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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

'Folha' e Otavinho Frias: de rabo preso com quem?

21 DE FEVEREIRO DE 2009 - 18h37

A criação pelo jornal Folha de S. Paulo (FSP), da expressão “ditabranda” em seu editorial de 17 de fevereiro, para nomear a ditadura imposta com o golpe de 1964 e, em seguida, a agressão aos professores Maria Victoria de Mesquita Benevides e Fábio Konder Comparato, expressa em nota na seção de cartas da edição de 20 de fevereiro, não podem ser atribuídas apenas aos “maus bofes” de um jovem (?) herdeiro rico, mimado, que se supõe gênio (o que diariamente lhe repete sua corte), que não conhece limites e, portanto, afeito a chiliques.

Por Alípio Freire*

Embora seja também isso, é muito mais, e só pode ser entendido a partir da história daquele jornal, e no quadro mais amplo do avanço (em nível internacional) das idéias, valores e políticas nazi-fascistas. Sobre a trajetória do pasquim da Barão de Limeira, vejamos alguns depoimentos:

“Abandono do emprego”

A jornalista Rose Nogueira, presa pelos órgãos de repressão da ditadura no dia 4 de novembro de 1969, quando estava de licença maternidade da FSP, onde trabalhava, conta:

“Vinte e sete anos depois [1997], descubro que fui punida não apenas pela polícia toda-poderosa (...), pela justiça militar (...). Ao buscar, agora, nos arquivos da Folha de S. Paulo a minha ficha funcional, descubro que, em 9 de dezembro de 1969, quando estava presa no Deops, incomunicável, ‘abandonei’ meu emprego de repórter do jornal. Escrito a mão, no alto: ABANDONO. E uma observação oficial: Dispensada de acordo com o artigo 482 – letra ‘i’ da CLT abandono de emprego’. Por que essa data, 9 de dezembro? Ela coincide exatamente com esse período mais negro, já que eles me ‘esqueceram´por um mês na cela’. (...) Todos sabiam que eu estava lá (...) Isso era – e continua sendo – ilegal em relação às leis trabalhistas e a qualquer outra lei, mesmo na ditadura dos decretos secretos. Além do mais, nesse período, se estivesse trabalhando, eu estaria em licença maternidade”. (Rose Nogueira, Em Corte Seco, in Tiradentes um Presídio da Ditadura”, Coord. Alípio Freire, Izaías Almada e J.A. de Granville-Ponce – Scipione Cultural - 1997).

Palafreneiros da ditadura

O jornalista Mino Carta, em entrevista à AOL, em 2004, quando se completavam 40 anos do golpe, comenta as relações da FSP com a ditadura:

“A Folha de São Paulo não só nunca foi censurada, como emprestava a sua C-14 [carro tipo perua, usado para transportar o jornal] para recolher torturados ou pessoas que iriam ser torturadas na Oban [Operação Bandeirante]. Isso está mais do que provado. É uma das obras-primas da Folha, porque o senhor Caldeira [Carlos Caldeira Filho], que era sócio do senhor Frias [Octavio Frias de Oliveira], tinha relações muito íntimas com os militares. E hoje você vê esses anúncios da Folha - o jornal desse menino idiota chamado Otavinho [Otavio Frias Filho] - esses anúncios contam de um jeito que parece que a Folha, nos anos de chumbo, sofreu muito, mas não sofreu nada. Quando houve uma mínima pressão, o sr. Frias afastou o Cláudio Abramo da direção do jornal. Digo que foi a "mínima pressão" porque o sr. Frias estava envolvido na pior das candidaturas possíveis, na sucessão do general Geisel. A Folha estava envolvida com o pior, apoiava o Frota [general Sílvio Frota, ministro do Exército no governo Geisel]. O Claudio Abramo foi afastado por isso.“

("A mídia implorava pela intervenção militar" Entrevista com Mino Carta. Por Adriana Souza Silva, da Redação AOL, abril de 2004)

O testemunho da pesquisadora

A historiadora e pesquisadora carioca, doutora Beatriz Kushnir, autora do mais completo trabalho sobre o comportamento da grande mídia comercial durante a ditadura, Cães de Guarda, é lembrada pelo jornalista Paulo Henrique Amorim, em sua Conversa Afiada de 20 de fevereiro, a propósito da FSP:

“Como demonstrou Beatriz Kushnir (...) a Folha cedia as vans para o Doi-Codi fazer diligências, levar suspeitos para as sessões de tortura e fingir que se tratava de um carro de reportagem em atividade jornalística”. ( Cães de Guarda — Jornalistas e Censores do AI-5 à Constituição de 1988, de Beatriz Kushnir, Boitempo Editorial).

Em sua coluna, Amorim reitera ainda a denúncia feita por Mino Carta a respeito do afastamento do jornalista Cláudio Abramo do comando do jornal.

Quanto ao episódio da utilização dos carros da FSP para fins repressivos – como apontam Mino Carta e Paulo Henrique – é fato que consta de diversas publicações e depoimentos. A revista Teoria & Debate – da Fundação Perseu Abramo – nos anos 1990, publicou uma carta do ex-preso político e hoje advogado de movimentos populares e causas ligadas aos direitos humanos, Aton Fon Filho, que denuncia exaustivamente essa ligação criminosa.

Um diário oficial da repressão

Mas, não pensem os leitores que a história da empresa Folha da Manhã (propriedade da família Frias), da qual a Folha de S. Paulo nos anos da ditadura era apenas um título (ainda que o carro chefe), num conjunto que somava mais de meia dúzia de outros, como os jornais Última Hora, Noticias Populares, Folha de Santos, etc., sem esquecermos, é claro, a menina-dos-olhos da repressão, a Folha da Tarde.

A Folha da Tarde (FT) é um capítulo à parte. Algo assim, como se a FSP coubesse em “obras escolhidas” e ela, a FT, merecesse “obras completas”. Até 1968 esse jornal cobria de forma razoavelmente decente o movimento estudantil, e outras manifestações de oposição à ditadura. Contava com uma equipe formada, em sua maioria esmagadora, de bons e sérios profissionais – muitos dos quais acabariam posteriormente presos, como o caso da jornalista Rose Nogueira. Na ocasião, o logotipo do jornal era vermelho. Passados alguns meses da decretação do Ato Institucional Número 5, de repente, não apenas o logotipo foi mudado para preto, como sua direção passou a ser composta de pessoas ligadas aos órgãos de repressão, inclusive à famosa Escuderie Le Coc (nome fantasia do Esquadrão da Morte) – o que facilmente qualquer neófito é capaz de perceber, folheando a coleção desse jornal. Também a essa questão se refere, com detalhes, a historiadora Beatriz Kushnir em seu livro Cães de Guarda.

Uma ameaça a todos os brasileiros

Dadas essas breves pinceladas sobre a trajetória da Ilustre Folha, cabe chamar a atenção para um importante aspecto que é o verdadeiro significado da nota e da agressão contra os professores Maria Victoria e Comparato: ao atacar tão virulenta e desrespeitosamente essas duas figuras que merecem toda a admiração do nosso povo e de todos os homens e mulheres que lutam por uma sociedade democrática e justa, onde os direitos humanos e todos os direitos dos cidadãos sejam respeitados, o que pretende a Folha de S.Paulo, sua direção, é ameaçar todos os que se oponham à sua visão de mundo e aos seus objetivos.

Aliás, entendemos que caberia ao governador José Serra, seu partido e seus aliados do DEM – de quem a FSP é deslavado cabo eleitoral, transgredindo todas as normas éticas e legislação eleitoral – manifestarem-se publicamente a respeito desse episódio que, sem dúvida alguma, os compromete.

* Alípio Freire é jornalista e escritor, foi presidente da Associação Brasileira de Imprensa – Seção São Paulo (1978-1979). Pertence hoje aos conselhos editoriais do jornal Brasil de Fato, da Editora Expressão Popular e da Revista Fórum


sábado, 21 de fevereiro de 2009

6 Em rompante de nostalgia, Folha saúda o regime militar



20 DE FEVEREIRO DE 2009 - 21h5

Faz quase um ano que o jornalista Paulo Henrique Amorim desafia a Folha de S.Paulo a “tirar os cães de guarda do armário e confessar que foi ‘Cão de Guarda’ do regime militar” brasileiro. A julgar pelos fatos da semana, pode-se dizer o jornal da família Frias nunca esteve tão próximo da confissão.

Por André Cintra


A nostalgia da Folha começou a se evidenciar num editorial de 425 palavras sobre o presidente venezuelano, Hugo Chávez. O texto, publicado na última terça-feira (17), chega a comparar a Revolução Bolivariana na Venezuela e a ditadura brasileira. Diz o jornal: “Em dez anos de poder, Hugo Chávez submeteu, pouco a pouco, o Legislativo e o Judiciário aos desígnios da Presidência. Fechou o círculo de mando ao impor-se à PDVSA, a gigante estatal do petróleo”.

Em meio a essas teorizações enviesadas, o editorial não esconde a opinião da Folha e sua larga simpatia pelo regime militar brasileiro: “As chamadas ‘ditabrandas’ — caso do Brasil entre 1964 e 1985 — partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça”.

É muito curioso que a Folha destaque tais “formas controladas de disputa política” justamente em contraste com Chávez — o único presidente do mundo que chamou seu povo às urnas nada menos que 15 vezes nos últimos dez anos, em eleições, referendos e plebiscitos. Quando foi que os brasileiros puderam exercer esse direito durante os 21 anos de regime militar? A Folha seria capaz de lembrar uma única experiência do gênero?

De forma cristalina, o editorial de terça-feira alardeia que Chávez — ou melhor, “o caudilho venezuelano”, com seu “rolo compressor do bonapartismo” — tem muito a aprender com os generais-presidentes do Brasil. Aprender o quê? A cassar direitos de lideranças políticas e sociais à moda Castello Branco? A levar para a Venezuela a experiência do AI-5 — “forma controlada” de “acesso à Justiça” no Brasil de Costa e Silva e Médici? A seguir o exemplo da dupla Geisel-Figueiredo e falar em distensão do regime, em abertura “lenta, gradual e segura” — mas ainda promover mais mártires como Vladimir Herzog, novas chacinas como a da Lapa e outros atentados como os do Riocentro?

Repercussão à altura

Cartas e e-mails de repúdio à Folha choveram a cântaros após a publicação do editorial. Um dos leitores mais indignados era Sergio Pinheiro Lopes, que classificou a opinião da Folha como “lamentável, mas profundamente lamentável mesmo, especialmente para quem viveu e enterrou seus mortos naqueles anos de chumbo. É um tapa na cara da história da nação e uma vergonha para este diário”.

As ponderações essenciais do leitor não foram suficientes para dissuadir a Folha. Uma “nota da redação” do jornal enunciava: “Na comparação com outros regimes instalados na região no período, a ditadura brasileira apresentou níveis baixos de violência política e institucional”. Para a Folha, ditadura só é ditadura pra valer se estiver na ponta do ranking do totalitarismo e empilhar mortos aos milhares. Como se antevisse a resposta do jornal, Sergio fez em sua carta um questionamento inapelável: “Quantos mortos, quantos desaparecidos e quantos expatriados são necessários para uma ‘ditabranda’ ser chamada de ditadura?”.

Dois intelectuais de respeito — os professores universitários Fábio Konder Comparato (aposentado) e Maria Victoria de Mesquita Benevides, da USP — saíram em defesa das vítimas da ditadura esculhambadas pelo editorial da Folha. “Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de ‘ditabranda’? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar “importâncias” e estatísticas”, escreveu Maria Benevides. “Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi ‘doce’ se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala — que horror!”.

Já Comparato, ao sustentar que “o leitor Sergio Pinheiro Lopes tem carradas de razão”, cobrou a Folha: “O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana”.

Como a Folha está convicta das benesses da ditadura brasileira e não reconhece discordâncias, o jeito foi desqualificar seus missivistas: “Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua ‘indignação’ é obviamente cínica e mentirosa”.

A arrogância da Folha segue rendendo contestações, como a do professor Caio Toledo, que escreveu a seus colegas de Unicamp. O texto de Toledo tacha de “repulsivas e agressivas” as “posições editoriais de Folha” e se solidariza com Maria Benevides e Comparato. “O jornal, sem argumentos e razões, agride a atuação pública destes dois combativos intelectuais por meio de uma leviana ‘nota de redação’. Diante de todas estas agressões ao pensamento democrático, cartas de protesto ao jornal e o cancelamento da assinatura não seriam as respostas mais consequentes?”.

Em entrevista ao Comunique-se, o presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Maurício Azêdo, não poupou a Folha. “É lamentável que se proceda a uma revisão histórica dessa natureza. O que era negativo passa a ser positivo, dando absolvição àqueles que violaram os direitos constitucionais e cometeram crimes, como o assassinato do jornalista Vladimir Herzog nos porões do Doi-Codi”, afirma Azedo. “Dizer que houve acesso à Justiça é uma falsidade de caráter histórico que deveria causar vergonha à Folha de S. Paulo.”

Um veículo pró-regime

Não é de estranhar a defesa que a família Frias faz dos militares. Octavio Frias de Oliveira (1912-2007), o patriarca do clã, adquiriu em 1962 a Folha de S.Paulo — um jornal enforcado em dívidas, que demorou cerca de 15 anos para se tornar um investimento rentável. Uma das razões pelas quais a Folha se salvou financeiramente foi o laço íntimo com todos os generais-presidentes da ditadura.

Numa de suas raríssimas entrevistas, concedida em 2003, Frias-pai comentou sobre esses relacionamentos com o poder — e mentiu. “Eu sempre me mantive afastado do poder. Para ser independente você tem que estar um pouco distante porque senão entra numa situação moral difícil”, disse o ex-publisher da Folha. “Não tenho histórias para contar a este respeito porque sempre procurei manter uma distância entre a posição do jornal, a minha pessoal e os dirigentes do país”.

Mais adiante, na mesma entrevista, Frias se contradiz: “Na época da ditadura, acho que no governo Médici, o chefe da Casa Militar, com quem eu tinha certa relação, não me lembro o nome dele, me telefona e diz: ‘Ô Frias aqui quem fala não é o seu amigo não, é o chefe da Casa Militar Ou você muda esse jornal aí ou nós vamos fechar’. Eu mudei”.

O relato de Frias, ainda assim, não entrega tudo o que a Folha fez na conta do regime, como o odioso empréstimo de peruas C-14 do jornal ao DOI-Codi, para o transporte de presos políticos rumo ao encarceramento, à tortura e, não raro, à morte na Operação Bandeirantes (Oban). Na época, manifestantes chegaram a queimar veículos da Folha em protesto contra a morte de seus companheiros de luta.

No livro Cães de Guarda — Jornalistas e Censores do AI-5 à Constituição de 1988, Beatriz Kushnir dá mais detalhes da promiscuidade. A Folha da Tarde, especialmente, contou com uma matilha de jornalistas colaboracionistas — os “cães de guarda” — e era conhecido como “o jornal de maior tiragem” — ou seja, com mais tiras na redação.

No combate aos “subversivos”, a FT se antecipava ao regime e fazia o papel de porta-voz. Chegou a divulgar a morte do metalúrgico Joaquim Seixas, o Roque, antes mesmo de ele ser assassinado nos porões da ditadura — mas sonegou informações sobre a prisão de Frei Betto (como o fato de o frade ser repórter do jornal) e não noticiou a heróica missa ecumênica a Vladimir Herzog na Catedral da Sé.

Frias-pai não está mais vivo, mas dois de seus filhos continuam à frente da Folha de S.Paulo — Luís Frias como presidente do grupo Folha e Otavio Frias Filho, o Otavinho, como diretor de redação do jornal. Parece caber a eles, de forma progressiva, restabelecer e edulcorar as mais sombrias memórias da família Frias e da Folha. Memórias de um tempo em que a concessão da “ditabranda” era garantida aos fantoches das elites e da grande mídia — não ao Brasil, nem aos brasileiros.

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Altamiro Borges: mídia distorce a vitória de Chávez

Veja, Folha e o fim da Revolução Bolivariana

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Os EUA e a marcha da Grande Depressão: tempos de combates e rupturas

http://www.vermelho.org.br/

31 DE JANEIRO DE 2009 - 20h30


por Sérgio Barroso*

Na história do capitalismo chama a atenção que suas grandes crises “globais” confluem numa combinação regular de fenômenos regressivos de destruição das forças produtivas (capital + trabalho), [1] concentração e centralização de massas de capitais, [2] e radicalização das lutas de classes em escala internacional. [3]

Conceitualmente, sempre houve controvérsias acerca do significado preciso do fenômeno da depressão econômica. Consideramos - à luz da experiência histórica concreta – algumas características tradicionais para esta categoria: a desaceleração econômica não apenas reduz a produção, como nas recessões, que são geralmente mais breves e localizadas, permanecendo ainda o crescimento positivo; as depressões se deslocam a âmbito internacional – daí sua duração mais longa e as taxas de crescimento caem abaixo de zero, com queda da produção real. [4]

A 1ª Grande Depressão

Argumentando maior semelhança com a grande crise atual, as pesquisas recentes do historiador Scott R. Nelson (raízes e traços principais da Grande Depressão de 1873-1896 ou 1ª Grande Depressão), localizam inicialmente na Europa de 1870, em particular no Império Austro-Húngaro (1867) e no Império Germânico (unificado em 1871), o surgimento de novas instituições financeiras financiadoras de crédito hipotecário para construção residencial e municipal. A facilidade na obtenção de crédito impulsionou significativa expansão na construção imobiliária, acompanhada de uma súbita elevação dos preços dos terrenos. Urbanização e industrialização.

Simultaneamente, expandia-se entre 1865 (fim da Guerra Civil Americana) e 1873, a malha ferroviária nos EUA, duplicando no período. Em Maio de 1873, nos países da Europa Central - que perdiam celeremente competitividade frente ao império emergente -, foi por terra a ilusão dum crescimento econômico ininterrupto: a bolsa de Viena colapsou a nove de Maio. Foram à falência bancos da Europa Central, os bancos britânicos cortaram o crédito, na “escuridão” de quais seriam as instituições mais afetadas pela crise hipotecária. O custo do crédito interbancário atingiu níveis insuportáveis.

A crise atingiu seriamente os EUA em Setembro de 1873. A importante casa bancária Jay Cooke & Co. (uma das mais importantes no financiamento da indústria dos caminhos de ferro) quebra e agrava-se o pânico. Os efeitos de longo prazo do pânico pela crise de 1873 foram perversos. O que continuou por mais de quatro anos nos Estados Unidos, e durante quase seis anos na Europa. O termo ''vagabundo'', referência indireta aos ex-soldados trabalhadores, se tornou americano e banal. Nova Iorque chegou a atingir a taxa de 25% de desemprego (R. S. Nelson, The Chronicle Review, 18/10/2008).

Note-se, entretanto, que Hobsbawm, questiona o termo Grande Depressão, para a grande crise daquela época, pois a considera na verdade uma longa fase de deflação: “em um século globalmente deflacionário, nenhum período foi mais drasticamente deflacionário que 1873-1896, quando o nível de preços britânico caiu em 40%”. [5] Isso porque, apesar do centro da atividade capitalista mundial ser dirigido pelo comércio, diz ele que “entre 1873 e medos dos anos 1890, a produção mundial, longe de estagnar, continuou a aumentar acentuadamente” (Idem, p. 58).

Refazendo o caminho da Grande Depressão

Mais divulgados nos últimos meses, os principais resultados da Grande Depressão (1929-1933), apontariam: a) uma queda acumulada do Produto Interno Bruto (PIB) de -26% entre 1929-32; b) uma deflação de preços somada de -32% (1929-32); c) uma taxa de desemprego de 33% da força de trabalho nos EUA; d) cerca de 11.000 bancos faliram; d) a agricultura e agricultores sofreram devastação.

Quase 80 anos depois, dados do National Bureau of Economic Research (NBER), órgão especializado do governo norte-americano, confirmaram que os Estados Unidos estão em recessão desde 2007; somaram mais 2,5 milhões de desempregados no fim de 2008. E, segundo o presidente Obama (5/01/2009), “Se não agirmos rapidamente e corajosamente, poderemos ver uma queda de atividade econômica muito mais profunda, que poderia levar a taxas de desemprego de dois dígitos e fazer com que o sonho americano fique cada vez mais distante''.

“Desemprego de dois dígitos”, longa recessão: dificilmente os EUA contornarão a depressão – e a tragédia. Sim, é o FMI que prevê agora um crescimento negativo nos EUA, de -1,6% em 2009, além de projetar um crescimento global de 0,5%. Segundo estas estimativas do próprio Fundo, o PIB será abaixo de zero, em 2009, para: México, Rússia, Espanha, França, Zona do Euro, Itália, Alemanha, Japão e Reino Unido.

É quase impossível o crescimento da economia mundial em 2009 não ser negativo, esta é a leitura que se deve fazer das “previsões” do FMI.

Na verdade, apesar do aporte trilionário dado ao sistema financeiro dos EUA, persiste a crise de credito, a de liquidez, evoluindo concretamente para mais uma: uma crise de insolvência. Exemplifique-se com a quebra dos dois maiores bancos norte-americanos - o Citigroup e o Bank of America (Bofa) -, no que se seguiu nova “ajuda” bilionária do Tesouro, o que fez com que ex-banqueiros os considerassem “estatizados”. [6] O que ocorre depois do pacotaço de US$ 700 bilhões do programa Tarp, de setembro passado. Também no Reino Unido, onde o Royal Bank of Scotland - que havia passado 58% de suas ações ao Tesouro britânico para não ir ao chão - anunciou prejuízos que somarão US$ 41 bilhões em 2008. “A crise bancária não cede”, constatou em Editorial “O Estado de S. Paulo”, referindo-se aos dois países (23/01/2009, A-3).

Mais ainda: soube-se agora que a economia dos Estados Unidos encolheu a uma taxa anual de 3,8% no último trimestre de 2008; o PIB do país tinha já diminuído 0,5% no penúltimo trimestre, de acordo com o Departamento do Comércio norte-americano. Outros três indicadores da economia dos EUA fizeram murchar a euforia da aprovação no Congresso do outro pacotaço de US$ 887 bilhões, na última quarta-feira: a venda de casas novas desabou 14,7% em dezembro, as encomendas de bens duráveis caíram 2,6% também no mês passado e o número de seguro-desemprego subiu 159 mil na semana encerrada em 17 de janeiro, para 4. 776 milhões. “Trata-se do maior patamar desde que o governo iniciou esse levantamento, em 1967” – arremata Luiz Guimarães. [7] No terceiro trimestre de 2008 a dívida pública e privada do país alcançou 358% do PIB – a maior da história -, tendo sido de 300% exatamente em 1933, na Grande Depressão! [8]


O Brasil deve lutar para escapar da queda!


As previsões para o crescimento da economia brasileira, em 2009, passaram de zero (Kenneth Rogoff), a 1,8% (FMI, 28/01/2009), e para 2% conforme alguns economistas brasileiros mais otimistas. Mas são claras agora as tendências recessivas, com o desemprego assolando os trabalhadores de maneira fulminante: segundo a Confederação Nacional da Indústria, em dezembro ocorreram 654.240 demissões de trabalhadores com carteira assinada, destes 273.240 vagas na indústria de transformação, o pior resultado em dez anos! A produção industrial igualmente teve a pior queda desde 1999.

Aliás, apesar de uma diminuição relativamente pequena nos investimentos projetados até 2012 (menos 10,6% do total de R$ 1,46 trilhão previstos), segundo o BNDES, em 2009 não acontecerá o superávit comercial previsto, de US$ 14 bilhões, face à queda das commodities e ao aprofundamento da recessão global; continuaremos com déficit nas transações correntes do balanço de pagamentos, talvez algo menor que os US$ 28,3 bilhões (2008) - menos viagens internacionais e menor remessa de lucros.

Fica evidente que não há alternativa que não seja de ruptura com a política macroeconômica do consenso de Washington, que desgraçadamente ainda predomina sob o governo Lula. Foi-se pelos ares a ingenuidade da “marolinha” – uma bobagem perigosa só pertinente a subdesenvolvidos.

Assim, têm completa razão Renato Rabelo e Marcio Pochmann. O primeiro por afirmar a encruzilhada histórica que o governo precisa definitivamente enfrentar, em termos políticos, no sentido de um novo pacto político, a serviço do desenvolvimento, dos trabalhadores e da nação. O segundo por identificar o fracasso absoluto de um padrão civilizatório subalterno à decadência social, imposto pela financeirização regressiva que essa burguesia reacionária perpetra contra o nosso povo.

A hora é de combate, a hora é de rupturas!


NOTAS


[1] De outubro de 2007 até dezembro de 2008, somente nas bolsas de valores globais as perdas somaram US$ 31 trilhões, informou H. Meirelles, presidente do BC do Brasil, em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (18/12/2008). No último relatório do FMI (28/01/2009), os prejuízos da totalidade dos bancos em breve alcançarão US$ 2,2 trilhões, sendo que até agora somaram US$ 1,1 trilhão (Valor Econômico, 29/01/2009, C-6). Enquanto o secretário-geral da OIT (Organização Internacional do Trabalho) J. Somavia diz agora: o desemprego alcançará “até 50 milhões de novos desempregados em 2009”, o que elevaria a taxa para 7,1%, frente a 6% em 2008 (dados preliminares) e 5,7% em 2007; ou quase 230 milhões de pessoas, 50 milhões a mais, que os 179,5 milhões registrados em 2007 (BBC-Brasil, 28/01/2009). Na América Latina, até 2,4 milhões de trabalhadores vão perder o emprego (OIT/CEPAL, Valor Econômico, 28/01/2009, A-7).


[2] Apesar da tempestade financeira – em geral fusões e aquisições que centralizam capitais sucedem as crises -, tais negócios alcançaram ainda US$ 3,3 trihões em 2008; foram US$ 4,4 trilhões entre janeiro e outubro em 2007 (Estadão on line, 3/12/2008).


[3] 1) A onda de demissões em massa anunciadas na Europa nas últimas semanas vêm levando às ruas da principais capitais da Europa a protestos violentos contra seus governos. Na Grécia, fazendeiros bloquearam estradas; na Islândia, o governo caiu depois de protestos na semana passada; na França, Grécia, Espanha, Reino Unido e em países do Leste europeu (Hungria, Estônia, Letônia, Lituânia, Eslováquia) “milhões de pessoas repudiam ajuda a bancos e pedem proteção contra demissões” (O Estado de S. Paulo, 29/01/2009, p. B-3). 2) Dominique Strauss Khan, diretor-gerente do FMI, alertou sobre o risco de revoltas sociais em vários países mais afetados pela recessão (Valor Econômico, 27/01/2009, C-1). 3) Para o professor J. L. Fiori, o impacto da atual crise “será prolongado e deverá atingir todas estas ‘zonas de fratura’, acentuando suas tendências mais perversas” (“O fantasma das rebeliões”, Valor Econômico, 03/12/2008). Ou, escreve ele ainda: “Nestas regiões, deve-se prever um processo complicado de desintegração social e política, e o mais provável é que voltem à ordem do dia as revoltas e revoluções sociais. Elas não serão socialistas nem proletárias [?], mais adquirirão mais intensidade e violência nos territórios situados na ‘zona de fraturas’ ou de disputas e conflitos geopolíticos crônicos” (“La crisis económica financiera y las zonas de fractura”, republicado no Centro Internacional Celso Furtado, s/d).


[4] Na tipologia do NBER (O National Bureau Economic Research), os Estados Unidos podem sofrer uma recessão em V (uma queda na produção de curta duração), em U (mais demorada) ou em L (longa duração da contração da atividade econômica) – como está agora a recessão nos EUA.


[5] Ver: “A era dos impérios – 1873-1914”, de Eric Hobsbawm, p. 61, Paz e Terra, 8ª edição, 2003.


[6] O Tesouro americano enfiará mais US$ 20 bilhões, garantindo ativos hipotecários de US$ 301 bilhões no Citigroup; o Bofa ganhará US$ 20 bilhões e garantias para ativos de liquidação duvidosa de US$ 117,2 bilhões. “Quando o Tesouro diz a um banco para pagar um centavo por ação em vez do dividendo antigo, sabe-se quem é que manda”, afirmou o financista Jon Bruss. Para Kevin Jacques, ex-economista do Tesouro americano por 14 anos, “é como se fosse um tipo esquisito de estatização parcial” (“Para investidores, Bank of America e Citigroup já parecem estatizados”, Valor Econômico, 26/01/2009).


[7] Em: “Indicadores trazem mercado à realidade”, Valor Econômico, 30,31/01 e 1/02/2009.


[8] Em: “Por que lidar com dívidas imensas é tão difícil”, de Martim Wolf, Valor Econômico, 28/01/2009.




*Sérgio Barroso, Médico, doutorando em Economia Social e do Trabalho (Unicamp), membro do Comitê Central do PCdoB.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Terra Bárbara - Jáder de Carvalho


    Na minha terra, 
    as estradas são tortuosas e tristes 
    como o destino de seu povo errante. 
    Viajor, 
    se ardes em sede, 
    se acaso a noite te alcançou, 
    bate sem susto no primeiro pouso: 
    — terás água fresca para sua sede, — 
    rede cheirosa e branca para o teu sono.

        Na minha terra, 
        o cangaceiro é leal e valente: 
        jura que vai matar e mata. 
        Jura que morre por alguém — e morre.

    (Brasil, onde mais energia: 

    na água, que tem num só destino 

    do teu Salto das Sete Quedas 

    ou na vida, que tem mil destinos, 

    do teu jagunço aventureiro e nômade?) 

    Ah, eu sou da terra do seringueiro,

     o intruso 

    que foi surpreender a puberdade da Amazônia.

    Eu sou da terra onde o homem, seminu, 

    planta de sol a sol o algodão para vestir o Brasil. 

    Eu nasci nos tabuleiros mansos de Quixadá

    e fui crescer nos canaviais do Cariri, 

    entre caboclos belicosos e ágeis.

    Filho de gleba, fruto em sazão ao sol dos trópicos, 

    eu sou o índice do meu povo:

    se o homem é bom — eu o respeito. 

    Se gosta de mim — morro por ele. 

    Se, porque é forte, entender de humilhar-me, — ai, sertão! 

    Eu viveria o teu drama selvagem, 

    eu te acordaria ao tropel do meu cavalo errante, 

    como antes te acordava ao choro da viola...

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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Renato Rabelo: A grande encruzilhada do governo Lula

16 DE JANEIRO DE 2009 - 09h48

Manter um nível de desenvolvimento e emprego positivo, barrando a recessão, ou ser vencido pela retração econômica e expansão do desemprego.
A partir de 2007 o Brasil retoma o patamar de desenvolvimento do PIB anual acima dos 5% e a tendência apontava para uma aceleração do seu crescimento a níveis mais altos ainda, durante um período mais longo, mantendo assim em 2008 esse ritmo. Entretanto, este ascenso desenvolvimentista está enfrentando pesado obstáculo desde setembro do ano passado com a expansão da crise econômica e financeira mundial.
O governo Lula, desde o seu início, foi levado a estabelecer uma forma de pacto político, decorrente da correlação das forças políticas de então, com duplo compromisso contraditório: responder ao apoio da base democrática e popular que o apoiou desde 1989 e, ao mesmo tempo, estabelecer um acordo que cedia aos interesses da oligarquia financeira beneficiária da política neoliberal implantada desde início de 1990.
Esse pacto manifesto na “Carta aos Brasileiros” é que deu ao novo governo uma característica de dualidade, como já afirmávamos desde sua posse em 2003. A expressão desse tipo de pacto na formação do governo ficou demonstrada no papel de Antonio Palocci, titular do Ministério da Fazenda, na escolha de um presidente para o Banco Central da confiança dos grandes círculos financeiros internos e externos, como avaliadores do acordo. O restante do governo foi completado com muitas figuras de origem democrática e progressista, vinculados ao campo popular.
Foi esse tipo de coalizão política e social que permitiu – em condições de crescimento da economia mundial – que o primeiro governo Lula estabilizasse a crítica situação por que passava o país e começasse a distribuir renda primária aos mais deserdados. Simultaneamente, o governo buscou a afirmação de uma nova política externa “Sul-Sul”, de integração do subcontinente e diversificação comercial, dando ao Brasil importante protagonismo no cenário externo.
O segundo governo Lula colocou o centro de gravidade de suas ações na aceleração do desenvolvimento e no reforço dos programas sociais. A dualidade que se refletia na luta entre continuidade e mudança, neoliberais e anti-neoliberais, desenvolvimentistas e ortodoxos, os partidários de políticas públicas universais ou focalizadas, estatistas e mercadistas, esteve sempre presente e se elevou numa maior contenda com a saída acidental de Palocci da Fazenda, substituído por Guido Mantega, personalidade de feição progressista. Foi se configurando na política econômica um caráter “hibrido” (desenvolvimentismo X ortodoxia liberal). Apesar desses limites e contradições o Brasil começou uma fase ascendente de desenvolvimento desde ano de 2007.
Novo desafio, nova oportunidade
Porém, o início da fase aguda da crise sistêmica do capitalismo iniciada em setembro deste ano, atingindo toda economia mundial, impõe uma nova situação. O Brasil, com suas reservas e aplicação de elevados investimentos em curso, não foi atingido de imediato, mas começa a ser impactado com a recessão que se alastra mundo afora, tornando-se incerto o desdobramento dessa situação de crise, sobretudo nos próximos seis primeiros meses de 2009.
Em virtude da dimensão da crise em marcha – que põe em xeque a exacerbada globalização financeira liberalizante e ao próprio hegemonismo unipolar dos EUA – os povos e países da chamada periferia do sistema são jogados diante de ingentes desafios: encontrar novas respostas políticas e econômicas que não se limitem a remediar o impasse da nova grande crise do capitalismo, mas, distinguir novas oportunidades e caminhos para transformar o Brasil em uma nação soberana, democrática, próspera e socialmente avançada. Muitos exemplos da história demonstram que esses momentos de grandes crises do sistema, que ocorrem no seio dos países capitalistas centrais, criam oportunidades aos países dependentes e subdesenvolvidos para buscar seus caminhos próprios de desenvolvimento nacional.
Reconstruir o pacto político
Em face da crise o desafio é mais político que econômico. É chegada a hora de reconstruir o pacto político. Esta é a saída para o enfrentamento da crise. Dar maior força a base popular e democrática, aos trabalhadores e as camadas médias, em aliança com os empresários da produção e do comércio. Construir assim um grande pacto pela defesa e impulso do desenvolvimento, da economia nacional e do mercado interno, da renda do trabalho e do emprego. Em conseqüência da ação crescente da crise capitalista estamos diante de um risco maior: a recessão. Por isso, toda iniciativa e mobilização deve se voltar para viabilizar os meios que visem à expansão, e não retração da economia.
Em suma, deve ser superada a política da desregulamentação financeira, de juros altos e do câmbio livre da fase da economia “cassino”, submetida a fortes injunções da hegemonia dos grandes agentes financeiros. Hoje, manter juro real básico no patamar de 8% é o mesmo que continuar acelerando o carro para o abismo da depressão econômica. E deixar o câmbio livre de qualquer controle é voltar a cavar a vulnerabilidade externa do país. Em resposta a essa situação, impõe-se o nivelamento do juro real básico ao patamar internacional nesse tempo de crise, o controle do câmbio e de certa forma do fluxo de entrada e saída de capitais.
A encruzilhada diante do governo
O novo contexto gerado pela grande crise, tendo em conta a eleição geral de 2010, onde estará em disputa à presidência da República, leva o governo Lula a estar diante de uma encruzilhada: manter um nível de desenvolvimento e emprego positivo, barrando a recessão, ou ser vencido pela retração econômica e expansão do desemprego. Prevalecendo a primeira vertente o prestígio popular do governo e do presidente se elevará ainda mais, podendo irromper forte clamor nacional pela continuidade de Lula.
Se o governo conduz bem o país diante de grave crise global estimula a consciência de que a mudança do presidente em momento delicado como esse, na direção desse complexo empreendimento, pode ser muito arriscado. No período da grande depressão na década de 1930 nos EUA, o presidente Franklin Delano Roosevelt, com o projeto do New Deal que reergueu a nação norte-americana, superando a grande crise do capitalismo, foi reeleito quatro vezes, talvez não chegando à quinta porque faleceu.
Mas, se prevalece a segunda vertente, o presidente Lula pode perder o prestígio e a confiança hoje depositada na sua condução à frente da Nação e possibilitar o aparecimento de salvadores, reforçando o discurso revanchista da oposição, dificultando a vitória do candidato que seja escolhido como seu sucessor.
Esta é objetivamente a encruzilhada política que vive o governo, sendo a reconstrução do pacto político, de uma forma ou de outra, a via necessária para seguir a vertente que leva ao êxito na superação da crise.

Israel vs. Hamas: a derrota dos vencedores

18 DE JANEIRO DE 2009 - 16h52

Observado do ponto de vista estritamente militar o conflito na Faixa de Gaza, o Estado de Israel está impondo uma derrota histórica ao grupo Hamas. O noticiário da imprensa e as estatísticas publicadas pelos jornais não deixam dúvida quanto ao massacre que significa o número de mortos — que no lado palestino passa do milhar e entre os judeus não chega oficialmente a uma dezenas de soldados, alguns dos quais atingidos por suas próprias forças, o chamado "fogo amigo". Mas há outras leituras possíveis dos fatos.

Por Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa
No campo da opinião pública, onde as guerras acontecem com palavras e imagens, as cenas de crianças mortas e hospitais bombardeados superam em muito o impacto daquilo que é aceito como a causa do conflito: as atividades terroristas do grupo Hamas. São raras as cenas em que aparecem militantes do grupo, embora sejam considerados os verdadeiros combatentes do lado palestino.

O que se vê na imprensa todos os dias são retratos da população civil, à qual pertencem, segundo os jornais de sexta-feira (16/1), 65% das vítimas fatais. A imprensa já noticiou que os militantes armados se misturam à multidão, dificultando aos adversários a identificação dos alvos — o que explicaria, sob o ponto de vista estritamente militar, os constantes erros da artilharia israelense. Explicaria, mas não justificaria.

Uma novidade

Na chamada grande imprensa, que não pode ser acusada de simpática com os atos terroristas do Hamas, os fatos colocam o Estado de Israel em desvantagem pela própria evidência de que as ações militares não levam em conta a mais remota preocupação com a questão humanitária.

Já se acumulam na contabilidade dos erros pelo menos cinco escolas, dois hospitais e, na quinta-feira (15/1), o depósito da ONU onde eram estocados alimentos para grande parte dos 1,5 milhão de palestinos acuados entre as forças em combate. Nenhum dos grandes jornais tenta ao menos explicar o ataque às instalações da ONU e todos eles reproduzem as manifestações de condenação vindas de praticamente todas as partes do mundo.

Na mídia digital, que no atual conflito joga um papel fundamental na divulgação dos acontecimentos, o Estado de Israel perde a guerra na medida em que uma ampla e ativíssima rede de comunicação contata diretamente moradores de Gaza com a opinião pública de todo o planeta, expondo a tragédia humanitária que se agrava a cada dia.

Em algumas dessas redes, é grande o número de cidadãos judeus que se manifestam condenando a violência militar. Parte dessas informações acaba chegando aos jornais e emissoras de televisão, influenciando o viés do noticiário.

Comparada aos conflitos anteriores, a guerra deste ano no Oriente Médio traz essa novidade: o exército mais poderoso está perdendo a luta pela conquista dos corações e mentes.

Efeméride

A quinta-feira (15/1), registrado nas edições de sexta dos jornais, foi o 19 de Kislev do ano 5.769 no calendário judaico, ou 15 de janeiro de 2009 no calendário cristão. Marca a data da morte do rabino e filósofo Maimônides, ocorrida no ano 1204 da era cristã.

Maimônides é considerado um dos fundadores do judaísmo moderno e um dos grandes pensadores de todos os tempos. Ele viveu e construiu sua obra, livremente, na Espanha sob domínio muçulmano.

O Estado de Israel não representa necessariamente a sociedade sonhada por Maimônides, chamado pelos judeus de Rambam. As tribos tiranizadas por fanáticos religiosos que proliferam entre os povos árabes e palestinos não têm relação com a sociedade islâmica e multicultural que vicejou na Península Ibérica. Mas não custa lembrar.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Robert Fisk: Por que nos odeiam tanto?!



9 DE JANEIRO DE 2009 - 11h22




Assim, mais uma vez, Israel abriu as portas do inferno sobre os palestinos: 40 refugiados civis mortos numa escola da ONU, mais três em outra. Nada mau, para uma noite de trabalho do exército que acredita na "pureza das armas". Não pode ser surpresa para ninguém.
Por Robert Fisk, no Independent
Esquecemos os 17.500 mortos – quase todos civis, a maioria mulheres e crianças – de quando Israel invadiu o Líbano, em 1982? E os 1.700 civis palestinos mortos no massacre de Sabra-Chatila? E o massacre, em 1996, em Qana, de 106 refugiados libaneses civis, mais da metade dos quais crianças, numa base da ONU? E o massacre dos refugiados de Marwahin, que receberam ordens de Israel para sair de suas casas, em 2006, e foram assassinados na rua pela tripulação de um helicóptero israelense? E os 1.000 mortos no mesmo bombardeio de 2006, na mesma invasão do Líbano, praticamente todos civis?

O que surpreende é que tantos líderes ocidentais, tantos presidentes e primeiros-ministros e, temo, tantos editores e jornalistas tenham acreditado na mesma velha mentira: que os israelenses algum dia tenham-se preocupado com poupar civis. "Israel toma todo o cuidado possível para evitar atingir civis", disse mais um embaixador de Israel, apenas horas antes do massacre de Gaza.
Todos os presidentes e primeiros-ministros que repetiram a mesma mentira, como pretexto para não impor o cessar-fogo, têm as mãos sujas do sangue da carnificina de ontem. Se George Bush tivesse tido coragem para exigir imediato cessar-fogo 48 horas antes, todos aqueles 40 civis, velhos, mulheres e crianças, estariam vivos.
O que aconteceu não foi apenas vergonhoso. O que aconteceu foi uma desgraça. "Atrocidade" é pouco, para descrever o que aconteceu. Falaríamos de "atrocidade" se o que Israel fez aos palestinos tivesse sido feito pelo Hamás. Israel fez muito pior. Temos de falar de "crime de guerra", de matança, de assassinato em massa.
Depois de cobrir tantos assassinatos em massa, pelos exércitos do Oriente Médio – por sírios, iraquianos, iranianos e israelenses – seria de supor que eu já estivesse calejado, que reagisse com cinismo. Mas Israel diz que está lutando em nosso nome, contra "o terror internacional". Israel diz que está lutando em Gaza por nós, pelos ideais ocidentais, pela nossa segurança, pelos nossos padrões ocidentais.Então também somos criminosos, cúmplices da selvageria que desabou sobre Gaza.
Reportei as desculpas que o exército de Israel tem oferecido ao mundo, já várias vezes, depois de cada chacina. Dado que provavelmente serão requentadas nas próximas horas, adianto algumas delas: que os palestinos mataram refugiados palestinos; que os palestinos desenterram cadáveres para pô-los nas ruínas e serem fotografados; que a culpa é dos palestinenses, por terem apoiado um grupo terrorista; ou porque os palestinenses usam refugiados inocentes como escudos humanos.
O massacre de Sabra e Chatila foi cometido pela Falange Libanesa aliada à direita israelense; os soldados israelenses assistiram a tudo por 48 horas, sem nada fazer para deter o morticínio; são conclusões de uma comissão de inquérito de Israel. Quando o exército de Israel foi responsabilizado, o governo de Menachem Begin acusou o mundo de preconceito contra Israel.
Depois que o exército de Israel atacou com mísseis a base da ONU em Qana, em 1996, os israelenses disseram que a base servia de esconderijo para o Hizbollah - guerra deflagrada porque o Hizbóllah capturou dois soldados israelenses na fronteira. Mas esses não foram crimes do Hizbollah; foram crimes de Israel.
Israel insinuou que os corpos das crianças assassinadas num segundo massacre em Qana teriam sido desenterrados e expostos para fotografias. Mentira.Sobre o massacre de Marwahin, nenhuma explicação. As pessoas receberam ordens, de um grupo de soldados israelenses, para evacuar as casas. Obedeceram. Em seguida, foram assassinadas por matadores israelenses. Os refugiados reuniram os filhos e puseram-se à volta dos caminhões nos quais viajavam, para que os pilotos dos helicópteros vissem quem eram, que estavam desarmados. O helicóptero varreu-os a tiros, de curta distância. Houve dois sobreviventes, que se salvaram porque fingiram estar mortos. Israel não tentou nenhuma explicação.
Doze anos depois, outro helicóptero israelense atacou uma ambulância que conduzia civis de uma vila próxima – outra vez, soldados israelenses ordenaram que saíssem da ambulância – e assassinaram três crianças e duas mulheres. Israel alegou que a ambulância conduzia um ferido do Hizbollah. Mentira.
Cobri, como jornalista, todas essas atrocidades, investiguei-as uma a uma, entrevistei sobreviventes. Muitos jornalistas sabem o que eu sei. Nosso destino foi, é claro, o mais grave dos estigmas: fomos acusados de anti-semitismo.
Por tudo isso, escrevo aqui, sem medo de errar: agora recomeçarão as mais escandalosas mentiras. Primeiro, virá a mentira do "culpem o Hamás" – como se o Hamás já não fosse culpado dos próprios crimes! Depois, talvez requentem a mentira dos cadáveres desenterrados para fotografias. E com certeza haverá a mentira do "homem do Hamás na escola da ONU". E com absoluta certeza virá também a mentira do anti-semitismo. Os líderes ocidentais cacarejarão, lembrando ao mundo que o Hamás rompeu o cessar-fogo. É mentira.
O cessar-fogo foi rompido por Israel, primeiro dia 4/11; quando bombardeou e matou seis palestinenses em Gaza e, depois, outra vez, dia 17/11, quando outra vez bombardeou e matou mais quatro palestinenses.
Sim, os israelenses merecem segurança. 20 israelenses mortos nos arredores de Gaza é número escandaloso. Mas 600 palestinenses mortos em uma semana, além dos milhares assassinados desde 1948 – quando a chacina de Deir Yassin ajudou a mandar para o espaço os habitantes autóctones dessa parte do mundo que viria a chamar-se Israel – é outro assunto e é outra escala.
Dessa vez, temos de pensar não nos banhos de sangue normais no Oriente Médio. Dessa vez é preciso pensar em massacres na escala das guerras dos Bálcãs, dos anos 90. Ah, sim.Quando os árabes enlouquecerem de fúria e virmos crescer seu ódio incendiário, cego, contra o Ocidente, sempre poderemos dizer que "não é conosco". Sempre haverá quem pergunte "Por que nos odeiam tanto?" Que, pelo menos, ninguém minta que não sabe por quê.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Agenda dos protestos: vá às ruas, dê o grito pela paz em Gaza

www.vermelho.org.br

8 DE JANEIRO DE 2009 - 04h55

A partir desta quinta (8), entidades, movimentos sociais e partidos estarão realizando novas passeatas contra a guerra de Israel e em solidariedade a Palestina. Diversas cidades compõem a agenda de protestos que se estende até domingo (11). As ações se somam as já realizadas no país e no mundo desde 27 de dezembro, início do genocídio israelense à população da Faixa de Gaza. Faça parte da luta pelo imediato cessar-fogo em Gaza. Pegue sua bandeira, participe dos protestos, dê o seu grito pela paz.

Por Carla Santos,Com a colaboração de Lejeune Mirhan
(- Confira a agenda de protestos ao final da matéria)

Ao todo, sete cidades farão manifestações até o final desta semana. São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Curitiba (PR), Recife (PE) e Porto Alegre (RS) serão as capitais da paz no Brasil. A elas acrescem as manifestações que acontecerão em Campinas (SP) e Foz do Iguaçu (PR).

Todas as manifestações acontecem nesta sexta-feira (9), com exceção da cidade do Rio que abre a agenda de protestos nesta quinta-feira (8). Além de um ato na sexta, a capital paulista também realizará a Marcha Contra o Massacre de Israel no domingo (11). Apenas em São Paulo, mais de 120 pessoas participaram das reuniões do Comitê de Solidariedade ao Povo Palestino e quase 50 organizações convocam os protestos.

“Existe um clamor brasileiro, até pelos laços históricos com o povo palestino e árabe, contra os ataques israelenses. Essa solidariedade precisa ganhar as ruas e denunciar quais são os verdadeiros responsáveis pelo que está acontecendo: os governos de Israel e dos Estados Unidos, que apóiam o massacre”, afirma ao Vermelho Rubens Diniz, diretor do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e de Luta pela Paz).

Sobre o caráter das manifestações, Rubens explica: “nosso esforço é para que os atos sejam os mais amplos possíveis e que mobilizem todos àqueles que desejam a paz e estão indignados com a situação na Palestina. O movimento ainda é liderado pelo Comitê de Solidariedade ao Povo Palestino, é suprapartidário e todas as religiões são bem vindas para apoiá-lo.”

Emoção e criatividade

Em São Paulo — que abriga a maior comunidade árabe do país—, haverá um protesto em frente ao Consulado de Israel e a uma grande marcha sairá do Vão Livre do Masp. Em Campinas, a manifestação no Largo da Catedral espera contar com a participação de um médico palestino que mora na Faixa de Gaza e que, ao retornar de uma viagem que fazia na Rússia, foi impedido de voltar ao seu país. Desde então ele está no Brasil.

No Rio de Janeiro, a manifestação que acontecerá na Cinelândia será filmada pela organização. Em Porto Alegre o ato de solidariedade deve contar com o Embaixador da Palestina. Em Curitiba, a passeata Uma gota de sangue pela paz, com concentração na Praça Santos, pretende mostrar num gesto dramático a indignação dos brasileiros.

No Recife, os estudantes podem terminar o protesto em frente ao Consulado Americano. Já em Foz do Iguaçu, cidade que acolhe a segunda maior comunidade árabe do Brasil, fotos do massacre estarão estampadas em cartazes e adereços da manifestação.

De expectador à protagonista

Em entrevista ao Vermelho, Marcelo Buzetto, do MST, disse que os protestos são a oportunidade dos brasileiros de deixarem a posição de expectadores do massacre para se tornarem protagonistas da pressão mundial pelo fim do genocídio.

“Precisamos fortalecer a solidariedade com o povo de Gaza que tem vivido todos os dias o massacre que estamos acompanhando pela TV. São bombardeios em escolas, hospitais, centros de abastecimento de água e energia. A cada momento cresce o número de crianças e idosos brutalmente assassinados”, lembra. “Os atos servirão para medir o grau de repúdio do povo brasileiro contra esse genocídio do Estado de Israel.”

Quando pouco vale muito

Para os árabes e descendentes de palestinos no país, as manifestações também tem o apoio de muitos judeus e israelenses que moram aqui. “Os governos que se dizem democráticos sabem que para se chegar ao poder é preciso o apoio da população. Neste sentido, as mobilizações de massa pela paz na Faixa de Gaza tem um impacto muito forte sobre todos os governos do mundo e elas já estão acontecendo em Israel”, relata ao Vermelho Alli Majdoub, presidente da União dos Estudantes Muçulmanos do Brasil (Uemb).

As palavras de Alli lembram que as eleições em Israel, em 10 de fevereiro, estão próximas. Segundo pesquisa do jornal israelense Haaretz — publicada sete dias após o início dos ataques — se as eleições fossem hoje a coalizão de centro do atual governo — entre trabalhistas e o Kadima —, conseguiria manter a maioria no Parlamento. Antes do genocídio, as pesquisas davam grande vantagem à adversária coalizão de direita Likud, que defende uma posição mais dura contra palestinos.

Contudo, já paira o medo entre os governantes israelenses de que, se massacre se estender por muito tempo, a vantagem conquistada se reverta. Daí a urgência da violência com que o Exército de Israel tem usado para invadir sumariamente a Palestina. Independente dos motivos da guerra de Israel, o sangue corre na Faixa de Gaza e o martírio das famílias palestinas segue. Diante deste cenário, Alli lembra o que é possível fazer.

“Ir às ruas, protestar contra a crueldade dessa guerra e denunciar seu sentido mesquinho é muito pouco, mas é o mínimo que podemos fazer em solidariedade ao holocausto pelo qual passam milhares de famílias neste exato instante em que conversamos.”

- Leia também:
Milhares de brasileiros já foram às ruas pela paz em Gaza

Confira abaixo a agenda de protestos desta semana.

Quinta-feira (8)

- Rio de Janeiro
Manifestação de repúdio ao massacre do povo palestino
Horário: 17 horas
Local: Cinelândia
Convocam: entidades do movimento social e sindical e do Comitê de Solidariedade com o Povo Palestino-RJ

Sexta-feira (9)

- São Paulo
Manifestação em frente ao Consulado de Israel
Horário: 14h30
Local: Consulado de Israel
Endereço: Avenida Faria Lima, nº 1.766, 13º andar em PinheirosConvocam: (as mesmas da manifestação de domingo)

- Porto Alegre
Ato com Embaixador da Palestina e pelo fim dos ataques de Israel
Horário: 10 horas
Local: Semapi (Sindicato dos Empregados em Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas e de Fundações Estaduais do RS)
Endereço: Rua General Lima e Silva, 280 - Porto Alegre – RS
Convocam: entidades da Comunidade Árabe-Brasileiro, em conjunto com outras como o Cebrapaz-RS e demais organizações dos movimentos sociais

- Curitiba: A passeata de solidariedade a Palestina: uma gota de sangue pela paz
Horário: 11 horas
Local: Concentração na Praça Santos Andrade
Convocam: Comitê Árabe-Brasileiro, em conjunto com outras entidades como o Cebrapaz-PR

- Recife
Sapatada nos governos de Israel e dos EUA: pelo fim da invasão a Gaza
Horário: 16
Local: Praça Oswaldo Cruz
Convocam: UNE, Ubes, Umes (União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas ), UEP (União dos Estudantes de Pernambuco)

- Campinas
Ato de solidariedade a Palestina
Horário: 17
Local: Largo da Catedral
Convocam: entidades do movimento social e partidos políticos

- Foz do Iguaçu
Passeata pelo fim do massacre ao povo palestinoHorário: 17 horasLocal: Concentração no início da Avenida BrasilConvocam: Comunidade Árabe e entidades do movimento social

Domingo (11)

- São Paulo
Grande Marcha Contra o Massacre de Israel
Horário: 10 horas
Local: Concentração no Vão Livre do Masp, Avenida Paulista.

Convocam: CMS (Coordenação dos Movimentos Sociais); CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil); CUT; Conlutas; Intersindical; Afubesp (Associação dos Funcionários do Banespa); UNE; Ubes; Upes (União Paulista dos Estudantes Secundaristas); DCE da USP; UJS (União da Juventude Socialista); Juventude Revolução; Movimento pelo Passe Livre; MST; MLT (Movimento de Luta pela Terra); Conselho Mundial da Paz (CMP); Cebrapaz (Centro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz); Comitê de Solidariedade a Cuba; Mulheres em Luta pela Paz; PCdoB; PT; PSTU; Psol; PCB; Fepal (Federação Árabe Palestina do Brasil); Fearab (Federação das Entidades Árabes Brasileiras); Mopat (Movimento Palestina para Todos); União da Juventude Árabe para a América Latina (UJAAL); Instituto Jerusalém; Instituto da Comunidade Árabe; Centro Cultural Árabe-Sírio; Sociedade Palestina de SP; Instituto Futuro; União Nacional de Entidades Islâmicas (UNI); Federação das Entidades Árabes Muçulmanas do Brasil (Fambras); Sociedade Beneficente Muçulmana do Brasil (SBM); Associação Beneficente Islâmica do Brasil (ABIB); União dos Estudantes Muçulmanos do Brasil (Uemb); Sociedade Islâmica de Jundiaí; Sociedade Beneficente Muçulmana de Santo Amaro; Conselho Superior dos Teólogos Muçulmanos do Brasil; Igreja Ortodoxa Antioquina do Brasil; Igreja Presbiteriana; Deputado estadual Simão Pedro (PT-SP); Deputado estadual Said Mourad (PSC-SP); Vereador de São Paulo Jamil Murad (PCdoB); Portal Vermelho; CMI (Centro de Mídia Independente); Jornal Al Baian.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Discurso pronunciado por Raúl Castro, en el 50 aniversario del triunfo de la Revolución

¡Jamás regresará el dolor al corazón
de las madres ni la vergüenza al alma de cada cubano honesto!

Discurso pronunciado por el Presidente de los Consejos de Estado y de Ministros de la República de Cuba, General de Ejército Raúl Castro Ruz, en el acto por el aniversario 50 del triunfo de la Revolución, efectuado en Santiago de Cuba, el 1ro. de enero de 2009, “Año del 50 aniversario del triunfo de la Revolución”.

Santiagueras y santiagueros;

Orientales;

Combatientes del Ejército Rebelde, la lucha clandestina y de cada combate en defensa de la Revolución durante estos 50 años;

Compatriotas:

Raúl Castro RuzEl primer pensamiento, un día como hoy, para los caídos en esta larga lucha. Ellos son paradigma y símbolo del esfuerzo y el sacrificio de millones de cubanos. En estrecha unión, empuñando las poderosas armas que han significado la dirección, las enseñanzas y el ejemplo de Fidel, aprendimos en el rigor de la lucha a transformar sueños en realidades; a no perder la calma y la confianza frente a peligros y amenazas; a levantar el ánimo tras los grandes reveses; a convertir en victoria cada reto y a superar las adversidades, por insuperables que pudieran parecer. Continua

Fidel: Revolución



“Revolución es sentido del momento histórico;
es cambiar todo lo que debe ser cambiado;
es igualdad y libertad plenas;
es ser tratado y tratar a los demás como seres humanos;
es emanciparnos por nosotros mismos y con nuestros propios esfuerzos;
es desafiar poderosas fuerzas dominantes dentro y fuera del ámbito social y nacional;
es defender valores en los que se cree al precio de cualquier sacrificio;
es modestia,
desinterés,
altruismo,
solidaridad y heroísmo;
es luchar con audacia, inteligencia y realismo;
es no mentir jamás ni violar principios éticos;
es convicción profunda de que no existe fuerza en el mundo capaz de aplastar la fuerza de la verdad y las ideas.

Revolución es unidad, es independencia,
es luchar por nuestros sueños de justicia para Cuba y para el mundo,
que es la base de nuestro patriotismo, nuestro socialismo y nuestro internacionalismo.”


FIDEL



Este filme mostra a emocionante e heróica luta dos cubanos e cubanas contra o bloqueio genocida imposto elos EUA.
Mostra também a impressionante liderança de Fidel e seu gênio de, entre otras coisas, anunciar com antecedência o colaso da URSS.

É lindo.

Viva os 50 anos da Revolução Cubana!

www.vermelho.org.br



Revolução Cubana: 'socialismo resulta da vontade popular'

Celebram-se amanhã os 50 anos da revolução em Cuba. Em uma entrevista ao jornal Avante! — do Partido Comunista Português —, o embaixador da República de Cuba em Portugal, Jorge Castro Benítez, falou do período decorrido, dos desafios futuros e garantiu que os cubanos estão convictos e empenhados na construção do socialismo. O Vermelho reproduz abaixo a íntegra da entrevista.

Avante!: Refere-se muitas vezes as particularidades históricas da revolução cubana, dizendo que a luta pela transformação social que triunfa em 1959 radica nos combates pela emancipação nacional do século 19. Que particularidades são essas?

Jorge Castro: Para analisarmos como se chega à revolução e o que significam estes 50 anos, recordemos que Cuba era uma colônia espanhola e que os patriotas cubanos lutavam há muito pela independência. Esse projeto foi sendo frustrado quer pela incapacidade de os revolucionários unirem as suas forças, quer pelo acordo celebrado entre os EUA e Espanha, país que entrega o território aos norte-americanos. Cuba passa a ser uma colônia. O embaixador dos EUA em Havana era o pró-cônsul e colocava na presidência diferentes títeres defensores dos interesses de Washington.

Só em 1953 Fidel é capaz de congregar diferentes tendências em torno do objetivo da autodeterminação. O assalto ao quartel de Moncada, que era naquela época a unidade militar mais forte na parte Oriental da ilha, fracassou por diversos erros. Um número importante de revolucionários foi morto e outros presos e julgados. No processo, Fidel, então um jovem advogado, converte a sua defesa – publicada com o título "A história me absolverá" - num libelo acusatório ao regime e na promoção da revolta popular, caracterizando não só o contexto histórico que se vivia, mas apontando também o programa revolucionário. Depois da libertação de Fidel, reaviva-se a via insurreccional como a única capaz de derrotar a ditadura de Fulgêncio Baptista, e com forças militares muito menores venceram, a 1 de Janeiro de 1959.


Em toda este percurso, vemos a concretização do pensamento e luta de José Martí, o qual, no grupo de revolucionários liderado por Fidel, se encontra mais amadurecido no sentido marxista da construção do socialismo como única solução para um país pequeno e subdesenvolvido; para um país com 70 por cento de população rural a viver em condições extremamente precárias; para um país monoprodutor, que só exportava açúcar, e para os EUA, e importava tudo o que necessitava. É, portanto, com a revolução que agora festejamos que se alcança a verdadeira independência.


Foram necessários apenas alguns meses para que os EUA, com o início da reforma agrária e com o combate aos principais problemas sociais – desemprego, analfabetismo, prostituição, desigualdade e injustiça social, discriminação racial, etc. –, se dessem conta de que aquele era um verdadeiro projeto social contrário aos seus interesses.


Nessa altura, Fidel vai aos EUA e, em declarações públicas, diz que a revolução em Cuba não é de caráter comunista. Foi uma manobra para ganhar tempo até ao primeiro embate com o imperialismo?


Os primeiros passos da revolução foram no sentido de dar resposta aos problemas sociais concretos que já referi, bem como impulsionar a democratização da terra, controlada pelos grandes agrários. E é esta a questão fundamental que inicia o conflito, porque a partir do momento em que os EUA deixam de controlar a matéria-prima açúcar, vêem os seus interesses afetados.


É pouco antes da invasão da Baía dos Porcos, desencadeada pelos EUA, em abril de 1961, que Fidel proclama o caráter socialista da revolução. Lembremos que o povo foi convocado a defender a pátria face à intervenção e, simultaneamente, a ratificar a opção socialista, que naquele contexto significava a construção de sistemas de ensino e saúde gratuitos e universais, significava o combate às injustiças, à pobreza, à exclusão e aos flagelos sociais. Para mais, Cuba era há décadas submetida a campanhas ideológicas anticomunistas. Teria sido um erro crasso proclamar o caráter da revolução sem que o povo tivesse sequer consciência do que significava o socialismo. Ou seja, quando o povo cubano enfrentou a invasão em Playa Gíron, então sim, estava já em condições de proteger também o caráter do processo de transformação social em curso.


Um processo de permanente adaptação


Lênin disse que jamais pode ser derrotado um povo em que os operários e os camponeses, na sua maioria, sabem, sentem e vêem que defendem o poder dos trabalhadores. Isso revela-se na resistência do povo cubano face ao imperialismo e na capacidade de Cuba superar com êxito as diversas etapas revolucionárias?


Penso que sim. A revolução é um processo de permanente transformação, com momentos de avanço e refluxo.


Muitos se questionam se no atual contexto ocorrerão mudanças drásticas. É importante compreender que Cuba está em permanente adaptação ao contexto histórico em que se insere. Qualquer cidadão estrangeiro que visite o país ouve nas ruas opiniões, comentários, mal-estares, o que para nós é natural, mas quem está de passagem pode ficar com uma apreciação errada.


Devemos ainda ter em conta que 70 por cento da população cubana não conheceu o capitalismo, ou seja, nasceu e cresceu já em fase revolucionária, pelo que todo um sistema de justiça social, de igualdade e dignidade é para esta camada algo adquirido, logo, como geração, tem um outro nível de exigência. Isso é positivo, porque no dia em que perdermos a capacidade de reivindicar e querer mais, estancamos. Ou seja, a inconformidade é um impulso para melhorar o sistema social e democrático, a economia e o desenvolvimento das forças produtivas.


Os cubanos não estão preparados para seguir outro caminho que não seja o socialismo, ou seja, não estão preparados para perderem tudo o que hoje têm assegurado.


Em 1975, a Constituição cubana foi aprovada por mais de 95 por cento da população…


E posteriormente foi referendado por números semelhantes o caráter irrevogável do socialismo. É bom que as pessoas que vivem em países tão desenvolvidos, mas ao mesmo tempo tão desinformados, entendam que o referendo em Cuba é igualmente secreto, com todos os requisitos normais das eleições que conhecem, portanto, o caráter irrevogável do socialismo resulta da livre vontade popular.


Conquistas incomparáveis


Cuba alcançou grandes conquistas civilizacionais, quer ao nível da formação educacional e cultural do seu povo, quer do ponto de vista da saúde, com um dos melhores sistemas do mundo. Garantiu a sua capacidade alimentar e o emprego. Alcançou um nível de participação política muito superior ao dos demais países. Estas conquistas projetam Cuba para o futuro?


Não só projetam e garantem o futuro de Cuba, como se encontram submetidas a uma permanente melhoria e afinação da sua eficiência. O caminho faz-se de êxitos, mas também de erros, aliás, como toda a obra realizada pelo ser humano.


Consideremos o que Cuba era e o que é hoje. No ano de 1959 só produzia açúcar e comprava tudo o resto. É a revolução que industrializa o país, que avança nos vários setores da economia, mesmo com o bloqueio e com os custos que ele representa. Sem o bloqueio, colocavamos o que produzíamos a 90 milhas de distância, mas depois da sua imposição passámos a ter que escoar a nossa produção para países que ficavam a 90 semanas de barco.


O desaparecimento das relações de comércio justas com os países socialistas foi para nós um rude golpe que deu início à crise dos anos 90.


Cuba exportava para a Europa Oriental açúcar, níquel, cítricos e outros produtos a preços vantajosos no âmbito da cooperação entre países socialistas. Com o desaparecimento destes, Cuba foi seriamente afetada. Como superaram a situação?


Era um mecanismo chamado compensador. Se o valor do petróleo era 40 e os cítricos 30, quando o petróleo subia então os cítricos, por exemplo, subiam na mesma proporção. Era uma relação de intercâmbio visando o desenvolvimento e a cooperação, contrária às relações comerciais no sistema capitalista. Sem isso, o nosso Produto Interno caiu mais de 35 por cento.


Só para que se tenha idéia, comprávamos à União Soviética aproximadamente 10 milhões de toneladas de petróleo, e nos primeiros anos da década de 90 passámos a ter que viver com 3 milhões de toneladas. Isto motivou cortes no fornecimento de eletricidade. A indústria tinha fortes restrições para laborar.


Perante tal situação, aqui mais que resumida, o fundamental era preservar o objectivo principal do processo revolucionário, ou seja, o desenvolvimento social, mais que o desenvolvimento econômico. Portanto, mesmo no contexto da crise mantivemos todas as componentes do projeto social. As escolas não podiam ser reparadas mas mantivemo-las abertas; os hospitais tinham dificuldades e carências, mas não só continuaram abertos como melhorámos os índices de saúde da população.


Apesar dos graves danos sociais, econômicos, políticos e ideológicos que o desmembramento da URSS provocou em Cuba, mantivemos as conquistas revolucionárias e reestruturamos a economia, apostando no turismo, permitindo a entrada da moeda livremente convertida, investindo na biotecnologia e na formação de cientistas. Tratava-se de minimizar os efeitos do fim do comércio justo com os países do Leste da Europa e do bloqueio norte-americano que se agudizou.


Muitos amigos questionam-se porque é que em Cuba foram introduzidos elementos do sistema econômico capitalista; porque é que surgiram fenómenos sociais, injustiças e desigualdades que antes da década de 90 haviam sido erradicados.


Tomemos o exemplo de um acidente automóvel donde sai um homem em perigo de vida, com um braço e uma perna quebrados. O que faríamos, tratávamos da perna e do braço antes de garantir que o homem sobreviveria? É óbvio que não. Pois o que fizemos foi garantir a sobrevivência da revolução preservando as conquistas sociais. Para mais, e porque faz parte da democracia que temos em Cuba, todas as medidas foram discutidas e aprovadas em amplas discussões com os trabalhadores e o povo.


Essas medidas criaram discrepâncias de rendimento entre quem trabalha no turismo e quem não trabalha, provocaram a migração do meio rural para as zonas urbanas. Surgiu uma camada interessada nos mecanismos capitalistas e nos seus proveitos. Esse processo pode influenciar e mobilizar forças anti-socialistas em Cuba?


Para abordarmos a questão da introdução dos mecanismos capitalistas temos que considerar que Cuba está defronte da maior potência econômica mundial, que esta lhe impõe um férreo e criminoso bloqueio. Dito isto, acrescento que mesmo os novos elementos introduzidos na economia - os quais não podem ser todos definidos como capitalistas - atraem vícios e relações próprias do capitalismo.


Nos anos 90, Cuba passa a acolher capital estrangeiro em setores onde não podia investir. No turismo, recebíamos por ano cerca de 300 mil turistas, quase todos da Europa Oriental. Hoje recebemos cerca de 2 milhões. Tudo isto introduziu desigualdade, corrupção, indisciplina, prostituição, falta de rigor e exigência no trabalho, desigualdade social entre o engenheiro que ficava na mina ganhando menos que aquele que passava a ser porteiro num hotel.


As medidas que tomamos, não necessariamente todas de cariz capitalista, repito, em certa medida desordenaram a revolução do ponto de vista trabalhista, da igualdade social, da direção produtiva, mas ou fazíamo-lo ou a revolução ruía.


A corrupção, um tema muito abordado, surgiu, obviamente. Mas não é a corrupção institucional, de governos inteiros, não é a corrupção de milhões. É um fenômeno limitado, de tostões. A palavra é a mesma, mas não comparemos os casos de enriquecimento ilícito nos países capitalistas com os do administrador ou do trabalhador de uma fábrica em Cuba que rouba quatro galões de tinta!


Na medida em que a economia vá recuperando, assim vamos dando resposta aos fenômenos malignos, às injustiças. Quando o salário tiver um real valor aquisitivo, quando o trabalhador não estiver preocupado se o seu salário é suficiente para garantir as necessidades básicas, como acontecia nos anos 80, então a corrupção, a prostituição e outros flagelos desaparecerão. Essa recuperação de valores, se quiseres, não é tarefa que se cumpra em dois ou três anos, leva tempo e exige esforço. É o que estamos a fazer.


Por outro lado, hoje o principal setor da economia cubana já não é o turismo, mas a biotecnologia. O turismo foi a alavanca, mas a biotecnologia, com direção e investimento durante o período especial, foi ganhando terreno e assume-se como o maior contribuinte da economia cubana.


A construção civil, a petroquímica ou a refinação de petróleo são também setores com grande avanço. Actualmente, mais de 50 por cento do petróleo que se consome em Cuba é de origem nacional e estamos a explorar novas zonas.


Respostas necessárias


Fazem parte dessa normalização da economia e das relações sociais os apelos feitos pelo presidente Raúl Castro de reforma do setor cooperativo, do regresso ao trabalho e de estímulo à produtividade, do rigor na definição de metas, de reformas na estrutura produtiva e na direção da produção?


O discurso de 26 de Julho de Raúl Castro tem antecedentes. Dois ou três anos antes, Fidel, intervindo numa universidade, sintetizou a situação do país, convocou a juventude a fazer parte do futuro e apelou ao povo para que refletisse sobre o rumo que havíamos seguido e como, a apresentar soluções para o caminho a seguir e como.


A discussão, dirigida pelo movimento operário e pelo Partido Comunista, decorreu junto dos camponeses, dos estudantes, dos operários, das forças armadas, enfim, junto de todos os setores da população. Participaram mais de 3,5 milhões de pessoas e recolheu-se mais de 1 milhão de propostas e intervenções que questionavam a direção do país, a televisão, o sistema educacional e de saúde, o trabalho e os salários, tudo o que possas imaginar foi colocado em causa e discutido. Ninguém colocou em causa o socialismo como projeto. Foram reuniões muito críticas. Nelas descobriu-se problemas locais que tinham soluções locais, mas que por falta de interesse dos quadros, por burocracia, por indisciplina não eram resolvidos. Essa base de dados, chamemos-lhe assim, definiu a linha geral e estratégica abordada por Raul Castro nesse discurso.


Recentemente foi publicada a lei da segurança social e do trabalho, norma que não resulta do debate parlamentar, dos acordos entre a bancada de tal partido com a de tal outro. Não é assim que funciona em Cuba. Apresenta-se ao povo o projeto e este discute, dá opinião, propõe alterações. O mesmo aconteceu com a reforma da terra, ou seja, as parcelas não cultivadas, são dadas a quem tem condições para as trabalhar.


Em 23 de dezembro, o parlamento cubano reuniu e aprovou uma lei que obriga os deputados a responder às questões dos seus concidadãos, aliás, na filosofia do nosso sistema de democracia participativa. Essa componente funcionava insuficientemente. Se a resposta é que tal ou tal problema ainda não se pode resolver, é isso mesmo que deve ser dito e explicado em reuniões com o povo. É no fundo todo um processo longo, anterior à doença de Fidel, que está agora numa fase mais avançada de desenvolvimento.


Temeu uma invasão dos EUA quando a saúde de Fidel se deteriorava?


Horas depois de o povo cubano ter sido informado sobre o estado de saúde de Fidel, os comandos especiais que os EUA têm na Florida foram mobilizados. A nossa reação foi igualmente mobilizar 1 milhão de homens. O cenário de uma intervenção militar norte-americana não se pode descartar, porém julgo que predomina a certeza de que tal opção seria um erro grave.


Não digo que tenhamos condições militares para impedir uma invasão, o que para eles não é novidade, mas também sabem que os cubanos não se rendem, ou seja, Cuba não pode ser tomada de assalto.


Recentemente foi votada nas Nações Unidas uma nova condenação ao bloqueio norte-americano contra Cuba. O mundo condena as leis Torricelli e Helms-Burton, o Plano Bush. Poderá estar para breve o fim do bloqueio?

Os EUA declararam uma guerra contra Cuba, uma guerra que passa a categoria de bloqueio, que procura castigar e vencer o povo pelas carências. O bloqueio teve ao longo de mais de 45 anos altos e baixos, porém atingiu o ponto máximo nos mandatos de George W. Bush, que limitou as viagens para Cuba, as remessas dos emigrantes para os seus familiares e deu milhões para o terrorismo. Dados que se podem encontrar na página de Internet do Departamento de Estado mostram que a administração norte-americana gasta mais dinheiro, meios e tem mais gente a trabalhar no cumprimento do bloqueio do que na chamada "guerra ao terrorismo". Isto diz tudo.


Maior agressividade contra Cuba, só pela via armada. Vamos ver o que muda a 20 de janeiro na Casa Branca.


Tem esperança que mude alguma coisa com a administração Obama?


Tenho esperança na persistência dos cubanos.


Mas Raúl Castro disse que estava disponível para dialogar…


Como o disse Fidel durante décadas, essa não é uma disposição nova por parte de Cuba. A normalização das relações é não só do nosso interesse como o mais elementar entre estados, mas em igualdade de condições e soberania. Perguntaram isso a Raúl – aliás uma muito conhecida ex-correspondente da CNN em Cuba –, e ele respondeu que se o senhor Obama tem interesse em falar, nós estamos dispostos fazê-lo no dia e no lugar que indique. Se não tem interesse, pois não falamos. Foi isto que disse. Raúl disse ainda que acabou o tempo dos "gestos", isto é, quando falavam de Cuba e das negociações em torno do bloqueio pedem "gestos". Cuba já fez muitos "gestos" e nunca recebeu nenhum. Acabaram os gestos unilaterais.


Num cenário de conversações, para além do bloqueio e do fim do patrocínio do terrorismo, cabe a libertação dos cinco patriotas cubanos presos nos EUA?


Não tenho idéia dos pontos que seriam discutidos, como imaginas, mas o bloqueio só tem um caminho que é terminar. Foram os EUA que nos sancionaram, por isso Cuba não tem nada que negociar sobre o bloqueio.


Sobre os chamados presos políticos, tema muito abordado na Europa, estão detidos porque violaram leis existentes em qualquer Estado, é bom que isto fique claro. Em Cuba ninguém é detido por delito de opinião. Basta ver na imprensa portuguesa as declarações de "dissidentes" cubanos que vivem tranquilamente em suas casas.


Neste mundo desenvolvido que diz defender os direitos humanos, vejo todos os dias a polícia bater nos trabalhadores que reclamam os seus salários. Em Cuba existem 120 correspondentes estrangeiros que se movem por todo o país, com as máquinas fotográficas prontas a captar a primeira imagem de uma manifestação reprimida com cães e gás lacrimogêneo, todavia nunca conseguiram a tão almejada foto. E imagina quanto não receberia o jornalista que a conseguisse.


Porque não falam dos cinco jovens que estão presos nos EUA, esses sim, presos políticos?


O partido tem o papel dirigente da revolução e define-se como o partido de toda a nação e de todo o povo, e não como a sua vanguarda. O que é que isso quer dizer exatamente no caso cubano?


O que garante o êxito da revolução cubana é a unidade de todo o povo. O Partido Comunista foi desde sempre o partido da nação cubana, ou seja, é o partido da nação e de todo o povo no sentido de ser o garante da continuidade da revolução. Os seus militantes e quadros – que têm que ser um exemplo como trabalhadores e cidadãos, que não gozam de privilégios –, são a vanguarda.


O Partido Comunista não é um partido eleitoral, é antes a exigência, a inconformidade. Perigoso seria se o partido se desligasse das massas, mas não é isso que acontece, pelo contrário, é cada vez mais uma referência de ação e confiança para os cubanos.


Podemos augurar 50 anos mais à revolução cubana?


Pelo menos mais 50 anos. Não vamos renunciar ao socialismo e estamos sempre mais convictos de que não existe outra alternativa, disso podem estar seguros.


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