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sábado, 7 de março de 2015

Política no comando - Aloísio Barroso - Portal Vermelho

Política no comando - Portal Vermelho

Sergio Barroso *

Abalada pela crise capitalista global, a economia mundial continua a se degradar. Em direção contrária a idéia de “recuperação” difundida pelo establishment americano e repetida por seus papagaios mundo afora.

Mas são evidentes as implicações da resposta norte-americana à grande crise e seu declínio da condição de potência hegemônica. Repassá-la à periferia do capitalismo para que nações e trabalhadores paguem a conta é seu objetivo.

Em matéria geoeconômica, os EUA continuam a se beneficiar da sua moeda, cuja valorização ou não depende de sua política monetária e cambial, onde sua própria taxa de juros também pode determinar seu comando sobre a política cambial nos países que não possuem moeda conversível – caso do Brasil e da imensa maioria dos países do globo. Ou seja: a chamada hierarquia (das moedas) do sistema monetário internacional restringe (ao máximo, mas não impede) a capacidade de outros países praticarem uma política econômica independente!

China luta contra deflação [1]

Ademais, um novo fenômeno sublinha a continuidade da gravidade da crise, além das próprias estimativas (sombrias) do FMI e da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), feitas em Novembro, para 2015, que como sabemos sempre estão a serviço dos banqueiros e ricaços. Trata-se da marcha de uma deflação nas principais economias do planeta.
Na análise percuciente (e pioneira) de Yao Yang, prestigiado reitor da Escola Nacional de Desenvolvimento e diretor do Centro para a Reforma Econômica da China (Universidade de Pequim). Segundo assinalara (“A China consegue evitar a deflação?”, Valor Econômico, 27/01/2015), o mundo inteiro se encontra assolado por forças deflacionárias; e se a China entrar no turbilhão, não haveria como “desta vez” seus parceiros comerciais socorrê-la. O problema crucial para o governo da China, portanto, é se ela poderá safar-se da deflação “por conta própria”, diz ele.

Yang argumenta ainda que, apesar da atual desaceleração da economia chinesa ter sido induzida por políticas econômicas nacional, nos dois últimos anos o governo chinês “o governo promoveu um aperto da política monetária e da política fiscal na esperança de neutralizar os efeitos adversos do grande pacote de estímulos econômicos lançado como resposta à crise financeira mundial de 2008”.

Ora, no último dia 28 de Fevereiro o BC chinês anunciou novo corte, de 0,25% na taxa de juros, exatamente para evitar desaceleração maior de sua economia (e a deflação), ainda que ano passado a poderosa economia chinesa registrou crescimento de 7,4% e projeta cerca de 7% do PIB (Produto Interno Bruto) para este ano.

Deflação nos EUA?

Isso mesmo! Na mesma direção vão os EUA: a inflação norte-americana soma mais de trinta meses abaixo de 2%, o objetivo do Federal Reserve (Fed, Banco Central dos EUA). Até agora, não existem indícios de um aumento do nível dos preços. Ao contrário, a deflação (queda de preços) se transformou em uma ameaça real na ainda economia de maior tamanho: os preços do consumo ficaram em apenas 0,4% em dezembro de 2014, sua maior queda desde o final de 2008. Em termos anuais, a inflação diminuiu 0,8% ao se colocar em 1,3% em novembro passado. [2]

Para Rodríguez, a chamada “recuperação norte-americana” está mais no aumento dos principais índices da bolsa de valores de Nova York e menos na melhoria substantiva das condições de vida da população intensa precarização do trabalho, desemprego, queda dos salários. “Inclusive, na esfera financeira – afirma ele -, surgiram novas barreiras para a acumulação de capital. Se é certo que o índice Standard & Poors (que cotiza as ações das 500 maiores empresas dos EUA) continua registrando aumentos, a acumulação de lucros por ação e dividendos é cada vez menor”.

Novo governo Dilma: “concessão” não é ”capitulação”

Nesse quadro, rejeitamos a idéia difundida em setores de esquerda de que existe um Brasil “pós-neoliberal”, tanto quanto a que acha que "Dilma capitulou ao mercado financeiro", assim como a que já anuncia uma "viragem neoliberal" do governo Dilma. A nosso juízo tais pontos de vista carregam forte dosagem de economicismo, incompreensão e precipitação, frente aos resultados do quadro real de forças, um Congresso mais conservador, um crescimento econômico médio pífio, forte polarização eleitoral presidencial, atual divisão e desorientação claras no comando do PT (importa recordar que a presidenta Dilma enfrentou eleições presidenciais com dois ex-presidentes de seu partido, o PT, militantes em São Paulo, presos, injustamente!). Ao lado do processo crescente de desindustrialização do país, agora mesmo vivenciamos deterioração das transações correntes no balanço de pagamentos (contas externas), aliado a um cenário internacional que deve ainda considerar (para além da crise e novas "bolhas financeiras" para todo o lado) crescimento contínuo do desemprego em escala mundial (OIT); a estimativa de crescimento econômico negativo na Rússia este ano; a marcha de desestabilização na Venezuela etc.

Pertinente relembrar nossa experiência recente: bem ao invés do "espetáculo de crescimento" prometido pelo ex-presidente Lula no início de seu governo, a recessão foi clara no primeiro trimestre de 2003 (-1,1%) e no segundo (-0,23%), apesar do resultado anual do PIB ter sido 1,1%. Conforme ainda o IBGE-Seade o desemprego naquele ano atingiu por volta de 20% da PEA (População Economicamente Ativa) na Grande São Paulo. Ora, a “humanidade” sabe que a média do crescimento dos governos de Lula ultrapassou os 4%!

Por suposto, sempre estivemos lutando contra os retrocessos, o que também fizemos desde (uma espécie de consentimento impositivo) da “Carta aos Brasileiros", até a sua crítica aberta. A análise dita "Dilma capitulou" não passa de completa ingenuidade em matéria de luta de classes: das concessões que ela estabelece, seus recuos temporários, das necessárias e variadas alianças, ou até mesmo de derrotas - para nós sempre também temporárias.

Certas interpretações se aninham na ideia do "fim da história", ou a decreta, quando mal começaram as batalhas. Assim, mesmo hoje tendo que enfrentar um cenário externo real bem diferente do de Lula, então de evolução favorável ao crescimento econômico, parece óbvio repetir que a história está em aberto, como sempre esteve, por isso também a conduta tática correta (ou a mais ajustada possível), é no sentido de principalizar a defesa do governo Dilma e exercer daí (e a partir daí) o comando da crítica a retrocessos, e da luta de massas e dos trabalhadores – esse o fator decisivo.

Reforçar o ato de 13 de Março: abaixo o golpismo!

Portanto, a questão nodal no Brasil hoje é: política no comando para preservar as principais conquistas do ciclo político iniciado por Lula e Dilma. Repetindo, lutando contra os retrocessos. Fora disso uma derrota severa pode advir. Mas parecem inevitáveis certas concessões neste quadro dado. E como sabe "concessão" e "capitulação" são categorias muito diferentes - particularmente na terminologia da guerra.

A campanha claramente golpista da direita neoliberal brasileira e seus aliados forâneos é a mais pura manifestação da compreensão deles sobre o que é luta de classes. Visam com clareza objetivos internacionais, serviçal do imperialismo (integração latino-americana; BRICS etc.); e notadamente nacional: interrupção do ciclo que conquistamos, inobstante a pressão furiosa do capital financeiro internacional e do jogo bruto do imperialismo.

Notas

[1] A definição tradicional da depressão econômica mundial envolve fundamentalmente: a) uma queda severa do crescimento do produto; b) elevado desemprego; c) movimentos deflacionários (queda acentuada nos preços). Cada depressão “submerge” numa outra e singular situação – não se repete, mas as determinações e características centrais são recorrentes. Ou seja: as crises sistêmicas do capitalismo e os fenômenos sociais (e também as evoluções políticas) que as acompanham.

[2] Ver o importante artigo “O fantasma da deflação norte-americana” (Carta Maior, 10/02/2015), do economista mexicano “Ariel Noyola Rodríguez.


* Médico, doutorando em Economia Social e do Trabalho (Unicamp), membro do Comitê Central do PCdoB

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Por todos os lados, só se vê o fracasso da austeridade 26/4/2012, Jon Queally, Commondreams - Tradução Coletivo Vila Vudu

http://www.commondreams.org/headline/2013/04/26-0


Semana passada, houve uma chuva de manchetes sobre o completo, total fracasso do “experimento da austeridade” por todo o planeta [exceto, é claro, nos jornais brasileiros -- que são os piores do mundo -- e insistem na propaganda da mesma velha, falhada ‘austeridade’ à moda tucana/Opus Dei]. Um documento publicado por influentes economistas de Harvard converteu-se em manifestação exemplar, não só de incompetência ‘acadêmica’, mas também da mais patética falta, até, do mais comezinho bom-senso.

Em sua coluna no New York Times, o economista e Prêmio NobelPaul Krugman escreveu, na 6ª-feira:


Debates econômicos raramente acabam em nocaute. Mas o grande debate político de anos recentes entre os Keynesianos, que advogam a favor de os governos manterem altos e, de fato, até aumentarem, os investimentos, em tempos de depressão; e os ‘austeristas’, que exigem cortes imediatos de gastos, já se aproxima, de fato, de nocaute – pelo menos no mundo das ideias.

Hoje, a posição dos pró-austeridade já é indefensável. Além de todas as suas previsões para o mundo real terem falhado completamente, o que já se vê é que a própria pesquisa acadêmica que os austeristas invocam para sustentar sua posição é material carregado de erros, omissões, estatísticas duvidosas.


A pesquisa acadêmica mencionada no trabalho de dois economistas de Harvard, Carmen Reinhart e Ken Rogoff[1], está eivada de erros grosseiros, como se constatou semana passada; e aqueles erros comprometem todas as conclusões do trabalho. Mas as mesmas conclusões erradas estão sendo fartamente usadas como argumentos pelos inventores de ‘austeridade’ nos dois lados do Atlântico, para justificar cortes e mais cortes de investimento público, nos programas sociais e nos benefícios para trabalhadores.

E economistas como Krugman, Joseph Stiglitz, Dean Baker e outros exigem mais investimentos públicos, massivos, para tentar superar o também massivo buraco deixado pela crise financeira que começou pelas práticas nefandas de Wall Street e pela ‘bolha imobiliária’ nos EUA.

Em entrevista à rede Bloomberg no início desse mês, Joseph Stiglitz da Columbia University foi claro sobre o registro histórico:


“Não há uma única grande economia que tenha conseguido crescer com austeridade” – disse ele. – "A austeridade leva a economia a desempenhos miseráveis. Leva a mais desemprego, menores salários e mais desigualdade.”


E que importância teria o tal trabalho de Reinhart e Rogoff? Como explica Dean Baker,


O trabalho, por si só, não é base para qualquer economia. Mas aquelas conclusões foram usadas para dar cobertura aos que querem cortes na Social Security, Medicare e outros programas que têm forte apoio popular. Seria impossível obter o apoio político necessário para apoiar cortes e mais cortes naqueles programas, com argumentos sérios. Então, os políticos que pregam os cortes adoraram as conclusões erradas de Reinhart e Rogoff e usaram-nas para defender a própria agenda.

O trabalho de Reinhart e Rogoff não foi usado só para argumentar a favor de cortes nos programas sociais populares: também foi usado como argumento contra os esforços do governo para estimular a economia e criar empregos. Os que se opõem a esses esforços encontraram argumentos para insistir em que os programas seriam contraproducentes, porque Reinhart e Rogoff deram jeito de ‘comprovar’ que altos níveis de déficit público implicariam menor crescimento.

O paper da dupla foi usado para ‘comprovar’ que qualquer melhoria na criação de empregos e melhor crescimento custariam caro, no longo prazo. A versão corrigida, com dados corrigidos, absolutamente não ajuda nessa direção.


Enquanto isso, e fora do mundo acadêmico e seus truques e seus políticos que usam armas semelhantes, o mundo real está mostrando os fracassos das políticas impostas sob os argumentos desse tipo de pensamento.

Como mostram os números divulgados essa semana pelo Eurostat (o serviços de estatísticas da União Europeia), os países que impuseram as mais duras medidas de austeridade, como Portugal e Espanha, viram os seus déficits de orçamento aumentar em 2012 — o que desmente todos os argumentos segundo os quais cortes de gastos governamentais, como medida para estabilizar as finanças públicas, estariam dando os resultados apregoados.

E a dor gerada pelas medidas de austeridade é mais visível na ira popular que se manifesta contra essas políticas. Da Espanha à Grécia, da Irlanda à Bulgária, não cessam os protestos populares – mesmo que tenham desaparecido das manchetes dos grandes jornais-empresa.

Ambos, Krugman e Baker perguntam-se quando o acúmulo de evidências contra as políticas de austeridade levarão os políticos – especialmente os políticos norte-americanos – a mudar de rota. Nenhum dos dois dá sinais de estar muito esperançoso.

Para Krugman, ninguém jamais entenderá “a influência da doutrina da austeridade, se não se pensa em desigualdade e diferenças de classe”. E continua:


O que, afinal, as pessoas querem da economia política? A resposta, como se vê, depende da pessoa que se considere – aspecto documentado em recente pesquisa dos cientistas sociais Benjamin Page, Larry Bartels e Jason Seawright. Esse estudo compara as preferências políticas dos norte-americanos comuns e dos muito ricos, com resultados muito esclarecedores.

O norte-americano médio está medianamente preocupado com os déficits de orçamento, o que não surpreende, dada a furiosa artilharia de material ‘jornalístico’, com histórias escabrosas sobre o déficit; mas os ricos, em vasta maioria, consideram o déficit de orçamento como o principal e mais importante problema que enfrentamos. E o que fazer para reduzir o déficit? Os ricos pregam cortes no gasto federal na assistência à saúde dos mais pobres e na Securidade Social – para eles, nesses “favores”. Enquanto a maioria dos norte-americanos médios quer que o estado invista cada vez mais nesses serviços.

A tendência geral é clara: a agenda da austeridade aparece como clara expressão das preferências dos mais ricos, embalada numa fachada de ‘rigor científico’ ou ‘prestígio acadêmico’. O que o 1% quer, virou ‘conclusão’ da ciência econômica e prescrição ‘científica’ para toda a sociedade.


E Baker concorda: “os interesses dos mais ricos tendem a reaparecer como interesse dos políticos eleitos, mesmo que se oponham aos interesses da maioria da população.”

E conclui:


Por isso se veem esforços para cortar programas como Social Security e Medicare, mesmo quando esses cortes encontrem oposição em grandes maiorias, em todo o espectro político.

Novidade é que a revisão corrigida do artigo, que desmente e desqualifica totalmente as conclusões de Reinhart e Rogoff, deixou tudo muito mais claro. A liderança dos dois principais partidos não está procurando modos de reduzir o déficit de orçamento porque haja qualquer motivo que os levem a crer que a redução traria algum benefício à economia. Querem-porque-querem encontrar meios para reduzir o déficit de orçamento, apenas porque os ricos desejam que se preserve uma situação na qual o alto desemprego enfraquece o poder de barganha dos empregados e mantém achatados os salários. Não é situação que permita alimentar qualquer esperança sobre a situação já terminal da democracia nos EUA.






[1] São autores reverenciados pelo O Estado de S.Paulo(http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,modelos-de-mercados-perfeitos-criaram-falsa-seguranca-e-contribuiram-para-crise-global,716352,0.htm), O Globo (http://g1.globo.com/globo-news/noticia/2012/09/livro-desta-vez-e-diferente-ironiza-declaracao-de-politicos-sobre-crises.html), por exemplo. Mas a lista é longa [NTs]

domingo, 30 de setembro de 2012

Catastroika (legendas em português) - Entenda o saque neoliberal na Grécia e no mundo


Texto do Canal da  IAC - Iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Dívidaem seu canal do Youtube, visitem:

O novo documentário da equipa responsável por Dividocracia chama-se Castastroika e faz um relato avassalador sobre o impacto da privatização massiva de bens públicos e sobre toda a ideologia neoliberal que está por detrás. Catastroika denuncia exemplos concretos na Rússia, Chile, Inglaterra, França, Estados Unidos e, obviamente, na Grécia, em setores como os transportes, a água ou a energia. Produzido através de contribuições do público, conta com o testemunho de nomes como Slavoj Žižek, Naomi Klein, Luis Sepúlveda, Ken Loach, Dean Baker e Aditya Chakrabortyy.

De forma deliberada e com uma motivação ideológica clara, os governos daqueles países estrangulam ou estrangularam serviços públicos fundamentais, elegendo os funcionários públicos como bodes expiatórios, para apresentarem, em seguida, a privatização como solução óbvia e inevitável. Sacrifica-se a qualidade, a segurança e a sustentabilidade, provocando, invariavelmente, uma deterioração generalizada da qualidade de vida dos cidadãos.

As consequências mais devastadores registam-se nos países obrigados, por credores e instituições internacionais (como a Troika), a proceder a privatizações massivas, como contrapartida dos planos de «resgate». Catastroika evidencia, por exemplo, que o endividamento consiste numa estratégia para suspender a democracia e implementar medidas que nunca nenhum regime democrático ousou sequer propor antes de serem testadas nas ditaduras do Chile e da Turquia. O objectivo é a transferência para mãos privadas da riqueza gerada, ao longo dos tempos, pelos cidadãos. Nada disto seria possível, num país democrático, sem a implementação de medidas de austeridade que deixem a economia refém dos mecanismos da especulação e da chantagem — o que implica, como se está a ver na Grécia, o total aniquilamento das estruturas basilares da sociedade, nomeadamente as que garantem a sustentabilidade, a coesão social e níveis de vida condignos.
Se a Grécia é o melhor exemplo da relação entre a dividocracia e a catastroika, ela é também, nestes dias, a prova de que as pessoas não abdicaram da responsabilidade de exigir um futuro. Cá e lá, é importante saber o que está em jogo — e Catastroika rompe com o discurso hegemónico omnipresente nos media convencionais, tornando bem claro que o desafio que temos pela frente é optar entre a luta ou a barbárie.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

PCdoB enaltece manifestação dos 300 mil em Portugal






Neste domingo (12), o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) divulgou uma nota em solidariedade ao Partido Comunista Português (PCP) face o agravamento da crise em Portugal e na União Europeia. O texto, assinado pelo secretário de Relações Internacionais do PCdoB, Ricardo Alemão Abreu, ressalta que as “políticas neoliberais são verdadeiros crimes contra a soberania nacional e os direitos dos trabalhadores e dos povos”.
A nota enaltece a realização da “histórica manifestação” realizada no Terreiro do Paço, em Lisboa, a “maior manifestação dos últimos 30 anos em Portugal”, que reuniu mais de 300 mil pessoas nas ruas da capital do país. E ressalta a importância da “contundente resposta aos exterminadores do futuro do povo português” ao passo que valoriza a “decisiva participação do Partido Comunista Português”.

Leia a íntegra da nota:


“Os comunistas e o movimento sindical e popular no Brasil acompanham com atenção os acontecimentos em Portugal e nos países da União Européia. Diante do agravamento da crise do capitalismo, os governos da zona do euro, submetidos aos interesses dos monopólios e comandados pela “troika” (Comissão Européia, Banco Central Europeu e FMI), adotam políticas neoliberais que são verdadeiros crimes contra a soberania nacional e os direitos dos trabalhadores e dos povos, um “pacto de agressão”.


Para enfrentar estas medidas neoliberais os trabalhadores e os povos de Portugal e de toda a União Européia têm realizado gigantescas e combativas manifestações, greves e protestos de todo o tipo. Assim foi, em Portugal, a histórica manifestação de 11 de fevereiro de 2012, no Terreiro do Paço, em Lisboa, convocada pela CGTP-IN e contando com a decisiva participação do Partido Comunista Português.


A maior manifestação dos últimos 30 anos em Portugal é uma contundente resposta aos exterminadores do futuro do povo português, um bravo e massivo clamor por um programa patriótico e de esquerda para Portugal, pela valorização do trabalho, por um país desenvolvido e soberano.


O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) solidariza-se com o Partido Comunista Português e com os trabalhadores portugueses, e valoriza enormemente a participação dos comunistas portugueses nessa histórica jornada de lutas. Seguramente, na tradição de abril de 1974 e nas lutas de hoje, está a semente de um Portugal com futuro e independência nacional, soberania, de uma democracia avançada que abra caminho para o socialismo”.


Da Redação do Vermelho

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Reflexões sobre o Desenvolvimento – I - Paulo Vinícius Silva

Paulo Vinícius Silva


Sobre o ecoimperialismo malthusiano, o desenvolvimento e a questão nacional


Um dos sinais mais evidentes da barbárie que ora vivenciamos é o neomalthusianismo ecoimperialista travestir-se de ideologia progressista, ultrarreacionário que é em toda a linha. Sua visão é neomalthusiana, nega a possibilidade de a Humanidade superar os desafios do crescimento populacional e da qualidade de vida. O problema seria inerente ao ser humano e sua natureza egoísta.

É uma visão conservadora, porque não enfrenta o imperialismo e o neocolonialismo, ao contrário, é sua tributária. É uma distopia segundo a qual o problema é o ser humano, em vez do capitalismo, e apela a um misticismo apocalíptico para interditar o debate.... Esse verniz de pureza é falso, e esconde interesses poderosos.

Fundamentalmente, longe de defender o Norte do Brasil, ignora as necessidades dos seus habitantes, chega até a defender o esvaziamento da região. Em vez de ver o desenvolvimento como único caminho possível à defesa da Amazônia, com a busca de um padrão sustentável, o que demanda recursos, volta-se contra os interesses do país e de seus habitantes com inexplicável orgulho.

De boas intenções, diz-nos o ditado, o inferno está abarrotado. E, a despeito delas, cabe-nos observar o mundo em que vivemos antes de nos iludirmos com o ecoimperialismo. Afinal, é sabido e notório (a própria ABIN já o verificou) o financiamento estrangeiro a organizações célebres por sua campanha sistemática contra o desenvolvimento nacional. Vemos até jovens abnegados e sensíveis às causas solidárias iludirem-se e somarem-se a um verdadeiro roteiro de autoflagelação pátria, que serve ao extremamente subsidiado agronegócio europeu e estadunidense, mas não ao Brasil, nem à agricultura familiar ou à nossa soberania alimentar.

O complexo de vira-latas, que no passado recente assumiu ares de verdade econômica, com a teoria do PIB potencial, segundo a qual o Brasil “não suportaria” crescer acima de 3% ao ano, o que geraria inflação, agora se traveste de um “humanismo” anti-humano. Esposa uma suposta causa universal, que não teria fronteiras de classe, e com essa ilusão, soma-se a organizações financiadas por fontes do imperialismo interessadas em impedir o desenvolvimento do Brasil.

Nós, filhos do colonialismo e da escravidão, maiores preservadores e os que menos poluímos, somos convidados a sentarmo-nos cabisbaixos no banco dos réus da mídia oligopolista, e a nos conformar com um século XXI às escuras, literalmente. Sobre a Europa? Nada. E sobre os EUA? Nada. Mas sobre o Brasil, haja pancada.

É preciso, todavia, diferenciá-los dos lutadores consequentes do meio ambiente, dos lutadores sem-terra e da agricultura familiar, dos amazônidas afetados, dos brasileiros que defendemos a Amazônia. Essa diferença foi clara na Assembleia Mundial dos Movimentos Sociais, recentemente havida em Porto Alegre nos marcos do FST. Não é à toa que sua ênfase foi na denúncia do capitalismo e em defesa da Justiça climática. Mas há uma legítima desconfiança acerca do desenvolvimento, em face das deformações inerentes ao autoritarismo da Ditadura, e de episódios de modernização que dizimaram e expulsaram populações indígenas, além de malograr em grande medida. O “crescer o bolo para depois dividi-lo” ainda assusta.

Por isso mesmo é preciso refletir e agir segundo o presente e o futuro, no marco da atual realidade política, marcada pela tríplice conjunção de crescimento econômico, democracia, e novas forças sociais no governo central, uma realidade ainda marcada pela transição, pela busca de um novo Projeto Nacional de Desenvolvimento. Há um sentido progressista nas bandeiras do desenvolvimento dos países do Sul, da retomada do planejamento estatal em detrimento do fundamentalismo de mercado e em favor da superação da miséria e das desigualdades regionais. E ainda mais diante da crise capitalista e da contradição principal que o país enfrenta, com o capital financeiro e parasitário. Sem essas balizas, o debate perde o rumo.


O buraco é mais em cima: a hipertrofia do capital financeiro
Não é o desenvolvimento, mas a subserviência ao capital financeiro nesse tempo de crise do neoliberalismo que cobra alto preço à nossa soberania e ao meio ambiente. O capitalismo se choca com os interesses da Humanidade e a ameaça. E esse dreno a nós imposto atrasa o país e impede-nos de erigir, à imagem e semelhança das virtudes nacionais, o Brasil que queremos.

Quem paga 47% do Orçamento da União aos especuladores draculescos não pode ter dinheiro para investir num Projeto Nacional de Desenvolvimento com Valorização do Trabalho e Sustentabilidade. A sangria, aos borbotões, só não mata o paciente porque o BNDES, a Petrobrás, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica, o Bolsa Família e a Política de Valorização do Salário Mínimo nos salvam das garras da crise e do roteiro de miséria e desalento dos anos FHC. E cada uma dessas alavancas do crescimento vive verdadeiro bombardeio que busca desprestigiá-las. Não é à toa.

Há um intento de colocar o desenvolvimento como antagônico à sustentabilidade, o que deve ser rechaçado. Dissemina-se a ilusão perniciosa de que seremos salvos pela pequena propriedade, ignorando a inexorável força do avanço científico e tecnológico, do próprio capitalismo, e do imperialismo. Vejam a conveniência... Com um mundo caracterizado por empresas maiores que muitos países, o Brasil logrou erigir ferramentas da magnitude das empresas citadas que cumprem e cumprirão papel decisivo na luta por nosso futuro.

Nesse contexto, longe de demonizar as empresas públicas modernas e de porte, no campo ou na cidade, devemos entendê-las como parte do nosso projeto nacional e da integração latino-americana. Isso não significa negar o papel da pequena e da microempresa, tampouco o da pequena produção mercantil que se qualifica como agricultura familiar. Mas, para não ser demagógico, cumpre registrar que a sobrevivência e o papel de ambas carece é de investimento e apoio, e que a complementariedade econômica de distintas formas de propriedade deve ser uma meta, inclusive na primeira fase de transição do capitalismo para o socialismo.

A pobreza, o atraso tecnológico, o isolamento não são ideais progressistas, e nem é isso que os camponeses, ribeirinhos e indígenas desejam. Querem, sobretudo, serem parte do debate e das decisões sobre o futuro do país, e anseiam pela justa inclusão no projeto nacional e pela preservação do meio ambiente, é certo. Isso só é possível com recursos. Nós amamos os mais pobres e odiamos a pobreza.

Não podemos defender o atraso econômico e social como utopia. E isso não implica uma visão etnocêntrica, que negue as raízes culturais ou os modos de vida tradicionais. O que os nega é o silente extermínio da fome e de doenças, o abandono por parte do Estado, o isolamento e a exposição a formas bárbaras de exploração do meio ambiente típicas do abandono. E o Norte é muito mais que isso. Há metrópoles, há uma História, e todos são brasileiros.

Nem podemos tergiversar sobre as contradições inerentes ao conflito de classes na sociedade capitalista. A defesa da Nação e das populações deve estar no centro das lutas dos movimentos sociais que fazem suas legítimas lutas e pela primeira vez podem ter interlocução com o Estado em democracia.

É necessário de enfrentar o tema caso a caso, sem demagogia e preconceitos, e jamais à luz de fáceis e hipócritas lições de filmes da indústria do maior poluidor - como Avatar – ou de suas organizações. Esse é um assunto de brasileiros, de latino-americanos.

Sustentabilidade, só com soberania

Vivemos a crise do neoliberalismo, mas persiste o domínio do capital financeiro, acima dos interesses dos países, povos e do meio ambiente. O Estado deixa de ser mínimo e passa a ser o máximo para descer o porrete nos indignados, para saquear os trabalhadores, para promover guerras e amparar os parasitas da finança.

Ademais, é um cenário de mudança geopolítica imensa nos últimos 25 anos! É decisiva a dimensão estratégica do desenvolvimento, sem o que não poderemos resistir à ganância e agressividade das potências capitalistas, cuja crise permite antever a radicalização destes atributos. Ou seja, além de não ser correto o elogio da pobreza e do conservacionismo, é perigoso por ocultar a relevância da soberania nacional para a sustentabilidade.

Seguindo tão maus conselheiros, arriscamo-nos a menosprezar medidas urgentes e estruturais que precisam desafiar interesses poderosos. Medidas cujo impacto futuro assegurará ou comprometerá a integridade do Brasil, ameaçada em face de nossas imensas riquezas. São preocupantes os elementos que permitem antever infiltração imperialista na Amazônia, por compra de terras, por ONGs, assim como o intento de fazer esta distopia do elogio do atraso e da pobreza vicejar no próprio movimento social.

Assim, se não houver estratégia, projeto nacional, avanço tecnológico e industrial, soberania, se ficarmos ao bel prazer das forças do mercado e do saque dos especuladores, se não pensarmos o campo e a cidade, se não enfrentarmos as graves desigualdades regionais, não poderemos defender e desenvolver o Brasil, não poderemos preservar nem defender nosso meio ambiente, nem a Nação. (continua)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

2011: a barbárie capitalista na Europa - Crianças entregues à adoção na Grécia - Barcelona cria cota para papel higiênico nas escolas - Barcelona cria cota para papel higiênico nas escolas - Por Altamiro Borges



Por Altamiro Borges

A crise capitalista está produzindo cenas chocantes e inimagináveis na Europa. O Estado de Bem-Estar Social (Welfare State), fruto das lutas dos trabalhadores e também do “medo do comunismo”, segundo o historiador Eric Hobsbawm, está sendo desmontado para saciar o apetite da burguesia rentista, maior culpada pelo caos europeu. Abaixo, três cenas deprimentes dos últimos dias:

Crianças entregues à adoção na Grécia

Segundo o jornal britânico Guardian, vítimas do desemprego crescente e da queda brusca de poder aquisitivo, famílias gregas têm entregado seus filhos para a adoção. Nas ruas de Atenas e de outras cidades, cresce o número de menores abandonados nas ruas. E médicos e enfermeiras afirmam que bebês recém-nascidos têm sido abandonados nas portas de várias clínicas.

O jornal relata o caso dramático de Dimistris Gasparinatos. Atolado em dívidas, ele decidiu entregar, na véspera do Natal, quatro de seus seis filhos para adoção numa instituição de Patras, vizinha de Atenas. “Psicologicamente, estávamos todos em meio a uma bagunça. Dormíamos em colchonetes no chão, não pagávamos o aluguel por meses, tínhamos que fazer alguma coisa”, descreve.

“Tenho vergonha de dizer, mas cheguei ao ponto de não ter nem €2 (R$ 4,8) para comprar pão. Não queríamos separar a família, mas achamos que seria melhor para eles, se quatro dos nossos filhos fossem enviados para uma instituição por dois ou três anos”. Segundo o prefeito da cidade, Theoharis Massaras, “os pedidos de auxílio social dispararam” nos últimos dois anos.

Em 2010, a prefeitura deu comida para 400 famílias no Natal. “Neste ano, 1.200 pediram ajuda e elas não eram de baixa renda. Muitos tinham bons trabalhos até este ano, quando seus comércios e negócios fecharam”, relata o prefeito. O pedido de adoção, porém, foi uma novidade em Patras. Mas, segundo várias ONGs, já há centenas de casos em todo o país devastado pela crise.

Cerca de 500 famílias entregaram seus filhos para ONG SOS Children's Village, segundo o jornal grego "Kathimerini". Um bebê foi deixado num berçário com o bilhete: “Não voltarei para pegar Anna. Não tenho dinheiro. Sinto muito. Sua mãe”. Dimistris Tzoura, diretora da ONG, confirma o quadro desolador: “Infelizmente, houve um aumento enorme de famílias passando necessidade”.

Barcelona cria cota para papel higiênico nas escolas

Segundo o jornal El País, a administração catalã, na obsessão neoliberal da “austeridade fiscal” que atormenta a Espanha em crise, decidiu estabelecer uma cota para o uso de papel higiênico nas escolas públicas de Barcelona. O documento oficial e jocoso sobre as “quantidades máximas de consumo” foi encaminhado pelo consórcio que dirige o setor, fixando a metragem do papel higiênico e de secar mãos.

Restrição aos mendigos em Paris

Da jornalista Angelique Chrisafis: “As cintilantes vitrines das lojas de luxo de Paris freqüentemente contrastam com a imagem de uma pessoa trêmula mendigando moedas nas imediações, encolhida por trás de uma cartolina onde se lê ‘fome’. Com a economia em crise, os pobres e os moradores de rua de Paris estão mais presentes que nunca nas entradas de edifícios e do metrô”.

Diante deste cenário, o presidente Nicolas Sarkozy decidiu lançar uma guerra contra os mendigos. O governo promulgou uma série de decretos que proíbem que mendigos circulem nas mais populares áreas comerciais e turísticas de Paris. “Ele diz que deter e multar mendigos é crucial para impedir que visitantes estrangeiros sejam importunados por pedintes ‘delinqüentes’”.

O prefeito de Paris, Bertrand Delanoe, definiu as medidas como “um golpe barato de relações públicas”, criado para “estigmatizar parte da população”. Para ele, “combater a pobreza com repressão e multas é chocante num momento em que o Estado não cumpre a obrigação de abrigar pessoas jovens e vulneráveis”. Sarkozy tentará sua reeleição neste ano. Por isso, ele reforça a sua imagem fascistóide.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Em entrevista, Presidente da UNE, Daniel Iliescu, traça rumos para 2012




Presidente da UNE faz balanço sobre início de gestão e aponta as prioridades para 2012, quando que a entidade completa 75 anos



O ano de 2011 foi do “manifestante”, aquele indivíduo, homem ou mulher, que resolveu ocupar o espaço público para protestar, derrubar regimes, denunciar a falência do sistema econômico ou garantir mais direitos para a população. Esse manifestante, em grande número jovem, multiplicou-se aos milhões em episódios como a mobilização estudantil no Chile, em defesa da educação pública, e, no Brasil, com as grandes marchas durante o ano e a luta pelos 10% do PIB investidos no ensino do país.


Segundo o presidente da UNE, Daniel Iliescu, que tomou posse em julho deste ano, os jovens da América Latina vivem a sua melhor fase: “O movimento estudantil está mais forte e amadurecido do que nunca. E isso não vale apenas para o Brasil”, declara nesta entrevista de balanço, previsões e perspectivas para 2012.


No ano que vem a UNE completa 75 anos, três quartos de século, sendo simultaneamente o movimento social mais antigo e mais renovado do Brasil, sempre acompanhando as demandas de cada geração. Para Iliescu, a identidade do movimento atualmente tem a ver com a sua diversidade: “Temos cada vez mais grupos de estudantes atuando em movimentos de cultura, de meio ambiente, associações de bairro, ONGs ligadas a várias temáticas e isso traz para o movimento estudantil e para a UNE uma riqueza muito interessante”, afirma.


O presidente da UNE ainda comenta a relação da entidade com o governo Dilma Rousseff, o cenário de crise econômica internacional e a mobilização em torno do Plano Nacional de Educação (PNE). Confira abaixo a íntegra da conversa com o carioca que assumiu a direção da entidade de 75 anos de vida há pouco mais de seis meses.


Você assumiu a UNE em julho de 2011, no começo da segunda década do século 21. Qual é a cara do movimento estudantil nos tempos de hoje?


Com certeza, cada geração carrega sua marca, sua identidade, e eu diria que, no século 21, a grande marca da juventude brasileira é a diversidade. Temos cada vez mais grupos de estudantes atuando em movimentos de cultura, de meio ambiente, associações de bairro, ONGs ligadas a várias temáticas e isso traz para o movimento estudantil e para a UNE uma riqueza interessantíssima. Por outro lado, há algo que não se altera. Mesmo em 1968 ou em 2011, os jovens tem uma sede incontrolável por mudar a sua realidade, estão dispostos a fazer a diferença e contribuir com algo. Isso pôde ser comprovado no 52º Congresso da UNE, que aconteceu este ano e foi o mais participativo da história. Na etapa preparatória nos estados, o Congresso reuniu os votos de mais de 1,6 milhão de alunos de universidades públicas e particulares. Houve, no total, votação em 97% das universidades de todo o país. O movimento estudantil está mais forte e amadurecido do que nunca. E isso não vale apenas para o Brasil, mas para toda a América Latina, tenha-se o exemplo das manifestações dos estudantes do Chile pela educação pública do seu país, a quem levamos esse ano a nossa solidariedade, recebendo também a líder Camila Vallejo em nossas manifestações. Os jovens da América Latina estão em sua melhor fase.


O que foi mais marcante para a UNE em 2011?

Foi um ano movimentado, que já começou com a 7ª Bienal, no Rio, durante o mês de janeiro, reunindo milhares de estudantes do Brasil e do exterior em um festival de cultura que teve como tema o samba. Pouco antes disso, a UNE realizou, também no Rio, um dos seus maiores CONEBs [Conselho Nacional de Entidades de Base], com cerca de 5 mil representantes de DAs e CAs de todo o Brasil. Em maio, foi a vez do 59º CONEG [Conselho Nacional de Entidades Gerais] na cidade de São Paulo. Saímos do 52º Congresso da UNE, em Goiânia, engatilhados em uma mobilização enorme pelos 10% do PIB e 50% do fundo social do Pré-Sal para a educação, que se tornou uma jornada de lutas nacional, o “Agosto Verde e Amarelo”. Essa luta se intensificou no final do ano com o #OcupeBrasília, criamos coragem e acampamos de vez na porta do Congresso Nacional, em um movimento de pressão que rendeu a aprovação parcial pelo senado dos 50% do fundo social do Pré-Sal para a educação. Entre outros pontos, eu destacaria a realização do 4º Encontro de Mulheres da UNE, do III Encontro de Negros, Negras e Cotistas da UNE, e a nossa grande participação no Congresso da OCLAE [Organização Latino Americana e Caribenha dos Estudantes] no Uruguai. Tivemos a aprovação do Estatuto da Juventude, uma iniciativa inédita que valoriza essa que é a parcela mais estratégica da população brasileira e a realização da 2ª Conferência Nacional de Juventude. No campo da política, tivemos acontecimentos muito importantes, como a decisão do STF que reconheceu a união entre homosexuais e a aprovação da Comissão da Verdade, que pode resgatar o passado negligenciado de muitos que perderam suas vidas na ditadura miliar, entre eles estudantes.

Você assumiu também no primeiro ano de mandato da presidente Dilma Roussef. Qual a avaliação ea relação da UNE com o atual governo federal?
Mesmo sendo apenas o primeiro ano da presidenta Dilma, conseguimos tirar algumas conclusões sobre o seu governo. Achamos válida a sua postura de manter o diálogo com os movimentos sociais, escutar as suas reivindicações, como aquela que fizemos em Brasília, no dia 31 de agosto, em um protesto com 12 mil estudantes em defesa de mais verbas para a educação. Porém, não estamos satisfeitos ainda com atual disposição de prioridades do governo. O orçamento da União destina, todo ano, cerca de 3% para a educação e cerca de 50% para pagar a dívida pública e remunerar o capital financeiro. O governo se apresenta com uma tônica importante, que é eliminar a miséria, reduzir essa desigualdade social que ainda vigora no país, mas, na nossa opinião, esse processo não será possível sem maiores investimentos na escola pública, no salário dos professores, em todos os níveis da educação. Também não acabaremos com a miséria com a permanência da atual política econômica, que impede o pleno desenvolvimento do Brasil. Medidas mais ousadas precisam ser tomadas nessa área para o Brasil avançar e se desenvolver. Isso acontecerá, somente na base da pressão dos movimentos por mudanças profundas na política econômica, fiscal, cambial e monetária do Brasil. Ainda aguardamos esses avanços e vamos protestar muito por eles.


Você assumiu também no primeiro ano de mandato da presidente Dilma Roussef. Qual a avaliação ea relação da UNE com o atual governo federal?

Isso é muito curioso porque, durante alguns anos, falou-se no fim das utopias, dos sonhos, no fim da história, todas essas ideias de que a humanidade não teria novas revoluções populares, que isso era coisa dos livros, do passado. O ano de 2011 prova o contrário, demonstra que a força da coletividade é ainda a maior de todas, está muito além do poder econômico, das ditaduras, dos sistemas políticos. A história da UNE e do movimento estudantil no Brasil revela isso. Quantas “primaveras” os jovens desse país já fizeram para enfrentar a ditadura, conquistar as eleições diretas, e agora estamos fazendo mais uma primavera brasileira, para evitar o retrocesso no desenvolvimento da educação do país. Vejo com muito bons olhos as manifestações e os manifestantes de 2011. Sempre que houver povo na rua defendendo mais democracia e justiça social, haverá ali a completa solidariedade e o apoio da União Nacional dos Estudantes.


A principal campanha do ME este ano foi a defesa dos 10% do PIB para a Educação no Brasil, garantidos pelo PNE-2011-2020. Qual o saldo dessa luta e as expectativas para o ano que vem?

Foi importante o movimento estudantil e também o movimento social no geral, professores, entidades ligadas à educação e outros terem unificado essa pauta, cientes do que é melhor para o Brasil. Lamentamos que a aprovação do Plano tenha ficado para o ano de 2012 e sentimos que precisamos fazer muito mais pressão junto aos parlamentares, ao governo, à imprensa para que essa pauta tenha mais visibilidade. Garantir 10% do PIB para a educação é uma das medidas mais importantes para desenvolver o Brasil, esse não é um tema setorial, investir na educação é investir na economia, no setor produtivo, na ciência e tecnologia, na democracia, no combate à corrupção, no desenvolvimento sustentável, em tudo. Não iremos recuar nesse sentido, essa campanha deve se fortalecer no ano que vem, até a aprovação do PNE.


Como a UNE avalia a atual conjuntura de crise no mundo e a situação do Brasil?

Uma reflexão importante que essa crise nos traz se refere aos sinais de falência de um modelo econômico baseado nas riquezas de poucos e na exclusão de milhares. Antes, os chamados países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos sofriam fortemente as consequências desse modelo, agora sabemos que trata-se de um problema estrutural, que pode atingir em cheio os países centrais, como se observa na violenta crise que se assombra para a zona do Euro. É papel do movimento social, além de apontar a insuficiência desse sistema financeiro, lutar contra a redução de direitos da população. No Brasil, temos uma situação um pouco mais estável, mas ficamos preocupados com a insistência pela manutenção de uma política econômica de juros altos, conservadora em relação a investimentos sociais estratégicos e menos atenta às necessidades humanas. Nesse sentido, o movimento social brasileiro se mobilizou bastante esse ano, com protestos em todas as reuniões do COPOM [Comitê de Política Monetária], pedindo a redução dos juros e outras medidas mais progressistas. A UNE permanecerá nessa luta em 2012.


Quais devem ser as prioridades do Movimento estudantil em 2012?
Primeiramente, vale dizer que 2012 é o ano em que a UNE completa 75 anos. Vamos comemorar esses três quartos de século fazendo o que sabemos melhor, nas ruas, ocupando espaços, protestando pela educação pública do país, mobilizados nas universidades e também nas redes sociais. Começaremos as obras da nova sede e do novo centro cultural da UNE na Praia do Flamengo, 132 e planejamos, também, uma Caravana da UNE como marco de comemoração dos 75 anos. A Caravana refletirá sobre o Brasil daqui a 10 anos, ao completar 200 de independência. Na pauta das nossas lutas estarão o desenvolvimento do Brasil, a ampliação da assistência estudantil, o aumento de vagas na universidade, principalmente nas públicas, mas também em importantes iniciativas como o Prouni, que já está mudando a cara do ensino privado. Na verdade, permaneceremos na luta por uma verdadeira reforma do ensino privado, que precisa ser devidamente regulamentado de forma a garantir a qualidade da educação e não tratá-la como mercadoria. Como já disse anteriormente, continuaremos muito firme nas nossas principais lutas a favor da educação: 10% do PIB e 50% do Fundo Social do Pré-Sal para essa área. Outro ponto de grande interesse do movimento estudantil em 2012 será, sem sombra de dúvida, a questão da meia-entrada em espetáculos culturais e esportivos. Seguiremos na luta intransigente para garantir o direito à meia-entrada estudantil, que, no nosso ponto de vista, é fundamental para garantir a formação plena dos nossos jovens, vale lembrar que a UNE não abrirá mão da regulamentação federal da meia-entrada, valendo, inclusive, para os jogos da Copa do Mundo de 2014. Será uma honra participar da UNE em um ano histórico como esse, por ocasião dos seus 75 anos, e certamente essa gestão irá fazer valer esse momento.


Artênius Daniel e Rafael Minoro

Em entrevista, Ilda Figueiredo do Partido Comunista Português fala das mudanças na UE - Portal Vermelho

Em entrevista, Ilda Figueiredo do PCP fala das mudanças na UE - Portal Vermelho

Durante dois mandatos e meio a deputada pelo PCP (Portugal), Ilda Figueiredo, foi uma das vozes mais ativas no parlamento Europeu, mérito que lhe é reconhecido mesmo pelos adversários políticos, mantendo sempre uma estreita ligação à realidade do País, que percorreu incessantemente de ponta a ponta, multiplicando contatos, visitas e encontros. Em seu terceiro mandato, a deputada sai e será substituída pela jovem Inês Zuber. Em entrevista, explica que se trata de uma decisão natural.

Ela também faz um balanço das alterações ocorridas na União Europeia e da sua determinação de continuar a lutar em outras frentes pela causa justa dos comunistas.

Avante!: Quais são os motivos da tua saída do Parlamento Europeu depois de 12 anos?Ilda Figueiredo - Foram na realidade 12 anos e meio, já que estamos no meio de um mandato (os mandatos no Parlamento Europeu são de cinco anos) e fui três vezes cabeça de lista da CDU ao PE. A isto soma-se, entre outras atividades, cerca de 12 anos na Assembleia da República, cinco anos como vereadora na Câmara Municipal do Porto, não falando da Câmara Municipal de Gaia, onde fui eleita à Assembleia Municipal durante 11 anos, acumulando com outros cargos. Ou seja, desempenho cargos políticos eleitos há cerca de 30 anos. Mas, no que toca ao Parlamento Europeu, trata-se sobretudo de dar a possibilidade a outra pessoa de desempenhar o cargo, porque temos de pensar no futuro e é fundamental passar o testemunho aos jovens, que estão disponíveis para aceitar estas tarefas e que têm condições para o fazer, como é o caso de Inês Zuber.

Avante!: E porquê agora?IF: Analisamos esta questão com a direcção do PCP e consideramos que esta era altura para concretizar a substituição, o que acontecerá precisamente no próximo dia 18 de Janeiro, numa semana de sessão do Parlamento, que aproveitaremos para ajudar a integrar Inês Zuber, apresentando-a nas diferentes comissões onde participo e tenho responsabilidades e no grupo da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica, em que participam os deputados do PCP no Parlamento Europeu. Mas o próprio grupo do PCP tem excelentes condições para integrar a nova deputada. É uma equipe que trabalha coletivamente, que conta com João Ferreira, que entrou neste mandato e está a desempenhá-lo muito bem, e com os camaradas do secretariado. Inês Zuber é socióloga, está terminando um doutoramento em sociologia, e a minha intervenção tem muito a ver com esta área, designadamente na Comissão de Emprego e Assuntos Sociais e na Comissão dos Direitos das Mulheres. Não só pela sua formação, mas também pelas suas características e pelas provas que já deu como quadro do Partido, certamente que Inês Zuber irá desempenhar muito bem esta tarefa.

Avante!: Que balanço fazes deste período no Parlamento Europeu, durante o qual ocorreram tantas alterações da União Europeia? Quais os momentos mais marcantes?IF: Foi de fato um período marcado por profundas alterações. A União Europeia que temos hoje é bastante diferente da que existia em 1999, quando fui para o Parlamento Europeu. É bastante diferente para pior, e creio que hoje essa é uma imagem clara para a população portuguesa mas também de outros países, nomeadamente do Centro e Leste europeu, cuja adesão constituiu numa enorme mudança na UE.

A integração europeia tornou-se cada vez mais federalista, com contornos militaristas e também cada vez mais neoliberais – um capitalismo cada vez mais agressivo. É claro que o capitalismo é sempre agressivo, dado que é um sistema explorador, mas essa sua natureza, antes atenuada por políticas sociais-democratas, manifesta-se hoje com toda a crueza. Diria que caminhamos para um capitalismo monopolista de Estado, em que alguns estados pretendem apoderar-se do que ainda resta da democracia neste espaço da União Europeia. As decisões do último Conselho Europeu (8 e 9 de Dezembro) são reflexo muito forte disso.
Dos momentos mais marcantes, creio que se destaca a luta contra a dita "constituição europeia", chumbada pelos referendos da Irlanda, da França e da Holanda. Eu própria cheguei a participar na campanha do referendo em França e naturalmente partilhei com os camaradas franceses a grande alegria que foi a vitória do Não.

Avante!: Disse que alguns estados tentam apoderar-se do que resta da democracia. A democracia está ameaçada na UE?IF: O processo que está em curso põe em questão a própria democracia, tanto em nível da UE como dos próprios estados-membros. Se as decisões do Conselho Europeu de 8 e 9 de dezembro forem algum dia concretizadas, Portugal deixa de ser soberano para elaborar o Orçamento do Estado, que é onde se decidem as orientações políticas, económicas e sociais de um país. Se o Orçamento do Estado tiver de ser submetido ao exame da Comissão Europeia, antes da sua aprovação na Assembleia da República, então Portugal fica com menos poderes do que uma associação de bairro, que, apesar de tudo, tem o direito de aprovar o seu orçamento, sem interferência de ninguém. Penso que a agudização das contradições entre as grandes potências e o agravamento geral das condições de vida dos povos tornam inevitáveis grandes mudanças na União Europeia.

Avante!: A experiência no Parlamento Europeu foi gratificante em termos pessoais?IF: Claro que foi uma experiência muito estimulante porque permitiu o conhecimento de outros países, outros povos, de outros problemas sejam referentes à União Europeia, sejam referentes a outros países, em particular a América Latina, onde acompanhei as grandes mudanças que ocorreram. Conheci pessoalmente vários dirigentes como Evo Morales, Lula da Silva, Dilma Rousseff, Fernando Lugo, José Mujica e vários outros homens e mulheres, quando lutavam na oposição contra governos quase ditatoriais, e depois tive a alegria de voltar a vê-los quando se tornaram presidentes dos seus países. Isso também é a prova de que as lutas valem a pena, nem sempre se ganha mas é possível chegar ao poder. Na América Latina as coisas estão longe de estarem todas resolvidas, mas a situação é muito diferente da que existia há 15 anos, neste caso felizmente para melhor. Neste continente, o capitalismo levou tão longe a sua exploração que os povos não aguentaram mais e começaram a lutar por toda a parte, alcançando mudanças qualitativas importantes. E temos também o exemplo de Cuba, que resistiu com grande coragem à ofensiva do capitalismo. De início estava praticamente sozinha e hoje está muito mais apoiada por uma América Latina em grande mudança. Isto é uma prova de que também vale a pena resistir, e embora as coisas continuem difíceis devido ao bloqueio norte-americano, é evidente que a solidariedade de outros países da região torna a situação em Cuba muito diferente. Tive a oportunidade de viver e acompanhar todos estes processos, o que é de fato muito gratificante e constitui uma valiosa experiência pessoal.

Avante!: Mas também houve processos de sentido contrário...IF: Sim, recordo em particular o intenso trabalho contra a guerra no Iraque, desenvolvido por uma grande delegação da qual fiz parte, integrada por deputados de vários grupos políticos. Estivemos no Iraque antes da guerra, fomos aos Estados Unidos falar com congressistas progressistas, estivemos na Organização das Nações Unidos (ONU), fizemos tudo o que foi possível para tentar evitar aquele desastre. Infelizmente não fomos ouvidos, mas a história veio demonstrar que tínhamos razão, e não foi preciso passar muito tempo para reconhecerem que a guerra não era a solução para aquele problema. Como não o é em todo o Oriente Médio, cujos povos continuam a ser vítimas da ingerência, pressão e ocupação, por exemplo, por parte de Israel, que conta com a cobertura não só dos Estados Unidos, sejamos claros, mas da própria União Europeia.

Esta política de desrespeito pelos direitos dos povos sofreu recentemente um revés com a recusa do Parlamento Europeu de prorrogar o acordo de pescas com Marrocos, que, como é sabido, abrangia ilegalmente as águas do Saara Ocidental. Isto significa que aquilo que parece uma luta isolada, com o tempo, por vezes, é possível fazer vingar as suas razões justas. Estou falando da luta do povo do Saara Ocidental, da Palestina, do Iraque, do Afeganistão, bem como de todo o Norte da África e Médio Oriente, onde as justas lutas dos povos por seus direitos estão sendo manipuladas pelas potências imperialistas, que tentam aproveitar a instabilidade política e social para assegurar a defesa dos seus interesses económicos, é disso que se trata…

Avante!: Como deputada viajou muito para diversos países, e também, talvez até mais, pelas diferentes regiões do nosso País…IF: Esse é outro aspecto importantíssimo do nosso trabalho que permite manter uma ligação muito estreita à nossa realidade. Fazemos de maneira sistemática em conjunto com as organizações regionais do PCP, mas também com organizações, instituições e associações locais, quer a seu pedido quer por nossa iniciativa. Nas visitas a empresas, nos contatos com as populações, nos encontros e debates com os sindicatos, com associações de pequenos e médios empresários e outras, procuramos ouvir os problemas com vista a lhes darmos voz no Parlamento Europeu ou junto das instituições europeias. É um trabalho que se insere na defesa intransigente da produção nacional, da agricultura, das pescas, da indústria, na defesa dos interesses de Portugal.

Avante!: É sabido que as políticas europeias tiveram efeitos muito negativos no nosso tecido produtivo. As visitas e contactos pelo País confirmam esse quadro de destruição?
IF: Eu própria vivi e acompanhei o desmantelamento de parte do nosso aparelho produtivo. Por exemplo, todo o drama da Sorefame, depois Bombardier, o desmantelamento da Siderurgia Nacional, o definhamento da indústria naval, a destruição da indústria têxtil, da indústria vidreira. Ainda há dias estive na Marinha Grande, onde me encontrei com antigos operários vidreiros, cujas fábricas encerraram. São operários altamente especializados, que dominam a técnica do vidro de sopro, e que estão desempregados.

Recordo a supressão da produção de beterraba sacarina, levando ao encerramento da fábrica de Coruche, a única que tínhamos no continente, a redução brutal dos produtores de leite, dos criadores de gado, etc. Vemos hoje terras de cultivo abandonadas no nosso país porque, a partir de certo momento, os apoios foram desligados da produção e passaram a ser atribuídos em função de um histórico, independentemente de se produzir ou não. Naturalmente que os grandes agrários deixaram as terras ao abandono e continuaram recebendo o dinheiro.
Assisti ao desmantelamento da nossa frota de pescas, incentivado com verbas comunitárias, e depois a saída de nossos pescadores para França e Espanha em busca de trabalho. Ao mesmo tempo, vemos as frotas desses países pescando na nossa zona exclusiva e o povo português a consumir pescado importado. O mesmo se passou com a indústria de conservas. É uma dor de alma ver que tudo isto aconteceu, naturalmente há grande culpa nas políticas europeias mas também dos sucessivos governos, constituídos pelas três forças políticas que, seja em Portugal, seja na União Europeia, têm aplicado e apoiado estas políticas.

Avante!: O PCP tem sido a única força que ao longo dos anos batalhou pela produção nacional?
IF: Isso é hoje reconhecido pela generalidade dos setores. Mas o PCP e os seus deputados no Parlamento Europeu defenderam os direitos dos trabalhadores. Recordo várias tentativas para alterar a diretiva sobre a organização do tempo de trabalho, até hoje sem êxito, embora no plano nacional serão dados passos no mesmo sentido. Estivemos também na grande batalha contra a diretiva Bolkestein, da qual acabaram por ser excluídos importantes serviços como a Saúde ou a Água. Apoiamos também a luta contra a liberação da atividade portuária, projeto que foi derrotado três vezes no Parlamento Europeu. É claro que todas essas vitórias só foram possíveis porque os trabalhadores se mobilizaram por toda a Europa.

Avante!: E quais são os seus planos para o futuro, continuará atuando na política…
IF: É claro que vou continuar a minha atividade no partido, mas também no plano unitário, eu tenho responsabilidades em algumas organizações, em particular no Conselho Português Para a Paz e Cooperação (CPPC), onde fui recentemente eleita presidente do conselho de direção.

Avante!: Há uma linha de continuidade das suas intervenções no Parlamento Europeu?
IF: De certo modo, sim. Também no Parlamento Europeu o PCP sempre deu muita importância à luta em defesa da paz, contra a guerra, contra o militarismo, em defesa dos direitos dos povos, do desenvolvimento e progresso social. Penso que o CPPC já hoje desempenha um papel importante e que poderá no futuro alargar a sua atividade quer em termos nacionais quer em cooperação com outras organizações congêneres no plano internacional.

Avante!: A última pergunta é sobre a publicação do teu último livro, Geografia do Olhar, que é de poesia. Como é que ainda sobra tempo para escrever poemas?IF: (Risos…) É uma faceta da minha vida que foi secundarizada face a todas as tarefas que tive de desempenhar.

Avante!: Uma vocação antiga?
IF: Sim, iniciei-me no suplemento juvenil do Diário de Lisboa, depois houve publicações esporádicas em jornais e revistas, nem sempre com o meu nome completo, e longos períodos sem publicar nada. De qualquer modo, este é de fato o meu primeiro livro de poesia, com pinturas de Agostinho Santos.

Avante!:São poemas de várias épocas?IF: Não. Foram todos escritos neste ano (2011) especialmente para este livro, embora em diferentes lugares e situações, durante as viagens à Tunísina, ao Senegal, no Fórum Social Mundial, à Islândia, em Bruxelas e Portugal, por exemplo, durante a última campanha para as legislativas em Viana do Castelo, onde fui cabeça de lista, etc.

Avante!: E porquê de repente um livro de poesia?IF: Foi uma ideia conjunta, um desafio que me foi lançado por Agostinho Santos que manifestou a vontade de pintar a partir de poemas meus. E assim foi.

Fonte: Avante!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Com 88 anos Manolis Glezos agita protestos contra o FMI na Grécia - Portal Vermelho

Com 88 anos Manolis Glezos agita protestos contra o FMI na Grécia - Portal Vermelho

Há setenta anos, Manolis Glezos ficou conhecido por seu ato de resistência ao escalar os muros da Acrópole e rasgar a bandeira nazista hasteada no monumento. Hoje, aos 88 anos, ele trava uma nova batalha. Desta vez, contra o governo, a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional sobre o que ele acredita serem ataques injustos contra a soberania econômica da Grécia.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Ato contra juros altos ocupa Paulista, em São Paulo - Portal Vermelho

Ato contra juros altos ocupa Paulista, em São Paulo - Portal Vermelho

Manifestantes da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras (CTB), Força Sindical, União Geral dos Trabalhadores (UGT), Força Sindical, Nova Central e Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB) tomaram a Avenida Paulista, em São Paulo, nesta terça-feira (29), para exigir que o Banco Central (BC) reduza os juros no país, dando continuidade ao processo de redução da taxa Selic. O ato ocorreu em frente à sede do BC e contou com a participação de movimentos sociais.


Ato contra juros altos em São Paulo
Movimentos sociais e centrais sindicais fazem ato na Paulista / crédito: CTB

Aos gritos de “1, 2, 3, 4, 5, 1000, ou abaixam os juros, ou paramos o Brasil!”, cerca de 200 estudantes e trabalhadores chamaram a atenção da população para explicar o que representa para o país a manutenção de juros exorbitantes.

Para o presidente da CTB, Wagner Gomes, somente com juros menores será possível o Brasil se tornar uma nação mais desenvolvida, com um parque industrial forte e competitivo, que seja capaz de criar mais empregos e diminuir a desigualdade social.

“Ainda temos a taxa de juros real mais alta do mundo. Apesar das recentes quedas, é preciso dizer que essa redução em conta-gotas não resolve o problema do Brasil”, afirmou Wagner Gomes, referindo-se às duas mais recentes decisões do Copom, de queda de 0,5%, nos meses de setembro e outubro.

Para o dirigente, é fundamental a mobilização de toda a classe trabalhadora pela queda dos juros no Brasil. “Chega de dar dinheiro para banqueiro. Esperamos do Copom (Comitê de Política Monetária) uma atitude patriota, em um nível necessário para que o país possa se desenvolver”, declarou.

Entre hoje e amanhã (30), o Copom do BC estará reunido em Brasília para decidir qual será a nova taxa de juros.

da redação, com informações da CTB



sábado, 19 de novembro de 2011

Discurso de João Batista Lemos vice-presidente da Federação Sindical Mundial no Congresso da CGTP, no Peru

Discurso de João Batista Lemos no Congresso da CGTP, no Peru

Elevar o protagonismo da classe trabalhadora na luta por uma alternativa ao capitalismo em crise
Companheiros e companheiras,



Presenciamos, hoje, uma das mais graves crises do sistema capitalista e da ordem imperialista mundial. Uma crise que, em seu movimento, promove notável acirramento da luta de classes em todo o globo e especialmente nos países mais afetados, cabendo destacar os EUA e integrantes da chamada Zona do Euro.

Há muito se sabe que crises econômicas como a que está em curso, em que pese suas particularidades, são inevitáveis sob o capitalismo, pois têm por causa contradições inerentes a este modo de produção, traduzidas agora em desequilíbrios e excessos gerados no interior dos EUA e demais potências capitalistas, principalmente no sistema financeiro, e no padrão de relacionamento destas com as nações consideradas em desenvolvimento.

Malgrado seja uma crise do capitalismo, a classe trabalhadora é quem paga a conta, juntamente com pequenos e médios empresários. A recessão que começou nos EUA em dezembro de 2007, antes de se transformar num problemão mundial que ainda está longe de ser debelado, já elevou a pelo menos 200 milhões o número de desempregados no mundo, de acordo com estimativas da Organização Mundial do Trabalho (OIT).

Seria necessário gerar 80 milhões de novos postos de trabalho para voltar ao patamar pré-crise, segundo a entidade. Todavia, a perspectiva é de agravamento da situação nos próximos anos. A OIT alerta para o risco de convulsão social em 45 países. A tragédia do desemprego tende a piorar, mas não é o único flagelo que castiga e ameaça os trabalhadores e trabalhadoras.

A pretexto de fazer frente à crise da dívida na Europa, governos subordinados aos interesses do capital financeiro impõe à classe trabalhadora programas de ajuste fiscal ditados pelo FMI que significam um retrocesso social provavelmente sem paralelo na história moderna e objetivam, pura e simplesmente, o desmantelamento do Estado de Bem Estar Social. Ao lado do desemprego em massa avança a precarização dos contratos, o arrocho dos salários e a redução de direitos.

O resultado lógico da crise e da ofensiva reacionária dos Estados capitalistas é o acirramento da luta de classes entre capital e trabalho. Isto transparece nos movimentos de ocupação de praças e vias públicas, iniciados em Wall Street; nas manifestações dos indignados; em marchas e atos políticos; em greves gerais e locais contra o desemprego e em defesa dos direitos e dos salários. 

A luta é particularmente intensa no continente europeu. Na Grécia, há mais de três anos em recessão e com uma taxa de desemprego superior a 16%, foram realizadas 15 greves gerais desde 2010. Portugal, Espanha (com taxa de desemprego superior a 20%), Itália, Inglaterra, França e outros países também são palco de ruidosos protestos e crises políticas. 

A ofensiva da burguesia financeira contra o chamado Estado de Bem Estar Social, que consagra conquistas históricas da classe trabalhadora, não é apenas uma resposta pontual à crise da dívida e do euro, mas uma iniciativa que visa reduzir substancialmente o custo do trabalho e elevar o grau de exploração dos trabalhadores na região para enfrentar a concorrência estrangeira, sobretudo asiática. Aqui cabe considerar outro aspecto da conjuntura, que diz respeito à convergência da crise econômica com a crise da ordem capitalista internacional fundada na hegemonia dos EUA em aliança com as potências da Europa e o Japão.

Não restam dúvidas de que a atual crise, comparada por muitos economistas à Grande Depressão que atravessou os anos 1930, é a mais global da história do capitalismo. Mas uma de suas características fundamentais é a diversidade. Ela se manifesta de maneira diferente nos países e regiões. Impulsiona, com isto, o processo de desenvolvimento desigual das nações, que já vinha se verificando anteriormente. 

Os impactos da crise são bem maiores nos Estados Unidos, na Europa e no Japão do que na China e nos Brics. Dentro da Europa, a crise é generalizada, mas a situação da Grécia, elo mais frágil da cadeia imperialista, não é a mesma da Alemanha ou da França.

A China sofreu com a contração do mercado nos Estados Unidos e na Europa, em 2008. Muitas empresas faliram e milhões de operários foram demitidos. Mas a economia reagiu aos estímulos do Estado e se recuperou. Em 2009, quando o PIB mundial caiu 0,6% (os EUA recuaram 2,6%, a zona do euro 4% e o Japão 6,3%), a China cresceu 9,2%. Em 2010, mesmo com as economias européia e norte-americana estagnadas, o país avançou 10,3%. Estima-se que, neste ano, deve crescer mais de 9%. 

O crescimento desigual não veio com a crise, apenas foi acentuado por ela. Ao longo das últimas décadas o PIB chinês progrediu em média cerca de 10% ao ano enquanto os EUA e outras potências ocidentais cresceram entre 2 e 3%. O resultado deste desenvolvimento desigual foi uma revolução silenciosa na geografia econômica mundial, com o deslocamento da produção industrial, e por extensão do poder econômico, do Ocidente para o Oriente e dos EUA para a China.

Ao lado da China, em simbiose com seu crescimento, emergiram outras economias nacionais do antigo Terceiro Mundo como a Índia, o Brasil, a Rússia e a África do Sul, que hoje integram o dinâmico BRICs, um grupo que, pelo menos até o momento, tem reagido relativamente bem à crise e cresce a taxas mais elevadas que as registradas nas velhas potências capitalistas. A mudança na geografia econômica decorrente desses acontecimentos objetivos fortalece e evidencia a necessidade de uma nova ordem mundial.

Na América Latina, a evolução do cenário político também aponta a necessidade de uma nova ordem internacional e transformações sociais mais profundas e radicais. A ascensão de forças progressistas aos governos de muitos países, a partir de 1998 com a eleição de Chávez na Venezuela, impôs ao mesmo uma derrota à direita neoliberal, partidária do Consenso de Washington, e ao império norte-americano. 

Projetos como a ALCA, através do qual os EUA pretendiam ampliar seu domínio econômico da região, foram rejeitados. Os novos líderes optaram por um caminho de integração latino-americana sem EUA e Canadá, criando a CELAC- Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, a ALBA, a UNASUL, fortalecendo o MERCOSUL e buscando caminhos alternativos e soberanos de desenvolvimento.

A dependência comercial e financeira dos países da região em relação ao mercado estadunidense e europeu diminuiu significativamente. Esta realidade transparece, entre outros, no fato de a China ser, desde 2009, a maior parceira comercial do Brasil, depois de superar os Estados Unidos, e realizar nos últimos anos vultosos investimentos externos na América Latina.

A experiência progressista dos governos da região é diferenciada. Com Cuba à frente, se desenvolvem com êxito outras experiências avançadas na Venezuela, Bolívia e Equador, cada uma com as suas particularidades. Mas há em comum o objetivo de buscar uma maior integração econômica e política das nações latino-americanas e procurar um modelo de desenvolvimento alternativo ao chamado Consenso de Washington. Trata-se de um processo de mudança que confronta objetivamente a hegemonia dos EUA e aponta na direção de uma nova ordem mundial.

Cabe registrar que, diferentemente do que ocorre na Europa, os governantes latino-americanos não estão adotando receitas recessivas ditadas pelo FMI para descarregar o ônus da crise sobre a classe trabalhadora. Os indicadores revelam uma relativa valorização do trabalho e redução das desigualdades sociais em grande número de países da região, embora persista uma escandalosa concentração da renda e a maioria dos povos ainda viva em situações precárias.

No Brasil, o governo Dilma dá continuidade às mudanças iniciadas por Lula nesta direção e enfrenta a resistência das forças conservadoras e do imperialismo. A direita neoliberal se refugia principalmente nos poderosos meios de comunicação, monopolizados por meia dúzia de famílias capitalistas, que procuram ditar a agenda política do país e não medem esforços para desmoralizar e desestabilizar o governo, tendo por bandeira o (falso) combate à corrupção.

Companheiras e companheiros,

Os fatos mostram que a reposta da classe dominante e do imperialismo à crise é a guerra, é mais neoliberalismo, mais capitalismo e uma redobrada ofensiva contra a classe trabalhadora e os direitos sociais por ela arrancados através de lutas seculares. É um caminho no rumo da barbárie. 

A nossa resposta, a resposta da classe trabalhadora e da nossa Federação Sindical Mundial, a FSM, tem sido:

1- A intensificação da luta de classes em defesa dos direitos sociais e para que os ricos paguem efetivamente pelos prejuízos da crise que criaram; a denúncia do capitalismo e da defesa do socialismo; a luta pela Paz, pelo reconhecimento do Estado da Palestina e pelo fim do bloqueio a Cuba; a rejeição do neoliberalismo e ampliação das conquistas trabalhistas. Isto também pressupõe lutar por uma nova ordem mundial, efetivamente multilateral e solidária, e por novos projetos de desenvolvimentos nacionais, fundados na valorização do trabalho e na soberania, capazes de abrir caminho à superação do capitalismo e construção de uma nova sociedade sem explorados nem exploradores. 

2- Defender os interesses da classe trabalhadora nos processos de integrações em nosso continente. Penso que devemos não só apoiar as iniciativas de integração como participar ativamente deste processo, nele intervindo com o objetivo de avançar no sentido de uma integração dos povos apoiado na complementaridade das Nações, manter e ampliar as conquistas da classe trabalhadora, resgatar o papel do Estado no processo de desenvolvimento e abrir caminho para o socialismo.

O Encontro Sindical Nossa América (ESNA) se orienta nesta direção. É uma experiência vitoriosa do sindicalismo de classe, de construção da unidade de ação, antineoliberal e antiimperialista. O ESNA, que realizou recentemente na Nicarágua a sua quarta versão, já identificou o grande desafio dos trabalhadores e suas organizações em nosso tempo: elevar o protagonismo da classe trabalhadora nas lutas políticas em curso. Alem de desenvolver um programa de formação e investigação na região está realizando duas campanhas que tem conteúdo político e de solidariedade, pela Liberdade dos CINCO patriotas cubanos e contra a instalação das Bases Militares estadunidenses em Nosso Continente.

3-A orientação da FSM que apontou, no seu 16º Congresso, a necessidade de internacionalização das lutas e convocou um dia mundial de mobilização em 3 outubro, lembrando o dia de sua fundação em 1945 em Paris, envolveu entidades sindicais de dezenas de países em defesa dos trabalhadores e dos povos. As bandeiras de outubro apontam para a unidade da classe trabalhadora em todo o mundo: Seguridade Social Pública para Todos – Negociação Coletiva e Convênios Coletivos – Liberdades Sindicais e Democráticas - Semana de trabalho de 35 horas-7horas ao dia – 5 dias na semana - Melhores Salários. E demarca com a orientação colaboracionista da CSI, que se resume à campanha pelo trabalho decente sem ao menos denunciar o caráter excludente e espoliador do capitalismo e do imperialismo, numa tática que busca acomodar a luta dos trabalhadores aos marcos dos interesses dominantes.

4-A experiência revela que o movimento sindical, apesar de suas fragilidades e contradições, tem grande papel a desempenhar, especialmente neste momento de crise. Devemos rejeitar como falsa a noção de que a forma sindical está superada e o sindicalismo não tem mais papel relevante na vida atual, devendo ceder espaço a novos atores sociais e movimentos. O que se faz necessário é renovar os sindicatos diante da nova realidade, ampliar sua representatividade por ramo de atividade e no local de trabalho, onde são mais sensíveis e diretas as contradições entre capital e trabalho. E atuar em estreita aliança com os movimentos sociais em torno dos interesses imediatos e futuros do proletariado, o que é estratégico para a formação de uma correlação de forças mais favorável aos trabalhadores e trabalhadoras na luta contra a exploração.

No Brasil consideramos fundamental atuar em unidade com outras tendências políticas do sindicalismo para potencializar a força da classe trabalhadora, cuja centralidade é indiscutível. A experiência do fórum das centrais sindicais e da coordenação dos movimentos sociais tem sido muito positiva para impulsionar o governo de Dilma no sentido das mudanças e conquistar alguns direitos importantes para o povo trabalhador.

Aprendemos a enxergar a crise e as perspectivas da civilização através de uma ótica classista, ou seja, de acordo com o ponto de vista e os interesses da classe trabalhadora. A crise está empurrando a humanidade para uma encruzilhada histórica entre a barbárie (capitalista) e o socialismo. Daí a necessidade urgente e indeclinável de elevar a consciência, a mobilização e o protagonismo da classe trabalhadora, transformando a crise em oportunidade de mudança. É este o nosso grande desafio.

Viva a Unidade da CTB e a CGTP!
Viva a Unidade dos Trabalhadores!
Viva o Socialismo! 

Muito obrigado.




João Batista Lemos

Secretario Adjunto de Relações Internacionais da CTB e vice-presidente da Federação Sindical Mundial.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A Grécia de Marat? Gilson Caroni - Portal Vermelho

A Grécia de Marat? - Portal Vermelho

Gilson Caroni *

"Que querem dizer nas nossas fronteiras esses grupos de emigrados e esses exércitos que avançam para nos apertar em um círculo de ferro? Que fazem os nossos ministros? Por que os bens dos emigrados não são confiscados? E queimadas as suas casas? E postas a prêmio suas cabeças? Nas mãos de quem estão as armas? Na dos traidores. Quem comanda as vossas tropas? Traidores, traidores, traidores por toda a parte. Cuidado! Um grande golpe se prepara, prestes a rebentar. Se não tratarem de evitá-lo com um outro, súbito e mais terrível, adeus povo e adeus liberdade."

O trecho acima foi escrito por Marat, revolucionário jacobino, há mais de dois séculos. Se vivo fosse e estivesse em Atenas, participando da reação contra a ofensiva da lógica financista, creio que o "Amigo do Povo" poderia repetir a advertência. Com algumas diferenças, tragicamente para pior. Os emigrados, em sua nova versão, já estão dentro da fortaleza, como o Marquês de Lafayette no tempo de Luis XVI. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, a chanceler alemã, Angela Merkel, e os presidentes do Conselho Europeu e da Comissão Europeia, Herman Van Rompuy e José Manuel Durão Barroso, ameaçam bloquear o sexto lance de ajuda internacional à Grécia, cerca de 8 bilhões de euros, caso o primeiro-ministro George Papandreou não desista de convocar um referendo sobre o plano de resgate financeiro ao país.

O tacão do capital, sob a máscara da social-democracia, metodicamente se esmera em mostrar quais são os limites da esfera pública e da democracia dentro do capitalismo. Nos principais jornais europeus se podem ler informações que, de tão repetidas, se instituem em verdade: a economia grega está arruinada, e pode cair no precipício se permitir que a ação política soberana se manifeste. O povo, em toda a parte, é visto como um desvio indesejável, e como tal deve ser tratado, sob pena de se caminhar rapidamente para a hecatombe social.

O mais sensato é a submissão incondicional a um ajuste fiscal que estabilize a situação. E para estabilizar é necessária uma política fiscal austera, com cortes dos salários dos funcionários públicos, demissões, corte das contribuições sociais e reforma da previdência social. Mais ainda: o importante é enfraquecer o Estado, consolidando o poder de organismos multilaterais, das instituições financeiras e a capacidade de chantagem das agências classificadoras de risco.

Sem respeito aos mais elementares Direitos Humanos, o risco da operação é mínimo. Ela compreende a venda de um país livre de qualquer passivo, na medida em que os trabalhadores, destituídos de sua própria história, devem acreditar que fizeram parte desse plano de "recuperação" e concordaram com a venda. Nunca o capitalismo, como destacou Saul Leblon, foi tão transparente. A taxa de lucro é o critério de verdade.

Os Estados burgueses, mesmo os mais liberais, não permitem o exercício de qualquer tipo de poder que ponha em risco a aceleração de processos acumulativos. Não basta lutar pela ampliação dos direitos democráticos, pela liberdade para todos os poderes políticos, pelo sufrágio universal, apesar da importância que todos estes direitos têm. Ou aprofundamos o pensamento crítico, questionando os fundamentos que alicerçam uma racionalidade econômica estruturalmente falida, ou nossas conquistas oscilarão ao sabor das cotações do mercado. O que está acontecendo na Grécia não é acidental, um ponto fora da curva. É bom retomar a crítica marxista que nos ensinou a localizar a "ilusão liberal", na sua afirmação da independência da sociedade civil – como espaço do livre jogo dos egoísmos – face à ordem política. Não há mais como ignorar a crescente redução desta às articulações do grande capital, ao jogo da dominação e das coerções inevitáveis.

Marat foi apunhalado por Charlotte Corday quando tomava banho. Os sinais que vêm da terra de Péricles são inequívocos. Os girondinos voltaram a encher a banheira.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Aversão à democracia no capitalismo europeu - Umberto Martins - Portal Vermelho

Aversão à democracia no capitalismo europeu - Portal Vermelho

A razão da queda do valor das ações foi o anúncio feito pelo primeiro-ministro grego, George Papandreou, da convocação de um plebiscito para decidir sobre o novo pacote implícito no plano aprovado pelos líderes europeus, que prevê uma redução do valor da dívida externa do país associada a novas medidas de ajuste fiscal, que significam novos sacrifícios para a classe trabalhadora.

A possibilidade da consulta popular provocou pânico nos mercados e suscitou críticas virulentas de dirigentes políticos da Alemanha, França e outros países da região. É compreensível. A oposição dos trabalhadores e trabalhadoras da nação helênica aos ajustes impostos pela chamada troika (FMI, Banco Central Europeu e União Europeia) foi demonstrada nas seis greves gerais realizadas ao longo deste ano e é igualmente confirmada por diversas pesquisas de opinião.

Laboratório de horrores
A Grécia se transformou no laboratório de horrores do capitalismo europeu, ferozmente empenhado no desmantelamento do Estado de Bem Estar Social, que bem ou mal traduz relevantes conquistas arrancadas pela classe trabalhadora num momento histórico em que a correlação de forças era mais favorável e a existência do socialismo soviético induzia a burguesia a maiores concessões no interior das potências capitalistas.

A realidade mudou, a URSS já não existe e a era dourada do pós-guerra no velho continente cedeu lugar a uma fase de notória decadência, baixo crescimento, elevação da taxa de desemprego e perda da competitividade industrial, cenário agravado pela ascensão da China, acirramento da concorrência das economias emergentes e eclosão da crise mundial.

Guerra de classes
Neste novo cenário, a burguesia europeia resolveu declarar uma verdadeira guerra de classes contra o Estado de Bem Estar Social. A Grécia é o principal laboratório da nova estratégia, mas a ofensiva contra o trabalho ocorre em maior ou menor medida em toda a zona do euro, como revelam os pacotes antissociais adotados em Portugal, Espanha, Irlanda, Itália e muitos outros países.

Sob a batuta do incorrigível FMI, o governo grego impôs o caminho do retrocesso e semeou a recessão (que sacrifica a economia pelo quarto ano consecutivo), colhendo em troca uma taxa de desemprego superior a 16%, aumento da idade da aposentadoria, corte de salários, emprego e de direitos. Mas teve de enfrentar uma reação irada e firme do povo. Acossado, inclusive por integrantes do próprio partido (que se diz socialista), Papandreou decidiu convocar o plebiscito.

Tendência à reação
Muitos críticos consideram a medida tardia, uma vez que sacrifícios inaceitáveis já foram impostos goela abaixo do povo, sem qualquer consulta. O fato é que na reação dos mercados transparece a aversão do capitalismo europeu à democracia. O cálculo é simples: não se pode pretender que medidas antipopulares, subordinadas aos interesses do capital financeiro, sejam referendadas pelas massas trabalhadoras. As instituições da democracia burguesa servem apenas de fachada para impor o projeto do capital financeiro. É quase uma certeza que o novo pacote de maldades bolado pela troika não passa pelo plebiscito.

Daí a aversão atual do capitalismo europeu à consulta popular. O desmantelamento do Estado de Bem Estar Social não combina com democracia e conduz a classe dominante a posturas cada vez mais reacionárias. O imperialismo em crise tende irresistivelmente à reação no plano político. Era o que dizia Lênin. É o que se vê hoje. A história é mestre em reviravoltas, ironias e convulsões. Lembremos que em passado não tão distante a Europa já foi palco da experiência trágica do nazi-fascismo. A paz social e a democracia dependem, mais do que nunca, da ação e da luta decidida da classe trabalhadora.

 Da Redação, Umberto Martins

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