domingo, 28 de abril de 2013
Discurso de Hugo Chávez tras ganar ultima reelección - COMPLETO
E penso na paciência da Revolução Bolivariana. Penso na grandeza do exemplo do Chávez, nas coisas que lá se estão construindo em consciência avançada, e em revolução. Escutemos uma vez mais o Chávez. Vale muito a pena.
sábado, 6 de abril de 2013
Comandante Hugo Chávez - Porque temos te amado tanto - um mês de sua partida.
quinta-feira, 14 de março de 2013
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Venezuela - Alí Rodriguez Araque: “Nenhuma revolução nasce do governo” - Portal Vermelho
O Portal Vermelho reproduz a seguir a primeira parte da entrevista realizada com Alí Rodríguez Araque, Ministro de Energia Elétrica da Venezuela, realizada por Mário Antonio, enviado a Caracas pela agência argentina Crisis.
Leia abaixo a íntegra da primeira parte da revista:
Viajamos a Caracas para entrevistar Alí Rodríguez, um dos poucos ministros do governo Chávez que tem autonomia e voo próprio, ex-guerrilheiro e profundo conhecedor da questão do petróleo. Ouvimos também Erika Farías, uma das artesãs do Poder Popular. E outras vozes, que criticam com irreverência a burocracia socialista. Voltamos com a sensação de que na Venezuela estão em andamento mudanças que, na Argentina, sequer começamos a discutir.
Alí Rodríguez Araque, hoje Ministro de Energia Elétrica da República Bolivariana da Venezuela era conhecido como “Comandante Fausto”. Foi o principal especialista em explosivos da guerrilha do Partido Revolucionário da Venezuela, lá por 1966.
Depois da derrota, dedicou-se a estudar o problema do petróleo, enquanto exercia mandato de deputado da oposição. Adiante, apoiou a revolução chefiada por Hugo Chávez de 1992 e participou na campanha eleitoral de 1998. Quando Hugo Chávez chegou ao governo, Alí Rodríguez assumiu o Ministério de Energia; depois, foi secretário-geral da Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP), organismo chave no sistema político global.
Teve de deixar a OPEP para dirigir a Petróleos de Venezuela SA (PDVSA), durante os dias da guerra selvagem dos trabalhadores do petróleo em dezembro de 2002, conflito digno de filme de ação, que por um triz não mata a galinha de ovos de ouro.
Superada a crise, foi nomeado Chanceler. Agora é outra vez ministro de Energia de um país no qual há abundância de gasolina, mas os apagões de eletricidade são quase diários.
Como se tudo isso fosse pouco, assumirá em breve o posto de secretário-geral da UNASUR [1], cargo vago desde a morte de Néstor Kirchner.
A sustentação do modelo chavista supõe uma aliança entre o mais baixo e o mais alto do emirado caribenho.
O Poder Popular envolve boa parte do ativismo social disseminado por todo o território venezuelano. Enquanto isso, nas altas cúpulas dos edifícios institucionais, um punhado de quadros militantes procuram a chave para fazer funcionar o mecanismo infernal do Estado mais cheio de manhas e entraves de toda a América Latina.
Entre um nível e o outro, não há mediações orgânicas ou políticas que funcionem de modo estável e eficaz. A articulação assume a forma fluida e viscosa do dinheiro que emana do petróleo e derivados.
Ninguém melhor que Alí Rodríguez para explicar-nos como funciona essa caixa negra que bombeia recursos, mas também ideologia; o verdadeiro resseguro do processo revolucionário, mas, ao mesmo tempo, a pior de suas fraquezas.
Alí Rodríguez: “Quero deter-me num problema chave: a questão da renda. Não no sentido convencional em que se usa a palavra, como um ganho, ou como lucro, mas como exercício monopolístico, feito pelo proprietário dos recursos naturais de que se trate. Hoje parece fenômeno novo, que recoloca a natureza da renda, já não em escala nacional, mas em escala planetária.
Do meu ponto de vista, a chave está em que a Venezuela não depende do mercado interno para auferir essa renda. A renda do petróleo é renda pela qual o povo venezuelano não paga. Aqui, a gasolina é presente do Estado (não sei se você já encheu o tanque). Chega-se a ponto de, se o sujeito enche o tanque de uma van 4 X 4, gasta mais na gorjeta que deixa no posto, que na gasolina que leva no tanque.”
Crisis: Se entendi bem, o preço da gasolina nos postos é metade do que custa produzir a gasolina...
O que interessa é que a renda nós a recolhemos de fora, porque o presente interno é um custo que os produtores acrescentam no preço mundial. Por outro lado, já nem é mais a OPEP quem fixa os preços, porque opera aí um fenômeno típico do capitalismo atual: quando o capital financeiro, como ocorre nos grandes países industrializados, já não tem muito espaço no âmbito produtivo, procura, para reproduzir-se, o âmbito especulativo, nas bolsas de valores. No caso do petróleo, formou-se uma bolsa de valores à qual os especuladores vão e compram contratos futuros de petróleo. Quando há muita compra de contratos, porque se sente que possa haver um aumento de preço, ou se antecipa algum problema de abastecimento, ou as reservas caem, o preço do petróleo sobe artificialmente. E esses aumentos de preços não pesam no nosso mercado externo. Por isso digo que o conflito não acontece aqui. É um conflito internacional que a OPEP enfrenta, por um lado, e, por outro, é problema para a Agência Internacional de Energia (IEA), onde se reúnem os grandes consumidores.
Para os consumidores, o ideal é que a renda seja zero, como acontecia na Venezuela, no modelo e na prática neoliberal. Porque o capitalista vê como erro que alguém, pelo fato de ser proprietário de um recurso natural, imponha aos compradores uma contribuição que afeta os seus lucros que deveriam provir, teoricamente, só da produtividade.
Mas os países produtores de petróleo já aprendemos um pouquinho, pois sabemos quanto o capitalista investidor aceita pagar como nosso lucro justo (se é que existe) e quanto aceitam que seja a participação dos proprietários do recurso natural.
Crisis: E como reagiram as potências consumidoras?
Se você lê as memórias de Henry Kissinger, você encontra lá uma intenção muito clara na sua convocação para a reunião dos países industrializados, da qual nasceu a IEA, em 1974. Vínhamos do embargo imposto pelos árabes petroleiros, que fez disparar exponencialmente o preço do petróleo. A intenção era rachar a OPEP e traçar uma estratégia para explorar províncias petrolíferas no Mar do Norte, onde, por causa dos custos altíssimos, não valia a pena extrair. Mas quando o preço subiu, de 2 dólares para 40 dólares, então, sim, o Mar do Norte tornou-se rentável.
Pode-se dizer que os países produtores pagaram, então, pela arrogância do pecado adolescente de supor que os valores chegariam ao céu e lá permaneceriam para sempre. Não funciona assim.
Foi quando voltou o carvão, que havia sido deslocado pelo petróleo, incorporou-se à energia nuclear e a OPEP diminuiu no mercado. Dos dois terços que ocupava antes, passou a ser apenas um terço.
Depois, por o petróleo ser a maior reserva de energia do mundo, voltou a recuperar espaço. Hoje, tem 40% do mercado. E, dentre os países produtores reunidos na OPEP, os que têm as maiores reservas são a Venezuela e a Arábia Saudita. O Iraque também. Isso é fonte de tensão tremenda em todo o planeta.
Crisis: O que, concretamente, é discutido nessas instituições?
O conflito parece girar em torno de um mero matiz lexical, que consiste em não falar mais de “recursos naturais” e só falar de “recursos energéticos”; depois, já não se pode nem dizer “recursos energéticos”: só se fala diretamente de commodities, para criar a fantasia de que o petróleo seria mercadoria como qualquer outra. Mas o debate vai além disso, porque não se refere só ao petróleo, mas também aos direitos que os Estados têm sobre seus recursos naturais.
A Amazônia é um exemplo. Os grandes países insistem em que a Amazônia pertenceria à humanidade e exigem ter livre acesso. E eu pergunto: por que eles não dão livre acesso a toda a humanidade, ao conhecimento? Por que não eliminam todos os sistemas de patentes, por exemplo, para que os grandes produtos do conhecimento humano sejam bem comum de toda a humanidade?
Esses são os grandes debates que estão postos no mundo hoje. E temos de voltar a estudar os clássicos. O problema da renda foi muito bem teorizado pelos clássicos: Ricardo, Adam Smith e Carlos Marx.
Crisis: Mas os clássicos, especialmente o marxismo, pensavam que eliminar os interesses rentistas era progressista.
No tempo de Marx, o conflito acontecia porque os donos da terra cobravam a renda dos camponeses e dos burgueses; consequentemente, quem pagava por essa renda eram os operários. Por isso, se forma uma aliança entre camponeses, burgueses e operários contra o rentista, que era a base de sustentação da estrutura feudal.
Nosso caso é muito diferente, porque não extraímos renda alguma no plano interno. Só extraímos renda dos grandes consumidores, quer dizer, dos países imperiais. O que era válido no tempo de Marx, já não se aplica hoje. Estamos ante um problema de soberania de países em processo de desenvolvimento. Se se tira o petróleo da Venezuela, todos sabemos o que acontecerá.
Por isso, o desafio é desenvolver outros fatores de produção e, principalmente, aumentar a produtividade do trabalho. Isso implica melhorar as condições de vida da população, a saúde, a alimentação, para que as pessoas possam aprender e assimilar e, consequentemente, aumentar seu poder criativo.
Crisis: E quais são os obstáculos que impedem os avanços nessa direção?
O problema da Venezuela se resume em três grandes paradoxos: os ingressos superam amplamente a produtividade; por isso, temos uma capacidade de compra que supera amplamente a capacidade produtiva do país (e essa é a raiz estrutural da inflação na Venezuela).
Enquanto não corrigirmos isso, continuaremos a ter inflação, sem conseguir levá-la ao ponto ao qual queremos que vá.
E em terceiro lugar, temos ingressos que superam amplamente a capacidade gerencial do país. – Digo-lhe, desde já, que não supera apenas a capacidade gerencial do setor público, o eterno culpado de tudo. Aqui, o setor privado tampouco tem capacidade gerencial para administrar os ingressos.
Crisis: Uma dificuldade para fazer o management da abundância...
O problema é, sempre e definitivamente, o destino da renda, muito mais que a origem da renda. A renda nada é senão uma parte da mais-valia global, gerada pelo processo produtivo em escala mundial. Até há pouco tempo, os grandes capitalistas apropriavam-se do grosso dessa renda. Mas não só eles. Sobrou alguma coisa para que o Estado venezuelano passasse a investir diretamente e surgiu o capitalismo de Estado mais forte da América Latina. E ainda restava algo, a menor parte, para manter tranquilos os trabalhadores.
Na Venezuela, os aumentos salariais não foram, historicamente, motivados pelo conflito capital/trabalho. Sempre foram resultado de decretos do Executivo ou leis do Congresso.
Isso influenciou o desenvolvimento da consciência de classe dos trabalhadores, gerou uma burocracia sindical muito forte, casta sindical tremenda, que tende a reproduzir-se na defesa de seus próprios interesses.
Crisis: É verdade que a chegada de Chávez ao governo da Venezuela influiu para que a OPEP voltasse a ser organismo político capaz de impor os preços no comércio petroleiro global?
Consequência das políticas neoliberais aplicadas na Venezuela, aplicou-se aqui uma política orientada a privatizar a indústria petroleira e a aumentar indiscriminadamente a produção.
Isso nos punha em constante violação das quotas estabelecidas na OPEP. O sistema de quotas foi criado precisamente para evitar uma concorrência daninha entre os membros.
À medida que a Venezuela começou a violar as quotas, a Arábia Saudita também passou a produzir mais, o que gerou uma guerra de preços.
Coube a mim participar das negociações na nova OPEP e foi uma queda de braço muito violenta, mas chegamos a um acordo de cavalheiros (digamos assim) na reunião em Haia, em 1999, cumprimos o acordo e a OPEP recuperou a solidez interna. Depois, houve a segunda reunião de Cúpula na Venezuela, e não há dúvidas de que as políticas do presidente Chávez contribuíram para o fortalecimento da OPEP e ajudaram a conjurar o perigo de uma ruptura, que teria sido um banquete para os grandes consumidores.
Crisis: E que papel desempenha o Brasil, nesse esquema?
[continua]
Fonte: Redecastorphoto. Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Força, Chávez! Paulo Vinícius Silva
Vídeo: Hugo Chávez fala de sua saúde abertamente à multidão na Varanda do Povo, em Miraflores, quando de seu regresso de Cuba
sábado, 21 de fevereiro de 2009
6 Em rompante de nostalgia, Folha saúda o regime militar
20 DE FEVEREIRO DE 2009 - 21h5
Faz quase um ano que o jornalista Paulo Henrique Amorim desafia a Folha de S.Paulo a “tirar os cães de guarda do armário e confessar que foi ‘Cão de Guarda’ do regime militar” brasileiro. A julgar pelos fatos da semana, pode-se dizer o jornal da família Frias nunca esteve tão próximo da confissão.
Por André Cintra
A nostalgia da Folha começou a se evidenciar num editorial de 425 palavras sobre o presidente venezuelano, Hugo Chávez. O texto, publicado na última terça-feira (17), chega a comparar a Revolução Bolivariana na Venezuela e a ditadura brasileira. Diz o jornal: “Em dez anos de poder, Hugo Chávez submeteu, pouco a pouco, o Legislativo e o Judiciário aos desígnios da Presidência. Fechou o círculo de mando ao impor-se à PDVSA, a gigante estatal do petróleo”.
Em meio a essas teorizações enviesadas, o editorial não esconde a opinião da Folha e sua larga simpatia pelo regime militar brasileiro: “As chamadas ‘ditabrandas’ — caso do Brasil entre 1964 e 1985 — partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça”.
É muito curioso que a Folha destaque tais “formas controladas de disputa política” justamente em contraste com Chávez — o único presidente do mundo que chamou seu povo às urnas nada menos que 15 vezes nos últimos dez anos, em eleições, referendos e plebiscitos. Quando foi que os brasileiros puderam exercer esse direito durante os 21 anos de regime militar? A Folha seria capaz de lembrar uma única experiência do gênero?
De forma cristalina, o editorial de terça-feira alardeia que Chávez — ou melhor, “o caudilho venezuelano”, com seu “rolo compressor do bonapartismo” — tem muito a aprender com os generais-presidentes do Brasil. Aprender o quê? A cassar direitos de lideranças políticas e sociais à moda Castello Branco? A levar para a Venezuela a experiência do AI-5 — “forma controlada” de “acesso à Justiça” no Brasil de Costa e Silva e Médici? A seguir o exemplo da dupla Geisel-Figueiredo e falar em distensão do regime, em abertura “lenta, gradual e segura” — mas ainda promover mais mártires como Vladimir Herzog, novas chacinas como a da Lapa e outros atentados como os do Riocentro?
Repercussão à altura
Cartas e e-mails de repúdio à Folha choveram a cântaros após a publicação do editorial. Um dos leitores mais indignados era Sergio Pinheiro Lopes, que classificou a opinião da Folha como “lamentável, mas profundamente lamentável mesmo, especialmente para quem viveu e enterrou seus mortos naqueles anos de chumbo. É um tapa na cara da história da nação e uma vergonha para este diário”.
As ponderações essenciais do leitor não foram suficientes para dissuadir a Folha. Uma “nota da redação” do jornal enunciava: “Na comparação com outros regimes instalados na região no período, a ditadura brasileira apresentou níveis baixos de violência política e institucional”. Para a Folha, ditadura só é ditadura pra valer se estiver na ponta do ranking do totalitarismo e empilhar mortos aos milhares. Como se antevisse a resposta do jornal, Sergio fez em sua carta um questionamento inapelável: “Quantos mortos, quantos desaparecidos e quantos expatriados são necessários para uma ‘ditabranda’ ser chamada de ditadura?”.
Dois intelectuais de respeito — os professores universitários Fábio Konder Comparato (aposentado) e Maria Victoria de Mesquita Benevides, da USP — saíram em defesa das vítimas da ditadura esculhambadas pelo editorial da Folha. “Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de ‘ditabranda’? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar “importâncias” e estatísticas”, escreveu Maria Benevides. “Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi ‘doce’ se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala — que horror!”.
Já Comparato, ao sustentar que “o leitor Sergio Pinheiro Lopes tem carradas de razão”, cobrou a Folha: “O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana”.
Como a Folha está convicta das benesses da ditadura brasileira e não reconhece discordâncias, o jeito foi desqualificar seus missivistas: “Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua ‘indignação’ é obviamente cínica e mentirosa”.
A arrogância da Folha segue rendendo contestações, como a do professor Caio Toledo, que escreveu a seus colegas de Unicamp. O texto de Toledo tacha de “repulsivas e agressivas” as “posições editoriais de Folha” e se solidariza com Maria Benevides e Comparato. “O jornal, sem argumentos e razões, agride a atuação pública destes dois combativos intelectuais por meio de uma leviana ‘nota de redação’. Diante de todas estas agressões ao pensamento democrático, cartas de protesto ao jornal e o cancelamento da assinatura não seriam as respostas mais consequentes?”.
Em entrevista ao Comunique-se, o presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Maurício Azêdo, não poupou a Folha. “É lamentável que se proceda a uma revisão histórica dessa natureza. O que era negativo passa a ser positivo, dando absolvição àqueles que violaram os direitos constitucionais e cometeram crimes, como o assassinato do jornalista Vladimir Herzog nos porões do Doi-Codi”, afirma Azedo. “Dizer que houve acesso à Justiça é uma falsidade de caráter histórico que deveria causar vergonha à Folha de S. Paulo.”
Um veículo pró-regime
Não é de estranhar a defesa que a família Frias faz dos militares. Octavio Frias de Oliveira (1912-2007), o patriarca do clã, adquiriu em 1962 a Folha de S.Paulo — um jornal enforcado em dívidas, que demorou cerca de 15 anos para se tornar um investimento rentável. Uma das razões pelas quais a Folha se salvou financeiramente foi o laço íntimo com todos os generais-presidentes da ditadura.
Numa de suas raríssimas entrevistas, concedida em 2003, Frias-pai comentou sobre esses relacionamentos com o poder — e mentiu. “Eu sempre me mantive afastado do poder. Para ser independente você tem que estar um pouco distante porque senão entra numa situação moral difícil”, disse o ex-publisher da Folha. “Não tenho histórias para contar a este respeito porque sempre procurei manter uma distância entre a posição do jornal, a minha pessoal e os dirigentes do país”.
Mais adiante, na mesma entrevista, Frias se contradiz: “Na época da ditadura, acho que no governo Médici, o chefe da Casa Militar, com quem eu tinha certa relação, não me lembro o nome dele, me telefona e diz: ‘Ô Frias aqui quem fala não é o seu amigo não, é o chefe da Casa Militar Ou você muda esse jornal aí ou nós vamos fechar’. Eu mudei”.
O relato de Frias, ainda assim, não entrega tudo o que a Folha fez na conta do regime, como o odioso empréstimo de peruas C-14 do jornal ao DOI-Codi, para o transporte de presos políticos rumo ao encarceramento, à tortura e, não raro, à morte na Operação Bandeirantes (Oban). Na época, manifestantes chegaram a queimar veículos da Folha em protesto contra a morte de seus companheiros de luta.
No livro Cães de Guarda — Jornalistas e Censores do AI-5 à Constituição de 1988, Beatriz Kushnir dá mais detalhes da promiscuidade. A Folha da Tarde, especialmente, contou com uma matilha de jornalistas colaboracionistas — os “cães de guarda” — e era conhecido como “o jornal de maior tiragem” — ou seja, com mais tiras na redação.
No combate aos “subversivos”, a FT se antecipava ao regime e fazia o papel de porta-voz. Chegou a divulgar a morte do metalúrgico Joaquim Seixas, o Roque, antes mesmo de ele ser assassinado nos porões da ditadura — mas sonegou informações sobre a prisão de Frei Betto (como o fato de o frade ser repórter do jornal) e não noticiou a heróica missa ecumênica a Vladimir Herzog na Catedral da Sé.
Frias-pai não está mais vivo, mas dois de seus filhos continuam à frente da Folha de S.Paulo — Luís Frias como presidente do grupo Folha e Otavio Frias Filho, o Otavinho, como diretor de redação do jornal. Parece caber a eles, de forma progressiva, restabelecer e edulcorar as mais sombrias memórias da família Frias e da Folha. Memórias de um tempo em que a concessão da “ditabranda” era garantida aos fantoches das elites e da grande mídia — não ao Brasil, nem aos brasileiros.
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