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terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

A reorganização do PCdoB - A Conferência de Fevereiro de 1962 - João Amazonas, a última entrevista



No dia 18 de fevereiro de 1962 teve lugar, na rua do Manifesto, bairro do Ipiranga, na cidade operária de São Paulo, uma conferência extraordinária do Partido Comunista do Brasil. Participaram dela delegados de vários estados. Entre eles estavam dirigentes históricos do Partido como João Amazonas, Maurício Grabois, Pedro Pomar, Kalil Chade, Lincoln Oest, Carlos Danielli, Ângelo Arroyo, Elza Monnerat, entre outros.

Por Augusto Buonicore*
Publicado em 18/02/2020
O evento aparentemente modesto revestiu-se de uma grande importância histórica para o povo e os trabalhadores brasileiros. Tratava-se naquela ocasião de reorganizar o Partido Comunista do Brasil, que estava sendo ameaçado em sua existência por um surto revisionista de direita. Poucos ainda tinham consciência da importância daquele “ato fundador”.


O dia 18 de fevereiro é aniversário da Conferência Nacional Extraordinária do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), que decidiu reorganizar o antigo Partido fundado em 1922, após longa e aturada luta interna. A conferência de 1962 na prática refundou o Partido Comunista do Brasil sobre bases revolucionárias e deu início a um esforço, que se estende até os nossos dias, de formação e consolidação de um núcleo marxista-leninista no Brasil.

Publicado em 19/02/2017
José Reinaldo Carvalho: Conferência de 1962: vitória da luta contra o oportunismo de direita

A Reorganização do PCdoB em 18 de fevereiro de 1962

O programa Democracia no Ar desta terça-feira (18/02) recebe o presidente do Partido Comunista do Brasil (CE), Luís Carlos Paes, para falar sobre a reorganização da agremiação a partir de 1962 e revisitar o momento histórico pelo qual passava a conjuntura brasileira.

Apresentado por Sara Goes e comentado por Antonio Ibiapino, o programa vai ar das 10h às 11h, através do Youtube e demais redes vizinhas:

http://www.youtube.com/@TVAtitudePopular
https://www.instagram.com/atitudepopular
https://www.facebook.com/atitudepopular


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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Maria Prestes, guerreira da luta pelo socialismo - Luciana Santos - PCdoB de Luto


Luciana exalta a militante comunista como uma das militantes que atravessou todas as lutas pelo socialismo desde sua juventude, acompanhando o líder comunista Luiz Carlos Prestes desde os anos 1950, até sua morte em 1990.

Maria Prestes e luta pela memória de Luiz Carlos Prestes

A presidenta nacional do Partido Comunista do Brasil e vice-governadora de Pernambuco, Luciana Santos, divulgou nota de pesar pelo falecimento de Maria Prestes, nesta sexta-feira, 4 de fevereiro, em decorrência de covid.

Luciana exalta a militante comunista como uma das militantes que atravessou todas as lutas pelo socialismo desde sua juventude, acompanhando o líder comunista Luiz Carlos Prestes desde os anos 1950, até sua morte em 1990.

Ela também destaca a amizade e carinho que o PCdoB mantinha por ela, que juntos produziram alguns gestos em honra da memória de Luiz Carlos Prestes e sua luta árdua que atravessou todo o século XX.Leia a íntegra da nota:

Maria Prestes, grande brasileira, guerreira da luta pelo socialismo

Com imenso pesar, o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) registra o falecimento, aos 92 anos, nesta sexta-feira (4) de dona Maria Prestes, personalidade de destaque na luta do povo brasileiro.

Maria Prestes, ao longo de mais setenta anos de militância comunista, deixa um grande legado revolucionário. Expressamos, neste momento de dor, nossa solidariedade aos familiares – entre os quais, Ana Maria Prestes, da direção nacional do PCdoB, neta de dona Maria –, amigos e camaradas. Nossos sentimentos mais afetuosos e profundos.

Desde os 13 anos de idade, no final da primeira metade do século passado, engajada, ao lado do pai, João Rodrigues Sobral, dirigente do PCB, Maria Prestes percorre a história brasileira participando como militante comunista de grandes lutas nacionais.

Enfrentou as garras do Estado do Novo e do governo do general Eurico Gaspar Dutra, e depois a truculência da ditadura militar. Padeceu em prisões, enfrentou dificuldades extremas, inerentes à vida do povo, e, depois, o exílio. Mas, apesar dessas agruras, dona Maria tinha resistência, fibra, convicções, compromissos revolucionários com a classe trabalhadora, de quem era filha, e com o socialismo, cuja bandeira sempre manteve ao alto.Em 1952, quando tinha apenas 20 anos de idade, o Partido designou dona Maria para a segurança de Prestes em São Paulo. Depois de algum tempo, na clandestinidade, dona Maria e Prestes se casaram e tiveram sete filhos.

Após o golpe de 1964, Prestes, então líder máximo do Partido Comunista Brasileiro (PCB), se exilou com a família na União Soviética, onde viveram por dez anos. Ao voltar ao Brasil, deixou aquela agremiação partidária, se filiou ao Partido Democrático Trabalhista (PDT), liderado por Leonel Brizola, do qual foi presidente de honra.

Após a morte de Prestes, em 7 de março de 1990, dona Maria seguiu firme na luta pelo socialismo e pelos direitos povo. E, também, junto com seus filhos, filhas, netos e netas, se dedicou a disseminar às novas gerações o legado revolucionário do “Velho”, seu companheiro e camarada Prestes.

Foi amiga estimada do PCdoB, participando de atividades como a restituição simbólica pelo Senado do mandato de Prestes, eleito em 1945 e cassado em 1948, em 22 de maio de 2013, por iniciativa do senador comunista Inácio Arruda. Em 2014, a Fundação Maurício Grabois produziu um documentário em vídeo e livro sobre sua passagem pelo trajeto da Coluna Prestes no Rio Grande do Sul, acompanhada dos filhos do casal Mariana e Luís Carlos. A Fundação Maurício Grabois, também, apoiou uma das edições de seu livro, Meu companheiro, 40 anos ao lado de Luiz Carlos Prestes. Participou, ainda, de atividades da Escola do Partido.

A luta pelo socialismo perde uma de suas guerreiras, mas seu exemplo e legado enchem de esperança os que seguem levantando sua bandeira e inspiram as novas gerações que seguirão seu caminho. O PCdoB, comovido e honrado por ter convivido e se enriquecido com suas contribuições, rende as mais sentidas homenagens à sua memória. Dona Maria viverá para sempre na memória e na luta dos que batalham por um mundo de paz e justiça.

Recife, 4 de fevereiro de 2022

Luciana Santos

 

Veja também:

 

sábado, 11 de dezembro de 2021

PCdoB lança Livro de Imagens do Centenário Gratuito em PDF - Baixe no Portal Grabois

 Um centenário para se ver, sentir e impulsionar a jornada transformadora

#PCdoB

Livro de imagens retrata a história de cem anos de lutas e conquistas do Partido Comunista do Brasil. Disponível gratuitamente em versão eletrônica (abaixo) é um resgate de parte da luta do povo brasileiro. 
Veja a apresentação dos Editores no Portal da Fundação Maurício Grabois e baixe gratuitamente

Visite a Fundação Maurício Grabois




quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Toda noite tem aurora - Paulo Vinícius Silva


Toda noite — tem aurora,
Raios — toda a escuridão.
Moços, creiamos, não tarda
A aurora da redenção.
Castro Alves



Meus heróis não morreram de overdose. Foram perseguidos, caluniados, presos, torturados, crucificados, cortaram-se-lhes em partes, penduraram-nos para que o povo visse e aprendesse, salgaram o solo de suas casas, roubaram-lhes os corpos para que nem os prantear se pudesse. Meus heróis e heroínas foram assassinados pelos poderosos. E os que viveram sofreram a demonização que - vã ilusão - visava a nos afastar de seu exemplo.

Em meio às mobilizações em solidariedade a Lula e em defesa da Democracia em Porto Alegre, estive no Memorial de Prestes, do Niemeyer, e vi muito da trajetória dolorosa e gloriosa do Cavaleiro da Esperança. E eu me comovi. Lembrei de Prestes, de Getúlio, de Tiradentes, de Grabois, Amazonas, Arruda Câmara, Pomar, Elza, Helenira, Marighella, Osvaldão, pensei em Brizola, Jango e Darcy. E me confortei, tão bem acompanhado ao lado dos "derrotados".

Todo cambia, tudo muda, e sem ater-nos ao sentido do movimento, perdemo-nos. Em horas difíceis, nem medo, nem desespero iluminam, mas apenas a solidariedade e a reflexão fria e certeira. O inesquecível Hugo Chávez, preso, em derrota, ensinou-nos esse sentido de movimento, usando apenas duas palavras para qualificar aquele momento: "por ahora". Ou seja, tem muito jogo, ainda. Com isso, lembrou-nos que a luta continua, sempre e nos apontou novos caminhos, como a defesa da democracia sob a perspectiva da luta pela hegemonia, sem ilusões de classe. E nos lembrou de nossa força e que o imperialismo deve ser derrotado. Os inimigos definem-nos tanto quanto os amigos. É alvissareiro o desvelar das ilusões.

E, sempre, os verdugos, Judas Iscariotes, os Silvérios dos Reis, os Auros de Moura Andrade comemoraram por pouco tempo. Não puderam jamais com o amor do povo e dos lutadores e lutadoras, que resgataram do opróbio e da mentira, da dor e do tormento maior - a injustiça -, elevando-os, como bandeira, estandarte, canção, poema, prece, esperança, porque, como dizia Neruda, a Primavera é inexorável. E não é que devamos esperá-la, mas - o querido Marx ensinou há muito, resgatando a dialética - porque o capitalismo cria a partir de suas entranhas mesmas seu próprio coveiro. Não  tem essa de ser oprimido e ficar assim. Não. Estamos, felizmente, condenados a perseverar. E se a direita odeia o país e o povo, não temos outro caminho senão acreditar no Brasil e em nosso povo, sabendo que as grandes mudanças são obras coletivas de milhões, ter a confiança histórica de que havemos de lutar, de ousar e de vencer, fazendo por onde.

Vã ilusão das elites essa de tanger-nos à senzala, à prisão e ao silêncio, enquanto vendem nosso país, escravizam nosso povo e destroem nosso futuro. Não tem ideia de como alimentam a chama que não mais questionará apenas a forma, mas o conteúdo para a retomada do país. Não tem arrego, mas tem aprendizado, do inimigo, de nós, e da flexibilidade necessária, a ginga que teremos de ter, para virar o jogo.

As elites brasileiras jogaram a democracia no lixo, desmoralizaram a justiça, querem destruir o país e vender o povo no mercado de escravos. Assim, explicitaram a natureza de classe do Estado, expondo a toda a esquerda a indissolúvel ligação da democracia, da soberania e da vida do povo à perspectiva socialista. Como Lula, tão magnânimo, deve estar a aprender, e quanto jogo há para jogar, ainda.

Como os países submetidos ao colonialismo tem demonstrado ao longo da História (e disse-o Stalin em 1952), as bandeiras da Paz, da Democracia e da Soberania foram atiradas ao solo pela burguesia. São nossas. Hoje, mais que isso, a própria sobrevivência da vida na Terra depende de pormos fim à barbárie capitalista, que opõe 99% da humanidade a 1% de "semideuses".

Não se trata de sectarismo. Não se pula da defensiva e da derrota para a radicalização, um erro tático primário, estimulado por ilusões e por indução do inimigo de classe, que nos quer isolados, desmoralizados, mortos. Não. Mas trata-se de observar o estilhaçar de tantas ilusões reformistas, tanta esperança no institucional, tanta bobagem de um suposto republicanismo que favoreceu o sequestro da soberania popular por entreguistas, espiões, canalhas e herdeiros das casas grandes de sempre.

Esse aprendizado, o trauma, a expressão odiosa dessa elite apátrida se mostram aos olhos da Nação, e hão de estimular uma profunda reflexão sobre a centralidade da soberania nacional, a ocupação estrangeira sob mãos entreguistas, o desprezo da casa grande pela democracia, pelo voto popular e a necessidade de ir além do que já conquistamos, formando a unidade ampla e, ao mesmo tempo, ampliando o horizonte de transformação e rupturas, que tanto se evitou, na ilusão de um caminho menos árido, pedregoso...

Ao mesmo tempo, vemos as mesmas lições na América Latina, um avanço na consciência necessário para uma região que, necessariamente, terá de lidar com a potência imperialista mais perigosa de todos os tempos.

Toda solidariedade a Lula, que se eleva ainda mais para o papel histórico formidável que há de cumprir. A hora exige reflexão acurada, avançar na unidade do povo, dos democratas, patriotas e da esquerda, jogar o jogo sem cedência, agonia ou ingenuidade, com ginga, acumular forças num trabalho de base à altura da gigantesca tarefa de libertar o Brasil e seu povo, é essa a radicalidade de que carecemos. Diógenes Arruda Câmara Ferreira cunhou a lição de Lênin sobre a diferença entre radicalidade e burrice: "Ampliar, radicalizando e radicalizar, ampliando". Ser radical, hoje, é construir a Frente Ampla para defender a democracia, o Brasil,os direitos do povo e Lula. Nós apenas começamos.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Luiz Manfredini reconstrói a reorganização do Partido Comunista do Brasil em 18/02/1962 - Portal Vermelho



17 de Fevereiro de 2016 - 7h00

1962, a vitória dos princípios

Luiz Manfredini *

“(...) um partido que mantém sua identidade comunista,
seu caráter de classe de partido dos trabalhadores,
portador de uma base teórica sólida, o socialismo científico...”.

Tese consagrada no XII Congresso do PCdoB (dezembro, 2009).


Há exatos quatros anos, quando em 18 de fevereiro de 2012 se comemoraram os 90 anos de existência do PCdoB e os 50 de sua reorganização, publiquei aqui no Vermelho um artigo que, por oportuno, reproduzo em minha coluna inaugural deste ano.

Oportuno porque a ideia de partido, de sua história e seu programa, de sua organização e ação política deve ser presença cotidiana no pensamento e na prática de todo comunista.

Sem partido marxista-leninista, com s características explicitadas na epígrafe, não há revolução, nem construção do socialismo.

Segue o artigo de então.

A reorganização do Partido Comunista do Brasil, em fevereiro de 1962, é dos fatos mais marcantes da história do PCdoB, talvez o mais significativo depois da sua fundação, em 25 de março de 1922. João Amazonas, que liderou a reorganização e tornou-se o principal construtor e ideólogo do partido, diria, 25 anos depois, que a “data assinalou a defesa da antiga organização revolucionária do proletariado que lutava pelo socialismo, ameaçada de liquidação pelos oportunistas e registrava, ao mesmo tempo, o início de uma nova etapa na vida do Partido”.

Algumas dezenas – não muitas – de quadros e militantes comunistas de São Paulo, Guanabara (Rio de Janeiro), Espírito Santo e Rio Grande do Sul instalaram, em 18 de fevereiro de 1962, em São Paulo, a V Conferência Nacional Extraordinária do PCdoB. A dimensão do encontro está em que marcou a completa ruptura do grupo de comunistas liderado, entre outros, por João Amazonas, Pedro Pomar, Maurício Grabois, Carlos Danieli, Ângelo Arroyo e Lincoln Oest, com a ala majoritária capitaneada por Luiz Carlos Prestes. No ano anterior, a corrente prestista tomara a decisão - exclusiva de um congresso – de alterar o nome do partido (de Partido Comunista do Brasil para Partido Comunista Brasileiro) e subtrair de seu programa questões essenciais de modo a facilitar a legalização e o registro na Justiça Eleitoral.

A conferência aprovou um manifesto-programa que traçava nova linha política para o partido, decidiu reeditar o jornal A Classe Operária, antigo órgão central que tivera sua publicação suspensa, e elegeu um novo Comitê Central. Estava coroado um longo, muitas vezes penoso processo de luta ideológica iniciado cinco anos antes, a partir das repercussões do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) e da ascensão de Nikita Kruchov à liderança da URSS.

A pretexto de criticar o culto à personalidade de J. Stálin (que, de fato, houve), Kruchov e seu grupo formularam um corpo de idéias avesso ao essencial do marxismo-leninismo, um programa de fundo reformista e conciliador que, entre outras teses, propugnava, em plena guerra fria, pela amistosa cooperação com os Estados Unidos (em óbvia deformação do conceito leninista de coexistência pacífica entre diferentes regimes sociais), pela transição sem rupturas do capitalismo ao socialismo e pela descaracterização da natureza de classe do partido revolucionário e do estado socialista. Em outras palavras: disseminava ilusões e, com isso, deixava o proletariado e seus aliados de mãos atadas em sua luta libertadora. O chamado kruchovismo alastrou-se pelo movimento comunista mundial, incluindo o Partido Comunista do Brasil, então hegemonizado por Luiz Carlos Prestes.

Nova orientação


Em março de 1958, pouco mais de seis meses após o XX Congresso do PCUS, o Comitê Central do PCB (sigla do Partido Comunista do Brasil desde sua fundação), sob hegemonia prestista, aprovou nova orientação política, que ficou conhecida como a Declaração de Março de 1958. Ali estavam registradas as idéias centrais que alimentariam intensa e extensa luta ideológica nas fileiras partidárias e provocariam a reorganização do partido quatro anos depois. Uma “linha oportunista de direita”, escreveria Maurício Grabois num artigo que se tornou emblemático: Duas concepções, duas orientações políticas.

Segundo Grabois, a Declaração idealizava a burguesia, julgando-a capaz de defender consequentemente os interesses da Nação e, desse modo, subordinava a ela o proletariado e seus aliados na perspectiva de uma revolução essencialmente nacional, em detrimento de objetivos sociais e democráticos e de uma perspectiva verdadeiramente revolucionária rumo ao socialismo.

Para Grabois, a Declaração considerava a democracia como inerente ao capitalismo e, a bordo de uma “tática gradualista, evolucionista”, imaginava a chegada ao poder das forças revolucionárias “através da acumulação de reformas profundas e conseqüentes na estrutura econômica e nas instituições políticas”. Tais concepções, garantia o histórico dirigente, levavam à “negação da luta revolucionária”.

O V Congresso, em 1960, não obstante a enxurrada de críticas proveniente das bases e das direções intermediárias do partido, que condenavam a inclinação reformista, ratificou a Declaração de Março de 1958. E mais: excluiu do Comitê Central 12 dos seus 25 membros efetivos e vários suplentes, todos críticos da nova orientação. Mas o conflito interno entre reformistas e revolucionários atingiu seu ponto de fervura no ano seguinte. Na edição de 11 de agosto de 1961 do semanário Novos Rumos, são publicados o programa e os estatutos do partido, agora denominado Partido Comunista Brasileiro, mantendo a sigla história do Partido Comunista do Brasil, PCB. A reação dos revolucionários foi salvar o histórico partido de 1922, herdeiro do marxismo-leninismo, fiel ao proletariado e ao socialismo. A reorganização ocorreria exatos seis meses depois, com a realização da V Conferência Nacional Extraordinária do PCB. A sigla PCdoB surgiria um pouco mais tarde para melhor vincar as diferenças com o partido reformista.

Memória e identidade


A evocação da data – não só desta, mas de outras datas emblemáticas da trajetória do partido – não se prende a alguma obrigação protocolar ou a um apego ou lembrança saudosa do passado, tampouco à ruminação de mágoas eventuais, mas à necessidade do permanente, sistemático e irrenunciável fortalecimento da identidade comunista. Identidade sem a qual a coesão interna se corrói e o rumo se desvanece, e para a qual não basta a adesão coletiva a um projeto político em curso (embora isso seja decisivo). Identidade que se alimenta e se robustece com o que a memória é capaz de fornecer, a memória que repassa o percurso do pensamento e da ação partidários, suas vitórias e derrotas e as lições que oferecem, o colossal patrimônio simbólico de um partido, como o PCdoB, cuja existência influente na história política do Brasil cobre quase todo o século XX.

Recordar o 18 de fevereiro de 1962 é, do ponto de vista revolucionário, dele extrair ensinamentos cuja permanência possa iluminar os caminhos da atualidade. Em fevereiro de 1987, ao lembrar os 25 anos da reorganização, João Amazonas indagava: “Por que o partido venceu?”. Ele próprio respondia:

“Antes de tudo pela justeza de sua orientação política e pela fidelidade ao marxismo-leninismo, (...) por saber interpretar, em diferentes momentos, o sentimento das grandes massas populares, traduzir em termos políticos o que pensava a maioria do povo, (...) porque esteve sempre em ação, buscando o contato com as massas e com as diversas correntes políticas, visando a luta e a mobilização popular, (...) porque pôs em prática os ensinamentos leninistas de que na luta concreta é necessário ter sempre um aliado de massas, (...) por compreender que outras forças revolucionárias poderiam emergir de organizações não-comunistas, atraídas e somadas ao partido da classe operária (...) e o partido venceu (...) [também] por haver contado com o apoio do movimento comunista internacional (..)”.

Princípios, sempre

Da mesma forma que em 1962, 30 anos depois o partido também navegou sob outra tempestade, a da derrota socialista no Leste europeu, do fim da União Soviética e da posterior ofensiva do capital em todo o mundo. Não mudou de nome, cor e símbolos, não renunciou aos princípios, não capitulou. Ao contrário, realizou – ou melhor, iniciou – ampla, profunda e corajosa reflexão crítica sobre os erros e acertos das experiências socialistas pioneiras do século XX. Tudo para requalificar o projeto socialista, não para renegá-lo.

A contemporaneidade coloca o partido diante de novas circunstâncias do desenvolvimento do capitalismo, da revolução, da construção socialista e da permanente (e dialética) atualização do marxismo-leninismo. Há sendas novas a considerar na trajetória transformadora dos trabalhadores e do povo.

Recordo-me aqui – e reproduzo – trecho da minha intervenção no recente XII Congresso do Partido:

“O informe do camarada Renato Rabelo alentadoramente nos indica que o Partido enfrentará os desafios da luta pelo socialismo no Brasil consciente dos riscos de uma caminhada singular, mas também – e sobretudo – de suas potencialidades revolucionárias. E disposto a fazê-lo como partido comunista, marxista-leninista, revolucionário, formulador e implementador de um programa político ajustado ao objetivo estrutural e estratégico da classe operária e dos trabalhadores do Brasil, ou seja, o socialismo científico com fisionomia brasileira”.

E concluía:


“Assim, não nos perderemos no lusco-fusco das sombras e luzes – mais sombras que luzes que marcam – nas proféticas palavras de João Amazonas – os primeiros tempos do século presente”.

Como na corajosa luta de reorganização partidária iniciada em 18 de fevereiro de 1962.
* Jornalista a escritor paranaense, autor, entre outros livros, dos romances "As moças de Minas", "Memória e Neblina" e "Retrato no entardecer de agosto".

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O poema de Pablo Neruda a Prestes no comício do Pacaembu (1945) - Portal Vermelho


Uma homenagem de Neruda ao Partido Comunista do Brasil - Portal Vermelho

Na última quarta-feira (25) o PCdoB completou 93 anos de resistência e luta. O partido do socialismo, reconhecido por sua forte presença junto aos trabalhadores e influência na juventude, comemora mais um ano de batalhas e conquistas e o caderno cultural do Portal Vermelho, o Prosa, Poesia e Arte, é especial sobre este tema nesta semana.




Pablo Neruda


Em julho de 1945, durante um comício do Partido Comunista do Brasil no estádio Pacaembu, na capital paulista, o renomado poeta Pablo Neruda leu o poema Mensagem que ele escreveu em homenagem ao partido. A obra viria a ser publicada cinco anos depois no livro “Canto Geral”.

Segundo Gabriel García Márquez, Neruda foi “o maior poeta do século 20 em qualquer idioma”. Em 1971 ganhou o Prêmio Nobel de Literatura e um doutorado honoris causa pela Universidade de Oxford, foi considerado um dos melhores e mais influentes artistas de seu século.


Além disso, Neruda foi um destacado ativista político, membro do Comitê Central do Partido Comunista do Chile, foi senador e pré-candidato à presidência, mas abriu mão da candidatura para apoiar Salvador Allende. Na ocasião justificou dizendo que “ambos eram socialistas e acreditavam em uma América Latina mais justa”.



Pablo Neruda durante o comício no Pacaembu


Leia o poema Mensagem na íntegra:


Quantas coisas quisera hoje dizer, brasileiros,

quantas histórias, lutas, desenganos, vitórias,

que levei anos e anos no coração para dizer-vos, pensamentos

e saudações. Saudações das neves andinas,

saudações do Oceano Pacífico, palavras que me disseram

ao passar os operários, os mineiros, os pedreiros, todos

os povoadores de minha pátria longínqua.

Que me disse a neve, a nuvem, a bandeira?

Que segredo me disse o marinheiro?

Que me disse a menina pequenina dando-me espigas?


Uma mensagem tinham. Era: Cumprimenta Prestes.

Procura-o, me diziam, na selva ou no rio.

Aparta suas prisões, procura sua cela, chama.

E se não te deixam falar-lhe, olha-o até cansar-te

e nos conta amanhã o que viste.


Hoje estou orgulhoso de vê-lo rodeado

por um mar de corações vitoriosos.

Vou dizer ao Chile: Eu o saudei na viração

das bandeiras livres de seu povo.

Me lembro em Paris, há alguns anos, uma noite

falei à multidão, fui pedir auxílio

para a Espanha Republicana, para o povo em sua luta.

A Espanha estava cheia de ruínas e de glória.

Os franceses ouviam o meu apelo em silêncio.

Pedi-lhes ajuda em nome de tudo o que existe

e lhes disse: Os novos heróis, os que na Espanha lutam, morrem,

Modesto, Líster, Pasionaria, Lorca,

são filhos dos heróis da América, são irmãos

de Bolívar, de O' Higgins, de San Martín, de Prestes.


E quando disse o nome de Prestes foi como um rumor imenso.

no ar da França: Paris o saudava.

Velhos operários de olhos úmidos

olhavam para o futuro do Brasil e para a Espanha.


Vou contar-vos outra pequena história.


Junto às grandes minas de carvão, que avançam sob o mar,

no Chile, no frio porto de Talcahuano,

chegou uma vez, faz tempos, um cargueiro soviético.



(O Chile não mantinha ainda relações

com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Por isso a polícia estúpida

proibiu que os marinheiros russos descessem,

e que os chilenos subissem).

Quando a noite chegou

vieram aos milhares os mineiros, das grandes minas,

homens, mulheres, meninos, e das colinas,

com suas pequenas lâmpadas mineiras,

a noite toda fizeram sinais, acendendo e apagando,

para o navio que vinha dos portos soviéticos.


Aquela noite escura teve estrelas:

as estrelas humanas, as lâmpadas do povo.

Também hoje, de todos os rincões

da nossa América, do México livre, do Peru sedento,

de Cuba, da Argentina populosa,

do Uruguai, refúgio de irmãos asilados,

o povo te saúda, Prestes, com suas pequenas lâmpadas

em que brilham as altas esperanças do homem.

Por isso me mandaram, pelo vento da América,

para que te olhasse e logo lhes contasse

como eras, que dizia o seu capitão calado

por tantos anos duros de solidão e sombra.


Vou dizer-lhe que não guardas ódio.

Que só desejas que a tua pátria viva.

E que a liberdade cresça no fundo do Brasil como árvore eterna.

Eu quisera contar-te, Brasil, muitas coisas caladas,

carregadas por estes anos entre a pele e a alma,

sangue, dores, triunfos, o que devem se dizer

o poeta e o povo: fica para outra vez, um dia.


Peço hoje um grande silêncio de vulcões e rios.


Um grande silêncio peço de terras e varões.


Peço silêncio à América da neve ao pampa.

Silêncio: com a palavra o Capitão do Povo.

Silêncio: que o Brasil falará por sua boca.


(Pablo Neruda, 1945)


Assista ao vídeo que faz um registro histórico do comício no Pacaembu:

domingo, 16 de novembro de 2014

Deputada Jandira Feghali (PCdoB): solidariedade às famílias Niemeyer e Prestes e denúncia do Golpismo - TV Câmara

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

51º aniversário da Reorganização do PC do Brasil - Conheça a História



Há exatos 51 anos, foi realizada a Conferência extraordinária de 18 de fevereiro de 1962, que reorganizou o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), com vistas a superar o liquidacionismo da corrente revisionista e o colocar o Partido no centro da corrente principal da política brasileira.

Joanne Mota, da Rádio Vermelho em São Paulo


Em participação no programa "Partido Vivo", Adalberto Monteiro, secretário Nacional de Formação do PCdoB, falou sobre o assunto e destacou que "esta data marca não só a reorganização do Partido, que estava sendo ameaçado em sua existência por um surto revisionista que ocupou espaço na esfera política mundial, mas também a confirmação dos ideais revolucionários defendidos desde 1922 pelo PCdoB".

Segundo ele, naquele momento "setores do Partido relativizavam os pressupostos do marxismo-leninismo, postura que colocou a revolução a reboque de setores da burguesia brasileira, influenciada pela conjuntura brasileira. Além disso, é preciso resgatar a influência que o 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), realizado em fevereiro de 1956, teve nesta história. Baseado em um relatório apresentado por Nikita Krushev, o congresso gerou posturas revisionistas, que influenciaram profundamente o Partido e propagaram uma divisão de opiniões".

Adalberto, que também é presidente da Fundação Maurício Grabois, lembrou que as posições apresentadas no 20º Congresso chegaram ao Brasil e tiveram em figuras como Luiz Carlos Prestes forte apoio, o que gerou divisão no Partido e a exclusão do Comitê Central de figuras como João Amazonas, Maurício Grabois, Ângelo Arroyo, entre outros. Logo após, os estatutos foram alterados e o nome do partido passou a ser Partido Comunista Brasileiro (com a sigla PCB), caracterizando a formação de uma nova organização partidária.

Ele explicou que, “com o apoio de Luiz Carlos Prestes, as decisões tomadas no 20º Congresso foram fundamentais para consolidar este posicionamento naquela época. Mas um núcleo, composto João Amazonas, Maurício Grabois, Ângelo Arroyo, entre outros, não concordava com estas decisões. Essa divisão consolidou duas tendências no interior do Partido: uma reformista e outra revolucionária”, rememorou.

Carta dos Cem

Adalberto lembrou que essa cisão gerou como resposta da corrente revolucionária o envio de uma carta ao Comitê Central, que ficou conhecida como Carta dos Cem.



“Este documento foi assinado por cem comunistas, criticando os desvios e exigindo que se retirassem os documentos e se convocasse um novo congresso para discutir a mudanças empreendidas. Como resposta, a direção do novo partido expulsou, no final de 1961, João Amazonas, Maurício Grabois, Ângelo Arroyo, Carlos Danielli, Calil Chade, José Maria Cavalcante e outros signatários da Carta dos Cem”, pontuou o dirigente.

Outro fator apontado por Adalberto foi a deflagração do golpe de 1964. "O golpe militar de 1964 representou uma derrota das teses advogadas, então pelo PCB, que viu cair por terra todas as suas teses. A partir daí o PCB entra em um processo de crise e de desagregação e o PCdoB reafirma seu caráter revolucionário para os comunistas", externou.

Foto: Centro de Documentação e Memória


A Conferência

Com isso os revolucionários convocaram, em 18 de fevereiro de 1962, uma Conferência extraordinária que reorganizou o Partido e elegeu um novo Comitê Central. Participaram desta Conferência delegados de vários estados, entre eles estavam dirigentes históricos do Partido como João Amazonas, Maurício Grabois, Pedro Pomar, Kalil Chade, Lincoln Oest, Carlos Danielli, Ângelo Arroyo, Elza Monnerat, entre outros.

De acordo com o historiador e comunista Augusto Buonicore, no artigo "A Conferência de fevereiro de 1962 e a reorganização do PC do Brasil", de 8 de fevereiro de 2004, a Conferência aprovou também um Manifesto-Programa, que apontava os principais responsáveis pela miséria do povo: ''a espoliação do Brasil pelo imperialismo, em particular o norte-americano, o monopólio da terra e a crescente concentração de riquezas nas mãos de uma minoria de grandes capitalistas". Por isto, o Partido Comunista do Brasil, que "se orienta pelo marxismo-leninismo e que objetiva o socialismo e o comunismo, considera que, na presente situação, a principal tarefa do povo brasileiro é a luta por um governo revolucionário, inimigo irreconciliável do imperialismo e do latifúndio, promotor de liberdades, cultura e bem-estar para as massas".

"O evento aparentemente modesto revestiu-se de uma grande importância histórica para a esquerda brasileira. Poucos ainda tinham consciência da importância daquele 'ato fundador'. Mas, aquela Conferência só confirmou a base revolucionária que norteou o PCdoB desde sua origem em 1922", finalizou Adalberto Monteiro.

Ouça a entrevista na íntegra:
Programa Partido Vivo


Manifesto - PCdoB 90 anos, pelo Brasil e o socialismo - Portal Vermelho (2012) 

Por ocasião do transcurso do 90º aniversário da fundação do Partido Comunista do Brasil, a Comissão Política Nacional do PCdoB lançou um manifesto aos trabalhadores e todo o povo brasileiro celebrando o acontecimento histórico e apontando as perspectivas da luta dos comunistas pelo socialismo no Brasil.

 

Última entrevista de João Amazonas, líder e ideólogo do PCdoB

Programa Memória Política da TV Câmara traz a última entrevista de Amazonas, em seu último ano de vida. Com invejável lucidez, o mais então antigo comunista em atividade, avalia a sua vida e a luta pelas liberdades, a soberania e o socialismo no Brasil do século XX. É uma aula, vale muito a pena ver.


Reflexões sobre heróis e a História do Partido Comunista do Brasil - Paulo Vinícius Silva

 






quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A Conferência de Fevereiro de 1962 e a reorganização do PCdoB - Augusto C. Buonicore -Portal Vermelho

A Conferência de Fevereiro de 1962 e a reorganização do PCdoB - Portal Vermelho

No dia 18 de fevereiro de 1962 teve lugar na rua do Manifesto, bairro do Ipiranga, na cidade operária de São Paulo uma conferência extraordinária do Partido Comunista do Brasil.

Por Augusto C. Buonicore (Artigo publicado no Portal Vermelho em 18 de fevereiro de 2004)


Participaram dela delegados de vários Estados. Entre eles estavam dirigentes históricos do Partido como João Amazonas, Maurício Grabois, Pedro Pomar, Kalil Chade, Lincoln Oest, Carlos Danielli, Ângelo Arroyo, Elza Monnerat, entre outros.

O evento aparentemente modesto revestiu-se de uma grande importância histórica para o povo e os trabalhadores brasileiros. Tratava-se naquela ocasião de reorganizar o Partido Comunista do Brasil que estava sendo ameaçado em sua existência por um surto revisionista de direita. Poucos ainda tinham consciência da importância daquele "ato fundador".

Para muitos, aquela parecia obra de alguns poucos sonhadores, sem grande futuro. Passados 42 anos da sua realização podemos dar conta da grandeza daqueles homens e mulheres comunistas e do ato que realizaram. Por isto gritamos em alto e bom som: Viva o 18 de fevereiro!

O 20º Congresso e o pomo da discórdia

Em fevereiro de 1956 realizou-se o 20º Congresso do PCUS, no qual Krushev apresentou um "relatório secreto" denunciando o "culto à personalidade" e os crimes de Stálin. Mais do que isto o 20º Congresso abriu uma nova fase na política do PCUS na qual predominaria o reformismo. As notícias deste Congresso chegaram ao país através da imprensa burguesa e inicialmente foram negadas pela direção comunista — acusadas de serem falsificações promovidas pelo serviço de inteligência norte-americano.

Depois de vários meses o líder da delegação brasileira, Diógenes Arruda, presente naquele congresso voltou ao Brasil trazendo a informação oficial e somente no final de agosto conseguiu se reunir o Comitê Central para discutir a questão. Abriu-se uma crise profunda no interior do Partido. Surge uma forte corrente liquidacionista, encabeçada por Agildo Barata.

Em outubro foi aberto à revelia da direção partidária um debate através da imprensa comunista, num claro desrespeito ao centralismo-democrático. Em nome da liberdade de opinião tudo era permitido. Ocorreu uma forte resistência aos desvios direitistas. A imprensa partidária sofreu intervenção e o próprio Agildo Barata foi expulso. Com ele saíram vários intelectuais. Alguns deles formam um grupo nacionalista não proletário, intitulado Corrente Renovadora do Marxismo Nacional.

Diógenes de Arruda Câmara publicou o artigo "Renovar o Partido e Derrotar o Antipartido".

Derrotado o liquidacionismo e as correntes de direita no interior do Partido, iniciou-se uma nova luta interna. Esta seria ainda mais acirrada e teria conseqüências maiores e mais duradouras. Duas concepções iam se consolidando no partido: uma reformista e outra revolucionária.

A luta interna se desequilibra com a adesão de Prestes às teses reformistas do XX Congresso e sua tentativa de aplicá-la acriticamente ao Brasil. Em agosto de 1957, por suas posições contrárias às teses reformistas que ganhavam corpo no interior da direção do Partido, João Amazonas, Maurício Grabois, Diógenes Arruda, Sérgio Holmos foram destituídos da comissão executiva e do secretariado do Comitê Central. Os seus lugares foram ocupados por Giocondo Dias, Mário Alves, Carlos Marighela e Calil Chade. Na mesma reunião foi aprovado o documento A Atividade antipartidária de Agildo Barata. Assim o Comitê Central, sob o comando de Prestes, dava uma no cravo e outra na ferradura: expulsava os liquidacionistas de direita e isolava a esquerda partidária.

Duas concepções, duas orientações políticas — a grande cisão comunista

O afastamento da esquerda do secretariado e da comissão executiva foi necessário para que Prestes conseguisse uma tranqüila maioria, o que lhe permitiu aprovar as teses reformistas e mudar o rumo político do Partido.

No início de 1958, numa reunião do Comitê Central, João Amazonas e Maurício Grabois foram os únicos a votar contra o documento que ficaria conhecido como Declaração de Março e que fora elaborado por uma comissão "ultra-secreta", criada pelo próprio secretário geral. Este documento consolidou a guinada à direita do PCB. Entre outras coisas ele apregoava a possibilidade da transição pacífica do capitalismo ao socialismo no Brasil.

Começava, assim, se consolidar duas tendências no interior do Partido: uma reformista e outra revolucionária. Estas duas tendências opostas iriam se enfrentar duramente nos debates preparatórios do 5º Congresso do PCB. Neste debate destacou-se o artigo de Maurício Grabois: "Duas Concepções, duas orientações políticas".

Graças ao domínio que tinha sobre a máquina partidária, a influência de Prestes, e o apoio recebido do PCUS, a corrente reformista ganhou o Congresso e conseguiu aprovar as suas teses. Foi decidido também o afastamento de João Amazonas, Maurício Grabois, Diógenes Arruda e Orlando Pioto do Comitê Central. Os reformistas, então, tomaram a iniciativa.

Em 11 de agosto de 1961 o jornal Novos Rumos, órgão oficial do PCB, publicou um novo programa e estatuto, que segundo a comissão executiva deveria ser registrado no Tribunal Superior Eleitoral visando à legalização do partido. Entre as propostas de alteração incluía-se a mudança do nome da organização, que passaria a se chamar Partido Comunista Brasileiro. O novo programa apresentado era ainda mais recuado do que a Declaração de Março e as Resoluções do 5º Congresso. Dos estatutos retirava-se qualquer referência ao internacionalismo proletário e ao marxismo-leninismo. Esta foi a gota d'água.

A resposta da corrente revolucionária foi imediata. Enviou uma carta ao Comitê Central, assinada por cem comunistas, criticando os desvios de direita e exigindo que se retirassem os documentos ou se convocasse um novo congresso para discutir a mudança do nome e as modificações no programa e nos estatutos do Partido.

Segundo a Carta dos 100, "as mudanças feitas no nome, no Programa e nos Estatutos (...) objetivam o registro de um novo partido e, por isso, se suprime tudo o que possa ser identificado com o Partido Comunista do Brasil, de tão gloriosas tradições (...) os militantes (...) não aceitarão que se liquide o velho Partido, e a ele permanecerão fiéis, mantendo bem alta a bandeira de suas melhores tradições". Retomando a bandeira No final de 1961 a direção do PCB expulsou Amazonas, Pomar, Grabois, Ângelo Arroyo, Carlos Danielli, Calil Chade, José Maria Cavalcante entre outros. Diante da impossibilidade, por vias da democracia partidária, de mudar os rumos que tomava a direção do PCB, os membros da corrente revolucionária resolveram dar o passo decisivo no sentido de romper com os reformistas e reorganizar o Partido Comunista do Brasil.

João Amazonas, como em 1943, estava novamente à frente desse esforço. Em fevereiro do ano seguinte realizou-se 5ª Conferência (extraordinária) do Partido Comunista do Brasil. Os delegados presentes resolveram reeditar, sob direção de Pedro Pomar, o jornal A Classe Operária como órgão oficial do Partido.

Amazonas recorda aquela histórica conferência: "Ângelo Arroyo foi eleito membro do Comitê Central e da Comissão Executiva. Empenhou-se na reestruturação orgânica no bairro da Mooca. Abriu modesta livraria, numa área de fábricas, divulgando A Classe Operária, livros e folhetos revolucionários. Pomar ficou como redator-chefe de A Classe Operária".

Compunham o novo Comitê Central oito membros do antigo órgão dirigente e diversos militantes experientes com mais de 20 anos de atividade partidária. A Conferência aprovou um Manifesto-Programa, que apontava os principais responsáveis pela miséria do povo: "a espoliação do Brasil pelo imperialismo, em particular o norte-americano, o monopólio da terra e à crescente concentração de riquezas nas mãos de uma minoria de grandes capitalistas".

Por isto, o Partido Comunista do Brasil que "se orienta pelo marxismo-leninismo e que objetiva o socialismo e o comunismo, considera que, na presente situação, a principal tarefa do povo brasileiro é a luta por um governo revolucionário, inimigo irreconciliável do imperialismo e do latifúndio, promotor de liberdades, cultura e bem-estar para as massas". Amazonas relatou as dificuldades encontradas em 1962 durante processo de reorganização partidária: "Naquela época, mesmo entre os que se opunham ao revisionismo, se levantaram objeções à reorganização do Partido.

Tais objeções se baseavam fundamentalmente em dois argumentos. O primeiro consistia na afirmação de que o grupo de Prestes controlava a máquina partidária, detinha seu patrimônio e exercia influência em importantes organizações de massas. O segundo se estribava na consideração de que Prestes e seus adeptos poderiam corrigir sua orientação, abandonando o revisionismo e adotando uma linha revolucionária. Deste modo, os que faziam estas objeções diziam ser inviável a reorganização do Partido. Nenhuma das objeções mostraram ter razão de ser". Para ele, a Conferência de 1962 "representou a continuidade do velho Partido Comunista do Brasil, fundado em 1922, em nosso meio. O povo brasileiro, em especial, o proletariado, pode contar com o Partido na luta decisiva pela transformação da sociedade.

O período em que se deu a reorganização do PC do Brasil foi marcado pela atitude corajosa e revolucionária dos militantes que empreenderam profunda luta teórica e grande ação política em defesa do Partido e dos princípios do marxismo-leninismo. Representou, ao mesmo tempo, a tomada de consciência de que o movimento revolucionário corria sério risco, agora não mais de fora pela ação das forças da reação, mas de dentro.

O rompimento com a direção do PCUS, principal partido comunista do mundo, e com a maioria reformista da direção do PCB, encabeçada por Luís Carlos Prestes, mostrava bem a ousadia desses revolucionários fieis a seus princípios. Foram muitos os que afirmaram que esta pequena organização não teria futuro e que esta teria sido uma obra de loucos.

A conjuntura, amplamente favorável a proliferação de ilusões reformistas, parecia confirmar estas opiniões. Mas a história, sempre implacável, construiria um outro caminho para além do senso comum e das aparências. O golpe militar de 1964 representou uma derrota das teses advogadas então pelo PC Brasileiro, que entrou num processo de crise e de desagregação.

Em pouco tempo o PCdoB passou de algumas poucas centenas de membros para alguns milhares, organizados em quase todos os estados brasileiros. Ao longo dos anos PCdoB aumentou sua influência entre as massas e foi adquirindo projeção política nacional e internacional, sem nunca abrir mão de seus ideais socialistas e revolucionários. Sua história demonstrou — e demonstra — que uma organização como esta mais do que uma possibilidade é uma necessidade deste grande e complexo processo de emancipação do Brasil e das massas trabalhadoras.

*Augusto C. Buonicore é Historiador, membro do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil, Secretário Geral da Fundação Maurício Grabois e responsável pelo Centro de Documentação e Memória (CDM)

Fonte: Blog do Renato Rabelo

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A batalha pela memória Por Fábio Palácio

www.grabois.org.br


Começou da noite para o dia. A um chamado de Veja, os trustes do oligopólio midiático – hoje alcunhados, não sem razão, de PIG (Partido da Imprensa Golpista) – iniciaram, em uníssono e de forma frenética, intenso bombardeio contra os comunistas brasileiros e sua corrente orgânica, o Partido Comunista do Brasil.

A persistência da memória, pintura de Salvador Dalí

O que começou com agressões contra uma importante e respeitada liderança comunista, o ministro Orlando Silva, foi tomando proporções insólitas. Quando os detratores do PCdoB desceram sorrateiramente aos porões de suas próprias almas, as investidas iniciais deram lugar a uma ofensiva de nítidos contornos ideológicos. Passou-se a atentar contra o Partido como instituição – sua história, suas ideias, sua herança, sua presença na sociedade e na cultura brasileira –, numa espécie de reação ideológica em toda linha, com múltiplas frentes de contestação abertas simultaneamente.

Uma delas foi deflagrada a partir da exibição, nas redes de TV aberta, do programa partidário do PCdoB. Apresentado no último dia 20, o programa trazia uma vinheta veiculada comoavant-première das comemorações pelos 90 anos do Partido, que se realizam em 2012. Vejamos o texto que foi ao ar no programa:

“Mudar era impossível. Até o dia em que eles usaram o que tinham de melhor e simplemente mudaram. A criatividade de Jorge Amado mudou a literatura brasileira. A paixão de Drummond mudou a poesia. A ousadia de Pagu mudou o comportamento feminino. O talento de Portinari mudou a arte. A visão de futuro de Niemeyer mudou a forma da arquitetura. A coragem de Olga Benário mudou a forma de se fazer política. O sonho de João Amazonas, Maurício Grabois e Luís Carlos Prestes mudou a história. De um jeito ou de outro, todos eles mudaram o país. E todos eles fizeram do PCdoB um partido que é a cara do Brasil.”

A exibição da vinheta foi a senha para que o campo conservador e a grande mídia – vergonhosamente secundados por setores que se autoproclamam de esquerda, incluindo seitas exóticas que de maneira delirante se consideram “donas” do legado comunista – percebessem que não bastava questionar o presente do PCdoB. Era preciso golpear os comunistas apagando seu passado, divorciando-os de sua própria história. “O partido delirou: no programa partidário para TV, tratou a História como massinha de moldar. De repente, citam Luís Carlos Prestes, Niemeyer, Drummond como grandes nomes do partido”, afirma o jornalista Carlos Brickmann em coluna publicada em vários jornais do último domingo (23). Trilhando a mesma senda, Fernando Gabeira – figura renegada da esquerda, rendida ao campo conservador por trinta tostões –, joga ainda mais duro: o PCdoB teria cometido, em seu programa na TV, “uma injustiça com a história cultural brasileira”.

O argumento esgrimido é sempre o mesmo: figuras como Prestes, Niemeyer ou Drummond não teriam sido jamais membros das fileiras do PCdoB, não podendo portanto ser evocados por esse partido. Nas palavras de Gabeira, “fica no ar uma impressão falsa de que existe uma continuidade entre eles e o PC do B”. Nessa concepção cartorial de política, que vê sempre os partidos como meras legendas – sem maiores vínculos com correntes de pensamento mais profundas e permanentes –, fico pensando se também não deveríamos ser proibidos de reverenciar figuras como as de Marx, Engels, Lênin, José Bonifácio e Tiradentes. Afinal, eles também “não foram do PCdoB”.

Mas Gabeira vai ainda mais longe. Mostrando-se especialmente indignado com a evocação do poeta Carlos Drummond de Andrade, termina por afirmar que nada autoriza a apresentá-lo “como um dos grandes intelectuais comunistas da história do Brasil”. Logo Drummond, ex-editor da Tribuna Popular (órgão da imprensa comunista da década de 1940) e também autor, como lembra o próprio Gabeira, de A Rosa do Povo, livro de grande sensibilidade social e política, momento alto não apenas da cultura brasileira, mas da literatura de extração comunista em todo o mundo, capaz de ombrear-se à maior literatura do mesmo gênero, bastando para isso compará-lo à poesia comunista de um Pablo Neruda.

Para Gabeira, o rompimento de Drummond com o Partido em 1949, após a realização do congresso da Associação Brasileira dos Escritores, seria suficiente para ficarmos os comunistas proibidos de evocá-lo para todo o sempre. “A poesia de Drummond não cabia nos rígidos cânones estéticos do Partido Comunista. Nem sua individualidade poderia ser conformada nos limites do centralismo democrático.” O intuito é fulgente: exaltar a grandeza de Drummond em oposição à “pequenez” do Partido Comunista. Drummond não precisa disso. E Gabeira, ademais, não se dá conta da contradição em que incorre: ali, quando opõe Drummond aos comunistas, enxerga continuidade entre o PCdoB e a legenda à qual esteve filiado o grande poeta brasileiro. Traduzindo: os comunistas só temos o direito de reivindicar a herança do Partido naquilo que possui de “negativa”, jamais no que possa possuir de positiva.

Abre-se assim um confronto de novo tipo, intangível, que bem poderia ser considerado uma “batalha pela memória”. Está decretado: ficam os comunistas proibidos de evocar sua própria história! Ou, melhor dizendo, ficam os comunistas proibidos de ser quem são!

O irônico de tudo é que, na avalanche anticomunista deflagrada no final dos anos 1980, com a queda do muro de Berlim, o PCdoB foi vilipendiado exatamente por continuar reivindicando símbolos, personagens e, enfim, a herança do movimento comunista. Naquela época não foram poucos os que renegaram essa herança, rasgaram as bandeiras com a foice e o martelo e mergulharam de cabeça no butim neoliberal. Quando nos convidaram a ir junto, recusamos. E se riam de nós, dizendo que, se não nos dispuséssemos a renegar nosso passado, desapareceríamos. Respondemos que não, que preferíamos morrer a jogar no lixo nossa história. Não morremos. Ao contrário, a persistente crise capitalista mundial – à qual nosso país tem resistido bravamente, graças às políticas dos governos Lula e Dilma – nos dá razão dia após dia. E, não por acaso, o Partido cresce a olhos vistos, como revela de maneira insuspeita o semanário Época, apresentando gráficos, tabelas e toda uma parafernália de provas do crescimento dos comunistas, que teriam chegado “ao centro do poder”.

Ou seja: naquela época se riam quando evocávamos a história do comunismo. Hoje, ao contrário, estamos proibidos de reverenciá-la. Num país onde os partidos costumam mudar de nome não como expressão de qualquer avanço programático, mas como reles tentativa de apagar o passado, é surpreendente que se ataque um partido por recusar-se a renegar sua história!

Porém, em pelo menos uma coisa é necessário concordar com nossa moderna inquisição: a memória é coisa séria demais para ser largada “solta” por aí. O marxismo possui fortuna crítica sobre o tema. Em O narrador, Walter Benjamin – intelectual marxista morto em 1940 em decorrência da perseguição fascista na Europa – mostra-se convicto de que o passado contém sempre a força de algo inacabado, e que o presente pode assumir, por meio da memória, um papel redentor. Em sua crítica da modernidade, Benjamin esforçou-se por apontar o que considerou um grave perigo: a “perda da memória”. O homem moderno teria como um de seus traços o culto obsessivo à imediatidade do instante presente, o que terminaria por acarretar uma recusa persistente do passado. Segundo Benjamin, esse fenômeno seria visível na perda, pelo homem moderno, da capacidade de narrar – e, com ela, de comunicar a experiência, instruindo o presente e agregando sentido ao futuro. Benjamin via nesse fenômeno um verdadeiro atentado à cultura e, mesmo, uma tendência à barbárie.

De fato, o mundo em que vivemos é marcado por contínuos e persistentes ataques à consciência histórica. Como afirma o intelectual marxista britânico Terry Eagleton em seu Depois da Teoria – um olhar sobre os estudos culturais e o pós-modernismo, esse processo é consequência direta do clima de desilusão que se instaurou no pós-guerra. Ao longo das últimas décadas, de enfadonho conservadorismo neoliberal, o senso histórico tornou-se crescentemente “obtuso”, já que convém aos detentores do poder que as maiorias populares, não recordando o passado, sejam também incapazes de imaginar alternativas ao estado atual das coisas. Nessa perspectiva, classificada por Eagleton de “política da amnésia”, o futuro seria, simplesmente, o presente indefinidamente repetido.

Essa realidade tem afetado gravemente os empreendimentos coletivos, sejam os dos trabalhadores, sejam os da juventude, sejam os de diversos outros segmentos sociais ou, mesmo, os do povo-nação. Conforme denuncia Eagleton, “o que se provou mais danoso foi a ausência de memórias de ação política coletiva – e efetiva. É isso que tem distorcido tantas ideias culturais contemporâneas”.

Essas ideias distorcidas são expressão de um autoritarismo visceral. Se em tempos outros o anticomunismo tinha como expediente principal a aniquilação física, hoje pratica uma violência simbólica, porém não menos agressiva, que lança mão de um liquidacionismo de tipo “moral” e inclui a negação do direito à memória. Fico pensando se não seria também a isso que faz referência o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, quando, no auge das denúncias contra Orlando Silva, sacou o termo “fascismo pós-moderno”.

No mundo em que vivemos – o mesmo em que um presidente da República é morto e, após ter seu corpo arrastado nas ruas, é enterrado em local desconhecido para que sua memória não se torne ícone da resistência –, é fácil perceber que nem mesmo o direito ao passado está garantido. É preciso lutar contra isso – e essa luta não está restrita às comissões da verdade. Em nossa sociedade, ninguém devia ser proibido de lembrar seus heróis.

Fábio Palácio é jornalista e estudante de doutorado pela ECA/USP. Desenvolve, com financiamento da Capes, projeto de pesquisa sobre o marxismo e o conceito de cultura. Militante comunista, espera poder continuar recordando, sem ser importunado, seus ícones e referências, quando e onde quer que seja.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Carta de Luiz Carlos Prestes Filho ao Presidente do PCdoB, Renato Rabelo

"Brasília 25 de outubro de 2011.
Prezado companheiro Renato Rabelo, presidente do Partido Comunista do Brasil.
Emocionados, eu e minha mãe, Maria Prestes, nos dirigimos ao Partido Comunista do Brasil para agradecer a homenagem ao Cavaleiro da Esperança.
Entendemos que a atual grave situação sócio-econômica mundial mais uma vez demonstra a incapacidade do capitalismo em resolver os problemas básicos das massas trabalhadoras. Portanto, a homenagem do PCdoB a Luís Carlos Prestes é oportuna. Ela vem para lembrar que no Brasil um jovem de 26 anos teve a coragem de com armas nas mãos lutar pelas reformas do Estado brasileiro, entre os anos de 1924 e 1927, durante a Marcha da Coluna Prestes.
Este brasileiro, no ano de 1935, liderou o primeiro levante armado contra o fascismo no mundo que, mesmo derrotado, pelo ditador Getúlio Vargas, serviu de exemplo.
Prestes ao ser lembrado como o senador mais votado na história da República Brasileira só pode nos alegrar. Está de parabéns o PCdoB por veicular, através do seu programa de televisão, que ele foi figura fundamental para a derrota do regime militar-civil-fascista de 1964. Ele sobreviveu, mas centenas de comunistas, seus companheiros, foram assassinados, torturados, desaparecidos. Portanto, falar de sua luta é falar de Gregório Bezerra, João Massena, Olga Benário, David Capistrano, Carlos Mariguela e tantos e tantos outros.
Caro presidente, receba nosso abraço solidário e tenha a certeza que mesmo não sendo membros desta importante bandeira política do Brasil, estaremos sempre ao vosso lado na luta pela construção de uma sociedade democrática.
Desejamos que os outros partidos – PSDB, DEM, PSD, PDT, PSB, PPS – sigam vosso exemplo. A juventude brasileira, ao tomar conhecimento que desde os seus 26 até os 92 anos Prestes foi um incansável batalhador pela justiça social, seguirá seu exemplo. O povo brasileiro muito mais do que seus filhos, netos e bisnetos, é o herdeiro de Prestes.
Luiz Carlos Prestes Filho"

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A última entrevista de João Amazonas - TV Câmara - Uma vida de combates

A última entrevista de João Amazonas - TV Câmara



Carta aos Comunistas - Luiz Carlos Prestes - Março de 1980


http://www.marxists.org/portugues/prestes/1980/03/carta.htm


Carta aos Comunistas

Luiz Carlos Prestes

Março de 1980


Primeira Edição:...............
Fonte:.............
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, maio 2006.
Direitos de Reprodução: ...............

Companheiros e amigos!
De regresso ao Brasil, pude nos meses já decorridos, entrar em contato direto com a realidade nacional e melhor avaliar os graves problemas que enfrenta o PCB, o que me leva ao dever de dirigir-me a todos os comunistas, a fim de levantar algumas questões que, em minha opinião, tornaram-se candentes para todos os que, em nosso País, de uma ou de outra forma, interessam-se pela vitória do socialismo em nossa Terra. E é baseado no meu passado de lutas e de reconhecida dedicação à causa revolucionária e ao PCB, que me sinto com a autoridade moral para dizer-lhes o que penso da situação que atravessamos.
Sinto-me no dever de alertar os companheiros e amigos para o real significado da vasta campanha anticomunista que vem sendo promovida nas páginas dá imprensa burguesa. Campanha esta visivelmente orquestrada pelo regime ditatorial, visando a desmoralização, a divisão e o aniquilamento do PCB. Fica cada vez mais evidente que, através de intrigas e calúnias, o inimigo de classe – após nos ter desferido violentos golpes nos últimos anos – pretende agora minar o PCB a partir de dentro, transformando-o num dócil instrumento dos planos de legitimação do regime. Este é o motivo pelo qual as páginas da grande imprensa foram colocadas à disposição de alguns dirigentes do PCB, enquanto em relação a outros o que se verifica é o boicote e a tergiversação de suas opiniões. Basta lembrar a matéria publicada no Jornal do Brasil de 3 de fevereiro último, quando esse jornal falseia a verdade ao dizer que me recusei a manifestar minha opinião e, ao mesmo tempo, serve de veículo a uma série de calúnias e acusações que lhe teriam sido fornecidas por algum dirigente que não teve a coragem de se identificar.
Seria de estranhar, se não estivesse claro o objetivo deliberado de liquidação do PCB, a preocupação, revelada insistentemente, pela imprensa burguesa com a democracia interna e a disciplina em nossas fileiras. Os repetidos editoriais e comentários que vem sendo publicados ultimamente a esse respeito são sintomáticos. Demonstram o propósito do regime de desarticular as forças de oposição e, em particular, os comunistas para melhor pôr em prática a estratégia de realizar mudanças em sua estrutura política visando preservar os interesses dos grupos monopolistas nacionais e estrangeiros que representa.
Diante de tal situação não posso calar por mais tempo. Tornou-se evidente que o PCB não está exercendo um papel de vanguarda e atravessa uma séria crise já flagrante e de conhecimento público, que está sendo habilmente aproveitada pela reação no sentido de tentar transformá-lo num partido reformista, desprovido do seu caráter revolucionário e dócil aos objetivos do regime ditatorial.
Devo destacar que, não obstante o heroísmo e abnegação dos militantes comunistas que sacrificaram suas vidas e dos demais que contribuíram ativamente na luta contra a ditadura e para as conquistas já alcançadas por nosso povo, e pelas causas justas por que tem combatido o PCB em sua longa existência, é necessário, agora, mais do que nunca, ter a coragem política de reconhecer que a orientação política do PCB está superada e não corresponde à realidade do movimento operário e popular do momento que hoje atravessamos. Estamos atrasados no que diz respeito à análise da realidade brasileira e não temos respostas para os novos e complexos problemas que nos são agora apresentados pela própria vida, o que vem sendo refletido na passividade, falta de iniciativa e, inclusive, ausência dos comunistas na vida política nacional de hoje.
A crise que atravessa o PCB expressa-se também na falência de sua direção que, entre outras graves deficiências, não foi capaz de preparar os comunistas para enfrentar os anos negros do fascismo, facilitando à reação obter êxito em seu propósito de atingir profundamente as fileiras do PCB, desarticulando-o em grande parte. Não foi a direção do PCB capaz nem ao menos de cumprir o preceito elementar de separar com o necessário rigor a atividade legal da ilegal. Inúmeros companheiros tombaram nas mãos da reação em conseqüência da incapacidade da direção, que não tomou as providências necessárias para evitar o rude golpe que atingiu nossas fileiras nos anos de 1974 e 1975.
Ao mesmo tempo, graves acontecimentos tiveram lugar na direção do PCB, que, devido à situação de clandestinidade em que nos encontramos, estou impossibilitado de revelar de público. Tais circunstâncias estão sendo utilizadas pela atual direção do PCB para desencadear uma onda de boatos e calúnias e para, numa tentativa desesperada de se manter no poder e conservar o status-quo, ocultar a verdade da maioria dos companheiros. Assim, vem sendo levantada a bandeira da unidade do PCB para na realidade encobrir uma atividade divisionista e de simples acobertamento de graves fatos ocorridos na direção. Na verdade, uma real unidade em torno de objetivos politicamente claros e definidos inexiste há muito tempo.
Nessas condições, sinto-me no dever de alertar os comunistas para a real situação da atual direção do PCB: uma direção que não funciona como tal e não é capaz de exercer o papel para o qual foi eleita, um Comitê Central em que não é exercido o princípio da direção coletiva – caracterizado pela planificação e o controle das resoluções tomadas pela maioria —, no qual reina a indisciplina e a confusão, em que cada dirigente se julga no direito de fazer o que entende. Na prática, inexiste uma direção do PCB. A situação chegou a tal ponto que fatos e, assuntos reservados, que eram de conhecimento exclusivo dos membros do CC, estão sendo revelados à polícia por intermédio das páginas da imprensa burguesa, causando a justa indignação da grande maioria de nossos companheiros e amigos.
Sem me propor, nesta carta, a analisar as causas profundas que determinaram a situação a que chegou o movimento comunista em nossa Terra, considero, no entanto, necessário tornar claros os meus pontos de vista sobre algumas questões fundamentais, de forma que os companheiros e amigos possam julgar sobre sua justeza. Ao mesmo tempo, quero deixar claro que não me eximo de minha parcela de responsabilidade e me considero o principal responsável pelos erros e deformações existentes no PCB. Minha atitude não é de fugir à necessária autocrítica – em palavras e na prática —, mas, ao contrário, de tomar a iniciativa de torná-la pública, procurando, assim, contribuir para o avanço da luta pelos ideais socialistas em nosso País e para a reorganização do movimento comunista do Partido Comunista.
Numa atitude diametralmente oposta, a atual direção do PCB – apesar dos graves acontecimentos ocorridos nos últimos anos – nega-se a uma séria e profunda autocrítica. Quando muito, satisfaz-se com a realização de repetidas e já desmoralizadas autocríticas formais, que, entretanto, nunca se tornam uma realidade palpável. Assim, nega-se a direção atual a reconhecer que a situação do País sofreu grandes transformações, tornando necessária uma ampla discussão democrática de todos os problemas, incluindo as resoluções do último Congresso do PCB. Recusa-se a analisar com espírito crítico se são de todo acertadas as resoluções desse Congresso e pretende ainda agora apresentá-las como um dogma indiscutível para, com base nelas, exigir uma suposta unidade partidária, que lhe permita encobrir e conservar por mais algum tempo a atual situação do Partido e de sua direção.
Na verdade, a justa preocupação da maioria dos comunistas com a unidade do PCB vem sendo utilizada pela atual direção como um biombo para tentar ocultar a falta de princípios reinante nessa direção, o apego aos cargos e postos, o oportunismo dos que mudam de posição política para atender a interesses pessoais, a tradicional conciliação em torno de formulações genéricas que nada definem e que visam apenas a manutenção do status-quo, deixando, ao mesmo tempo, as mãos livres para que cada dirigente faça o que bem entenda. Citarei apenas um exemplo: o mesmo Comitê Central que em outubro de 1978 aprovara e distribuíra ao Partido um documento político, contra o qual votaram apenas dois membros da direção, poucos meses depois, no começo de 1979, se propunha a aprovar um novo documento com orientação política oposta ao primeiro, sem antes ter feito um balanço da aplicação e dos resultados obtidos com a política apresentada em outubro de 78. O meu repúdio, na qualidade de Secretário Geral do PCB, a tal tipo de procedimento levou a que a maioria do CC, revelando mais uma vez sua verdadeira face oportunista e total falta de princípios, recuasse e se chegasse à aprovação de um documento de conciliação, anódino e inexpressivo, em maio do ano passado.
oportunismo, o carreirismo e compadrismo, a falta de uma justa política de quadros, a falta de princípios e a total ausência de democracia interna no funcionamento da direção, os métodos errados de condução da luta interna, que é transformada em encarniçada luta pessoal, em que as intrigas e calúnias passam a ser prática corrente da vida partidária adquiriram tais proporções, que me obrigam a denunciar tal situação a todos os comunistas. Não posso admitir que meu nome continue a ser usado para dar cobertura a uma falsa unidade, há muito inexistente. Reconhecendo que sou o principal responsável pela atual situação a que chegaram o PCB e sua direção, assumo a responsabilidade de denunciá-la a todos os companheiros, apelando para que tomem os destinos do movimento comunista em suas mãos.
Quero lembrar ainda que, para cumprir o papel revolucionário de dirigir a classe operária e as massas trabalhadoras rumo ao socialismo, é necessário um partido revolucionário que baseado na luta pela aplicação de uma orientação política correta conquiste o lugar de vanguarda reconhecida da classe operária. Um partido operário pela sua composição e pela sua ideologia, em que a democracia interna, a direção coletiva e a unidade ideológica, política e orgânica seja uma realidade construída na luta. Somos obrigados a reconhecer que este não é o caso do PCB. Por isso mesmo, tornou-se imperioso para todos os comunistas tomar consciência da real situação existente e começar a reagir, formulando novos métodos de vida partidária realmente democráticos e efetivamente adequados às tarefas que a luta revolucionária coloca diante de nós; é necessário reagir às arbitrariedades e deformações que já atingem proporções alarmantes e dar início a um processo de discussão realmente democrático, que venha tornar possível a eleição, em todos os níveis partidários, de direções que realmente sejam a expressão democrática da vontade da maioria dos comunistas. É necessário lutar por um outro tipo de direção, inteiramente diferente da atual, com gente nova, com comunistas que efetivamente possuam as qualidades morais indispensáveis aos dirigentes de um partido revolucionário. Não é mais admissível a perpetuação da atual direção que está levando o PCB à falência em todos os terrenos.
A convocação do VII Congresso do PCB, dentro dessa perspectiva, deve ser transformada no início de um processo de ampla discussão, por parte de todos os comunistas, não só das linhas gerais de nossa política, como de uma série de aspectos da atividade da direção. Esta é a oportunidade de cobrar da direção tudo que aconteceu nos últimos anos: a falta de preparação para enfrentar a repressão fascista e o conseqüente desmantelamento de todo o aparelho partidário; as prisões e os desaparecimentos de tantos companheiros e amigos; a ausência de democracia interna, o arbítrio, a falta de planejamento e controle das tarefas decididas; o comportamento dos dirigentes diante do inimigo de classe; a execução prática do chamado "desafio histórico" aprovado no VI Congresso e a falta de empenho em organizar o partido na classe operária; a atividade política da direção nas diferentes frentes de trabalho; a orientação política seguida na Voz Operária; e muitos outros aspectos do trabalho de direção.
Considero imprescindível destacar que o VII Congresso só cumprirá um papel realmente renovador, tanto no que diz respeito à elaboração de uma orientação política correta e adequada às novas condições existentes no País e verdadeiramente representativa da vontade da maioria dos comunistas, como no que concerne à eleição de um novo tipo de direção à altura dessa nova orientação, se os debates preparatórios e todos os procedimentos de sua realização forem realmente democráticos. Não posso admitir, nem concordar com a volta ao "arrudismo", à utilização de métodos discricionários e autoritários na condução da luta interna, à manipulação dos debates, à rotulação das pessoas com as mais variadas etiquetas do tipo "esquerdista", "eurocomunista", "ortodoxo", "duro", etc. Não é admissível que se continue a usar de expedientes, como a nomeação de delegados a conferências partidárias, para as quais deveriam ser democraticamente eleitos pelas organizações a que pertencem.
A democracia no processo de realização do VII Congresso precisa ser defendida com empenho por todos os comunistas. É necessário que todos – e em particular os dirigentes – falem abertamente o que pensam; devemos repudiar o comportamento dos que calam de público para falarem pelas costas ou transmitirem informações sigilosas à imprensa burguesa sem ter sequer a coragem de se identificar.
Quero ainda dizer que tenho conhecimento do quanto estou sendo caluniado e atacado pelas costas. Isso é mais uma prova dos métodos falsos a que me referi acima. Devo deixar claro que, não obstante ser o primeiro a achar que, inclusive pela minha idade já avançada, deveria deixar a direção do PCB, só poderei concordar com a minha substituição num Congresso realmente democrático. Não aceitarei meu afastamento decidido por algum tipo de Congresso-farsa, manipulado e antidemocrático, em que os próprios destinos do PCB e de nossa causa revolucionária corram perigo.
Sei que poderei vir a ser derrotado no Congresso; o importante, entretanto, é que este seja realmente democrático e verdadeiramente representativo da maioria dos comunistas. E para isso é necessário que sejam criadas as devidas condições, pois na situação atual, de virtual desmantelamento do PCB pela reação, de permanência da Lei de Segurança Nacional e de séria crise interna, são praticamente impossíveis um debate e uma participação realmente democráticos num Congresso realizado na clandestinidade. Temos que reconhecer que, nessas condições, o VII Congresso seria uma farsa, inaceitável para a grande maioria dos comunistas. Trata-se, portanto, de prioritariamente dar início a uma ampla campanha pela legalização do PCB, desmascarando o anticomunismo daqueles que a pretexto de defender uma suposta democracia pugnam pela manutenção dos odiosos preceitos da Lei de Segurança Nacional que proíbem a reorganização do Partido Comunista. É preciso esclarecer as amplas massas de nosso povo, mostrando-lhes que o PCB sempre esteve nas primeiras fileiras de todas as lutas democráticas em nosso País e sempre foi a principal vítima da repressão e do fascismo.
É necessário deixar claro que a legalização do PCB terá que ser uma conquista do movimento de massas e de todas as forças realmente democráticas em nosso País. Os trâmites legais junto ao Tribunal Superior Eleitoral estarão fadados ao fracasso, se a legalidade do PCB não se transformar numa exigência das massas, que, nas ruas, imponham sua vontade, como o fizeram em 45. A ditadura jamais nos concederá a legalidade sem luta; o que ela tenta, neste momento, é, aproveitando-se da crise interna do PCB, forçá-lo a um acordo. Acordo este que significaria um compromisso com a ditadura, incompatível com o caráter revolucionário e internacionalista do PCB, compromisso que colocaria o Partido a reboque da burguesia e a serviço da ditadura e inaceitável, portanto, à classe operária e a todos os verdadeiros revolucionários.
Empenhar-se numa intensa campanha pela legalização do PCB e pela conseqüente realização do VII Congresso na legalidade não deve, entretanto, servir de obstáculo ao início do debate preparatório para o Congresso, que poderá ir-se ampliando com o desenvolvimento da própria campanha pelo registro legal do PCB. A luta pela nossa legalidade é inseparável do empenho para que a democracia interna venha a ser uma realidade. Devemos ter claro que num país como o nosso, com a complexidade dos problemas que temos pela frente, é necessário um Partido Comunista de massas, o que só poderá se transformar em realidade se vier a ser um partido verdadeiramente democrático, não apenas em seu empenho na luta pela democracia em nossa Terra, como também em todos os aspectos de seu funcionamento.
A gravidade da crise que atravessa o PCB, a flagrante ausência de democracia interna e as profundas deformações no terreno da organização não estão dissociadas dos erros e desvios em nossa orientação política. Não se pode separar a elaboração de uma estratégia revolucionária da estratégia de construção de uma organização revolucionária. Ambas se condicionam reciprocamente. A estratégia revolucionária é a condição da eficiência da organização, e a organização é a condição da formulação de uma estratégia correta.
Sem pretender, nesta carta, uma análise aprofundada dos erros a meu ver cometidos na elaboração de nossa orientação política em diferentes períodos da história do PCB – tarefa que me proponho a realizar posteriormente —, quero apenas me referir a algumas questões que me parecem de maior atualidade e urgência, deixando clara minha posição.
Assim, considero importante destacar que, apesar do total arbítrio e do autoritarismo dominantes no País a partir do golpe reacionário de 1964, os governos que se sucederam em 16 anos não resolveram nem um só dos problemas fundamentais da Nação. Ao contrário, foram todos agravados. Aumentou a miséria dos trabalhadores, agravaram-se as desigualdades sociais, cresceu consideravelmente a dependência do País ao imperialismo, tornou-se mais crítica a situação do campo com as transformações capitalistas ocorridas na agricultura e as modificações introduzidas no sistema latifundiário que levaram, entre outras conseqüências, à proliferação do minifúndio e dos chamados "bóias-frías". Simultaneamente, cresceu vertiginosamente a criminalidade e a violência nas grandes cidades, agravaram-se problemas antigos como o do menor abandonado, do desemprego, a falta de assistência médica, o analfabetismo e a prostituição de menores. Isto comprova, mais uma vez, que o desenvolvimento capitalista não é capaz de resolver os problemas do povo e nem sequer de amenizá-los.
A solução desses e demais problemas fundamentais exige transformações sociais profundas, que só poderão ser iniciadas por um poder que efetivamente represente as forças sociais interessadas na liquidação do domínio dos monopólios nacionais e estrangeiros e na limitação da propriedade da terra, com o fim do latifúndio. E é por isso que a luta atual pela derrota da ditadura e a conquista das liberdades democráticas é inseparável da luta por esse tipo de poder que, pelo seu próprio caráter, representará um passo considerável no caminho da revolução socialista no Brasil.
Vejo a luta pela democracia em nossa Terra como parte integrante da luta pelo socialismo. É no processo de mobilização pela conquista de objetivos democráticos parciais, incluindo as reivindicações não apenas políticas, mas também econômicas e sociais, que as massas tomam consciência dos limites do capitalismo e da necessidade de avançar para formas cada vez mais desenvolvidas de democracia, inclusive para a realização da revolução socialista.
É de acentuar que no Brasil sempre dominaram regimes políticos autoritários. Mesmo nos melhores períodos de vigência da Constituição de 1946, as liberdades sempre foram muito limitadas e, principalmente, os trabalhadores nunca tiveram seus direitos mais elementares respeitados e reconhecidos. Tivemos sempre democracia para as elites, enquanto, para as grandes massas de nosso povo, o que sempre existiu foram a violência policial, tanto dos chefes políticos e caciques do interior, como das autoridades nas grandes cidades, e o total desrespeito pela pessoa humana e pelos direitos do cidadão.
Justamente por isso, nós comunistas, ao lutarmos agora pela derrota da ditadura, devemos fazê-lo esclarecendo as massas e dirigindo-as rumo à conquista de um regime efetivamente democrático. Lutamos agora por um regime em que sejam assegurados os direitos políticos, econômicos e sociais dos trabalhadores. A derrota da ditadura deve levar a um regime em que os trabalhadores tenham o direito de participarem ativamente na solução de todos os problemas da Nação; que assegure o desmantelamento do atual aparelho repressivo, que dê fim ao velho "hábito" das torturas, inclusive para os presos comuns; que garanta o voto livre, universal e direto para todos os cidadãos, incluindo os analfabetos e militares dele ainda privados; que assegure o direito ao trabalho, à educação e saúde, férias remuneradas e aposentadoria para todos os trabalhadores; em que sejam respeitados todos os direitos dos trabalhadores, destacando-se a total independência do movimento sindical do Estado, dos patrões e dos partidos políticos.
Certamente, as características do regime democrático a ser instaurado no País com o fim da ditadura dependerão fundamentalmente do nível de unidade, organização e consciência alcançado pelo movimento operário e popular. Cabe aos comunistas empenhar-se no esforço de mobilização da classe operária e demais setores populares para alcançar formas cada vez mais avançadas de democracia e, nesse processo, chegar à conquista do poder pelo bloco de forças sociais e políticas interessadas em realizar as profundas transformações a que me referi acima, e que deverão constituir os primeiros passos rumo ao socialismo, e, portanto, à mais avançada democracia que a humanidade já conhece – a democracia socialista.
Nós, comunistas, não podemos abdicar de nossa condição de lutadores pelo socialismo, restringindo-nos à suposta "democracia" que nos querem impingir agora os governantes, nem às conquistas muito limitadas alcançadas pela atual "abertura", que na prática exclui as grandes massas populares. Não podemos concordar com uma situação que assegure liberdades apenas para as elites, em que a grande maioria da sociedade continua na miséria e sem a garantia dos mais elementares direitos humanos.
Um partido comunista não pode, em nome de uma suposta democracia abstrata e acima das classes, abdicar do seu papel revolucionário e assumir a posição de freio dos movimentos populares, de fiador de um pacto com a burguesia, em que sejam sacrificados os interesses e as aspirações dos trabalhadores. Ao contrário, para os comunistas, a luta pelas liberdades políticas é inseparável da luta pelas reivindicações econômicas e sociais das massas trabalhadoras. E no Brasil atual, a classe operária está dando provas, cada vez mais evidentes, de que não está mais disposta a aceitar a "democracia" que sempre lhe foi imposta pelas elites e pelas classes dominantes. Os trabalhadores estão passando a exigir sua participação efetiva em um novo regime democrático a ser construído com o fim da ditadura, o que significa que lutarão por uma democracia em que tenham não apenas o direito de eleger representantes ao parlamento, mas lhes sejam assegurados melhores salários e condições mais dignas de vida, em que seus direitos sejam uma realidade e não apenas uma ficção. E o dever dos comunistas é dirigir essas lutas dos trabalhadores, contribuindo para sua unidade, organização e conscientização, mostrando-lhes que é necessário caminhar para o socialismo, única forma de assegurar sua real emancipação.
Simultaneamente, apresenta-se a questão da aliança dos comunistas com outras forças sociais e políticas. No momento atual, o objetivo mais importante a ser alcançado é a derrota da ditadura e, para isto, a conseqüente conquista de reivindicações políticas que ampliem cada vez mais a brecha já aberta no regime e levem ao estabelecimento de uma democracia no País. Não devemos, portanto, poupar esforços no sentido de aglutinar as mais amplas forças sociais e políticas, mesmo aquelas mais vacilantes e que sabemos que nos abandonarão em etapas ulteriores da luta. Seria, no entanto, abdicar de nosso papel revolucionário tratarmos apenas dos entendimentos "por cima", com os dirigentes dos diversos partidos políticos ou correntes de opinião, com as personalidades políticas, esquecendo-nos que para os comunistas o fundamental é a organização, a unificação e a luta permanente pela elevação do nível político da classe operária e das massas populares. Só assim contribuiremos para fortalecer o movimento popular e a frente oposicionista de luta contra a ditadura, compelindo seus setores liberais burgueses mais vacilantes e se definirem com mais clareza, e contribuindo, também, fundamentalmente, para que os trabalhadores venham a ser a força dirigente do conjunto das forças heterogêneas unificadas em ampla frente única.
Só assim agindo, realizarão os comunistas uma política capaz de impulsionar o movimento de massas, uma política que não pode ser a de ficar a reboque dos aliados burgueses, mas, ao contrário, a de não poupar esforços para que as massas assumam a liderança do processo de luta contra a ditadura e pela conquista da democracia, assim como de sua ampliação e aprofundamento continuado.
Não podemos, pois, compactuar com aqueles que defendem "evitar tensões", freando a luta dos trabalhadores em nome de salvaguardar supostas alianças com setores da burguesia. Ao contrário, sem cair em aventuras, é hoje, mais do que nunca, necessário contribuir para transformar as lutas de diferentes setores de nosso povo em um poderoso movimento popular, bem como é dever dos comunistas tomar a iniciativa da luta pelas reivindicações econômicas e políticas dos trabalhadores, visando sempre alcançar a derrota da ditadura e a conquista de uma democracia em que os trabalhadores comecem a impor sua vontade.
Com base na argumentação acima desenvolvida, não se pode deixar de chegar à conclusão lógica de que é totalmente infundada a contraposição, que vem sendo a mim atribuída, entre uma suposta "frente de esquerda" e uma "frente democrática" ou de oposição. Jamais coloquei o problema dessa maneira, o que não passa de mais uma deturpação do meu pensamento, útil àqueles que precisam tergiversar minhas idéias para poder combatê-las. Penso que, para chegarmos à construção de uma efetiva frente democrática de todas as forças que se opõem ao atual regime, é necessário que se unam as forças de "esquerda" – quer dizer, aquelas que lutam pelo socialismo – no trabalho decisivo de organização das massas "de baixo para cima"; que elas se aglutinem, sem excluir também entendimentos entre seus dirigentes, com base numa plataforma de unidade de ação, e que, dessa maneira, cheguem a reunir em torno de si os demais setores oposicionistas, tornando-se a força motriz da frente democrática. Esta é a perspectiva revolucionária de encaminhamento da luta contra a ditadura, a que mais interessa à classe operária e a todos os trabalhadores. Será a constituição em nosso País, pela primeira vez, da unidade de diversas forças que lutam pelo socialismo. Colocam-se contra essa possibilidade os que preferem ficar a reboque da burguesia e que buscam, com isto, mais uma vez, chegar em nosso País a uma democracia para as elites, da qual não participariam os trabalhadores.
Quando me referi à necessidade das diferentes forças de "esquerda" caminharem juntas, tenho em vista a nova situação que vem se formando no País. Estamos vivendo um período, quando a reanimação do movimento operário e popular vem revelando, por um lado, que todas as forças de "esquerda", incluindo o PCB, tem cometido graves erros, tanto de avaliação da situação nacional, como de encaminhamento das soluções necessárias e possíveis e, consequentemente, de atuação. E, por outro lado, a necessidade de formação de uma liderança efetiva, capaz de dirigir as lutas de massas dentro de uma perspectiva revolucionária correia e adequada à situação brasileira. Está, portanto, na ordem do dia a questão da unidade de todos que se propõem a lutar efetivamente por uma perspectiva socialista para o Brasil.
No que diz respeito ao PCB, sou de opinião de que, tendo sido correto combater os desvios "esquerdistas" e "golpistas", após o golpe de 1964, caímos do outro lado, em posições próximas do reboquismo e da passividade. Devemos reconhecer, inclusive, que o PCB não teve a capacidade de apresentar uma alternativa (principalmente uma estratégia) correta de luta contra a ditadura, contribuindo, assim, para que muitos revolucionários honestos, particularmente os jovens que não queriam-se conformar com o arbítrio instaurado no País, enveredassem pelo caminho de ações individuais ou desligadas das massas e que só poderiam conduzir a sucessivas derrotas.
É importante ainda chamar a atenção dos comunistas para o fato de nas fileiras do PCB ter-se convertido a luta justa contra os desvios "esquerdistas" e "golpistas" numa obsessão quase cega, que nos tem levado frequentemente a identificar qualquer atitude ou posição combativa pelas causas justas dos trabalhadores com um suposto "esquerdismo" ou "golpismo".
Tudo isso torna imprescindível que se inicie entre os comunistas, tanto dentro, como fora do PCB, um amplo processo de análise autocrítica das posições das diferentes forças de "esquerda" e, em particular, do PCB. É necessário rever com espírito autocrítico a orientação política que mantivemos em diferentes períodos históricos e em especial, as resoluções aprovadas no VI Congresso e nos anos que se seguiram. Devemos examinar a que resultados concretos fomos levados pela aplicação de tais resoluções e fazer um esforço coletivo que conduza à elaboração de soluções adequadas à situação do Brasil de hoje, partindo do princípio de que nosso objetivo final, enquanto comunistas, só pode ser um: a construção da sociedade socialista e do comunismo em nossa Terra. E para isso, é imprescindível que todos aqueles que queiram contribuir para a vitória desses objetivos unam suas forças e procurem chegar a um programa comum, sem cair nem na cópia de modelos estrangeiros, nem na negação das leis gerais do desenvolvimento social.
Quando me referi à necessidade de formular o programa dos comunistas, tenho em vista chegarmos, através de um processo de discussão efetivamente livre, à elaboração do caminho para o socialismo nas condições brasileiras e à sua aprovação de forma democrática.
Como já tive ocasião de assinalar, a própria prática social vem mostrando o quanto as forças de "esquerda" estão atrasadas na realização desse objetivo. Não pretendo apresentar nesta carta uma proposta de programa. Sou de opinião que essa tarefa só poderá ser realizada com a colaboração de todos que, em nosso País, estão empenhados na luta pelo socialismo, comunistas ou não, membros do PCB, de outras organizações de "esquerda" ou "independentes".
Penso que o eixo central desse programa deve ser tal que apresente, com a necessária clareza, qual o processo que, nas condições de nosso País, poderá e deverá ligar a luta atual pela derrota definitiva da ditadura e a conquista de um regime democrático com a luta pelo socialismo no Brasil.
Trata-se, portanto, de se enfrentar e dar solução a um conjunto de questões teóricas e práticas de grande complexidade. Questões que só poderão ser elaboradas através do estudo aprofundado das transformações econômicas, sociais, políticas e culturais que se vêm processando em nosso País, bem como das novas condições em que se encontra o mundo na atualidade.
Penso que, na elaboração do programa é necessário partir de algumas idéias básicas que pretendo desenvolver posteriormente, para os debates do VII Congresso. Em primeiro lugar, partir do pressuposto de que cabe aos comunistas, desde já, organizar e unir as massas trabalhadoras na luta pelas reivindicações econômicas e políticas que se apresentam no próprio processo de luta contra a ditadura. É partindo dessas lutas, da atividade cotidiana junto aos mais diferentes setores populares, principalmente junto à classe operária, que poderemos avançar no sentido do esclarecimento das massas para que cheguem à compreensão da necessidade das transformações radicais de cunho antimonopolista, antiimperialista e antilatifundiário. É necessário mostrar aos trabalhadores que os grandes problemas que afetam a vida de nosso povo só poderão ser solucionados com a liquidação do poder dos monopólios nacionais e estrangeiros e do latifúndio, e que isto só será conseguido com a formação de um bloco de forças antimonopolistas, antiimperialistas e antilatifundiárias, capaz de assumir o poder e de dar início a essas transformações. Poder que, pelo seu próprio caráter, significará um passo decisivo rumo ao socialismo. E para que esse processo tenha êxito, é indispensável que a classe operária – a única conseqiientemente revolucionária – seja capaz de exercer o papel dirigente do referido bloco de forças. Mas este papel dirigente só se conquista na luta. O dever dos comunistas é exatamente o de contribuir para que esse objetivo seja alcançado.
Companheiros e amigos!
Esta carta constitui como que a reafirmação da confiança que tenho nos comunistas e na classe operária, na sua capacidade de reflexão sobre a grave situação que atravessa o PCB. Chegou o momento em que é indispensável que os comunistas rompam com a passividade e tomem os destinos do PCB em suas mãos, rebelando-se contra as arbitrariedades e os métodos mandonistas de direção, e tratando de eleger, em todos os níveis partidários, direções que realmente sejam a expressão democrática da maioria dos comunistas. Penso ter evidenciado o quanto tem de excepcional a situação que me levou a formular este apelo a todos os comunistas para iniciar um processo de mudanças radicais que deverá ser coroado com a discussão e aprovação democráticas de uma orientação verdadeiramente revolucionária e a eleição também democrática de um novo tipo de direção à altura desta nova orientação.
Rio de Janeiro, março de 1980.
Luiz Carlos Prestes

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