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domingo, 6 de junho de 2021

O arranjo do novo governo sionista e a resistência palestina - Sayid Marcos Tenório





Alternância no comando sionista não trará nenhum benefício para o povo palestino. É mais do mesmo.


por Sayid Marcos Tenório no Portal Vermelho

Publicado 05/06/2021 10:36 | Editado 05/06/2021 12:01
Naftali Bennett

Segundo a mídia internacional, o chefe do partido de direita Yamina, Naftali Bennett, deve assumir o cargo de primeiro-ministro da entidade sionista, derrotando Benjamin Netanyahu, o premiê que desde 2009 se mantém à frente do governo israelense, sem interrupção do mandato. Contudo, o novo gabinete só será anunciado na próxima quarta-feira (9), quando o Knesset, o Parlamento israelense, fará votação para aprovação do novo gabinete.

Apesar das previsões a respeito da escolha de Bennett, Netanyahu ainda busca uma última cartada, tentando provocar uma nova eleição, que poderia alterar a atual composição do Knesset para permanecer à frente do governo da ocupação. Manter-se no poder significa, para Netanyahu, não ter que responder as acusações de suborno, fraude e abuso de confiança que poderiam, caso fosse condenado, levá-lo a cumprir até 10 anos de prisão.

Este arranjo para formação do novo governo que envolve uma coalizão de oito partidos foi anunciado nos últimos minutos do prazo pelo líder do bloco de oposição no Knesset, Yair Lapid. O esforço do bloco será unificar partidos da direita e centro-direita sionistas que supera o apoio de 61 deputados, para formação do governo que incluirá o Yamina e Yesh Atid, mas também o Azul e Branco, liderados por Benny Gantz; Yisrael Beytenu, dirigido por Avigdor Lieberman; Nova Esperança, dirigido por Gideon Saar; o Partido Trabalhista, liderado por Marav Michaeli; Meretz, dirigido por Nitzan Horowitz; e o Ra’am, ou Lista Árabe Unida, liderada por Mansur Abbas.

Um fato que chamou a atenção, foi o anúncio de que os “árabes” estariam apoiando a nova composição política que governará a ocupação sionista. A Lista Árabe Unida (Ra’am) também conhecida como Movimento Islâmico, é um partido árabe religioso que elegeu quatro deputados nas últimas eleições e que fez parte da Lista Conjunta, uma coligação partidária “árabe” que incluía os partidos Balad, Hadash e Taal. Sua plataforma política concentra-se amplamente em questões socioeconômicas para os cidadãos palestinos, sem, no entanto, contestar a ocupação, as violações cotidianas de Israel contra palestinos, mesmo os que vivem nos territórios de 1948.

Apesar do que afirmam alguns analistas e até órgãos de mídia, a Lista Árabe e o seu líder Mansour Abbas, embora sejam considerados como uma organização islâmica na configuração política israelense, não mantém nenhum nível de relação direta com o Movimento de Resistência Islâmica – Hamas ou com a Jihad Islâmica Palestina. O Hamas rejeita fortemente a participação política no Knesset e não apoia qualquer iniciativa de composição de governo.

Em um comunicado de imprensa na noite da quarta-feira 2 de junho, o membro do Birô Político do Hamas, Izzat al-Rishq, declarou que o povo palestino não apoia nenhum governo sionista, e que alimenta esperanças apenas na “nossa valente resistência, para libertar todas as nossas terras palestinas ocupadas.”

A narrativa de que a Lista Árabe e seus integrantes são ligados ao Hamas, além da desonestidade intelectual, tem como objetivo confundir tanto a opinião pública israelense, quanto o movimento global de solidariedade pró-Palestina. Ao se associar a esse processo de formação de um novo governo de direita, a Lista Árabe age com o objetivo de ganhar benefícios para os seus integrantes e não para os árabes israelenses, que continuarão sendo tratados como cidadãos de segunda categoria pelos governos da ocupação sionista.

O Hamas não fez nenhuma declaração oficial ou se posicionou sobre a composição do novo Governo da entidade sionista. Simplesmente, porque a coalizão que está se formando para assumir o governo é composta por partidos da direita e centro-direita sionistas, incluindo o Ra’am. O pretenso novo premiê, Naftali Bennett, é tão ou mais radical de direita quanto Benjamin Netanyahu, no que se refere ao direito dos palestinos ao seu estado nacional soberano.

O entendimento é que essa alternância no comando sionista não trará nenhum benefício para o povo palestino. É mais do mesmo. A resistência continuará com o dedo no gatilho, porque a qualquer momento, seja Bennett ou Netanyahu, a entidade sionista desencadeará novas agressões com o objetivo de expandir a ocupação e negar os direitos do povo palestino ao seu Estado e o retorno dos refugiados. Por isso, o Hamas e as demais forças da resistência palestina continuarão lutando pelos direitos do povo, pela preservação dos locais sagrados, pela libertação dos presos políticos e pelo fim da ocupação em todos os territórios palestinos.

Outro ponto coincidente entre Netanyahu e Bennett, que causa preocupação, refere-se ao posicionamento a respeito dos aliados externos da resistência palestina, entre eles o Hezbollah, o Irã e a Síria. Ambos são capazes de uma aventura contra o Irã, por exemplo, com o único objetivo de mobilizar a os israelenses em torno dos seus objetivos de consagrar o projeto colonial e o apartheid na Palestina.

Mesmo sem vislumbrar mudança na composição do governo sionista, gostaríamos de salientar algumas mudanças no cenário interno e externo em Israel e na Palestina ocupada que podem sinalizar alterações principalmente na imagem de “bom mocismo” e na narrativa surrada do “direito legítimo de defesa” que Israel vem sustentando nas sete décadas de ocupação do território palestino.

O evidente fracasso militar e da inteligência da entidade sionista na recente agressão militar contra Gaza, a crescente impopularidade de Israel em todo o mundo, o fato de o Tribunal Penal Internacional ter iniciado inquérito sobre os crimes de guerra e de lesa-humanidade praticados contra a Faixa de Gaza desde 2014, se somam a recente decisão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que aprovou a abertura de investigação sobre os abusos de Israel nos territórios palestinos ocupados, após os episódios criminosos de maio deste ano. Esses fatos demonstram que Israel dificilmente vencerá batalhas contra palestinos em qualquer terreno.

Estamos assistindo os esforços dos políticos sionistas de direita e centro-direita onde a incapacidade de firmarem um acordo para compor o governo de ocupação, evidenciam a inviabilidade histórica e civilizacional do estado judeu, essa aberração criada após a partilha ilegal e injusta da Palestina Histórica em 1947. Por outro lado, é notório o crescimento mundial do sentimento de que povo palestino tem o legítimo direito de existir e de resistir ao apartheid e a limpeza ética com todas as medidas e métodos possíveis, inclusive com os mísseis da resistência.

Sayid Marcos Tenório
Historiador, Vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal) e autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência (Anita Garibaldi/Ibraspal, 2019). E-mail: sayid.tenorio@uol.com.br - Twitter: @HajjSayid

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Why do Palestinians continue to support Hamas despite such devastating losses? - By Noam Sheizaf - +972 Magazine


I know of many Palestinians who do not like Hamas. Yet for them, the Gaza war is about the siege – part of their own war of independence. Israelis refuse to get that.
In The Fog of War, Errol Morris’ excellent documentary, former U.S. Secretary of Defense Robert McNamara speaks about a certain inability to understand the enemy – one that stems from a lack of empathy.
In the film, McNamara, a brilliant systems analyst, who is today associated more than anything with the Vietnam War, says that part of President Kennedy’s successful management of the Cuban Missile Crisis was his administration’s ability to put itself in the shoes of the Soviets and understand their point of view. “In the case of Vietnam,” he says, “we didn’t know them well enough to empathize.” As a result, each side had a completely different understanding of what the war was about.
This understanding came to McNamara only in 1991, when he visited Vietnam and met with the country’s foreign minister. McNamara asked the foreign minister whether he thought it was possible to reach the same results of the war (independence and uniting the south with the north) without the heavy losses. Between one and three million people died in the war, most of them Vietnamese civilians. This does not include the hundreds of thousands of casualties in the war against the French, which took place shortly before. Approximately 58,000 American soldiers were also killed in the Vietnam War.
“You were fighting to enslave us,” yelled the foreign minister at McNamara, who in turn replied that that is an absurd notion. The two nearly came to blows. But as time passed McNamara understood. “We saw Vietnam as an element of the Cold War,” he says, whereas what the foreign minister was trying to tell him was that for the Vietnamese it was a war of independence. Communism was not the heart of the matter for the Vietnamese. They were willing to make the worst sacrifices because they were fighting for their freedom – not for Marx or Brezhnev.
Nations will make inconceivable sacrifices in these kinds of struggles. An entire one percent of the Jewish population was killed in the 1948 war. The public accepted it painfully and with a stiff upper lip because they felt, just like the Vietnamese, that they were fighting for their lives and for their freedom. We have become so much more susceptible to loss, not because we went soft, but because we have a deeper understanding that despite all the “we’re fighting for our future” slogans, 2014 is not 1948.
Over 2,000 Palestinians were killed in all three military operations in Gaza, not including the Second Intifada. Most of them were civilians. I’ve exchanged emails with people in Gaza in the past few days. These are people who don’t care much for Hamas in their everyday lives, whether due to its fundamentalist ideology, political oppression or other aspects of its rule. But they do support Hamas in its war against Israel; for them, fighting the siege is their war of independence. Or at least one part of it.
+972′s full coverage of the war in Gaza
The demand that the people of Gaza protest against Hamas, often heard in Israel today, is absurd. Even if we disregard the fact that Israelis themselves hate protests in times of war, they still expect the Palestinians to conduct a civil uprising under fire. The people of Gaza support Hamas in its war against Israel because they perceive it to be part of their war of independence. A Hamas warrior who swears by the Quran is no different from a Vietcong reciting The Internationale before leaving for battle. These kind of rituals leave a strong impression, but they are not the real story.
Israelis, both left and right, are wrong to assume that Hamas is a dictatorship fighting Israel against its people’s will. Hamas is indeed a dictatorship, and there are many Palestinians who would gladly see it fall, but not at this moment in time. Right now I have no doubt that most Palestinians support the attacks on IDF soldiers entering Gaza; they support kidnapping as means to release their prisoners (whom they see as prisoners of war) and the unpleasant fact is that most of them, I believe, support firing rockets at Israel.
“If we had planes and tanks to fight the IDF, we wouldn’t need to fire rockets,” is a sentence I have heard more than once. As an Israeli, it is unpleasant for me to hear, but one needs to at least try and understand what lies behind such a position. What is certain is that bombing Gaza will not change their minds. On the contrary.
A Palestinian crying near rubbles of his home after the latest round of Israeli attacks against Al Shaja'ia, Gaza City, July 20, 2014.  (Anne Paq/Activestills.org)
A Palestinian crying near rubbles of his home after the latest round of Israeli attacks against Al Shaja’ia, Gaza City, July 20, 2014. (Anne Paq/Activestills.org)
“But if they didn’t fire rockets or launch terror attacks there would be no siege. So what do they want?” the Israeli public asks. After all, we already left Gaza.
Back to McNamara and The Fog of War. If the citizens of Vietnam would have abandoned Communism, McNamara told the Vietnamese foreign minister 1991, the U.S. wouldn’t have even cared about them. They could have had both their independence and their unity. But in the eyes of the Vietnamese, things looked completely different. As soon as they managed to drive out the French, in marched the Americans. Colonialism simply never stopped. The choice was between a corrupt U.S.-sponsored regime in the south and a horrific war with the north.
For the Palestinians, the choice is between occupation by proxy in the West Bank and a war in Gaza. Both offer no hope, and neither are forms of freedom. The Israeli promise — that an end to armed struggle will bring freedom — is not trustworthy, as the experiences of past years has shown. It simply never happens. The quiet years in the West Bank have not brought the Palestinians any closer to an independent state, while the truce in between wars in Gaza has not brought about a relief from the siege. One can debate the reasons for why this happened, but one cannot debate reality.
Hamas tells the Palestinians the simple truth: freedom comes at the cost of blood. The tragedy is that we usually provide the evidence. After all, the evacuation of settlements in Gaza came after the Second Intifada, not as a result of negotiations. The Oslo Accords came after the First Intifada; before that, Israel turned down even the convenient London Agreement between Shimon Peres and Jordan’s King Hussein.
Israelis are convinced they are fighting a terror organization driven by a fundamentalist Islamic ideology. Palestinians are convinced Israelis are looking to enslave them, and that as soon as the war is over the siege will be reinforced. Since this is exactly what Israel intends to do, as our government has repeatedly stated, they have no reason to stop fighting.
Hamas may accept a ceasefire soon. Its regime might collapse. Either way, it is only a matter of time before the next round of violence. Human lives are not cheaper for Palestinians than they are for us. But nations fighting for their freedom will endure the worst sacrifices. Like in Shujaiyeh.
***
An excerpt from The Fog of War. The part I refer to starts at 11:46 minutes:
Originally posted in Hebrew on Local Call.



Noam Sheizaf
I am an independent journalist and editor. I have worked for Tel Aviv’s Ha-ir local paper, for Ynet.co.il and for the Maariv daily, where my last post was deputy editor of the weekend magazine. My work has recently been published in Haaretz, Yedioth Ahronoth, The Nation and other newspapers and magazines. More…
I was born in Ramat-Gan and today live and work in Tel Aviv. Before working as a journalist, I served four and a half years in the IDF.


terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Johann Hari: Verdadeira história não é a contada por Israel

www.vermelho.org.br
29 DE DEZEMBRO DE 2008 - 19h28

O mundo não está assistindo apenas aos crimes que Israel está cometendo em Gaza; estamos também assistindo à autodestruição de Israel.


Por Johann Hari, no The Independent



Esta manhã (29), amanhã de manhã e todas as manhãs, até que termine essa matança de palestinos, o ódio a Israel só aumentará, cada dia haverá mais ódio e mais os palestinos lutarão, com pedras, com coletes explosivos, com foguetes, com palavras. Os líderes israelenses crêem que quanto mais massacrem os palestinos, mais os amansarão. Já se foram esses tempos de medo, entre os palestinos. O ódio a Israel, hoje, lá, é duro, impenetrável. E os sentimentos mais primitivos, mais basais, de quem só aprendeu que viver é sobreviver em guerra, lá estarão esperando sempre, à beira da história, brutais.


Para entender o quanto é terrível ser palestino na manhã de hoje, é preciso ter estado lá, numa estreita faixa de terra à beira do Mediterrâneo, e ter experimentado na pele aquela claustrofobia quase insuportável. A Faixa de Gaza é menor que a ilha Wight. Mas lá vivem 1,5 milhão de pessoas que jamais podem sair de lá. Vivem amontoados uns sobre os outros, sem trabalho e com fome, em imensos prédios de quartos muito pequenos. Da laje superior dos prédios, vêem-se todos os limites daquele mundo: o Mediterrâneo e a cerca de arame farpado dos israelenses. Quando começam os bombardeios – como hoje, mais violentos do que nunca, desde 1967 –, não há onde se abrigar.


Começa agora outra guerra, em que se disputa o significado desses ataques de Israel, em 2008. O governo israelense diz: "Nos retiramos de Gaza em 2005 e, em troca, ganhamos o Hamás e os foguetes Qassam que destroem nossas cidades. 16 civis israelenses morreram. Quantos mais serão sacrificados?" É uma narrativa plausível, com vestígios de verdade. Mas com muitos buracos. Para entender o que realmente está acontecendo e conseguir que os foguetes parem, é preciso voltar um pouco, alguns anos, e analisar melhor os prolegômenos da guerra de hoje.


É verdade que Israel retirou-se da Faixa de Gaza em 2005 – para intensificar o controle sobre a Cisjordânia. O principal conselheiro de Ariel Sharon, Dov Weisglass, disse claramente: "A retirada [de Gaza] é o anestésico. Anestesiará a situação, o suficiente para que não haja processo político ou discussão política com os palestinos. Apagamos da agenda, por longo tempo, toda e qualquer discussão sobre o pacote chamado "Estado da Palestina"."


Os palestinenses comuns ficaram horrorizados. Mais horrorizados ainda, pela fétida corrupção dos líderes de sua própria Fatah. E então votaram no Hamás. Eu não votaria no Hamás – jamais votaria em partido político com fundamento religioso –, mas... não sejamos hipócritas. As eleições foram democráticas, livres e perfeitas e não implicaram rejeição à Solução dos Dois Estados. A melhor pesquisa que se conhece, sobre tendências de opinião entre os palestinenses, feita pela University of Maryland, constatou que 72% dos palestinenses são favoráveis à Solução dos Dois Estados, conforme às fronteiras de 1967; e apenas 20% votariam pelo fim de Israel. Então, parcialmente por efeito dessa pressão popular, o Hamás ofereceu a Israel um longo cessar-fogo e aceitou, na prática, a Solução dos Dois Estados. Bastaria que Israel cumprisse o seu dever legal de manter-se dentro de suas fronteiras legais.


Em vez de colher essa oportunidade e de testar as reais intenções do Hamás, o governo de Israel reagiu brutalmente – e puniu, com genocídio, toda a população civil de Gaza. Anunciou o bloqueio da Faixa de Gaza, para "pressionar" os palestinos a revogar o resultado das urnas. Sitiaram os palestinenses dentro da Faixa de Gaza. Vedaram completamente qualquer possibilidade de contato com o mundo exterior. Racionaram comida, combustível, remédios – para impedir que sobrevivessem. Nas palavras de Weisglass, os palestinenses de Gaza estavam sendo postos "em dieta". A Oxfam denunciou que só foram autorizados a entrar em Gaza 137 caminhões com alimentos, em dezembro. Para alimentar 1,5 milhão de pessoas. A ONU e já declarou repetidas vezes, que a miséria em Gaza já alcançou "níveis sem precedentes".


Na última vez que estive em Gaza, já sob sítio dos israelenses, vi hospitais mandando doentes de volta para casa, porque não havia nem remédios nem aparelhos para atendê-los. Vi crianças revirando o lixo, pelas ruas, à procura de comida.


Nesse contexto – sob sentença de morte coletiva, sob ataque genocida, urdido para gerar efeitos de golpe de Estado e derrubar um governo democraticamente eleito –, então, alguns grupos dentro de Gaza adotaram solução imoral: puseram-se a bombardear, com foguetes Qassam, de quintal, indiscriminadamente, cidades israelenses. Nesses ataques, mataram 16 cidadãos israelenses. É crime. Matar sempre é crime. Mas é hipocrisia que, hoje, o governo israelense fale de defender a segurança de seus cidadãos, depois de ter passado anos assassinando civis. Depois de ter feito, do assassinato, a única política de Estado, em Israel.


Os governos dos EUA e alguns governos europeus têm fingido que não sabem disso. Dizem que não se pode exigir que Israel negocie com o Hamás, enquanto o Hamás não suspender os ataques com foguetes Qassam. Mas exigem que a Palestina negocie, apesar do sítio, apesar do bloqueio, apesar da brutal ocupação militar na Cisjordânia.


Antes de que tudo se apague no abismo dos esquecimentos construídos, lembremos que, semana passada, o Hamás propôs um cessar-fogo, em troca de alguns compromissos básicos e aceitáveis para Israel. Não precisam acreditar só em mim.


A imprensa em Israel noticiou que Yuval Diskin, atual chefe do Shin Bet, serviço interno de segurança de Israel, "informou ao governo israelense [dia 23/12] que o Hamás está interessado em manter a trégua, com apenas pequenas modificações nos termos do acordo." Diskin explicou que o Hamás desejava duas coisas: o fim do bloqueio de Gaza e que Israel parasse com os ataques na Cisjordânia. O gabinete – acometido de febre eleitoral e interessado em mostrar-se 'durão' aos eleitores – rejeitou tudo.


O núcleo duro da situação foi bem claramente exposto por Ephraim Halevy, ex-chefe do Mossad. Diz que, embora os militantes do Hamás – como boa parte da direita israelense – sonhem com varrer do mundo os adversários políticos, "eles já perceberam que esse objetivo ideológico não é viável e não será viável no futuro próximo." Então, "estão prontos a aceitar um Estado da Palestina, nos limites das fronteiras de 1967." Os militantes do Hamás sabem que isso significa "que terão de adotar um caminho que provavelmente os afastará de seus objetivos iniciais" – e levará a uma paz estável, sob acordo difícil de romper por qualquer dos dois lados.


Os 'do contra", dos dois lados – de Máhmude Ahmadinejad do Iran, a Bibi Netanyahu, de Israel – ficariam marginalizados. É a única via possível que ainda pode levar a paz. E é a única via que não interessa ao atual governo de Israel. Halevy explica bem: "Por razões que só interessam ao atual governo de Israel, não interessaria a Israel aceitar o cessar-fogo e convertê-lo em início de um processo de negociação diplomática com o Hamás."


Por quê? O governo de Israel quer a paz, mas só se for a paz imposta por Israel, nas condições que Israel determine e que sempre implicarão que os palestinos sejam definidos como derrotados. Assim, Israel poderá manter, do "seu" lado do muro, os cadeados que fecham a Cisjordânia. Assim, Israel poderá controlar as maiores colônias e o suprimento de água. Assim, a Palestina será dividida (e caberá ao Egito a responsabilidade sobre Gaza) e a Cisjordânia, com a espinha dorsal partida, ficará isolada. Qualquer tipo de negociação cria riscos para o sucesso desse 'plano': Israel sempre terá de ceder mais do que deseja ceder.


Ao mesmo tempo, qualquer paz imposta deixará de ser confiável: e continuarão a chover sobre Israel os foguetes da fome que gera ódio.


Se quer obter real segurança para os israelenses, o governo de Israel, mais dia menos dia, será obrigado a negociar com os palestinos que hoje Israel está matando; terá de obter deles alguma solidariedade e alguma compreensão. E Israel dependerá disso, para continuar existindo.

O som dos incêndios de Gaza pode ser silenciado pelas palavras de um escritor israelense, Larry Derfner. Diz ele: "A guerra entre Israel e Gaza é guerra inventada por Israel. A decisão de pôr fim à guerra não cabe ao Hamás. Cabe a nós. Cabe a Israel."


Leia também em Rebelión:




Guernica en Gaza
O impressionante depoimento de um morador da Faixa de Gaza durante os atuais ataques de Israel ao povo palestino


Vittorio Arrigoni
Il Manifesto/freegaza


Mi apartamento en Gaza está frente al mar, una vista panorámica que siempre hace milagros para mi humor, desafiado a menudo por toda la miseria que puede causar una vida en estado de sitio. Es decir, antes de esta mañana cuando el infierno golpeó a mi ventana. Esta mañana despertamos en Gaza con el sonido del estallido de bombas, y muchas cayeron a unos pocos cientos de metros de mi casa. Algunos de mis amigos murieron bajo ellas. Hasta ahora las víctimas mortales llegan a 210, pero la cantidad va a aumentar dramáticamente. Es un baño de sangre sin precedentes. Han arrasado el puerto frente a mi ventana, y pulverizado las comisarías. Me dicen que los medios occidentales han asimilado y repiten los comunicados de prensa emitidos por los militares israelíes, según los cuales los ataques apuntaron sólo a guaridas terroristas de Hamas, con precisión quirúrgica. (Continua)

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