segunda-feira, 7 de junho de 2010

Esse Time Chamado Brasil

Paulo Vinícius



De volta, e a razão do sumiço

Retomo minha produção de textos para estes espaços após um dos maiores desafios que já enfrentei, coordenar a Sistematização da III Conferência Nacional do Esporte.


Ainda que tenha dito a patente, o nome pouco informa, e esclareço. A III CNE terminou domingo, 6 de junho, tendo reunido mais de 220 mil pessoas de 3112 municípios de todos os Estados e do DF. Foi a última das 68 Conferências realizadas no governo Lula, constituindo um valioso manancial da participação popular para a formulação das políticas públicas brasileiras.


O fenômeno das conferências é uma contribuição nossa, brazuca, que, mesmo limitada, diz muito como construímos a participação popular nesses 8 anos. Elas consolidaram áreas, deram visibilidade a setores vulneráveis, abriram caminhos para debates inéditos e de profundo sentido republicano, e são base para inúmeras proposições legislativas, programas sociais e organização de redes.


No caso da III Conferência Nacional do Esporte, ela abriu à participação popular um desafio sumamente complexo. A partir de 10 linhas estratégicas, eleger 10 ações principais para cada e derivada de cada ação, até 4 metas, colhendo a opinião popular para contribuir com a elaboração do I Plano Decenal do Esporte, que também abrange o lazer.


Preito de gratidão

Então, minha tarefa foi exatamente coordenar uma equipe muito dedicada de jovens e professores de todas as regiões do país, de técnicos do Ministério dos Esportes e de pessoas, como eu, envolvidas apenas na realização da Conferência, buscando expressar a vontade popular. Ao final, ainda depauperado pela dimensão desumana da tarefa, tenho a certeza de que nos saímos bem, apesar das dificuldades de toda sorte que enfrentamos. E tenho de agradecer a confiança em mim depositada pela Professora Cássia Damiani, a quem cabe o principal mérito dessa conferência e da sistematização.


O mérito da Conferência por nela ter apostado todas as fichas numa dedicação sem limites, a despeito de sua saúde, inclusive. Da sistematização, porque a espinha dorsal de todo o plano, o Texto Básico - um conjunto de Linhas, Ações e Metas apresentado pela Comissão Organizadora Nacional a partir do Ministério - foi em grande medida por ela concebido. E é um feito intelectual invejável essa capacidade de traduzir o trabalho feito por um governo, apresentá-lo ao olhar do povo e dele receber a acolhida que observamos. As pessoas foram ganhas e sua dedicação foi muito além de um mero dever profissional. terminado o mais árduo da tarefa, não deixo de me comover com esses jovens arregimentados pela Cássia que tanto de si deram nesses meses. E a base desse esforço foi a dedicação da Professora Cássia, que inspirou esforços imensos de toda a equipe numa batalha que só pode ser adjetivada de épica.


Ela defendeu o legado do Ministério dos Esportes, de seus programas, cujo êxito lastreou os grandes objetivos a que se propõe nesta década que será única para o esporte. Não é à toa o arrojo desses feitos nos Esportes na gestão de Orlando Silva. Queremos a universalização do esporte como direito, a excelência da gestão, o controle social e os resultados nos pódios -, um conjunto apresentado e muito bem acolhido pelo povo. Imagino se Paulo Renato Souza apresentasse à opinião pública tal oportunidade quando conduzia o Ministério da Educação nos anos FHC, o que receberia...


E essa tradução politizadora que foi o leito mais justo para a expressão da vontade popular numa área tão pouco consolidada - mas que nesses sete anos e meio ganhou uma consistência inédita - foi obra de Cássia Damiani. Isso bem demonstra como os intelectuais orgânicos podem contribuir para galvanizar direitos, apontar conquistas, preservar legados como o do Esporte no governo Lula, que gerou o Programa Segundo Tempo, Esporte e Lazer na Cidade, a Bolsa Atleta, entre tantas realizações que nos fizeram chegar à transcendente conquista que é poder sediar a segunda Copa do Mundo em 2014 e as primeiras Olimpíadas e Paraolimpíadas da América Latina, em 2016, acontecimentos que mudarão as cidades, o mercado de trabalho e o olhar do Brasil sobre si mesmo.


Nesse caminho, o povo brasileiro se fez ouvir, pela ampliação dos programas, pelo enfrentamento das desigualdades regionais, pela universalização do acesso, pelo papel fundamental da educação, do esporte e da saúde como áreas indissociáveis na busca do avanço da qualidade de vida para todos. Afirma-se a importância do Esporte como uma política pública que integra o primeiro nível do nosso projeto nacional de desenvolvimento.


O meu lugar entre a arquibancada e o gramado

Para mim essa tarefa também teve uma dimensão pessoal. Afinal, meu pai, o Seu Louro, é um homem do futebol, com mais de 50 anos de atuação profissional, como goleiro, massagista, árbitro, tendo saído de casa aos 14 aos para jogar bola, estando nessa lida obstinada até hoje. Se o marxismo para mim é a cosmogonia, não exagero em dizer que para o meu pai o equivalente é o futebol, a partir de onde interpreta todos os aspectos da vida. E, ainda que não seja da área, exerci a tarefa que me coube a partir desse exemplo do trabalho árduo e tão pouco reconhecido que teve meu pai, da paixão intimorata de vencer as barreiras mais difíceis para viver de algo que para muitos é diversão, mas que para existir traz nos bastidores uma multidão de anônimos.


Muitos deles, além de vivenciarem jornadas de trabalho sem limites e baixíssimos salários, jamais tiveram oportunidade de ascensão profissional por ausência de políticas públicas que lhes permitam o acesso à educação formal. E se meu pai teve o tirocínio de migrar da condição de atleta para outras áreas do futebol, além de uma disciplina única pois jamais se afastou de uma obstinada busca por dar à sua família uma condição de vida digna, eu sei que ele é exceção e como foi titânica a sua caminhada. Teve a sorte de ter Dona Lourdes ao seu lado. E afinal, eu e Betinho avançamos muito. Meu irmão inclusive já está no mestrado, eu me formei em Ciências Sociais, ou seja, a empresa familiar daquele atleta vindo do Juazeiro do Norte e da funcionária de escola pública do Ceará deu resultados.


E eu que me achava tão ignorante sobre tudo isso, fui buscando pouco a pouco os campos de várzea e as quadras de futebol da minha infância, as chuteiras e uniformes, os atletas e a torcida, tudo que pensara perdido e se agigantava quando me debruçava sobre o conteúdo desses sonhos, expressos em política. E a partir daí pude dialogar com esse mundo pujante e desafiador do esporte, com o olhar supostamente distanciado do cientista social, mediado pela proximidade do político, mas imerso em lembranças que nos ligam a todos. O debate sobre o esporte e o lazer é realmente público, não é coisa só de atletas ou profissionais, e essa dimensão se ampliará cada vez mais nos próximos anos.



Mas a base de onde partimos para os voos inacreditáveis que ora realizamos diante do mundo é feita desses aficionados como seu Louro, de gente apaixonada pelo esporte que dedica-se às crianças e adolescentes mais pobres, de toda essa legião que acredita apaixonadamente nesse "Time chamado Brasil". E, por esse caminho, a vida recoloca as coisas em seu devido lugar. E eu, que por tanto tempo neguei essa minha ligação com o esporte, fui chamado a ajudar a interpretar todos esses sonhos, algo que com certeza me orgulha muito. E a política, já dizia Aristóteles, é a esperança de um bem. Aos operários da política como eu, os militantes, essa satisfação de ter contribuído é a única que verdadeiramente importa.


Agora é mais luta!

E há que registrar também a contribuição da Central e Trabalhadores e Trabalhadores do Brasil a esse processo, ao permitir que um membro de sua Executiva Nacional se deslocasse temporariamente para contribuir com esse ápice da participação social na definição das políticas para o esporte. A CTB, assim, vai demonstrando sua capacidade de atuar em diversas batalhas simultaneamente, dando uma contribuição multifacetada a várias conquistas do povo. Mesmo sendo a caçula das centrais sindicais, agiganta-se pela solidez da política e da representação do sindicalismo classista.


E assim, com o coração pleno de alegria, volto à minha trincheira para dar a contribuição mais importante que posso nessa quadra, ao movimento sindical. Depois da III Conferência Nacional do Esporte, tocado pela força da pressão popular e pelo que ela gestou no plano, só reforcei essa canção que me acompanha e não esqueço, a dizer: "os meninos e o povo no poder eu quero ver".