"Eu não sou mais um ser humano, eu sou uma ideia misturada com as ideias de vocês”, “Minhas ideias já estão no ar e ninguém as poderá encerrar. Agora vocês são milhões de Lulas”.
Luís Inácio Lula da Silva, a caminho da prisão em Curitiba, no ato do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, 07/04/2018. Link
"Lula é a manifestação do universal no particular.” Elias Jabbour Link
O sequestro do Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, é causa de pasmo universal, dada a capacidade de Trump surpreender o mundo pela crua expressão da brutalidade, mentira e imbecilidade dos EUA, em decadência acelerada.
Dizia Che Guevara sobre a bestialidade do imperialismo, que não se lhe pode conceder nem um tantinho assim, nada. Na ONU, em 11/12/1964, em Nova Iorque, Che denunciou o assassinato covarde de Patrice Lumumba, presidente da República Democrática do Congo, morto em 17 de janeiro de 1961. O próprio Ernesto Guevara de la Serna tombaria na Bolívia, caindo em cativeiro em 8 de Outubro de 1968, ambos os casos com direta participação estrangeira, da Bélgica e dos EUA. Em 11 de setembro de 1973, o Presidente Salvador Allende é levado à morte em meio a ataques aéreos ao Palácio de la Moneda. Allende advertia, premonitoriamente, que “La burguesía podrá eliminar a los hombres, pero no podrá detener la lucha social”.
É ainda um mistério essa simbiose que dá ao indivíduo os poderes extraordinários de um coletivo, de uma classe, de uma Nação. O encontro dessa condição com a História, com o momento de uma onda social progressista é ainda mais misterioso. Lenin mesmo atinava para essa singularidade que une líder, povo e a hora exata para conquistar o progresso social.
É pela eliminação dos líderes que a burguesia e o neocolonialismo sempre ‘resolveram’ seu problema. Não hesitam em promover banhos de sangue, e já na Comuna de Paris (1871) se o viu, e também no Chile, 102 anos após. Desse modo, Che foi honesto ao resumir que a luta contra o imperialismo é, sim, uma luta de vida e morte.
A experiência socialista no século XX mostrou a importância do ‘Príncipe Moderno’, e Gramsci se referia ao Partido leninista, como forma mais avançada desse protagonismo do sujeito histórico. A própria história, contudo, também assinalou as debilidades desse mesmo instrumento, tanto maiores quanto menos permeável à crítica da sociedade, quanto mais fechado em si, imune aos anseios do povo, quanto mais dependa de um líder, por melhor e mais abnegado que possa ser.
Evidenciou-se também a resiliência da estruturação de níveis crescentes de unidade da Nação para vencer o imperialismo. Não somente um líder, ou um partido, mas a fusão no fogo do combate, do líder, do Partido de vanguarda, de outros partidos e do povo organizado, e de qualquer setor comprometido com a independência e a sobrevivência da Nação.
Lula acertou muito aceitando a bênção do pastor deputado, depois da chacina feita por Castro para Trump ver, no Rio. Maduro aceitar o apoio da Universal também vale. Não é novidade. Muitos acordos virão e serão necessários, mas também carecemos de uma unidade e mobilização que nos permitam sobreviver às traições e ao imponderável (um olho no peixe, o outro no gato e força real)..
No discurso feito em 7 de novembro de 1941, nos subterrâneos do magnífico Metrô de Moscou, dias após a invasão nazista, Stalin evocou heróis nacionais independentemente de serem nobres, generais, ainda do Tzarismo; ele reabilitou a propria igreja ortodoxa russa, juntou tudo o que foi possível unir para vencer a Grande Guerra Patriótica - e eles, quem efetivamente a venceram, assim a chamam até hoje. Isso foi além, quando Stalin, Churchill e Roosevelt se uniram e liquidaram o nazismo na Segunda Guerra Mundial. Por esse nobre ideal, Prestes subiu no palanque com Getúlio. Era o Brasil em jogo.
A tibieza do Partido Comunista Brasileiro, já após a divisão e sob os “três pacíficos” de Kruschev, levou a uma derrota sem reação, amarga, diante do golpe militar de 1964. Em vez de unir trabalhismo e socialismo, isso teve um impacto desagregador na esquerda, que cobra caro até hoje. No Brasil, a esquerda no máximo conseguiu avançar para alguma unidade sindical e à estruturação de partidos de esquerda. A luta estudantil merece destaque por ter conseguido incorporar grandes campanhas de profundo sentido nacional e democrático, que asseguraram o protagonismo estudantil na juventude até o início dos anos 2000, findando no Fica Lula, de 16 de agosto de 2005. O movimento estudantil nacional ainda se mantém unido, graças à sua direção consequente e à proporcionalidade qualificada, que permite unir as chapas concorrentes numa mesma direção suprapartidária. Os Fóruns Sociais Mundiais foram impactantes porque foram capazes de unir multidões e articular redes sociais dispersas.
Desde então, como esquerda, tomamos um caminho oposto, de apego ao aparelho e à institucionalidade, insuficiente para enfrentar o imperialismo em tempos de fascismo. É preciso superar ilusões, hegemonismos, o apego às caixinhas que nos separam.
Efetivo é o caráter dissolvente, desagregador, do aparelhismo, das eleições majoritárias, do cupulismo, do presidencialismo sem colegialidade, do fundo partidário como signo da dependência exclusiva dos recursos do Estado para nosso projeto emancipador, que depende tanto da unidade adiada. Os incompetentes, carreiristas e a burocracia vivem disso, e põem tudo a perder. É preciso dar tudo pela construção da Nação Brasileira, é preciso coesão e democracia que não serão atingidas sob os erros do passado, com medo da juventude e do futuro. Nós passaremos, e o futuro, para ser passarinho, exige muito mais que o apego. É preciso amor ao Brasil e ao seu povo.
O Brasil é incrível. Até líderes que não teriam motivo, se encantaram e se perderam, seduzidos por essa imensa possibilidade, sempre adiada, da Nação Brasileira. Dom Joao VI, Pedro I, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jango. Até D. Pedro II e Sarney tiveram seus momentos de ouro, com a Abolição sem indenização e a democratização do Brasil com a Constituição de 1988. Mas, no geral, o “dividir para reinar” buscou eliminar o líder e destruir a organização do povo que os pudesse sustentar. Há que se reconhecer a insuficiência da esperança em apenas um líder, um partido, um movimento, inclusive o movimento da classe trabalhadora.
O inverso é notável pelo êxito. Como no Uruguai, na África do Sul, mesmo o Chile, na Coreia Popular, no Vietnã, em Cuba e na China, a resistência à monstruosa pressão do imperialismo (bloqueio, guerra, sabotagem, Genocídio, apartheid) só pôde resistir ou ser vitoriosa pela consciência capaz de unir muito mais que um partido, para unir a Nação. Trata-se, mais uma vez, das frentes. Também foram frentes sociais heterogêneas que levaram a esquerda aos governos latino-americanos, fato iniciado justamente com Hugo Chávez, na Venezuela, cortando o nó górdio da pergunta torta se era Reforma/Eleição ou Revolução. Se puder, são ambas.
A Venezuela é vítima de uma campanha brutal de mentiras, e segue sendo um fenômeno notável de resiliência de um povo que decidiu ser livre. O imperialismo estadunidense e
os traidores sabotaram sempre as eleições, mas no caso concreto conseguiram comprometer com vários ataques cibernéticos, midiáticos e de desestabilização com lastro popular no final da totalização. Já não era mais possível matematicamente a reversão em favor do candidato Edmundo González e da Guarimbera Corina Machado. A fraude, lá e aqui, é promovida pela direita, inimiga da democracia. O Brasil errou, pois a vitória de Maduro estava dada, e porque menosprezou o risco da interferência dos EUA para fraudar as eleições. E os EUA pagaram um estelionato eleitoral de 20 bilhões de dólares na Argentina, fraudaram a eleição em Honduras e queriam a qualquer preço criar um vácuo legal e político na Venezuela. O Brasil e Lula erramos feio, e pagaremos essa covardia de não reconhecer um processo eleitoral legítimo para dar moral a quem o fraudou, a oposição e os EUA. Nenhuma desculpa para o imobilismo e a rendição.
O imperialismo tem uma ‘democracia’ feita de crimes e invasões, de bloqueio e genocídios. Os EUA são a melhor ‘democracia’ que o dinheiro pode pagar, com Arena e MDB muito piores e colégio eleitoral, sem sequer cédula única nacional. Cheios dessa ‘moral’, tentam decapitar pela segunda vez para destruir a soberania venezuelana. E pela segunda vez, o povo unido, a Nação unida demonstra que não está dado o resultado do jogo antes do apito final. Na Venezuela se constroem condições de luta superiores, pela completa e complexa reorganização do povo, que nem começa, nem termina no governo, mesmo num estado moldado pela participação popular em que a Revolução Bolivariana se mantém, pacífica, mas armada, combatida, mas jamais isolada. O sujeito popular não se deixa extirpar com a decapitação da liderança.
Maiores são os poderes do povo, dizia Glauber Rocha. Os episódios em curso na Venezuela, mais uma vez, devem ensinar-nos. Toda a campanha contra esse país irmão visa a nos cegar diante das soluções inovadoras que cria, com acertos maiores que seus erros. Querem que desistamos sem lutar; querem como exemplo a covardia; querem que creiamos que o imperialismo é imbatível; querem o Brasil de joelhos, humilhado; querem o povo e as Forças Armadas separados de seu sagrado dever da defesa do Brasil soberano; querem a América Latina dividida e de veias abertas. E os venezuelanos vão lutando, e mostram que é possível resistir, é possível vencer, que não é admissível o domínio estrangeiro, nunca mais.
Maduro sequestrado pelos EUA: dignidade e sacrifício.
Essa força se expressa na improvável tranquilidade que se vê no semblante do Presidente Maduro, poucas horas depois do sequestro sofrido e dos assassinatos testemunhados por ele, sua companheira Cília e seu filho Nicolasito, em mãos do bandido, assassino, pirata e abusador Trump. Diante de tamanho infortúnio, Maduro reage com a mesma serenidade de Lula a caminho da prisão. Serenidade de não ser mais apenas uma pessoa, a certeza de que, com o povo unido, não apenas a luta continua, mas a vitória virá. Maduro voltará ou abraçará o martírio e essa entrega é a garantia de que a Venezuela vencerá, com Frente Popular e com a União da Nação. Veremos a base social da Revolução Bolivariana chegar a setores vacilantes e até então inimigos, e que só agora entenderão o tamanho do buraco da colonização, rediviva sob a Doutrina Donroe.
Esses círculos concêntricos de unidade têm líder e povo, mas a liga organizada entre eles é que solda essa resiliência que vence tudo.
Oxalá o Brasil seja capaz de aproveitar o Presidente Lula, e a partir da unidade das forças consequentes na esquerda, construir a Frente Ampla necessária para salvar nossa Nação, nesse ano de Encruzilhada Histórica, e seguir além, pois o programa da reconstrução será superado ou derrotado. Sejamos capazes de dar um passo adiante, na união do povo em torno da Nação Brasileira. O líder comunista João Amazonas dizia que a unidade é a bandeira da esperança e, hoje mais que nunca, esse é o ideal de um verdadeiro(a) camarada.
Enquanto cuidarmos dos pequenos e passageiros, ilusórios poderes, arriscaremos perder a rara sintonia do líder, das massas e da História que, estruturados em Frente Ampla e Unidade Popular, possam resistir ao caos do mundo em favor de uma era de harmonia e continuidade da espécie humana que é a perspectiva socialista. Ou engoliremos os prognósticos apocalípticos, a antipolítica, o desânimo e a falta de fé em nós mesmos, armadilhas do desespero e das adicções com que os 1% mais ricos nos ninam, para aceitarmos curtir o concerto e os violinos, no convés do Titanic.
É Pátria ou Morte, como dizia o Che. E só o povo unido jamais será vencido.

