“Numa noite muito fria, o jovem preso tentava dormir quando sentiu algo e, discretamente, abriu os olhos. Era Arruda que, silenciosamente, o tinha coberto com seu único cobertor. Nada de estranho se aquele garoto não fosse um militante da Ala Vermelha, um racha do PCdoB. O nome dele era Alípio Freire.” Diógenes Arruda: o guerreiro sem repouso (2) - Diógenes Arruda: O guerreiro sem repouso (2) - Vermelho
Primeiro, através do poder de veto do Congresso sobre a agenda do país e a apropriação do poder do Executivo de controlar boa parte de seu orçamento. Segundo, pelo veto dos “mercados”, que atuam para a sabotagem do próprio Arcabouço Fiscal, o que se viu quanto à especulação para aumentar o dólar, os juros e o preço dos alimentos. Terceiro, pelo cerco da mídia empresarial que é, ela mesma, parte dos conglomerados do sistema financeiro, representando investidores, em vez do jornalismo.
A despeito do maciço apoio ao agronegócio brasileiro, beneficiário das importações da República Popular da China e dos generosos créditos subsidiados do gigantesco Plano Safra 2024/2025 (R$ 400,59 bilhões para agricultura empresarial), o setor segue alinhado à extrema direita brasileira. Para terminar, Trump assumiu o governo sob a saudação nazista de Elon Musk… Durma-se com um barulho desses.
Como o governo Lula e o Brasil poderão sobreviver a essa tempestade perfeita? Certamente, muito cabe ao próprio governo e a Lula, mas não apenas. Há que turbinar a Frente Ampla e construir em seu seio uma sólida e sincera aliança de todos que sabemos o que está em jogo: o Brasil, a Democracia, os direitos do povo. É preciso unidade e ação para retomar a iniciativa política.
O desenlace dessa encruzilhada histórica depende de inserir na batalha as nossas forças e potencialidades, para romper o cerco, recuperar a iniciativa política, forjando uma unidade sólida e não meramente eleitoral. Trata-se de nos reconhecermos. Se está contra o fascismo, já é bom. Mas se for uma pessoa boa, de esquerda, solidária, então temos de nos encontrar, fortalecer, para atuar contra a extrema direita e defender o Brasil e até a nós mesmos. Ninguém soltar a mão de ninguém faz mais sentido que nunca. Não adianta fugir para as montanhas. Se perdemos esses caras vêm babando atrás de nós. Aqui não pode ter derrotismo, tem de ter vitória, ir pra cima!
É preciso baixar o batente para o povo conseguir participar, e apostar na renovação, na juventude, nas mulheres, na luta antirracista como parte da classe trabalhadora precarizada e desorganizada. A desconstrução dos laços de trabalho pela precarização, a deforma trabalhista e o trabalho em plataformas, mudaram as relações sociais entre os trabalhadores. A COVID marcou as famílias, comprometeu os negócios, ceifou centenas de milhares de vidas e levou à perda de renda e trabalho. Os laços básicos que uniam grande parte dos trabalhadores aos sindicatos - o vínculo trabalhista, a filiação e a contribuição sindical - acabaram. E só em poucos casos houve alguma ação de organização sindical ou assistencial a esses trabalhadores. É um golpe terrível na perspectiva da organização coletiva. O que temos para oferecer em troca disso? Em que lugares estamos nos reunindo para construir a luta?
Seleção das notícias: Socióloga Paula Reisdorf. Dieese - Bancários DF
Reconstruir o Brasil passa por apostar no trabalho com direitos e na educação, e ambas as coisas dependem de tempo. Nesse quesito, o governo mostra resultados inquestionáveis, e há uma guerra no sentido de ocultar os fatos. Mas, destaco, mesmo com alta no preço dos alimentos, o nível da atividade econômica impede, na prática, a tragédia social do Bolsonarismo. A insegurança alimentar severa decresceu em 85% em 2023, com 8,7 milhões de pessoas deixando a extrema pobreza no mesmo período.O Brasil atingiu recordes de empregos formais em 2024, e o desemprego recuou para 6,2% em outubro de 2024. A persistir esse crescimento do emprego e da recuperação da renda e a diminuição da fome no país, teremos uma melhora substancial na vida do povo. A direita sabota a economia para impedir o crescimento do emprego formal que o governo Lula bombou.
O fato de as organizações políticas e sindicais e boa parte do movimento social estarmos pouco capacitados para a solidariedade concreta, abriu o campo para o protagonismo de outros atores - e de uma nova geração, que não encontrou espaço nos nossos movimentos. É preciso ter espaços de solidariedade, além dos espaços políticos. Mesmo um olhar superficial, mas atento, permite notar a presença de organizações não governamentais, igrejas, coletivos, parte dos movimentos sociais, alguns sindicatos, o MST, que aprofundaram práticas de distribuição de cestas básicas, trabalho comunitário, zeladoria, incubadoras, microcrédito comunitário, hortas e cozinhas comunitárias, produção de alimentos, a economia solidária, os bazares comunitários, as vaquinhas, rifas, a promoção de acesso às políticas públicas, políticas afirmativas, atividade cultural regular nas periferias, apoio às pessoas em adiccão e situação de rua, apoio às pessoas no sistema prisional. É preciso aprender com eles. Mas existem esses encontros que permitam o diálogo, o aprendizado, a ação comum?
Por outro lado, a retomada do emprego formal para milhões de trabalhadores e trabalhadoras é uma oportunidade para um grande movimento de organização sindical de base e nas redes, colocando à prova nossa condição de vanguarda. Dirigir-se ao povo, tornar o sindicato uma central de lutas na região, lutar contra o cupulismo, o burocratismo, a pirâmide invertida, combater a autonomização dos representantes face aos representados. Afirmar os valores, as boas práticas com as ferramentas atuais, com o foco de organizar o povo. E com o emprego formal em crescimento, a incoerência da Deforma Trabalhista virá à luz, se lutarmos com a classe em busca de seus direitos. O debate sobre a organização do precariado e da juventude deveria ocupar um lugar central no debate sindical atual.
É uma realidade muito mais sinistra a que foi instituída após o Golpe de 2016, a COVID e Bolsonaro, tragédias demais para um período tão curto.. Para não sermos derrotados, é preciso sentir o custo do retrocesso em vidas, sonhos, em uma geração e no futuro da Nação brasileira. Temos de mudar tudo que deve ser mudado, como disse o Fidel. Há ainda uma distância imensa entre nós, desde a COVID, e a proximidade é mediada por máquinas, e agora, somos instados a nos relacionar com as máquinas. No final, como única “saída”, sobrou um smartphone e os aplicativos que se conectam com a nossa alma, e a lêem, e dizem-nos como ser, sutilmente, prevendo nosso comportamento, moldando-o, balanceando jatos de dopamina e serotonina, dando nexos ao desfazimento dos laços de solidariedade do trabalho, dispersos e controlados, agora, pelo big data, pelas big techs e pelos 1% mais ricos.
É fundamental a Ciência e a tecnologia se unir na juventude brasileira para criarmos nossas plataformas digitais brasileiras para o emprego com direitos e a sociabilidade. Certamente, devemos priorizar a qualidade da comunicação, mas também é preciso combater a visão deslumbrada do usuário diante da tecnologia ou do vício. É preciso proximidade para separar a verdade da mentira, pois as redes não são nossas, mas o povo é. Ao processo de mudança do trabalho e retirada dos direitos que destroi a solidariedade e a consciência de classe, é preciso opor a recuperação econômica e o trabalho com direitos, mas não apenas.É insuficiente o nosso enraizamento junto ao povo, é preciso enxergar os seus desafios para disputá-lo. É muito mais que contar com um bom governo ou melhorar o PIB, mas recuperar a confiança de uma classe trabalhadora muito judiada e descrente. Essa é uma tarefa que exige um amplo chamado à renovação e à luta.
Fica a reflexão de Paulo Freire: “É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática.” Há muitas distâncias a superar, dentre elas, a artificial separação entre todos os que lutamos verdadeiramente pelo Brasil, pelos Direitos do Povo e pela Democracia. O presente é tão grande, não nos afastemos. O fim dessa distância entre nós é o que chamo de Frente Popular.
* Carlos Drummond de Andrade Mãos dadas https://www.jornaldepoesia.jor.br/drumm3.html#maos
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