novamente à frente desse esforço.
Em fevereiro de 1962 realizou-se a V Conferência (extraordinária) do Partido Comunista do Brasil. Nela aprovou-se um manifesto-programa no qual se reafirmaram as teses revolucionárias e os princípios marxista-leninistas. O PC do Brasil seria o primeiro partido fora do poder a romper com a linha política reformista imposta pela direção do PCUS. A Conferência resolveu também reeditar o jornal A Classe Operária.

A cisão dos comunistas brasileiros teve implicações internacionais. Em 14 de julho o próprio Comitê Central do PCUS publicou uma carta-aberta contra a direção do PC Chinês, e nela citava nominalmente os dirigentes comunistas brasileiros João Amazonas e Maurício Grabois, apontando-os como membros de um grupo antipartido. O PCUS responsabilizava o PC da China pela divisão do movimento comunista brasileiro. Em 27 de julho a direção do PC do Brasil respondeu com um contundente documento intitulado Resposta a Kruschev.

O rompimento com a direção do PCUS, principal partido comunista do mundo, e com a maioria reformista da direção do PCB, apoiada por Luís Carlos Prestes, mostrava bem a ousadia desses revolucionários fieis a seus princípios. Foram muitos os que afirmaram que esta pequena organização não teria futuro e que teria sido uma obra de loucos. A conjuntura, amplamente favorável à proliferação de ilusões reformistas, parecia confirmar tais opiniões.

Mas a história, implacável, construiria um outro caminho para além do senso comum e das aparências. O golpe militar de 1964 representou uma derrota das teses reformistas do PC brasileiro, que entrou em processo de desagregação interna, e confirmou muitas das teses defendidas por João Amazonas e seus camaradas do PC do Brasil.

Amazonas então se projetou como um dos principais dirigentes de uma nova corrente do movimento comunista internacional, corrente que se opunha ao chamado revisionismo soviético. Depois de 1962 defenderia o estreitamento dos laços políticos entre os comunistas brasileiros e o Partido Comunista da China, dirigido por Mao Tsetung e com o Partido do Trabalho da Albânia, dirigido por Enver Hodja.

Esteve em Cuba, com Maurício Grabois, quando da reorganização do Partido em 1962. Esteve na China por três vezes: no início de 1963, na companhia de Lincoln Oest, quando foi recebido pessoalmente por Mao Tsetung e juntos discutiram a situação brasileira e mundial; em 1967, no auge da Revolução Cultural, a qual apoiou criticamente e no final de 1976. Nesta última viagem Amazonas apresentou os pontos de vista do PCdoB sobre a situação internacional, especialmente sobre a teoria dos três mundos e o papel do imperialismo norte-americano, opiniões que divergiam frontalmente das posições oficiais do PC Chinês. A visita acabou consolidando o rompimento entre estes dois partidos. Rompimento que duraria até o início da década de 90.

Ele também esteve na Albânia por diversas vezes e lá estabeleceu laços fraternais com os dirigentes comunistas albaneses, especialmente Enver Hodja. Ficou ao lado deste na polêmica com os soviéticos, no início da década de 60, e depois na polêmica com os chineses já na segunda metade da década de 70.

Combatendo a Ditadura Militar

Entre 1968 e 1972, Amazonas participou ativamente da organização da guerrilha do Araguaia, o principal movimento de contestação armada ao regime militar. No final de fevereiro de 1972 ele se vê obrigado a sair da região para participar da reunião do Comitê Central na qual se debateria o documento Cinqüenta anos de luta e se comemoraria este importante acontecimento (os 50º aniversário do PCdoB). Grabois e Arroyo permaneceram na região, seguindo os critérios de revezamento dos membros do secretariado do Partido. Amazonas estava voltando para a região quando a ofensiva do exército já havia começado e foi alertado por Elza Monnerat que voltara alguns dias antes e também não pudera entrar na região. Os caminhos de sua reintegração à guerrilha estavam fechados.

A eclosão da guerrilha levou a um aumento, sem precedente, das perseguições aos dirigentes do PCdoB. Entre o final de 1972 e início de 1973 foram presos, barbaramente torturados e assassinados três membros efetivos do Comitê Central Carlos Danielli, Lincoln Oest e Luís Guilhardini e o candidato a membro do Comitê Central Lincoln Roque.

Estava apenas começando a operação visando eliminar a direção do partido que promovia a Guerrilha do Araguaia. Na manhã do dia 16 de dezembro de 1976 desenrolou-se o último ato da tragédia arquitetada pelos militares.

A casa na qual havia se realizado uma reunião do CC é cercada e metralhada pela repressão. Neste dia foram friamente assassinados Ângelo Arroyo e Pedro Pomar. Eles estavam desarmados e não foi lhes dada nenhuma chance de defesa. Nesta operação morreria sob torturas João Batista Drummond. Cerca de uma dezena de dirigentes comunistas também foram presos e torturados.

Quando da chacina da Lapa, João Amazonas estava representando o Partido no exterior e foi na China que recebeu a notícia do trágico acontecimento. Esta viagem o salvou novamente da morte. Pois esta operação, comandada pelo II Exército, tinha como um dos objetivos a eliminação do secretário-geral do PCdoB. Em entrevista à revista ISTO É o general Dilermando Monteiro, então comandante do II Exército, afirmou: "Nós descobrimos que naquele dia iria haver uma reunião em tal lugar, com a presença de tais e tais elementos, e aí fomos um pouco embromados, porque constava para nós que o João Amazonas estaria presente e o mesmo estava na Albânia, mas para nós ele estaria presente naquela reunião".
Renato Rabelo, Dynéias Aguiar, Rogério Lustosa, Amazonas, João Batista Lemos e Ronald Freitas

Amazonas foi sempre um opositor radical da ditadura militar e por isso mesmo foi odiado por ela. Nas selvas do Araguaia, procurando organizar a guerra popular, nos palanques da campanha das diretas já! ou nas articulações que levaram à escolha de um candidato único das oposições, para derrotar o candidato da ditadura no colégio eleitoral, lá estava o velho Amazonas. Sabendo articular amplitude e radicalidade, sem nunca perder o rumo.

Afirmava ele: “O curso político independe da vontade de uns poucos. Forja-se objetivamente (...) Quem propugna por objetivos maiores tem de inserir-se no curso real, e nele atuar com amplitude, levando sempre em conta a correlação de forças existentes, afim de fixar metas viáveis que aproximem a vitória definitiva da causa do povo”.

Unindo o povo contra o neoliberalismo

Amazonas foi um ardoroso defensor da unidade das forças progressistas e um dos artífices da Frente Brasil Popular em 1989. Compreendeu que a derrota de Lula e a vitória de Collor tinham aberto uma nova página na luta do povo brasileiro. A luta contra o neoliberalismo passou a adquirir centralidade na tática e na estratégia das forças democrática, populares e revolucionárias. O PCdoB, com Amazonas à frente, defendeu a palavra-de-ordem Fora Collor! Que empolgou a juventude brasileira e levou ao impedimento do presidente da República.

Mas a derrota de Collor não representou a derrota definitiva do neoliberalismo em nosso país. Com a vitória de FHC, o projeto recobra o seu fôlego. Amazonas defendeu então a formação de uma ampla frente oposicionista, que tivesse como núcleo as forças de esquerda. Uma frente que se constituísse através de um programa nacional e democrático que apontasse para superação do neoliberalismo e se sustasse num amplo movimento de massas. Esta posição estará presente na resolução política do 9º Congresso e será retomada e desenvolvida nas resoluções do 10° Congresso do PCdoB.

No entanto, as suas contribuições políticas e teóricas não se reduzem apenas ao Brasil. Desde o final da década de 80 João Amazonas foi um dos poucos que se colocou contra a política adotada por Gorbachev, denunciando-a como uma via de retorno da URSS ao capitalismo de mercado. O que propunham os líderes soviético não era renovar o socialismo, depurando-o de seus erros e deformações, e sim de destruí-lo. Após a débâcle final Amazonas conclamou que a esquerda revolucionária realizasse um profundo balanço crítico dessas experiências. Refletisse sobre as derrotas, mas sem capitular. Não fizesse concessões de princípios à maré social-democratizante que estava levando ao aniquilamento vários partidos tidos como comunistas.

Era preciso reconhecer a crise e lutar para superá-la, reafirmando e atualizando o marxismo e o leninismo, sem dogmas. Amazonas, de maneira ousada, propôs a unidade das diversas organizações que ainda reafirmavam a sua identidade comunista. Diante da ofensiva mundial do imperialismo era preciso vencer o sectarismo e construir a unidade sobre novas bases. Esta seria mais uma de suas importantes contribuições para reorganização do movimento comunista internacional.

Um homem imprescindível

Portanto, João Amazonas conduziu o Partido Comunista do Brasil em meio ao mar turbulento das lutas ideológicas, contra adversários bem mais fortes, que pareciam invencíveis. O seu pequeno PCdoB venceu estas lutas e se consolidou. O Partido, dirigido por Amazonas, passou por outras provas de fogo. Enfrentou a ditadura militar, que ceifou a vida de mais de uma centena de militantes; enfrentou a crise das experiências socialistas, que desbaratou várias organizações ditas comunistas; e, por fim, enfrentou com coragem e firmeza os dez anos de ofensiva neoliberal no Brasil. O PCdoB não só sobreviveu, o que já seria uma grande coisa, mas se desenvolveu e se constituiu numa força respeitada no cenário político nacional e mesmo dentro do movimento comunista internacional, que começava a se rearticular depois do vendaval neoliberal.

Aos 90 anos de idade e 59 anos de dedicação integral ao trabalho de direção do Partido, Amazonas pediu para que seus camaradas não mais o indicassem para a função de presidente do PCdoB. Afirmou ele: “no Partido não existem cargos vitalícios. Escapei de perseguições, sobrevivi (...) Creio que cumpri meu papel (...) Dentro de algumas semanas, vou completar nove décadas de vida. Uma vida difícil, que levou a um grande desgaste físico. Proponho a minha substituição e apoio a eleição de Renato Rabelo como novo presidente do Partido” e conclui: “não penso em aposentadoria. Espero morrer na minha posição de luta, no meu posto de trabalho (...) Até o último de meus dias, serei militante do Partido Comunista do Brasil”.

A nova direção nacional do PCdoB aceitou parcialmente o seu pedido retirando-lhe a função de presidente e elegendo em seu lugar Renato Rabelo. No entanto, com a aprovação unânime dos delegados presentes ao 10º Congresso, indicou-o para a presidência de honra do Partido. Título mais do que merecido para um homem que dedicou sua vida inteira à luta pelos ideais socialistas e à defesa de seu partido. Um homem que não temeu a prisão, a tortura, o exílio e a própria morte.

João Amazonas foi muito mais do que o presidente de honra de um partido político revolucionário, ele foi uma legenda, um símbolo vivo do espírito de luta do povo brasileiro. Um exemplo de comunista e de brasileiro. Por tudo isso, como afirmou Brecht, compõe as fileiras dos homens imprescindíveis.

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Nota:

1) Adaptação de um artigo escrito por ocasião da comemoração dos 90 anos de João Amazonas em janeiro de 2002.

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Augusto César Buonicore é historiador, Secretário Geral da Fundação Maurício Grabois e responsável pelo Centro de Documentação e Memória (CDM)

28 dados sobre Cuba ignorados pelo Jornal Nacional e seus papagaios - Pragmatismo Político

28 dados sobre Cuba ignorados pelo Jornal Nacional e seus papagaios - Pragmatismo Político


Por Omar Pérez Solomon. Tradução: Robson Luiz Ceron. Solídários & Síntese Cubana




28 dados que mostram a força de Cuba, mas propositalmente dispensados pela imprensa hegemônica
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Como já dissera o escritor e jornalista uruguaio, Eduardo Galeano, quando se trata de Cuba, a grande imprensa, “aplica uma lupa enorme que amplia tudo o que ocorre, sempre que háinteresses dos inimigos, chamando a atenção para o que acontece na Revolução, enquanto a lupa distrai e deixa de mostrar outras coisas importantes”.

Entre essas coisas importantes, que não são apontadas pelas lupas, chamo a atenção para 28 dados, que mostram a força de Cuba, na véspera de seu aniversário de 53 anos.

1) 8.913.000 de cubanos participaram da discussão do Projeto de Diretrizes para a Política Econômica e Social do Partido e da Revolução, debate prévio ao 6º Congresso do Partido Comunista de Cuba.

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2) Foram registrados mais de 3 milhões de intervenções populares.

3) 68% das diretrizes foram reformuladas após a discussão com o povo cubano.

4) 313 diretrizes da Política Econômica e Social do Partido e da Revolução foram adotadas no 6º Congresso do Partido Comunista de Cuba.

5) Na linha definida pelo povo cubano para atualização do modelo econômico, até agora, entraram em vigor.

6) 7 decretos-leis do Conselho de Estado.

7) 3 decretos do Conselho de Ministros.

8) 66 resoluções e instruções de ministros e chefes de instituições nacionais.

9) O governo cubano destinará, em subsídios, mais de 800 milhões de pesos para pessoas de baixa renda, como parte da Lei do Orçamento para 2012.

10) O governo cubano vai destinar mais de 17 milhões de pesos para a saúde, a educação e outras necessidades sociais, no orçamento para 2012.

11) No orçamento de 2012, serão alocados 400 milhões de pesos para proteger as pessoas em situação financeira crítica, incluindo pessoas com deficiências e consideradas disponíveis no processo de reestruturação do trabalho.

12) O orçamento do Estado encerrou o ano com um déficit estimado de 3,8% em relação ao Produto Interno Bruto, cumprindo o limite aprovado pela Assembleia Nacional, na Lei do Orçamento de 2011.

13) Produto Interno Bruto cresceu 2,7%, em 2011.

14) No final de 2011, a produtividade de todos os empregados na economia cresceu 2,8%.

15) Mais de 357 mil cubanos exercem o trabalho por conta própria.

16) 33 medidas foram aprovadas pelo Conselho de Ministros e entraram em vigor, em setembro passado, para continuar a facilitar o trabalho por conta própria.

17) Mais de 2,5 milhões de turistas visitaram a Cuba em 2011.

18) Foram produzidos 4 milhões de toneladas de petróleo e gás em 2011.

19) A taxa de mortalidade infantil em Cuba é inferior a 5 por mil nascidos vivos.

20) A expectativa de vida é de 78 anos.

21) 186 países condenaram os EUA pelo bloqueio genocida contra Cuba, durante a Assembleia Geral da ONU, em outubro passado.

22) Cuba ficou em segundo lugar nos Jogos Pan-Americanos Guadalajara, com 58 medalhas de ouro.

23) O Conselho de Estado da República de Cuba concordou em indultar mais de 2.900 presos.

24) Cuba ocupa a 51ª posição, no Relatório de Desenvolvimento Humano da ONU, com um alto desenvolvimento humano.

25) Em 14 de dezembro marcou o primeiro aniversário da primeira rede social de conteúdo digital cubano, EcuRed, com cerca de 80 mil artigos e verbetes.

26) Mais de 40 mil cubanos estão em missões de solidariedade por mais de 70 países.

27) Mais de 3 milhões de pessoas foram alfabetizados pelo método “Yo, si puedo”, depois de ser aplicado em quase três dezenas de países ao redor do mundo.

28) Com o início do ano letivo 2011–2012, em 5 de setembro, abriram suas portas mais de 60 universidades na Ilha, com cerca de 500 mil alunos matriculados.

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