SIGA O COLETIVIZANDO!

Mostrando postagens com marcador Ditadura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ditadura. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Brasília recebe o filme Doutor Araguaia, no Liberty, dia 8/4, 20h, GRATUITO


João Carlos Haas Sobrinho (Juca)
Médico do povo e Guerrilheiro do Araguaia

No próximo dia 08 de abril de 2025, às 20h, no Cinema Cultura do Liberty Mall, teremos a exibição GRATUITA do DOUTOR ARAGUAIA.

O documentário é um convite à reflexão sobre a luta pela democracia e os horrores da ditadura militar no Brasil.

A produção retrata a trajetória de João Carlos Haas Sobrinho, jovem médico gaúcho que, movido pelo compromisso com a justiça social, uniu-se ao PCdoB e às Forças Guerrilheiras do Araguaia. Como profissional de saúde, prestou atendimento a camponeses das regiões de Porto Franco (MA) e Xambioá (TO), tornando-se uma figura admirada pela população local. Perseguido pelo regime militar, foi assassinado pelo Exército em setembro de 1972. Até hoje, seus restos mortais nunca foram entregues à família.

Dirigido por Edson Cabral e com roteiro de Sônia Haas, irmã do protagonista, o documentário é uma realização independente da TG Economia Criativa, com gravações em diversos estados do país e depoimentos de ex-guerrilheiros, camponeses, amigos e estudiosos. 

São 90 minutos de narrativa intensa, com cinco músicas inéditas e cerca de 50 entrevistas, costurando o legado de um homem que dedicou sua vida à causa do povo.



Entrada Gratuita mediante Sympla.

https://www.sympla.com.br/evento/exibicao-do-documentario-doutor-araguaia--a-historia-de-joao-carlos-haas-sobrinho/2885538


Fundação Maurício Grabois :: João Carlos Haas Sobrinho: homenagens ao médico guerrilheiro 

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Ditadura Nunca Mais! Atos em Brasília pelos 60 anos do Golpe militar de 1964 - Inscreva-se para ir ao Senado

 

DITADURA NUNCA MAIS!

Link para se inscrever e confirmar sua presença na Sessão Especial, no Senado Federal/BSB, 02/04/24, às 10h.

https://www12.senado.leg.br/institucional/eventos/detalheeventoeventos?evento_id=sessao-especial-em-celebracao-a-democracia-brasileira 

sábado, 16 de março de 2024

SÁBADO, 16/3/24, às 14h - Trus Entrevista João Vicente Goulart: Especial 60 anos do Golpe Militar - #brasil247 #tv247




Entrevista: Especial 60 anos do Golpe Militar com João Vicente Goulart, hoje, sábado 16/3 às 14h00 na TV 247 


#brasil247 #tv247
Programado para 16 de mar. de 2024 -14h00 • #brasil247 #tv247 Andrea Trus, Ivan Seixas e João Vicente Goulart, conversam sobre o comício histórico da Central do Brasil , os movimentos políticos que antecederam ao golpe e as consequências do golpe para o país.

JOÃO VICENTE GOULART Filósofo, poeta e escritor. Autor dos livros “Entre Anjos e Demônios, poemas do exílio” e “Jango e eu: memórias de um exílio sem volta”, este foi finalista do prêmio de literatura Jabuti na categoria Biografia. Preside o Instituto João Goulart desde 2004. Reeleito Presidente do Comitê Regional do PCdoB Distrito Federal e do Comitê Central.

Veja também

100 anos de Jango - Discurso de João Goulart na Central do Brasil em defesa das Reformas de Base 






terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Argentina - Cristina Kirchner mostra provas da perseguição de Macri aos sindicatos: queriam uma Gestapo

 No meu último Artigo Frente Ampla e Unidade Popular! descrevo como o fascismo é função do capital financeiro, do rentismo parasitário, primeiro, e do autoritarismo e da violência como consequência. Na irmã República Argentina, o fato se explicita ao finalmente se dar acesso a reunião gravada do Governo Macri, em que seus esbirros dizem claramente seu esquema de perseguição aos sindicatos, e queriam possuir uma Gestapo, diz-se-o descaradamente. E Fernanda Kirchner denuncia-o no twitter, ela que foi vítima de lawfare e perseguições, tal como Lula, Evo e Rafael Correa.

Ao final, vejam o vídeo com as falas infames

No pais que se tornou refúgio de nazistas, que teve uma ditadura fascista e genocida, cujos algozes e mandantes foram presos, avultam os vínculos naturais das finanças e do fascismo, sua identidade e a necessidade de varrer esta escumalha da política. Bom para tratar de nazista era mesmo o camarada Stalin e o povo soviético que salvou a Humanidade.

 

 







sábado, 18 de dezembro de 2021

João Batista Franco Drummond, meu professor - ACQ - Antônio Carlos Queiroz

 João Batista Franco Drummond, meu professor

A última vez que estive com o Drummond foi no final de novembro daquele ano terrível, 1976, em Anápolis, Goiás, onde eu morava. Ele havia me encarregado de acompanhar, através do jornal O Popular, de Goiânia, os resultados das eleições municipais realizadas no dia 15.

Por Antônio Carlos Queiroz*

Naquela época, a apuração dos votos, manual, levava dias. Quarenta anos depois, ainda me lembro que estávamos eufóricos. Mesmo com as restrições da Lei Falcão à propaganda eleitoral, que permitia só a divulgação do nome, partido, número, currículo e foto do candidato na televisão, o MDB de Goiás havia eleito um número razoável de prefeitos, seguindo a tendência nacional de avanços significativos do voto de protesto contra a ditadura nas médias e grandes cidades do País.

Nas eleições legislativas de dois anos antes, o PCdoB havia pregado o voto nulo, sem perceber que o fim do “milagre econômico” iria solapar as bases da ditadura. Com os ventos virados, em 1974 a oposição conquistou 16 das 22 vagas em disputa para o Senado, e 161 das 364 (44%) das cadeiras da Câmara dos Deputados. Correndo o risco de perder o controle de sua abertura “lenta, gradual e segura”, o general Ernesto Geisel tomaria providências logo no início do ano seguinte, fechando o Congresso Nacional e decretando o Pacote de Abril, com a determinação de que um terço dos senadores deixariam de ser eleitos, passando a ser indicados pelo general-presidente de plantão. Estava criada a figura do “senador biônico”. Nessa conjuntura, o PCdoB fez ajustes em sua tática e, no começo daquele ano, lançou a “Mensagem aos Brasileiros”, o famoso “documento das três bandeiras”, que conclamava o povo à luta em favor da anistia ampla, geral e irrestrita, da abolição de todos os atos e leis de exceções, e da convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte Livre e Soberana. Desde então o partido passou a apoiar os candidatos do MDB mais aguerridos no combate à ditadura.

O primeiro encontro – No final de 1976, com 20 anos, eu já havia concluído o curso científico, mas em vez de ir para uma faculdade, havia me casado, e meu primeiro filho tinha acabado de nascer. Trabalhava na Fundação Educacional de Anápolis, onde calculava a folha de pagamento das professoras e merendeiras da rede pública, dava aulas de francês na escola de idiomas Yázigi, e era vendedor do jornal Movimento, um semanário de combate ao regime militar, que tinha em seu conselho editorial intelectuais de várias tendências políticas, entre os quais, o deputado Alencar Furtado, do grupo autêntico do MDB, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, e o cantor Chico Buarque. Eu também era um dos organizadores do MDB Jovem de Anápolis. O Drummond, cujo nome de guerra para nós era Osvaldo, me fora apresentado uns dois anos antes por um militante da Ação Popular, Adelite Moreira dos Santos, funcionário do Banco do Brasil e ativo sindicalista. Um dia o Adelite nos chamou, a mim e a outro amigo e colega de trabalho de Anápolis, o Tauny Mendes, e nos disse que havia sido procurado por um contato do PCdoB, encarregado de organizar o partido em nossa cidade. Perguntou se topávamos conversar com ele. Topamos. A partir daí nossos encontros se tornaram frequentes.

Algumas de nossas reuniões tinham um ar bucólico e romântico. Num determinado sábado ou domingo, a gente comprava sanduíches e refrigerantes e íamos para debaixo da ponte de algum rio nas redondezas da cidade para discutir a conjuntura nacional, ler manifestos, denúncias de torturas ou capítulos de algum livro. Ali na beira da água era como se estivéssemos fazendo um piquenique. Mais de uma vez fomos parar embaixo da ponte do rio Corumbá, entre Abadiânia e Alexânia, na BR—060, a caminho de Brasília.

Volta e meia, o Drummond nos perguntava se tínhamos alguma notícia do Araguaia. É que um comerciante amigo nosso tinha parentes e negócios em Imperatriz, no Maranhão, e sempre nos relatava os comentários que corriam entre o povo da região do Bico do Papagaio sobre a guerrilha, dizimada em 1975. A maior parte das histórias aludiam à brutalidade dos militares, à coragem do Osvaldão ou às façanhas da Dina, dois dos guerrilheiros que se tornaram mitos.

O espírito e o corpo – Quando conheci o Drummond, eu já estava escolado em política, apesar de nunca ter participado do movimento estudantil, virtualmente banido de Anápolis, ainda mais depois que a cidade fora declarada, em 1973, “área de segurança nacional”, alegadamente por causa da implantação da Base Aérea dos Mirages, mas é claro que o motivo real foi a tradicional força oposicionista da cidade. José Batista Júnior, sucessor do prefeito Henrique Santillo, do MDB, teve o seu mandato cassado.

Eu também já transitava no existencialismo de Jean-Paul Sartre, graças às conversas que tinha com uma grande amiga, a Maura Helena de Oliveira Simões, uma brilhante socióloga formada na extinta Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, meio incapacitada por causa dos surtos psicóticos que sofria. Uma vez Maura me convidou para um encontro a ser realizado no auditório da clínica de seu psiquiatra, o Dr. Neiron de Souza e Silva. Lá chegando, encontrei uma roda formada por uma dúzia de médicos aguardando a palestra de um professor francês, em francês mesmo, sem tradução simultânea. O cara era especialista na fenomenologia de Edmund Husserl. Devo ter ficado perplexo, mas, para quem andava lendo Os Caminhos da Liberdade e O Ser e o Nada do Sartre, a matéria não devia ser de todo estranha.

A essa altura, há muito havia perdido a fé, depois de receber sólida formação católica na escola primária e no ginásio, sob a direção de freiras e padres franciscanos. O engraçado é que me convenci do materialismo (sem ainda ter estudado as piruetas da dialética hegeliana nem a operação ortopédica que dela fez o Marx) não porque tivesse tomado a lição de algum manual marxista, mas graças à tese de um químico americano, que, num livro enciclopédico sobre drogas, esclarecia que uma pessoa fica atordoada quando toma uma bebida alcoólica porque as moléculas do álcool interagem com as células do cérebro, bloqueando algumas de suas conexões. Se o espírito fosse separado do corpo, argumentava o químico, o álcool não lhe faria qualquer efeito. Troquei o dualismo espírito/corpo da fé cristã pelo monismo materialista mas jamais deixei de ser fã do São Francisco, para mim ainda hoje um modelo de comunista, hippie e inspirador do naturalismo.

Oh là là! – Depois de aprender francês num curso oferecido pelo Museu Histórico que eu havia ajudado a fundar em 1972, acabei substituindo o professor e aperfeiçoei a conversação na casa de algumas famílias de técnicos franceses da Base Aérea. Daí passei a ler a revista Les Temps Modernes, que a gente comprava na livraria Ao Livro Técnico da Rua das Farmácias, em Brasília. Nessa época, eu acalentava a ideia maluca de um dia me encontrar com o diretor da revista, o Sartre, e também com o presidente Mao Zedong e com o general vietcongue Van Giap, três heróis do meu panteão, com quem eu imaginava poder conversar em francês sem o auxílio de intérpretes. A Internacional eu aprendi a cantar no original com Catherine Boissinot, uma garota de Bordeaux, integrante da juventude comunista francesa, filha de um engenheiro da Base Aérea e que passava férias em Anápolis. Oh, mon dieu! 

Conto essas intimidades para contextualizar a virada que significou na minha vida o convite para militar com o Partido Comunista do Brasil. Só com um pouquinho de exagero, tive a sensação de viver um personagem de um livro do Máximo Górki. Imaginem: com uma consciência social já bem adiantada, e sendo eu filho de uma lavadeira fã do Getúlio Vargas (até hoje!) e um padrasto que trabalhava numa fábrica de sapatos, o que mais eu podia almejar senão ser um soldado da Revolução?

Em casa a gente tinha um pôster gigante do meu padrasto de macacão, manejando uma fresadora. A foto tinha sido exposta no estande da fábrica de calçados Cosmos na Faiana, a Feira de Amostras da Indústria Anapolina, inaugurada em 72 ou 73. Depois do primeiro encontro com o Drummond, eu tratei de limpar a peça e a pendurei no ponto mais vistoso da sala de minha casa, com não disfarçado orgulho.

O pôster era fantástico, mas o meu padrasto não andava bem. Atingida pela crise, a fábrica em que ele trabalhava, de propriedade do grego Christos Papadopoulos, fechou. Meu padrasto foi obrigado a buscar emprego em Nova Hamburgo, no Rio Grande do Sul, e em Franca, São Paulo. Alcoólatra, nessas idas e vindas, ele acabou contraindo tuberculose e voltou a Anápolis para se tratar. Depois de algum tempo, ficou violento e passou a agredir a minha mãe. Um dia, num acesso de raiva, pinchou um gato numa parede. Depois da cena, chamei minha mãe, meu irmão e as duas irmãs que moravam com a gente e, sem titubear, decidimos expulsá-lo de casa. O pôster continuou pendurado na sala.

Peixe n'água – Muitos encontros com o Drummond eram feitos na minha casa, só nós dois. Minha mãe achava que ele era um professor. Meu entusiasmo comunista crescia. Uma vez me deu na cabeça escrever um artigo sobre o presidente Mao Zedong, discorrendo sobre a ideia dele de que um militante comunista deve viver entre o povo que nem um peixe n'água. Mostrei o artigo para o Drummond. Ele leu o texto rapidamente, acho que riu, mas não me lembro de seus comentários. No encontro seguinte, ele me trouxe uma biografia do presidente, séria, não hagiográfica, do historiador chinês Jérôme Ch'en, da Universidade de Leeds, Inglaterra, publicada em 1968 pela editora Mercure de France. Naquela biografia, que guardo até hoje, aprendi que Mao, ainda jovem, tinha flertado com as ideias anarquistas de Bakunin e Kropotkin antes de aderir ao marxismo. Com o Drummond eu logo aprenderia que o caminho do Brasil rumo ao socialismo jamais poderia ser igual ao da República Popular da China. Cada país faz a sua própria marcha, ensinava ele. É preciso estudar a realidade concreta do País para mudá-la. É possível que aqui tenha germinado a minha vocação de jornalista.

A memória que guardo do Drummond é a de um sujeito de mente aberta, carinhoso (certa vez presenteou meu irmão, o Sérgio, com uma gaitinha), bem informado e sintonizado nos debates intelectuais da época. Num encontro em Goiânia, provavelmente ocorrido no segundo semestre de 75, ele deu notícia do debate ainda muito acirrado em torno das teses de Ler o Capital, um livro coletivo capitaneado pelo filósofo francês Louis Althusser dez anos antes. Acho até que o Drummond fez uma piada sobre o conceito da “prática teórica”, parecida com a daquele físico teórico barrigudo zoado pela mãe por não fazer exercícios.

Em meados de 1976, o Drummond me deu de presente a peça O Rinoceronte, de Eugène Ionesco, que acabava de ser lançada na coleção Teatro Vivo da Abril Cultural. Em chave irônica, pensei com os meus botões: “Como é que um comunista sério presenteia um jovem recruta com a obra de um dramaturgo anticomunista 'insólito' como o Ionesco, que os puristas devem considerar o cúmulo da decadência da arte burguesa”? Matutando hoje, chego à conclusão de que o Drummond desafiava a caretice dos comunistas de então, apostando fichas na inteligência de um garoto que devia considerar esperto. Uma evidência disso foi o comentário que ele me fez nessa mesma época a propósito de uma entrevista do ator Juca de Oliveira, integrante do elenco da novela surrealista Saramandaia, de Dias Gomes, lançada em maio de 76 pela TV Globo. Juca fazia o papel do personagem João Gibão, cuja corcunda escondia um estupendo par de asas. “Essa novela é interessante porque educa os sentimentos artísticos do povo. Todo mundo sabe distinguir a fantasia da realidade, e diferencia as ações do ator na novela de suas ações na vida real”, ponderou o Drummond. Eu logo cogitei que ele devia estar aludindo ao efeito de distanciamento do Brecht, em oposição à catarse aristotélica, quer dizer, a identificação da plateia com o herói da peça. Dias Gomes, um comunista, era brechtiano desde os anos 60, quando trabalhou com Augusto Boal, um teórico da dramaturgia popular crítica e libertadora.

O alerta do general – Distinguir a realidade da fantasia é, por suposto, a primeira obrigação de um revolucionário. E a realidade no final de 1976 é que a ditadura estava capenga, como o próprio ditador de plantão, o general Ernesto Geisel, já havia reconhecido na virada do ano de 1974, após a derrota do partido oficial na disputa pelo Senado. Em cadeia nacional de rádio e televisão, Geisel havia dito que a Arena tinha se desgastado “com o largo período de confortável, mas emoliente posição majoritária” e que “as consequências estão agora à vista”. “Sirva isso de alerta”, concluiu. Diante desse aviso, cabia a nós acelerar a organização do partido e, com os parcos recursos disponíveis, fazer tudo o que pudéssemos para desgastar ainda mais o regime. Apoiar a ala progressista do MDB era o mínimo que podíamos fazer.

Uma das tarefas de nossa pequena célula anapolina era fazer cópias de documentos que o Drummond nos trazia. Essa atribuição cabia principalmente a mim, datilógrafo experiente, que sempre teclou com os dez dedos. Usando um papel fininho, papel-seda, quase transparente, a gente conseguia fazer cinco ou seis cópias por vez. Eu copiava artigos do jornal A Classe Operária e muitos outros materiais. Certa vez, reproduzi trechos do Livro Negro da Ditadura, publicado na clandestinidade pela Ação Popular Marxista-Leninista em 1972 para denunciar os crimes do regime militar. Assim que as cópias ficavam prontas, o Drummond as buscava em Anápolis, ou eu as levava para ele em Goiânia, menos de 60 quilômetros adiante, de ônibus. A recomendação de segurança para esse tipo de operação era a seguinte: “Nunca fique com o pacote dos documentos. Bote-o no bagageiro algumas poltronas à frente da sua, de maneira que fique à vista, para o seu controle. Se houver uma batida policial, será difícil que liguem o embrulho a você”.

Um dia, resolvemos investir em tecnologia… e compramos um mimeógrafo a álcool. Um dos trabalhos de que mais me orgulho foi ter produzido 150 cópias do “documento das três bandeiras”, provavelmente em maio ou junho de 1975. Na hora de bater o estêncil – a matriz com a tinta de reprodução -, o Adelite resolveu sofisticar: em vez de um, pediu que eu datilografasse dois estênceis, um com o texto, em cor azul, e o outro, com os títulos, em cor vermelha. O documento saiu tinindo de bonito. A primeira fase, da impressão, foi fácil. A segunda, da distribuição, é que seria complicada. Como distribuir 150 cópias de um documento do Partido Comunista em Anápolis, área de segurança nacional, cheia de milicos da Aeronáutica e de agentes da Polícia Federal? O primeiro nome da nossa lista foi o combativo deputado estadual Henrique Santillo, um neo-autêntico do MDB, que havia sido prefeito da cidade entre 1969 e 1972. Santillo era nosso amigo, dera todo o apoio da prefeitura para a fundação do Museu Histórico, e nós havíamos participado ativamente de sua campanha eleitoral em 1974, mas não confiávamos nele totalmente. Como entregar-lhe, pessoalmente, aquele documento “batata quente”, nos entregando juntos? Botamos a Mensagem aos Brasileiros num envelope e, de noite, o enfiamos debaixo da porta de entrada da casa dele. Fizemos isso com um monte de conhecidos. Para os amigos que moravam em outras cidades, e para alguns parlamentares em Brasília e Goiânia, mandamos o documento pelo correio. Um desses amigos, o Chico, mestrando de Ciências Sociais em Belo Horizonte, recebeu a Mensagem, mostrou-a a alguns colegas, e depois nos disse que, desde então, passou a ser muito mais respeitado na faculdade.

Guardar o mimeógrafo em casa era perigoso, mas o Drummond já tinha bolado uma solução. Concluídos os trabalhos de impressão, a gente embalava o aparelho, ia para a estação ferroviária, e despachava a caixa para outra cidade – Catalão, Ipameri ou Pires do Rio. Algumas semanas depois, o Drummond viajava até lá, resgatava o trambolho no depósito da estação e o redespachava. Era assim que a gente guardava o nosso cachacinha, em trânsito na estrada de ferro.

Contrafação – Se viver é muito perigoso, viver como comunista naquela época era muito mais perigoso ainda. Era preciso seguir as regras da estrita clandestinidade, sem vacilação, e é por isso que o PCdoB organizava células estanques, sem qualquer contato umas com as outras. Assumir uma outra identidade era também um recurso valioso de segurança. Por isso, mais de uma vez, surrupiei dos arquivos da Fundação Educacional algumas certidões de nascimento originais, devidamente substituídas por xerox, e as repassei ao Drummond. Depois da alteração dos dados, esses documentos serviam para que companheiros do partido pudessem obter novas carteiras de identidade ou carteiras de trabalho e, assim, sair da clandestinidade. Essa também foi uma das tarefas de que me orgulho, a despeito de sua evidente, ahn!, ilegalidade…

Comecei esse depoimento dizendo que vi o Drummond pela última vez quando estava acompanhando a apuração dos resultados das eleições municipais de 1976. Havíamos marcado um novo encontro para antes do final do ano, e tinha ficado acertado que ele teria um encontro com um amigo nosso, o professor Sílvio Costa, que depois se tornaria um dos dirigentes do partido em Goiânia. No dia 17 de dezembro, porém, fomos surpreendidos com a notícia do Massacre da Lapa. Vimos nos jornais e na revista Veja as fotos do Pedro Pomar, Ângelo Arroyo, Haroldo Lima e do Aldo Arantes, que a gente considerava um de nossos heróis, filho que é de Anápolis. Não vimos qualquer foto do Drummond. Um alívio! Também nada nos informou sobre o paradeiro de nosso companheiro a lista dos nomes dos mortos e dos presos. A gente não sabia o seu nome verdadeiro (para nós ele era o Osvaldo) e, por óbvio, não tínhamos a informação de que ele fizesse parte do Comitê Central do PCdoB. Ficamos então aguardando que ele nos procurasse ou desse notícia nos dias seguintes.



João Batista Franco Drummond


O anúncio do jornal – Passaram-se duas semanas, o ano virou e nenhum sinal dele. Passou a primeira semana de janeiro, passou a segunda, e nenhum sinal dele. As únicas notícias que tínhamos sobre o partido nos chegavam pelos boletins da Rádio Tirana, da Albânia, através do robusto Transglobe da Philco que eu havia comprado no início do ano. Pela rádio recebíamos a instrução de ficarmos quietos, de fingir que estávamos mortos, de não tentar fazer contatos com nenhum outro militante do partido. Com o passar do tempo, os boletins começaram a se repetir. O partido voltava a um estágio anterior, da mais completa clandestinidade. Foi então que, no dia 18 de janeiro, O Popular, de Goiânia, publicou um anúncio intitulado “Desaparecimento”, com uma foto do Drummond e um nome na legenda: José Edilson de Souza. O texto do anúncio dizia o seguinte: “Está desaparecido de sua residência, desde dezembro do ano passado, José Edilson de Souza. Ele tem aproximadamente 30 anos de idade, cabelo e olhos castanhos, 1,73 de altura. Trajava na ocasião calça azul US-TOP e camisa xadrez. Sua família, aflita, está solicitando a quem souber de seu paradeiro informar na 11ª Avenida, nº 677, na Vila Nova. O mesmo anúncio foi publicado no Correio Braziliense, não me lembro se no mesmo dia ou dias depois. Imediatamente, procurei o Tauny e o Adelite para discutir o significado daquele anúncio, que nos chocava mas também nos dava esperanças.

Na verdade, tudo indicava que se tratava de uma armadilha da polícia. Afinal, uma família não diz que um parente tem “aproxidamente” 30 anos. É claro que indicaria a idade do desaparecido com precisão. Mas, e se houvesse mesmo um parente agoniado? Essa dúvida e um monte de outras nos afligiram durante dias, até que eu tive uma ideia: e se eu desse um jeito de ir “casualmente” até o endereço transcrito no anúncio? E se eu fosse até lá disfarçado de vendedor? Discutimos um pouco mais, e decidimos que eu faria isso mesmo.

Comecei a me preparar, pesquisando comerciais publicados no Popular, até que achei uma oportunidade macabra, mas foi essa mesma que escolhi. Eu me disfarçaria de vendedor de um plano de saúde cujo principal produto era a cobertura das despesas do funeral do segurado. Para me habilitar tive que fazer um curso que durou uma manhã inteira numa sala localizada na Avenida Goiás, nas proximidades da Praça do Bandeirante. Ali recebi instruções de como falar com as pessoas, como negociar as prestações do plano etc. No final, recebi uma carteirinha de representante comercial, e uma pasta contendo tabelas de preços, um talão de recibos e um álbum de fotos de caixões, simples, medianos e até luxuosos. Tétrico! Tomei um lanche, respirei fundo e rumei para as imediações do endereço indicado no anúncio do Popular, na Vila Nova. Comecei a entrar de casa em casa, com jeito, tateando. Eu argumentava que a morte sempre é triste, mas inevitável. E que seria melhor que a gente se preparasse para ela com certa antecedência, sob pena de pegar a família de surpresa e desfalcar as suas economias com os custos do funeral. Na época eu era magro, usava cabelo comprido que nem hippie, e tinha um par de óculos redondos, parecidos com os do Trotsky ou do John Lennon. Parece que aquela aparência não oferecia perigo, e aquele papo de vendedor do outro mundo não deve ter ofendido ninguém.

Comércio macabro – Meia dúzia de visitas depois eu já estava craque no discurso, mas era preciso ter ainda paciência. Continuei a andar de porta em porta. Depois de bater perna por mais uma ou duas horas, alcancei a praça onde estava o meu alvo. Continuei a abordagem passo a passo, casa por casa, até chegar no número 677. Era uma residência coletiva. Na frente, uma casa maior, circundada por vários barracões. Bati na porta da casa principal e fui atendido por um casal de velhinhos. Ofereci o plano, recebi um não com os constrangimentos de praxe, e daí perguntei se não podia falar com os vizinhos. Parece que eram todos da mesma família, filhas e noras que cuidavam das crianças. Não me lembro de nenhum homem além do velhinho. Depois de conversar com todo mundo, perguntei se não havia mais alguém da família com quem eu pudesse conversar, mesmo que fosse no dia seguinte. Foi então que apareceu a informação que eu buscava: havia, sim, um outro filho do casal de velhinhos, mas ele só chegaria à noite. O indivíduo era funcionário da Secretaria de Segurança Pública, me disseram. Disfarcei o susto e me despedi, saindo dali com cautela. Respirei fundo e resolvi continuar a bater na porta de mais algumas casas da vizinhança, antes de cair fora e voltar para o escritório da empresa de seguros para devolver o material promocional como ficara combinado. Os meus esforços de vendedor naquela tarde não tiveram resultado comercial. Mas eu havia obtido uma informação de dar medo. Voltei para Anápolis e contei a escabrosa novidade para o Adelite e o Tauny. Decidimos seguir a orientação do partido de nos fingir de mortos.

Meses depois da tragédia da Lapa, continuamos no limbo, sem qualquer informação sobre o destino do Drummond. Não tínhamos contatos em São Paulo ou Belo Horizonte que pudessem nos dar notícias. Uma vez, uma conhecida comentou que “um rapaz do PCdoB que havia sido morto em São Paulo” tinha trabalhado como fotógrafo no jornal Cinco de Março, de Goiânia. Não fomos checar. Seguimos nossas vidas.

O Tauny continuou a trabalhar na Prefeitura Municipal. Exatamente no dia 31 de março de 1977, eu fui demitido pessoalmente pelo diretor da Fundação Educacional, o ex-prefeito Jonas Duarte, da Arena, depois que alguém lhe contou que eu andava “fazendo campanha política”, ao distribuir às professoras e merendeiras cartões de Feliz Aniversário e Boas Festas que o deputado Henrique Santillo costumava mandar pelos correios. “Eu sei que um dia vocês vão implantar o comunismo no Brasil, mas até lá eu estarei morto”, me disse o ex-prefeito, aos berros, antes de dizer que eu estava fora do serviço público. Seis meses depois, gastando os últimos trocados do FGTS, desisti do projeto de me mudar para Itaguaru, no interior de Goiás, para ajudar na organização do movimento sindical dos trabalhadores rurais. Rumei para Brasília, onde assumi a direção das vendas da sucursal do jornal Movimento, e onde recebi as primeiras lições de jornalismo do brilhante repórter Teodomiro Braga, chefe da redação.

Uma das minhas tarefas era datilografar os artigos do diretor da sucursal, o aguerrido ex-deputado baiano Chico Pinto, que havia sido preso em 1974 por denunciar os crimes do general Augusto Pinochet, exatamente na véspera da posse do general Geisel. Chico Pinto, que foi um dos articuladores do lançamento do Movimento, enquanto ainda estava preso no Pelotão de Investigações Criminais do Exército, em Brasília, virava a noite escrevendo seus artigos à mão, numa letra miudinha difícil de decifrar. Antes de levar as matérias, as fotos e a ilustrações do jornal para o departamento de censura da Polícia Federal, eu tinha que passar no apartamento do Chico, na SQN 402, para apanhar as folhas manuscritas e voltar para a sucursal para datilografá-las.

Vida que segue – Antes de mim, o Adelite já havia se mudado para Brasília, onde, em parceria com outra companheira de Anápolis, também professora e bancária, Elizabeth Alves Silva, ajudou a fundar o Sindicato dos Professores, na época ainda uma associação. Em 1980, os dois ajudaram a tomar o Sindicato dos Bancários da direita, quando se elegeu para a presidência da entidade o sociólogo Augusto Carvalho, então militante do Partido Comunista Brasileiro, hoje deputado federal pelo Solidariedade.

Adelite participou da reorganização do PCdoB em Brasília enquanto eu segui a carreira de jornalista. Mesmo sem voltar a militar “de carteirinha”, continuei a fazer política na chamada franja do partido. Em 79, passei a assessorar, esporadicamente, o deputado operário comunista Aurélio Peres, eleito pelo MDB em 1978, e reeleito em 1982. A gente compunha o boletim de prestação de contas do mandato, estampando na primeira página um editorial assinado pelo deputado, que se destacara nacionalmente como líder do Movimento Contra a Carestia em São Paulo. Quase sempre à esquerda da linha geral do partido, o jornalzinho não economizava críticas às políticas do presidente José Sarney, que, de “tudo pelo social”, só tinham o nome. Mais de uma vez encontrei no gabinete do Aurélio o presidente do PCdoB, João Amazonas. Ele sempre me tratava com simpatia enquanto folheava o boletim. Parece que achava graça. 

Em 1982, também participei, junto com o Adelite e a Beth, da campanha doe Aldo Arantes a uma vaga na Câmara dos Deputados, pelo PMDB de Goiás. Um dos resultados dessa campanha, em que o Aldo conquistou a primeira suplência, foi a eleição do prefeito de uma cidade do Entorno do Distrito Federal, Brasilinha, o Edenval Vaz. Durante a campanha, Adelite descobriu que estava com câncer em estágio avançado; morreu logo depois.

Por incrível que pareça, eu só tive plena certeza do assassinato do Drummond quando, ao cobrir uma manifestação dos movimentos da anistia no Salão Verde da Câmara dos Deputados, provavelmente no segundo semestre de 1978, vi um grande cartaz com a sua fotografia, entre a de outros militantes tombados na luta contra a ditadura. Só nessa ocasião a ficha caiu, e a raiva me fez mal durante dias. Em março daquele ano havia nascido o meu segundo filho, e ele foi registrado com o nome Osvaldo.

Um dos moleques que participavam conosco das atividades do MDB Jovem de Anápolis, o Egmar José, tornou-se um grande advogado e cumpriu papel importante na Comissão da Verdade. Foi justamente o Egmar que obrigou o Estado brasileiro a admitir, pela primeira vez, de papel passado, em 2014, que um militante político havia sido morto sob tortura enquanto estava sob a sua guarda, no DOI-Codi de São Paulo. O nome do militante: João Batista Franco Drummond, herói do povo brasileiro, meu professor de comunismo!

sábado, 11 de dezembro de 2021

1964: Entrevista com João Vicente Goulart - UNIVESP #DitaduraNuncaMais

João Vicente Goulart, filho de João Goulart, concede entrevista sobre o governo de seu pai e o golpe de Estado que o derrubou. Aos sete anos de idade, João Vicente foi exilado do Brasil com a família. Preside, hoje, o instituto que leva o nome do ex-presidente, que visa preservar a memória e debater a política brasileira que culminou numa ditadura militar de 21 anos. A conversa foi realizada no dia 5/4/2014 especialmente para o projeto 1964.






Hoje, João Vicente Goulart é Presidente do PCdoB DF e membro da Comissão Política Nacional do Comitê Central

terça-feira, 4 de maio de 2021

Brutal repressão de Ivan Duque à paralisação nacional mata mais de 27 pessoas na Colômbia - FSM

 


CONVOCAÇÃO URGENTE DA FSM A CADA SINDICALISTA CLASSISTA EM TODO O MUNDO

04 de maio de 2021 

 Irmãos Trabalhadores e Trabalhadoras

Trabalhadores que se reuniram com a FSM e ergueram nossas bandeiras nas recentes mobilizações do Primeiro de Maio

Trabalhadores que contam suas vítimas todos os dias devido à pandemia e à indiferença dos governos capitalistas

A FSM, em nome de seus 105 milhões de afiliados em 133 países ao redor do planeta, dirige-se a cada um de vocês, conclamando-os a expressar IMEDIATAMENTE sua solidariedade internacionalista com o povo e a classe trabalhadora da Colômbia. 

O povo colombiano está em mobilizações desde 28 de abril, contra o projeto de reforma tributária do governo antipopular de Ivan Duque. A classe trabalhadora do país graças a seus protestos obrigou o governo a retirar o projeto de lei, que estava sendo debatido no Parlamento. Ainda que uma tal manobra do governo não convença nenhum trabalhador da sua boa fé, trata-se de uma vitória que demonstra o resultado das lutas de classes.

O governo desencadeou uma repressão impiedosa, e até o momento, segundo dados oficiais, há relatos de 27 mortos, mais de 800 feridos e 431 detidos. O povo colombiano precisa de nossa solidariedade imediata. Apelamos a cada militante classista para expressar sua solidariedade internacionalista tão brevemente quanto possível, com protestos fora das embaixadas colombianas ao redor do mundo, agitando as bandeiras da FSM e sua organização sindical com o slogan: 

PAREM O MASSACRE DE TRABALHADORES COLOMBIANOS 

ATENDAM AS REIVINDICAÇÕES DA CLASSE TRABALHADORA DA COLÔMBIA 

Envie sua correspondência, fotos e ações com urgência. 

O Secretariado da FSM

segunda-feira, 12 de abril de 2021

49 anos da Guerrilha do Araguaia - Canção, poema e Diário do Comandante Maurício Grabois

Hoje é o aniversário dos 49 anos do início da confrontação armada na Guerrilha do Araguaia, atacada pelo Exército quando desenvolvia um trabalho iniciado ainda em 1967, com a fixação dos primeiros camaradas cuja permanência nas cidades era um gravíssimo risco.

Página magna da resistência armada à Ditadura, o heroísmo dos guerrilheiros e guerrilheiras não se apaga, assim como o pranto por sua partida, seu exemplo generoso e a necessidade de lhes dar ainda hoje um enterro digno, pondo fim ao seu criminoso desaparecimento.

Por quase três anos os guerrilheiros resistiram, derrotando duas das investidas do Exército que, para afogar em sangue a Guerrilha, que tinha apoio popular,  precisou mobilizar ao todo 25 mil soldados, reprimir toda a população e mudar a visão sobre a integração da Amazônia ao Brasil. Mesmo assim, a memória e o carinho persistem, gesto de amor e sacrifício que se notabiliza como a maior resistência armada popular à Ditadura no Brasil.

O Blog Coletivizando compartilha com vocês alguns tesouros para marcar essa data. São eles:
- O poema Araguaia, de Adalberto Monteiro, que eu recito;

- A canção Xambioá, de Itamar Correia, publicada no Youtube de Carlos Silva, com imagens dos mártires do Araguaia, muitos ainda hoje carentes de sepultura;

- O Diário de Maurício Grabois, Comandante do Araguaia, Líder da Bancada Constituinte de 1946, Editor de A Classe Operária, caído em combate em 25 de dezembro de 1973;

- A indicação do belíssimo Livro de Osvaldo Bertolino sobre Maurício Grabois.

Aonde estão nossos mortos e desaparecidos da Guerrilha do Araguaia?

Paulo Vinícius da Silva


 

Foto: Jayme Leão


Paulo Vinicius da Silva · Araguaia - Adalberto Monteiro - Recita Paulo Vinícius da Silva




Araguaia - Adalberto Monteiro


Houve uma época terrível,
A serpente era tão perversa
Que para enfrentá-la,
Além dos olhos gastos de leitura,
Mais do que os dedos calejados
De empunhar a pena,
A história exigiu
Que se empunhassem fuzis.
Então mãos veteranas e juvenis
Embrenharam-se na Amazônia,
A cidade irmanou-se com o campo,
E naquele universo verde
Foi aberta uma clareira,
E na escuridão da ditadura
Foi acesa uma lareira.
Por quase três anos,
O Araguaia virou uma estrela
Que emitia sinais de esperança.
Custou muito sangue
Mas seu brilho
Incutiu na alma brasileira
A certeza de que Roma
Cairia mais uma vez.
Xambioá, por Itamar Correia

Mata virgem e escura, foi lá
Que no meio do mato
Um amigo de infância
Tentou começar.
Ah! foi por lá
Onde o povo sofreu pra contar
Como um homem sozinho
Valia por trinta
Em qualquer lugar.
Êh! Marabá,
Altamira e Estreito olhem lá
Ainda grita até hoje
A vida do povo
Que morreu por lá.
Ei, meu irmão ,
Você fez renascer o sertão
E o maior contingente
Não viu o tamanho 
Do seu coração.
Pedra não pára o caminho,
Fogo não queima o luar,
Eu já não canto sozinho,
Canto em Xambioá.

O Diário de Maurício Grabois, guerrilheiro do Araguaia 



















"O diário que Maurício Grabois, comandante dos 68 combatentes da Guerrilha do Araguaia, escreveu durante 605 dias em seu esconderijo na mata, do início do conflito (12/04/72) até sua morte (25/12/73). Para além de ser o documento mais importante e profundo sobre a guerrilha até hoje revelado, o diário registra as angústias, os medos e a solidão do homem que comandou a única guerrilha rural da história do Brasil." (da Apresentação)
Baixe no Arquivo Marxista Na internet

Compre a Biografia de Maurício Grabois por Osvaldo Bertolino










sexta-feira, 2 de abril de 2021

Defenderam a Democracia e a Pátria - Paulo Vinícius da Silva


Nesse período, preservei as Forças Armadas como instituições de Estado. 

Fernando Azevedo e Silva - Nota Oficial de saída do Ministro da Defesa.


Quando falamos de "adversários", não visamos às massas que estão inscritas nas organizações fascistas, social-democratas, católicas. Nossos adversários são as organizações fascistas, social-democratas, católicas, mas as massas que aderem a elas não são nossos adversários, são massas de trabalhadores que devemos fazer todos os esforços para conquistar.

Palmiro Togliatti - Os caracteres fundamentais da ditadura fascista.


O pranto marca todas as famílias nesse Brasil cujo riso esvaneceu. Tantos amigos(as), amores, camaradas perdemos para uma morte fruto da omissão criminosa e da loucura de um presidente genocida e duplamente traidor da pátria, porque nem democrata, nem nacionalista. E não parou ainda. Está claro, enfim, nosso desespero e abandono. Mas, em meio a tanta treva, pipocam luzes que apontam o caminho da alvorada. 

No dia 30 de março, o tiro da traição saiu pela culatra e os Comandantes das Três Armas honraram o Verde-Oliva e a Constituição, encarnando em seu gesto de recusa o aprendizado histórico da lição de Ulisses Guimarães, "quem trai a Constituição é também traidor da Pátria". Como diria Vinícius: eles disseram não, e eles se fizeram fortes na sua resolução. Assim, seu gesto de renúncia se soma a uma série de outros que iluminam a mudança do ânimo  nacional, escancarando o caráter de zumbi que assume o governo Bolsonaro.  Às vésperas da triste data do Golpe de 1964, cala fundo na alma nacional tão eloquente brado constitucional das FFAA em favor da vida, da democracia e do Brasil. É certo que pode-se atribuir graves culpas no que passamos às FFAA. No entanto, também é certo que é nesta hora soturna que os democratas são postos à prova. E graças a eles, as Forças Armadas deram uma demonstração de patriotismo que se equipara aos mais nobres momentos de sua história.  Patriotismo é a defesa da Nação Brasileira, que em última instância é o seu povo, sua terra, a Amazônia e a Amazônia Azul, sua moeda, seu idioma, suas empresas, suas escolas, as universidades, o SUS, a PETROBRAS, os Bancos Públicos, mas também as Forças Armadas Brasileiras. 

Houve dias em nossa Historia em que as FFAA tiveram gestos que representaram toda a Nação. Disseram ao Imperador: "não somos captores de escravos fugidos". Em 1888, o cadete Euclides da Cunha atirou seu sabre ao chão em protesto diante do Ministro do Império, o Conselheiro Tomás Coelho, a protestar contra a Monarquia. Os Tenentes tinham entre si Luís Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança. Lott representu toda uma geração de democratas e impediu dois golpes que se desenrolavam diante da Nação, que elegera Juscelino Kubitschek e Jango. Foi dessa natureza o gesto democrático que os três Comandantes fizeram, repelindo a cumplicidade com o golpismo de Bolsonaro.

Por que isso é tão importante? Não é mais fácil xingar os militares?! Por que não adotar o discurso do rancor e da vingança?

Um dos mais importantes desafios ao nosso novo Projeto Nacional de Desenvolvimento é a construção de uma inquebrantável unidade da Pátria, e em especial a união do Povo com suas Forças Armadas. Sem nossas FFAA é impossível a libertação do Brasil do Imperialismo, seremos sempre colônia, e esta vida miserável que vivemos será um destino, gerando a fragmentação da Pátria. 

Negando-se a coonestar com o golpe à democracia tão vilipendiada, os Generais foram absolutamente ciosos de suas responsabilidades com a Nação: não fizeram politicagem, tampouco se omitiram, nem foram aventureiros. Em vez de seguir adiante, ultrapassando a fronteira, eles desarmaram a bomba e mostraram uma admirável objeção de consciência, que sói ocorrer na tropa, mas que em uníssono no Comando tem um sentido ainda mais nobre que não pode ser ignorado pelos democratas que buscam uma saída para o Brasil. Impuseram uma derrota que confirma a pá de cal no concerto das forças que deram até agora sustentação do Mensageiro da Morte, o genocida ainda Presidente.

Passo a passo, a Frente Ampla contra o Coronavírus e o Genocídio de Bolsonaro se afirma. São icônicos os episódios protagonizados por inimigos de ontem que se somam à defesa da democracia. Os Ministros do STF, mesmo Facchin; a coragem demonstrada por Cármen Lúcia em seu voto; o insuspeito e garantista filotucano Gilmar Mendes, reparem a expressão da resistência no Supremo, colegiado em que tem havido um  aceso e decisivo debate televisionado e cotidiano sobre o Brasil e seus descaminhos.

Até a Globo, bem o observou José Dirceu, retrata em suas novelas e reportagens uma visão de Brasil, e por aí vai bambeando  sobre a hipocrisia de seu discurso mutante. Mesmo ela, com sua hipocrisia, combate o genocida e abre assim vias para fazer política, inclusive com o Presidente Lula. Muito mais honesta e profissional foi a postura do jornalista  Reinaldo Azevedo, que assume ter criado o termo "petralha", e no entanto revoltou-se contra a farsa contra Lula e a Democracia, fazendo uma autocrítica pública notável num neoliberal. Ora, que dizer dos meses de libelos que moveu contra a Farsa a Jato, que dizer de seu encontro com Lula e o diálogo delicioso e indispensável que se seguiu, e em que Lula não apenas deu a Linha de que a hora é de salvar vidas, mas também fez acenos para o grupo Bandeirantes?! Só no Youtube foram mais de 375 mil expectadores do É da Coisa da Band.  Reconheça-se, contudo, a imprensa democrática em que há verdadeiros heróis que enfrentaram a perseguição e o lawfare, como Paulo Henrique Amorim, Luís Nassif e Eduardo Guimarães, que teve seu lar violado numa prisão covarde pelo diminuto Moro que o Brasil agora conhece. Mesmo os jornalistas dos grandes veículos, que sofreram na pele a violência e a violação da consciência -a mando de seus patrões - anseiam por superar o momento sinistro que vivemos.

A direita se afasta de Bolsonaro,  e o sinal mais notório foi a carta dos banqueiros que desembarcam do seu projeto disfuncional, porque Bolsonaro é fascista não apenas por ser autoritário, mas porque foi a encarnação do autoritarismo do rentismo financeiro, buscando se constituir em um movimento de massas, os três vértices da definição do fenômeno fascista, que é função do capital financeiro. A direita busca um pólo conservador não radical, mas pode ser tarde, depois de tamanha catástrofe. Palpita outra vez nos lábios e corações a possibilidade de a Frente Ampla ser nucleada pela esquerda, pondo fim ao sofrimento que o país vive. Esse pensamento tem duas palavras: "Lula Presidente". Todavia, isso só será possível com generosidade e visão de futuro, com gestos como os praticados pelo Ministro da Defesa, Azevedo e pelos Comandantes da Aeronáutica, Antônio Carlos Moretti Bermudez; do Exército, Edson Pujol e da Marinha, Ilques Barbosa, ao renunciar às vésperas da efeméride que marcou uma grande vitória do imperialismo. 

O Golpe de 1964 é uma data muito triste porque marca uma fratura que ainda impede a libertação da Nação Brasileira. Os EUA fizeram-nos acreditar que o inimigo era o provo, e não o imperialismo , vejam que miopia... O Programa Socialista do PCdoB, sabiamente, alertáva-nos sobre os perigos das "divisões no seio do povo".  

Neste sentido, em entrevista sobre a Questão Militar no Brasil 247, Aldo Rebelo analisa corretamente a sinuca de bico em que estão nossas FFAA. Bolsonaro conspira, usa o estado, corrompe, faz de tudo para  tentar cooptá-las. Por isso não devemos jogá-los para o lado de lá, muito ao contrário. O desafio do Brasil é o diálogo. Nosso dever como democratas é exatamente o mesmo do General Azevedo: preservas as Forças Armadas como Instituições de Estado e preservá-las para a sagrada tarefa da defesa de nosso território, riquezas e do direito de decidirmos nosso próprio destino.

O Golpe começou com a espionagem estadunidense na Petrobras. Sem defesa, jamais nos libertaremos. Não podemos aceitar a divisão do povo das FFAA como um fato desejável. Na URSS, na China, no Vietnã, em Cuba, na Coréia Popular, na Venezuela, foi exatamente a afirmação da unidade Povo-Nação nas FFAA que asseguraram sobrevivência e a independência. E sejamos justos: o golpe veio do mercado, dos EUA, dos oligarcas e da imprensa golpista. 

Reconstituir as alianças políticas e sociais que permitam isolar o rentismo financeiro parasitário e entreguista é a tarefa central que justifica no campo dos princípios a defesa da Frente Ampla. E é a sua justeza que a vai firmando como realidade. Por isso, devemos lutar para dar um conteúdo progressista à Frente Ampla, feito de povo e feito de líderes. É quando fala o maior líder brasileiro, o Presidente Lula, que vemos em sua plenitude o potencial da Frente Ampla. Se formos capazes de nos unirmos e superarmos a página mais triste da história do Brasil; se formos capazes de defender o país e nossa democracia das artimanhas do imperialismo estadunidense. E para essa superação, como nunca, precisamos de povo, precisamos de democracia e precisamos de nossas Forças Armadas.

domingo, 19 de julho de 2020

As Lições de Rogério Lustosa: Pedro de Oliveira


Em importante iniciativa editorial, a jornalista Olívia Rangel organizou e publicou em 2002 pela Editora Anita Garibaldi um pequeno—grande livro sob o título “ROGÉRIO LUSTOSA, Lições da Luta Operária”, que já está a merecer uma nova edição diante da dificuldade de se encontrar um exemplar até para consulta.


Publicado 22/10/2017 19:34
Tribuna Operaria povo figueiredo - Reprodução

Nesta obra estão editados 64 textos escolhidos da coluna que o dirigente revolucionário comunista Rogério Lustosa escrevia e o jornal A Tribuna da Luta Operária publicava todas as semanas e que pode-se dizer – apesar de na época não termos tido condições de fazer uma pesquisa de índice de leitura com nossos leitores – talvez tenha sido a coluna do jornal com o maior nível de interesse de quem acompanhava o hebdomadário, pela habilidade com que Rogério combinava seu conhecimento teórico do marxismo-leninismo com a análise concreta da situação concreta brasileira daquele período histórico.

Ao lado destes textos escolhidos da coluna, o livro também publicou uma interessante entrevista com o dirigente do PCdoB Renato Rabelo (hoje presidente da Fundação Mauricio Grabois) que com Rogério conviveu na nobre tarefa de dirigir a organização Ação Popular e a partir de 1972 o partido revolucionário do proletariado no Brasil. Consta também deste livro a Intervenção Especial de Lustosa ao 8º. Congresso do PCdoB, realizado em Brasília em fevereiro de 1992, quando o Partido Comunista do Brasil — pela palavra de encaminhamento do próprio Rogério durante o Congresso — aprovou a conclusão teórica mais destacada do Partido desta época “de lutar desde já pela vigência do socialismo em nossa terra”. Por fim o livro publica um artigo de Olívia para o jornal A Classe Operária, lembrando os cinco primeiros anos da morte de Rogério. Hoje contamos 25 anos de seu falecimento.


Em um destes textos para a TLO, como era chamada a Tribuna pela militância, Rogério abordou a temática da liberdade de imprensa, como sendo uma das questões fundamentais da luta do proletariado no rumo do socialismo. Nesta coluna Rogério citava Lênin, já em 1905, mostrando que “a edição de um jornal é um empreendimento capitalista grande e lucrativo, no qual os ricos dispendem milhões e milhões de rublos. A liberdade de imprensa, na sociedade burguesa, consiste na liberdade que os ricos têm de mentir, corromper, enganar com milhões de exemplares as massas exploradas do povo, os pobres, de um modo sistemático, contínuo e quotidiano”. Essa verdade revelou-se objetiva quando o jornal Tribuna Operária foi violentamente atacado pela Ditadura e por seus órgão ilegais, através de ações clandestinas da direita provocando incêndios de bancas de jornal que vendiam o jornal e outros órgãos de luta pela liberdade e provocando um incêndio criminoso no próprio jornal em sua redação central São Paulo.


Outra ação arbitrária contra a Tribuna foi promovida pela Justiça ditatorial através da famigerada Lei de Segurança Nacional. O órgão de imprensa foi processado através da LSN, e enquadrado como tendo cometido crime em duas ocasiões. Uma delas foi justamente quando esta Justiça considerou as colunas de Rogério Lustosa como atendado contra o governo dos generais. Como na época era o jornalista responsável pelo jornal fui responsabilizado pela publicação dos artigos de Rogério e convocado a depor por uma juíza da Baixada Fluminense, já que o processo foi instaurado no Rio de Janeiro. Essa juíza fazia as perguntas, eu respondia, e ela mesma ditava ao escrivão o que ela considerava que deveria ser anotado no processo. Em certa altura do interrogatório – após vários protestos consignados — o nosso advogado Luiz Eduardo Greenhalgh pediu que o interrogatório fosse acompanhado por um representante da Ordem dos Advogados do Brasil. E assim foi feito para garantir o que estava sendo declarado pelo depoente. O processo seguiu seu curso de condenação e somente foi anulado após a conquista da anistia no final dos anos 70.

Agit-Prop, Agitação e Propaganda

Logo em seguida a esses episódios, em julho de 1980 o Comitê Municipal de São Paulo do PCdoB (ainda na clandestinidade) aprovou uma resolução inspirada diretamente nos escritos de Lustosa chamada “Agitação e Propaganda, uma tarefa de todo o Partido”. Neste documento se constatava que um dos maiores temores dos inimigos da classe operária e do povo é a informação verdadeira. Tendo a posse dos meios de comunicação, de informação e de divulgação – inclusive utilizando o instrumento da censura à imprensa – a ditadura e a burguesia conseguem afastar, por certo tempo, as massas do caminho da liberdade, da independência e do progresso. Manobrando e falsificando a informação dos acontecimentos, a ditadura tenta abafar as lutas populares e dos trabalhadores, mantendo uma exploração sanguinária e persistente. Para lutar contra esse círculo de fogo o Partido definiu a Agitação e Propaganda como uma atividade prioritária e fez o chamamento a todos os militantes para levar a cabo esta grande tarefa de forma ousada e criatiA resolução a seguir conceitua o que é Agitação, como sendo a organização e execução de um plano que tem a finalidade de levar para as fábricas, empresas, escolas, e colocar “na boca do povo” as posições e palavras de ordem políticas do Partido para aquele momento político. Já o conceito de Propaganda é o lançamento de ideias com as quais se procura ganhar o apoio dos mais amplos setores do povo para determinadas posições programáticas do Partido através de debates, discussões e documentos. Num exemplo desse tipo de conceito o documento lembrava que em 1975, quando o PCdoB lançou o documento “Mensagem aos Brasileiros”, onde consagrou-se a palavra de ordem “Pela convocação de uma Assembleia Constituinte, Livre e Soberana”, a finalidade era a divulgação e discussão de seu conteúdo, com o objetivo de levá-lo ao conhecimento de amplos setores da população. Na época era uma palavra de ordem de propaganda. Com o desenvolvimento da conjuntura, entretanto, a situação exigia profundas transformações sociais e políticas e o movimento popular, as entidades democráticas e os partidos tradicionais já aceitavam a bandeira da convocação de uma constituinte. Passou-se então a encarar que essa palavra de ordem de propaganda se tornasse uma bandeira de agitação imediata.


Ao final do texto o Comitê Municipal conclamava o Partido a levantar a palavra de ordem “Por uma Constituinte, livre e soberana” e também “Por um governo Democrático, e de Unidade Popular”. Desta forma os comunistas aprendiam as Lições do camarada Rogério Lustosa, na execução de suas tarefas concretas.

terça-feira, 21 de abril de 2020

PCdoB - Basta de Bolsonaro! Mensageiro da Morte - Por uma ampla Frente de Salvação nacional!

 Unir amplas forças em defesa da vida e da democracia para salvar o Brasil
Bolsonaro é mensageiro da morte
A pandemia da Covid-19 agudiza as tensões e a instabilidade no mundo. A economia mundial, que já vinha se desacelerando, com a pandemia passa da semiestagnação a uma profunda recessão imediatamente, segundo previsões do próprio Fundo Monetário Internacional (FMI). A crise é tão grave que mesmo governos ultraliberais, embora, como sempre, despejando trilhões de dólares dos Estados nacionais no sistema financeiro, agora são forçados a socorrer, ainda que limitadamente, o povo e a economia real. Ela revela por inteiro os efeitos danosos da globalização neoliberal e financeira e a fragilidade dos países no que se refere a cuidar de suas populações. Mesmo nos chamados países desenvolvidos, as estruturas de proteção social do Estado estão debilitadas. Essa realidade ressalta a importância dos Estados nacionais, em suas múltiplas dimensões, especialmente na esfera econômica e social.
A lógica do sistema capitalista desnuda dois campos antagônicos: um defende a vida e outro, banqueiros e grandes monopólios. Os países do centro do sistema capitalista, como Estados Unidos, Itália e Espanha, mostraram vulnerabilidades: subestimaram a pandemia e a logística médico-hospitalar não suporta a demanda.
A solidariedade e cooperação internacionais têm sido escassas e frágeis. Merece destaque positivo a Organização Mundial de Saúde (OMS), que tem desempenhado de forma proativa a coordenação geral da luta contra a pandemia. Do mesmo modo, se ressaltam as ações solidárias desenvolvidas por China, Rússia e Cuba. A China socialista, primeira vítima da Covid-19, agigantou-se – apoiada na mobilização do povo, na ciência e em grandes investimentos – por sua resposta corajosa e eficaz à pandemia, está dando inestimável contribuição à humanidade.
Os Estados Unidos, a principal potência imperialista, tendo o reacionário Donald Trump como presidente, subestimaram a pandemia, que está penalizando o povo estadunidense com milhares de mortes. As medidas econômicas privilegiam o socorro às instituições financeiras. Os Estados Unidos, além de não demonstrarem solidariedade a nenhum país, atacam a OMS e confiscam arbitrariamente cargas de insumos hospitalares. E desencadeiam manobra militar contra a Venezuela e fazem campanha de fake news contra a China. Os mais atingidos pela pandemia são os trabalhadores, sobretudo os mais pobres, negros e latinos.
O Brasil é atingido fortemente pela pandemia. Os impactos dos cortes orçamentários do Sistema Único de Saúde (SUS) e a conduta irresponsável de Bolsonaro cobram um duro preço em número de mortos. No front, expostos a cargas virais extremas, os profissionais da saúde desempenham, em condições precárias, com notável dedicação, seu dever ético-profissional. No entanto, a eles, até hoje desde a criação do SUS, não foi organizada uma carreira que contemple o dever constitucional sobre os profissionais que, na prática, garantem o direito à saúde. O presidente realiza uma continuada campanha contra o isolamento social e expõe a população ao contágio ao novo coronavírus. Demitiu o ministro da Saúde, no meio da pandemia, para prosseguir com essa ação criminosa de forma ainda mais agressiva. Nomeou um novo ministro, ligado ao setor privado, que disse estar “em completo alinhamento” com seu chefe. O presidente sabota, de todas as formas, as medidas sanitárias anunciadas por governadores e prefeitos, e não libera, ou retarda, os recursos aprovados pelo Congresso Nacional. Promove o caos na condução da crise, atitude rechaçada no Brasil e criticada no exterior.
Nessa trajetória irresponsável, Bolsonaro confronta-se com o Congresso Nacional, a Justiça, os governadores, e as autoridades médicas e os cientistas brasileiros. Perde autoridade e legitimidade e se isola crescentemente. O presidente atua como mensageiro da morte em meio a uma crise sanitária sem precedentes. Revela, assim, que não tem condições de continuar no comando do país. Impõe-se dar sequência à luta política em várias dimensões para desmascarar Bolsonaro.
As medidas do governo federal, supostamente de proteção ao emprego e às empresas, estão muito aquém das necessidades e se realizam com lentidão. Além disso, ele propõe um novo corte de direitos trabalhistas com a Medida Provisória n. 905. Pretendia impor uma ajuda de apenas R$ 200 para autônomos, desempregados e subempregados. A oposição, em conjunto com amplas forças do Congresso, conseguiu elevá-la para R$ 600/1.200. Bolsonaro atrasou ao máximo o pagamento e agora tenta se apresentar como autor exclusivo da ajuda; essa conquista é do povo e das forças democráticas, que devem continuar exigindo o pagamento imediato do benefício. O governo, também, retarda o socorro às micro, pequenas e médias empresas, enquanto privilegia os bancos.
A verdade é que o governo Bolsonaro já ostentava um fracasso em decorrência da sua agenda ultraliberal e neocolonial, e as ações agora anunciadas são limitadíssimas em face da grande envergadura da crise. Isso empurra o país a uma recessão gravíssima. Bolsonaro privilegia a disputa política, apresentando-se como defensor do emprego e das empresas, e ataca os governadores, setores do Congresso, o Supremo Tribunal Federal (STF) que, segundo ele, se preocupariam apenas com a pandemia; o que é uma grande mentira. O campo democrático entende que o Estado nacional deve, a um só tempo, defender a vida e proteger os empregos e as empresas e socorrer os estados e munícipios, e não o setor financeiro. É preciso desmascarar essa falsa contraposição entre vida e economia, essa criminosa demagogia bolsonarista.
Nesse quadro, amplia-se a oposição ao governo. Diferentes correntes políticas colocam em questão a própria continuidade do mandato presidencial. Pregam a necessidade de um líder equilibrado para unir o povo e respeitar as instituições. O presidente, no entanto, ainda conta com respaldo de grandes grupos econômicos, de setores militares e de segmentos sociais mais conservadores.
Bolsonaro aposta no caos, na radicalização e no confronto. Faz a semeadura da desordem, cenário que julga propício à escalada golpista que visa à ruptura com o regime democrático. A tentativa, repelida pelas forças democráticas, de adiar as eleições municipais para 2022 se insere nesse contexto, bem como a ameaça de veto ao Projeto de Lei aprovado pela Câmara dos Deputados de ajuda aos estados e munícipios, posto que sem ajuda da União os entes federados seriam empurrados para uma situação de falência e desordem.
O Partido Comunista do Brasil (PCdoB), solidário com o povo, está totalmente engajado nesta grande luta nacional para que o país possa enfrentar e superar essa crise múltipla: sanitária, social, econômica e política. Para tanto, divulgou um Plano Nacional de Emergência no qual detalha suas propostas e aponta as fontes para seu financiamento.
O PCdoB reafirma, em primeiro lugar, seu compromisso em defesa da vida e da saúde das pessoas. Batalha pela defesa do emprego, do salário, da renda dos trabalhadores e do povo – indispensável para a defesa da vida. Empenha-se para assegurar socorro às micro, pequenas e médias empresas e em defender a economia nacional.
Para atingir esse objetivo, o Partido conta com sua atuante bancada na Câmara dos Deputados, sob a liderança da deputada Perpétua Almeida, com o governador Flávio Dino (MA) e com a ação conjunta dos governadores. Apoia-se também nos seus quadros e militantes, na mobilização do povo, na ação com as centrais sindicais, os movimentos estudantil, comunitário e sociais.
Neste contexto, o Partido mobiliza a sociedade para as medidas de prevenção, de continuidade do isolamento social; realiza firme combate às atitudes irresponsáveis e criminosas de Bolsonaro; empreende a defesa da vida, da democracia e da Constituição Federal; luta para que o Estado nacional libere os recursos necessários ao conjunto das necessidades para o país enfrentar e vencer a crise e a pandemia. E define as seguintes orientações para a atual conjuntura.
a) Persistir na articulação de uma ampla frente de salvação nacional, em defesa da vida, da democracia, do emprego e do Brasil. Uma frente capaz de impedir que Bolsonaro promova o caos e crie condições para o país livrar-se da crise e vencer a pandemia. Com esse propósito, o Partido deve intensificar o seu diálogo com amplas forças da sociedade, partidos, entidades, personalidades e lideranças. Nessa frente de salvação nacional, têm protagonismo o Congresso Nacional, os governadores, o STF, entidades e instituições da sociedade civil, como CNBB, Comissão Arns, OAB-Federal, SPBC, ABC, ABI, hoje conjugadas no Pacto pela Vida e pelo Brasil. Devem participar os partidos e parlamentares de um largo espectro político, personalidades do mundo da cultura e da ciência, as centrais sindicais, a UNE, a UBES, a Conam, a UBM, a CMB e um elenco de movimentos sociais e frentes desse setor.
b) Batalhar, tendo a vida como prioridade, por mais recursos e fortalecimento do SUS público, integral e universal – seriamente enfraquecido pela política ultraliberal de Paulo Guedes e Bolsonaro – e pelo fim da Emenda Constitucional nº 95. Reforçar o setor de Atenção Primária do SUS, em especial a Estratégia da Saúde da Família, que pode cumprir decisiva tarefa no combate à pandemia. Garantir o acesso universal à internet para as ações sanitárias e econômicas de combate à Covid-19. Estabelecer, em articulação com o setor privado, a utilização, o controle e gerenciamento pelo poder público de toda a capacidade hospitalar existente no país, especialmente leitos de internação e UTI de hospitais privados e planos de saúde, para o tratamento universal dos casos graves da Covid-19. Importar, licenciar (quebrar patentes) e reconverter setores da indústria nacional para produzirem materiais, medicamentos e equipamentos hospitalares estratégicos para salvar vidas e proteger os profissionais de saúde; para combater a pandemia, com base na ciência, é imperativo apoiar as diretrizes da OMS e da ampla maioria das autoridades da saúde do país na continuidade do isolamento social, da testagem em massa, e na adoção de medidas protetoras para o trabalho essencial, em especial os trabalhadores da saúde.
c) Lutar em defesa do emprego, dos direitos dos trabalhadores, contra a redução de salários; batalhar pela ampliação da renda da população carente; assegurar as necessidades básicas da população, isentando-a de pagamento aos serviços públicos essenciais; lutar por políticas públicas em defesa dos direitos das mulheres. Nesse momento, em especial, batalhar contra a violência doméstica, em defesa do emprego e da renda, com prioridade para as mulheres mães e chefes de família.
d) Proteger a economia nacional, em especial as micro, pequenas e médias, que geram mais da metade dos empregos com carteira assinada no setor privado, as médias empresas, com isenção e parcelamento de tributos, além de linhas de crédito subsidiadas, com garantia do Tesouro Nacional, para capital de giro, folha de pagamento e manutenção de empregos e estímulos à produção nacional de insumos para a saúde.
e) Defender a plataforma emergencial dos estudantes e da juventude, garantir auxílio-merenda aos estudantes do ensino básico e médio da rede pública; suspender as cobranças do Financiamento Estudantil (FIES) e a cobrança de mensalidades para alunos de baixa renda; manter as Bolsas dos programas de pós-graduação e de estagiários.
f) Apoiar os governadores e os prefeitos: suspender o pagamento da dívida com a União, com os bancos públicos e com organismos internacionais; autorizar empréstimos para investimentos; garantir os níveis de repasses dos fundos de participação, acrescidos de parcelas extras para enfrentar a pandemia e seus impactos sociais, além de ampliação dos gastos em saúde e compensar a queda de arrecadação de impostos.
g) Intensificar as ações em todas frentes de atuação do Partido com as bandeiras já assinaladas; criar e apoiar movimentos de solidariedade, sobretudo às parcelas pobres da população, e também aqueles em defesa dos profissionais de saúde; fortalecer a batalha de ideias, nas redes sociais e em outras atividades possíveis pela internet. Por esta via, o Partido e seus militantes podem manter e ampliar sua atividade, jogando o papel que a atualidade impõe. Participar e incentivar as iniciativas criativas que se multiplicam, como os panelaços, que ecoam pelas janelas do país o “Fora, Bolsonaro!”.
Com essas orientações, o PCdoB reitera a convicção de que com a união de amplas forças sociais e políticas o país superará a pandemia, derrotará Bolsonaro e abrirá novas e promissoras perspectivas para o nosso povo.

Basta de Bolsonaro! Mensageiro da Morte
Por uma ampla Frente de Salvação nacional!

Brasília, 18 de abril de 2020
Comitê Central do Partido Comunista do Brasil-PCdoB

sábado, 4 de abril de 2020

Basta de Bolsonaro e luta contra a pandemia unirão o Brasil - Paulo Vinícius Silva

Nos últimos dias, a partir do pronunciamento de Bolsonaro, ensaiou-se um movimento de sustentação do governo, protagonizado sobretudo por setores das Forças Armadas, que aparentemente subestimam algo já inexorável, que levará o Presidente ao caminho da rua, se tudo der certo. Afinal, nos próximos dias, Bolsonaro e o povo brasileiro verão as consequências das suas atitudes irresponsáveis e criminosas face aos riscos de proliferação do COVID19. Não será possível evitar a revolta popular diante da contagem crescente de infectados e mortos e o colapso do sistema de saúde e da economia. Será ainda mais dolorosa e dura a revolta dentre aqueles que perceberem pela pior maneira o que Bolsonaro custará de vidas ao povo brasileiro por sua inépcia, irresponsabilidade e pelo aterrador cálculo político que o impeliu a incentivar atitudes que custarão vidas, em especial dentre aqueles que o ouviram.
Perdi já meu pai e minha mãe, ambos passaram por UTI, embora tenhamos tido a graça e o apoio da CASSI para que minha mãe pudesse partir de sua casa e de nossos braços. É difícil compartilhar a rotina desesperadora de ter um ente querido doente em uma hospitalização e mesmo numa UTI. Não é disso que falo, mas de essa vivência ser compartilhada de modo muito mais duro, e, pior, que a desigualdade social brasileira e o nosso passado escravista se expressem numa equação higienista cruel contra os mais pobres.
A exponencial contaminação promete cenas terríveis, a exemplo do vivido pela população de Guayaquil, no Equador, em que centenas de cadáveres se acumularam nas ruas e nas casas, uma cena de filme de terror que infelizmente tende a se repetir mundo afora.
No nosso caso, a ideologia ultraneoliberal abandonou o país diante da violência da pandemia. O Brasil desde o Governo Temer, viu a destruição de tudo que poderia salvar inúmeras vidas nesse momento. O desmonte do SUS, do Bolsa Família, a destruição da pesquisa científica, o corte de verbas nas universidades e bolsas de pesquisa, a precarização do trabalho, a destruição do Ministério do Trabalho, a Deforma Trabalhista e os decretos genocidas de Bolsonaro simplesmente nos abandonaram a todos e todas diante da pandemia, da pobreza e,
 nesta hora, isso custará inúmeras vidas.
Essa realidade expõe as prioridades e a insensibilidade típicas do capitalismo. O apoio aos bancos é prioridade, mas a exposição das pessoas comuns é até incentivada. Ao contrário, a falta do apoio à economia real, que come, mora, paga as contas, é gritante,  numa despreocupação com as pessoas que, invariavelmente, serão vítimas da destruição da indústria, da precarização do trabalho, do desmonte da máquina pública, da privatização e do rentismo parasitário que colocaram a vida das pessoas em último lugar. E ninguém representa de modo mais caricato essa virulência que o Presidente da república, Jair Bolsonaro. Quem poderá ignorar seus crimes? Quem poderá ignorar a falência assassina do neoliberalismo?
Nesse contexto, a bandeira da Frente Ampla ganha ainda mais importância e peso, para inclusive se estender às Forças Armadas, sem as quais não será possível passar por esse terrível momento que viverá o nosso país. O papel das FFAA é muito maior que a página desse governo lamentável, venal, contra os interesses da Nação. É um erro gigantesco que se apequenem, que se confundam e aceitem chafurdar no charco desse louco, a serviço de interesses forâneos, pequenos, afora toda a loucura.
 Ao contrário, devem separar seu papel decisivo desse momento infeliz da nossa história. Não se trata de uma mera disputa política, mas de que as atitudes criminosas não serão perdoadas, quedarão na nossa História com a indelével marca da infâmia, mais uma, que não deveria tocar as nossas FFAA, tão importantes para o Brasil, para a nossa independência, para o nosso futuro.
Há preocupações muito mais importantes para as FFAA que a caquética defesa do Golpe de 1964,  legitimar erros e crimes do passado, confundir-se com torturadores e canalhas, com crimes cometidos contra a juventude e a democracia. Deveriam preocupar-se mais com preservar o Brasil, sua independência, sua soberania, o respeito mundial de que já fomos objeto. Deveriam presidir as preocupações militares o mais elevado interesse nacional, salvar vidas, preocupações que mais e mais se distanciam da defesa desse governo que ficará para a História como uma página de loucura, de vergonha e de morte.
Assim, só a Frente Ampla abrirá um outro caminho para o país. A solidariedade, a Ciência, o SUS, o papel do Estado, a Indústria, a importância dos bancos e empresas públicas, de nossas Forças Armadas, do Brasil, essas serão as armas que utilizaremos para passar por essa tragédia que viveremos. E será inevitável que cada um e cada uma de nós contabilize quantas vidas terá custado o golpe, o neoliberalismo e a eleição de Jair Bolsonaro. Diante de toda incerteza, duas coisas ficarão: a importância de respeitar a quarentena e a tendência de o Basta Bolsonaro e  a luta contra a pandemia unirem o Brasil numa Frente Ampla indispensável para a salvação nacional.

Coletivizando no Youtube