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terça-feira, 13 de julho de 2021

Díaz-Canel: «Não estamos dispostos a entregar a obra, nem a independência, nem a soberania conquistada com a Revolução»

 

O presidente Miguel Díaz-Canel Bermúdez disse que em Cuba a intervenção humanitária não é necessária. O que Cuba e o mundo precisam é de muita solidariedade em tempos como este. Foto: Estúdios Revolución.

Acompanhado por membros da sua equipe de trabalho do Partido e do Governo, o primeiro secretário do Comitê Central do Partido e presidente da República, Miguel Díaz-Canel Bermúdez, compareceu nesta segunda-feira,12 de julho, perante a imprensa, com o propósito de esclarecer um grupo de matrizes que, nas últimas horas, foram impostas para desacreditar a forma como Cuba enfrenta a pandemia e gerar incidentes que provocam mercenários internos e, com isso, promovem o descontentamento e fraturam a unidade do povo.

Após as informações oferecidas sobre a geração de energia elétrica, primeiro tema abordado no dia, o presidente, que tem formação como engenheiro elétrico, explicou as particularidades do sistema energético nacional, muito marcado pelos efeitos gerados pelo bloqueio econômico norte-americano e o consumo excessivo.

Díaz-Canel lembrou que, quando as medidas restritivas foram aumentadas em 2019, quando foi anunciada a aplicação do Capítulo III da Lei Helms-Burton, foi explicado com transparência à população que teríamos deficiências, dificuldades. Naquela época, a política de sanções começou a boicotar a entrada de combustível em Cuba.

«Qual foi a decisão de Cuba?», indagou. «Proteger a geração de energia elétrica para a população, mesmo ao custo de reduzir os níveis da economia do país», argumentou.

«Há mais de um ano e meio», acrescentou, «estamos sem apagões, exceto os que ocorreram hoje, e é agora que há um déficit de geração por falha. Alguém nos disse: é um milagre não termos apagões; mas não, não é um milagre».

O presidente cubano reconheceu que nem sempre os combustíveis necessários estão disponíveis a tempo, ao mesmo tempo que destacou que a Ilha possui uma geração térmica que funciona com o petróleo cubano.

O primeiro secretário do Partido, olhando as estatísticas, disse que Cuba, em comparação com os registros das Américas, tem menos casos por milhão de habitantes. A Ilha tem 0,64% de letalidade. Foto: Estúdios Revolución.

«Além disso», acrescentou, «temos várias tecnologias que funcionam com diferentes tipos de combustível. Quando não temos os tipos de combustível em tempo hábil, a geração fica sobrecarregada».

«Muitas vezes os geradores estiveram funcionando quase todos os dias, acompanhando a geração térmica, o que provoca desgastes e, portanto, dispomos de menos dias para poder ter esses sistemas em vitalidade», destacou.

Segundo Díaz-Canel, esta ação de sobrecarga, a falta de peças de reposição, os financiamentos que não temos conseguido, a intensificação da política de cerco econômico mantida pelo atual governo dos Estados Unidos têm feito com que não tenhamos os recursos ou as peças de reposição para a substituição em tempo hábil.

Além disso, disse, «o momento mais complexo se aproxima, o verão se aproxima. Não tínhamos capacidade de cobertura e retirar uma usina significa perder capacidade de geração, aumento da demanda e geração de apagões».

Porém, segundo o chefe de Estado, os apagões desta época têm outra singularidade, devido à Covid-19. «Além das facilidades do sistema de Saúde, tivemos que abrir centros de internação em outras dependências, tivemos que habilitar hotéis como hospitais».

Também explicou que, com o conceito de evitar transtornos para esses pacientes com a Covid-19, tivemos que proteger mais circuitos. E isso causou mal-entendidos na população.

No entanto, frisou, pode-se ter certeza de que o governo cubano teve a vontade de causar o menor transtorno possível. Não desligamos para incomodar a população. Além disso, em meio a tudo isso estamos fazendo novos investimentos no setor, apenas que os processos de funcionamento sejam planejados, mas podem ser fraturados no tempo por algo imprevisto.

«Estamos fazendo uma reparação importante em uma das unidades da termelétrica Felton; estamos fazendo um investimento com financiamento da Federação Russa na termelétrica de Mariel; estamos fazendo um conserto em um grupo de geradores; mas a termelétrica Antonio Guiteras em Matanzas teve uma avaria. Há todo um programa de investimentos em energia, embora, infelizmente, já tenhamos passado por essa situação», disse o presidente.

Na opinião do primeiro secretário do Partido, é claro que qualquer abordagem feita pela população, qualquer reclamação, podemos valorizar. E o que aconteceu, em nenhum momento, foi para incomodar nosso querido povo.

«Hoje, embora haja perspectivas de melhoria, temos que considerar o seguinte: economizar o máximo que pudermos com responsabilidade, tanto no setor residencial quanto no setor estatal. E que com a maior eficiência nosso pessoal qualificado está apto a cumprir o sistema de manutenção», destacou.

O chefe de Estado exigiu que o governo dos Estados Unidos retirasse as 243 medidas econômicas de sufocamento e que o bloqueio fosse levantado. Essa é a única coisa que Cuba exige. Foto: Estúdios Revolución.

APELMOS AO POVO PARA DEFENDER SUA REVOLUÇÃO

Díaz-Canel desmantelou o funcionamento da máquina ideológica e violenta por trás dos motins que ocorreram em Cuba nas últimas horas. Também denunciou a matriz de opinião que está sendo imposta, de que o povo foi chamado a enfrentar o povo, quando o que aconteceu é que o povo foi chamado a defender seus direitos.

Assegurou que agora pretendem questionar os acontecimentos deste domingo, pois alegam que foi feito um apelo ao confronto entre os cubanos.

«Chamamos o povo a defender sua Revolução, e o povo foi ao debate, à argumentação, mas os manifestantes responderam com violência e o povo se defendeu», enfatizou.

Sobre a «famosa mudança de regime» em Cuba, o presidente perguntou: «Quem se incomoda com o nosso regime? Não para a maioria das pessoas, porque a maioria apoiou o governo em milhares de debates públicos, dos quais também participaram quem pensa diferente.

«Quem está incomodado? Os Estados Unidos? Por que não veem as virtudes de um sistema que funciona para todos e tem resultados em áreas como saúde, educação, previdência social e paz de espírito?».

Infelizmente, apontou, alentam manobras que terminam no vandalismo e isso faz com que cerremos mais nossas fileiras, une-nos mais, esclarece-nos acerca de quais são as verdadeiras intenções, e permite nascer posições genuínas de defesa, porque não se pode conseguir uma resposta obrigada de defensa da Revolução.

«Queriam estimular esta situação», disse o presidente cubano, «em meio a um cenário complexo de pandemia, onde o isolamento deve ser extremo. Isso não é cruel, desumano e genocida? Por isso, tiveram a resposta que mereciam e sabemos como podemos derrotar essa agressão».

Díaz-Canel disse que nada acontece por diversão. Quem se beneficiaria com o que aconteceu? O setor conservador da máfia de Miami, que apoiou financeiramente as campanhas orquestradas, e o fez para buscar um pretexto agora que está em andamento uma revisão da política dos Estados Unidos em relação a Cuba.

Cuba não precisa de intervenção humanitária. O que Cuba e o mundo precisam é de muita solidariedade em tempos como este. Foto: Estúdios Revolución.

O PAÍS ENFRENTOU A PANDEMIA «COM MUITO ESFORÇO»

Na opinião do primeiro secretário do Partido, a situação atual da pandemia deve ser vista com os antecedentes associados ao contexto em que o país se desenvolveu e a forma como tem sido trabalhado o enfrentamento ao novo coronavírus.

A pandemia, disse, «surgiu como um desafio em meio à situação de escassez e à intensificação das medidas do governo dos Estados Unidos».

Infelizmente, afirmou, «em vários locais a percepção de risco diminuiu e circulam cepas mais agressivas e com maior transmissão, o que ocasionou um pico pandêmico. Cuba demorou mais que outros países para entrar nesta situação, mas também vamos superá-la».

Quais foram os conceitos com os quais trabalhamos? O presidente se referiu, primeiramente, a saúde das pessoas. Qualquer pessoa que possamos levar para uma instituição estatal a internamos. Da mesma forma, o contato, o suspeito e todas aquelas pessoas foram para instituições do Estado; lá cuidamos de tudo e conseguimos parar a transmissão.

«Tem sido o esforço desses cientistas, que por muito tempo os aplaudimos às nove horas da noite, e acho que agora temos que aplaudi-los mais por todo o esforço que estão fazendo», sugeriu.

Ao comparar os resultados de Cuba com os de países do Primeiro Mundo, destacou que isso nos permite saber como estamos e o que mais podemos fazer.

Em sua argumentação mostrou os números por país e ficou evidente a diferença entre Cuba e a maioria das nações, que têm situações econômicas mais robustas que a nossa, nenhuma está bloqueada e todas tiveram picos pandêmicos.

«Não disseram a nenhum deles que iam intervir e que abririam corredores humanitários», denunciou o chefe de Estado.

«Com a vacina Abdala e o candidato Soberana, os testes foram feitos na presença da cepa sul-africana», disse, chamando a atenção para o indicador de morte por milhão de pessoas. «Apenas o Japão tem um indicador melhor do que nósۚ».

Da mesma forma, voltou sua atenção para a estatística de porcentagem de fatalidade. E, quanto aos registros da doença nas Américas, menos casos por milhão de habitantes, menos casos por milhão de pessoas no mundo. Cuba tem 0,64% de mortalidade. É com Cuba que se devem preocupar? Embora cada morte nos machuque.

Díaz-Canel comentou que há quem diga hipocritamente que este país, com estes indicadores, exige uma intervenção humanitária, que todos sabemos onde vai acabar. «É o mesmo discurso do padrão duplo de sempre».

Em seguida, o presidente acrescentou mais perguntas à análise. Onde estão os assassinatos em Cuba? Por que eles não se preocupam com os assassinatos na América Latina? Mais uma vez, a OEA desempenha seu papel na guerra não convencional. Quando a OEA exigiu a rejeição ao bloqueio econômico contra Cuba? Os dados destroem aquelas teorias caluniosas com as quais tentam nos atacar.

Em relação ao pico da pandemia, reiterou que o número de casos tem vindo a aumentar e que o crescimento – com os rendimentos que temos em algumas províncias– começa a ser maior. Portanto, não podemos cumprir esse conceito de todo mundo ir para uma instituição.

Acrescentou que Matanzas tem hoje 110 centros abertos, onde tratam os doentes, têm também os suspeitos e os contatos dos contatos. Nas províncias que apresentam esta situação, não é possível ter todos em instituições estatais.

Por isso, reconheceu, «temos que ir ao domicílio, que continua tendo uma enorme responsabilidade institucional, porque é preciso visitar o paciente de casa em casa. Mas carrega uma responsabilidade enorme da família, que tem que tomar um conjunto de medidas para que o isolamento seja efetivo».

«Estamos enfrentando essa complexidade», enfatizou Diaz-Canel. «Ao abrir mais centros, mais pessoal de saúde deve ser adicionado. No momento estamos abrindo esses postos, mas também os postos de vacinação; portanto, os recursos humanos também são limitados. E se houver mais pessoas doentes, são necessários mais medicamentos. Além disso, temos que levar em consideração o número de críticos e pacientes graves para evitar o colapso dos locais de terapia intensiva».

«Uma morte nos preocupa», disse o chefe de Estado, «e entre elas a morte de quatro crianças e oito gestantes dói muito». E, por sua vez, destacou os protocolos de atendimento aos que já sofreram com a doença.

«Temos nossos pontos fortes», disse. «Hoje o país já vacinou 34% da população maior de 19 anos com uma dose. Lamentamos todas as mortes, mas também temos que reconhecer tudo o que foi feito pela vida. Caso contrário, teríamos mais mortes».

Com a análise ancorada nas estatísticas, assinalou que em Cuba 1,69% dos pacientes chega ao estado de gravidade, desses casos graves conseguimos salvar dois terços e de todos os casos, salvamos 90% deles. Esses elementos ilustram a situação da Covid-19 na Ilha.

O presidente também explicou que se uma pessoa começa a ser vacinada com a primeira dose e fica doente, o ciclo de vacinação é interrompido. Todas as medidas devem ser seguidas com responsabilidade em relação aos comportamentos das pessoas, distanciamento físico, para que no menor tempo possível possamos superar esse pico epidêmico e podermos trabalhar de forma mais diferenciada com as demais categorias.

O presidente cubano agradeceu a solidariedade e a ajuda sincera que vem de diferentes partes do mundo. Foto:Estúdios Revolución.

ESTATÍSTICAS EM CUBA: TRANSPARÊNCIA, PRECISÃO E VERDADE

Díaz-Canel disse que a análise estatística tem sido fundamental, e tem sido feita a partir de várias áreas, como os modelos matemáticos, que nos alertam para situações específicas e indicam caminhos a seguir.

Nas estatísticas, frisou, «foram defendidos os princípios da transparência, rigor e veracidade, e temos sido honestos, sob o princípio de que nunca iremos mentir sobre a informação à população».

Além disso, acrescentou, «trabalhamos, indistintamente, um e outro, individual, pessoal e coletivamente, com as nossas bases de dados».

«Na sede do Palácio da Revolução», destacou, «existe um painel de controle, com informações atualizadas, em tempo real, sobre o comportamento da pandemia. E tem uma série histórica de todas as estatísticas da Covid-19, o que nos permite fazer análises, e é assim que funcionam todas as estruturas».

GRATOS PELA SINCERA AJUDA A CUBA

O presidente cubano agradeceu a solidariedade e a ajuda sincera que vem de diferentes partes do mundo, de grupos e instituições solidárias com Cuba, de pessoas honestas do mundo que sabem valorizar a dura realidade que vivemos e quais são suas causas. .

Também se referiu à ajuda que vem de países amigos como a Venezuela, com o presidente Nicolás Maduro, as mensagens de apoio do México e do presidente Andrés Manuel López Obrador, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva... «Vamos aceitar essa ajuda, porque é legítima, edificante, emancipadora e demonstra o melhor do pensamento mundial».

«A ajuda que não vamos aceitar», enfatizou, «é a da interferência, que não é uma ajuda, é uma interferência. Eles tentam disfarçá-la com termos, mas vem com más intenções e não vamos permitir isso, sob hipótese alguma».

Díaz-Canel afirmou que, mais uma vez, a arrogância ianque não acredita que, apostando nesses planos simulados, iriam conseguir o isolamento de Cuba, e hoje o mundo nos apoia. «Cuba não está sozinha».

«Cada vez mais, o governo dos Estados Unidos se isola mais por ter essa atitude beligerante, sem qualquer razão contra Cuba e contra nosso heróico povo. Cuba ainda está viva e Cuba está vencendo», disse.

«Recebemos expressões de solidariedade, apoio e boa vontade por parte dos cubanos que vivem no exterior», continuou, «e a essa comunidade também expressamos nosso respeito».

Os líderes do Partido e ministros explicaram a complicada situação da nação, que enfrenta uma guerra não convencional do imperialismo ianque. Foto: Estúdios Revolución.

NENHUMA INTERVENÇÃO HUMANITÁRIA É NECESSÁRIA EM CUBA

No discurso final, o presidente da República explicou que esta semana, de acordo com o calendário de trabalho do Estado, deverão decorrer as sessões da Assembleia Nacional do Poder Popular, correspondentes a este período, mas que foram adiadas devido à atual situação, embora de alguma forma um volume importante de informações tenha sido dado às pessoas.

«Fornecemos informações honestas, verdadeiras e transparentes sobre a situação em nosso país. Expressamos e defendemos, eu diria com veemência e firmeza, nossas verdades. Denunciamos a agressão permanente contra a Revolução, contra a nação e contra o povo cubano», resumiu.

«Ficamos comovidos», disse, «com a informação que foi dada aqui sobre eventos que, apesar de ser conhecidos, não deixam de ser transcendentais e chocantes».

Nesse sentido, referiu-se à autorização do uso emergencial de Abdala, que acarreta o reconhecimento como a primeira vacina latino-americana a alcançá-lo; e, por outro lado, o reconhecimento da eficácia de 91,2% da vacina Soberana, ambos marcos científicos do patrimônio criativo da nossa Revolução, que inserem perfeitamente o conceito de que temos uma resistência criativa, que resiste às adversidades, mas também criamos para superar o presente e melhorar o futuro.

Também destacou que as informações oferecidas vêm acompanhadas de notícias desagradáveis ​​como o aumento das infecções pela Covid-19, situações que acreditávamos não nos afetariam e que agora nos dão uma perspectiva de quanto temos que continuar fazendo para superá-lo e levar nossa população a uma situação melhor.

«Dói-nos, mortifica-nos, todas estas situações angustiam-nos, mas também estamos repletos de um enorme sentido de compromisso e responsabilidade, e, mais uma vez, queremos expressar nosso pesar pelas perdas humanas e as nossas condolências à família e amigos. Todo o nosso povo está unido nesta luta».

«Repudiamos claramente», ratificou, «os motins de agressão, vandalismo, delinquência e vulgaridade orquestrados neste domingo».

«Aqui não podemos esquecer nada daquilo que foi levantado e do apelo que fizeram os que lideraram, do ponto de vista do mercenarismo. Aqui eles pediram linchamento, intervenção estrangeira, para que os comunistas fossem mortos. Essas são expressões e são cargos pelos quais todos aqueles que participaram desses eventos terão que responder», disse o presidente.

«Com todas essas informações que compartilhamos, com base em nossas convicções, pode-se perguntar se é verdade que precisamos de uma intervenção humanitária. Creio que a resposta é muito clara, em Cuba não é necessária intervenção humanitária. O que Cuba e o mundo precisam é de muita solidariedade em tempos como este, e se alguém foi campeão dessa solidariedade genuína, é este pequeno país que está sendo questionado sobre como está enfrentando a pandemia».

Alegou que foi este país que enviou, em meio à pandemia, um importante grupo de brigadas de colaboradores da saúde a muitos outros países. O que precisamos aqui, declarou, é a retirada das 243 medidas de sufocamento e o levantamento do bloqueio. Essa é a única coisa que Cuba exige.

«Ao presidente que aconselhou ou que convidou o povo cubano a ser ouvido ou a trabalhar para eliminar os seus problemas, estamos focados nisso todos os dias. Devemos dizer a esse presidente para ouvir o mundo, para ouvir os milhões de pessoas que condenam o bloqueio a Cuba, para ouvir os cubanos e também para ouvir os milhões de norte-americanos e cubanos residentes nos Estados Unidos, que também eles são contra este bloqueio».

«Um povo capaz de criar medicamentos, vacinas, equipamentos no meio de um cerco financeiro total, merece admiração e respeito, merece poder trabalhar e criar em paz», sublinhou.

Em relação a essa paz, disse que é a que defendemos, não a violência, não encorajamos a guerra civil, como alguns quiseram expor nas manchetes. O que temos é a vontade, a convicção e o dever legítimo de defender a obra revolucionária de quem tenta miná-la, seguindo um plano anexacionista, gerando vandalismo, agressão e até incitação ao homicídio.

Nosso Governo, reafirmou, «defende, dentro da Revolução, os direitos de todos, sejam eles revolucionários ou não. Aspiramos ao bem-estar de todos, incluímos todos na nossa concepção de justiça social, mas não estamos dispostos a ceder a obra, nem a independência, nem a soberania, nem a autodeterminação que conquistamos e obtivemos com a Revolução».

«Na tarde de domingo», lembrou, «houve provocadores violentos que cometeram atos de vandalismo, que perturbaram a ordem, que apelaram à intervenção estrangeira, que garantiram que a Revolução estava caindo. Jamais gozarão desse desejo, o povo respondeu: defendeu sua Revolução. Temos o compromisso de proteger a tranquilidade e a segurança do cidadão, a paz tão necessária para podermos nos concentrar no enfrentamento efetivo da pandemia e avançar em nossos planos de desenvolvimento econômico e social».

«Esse ideal, compartilhado pela maioria, nós vamos defender, principalmente os revolucionários, e todos os que aderem. E esse é o verdadeiro sentido de que em Cuba as ruas pertencem aos revolucionários, o que não é discriminatório em absoluto, mas significa que a responsabilidade principal é dos revolucionários e também de todos aqueles que se unem na defesa da Revolução. Força Cuba, vamos resistir, vamos avançar e, como sempre, vamos vencer», concluiu o presidente.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Lenin viveu, Lenin vive, Lenin viverá! Homenagem nos 96 anos de sua partida!



Lênin vive! Paulo Vinícius Silva

(…) Então enviaram os guardas um pedreiro com uma faca para eliminar a inscrição.
E ele raspou letra por letra, durante uma hora
E quanto terminou, lá estava no alto da cela, incolor
Mas gravada fundo na parede, a inscrição invencível:
VIVA LÊNIN!
Agora derrubem a parede! disse o soldado.
A inscrição invencível - Bertolt Brecht


Vladimir Ilitch Ulianov, Lênin - falecido em 21 de janeiro de 1924, há 96 anos - é considerado por muitos o maior revolucionário de todos os tempos. Não é à toa que ele sempre foi cercado de admiradores, detratores e falsificadores. Polemista inquieto e apaixonado, o combate a ele até os dias de hoje apenas faz luzir a estrela da rebelião que sempre foi seu norte. Lênin é para quem quer mudar o mundo de verdade.

Não é o sujeito biográfico, quanto lhe queremos ou não, que merece nossa mirada. Fosse assim, não importaria nem causaria tanto bafafá. Contra a essência revolucionária do pensamento de Lênin foi muito usado valorizar o que é cosmético e esquecer do seu conteúdo, como fez a URSS após Kruschev. Até Gorbachev falava de Lênin enquanto entregava a rapadura ao capitalismo -  e depois seria garoto propaganda da Pizza Hut. Ou ainda, torná-lo o senhor do "não pode", para ossificar a grande virtude de seu pensamento, a plena aplicação da dialética à situação concreta e pensar nisso como gente organizada para mudar o mundo. Lênin brilha mesmo é pelas posturas e saídas teóricas, por sua singular capacidade de superar dilemas teórico-práticos pela dialética marxista, e apontar saídas revolucionárias. Ele queria fazer a Revolução. Disseram que não dava. Ele foi lá e fez. Quem quis fazer e vencer na Revolução, leu e aprendeu com Lênin.

Lamentavelmente, é um pensador pouco compreendido, diria até desconhecido, assim me parece, e isso a despeito do monumental esforço de popularização e compilação de sua obra feito por Stalin após a sua morte. Por isso, superficialmente, como estímulo ao seu estudo, e para sistematizar minhas próprias opiniões, cito o que penso aspectos essenciais no pensamento revolucionário de Lênin.

Primeiro, ele atualiza a visão marxista sobre a concentração do capital como tendência histórica do sistema capitalista. A análise do sistema bancário europeu na passagem do século XIX para o século XX levou-o a definir a etapa do imperialismo como a era do capital financeiro, da oligopolização, da centralização inclemente de capitais, da unificação do capital industrial e comercial, com repercussões profundas na suposta concorrência entre mercados. Elucida, assim a injustiça do capitalismo, que corresponde a um processo de concentração de renda e poder contra as maiorias trabalhadoras que são as únicas produtoras de toda a riqueza. Em vez da livre concorrência e do mercado endeusado, o capitalismo é o regime dos monopólios e oligopólios. Hoje, 1% da humanidade detém mais riqueza que 99%. 

Esse processo profundo e mundial de centralização, planejamento e produção industrial ascendente, longe de levar a uma suposta paz dos mercados e do capitalismo racionalizado, recrudesceria como tensões inter-imperialistas que desembocariam em guerras e crises cada vez mais intensas. Seria essa a última etapa histórica do sistema capitalista, porque o nível do desenvolvimento científico, industrial e tecnológico levaria a tendências destrutivas, a não ser que fossem apropriadas pela maioria, superando a lógica da sociedade capitalista, que é a ditadura da burguesia e da manutenção do trabalho assalariado.

Ele não via o fenômeno apenas negativamente, mas a partir de suas múltiplas determinações. Chamava a atenção para o imenso progresso e para suas consequências sobre a emancipação da mulher, denunciando a escravidão do trabalho doméstico. O planejamento, a produção em série, a industrialização seriam ainda mais avançadas numa sociedade dirigida a favor de todos. Como o capitalismo persiste, a realidade de avanço científico seria apropriada contra as amplas maiorias, num regime oligopolista. Por isso, dizia 

Lênin, o imperialismo seria a ante-sala do socialismo, sistema visto como superior e sucedâneo ao capitalismo, inclusive quanto ao progresso tecnológico. Nele, as vantagens do progresso seriam revertidas em favor das classes trabalhadoras, e não de uma minoria rica.

Vladimir Lênin estabeleceu uma justa relação dialética entre tática e estratégia, o movimento espontâneo das massas e como ele se torna movimento consciente, assim como os limites dos movimentos sem a luta geral pelo socialismo e pelo poder. São dilemas constantes da luta política que vivemos todos os dias. Ele aponta para a capacidade de o movimento dos trabalhadores e trabalhadoras superar as tendências economicistas, corporativistas e espontâneas, qualificando-se para uma disputa maior que a negociação das condições de venda da força de trabalho. Lênin descortinou o caminho do poder para os oprimidos.

Fez a crítica ao espontaneísmo, mostrando que a revolta episódica, local, por um aspecto específico desse ou daquele movimento, que o elogio do improviso e a ausência de organização e método na luta são o normal do movimento. Como tal, tem sua importância e são inevitáveis, pois decorrem das contradições objetivas da sociedade de classes e da exploração que promove. Mas não bastam. O pensador russo demonstrou como todo movimento separado de uma visão sistêmica de disputa pela hegemonia só levaria às tentativas de manutenção do capitalismo com base nas ilusões de sua humanização. Mesmo o movimento sindical degeneraria em oportunismo, se os trabalhadores e trabalhadoras perdessem de vista que o objetivo é a própria superação da sociedade assalariada e o poder para as maiorias.

Os movimentos espontâneos, corporativos e gremiais tem avanços e refluxos, derrotas e vitórias, momento de grande animação e também de marasmo e crises, e podem inclusive ser policlassistas. A pedra de toque para dirigir esse fluxo num sentido revolucionário, seu sujeito, não é um indivíduo, mas um coletivo, um partido político capaz de superar o economicismo, o movimentismo, concentrando em uma força política unida o poder das maiorias, da classe trabalhadora. 

O partido de vanguarda, se estiver à altura, deve ser a solução da contradição entre o específico e o geral, chefes e liderados(as), organizando a partir da luta espontânea a consciência permanente, orgânica da classe trabalhadora. O espontâneo, a despeito de sua força e inovação pode dar em nada, ou servir aos fins opostos que pretendia, se não tiver uma direção, porque há uma permanente disputa pela hegemonia e a manutenção da sociedade capitalista. Seu caráter injusto levaria a contradições, choques e crises. Educar o povo na luta permitiria a disputa pelos trabalhadores da hegemonia e a construção de uma nova sociedade. Haveria na prática uma escala de progressiva consciência que iria das questões cotidianas mais simples até à concepção da vanguarda, materializada no Partido Comunista e na sua forma de direção, o centralismo democrático, em que todos os organismos e posições se construiriam de baixo para cima e se asseguraria a liberdade de pensamento e discussão, para em seguida construir uma forte e indestrutível unidade num sistema de direção coeso e capaz de fazer frente à unidade dos capitalistas como um punho cerrado para levar a classe trabalhadora à vitória.

Lênin estabelece uma escala realista de consciência política que considera o espontâneo um momento fundamental para o consciente, ligando a luta pela Reforma e a luta pela Revolução numa amálgama entre a teoria e a prática, a Praxis. Por isso, toda a luta, mesmo a menor, pode ser eivada de significado revolucionário.

A partir da recusa à conciliação com as burguesias europeias em favor da guerra imperialista e dos nacionalismos na I Guerra Mundial, Lênin subverte a concepção vigente no movimento social-democrata, que situava a possibilidade do socialismo apenas nos países industrializados, assim como nas metrópoles coloniais. A partir do estudo do desenvolvimento desigual no capitalismo, Lênin observa que as tensões inter-imperialistas que ocorriam com conflitos cuja fachada religiosa ou supostamente nacional, em verdade, escondia a ganância infinita de lucro capitalista. Assim, em vez de somar-se aos interesses de suas burguesias nacionais, Lênin apelava para a rejeição de tais ilusões, para que por detrás delas e evidenciasse que as burguesias empurravam o proletariado para o massacre em favor de seus lucros, apenas. 

Por outro lado, as guerras e as crises capitalistas sucessivas levariam a grande instabilidade, sistêmica, criando fragilidades específicas, históricas, singulares, em que os elos frágeis na cadeia imperialista permitiriam avançar para o socialismo. Haveria, portanto, condições revolucionárias inclusive em países economicamente atrasados, sob jugo colonial, podendo assim avançar para o socialismo. Essa nova liberdade altera as hierarquias postas no movimento operário, recolocando a revolução e o socialismo em relação dialética com a tática.

Lênin inaugura uma época de grandes possibilidades táticas, defendendo as alianças e um notável realismo político, mas que não se detivesse no reformismo ou no cretinismo parlamentar, mas apontasse para a transformação revolucionária da sociedade. Assim, longe do principismo, da negação de alianças, da defesa de uma única forma de luta, Lênin defendia a legitimidade de todas as formas de luta, exceto o terrorismo. Estabelece que não importa a forma de luta em si, contanto que seja uma maneira de politizar a luta de massas e ampliar o poder da classe trabalhadora. Assim, reforma e revolução, luta eleitoral, de ideias, econômica, política, insurreição, todas se entrelaçariam num complexo encadeamento de fatos políticos em meio à história, cabendo à vanguarda conduzir o movimento espontâneo à consciência que permite a conquista do poder político e a transformação socialista da sociedade, em vez de deter-se nas reformas.

Ele deslindou a natureza de classe do Estado e da democracia burguesa, apontando-as como formas transitórias e em disputa na luta pela hegemonia na sociedade. O estado capitalista e a sua ditadura de classe se afirmariam particularmente nos momentos de crise, em que o poder militar, judicial e ideológico assegurariam inclusive pela força a manutenção da ordem capitalista. Assim, a luta pela democracia, como todas as lutas, teria um caráter de classe intrínseco, não sendo universais nem imutáveis, e estando ao escrutínio da consciência avançada. 

Lênin aponta o caminho do poder político e da construção econômica para a classe trabalhadora, com a destruição do regime mais despótico e atrasado da Europa. As consignas Pão, Terra e Paz e Todo poder aos sovietes levaram a uma mudança sem precedentes, com a conquista e manutenção do poder soviético. O seu êxito prático apontou todavia a imensa complexidade da construção econômica no socialismo como regime de transição entre o capitalismo e a utopia da sociedade comunista. 

Lênin inaugura um frutífero pensamento tático e estratégico, experimentando a disputa no seio da esquerda, a luta pelo poder e as possibilidades econômicas e políticas de uma nova sociedade que até então só existira em teoria.

O desassombro com que avançou e recuou na política e na definição das formas da propriedade ilustram a situação de imensa dificuldade e a busca de caminhos para afirmar uma sociedade superior à capitalista. Comunismo de guerra, Nova política Econômica, Trabalho voluntário, diversas formas de propriedade, tudo aponta para um pensamento econômico e político com margem de manobra e fidelidade aos princípios. A sociedade socialista surge múltipla e como forma de transição na própria experiência soviética, com avanços e recuos. Brilha em seu pensamento a grande preocupação com o progresso econômico e com a defesa de uma hegemonia baseada na aliança entre operários e camponeses.

A propriedade privada e o mercado deixam de ser tabu e são defendidos como instrumentos da transição de sentido socialista, inclusive pela utilização do capitalismo de Estado e o socialismo como regime de propriedade mista, de acordo com a história econômica de cada formação social. No centro da justeza e do êxito estariam o poder político. A China e o socialismo Chinês em grande medida bebem dessa teoria do desenvolvimento e da transição socialista formulada inicialmente por Lênin. Por isso não há modelo de socialismo e cada experiência será original, única.

Por tudo isso, em meio à crise da humanidade, Lênin segue atual, parte da luta dos oprimidos para tomar em suas mão o seu destino. E essa é a única homenagem digna de sua obra, uma vida inteira dedicada à transformação socialista, que demonstrou a sua viabilidade. E há tantas questões novas que o seu exemplo de sinceridade, obstinação e estudo rigoroso iluminam a nossa luta por responder aos desafios atuais do movimento.

Dialeticamente, o seu pensamento será superado na medida em que os dilemas que nos afligem sejam eles próprios batidos pela capacidade da classe trabalhadora ser autora dessa superação, na medida em se possa unir o sofrimento atomizado de todos os oprimidos e oprimidas na tomada de consciência para o mudar o próprio destino e a história, conquistando a sociedade das maiorias, a sociedade socialista. O combate que lhe fazem - sempre a direita, porque ninguém esteve à esquerda de Lênin - é um sinal de saúde de seu pensamento revolucionário, que devemos conhecer e difundir como ferramenta e inspiração, clareando os caminhos da luta. 

Se o tempo não lhe corrói, há duas causas: não cessaram os fenômenos a que refere, e seu pensamento nos ajuda a desvendá-los revolucionariamente. Há soluções passadistas que se apresentam como novas, social-democratas em especial, mas com um inevitável cheiro de naftalina e a hipocrisia que lhes é natural. Ao contrário do pensamento vivo e combativo, transformador, que encontramos em Ilitch e que somos chamados a desenvolver, pois é a isso que ele nos desafia. Com o exemplo vivo dos escritos de Lênin somos todos elevados(as) à condição de sujeitos conscientes de nossa própria emancipação, pois para ele, sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário.


Augusto Buonicore
teoria da Revolução em Lênin


segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Lênin vive! Paulo Vinícius Silva

(…) Então enviaram os guardas um pedreiro com uma faca para eliminar a inscrição.
E ele raspou letra por letra, durante uma hora
E quanto terminou, lá estava no alto da cela, incolor
Mas gravada fundo na parede, a inscrição invencível:
VIVA LÊNIN!
Agora derrubem a parede! disse o soldado.
A inscrição invencível - Bertolt Brecht


Vladimir Ilitch Ulianov, Lênin - cujo nascimento em 22 de abril cumprirá 150 anos - é considerado por muitos o maior revolucionário de todos os tempos. Não é à toa que ele sempre foi cercado de admiradores, detratores e falsificadores. Polemista inquieto e apaixonado, o combate a ele até os dias de hoje apenas faz luzir a estrela da rebelião que sempre foi seu norte. Lênin é para quem quer mudar o mundo de verdade. 
Lênin, fazendo raiva à burguesia e desancando o oportunismo até os dias de hoje.

Não é o sujeito biográfico, quanto lhe queremos ou não, que merece nossa mirada. Fosse assim, não importaria nem causaria tanto bafafá.  Contra a essência revolucionária do pensamento de Lênin foi muito usado valorizar o que é cosmético e esquecer do seu conteúdo, como fez a URSS após Kruschev. Até Gorbachev falava de Lênin enquanto entregava a rapadura ao capitalismo - depois seria garoto propaganda da Pizza Hut. Ou ainda, torná-lo o senhor do "não pode", para ossificar a grande virtude de seu pensamento,  a plena aplicação da dialética à situação concreta e pensar nisso como gente organizada para mudar o mundo. Lênin brilha mesmo é pelas posturas e saídas teóricas, por sua singular capacidade de superar dilemas teórico-práticos pela dialética marxista, e apontar saídas revolucionárias. Ele queria fazer a Revolução. Disseram que não dava. Ele foi lá e fez. Quem quis fazer e vencer na Revolução, leu e aprendeu com Lênin.
Lamentavelmente, é um pensador pouco compreendido, diria até desconhecido, assim me parece, e isso a despeito do monumental esforço de popularização e compilação de sua obra feito por Stalin após a sua morte. Por isso, superficialmente, como estímulo ao seu estudo, e para sistematizar minhas próprias opiniões, cito o que penso aspectos essenciais no pensamento revolucionário de Lênin.
Primeiro, ele atualiza a visão marxista sobre a concentração do capital como tendência histórica do sistema capitalista. A análise do sistema bancário europeu na passagem do século XIX para o século XX levou-o a definir a etapa do imperialismo como a era do capital financeiro, da oligopolização, da centralização inclemente de capitais, da unificação do capital industrial e comercial, com repercussões profundas na suposta concorrência entre mercados. Elucida, assim a injustiça do capitalismo, que corresponde a um processo de concentração de renda e poder contra as maiorias trabalhadoras que são as únicas produtoras de toda a riqueza. Em vez da livre concorrência e do mercado endeusado, o capitalismo é o regime dos monopólios e oligopólios. Hoje, 1% da humanidade detém mais riqueza que 99%. 
Esse processo profundo e mundial de centralização, planejamento e produção industrial ascendente, longe de levar a uma suposta paz dos mercados e do capitalismo racionalizado,  recrudesceria como tensões inter-imperialistas que desembocariam em guerras e crises cada vez mais intensas. Seria essa a última etapa histórica do sistema capitalista, porque o nível do desenvolvimento científico, industrial e tecnológico levaria a tendências destrutivas, a não ser que fossem apropriadas pela maioria, superando a lógica da sociedade capitalista, que é a ditadura da burguesia e da manutenção do trabalho assalariado.
Ele não via o fenômeno apenas negativamente, mas a partir de suas múltiplas determinações. Chamava a atenção para o imenso progresso e para suas consequências sobre a emancipação da mulher, denunciando a escravidão do trabalho doméstico. O planejamento, a produção em série, a industrialização seriam ainda mais avançadas numa sociedade dirigida a favor de todos. Como o capitalismo persiste, a realidade de avanço científico seria apropriada contra as amplas maiorias, num regime oligopolista. Por isso, dizia Lênin, o imperialismo seria a ante-sala do socialismo, sistema visto como superior e sucedâneo ao capitalismo, inclusive quanto ao progresso tecnológico. Nele, as vantagens do progresso seriam revertidas em favor das classes trabalhadoras, e não de uma minoria rica.
Vladimir Lênin estabeleceu uma justa relação dialética entre tática e estratégia, o movimento espontâneo das massas e como ele se torna movimento consciente, assim como os limites dos movimentos sem a luta geral pelo socialismo e pelo poder. São dilemas constantes da luta política que vivemos todos os dias. Ele aponta para a capacidade de o movimento dos trabalhadores e trabalhadoras superar as tendências economicistas, corporativistas e espontâneas, quanlificando-se para uma disputa maior que a negociação das condições de venda da força de trabalho. Lênin descortinou o caminho do poder para os oprimidos. 
Fez a crítica ao espontaneísmo, mostrando que a revolta episódica, local, por um aspecto específico desse ou daquele movimento, que o elogio do improviso e a ausência de organização e método na luta são o normal do movimento. Como tal, tem sua importância e são inevitáveis, pois decorrem das contradições objetivas da sociedade de classes e da exploração que promove.  Mas não bastam. O pensador russo demonstrou como todo movimento separado de uma visão sistêmica de disputa pela hegemonia só levaria às tentativas de manutenção do capitalismo com base nas ilusões de sua humanização. Mesmo o movimento sindical degeneraria em oportunismo, se os trabalhadores e trabalhadoras perdessem de vista que o objetivo é a própria superação da sociedade assalariada e o poder para as maiorias.
Os movimentos espontâneos, corporativos e gremiais tem avanços e refluxos, derrotas e vitórias, momento de grande animação e também de marasmo e crises, e podem inclusive ser policlassistas.  A pedra de toque para dirigir esse fluxo num sentido revolucionário, seu sujeito,  não é um indivíduo, mas um coletivo, um partido político capaz de superar o economicismo, o movimentismo, concentrando em uma força política unida o poder das maiorias, da classe trabalhadora. 
O partido de vanguarda, se estiver à altura, deve ser a solução da contradição entre o específico e o geral, chefes e liderados, organizando a partir da luta espontânea a consciência permanente, orgânica da classe trabalhadora. O espontâneo, a despeito de sua força e inovação pode dar em nada, ou servir aos fins opostos que pretendia, se não tiver uma direção, porque há uma permanente disputa pela hegemonia e a manutenção da sociedade capitalista. Seu caráter injusto levaria a contradições, choques e crises. Educar o povo na luta permitiria a disputa pelos trabalhadores da hegemonia e a construção de uma nova sociedade. Haveria na prática uma escala de progressiva consciência que iria das questões cotidianas mais simples até à concepção da vanguarda, materializada no Partido Comunista e na sua forma de direção, o centralismo democrático, em que todos os organismos e posições se construiriam de baixo para cima e se asseguraria a liberdade de pensamento e discussão, para em seguida construir uma forte e indestrutível unidade num sistema de direção coeso e capaz de fazer frente à unidade dos capitalistas como um punho cerrado para levar a classe trabalhadora à vitória.
Lênin estabelece uma escala realista de consciência política que considera o espontâneo um momento fundamental para o consciente, ligando a luta pela reforma e a luta pela Revolução numa amálgama entre a teoria e a prática, a praxis. Por isso, toda a luta, mesmo a menor, pode ser eivada de significado revolucionário.
A partir da recusa à conciliação com as burguesias europeias em favor da guerra imperialista e dos nacionalismos na I Guerra Mundial, Lênin subverte a concepção vigente no movimento social-democrata, que situava a possibilidade do socialismo apenas nos países industrializados, assim como nas metrópoles coloniais. A partir do estudo do desenvolvimento desigual no capitalismo, Lênin observa que as tensões inter-imperialistas que ocorriam com conflitos cuja fachada religiosa ou supostamente nacional, em verdade escondia a ganância infinita de lucro capitalista. Assim, em vez de somar-se aos interesses de suas burguesias nacionais, Lênin apelava para a rejeição de tais ilusões, para que por detrás delas e evidenciasse que as burguesias empurravam o proletariado para o massacre em favor de seus lucros, apenas. 
Por outro lado, as guerras e as crises capitalistas sucessivas levariam a grande instabilidade, sistêmica, criando fragilidades específicas, históricas, singulares, em que os elos frágeis na cadeia imperialista permitiriam avançar para o socialismo. Haveria, portanto, condições revolucionárias inclusive em países economicamente atrasados, sob jugo colonial, podendo assim avançar para o socialismo. Essa nova liberdade altera as hierarquias postas no movimento operário, recolocando a revolução e o socialismo em relação dialética com a tática.
Lênin inaugura uma época de grandes possibilidades táticas, defendendo as alianças e um notável realismo político, mas que não se detivesse no reformismo ou no cretinismo parlamentar, mas apontasse para a transformação revolucionária da sociedade. Assim, longe do principismo, da negação de alianças, da defesa de uma única forma de luta, Lênin defendia a legitimidade de todas as formas de luta, exceto o terrorismo. Estabelece que não importa a forma de luta em si, contanto que seja uma maneira de politizar a luta de massas e ampliar o poder da classe trabalhadora. Assim, reforma e revolução, luta eleitoral, de ideias, econômica, política, insurreição, todas se entrelaçariam num complexo encadeamento de fatos políticos em meio à história, cabendo à vanguarda conduzir o movimento espontâneo à consciência que permite a conquista do poder político e a transformação socialista da sociedade, em vez de deter-se nas reformas.
Ele deslindou a natureza de classe do Estado e da democracia burguesa, apontando-as como formas transitórias e em disputa na luta pela hegemonia na sociedade. O estado capitalista e a sua ditadura de classe se afirmariam particularmente nos momentos de crise, em que o poder militar, judicial e ideológico assegurariam inclusive pela força a manutenção da ordem capitalista. Assim, a luta pela democracia, como todas as lutas, teria um caráter de classe intrínseco, não sendo universais nem imutáveis, e estando ao escrutínio da consciência avançada. 
Lênin aponta o caminho do poder político e da construção econômica para a classe trabalhadora, com a destruição do regime mais despótico e atrasado da Europa. As consignas Pão, Terra e Paz e Todo poder aos sovietes levaram a uma mudança sem precedentes, com a conquista e manutenção do poder soviético. O seu êxito prático apontou todavia a imensa complexidade da construção econômica no socialismo como regime de transição entre o capitalismo e a utopia da sociedade comunista. Lênin inaugura um frutífero pensamento tático e estratégico, experimentando a disputa no seio da esquerda, a luta pelo poder e as possibilidades econômicas e políticas de uma nova sociedade que até então só existira em teoria. 
O desassombro com que avançou e recuou na política e na definição das formas da propriedade ilustram a situação de imensa dificuldade e a busca de caminhos para afirmar uma sociedade superior à capitalista. Comunismo de guerra, Nova política Econômica, Trabalho voluntário, diversas formas de propriedade, tudo aponta para um pensamento econômico e político com margem de manobra e fidelidade aos princípios. A sociedade socialista surge múltipla e como forma de transição na própria experiência soviética, com avanços e recuos. Brilha em seu pensamento  a grande preocupação com o progresso econômico e com a defesa de uma hegemonia baseada na aliança entre operários e camponeses. 
A propriedade privada e o mercado deixam de ser tabu e são defendidos como instrumentos da transição de sentido socialista, inclusive pela utilização do capitalismo de Estado e o socialismo como regime de propriedade mista, de acordo com a história econômica de cada formação social.  No centro da justeza e do êxito estariam o poder político. A China e o socialismo Chinês em grande medida bebem dessa teoria do desenvolvimento e da transição socialista formulada inicialmente por Lênin. Por isso não há modelo de socialismo e cada experiência será original, única.
Por tudo isso, em meio à crise da humanidade, Lênin segue atual, parte da luta dos oprimidos para tomar em suas mão o seu destino. E essa é a única homenagem digna de sua obra, uma vida inteira dedicada à transformação socialista, que demonstrou a sua viabilidade. E há tantas questões novas que o seu exemplo de sinceridade, obstinação e estudo rigoroso iluminam a nossa luta por responder aos desafios atuais do movimento. 


Dialeticamente, o seu pensamento será superado na medida em que os dilemas que nos afligem sejam eles próprios batidos pela capacidade da classe trabalhadora ser autora dessa  superação, na medida em se possa unir o sofrimento atomizado de todos os oprimidos e oprimidas na tomada de consciência para o mudar o próprio destino e a história, conquistando a sociedade das maiorias, a sociedade socialista. O combate que lhe fazem - sempre a direita, porque ninguém esteve à esquerda de Lênin - é um sinal de saúde de seu pensamento revolucionário, que devemos conhecer e difundir como ferramenta e inspiração, clareando os caminhos da luta. Se o tempo não lhe corrói, há duas causas: não cessaram os fenômenos a que refere e seu pensamento nos ajuda a desvendá-los revolucionariamente. Há soluções passadistas que se apresentam como novas, social-democratas em especial, mas com um inevitável cheiro de naftalina e a hipocrisia que lhes é natural. Ao contrário do pensamento vivo e combativo, transformador, que encontramos em Ilitch e que somos chamados a desenvolver, pois é a isso que ele nos desafia.  Com o exemplo vivo dos escritos de Lênin somos todos elevados(as) à condição de sujeitos conscientes de nossa própria emancipação, pois para ele, sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

As revoluções e as redes sociais - um debate em pleno curso

Muito bom o texto de Paulo Henrique Amorim sobre essa tendência na grande mídia e dos usuários a superlativizar o potencial "revolucionário" desta ou daquela novidade tecnológica.
O argumento de que isso serve como uma panacéia para desconsiderr o fator consciente na mobilização social é justo. Ainda assim, há que reconhecer que os avanços da internet, na cibernética e telecomunicações são muito importantes para quem deseja fazer revolução - e reação - nos dias que correm. No mesmo sentido, quero recomendar o artigo abaixo que saiu no caderno mais da Folha de São Paulo dem dezembro, no artigo "A Revolução não será Tuitada", que o blog Conteúdo livre postou e eu reproduzo aqui. É um debate que está de fato na ordem do dia.


Um abraço

Paulo Vinícius

TEXTO 1

PHA: calma, Miriam Leitão! Não há revolução via web ou celular - Portal Vermelho


TEXTO 2

A revolução não será tuitada

Os limites do ativismo político nas redes sociais

RESUMO
O ativismo em redes sociais como o Facebook e o Twitter deriva de vínculos fracos entre seus participantes, que não correm riscos reais como os militantes tradicionais, unidos por vínculos fortes, em ações hierarquizadas e de alto risco, tais como as organizadas durante a campanha pelos direitos civis nos EUA dos anos 60.

MALCOLM GLADWELL
tradução PAULO MIGLIACCI

ÀS QUATRO E MEIA da tarde da segunda-feira 1º/2/1960, quatro universitários se sentaram ao balcão da lanchonete de uma loja Woolworth's no centro de Greensboro, na Carolina do Norte. Eram calouros na North Carolina A&T, faculdade para negros localizada a pouco mais de 1 km dali.
"Um café, por favor", disse um deles, Ezell Blair, à garçonete.
"Não atendemos crioulos aqui", ela respondeu.
O comprido balcão em L comportava 66 pessoas sentadas; numa das pontas, comia-se de pé. Os assentos eram para os brancos. A área onde se comia de pé era para os negros. Outra funcionária, uma negra encarregada da estufa, tentou convencê-los a sair: "Vocês estão sendo burros, seus ignorantes!". Eles não se mexeram.
Por volta das cinco e meia as portas principais da loja foram fechadas. Os quatro continuaram lá. Por fim, saíram por uma porta lateral. Do lado de fora, formara-se uma pequena multidão, incluindo um fotógrafo do jornal "Record", de Grensboro. "Volto amanhã, com o A&T College inteiro", disse um dos universitários.
Na manhã seguinte, o protesto havia se expandido e o grupo somava 27 homens e quatro mulheres, em grande parte do mesmo alojamento dos quatro manifestantes originais. Os homens estavam de terno e gravata. Todos levaram material e ficaram no balcão, estudando. Na quarta, veio a adesão dos alunos do colégio "para crioulos" de Greensboro, a Dudley High, e o número de manifestantes subiu a 80. Na quinta, já eram 300, incluindo três brancas, do campus local da Universidade da Carolina do Norte.
No sábado, o protesto contava 600 pessoas, espalhadas pelas calçadas em torno da loja. Adolescentes brancos assistiam, acenando com bandeiras da Confederação.1 Alguém soltou um rojão. Ao meio-dia, chegou o time de futebol americano da A&T. "Lá vêm os baderneiros", berrou um dos estudantes brancos.
Na segunda seguinte, o protesto já havia chegado a Winston-Salem, a 40 km dali, e Durham, a 80 km. No dia seguinte, veio a adesão dos alunos do Fayetteville State Teachers College e do Johnson C. Smith College, em Charlotte, seguidos, na quarta, pelos alunos do St. Augustine's College e da Universidade Shaw, em Raleigh. Na quinta e na sexta, o protesto atravessou as divisas do Estado e novas manifestações surgiram em Hampton e Portsmouth, na Virgínia; em Rock Hill, na Carolina do Sul; e em Chattanooga, no Tennessee. No final do mês, manifestações semelhantes estavam sendo realizadas em todo o sul dos Estados Unidos, chegando até o Texas, no oeste.

FEBRE "Perguntei a cada um dos estudantes que encontrei como tinha sido o primeiro dia de protesto em seu campus", escreveu o cientista político Michael Waltzer ?em artigo na revista "Dissent". "A resposta foi sempre a mesma: 'Foi uma febre. Todo mundo queria participar'."
Por fim, cerca de 70 mil estudantes aderiram. Milhares deles foram detidos, e outros tantos se radicalizavam. Esses acontecimentos do começo dos anos 60 se tornaram uma guerra dos direitos civis que engolfou o sul dos Estados Unidos até o final da década -e tudo aconteceu sem e-mail, mensagens de texto, Facebook ou Twitter.
Dizem que o mundo passa por uma revolução. As novas ferramentas de redes sociais reinventaram o ativismo social. Com Facebook, Twitter e que tais, a relação tradicional entre autoridade política e vontade popular foi invertida, o que facilita a colaboração mútua e a organização dos desprovidos de poder e dá voz às suas preocupações.

REVOLUÇÃO VIA TWITTER Quando 10 mil pessoas saíram às ruas na Moldova, no leste europeu, segundo trimestre de 2009, em protesto contra o governo comunista, a ação ganhou o nome de revolução via Twitter, por causa dos meios utilizados para arregimentar os manifestantes.
Meses depois, quando protestos estudantis abalaram Teerã, o Departamento de Estado americano tomou a providência inusual de solicitar ao Twitter que suspendesse uma pausa programada para manutenção do site, pois o governo não desejava que uma ferramenta tão vital estivesse inativa no auge das manifestações. "Sem o Twitter, o povo do Irã não se teria sentido capaz e confiante o bastante para sair em defesa da liberdade e da democracia", escreveu o ex-assessor de segurança nacional Mark Pfeifle, clamando para que o Twitter ganhasse o Prêmio Nobel da Paz.
Se antes os ativistas eram definidos por suas causas, agora são definidos pelas ferramentas que empregam. Os guerreiros do Facebook entram na internet para pressionar por mudanças. "Vocês são a nossa grande esperança", disse James Glassman, ex-alto funcionário do Departamento de Estado, a uma plateia de ciberativistas em recente conferência patrocinada por Facebook, AT&T (companhia telefônica), Howcast (site de vídeos), MTV e Google.
Sites como o Facebook, disse Glassman, "oferecem aos EUA uma considerável vantagem competitiva diante dos terroristas. Algum tempo atrás, eu disse que 'a Al Qaeda está jantando a gente na internet'. Já não é mais assim. A Al Qaeda continua parada na Web 1.0. A internet agora é interatividade e conversação".

CRÍTICA São alegações fortes e intrigantes. Que importa quem janta quem na internet? As pessoas que estão no Facebook são mesmo a nossa grande esperança? Quanto à chamada revolução via Twitter na Moldova, Evgeny Morozov, pesquisador na Universidade Stanford que vem sendo um dos mais persistentes críticos do evangelismo digital, aponta que a importância do Twitter é quase nula na Moldova, onde existem pouquíssimas contas desse serviço.
E o que aconteceu lá tampouco parece ter sido uma revolução, especialmente porque as manifestações -como sugeriu Anna Applebaum em artigo no "Washington Post"- na verdade podem ter sido uma encenação organizada pelo governo. (Num país paranoico com o revanchismo romeno, os manifestantes hastearam uma bandeira da Romênia na sede do Parlamento.)
Já no caso do Irã, as pessoas que usaram o Twitter para comentar as manifestações viviam quase todas no Ocidente. "É hora de esclarecer o papel do Twitter nos acontecimentos do Irã", escreveu Golnaz Esfandiari meses atrás, na revista "Foreign Policy". "Em resumo: no Irã, não houve revolução via Twitter."
O elenco de blogueiros proeminentes, como Andrew Sullivan, que defendeu o papel da rede social no Irã, acrescentou Esfandiari, não entendeu direito a situação. "Jornalistas ocidentais que não conseguiam -ou nem mesmo tentavam- se comunicar com gente no Irã simplesmente percorriam a lista de 'tweets' em inglês, contendo a tag #iranelection", 2 escreveu ela. "Enquanto isso, ninguém parece ter se perguntado por que pessoas que supostamente tentavam coordenar os protestos no Irã não estariam se comunicando em farsi, mas em outro idioma".
Parte dessa grandiloquência é previsível. Inovadores tendem ao solipsismo. Volta e meia se empenham em enquadrar em seus novos modelos os fatos e experiências mais díspares.
Como escreveu o historiador Robert Darnton, "as maravilhas da tecnologia de comunicação no presente produziram uma falsa consciência sobre o passado -e até mesmo a percepção de que a comunicação não tem história, ou nada teve de importante a considerar antes dos dias da televisão e da internet".

ENTUSIASMO Mas há mais um fator em jogo nesse desproporcional entusiasmo em relação às redes sociais. Cinquenta anos depois de um dos mais extraordinários episódios de sublevação social na história dos EUA, parece que esquecemos o que é ativismo.
No começo dos anos 60, Greensboro era o tipo do lugar onde a insubordinação racial era rotineiramente reprimida com violência. Os quatro primeiros universitários a se sentar ao balcão reservado aos brancos estavam apavorados. "Se alguém tivesse chegado por trás de mim e gritado 'bu', acho que eu cairia no chão", disse um deles mais tarde.
No primeiro dia, o gerente notificou o chefe de polícia, que imediatamente enviou dois policiais para a loja. No terceiro dia, um grupo de brutamontes brancos apareceu na lanchonete e se postou ameaçadoramente atrás dos manifestantes, proferindo epítetos como "crioulo de cabelo ruim". Um líder local da Ku Klux Klan apareceu. No sábado, enquanto a tensão crescia, alguém telefonou e deu um alarme falso de bomba e a loja teve de ser evacuada.
Os perigos eram mais claros no Mississippi Freedom Summer Project de 1964, outra campanha pioneira do movimento pelos direitos civis. O Student Nonviolent Coordinating Committee recrutou centenas de voluntários não remunerados no norte dos EUA, quase todos brancos, para lecionar nas Freedom Schools, alistar eleitores negros e promover os direitos civis no sul profundo.
"Ninguém pode ir sozinho a lugar nenhum, muito menos de carro e à noite", eram as instruções dadas aos voluntários. Poucos dias depois de chegarem ao Mississippi, três deles -Michael Schwerner, James Chaney e Andrew Goodman- foram sequestrados e assassinados; até o final daquele verão, 37 igrejas negras seriam incendiadas e dezenas de casas usadas como abrigos foram atacadas com bombas; voluntários foram espancados, alvejados e perseguidos por picapes repletas de homens armados. Um quarto dos participantes do programa desistiram. Ativismo que desafia o status quo -e ataca problemas profundamente enraizados- não é para bundas-moles.

COMPROMISSO O que leva uma pessoa a esse tipo de ativismo? Doug McAdam, sociólogo na Universidade Stanford, comparou os desertores do programa Freedom Summer com os que optaram por ficar, e descobriu que a diferença crucial, ao contrário do que se poderia esperar, não era o fervor ideológico. "Todos os inscritos -tanto os que ficaram quanto os que desistiram- estavam altamente comprometidos com a causa e eram partidários articulados das metas e valores do programa", concluiu.
O fator decisivo foi o grau de conexão pessoal entre a pessoa e o movimento pelos direitos civis. Pedia-se a todos os voluntários que fornecessem uma lista de contatos pessoais -as pessoas que desejavam manter a par de suas atividades-, e assim a probabilidade de ter amigos que também estivessem indo ao Mississippi era bem mais alta entre os que ficaram do que entre os que abandonaram o programa. O ativismo de alto risco, concluiu McAdam, é um fenômeno de "vínculos fortes".
O padrão se repete em boa parte de casos. Um estudo sobre as Brigate Rosse [Brigadas Vermelhas], grupo terrorista italiano dos anos 70, constatou que 70% de seus recrutas já tinham pelo menos um grande amigo na organização. O mesmo se aplica aos homens que aderiram aos Mujahideen do Afeganistão. Até mesmo manifestações revolucionárias que parecem espontâneas, como as que conduziram à queda do Muro de Berlim, na Alemanha Oriental, são, em seu âmago, fenômenos de vínculos fortes.
O movimento oposicionista da Alemanha Oriental consistia em centenas de grupos, cada qual formado por cerca de uma dúzia de membros. Cada grupo tinha contato limitado com os demais: na época, apenas 13% dos alemães orientais tinham telefone. Tudo o que sabiam era que, nas noites de segunda, diante da igreja de São Nicolau, no centro de Leipzig, as pessoas se reuniam para expressar sua ira contra o Estado. E o determinante primário daqueles que compareciam eram os "amigos críticos" -quanto mais amigos críticos ao regime uma pessoa tivesse, maior a probabilidade de adesão ao protesto.

LIGAÇÕES Portanto, um fato crucial sobre os quatro calouros que foram à lanchonete segregada de Greensboro -David Richmond, Franklin McCain, Ezell Blair e Joseph McNeil- eram as ligações mútuas que mantinham. McNeil dividia o quarto com Blair no alojamento da A&T. No andar de cima, Richmond dividia o quarto com McCain; e Blair, Richmond e McCain foram alunos da Dudley High School.
Os quatro levavam cerveja às escondidas para o alojamento e conversavam noite afora, no quarto de Blair e McNeil. Tinham na memória o assassinato de Emmett Till, em 1955; o boicote aos ônibus de Montgomery, no Alabama, no mesmo ano; e o confronto em Little Rock, no Arkansas, em 1957.
Foi McNeil que apareceu com a ideia do protesto na Woolworth's. Discutiram o assunto por quase um mês. Um dia, McNeil entrou no quarto e perguntou aos amigos se estavam prontos.
Houve uma pausa e McCain disse, de um jeito que só funciona entre amigos que passaram longas madrugadas conversando: "Vocês vão arregar ou vamos em frente?". Ezell Blair tomou coragem para pedir aquele café, no dia seguinte, porque estava na companhia de seu colega de quarto e de dois grandes amigos desde o ensino médio.

VÍNCULOS FRACOS O ativismo associado às redes sociais nada tem em comum com isso. As plataformas dessas redes são construídas em torno de vínculos fracos. O Twitter é uma forma de seguir (ou ser seguido por) pessoas que talvez nunca tenha encontrado cara a cara. O Facebook é uma ferramenta para administrar o seu elenco de conhecidos, para manter contato com pessoas das quais de outra forma você teria poucas notícias. É por isso que se pode ter mil "amigos" no Facebook, coisa impossível na vida real.
Sob muitos aspectos, isso é maravilhoso. Há força nos vínculos fracos, como observou o sociólogo Mark Granovetter. Nossos conhecidos -e não nossos amigos- são a nossa maior fonte de novas ideias e informações. A internet nos permite explorar a potência dessas formas de conexão distante com eficiência maravilhosa.
É sensacional para a difusão de inovações, para a colaboração interdisciplinar, para integrar compradores e vendedores e para as funções logísticas das conquistas amorosas. Mas vínculos fracos raramente conduzem a ativismo de alto risco.

VIRTUDES Em um livro chamado "The Dragonfly Effect - Quick, Effective, and Powerful Ways to Use Social Media to Drive Social Change" [O Efeito Libélula - Maneiras Rápidas, Efetivas e Poderosas de Utilizar Redes Sociais para Promover Mudanças Sociais, ed. Jossey-Bass], o consultor de negócios Andy Smith e Jennifer Aaker, professora na escola de admininistração de empresas de Stanford, contam a história de Sameer Bhatia, jovem empresário do Vale do Silício que um dia descobriu estar sofrendo de leucemia mielálgica aguda. O caso serve como perfeita ilustração sobre as virtudes das redes sociais.
Bhatia precisava de um transplante de medula óssea, mas não encontrou doador entre seus parentes e amigos. As chances seriam maiores caso o doador tivesse sua etnia, e havia poucos doadores do sul da Ásia no banco de dados de medula óssea americano.
Por isso, o sócio de Bhatia enviou um e-mail no qual explicava o problema do amigo a mais de 400 de seus conhecidos, que por sua vez o encaminharam a seus contatos; páginas de Facebook e vídeos no YouTube foram criados para a campanha Help Sameer. Por fim, quase 25 mil novos doadores se inscreveram no banco de dados e Bhatia encontrou um compatível com ele.
Mas como a campanha conseguiu a adesão de tanta gente? Porque não pedia nada de mais aos participantes. É a única forma de conseguir que alguém que você não conhece de verdade faça alguma coisa em seu benefício. Dá para conseguir que milhares de pessoas se inscrevam como doadores porque fazê-lo é facílimo. Basta enviar uma amostra simples de material genético -no altamente improvável caso de que a medula óssea do doador seja compatível com alguém que precise- passar algumas horas no hospital.
Doar medula óssea não é trivial. Mas não envolve risco financeiro ou pessoal; não implica passar um verão inteiro sendo perseguido por picapes repletas de homens armados. Não requer confronto com normas e práticas sociais arraigadas. Na verdade, é o tipo do engajamento que só traz elogios e reconhecimento social.

DISTINÇÃO Os evangelistas das redes sociais não compreendem essa distinção; parecem acreditar que um amigo de Facebook e um amigo real são a mesma coisa, e que se inscrever em uma lista de doadores no Vale do Silício, hoje, é ativismo no mesmo sentido que pedir um café num restaurante segregado de Greensboro em 1960.
"As redes sociais são especialmente eficazes para reforçar a motivação", escreveram Aaker e Smith. Mas não é verdade. As redes sociais são eficazes para ampliar a participação -mas reduzindo o nível de motivação que a participação exige.
A página da Save Darfur Coalition no Facebook tem 1.282.339 membros, cuja doação média é de nove centavos de dólar per capita. A segunda maior entidade de assistência a Darfur no Facebook tem 22.073 membros, e suas doações per capita são de 35 centavos de dólar. A Help Save Darfur tem 2.797 membros, que doaram, em média, 15 centavos de dólar.
Um porta-voz da Save Darfur Coalition disse à revista "Newsweek" que "não avaliamos necessariamente o valor de alguém para o movimento com base nos montantes doados. Este é um mecanismo poderoso para promover o envolvimento de uma população crítica. Eles informam a comunidade, participam de eventos, fazem trabalho voluntário. Não é algo que se possa medir por números".
Em outras palavras, o ativismo no Facebook dá certo não ao motivar pessoas para que façam sacrifícios reais, mas sim ao motivá-las a fazer o que alguém faz quando não está motivado o bastante para um sacrifício real. Estamos muito longe do balcão da lanchonete de Greensboro.

CAMPANHA MILITAR Os estudantes que participaram de protestos no sul dos EUA nos primeiros meses de 1960 descreveram o movimento como "uma febre". Mas o movimento dos direitos civis tinha mais de campanha militar que de contágio.
No final dos anos 50, 16 protestos semelhantes haviam sido organizados em diversas cidades sulistas, 15 dos quais formalmente coordenados por organizações de direitos civis como a NAACP [sigla em inglês da Associação Nacional para o Progresso da População de Cor] e a CORE [sigla em inglês de Congresso da Igualdade Racial]. Possíveis locais para protestos foram mapeados. Traçaram-se planos. Ativistas do movimento promoveram sessões de treinamento e retiros com potenciais participantes.
Os quatro de Greensboro surgiram como produto desse trabalho de base: eram membros do Conselho da Juventude da NAACP. Tinham fortes ligações com o diretor da seção local da organização. Foram informados sobre a onda anterior de protestos em Durham, e participaram de uma série de reuniões do movimento em igrejas ativistas.
Quando os protestos se espalharam pelo sul a partir de Greensboro, a difusão não ocorreu de modo aleatório. Os protestos surgiram em cidades que já tinham células do movimento -núcleos de ativistas dedicados e treinados, prontos para converter a "febre" em ação.

ALTO RISCO O movimento dos direitos civis era ativismo de alto risco. Era também, e isso é importante, ativismo estratégico: um desafio ao establishment, montado com precisão e disciplina. A NAACP era uma organização centralizada, com comando em Nova York, segundo procedimentos operacionais altamente formalizados.
Na Southern Christian Leadership Conference, Martin Luther King Jr. (1929-68) exercia inquestionável autoridade. A igreja negra tinha posição central no movimento e, como aponta Aldon Morris em seu "The Origins of the Civil Rights Movement", esplêndido estudo publicado em 1984, mantinha uma divisão de tarefas cuidadosamente demarcadas, com diversos comitês permanentes e grupos disciplinados.
"Cada grupo tinha uma missão definida e coordenava suas atividades por meio de estruturas de autoridade", escreve Morris. "Os indivíduos eram responsáveis pelas tarefas que lhes eram designadas e conflitos importantes eram resolvidos pelo pastor, que em geral exercia a autoridade final sobre a congregação."

HIERARQUIA Essa é a segunda distinção crucial entre o ativismo tradicional e sua variante on-line: as redes sociais não se prestam a esse tipo de organização hierárquica.
O Facebook e sites semelhantes são ferramentas para a construção de redes e, em termos de estrutura e caráter, são o oposto das hierarquias. Ao contrário das hierarquias, com suas regras e procedimentos, as redes não são controladas por uma autoridade central e única. As decisões são tomadas por consenso, e os vínculos que unem as pessoas ao grupo são frouxos.
Essa estrutura torna as redes imensamente flexíveis e adaptáveis a situações de baixo risco. A Wikipédia é um exemplo perfeito. Não há um editor instalado em Nova York que direcione e corrija cada verbete. O esforço de produção de cada entrada é auto-organizado. Caso todos os verbetes da Wikipédia sejam apagados amanhã, o conteúdo será rapidamente restaurado, porque é isso que acontece quando uma rede de milhares de pessoas dedica tempo a uma tarefa espontaneamente.
Há, no entanto, muitas coisas que redes não fazem direito. As montadoras de automóveis, sensatamente, usam uma estrutura de rede para organizar suas centenas de fornecedores, mas não para projetar os carros. Ninguém acreditaria que a articulação de uma filosofia coerente de design funcionasse melhor na forma de um sistema organizacional disperso e sem líderes.
Carecendo de uma estrutura centralizada de liderança e de linhas de autoridade claras, as redes encontram dificuldades reais para chegar a consensos e estabelecer metas. Não conseguem pensar de modo estratégico; são cronicamente propensas a conflitos e erros. Como fazer escolhas difíceis sobre táticas, estratégias ou orientação filosófica quando todo mundo tem o mesmo poder?

PROBLEMAS A Organização para a Libertação da Palestina (OLP) surgiu como rede, e, em ensaio recentemente publicado no periódico "International Security", os especialistas em relações internacionais Mette Eilstrup-Sangiovanni e Calvert Jones argumentam que esse é o motivo para que a organização tenha encontrado tantos problemas ao crescer: "Traços estruturais característicos das redes -ausência de autoridade central, autonomia irrestrita de grupos rivais e incapacidade de arbitrar disputas por meio de mecanismos formais- tornaram a OLP excessivamente vulnerável à manipulação externa e às disputas internas".
"Na Alemanha dos anos 70", os dois prosseguem, "os terroristas de esquerda, muito mais unidos e bem-sucedidos, tendiam a se organizar hierarquicamente, com gestão profissional e clara divisão de tarefas. Estavam geograficamente concentrados nas universidades, onde podiam estabelecer liderança central, confiança e camaradagem por meio de reuniões regulares, cara a cara".
Era raro que entregassem seus companheiros de armas nos interrogatórios da polícia. Já seus equivalentes na direita se organizavam como redes descentralizadas e não mantinham disciplina semelhante. Era comum que esses grupos fossem infiltrados, e que seus membros, quando detidos pela polícia, entregassem facilmente seus companheiros. De forma semelhante, a Al Qaeda era mais perigosa quando mantinha uma hierarquia unificada. Agora que se dissipou em rede, vem se mostrando bem menos eficaz.

MUDANÇA SISTÊMICA As desvantagens das redes pouco importam quando não estão interessadas em mudança sistêmica -caso desejem apenas assustar, humilhar ou fazer barulho-, ou quando não precisam pensar estrategicamente. Mas, se o objetivo é combater um sistema poderoso e organizado, é preciso uma hierarquia. O boicote ao serviço de ônibus em Montgomery exigiu a participação de dezenas de milhares de pessoas que dependiam do transporte público para ir ao trabalho e voltar todo dia. E durou um ano.
A fim de persuadir as pessoas a se manterem fiés à causa, os organizadores encarregaram cada igreja negra local de manter o moral alto e montaram um sistema alternativo de transporte solidário que contava com 48 telefonistas e 42 pontos de parada. Até mesmo o Conselho de Cidadãos Brancos, King afirmou mais tarde, reconheceu que o sistema de transporte solidário funcionava com "precisão militar".
Quando King foi a Birmingham, no Alabama, para o confronto decisivo com o comissário de polícia da cidade, Eugene "Bull" Connor, contava com orçamento de US$ 1 milhão e uma equipe de 100 funcionários em período integral, já instalados na cidade e divididos em células operacionais. A ação foi dividida em fases, que se intensificavam gradualmente e eram mapeadas com antecedência. O apoio foi mantido por meio de sucessivas assembleias, num rodízio entre as igrejas da cidade.

LEGITIMIDADE MORAL Boicotes, protestos e confrontos não violentos -armas preferenciais do movimento pelos direitos civis- são estratégias de alto risco. Deixam pouca margem para conflito e erro. No momento em que um único manifestante abandona o roteiro e reage a uma provocação, a legitimidade moral de todo o protesto fica comprometida. Os entusiastas das redes sociais sem dúvida gostariam que acreditássemos que a tarefa de King em Birmingham seria imensamente facilitada se ele pudesse usar o Facebook para se comunicar com seus seguidores e se contentasse em enviar tweets de uma cela.
Mas as redes são confusas -pense no padrão incessante de correção e revisão, emendas e debates, que caracteriza a Wikipédia. Caso Martin Luther King tivesse tentado um "wiki-boicote" em Montgomery, teria sido esmagado pela estrutura do poder branco. E que uso teria uma ferramenta de comunicação digital numa cidade na qual 98% da comunidade negra podia ser contatada na igreja, todo domingo? Em Birmingham, King precisava de disciplina e estratégia, o tipo de coisas que as redes sociais não são capazes de fornecer.

PODER DE ORGANIZAÇÃO A bíblia do movimento das redes sociais é "Here Comes Everybody", de Clay Shirky, professor na Universidade de Nova York. Ele procura demonstrar o poder de organização da internet e começa pela história de Evan, que trabalhava em Wall Street, e de sua amiga Ivanna, que esqueceu seu smart-phone, um caro Sidekick, no banco de um táxi nova-iorquino.
A companhia telefônica transferiu os dados do celular perdido de Ivanna a um novo aparelho e assim a proprietária e Evan descobriram que o Sidekick estava em posse de uma adolescente do Queens, que vinha usando o aparelho para tirar fotos de si mesma e de suas amigas.
Quando Evan lhe enviou um e-mail pedindo que devolvesse o celular, Sasha respondeu que ele era um "bundão branco" que não merecia tê-lo de volta. Irritado, ele montou uma página na web com uma foto de Sasha e uma descrição do ocorrido. Encaminhou o link aos amigos, que o repassaram a outros amigos. Alguém localizou a página do namorado de Sasha no MySpace e um link para ela foi criado no site.
Alguém descobriu o endereço dela na web e gravou um vídeo mostrando a casa quando passou de carro por lá; Evan postou o vídeo no site. A história ganhou destaque no Digg, um site agregador de notícias. Evan passou a receber dez e-mails por minuto. Criou um fórum on-line para que seus leitores contassem suas histórias, mas as visitas eram tantas que o servidor vivia caindo.
Evan e Ivanna procuraram a polícia, mas o boletim de ocorrência definia o celular como "perdido", e não "roubado", o que significava que, na prática, o caso estava encerrado.
"Àquela altura, milhões de leitores estavam acompanhando", escreve Shirky, "e dezenas de veículos da mídia convencional haviam mencionado a história". Cedendo à pressão, a polícia de Nova York reclassificou o celular como "roubado". Sasha foi detida e a amiga de Evan conseguiu o Sidekick de volta.
O argumento de Shirky é o de que esse é o tipo de coisa que jamais poderia ter acontecido na era anterior à internet -e ele tem razão. Evan não teria conseguido localizar Sasha.
A história do Sidekick jamais teria sido divulgada. Um exército de pessoas não se teria formado para participar da batalha. A polícia não teria cedido à pressão de uma pessoa só, por algo tão trivial quanto um celular perdido. O caso, na opinião de Shirky, ilustra "a facilidade e rapidez com que um grupo pode ser mobilizado para o tipo certo de causa" na era da internet.

PERIGO Na opinião de Shirky, esse modelo de ativismo é superior. Mas, na verdade, não passa de uma forma de organização que favorece as conexões de vínculo fraco que nos dão acesso a informações, em detrimento das conexões de vínculo forte que nos ajudam a perseverar diante do perigo.
Transfere nossas energias das entidades que promovem atividades estratégicas e disciplinadas para aquelas que promovem flexibilidade e adaptabilidade. Torna mais fácil aos ativistas se expressarem e, mais difícil, que essa expressão tenha algum impacto.
Os instrumentos de redes sociais estão aptos a tornar a ordem social existente mais eficiente. Não são inimigos naturais do status quo. Se, na sua opinião, o mundo só precisa de um ligeiro polimento, isso não deve lhe causar preocupação. Mas se você acredita que ainda existem lanchonetes por serem integradas ao mundo, essa tendência deveria incomodá-lo.
Grandiloquente, Shirky encerra a história do Sidekick perdido perguntando: "O que virá a seguir?" -e, sem dúvida, imagina futuras ondas de manifestantes digitais.
Mas ele mesmo já respondeu à pergunta. O que virá é a mesma coisa, repetidamente. Um mundo feito de redes e vínculos fracos é bom para coisas como ajudar gente de Wall Street a recuperar celulares das mãos de garotas adolescentes. Viva la revolución.


Nota do tradutor
1. Estados do sul dos EUA que se uniram contra os do norte do país durante a Guerra de Secessão (1861-65).
2. No serviço de microblogs Twitter, as "tags" são termos precedidos do símbolo #, utilizados para reunir todas as mensagens sobre um mesmo assunto, como #ilustrissima.

Cinquenta anos depois de um dos mais extraordinários episódios de sublevação social na história dos EUA, parece que esquecemos o que é ativismo

Ativismo que desafia o status quo -e ataca problemas profundamente enraizados- não é para bundas-moles

Os evangelistas das redes sociais não compreendem essa distinção; parecem acreditar que um amigo de Facebook e um amigo real são a mesma coisa

Até mesmo manifestações revolucionárias que parecem espontâneas, como as que conduziram à queda do Muro de Berlim, na Alemanha Oriental, são, em seu âmago, fenômenos de vínculos fortes

Ao contrário das hierarquias, com regras e procedimentos, as redes não são controladas por uma autoridade central. As decisões são tomadas por consenso, e os vínculos que unem as pessoas ao grupo são frouxos

Carecendo de uma estrutura centralizada de liderança e de linhas de autoridade claras, as redes encontram dificuldades reais para chegar a consensos e estabelecer metas

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