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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Breve história do Manifesto do Partido Comunista, por Augusto Buonicore - Portal Vermelho - 177 anos do Manifesto - Audiolivro


Audiolivro - Manifesto do Partido Comunista (1848)

Manifesto do Partido Comunista - Marxist Internet Archive - Texto e Prefácios


Saudades das luzes de Buonicore.  Vede como ainda brilham! Paulo Vinícius da SIlva


    Breve história do Manifesto do Partido Comunista, por Augusto Buonicore - Portal Vermelho


Este mês estamos comemorando os 160 anos da publicação do Manifesto do Partido Comunista. Esta foi, sem dúvida, a obra mais famosa de Marx e Engels. Podemos dizer que, quer pelo seu conteúdo, quer por sua forma didática, ele foi o respons


por Augusto Buonicore

Publicado 20/02/2008 16:19


Do socialismo utópico ao científico


O Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels é considerado, pela maioria dos estudiosos, como a primeira obra pública do chamado socialismo científico. Mas, por que socialismo científico?

Antes de Marx e Engels vários teóricos socialistas já faziam duras críticas à situação dos trabalhadores sob o capitalismo, denunciavam as injustiças criadas pela sociedade burguesa e até mesmo pressentiam que estas injustiças tinham por base o monopólio da propriedade privada dos meios de produção. Mas eles não compreendiam e nem podiam compreender a dinâmica do desenvolvimento da sociedade capitalista, que não havia desenvolvido todas as suas potencialidades. Não compreendiam a determinação, em última instância, da esfera econômica (inter-relação dinâmica entre forças produtivas e relações de produção) sobre a superestrutura político-jurídica e ideológica da sociedade.

O socialistas pré-marxistas, ou utópicos, não entendiam que a sociedade socialista só poderia nascer a partir de um certo grau de desenvolvimento das forças produtivas, propiciado pelo avanço do próprio capitalismo. Ou seja, o socialismo só seria possível na relativa abundância propiciada pela sociedade industrial moderna. Não seria possível o socialismo na escassez inerente aos modos de produção pré-capitalistas: escravista e feudal.

O desenvolvimento das forças produtivas modernas criava as condições materiais para superar a escassez e realizar as necessidades humanas essenciais. Mas, por que isso não acontecia? Porque as relações de produção estavam assentadas na propriedade privada dos meios de produção. Esta era a contradição fundamental do capitalismo e a base de sua desagregação. A possibilidade da realização das necessidades humanas abertas com o desenvolvimento da grande indústria só poderia ser realizada plenamente com a socialização dos meios de produção e o aumento ainda maior das forças produtivas.

Ao não compreenderem a dinâmica real do desenvolvimento da sociedade humana em geral e do capitalismo em particular, os “utópicos” apresentavam propostas irreais para superar o capitalismo e instaurar a sociedade socialista.

Não reconheciam o papel determinante da luta de classe no processo de transformação social. Nem o papel fundamental que deveria ser desempenhado pelo proletariado moderno. E, por isso, acabavam priorizando métodos centrados no convencimento das classes dominantes e dos seus respectivos governos. Imploravam para que eles ajudassem a realizar os seus projetos mirabolantes – embora generosos – de sociedades alternativas. Os principais socialistas utópicos foram Saint-Simon, Charles Fourier e Robert Owen.

Ao contrário, Marx e Engels compreendiam que a história da sociedade humana tinha sido a história da luta de classes. Estudando o desenvolvimento da sociedade capitalista e de suas contradições, haviam chegado à conclusão de que no capitalismo a classe revolucionária era o proletariado, filho legítimo da industrialização capitalista. O proletariado estava chamado a cumprir o papel de coveiro da sociedade burguesa.

O capitalismo só poderia ser superado com a organização e a luta dos proletários e não através de concessões graduais das classes dominantes, feudais ou burguesas. Mas eles não chegaram a esta conclusão a partir do nada, construíram a sua teoria a partir do estudo da realidade concreta, da sociedade do seu tempo.

O proletariado já tinha mostrado toda sua força nas insurreições dos tecelões de Lyon (França) em 1831 e 1834 e na dos tecelões da Silésia (Alemanha) em 1844. A maior demonstração de organização e de politização do proletariado europeu havia sido o movimento cartista na Inglaterra. Em 1842 milhões de trabalhadores haviam se declarado em greve geral em defesa da “Carta Popular”, na qual exigiam direitos políticos e sociais dos quais eles estavam excluídos. Portanto, o Manifesto também foi fruto da evolução do movimento e da consciência política do proletariado. Sem isto o Manifesto jamais poderia ter sido escrito.

Qualquer observador atento a partir da terceira década do século 19 poderia constatar o nascimento de uma nova força social, destinada a cumprir um grande papel na história moderna. O socialista-reformista francês Louis Blanc, em 1846, afirmaria: “Na pujança do movimento desses escravos dos tempos modernos resulta fácil prever as tempestades que levam em suas entranhas o século 19”. Até um ideólogo burguês como Monfalcon, um observador das rebeliões operárias em Lyon, constataria aterrorizado: “Uma das próximas conseqüências fatais desses eventos será que os operários (…) se convertam em uma classe política (…) Se apresentarão homens que dirão aos operários 'vosso suor só beneficia aos ricos; os fabricantes são seus inimigos naturais. Queixais de que sois desgraçados e, entretanto, sois os mais numerosos e os mais forte. Uni-vos!”. Uma conclusão premonitória.

A parceria de Marx e Engels

Marx e Engels iniciaram sua parceria teórica e política em agosto de 1844 quando, juntos, começaram a redigir o livro “A Sagrada Família”. Em polêmica acesa com os jovens hegelianos Bruno e Oto Bauer, eles apresentaram as conclusões que haviam chegado através de seus estudos de filosofia, história e economia política.

Defenderam, na forma de polêmica anti-idealista, a tese de que a história dos homens só poderia ser plenamente compreendida mediante a análise do desenvolvimento da produção material. O mundo das idéias e o próprio Estado eram condicionados pelo nível de desenvolvimento dessa mesma produção material.

Apresentaram, também, a sua tese sobre o papel revolucionário do proletariado moderno e da necessidade histórica da revolução comunista. Afirmaram Marx e Engels: “Não se trata do que este ou aquele proletário, ou inclusive o proletariado em seu conjunto, possa apresentar-se de vez como meta. Trata-se de o que o proletariado é e de o que está obrigado historicamente a fazer, de acordo com o seu ser”.

Ainda em 1845 foi publicado o livro “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”, escrito por Engels. Nesta obra analisou as condições em que vivia a classe operária inglesa, constatou que o crescimento da riqueza social se dava à custa da crescente miséria e exploração do trabalho dos operários. E essa contradição desembocaria em uma nova e radical revolução social: a revolução comunista. O agente dessa revolução seria o proletariado.

No mesmo ano, Marx e Engels resolveram expor de maneira mais sistemática a suas divergências com a escola neo-hegeliana. Nasceu assim “A Ideologia Alemã”. Em 1846 a obra já estava pronta, mas não conseguiram um editor para publicá-la. Esta era uma exposição sistemática do materialismo histórico e da teoria socialista desenvolvidos por eles.

Nessa obra desenvolveram a idéia presente no Manifesto de que o socialismo só poderia se constituir a partir de um certo grau de desenvolvimento das forças produtivas e, conseqüentemente, com o surgimento e a ampliação incessante do proletariado moderno. Escreveram: “No capitalismo surge uma classe condenada a suportar todos os inconvenientes da sociedade sem gozar de suas vantagens (…) e disso nasce a consciência de que é necessária uma revolução radical, a consciência comunista.” A missão histórica colocada para esta nova classe deveria ser a conquista do poder político das mãos da burguesia e a gradual expropriação dos meios de produção fundamentais, abrindo assim o caminho para a sociedade sem Estado e sem classes: a sociedade comunista.

A partir daí o movimento operário e socialista poderia contar com uma teoria mais adequada, assentada no estudo profundo da sociedade capitalista, de suas contradições e tendências objetivas. O projeto socialista não se assentava mais nos protótipos de sociedades perfeitas (ideais) nascidas da cabeça de algum sonhador genial. Os trabalhadores e suas organizações poderiam contar agora com um poderoso instrumento teórico, que lhe permitiria construírem táticas e estratégias políticas mais condizentes com os seus objetivos de superação do capitalismo.

Marx e a Liga Comunista

A Liga dos Justos foi criada em 1836 e era formada, majoritariamente, pelos representantes mais radicais da emigração alemã que residiam na França. Seus membros eram, em geral, operários artesanais: ferreiros, carpinteiros, sapateiros, alfaiates. Embora o seu centro político ficasse em Paris, a organização se ramificava em seções por vários países europeus.

Ela tinha estreitas relações com a “Sociedade das Estações” francesa, organização secreta dirigida por Augusto Blanqui, líder revolucionário republicano e socialista. Quando os blanquistas organizaram um levante em 1839, os membros da Liga se uniram a eles. A revolta foi rapidamente sufocada e parte dos dirigentes foi aprisionada e outra teve que fugir para a Inglaterra e Suíça. O centro da organização teve que se transferir para Londres, onde havia maior liberdade política.

Com a derrota, muitos membros se desencantaram com os métodos conspirativos dos blanquistas. Alguns acabaram se aproximando da ala reformista do movimento socialista europeu, especialmente das teses do comunismo-utópico de Cabet. Este acreditava que o comunismo poderia ser conquistado através da propaganda, do exemplo positivo e defendia a formação de colônias comunistas nas Américas. Algumas experiências foram tentadas e fracassaram.

Portanto, as concepções políticas predominantes na Liga dos Justos eram instáveis e confusas. Isto se devia à sua composição social de operários artesãos, classe em transição entre a pequena-burguesia e o proletariado moderno. Um dos elementos mais ativos da ala esquerda da Liga era Wilhelm Weitling, alfaiate alemão. Em 1842 ele publicou Garantias da harmonia e da liberdade, que obteve grande repercussão no movimento operário e socialista europeu. O próprio Marx o saldou como “uma estréia literária inigualável e brilhante dos operários alemães”.

Weitling anunciou que a chegada do comunismo era iminente. Defendeu, contra os reformistas, que este só poderia ser conquistado pela luta sem tréguas entre os oprimidos e os opressores. Estas idéias particularmente agradaram ao Marx daquela época.

Mas, ao contrário de Marx, Weitling não compreendia o papel especial a ser desempenhado pela classe operária moderna, ainda em formação. Ele defendia que o elemento mais revolucionário da sociedade capitalista era o lumpen-proletariado, “as classes marginais”. Chegou mesmo a apresentar para a direção da Liga um plano detalhado de revolução social, que se resumia à formação imediata de um exército de 20 a 40 mil miseráveis e à deflagração de uma guerra de guerrilhas contra a ordem existente. A concepção de Weitling também se caracterizava pelo anti-teoricismo – negação do papel da teoria – e pela rejeição da importância da atuação política. Estes eram dois outros aspectos do seu pensamento terminantemente rejeitados por Marx e Engels.

Engels foi o primeiro a entrar em contato com a Liga dos Justos, entre 1842 e 1844, quando da sua estada na Inglaterra. Ele ficou bastante impressionado e afirmou que estes teriam sido os primeiros proletários revolucionários que havia conhecido. Mas, mesmo assim, ele não se convenceu a entrar para a organização. Existiam ainda muitos pontos de discordâncias.

Marx só veio a entrar em contato com a Liga em meados de 1845, quando viajou para a Inglaterra com o objetivo de estudar os economistas ingleses e estabelecer contato com o movimento operário que se desenvolvia rapidamente. Durante este período ajudou a estabelecer relações entre a ala esquerda do cartismo e a Liga dos Justos. Nasceu, assim, a idéia de se criar uma organização revolucionária de caráter internacional.

Em novembro de 1846 a direção da Liga dos Justos propôs a convocação de um congresso internacional de todas as suas seções para maio de 1847. Um dos objetivos era a elaboração de um novo programa socialista, mais adequado à suas recentes experiências. Neste processo de re-elaboração teórica e estratégica decidiram procurar novamente Marx e Engels.

Estes estavam envolvidos no processo de formação dos chamados Comitês de Correspondência Comunista, que procurava também ser um embrião de um partido operário-revolucionário internacional. Comitês foram organizados na Bélgica, Paris e Londres. Existia uma interseção entre as diversas organizações operárias internacionais; em Londres, os principais membros do Comitê de Correspondência eram membros da Liga dos Justos e do movimento cartista. Eram tentativas embrionárias de formação de uma Internacional.

Neste período de formação dos comitês de correspondência Marx travou importantes disputas políticas contra outras correntes socialistas. Apesar da afinidade inicial, desenvolveu uma dura luta de idéias com Weitling. Eram inadmissíveis suas posições contra a participação dos operários na luta política e, especialmente, seu preconceito contra a teoria e os intelectuais revolucionários. Em março de 1846 se daria a ruptura definitiva entre eles.

Marx e Engels travaram também uma luta contra os chamados “verdadeiros socialistas”. O principal documento desta contenda foi a Circular sobre Kriege. Nela afirmaram: “A idéia de converter todos os homens em proprietários privados é absolutamente irreal e, mais ainda reacionária”. O último grande confronto teórico-político antes da elaboração do Manifesto Comunista foi travado contra Proudhon, um dos pais do anarquismo, e sua obra Filosofia de Miséria. A crítica de Marx seria publicada em julho de 1847 e intitulava-se A Miséria de filosofia.

As posições teóricas e políticas de Marx e Engels chamaram a atenção dos principais membros da direção da Liga dos Justos e por isso propuseram para que eles apresentassem uma proposta de estatuto e de programa. Não sem certa relutância os dois revolucionários ingressaram na Liga e aceitaram a tarefa.

No dia 2 de junho de 1847 teve início aquele que seria o último congresso da Liga dos Justos e o primeiro da Liga dos Comunistas. Engels estava presente representando a organização parisiense. Marx não pôde comparecer ao encontro internacional. Neste evento aprovou-se o novo estatuto proposto por Engels e que era assentado na mais ampla democracia interna. O Congresso passou a ser o órgão supremo da nova organização. O Comitê Central desempenharia apenas o poder executivo no período entre congressos. Rompia-se com a concepção de seita clandestina e pouco democrática.

A carta-circular aprovada justificou a alteração do nome da organização sugerida por Engels: “Nós nos distinguimos não por propugnar a justiça em geral (…) mas sim por repudiar o regime social existente e a propriedade privada, propugnamos a comunidade de bens, somos comunistas”. A divisa também foi alterada para se adequar aos novos princípios da organização. Em lugar da antiga divisa “Todos os homens são irmãos” foi colocada a nova consigna “Proletários de todos os países uni-vos!”.

O Primeiro Congresso aprovou um projeto de programa (provisório), elaborado por Engels denominado Símbolo da Fé Comunista. Baseado nesse texto, Engels elaborou ainda uma outra proposta de programa que foi denominada Princípios do Comunismo. Os dois projetos foram redigidos didaticamente na forma de perguntas e respostas.

Mas, a forma não agradou ao próprio Engels. Ele escreveu a Marx: “Pensa no Símbolo da Fé. Creio que o melhor seria abandonar a forma de catecismo e chamar o trabalho de Manifesto Comunista. Nele tem que se analisar em uma ou outra medida a história da questão e para isso a forma atual não serve em absoluto”.

No segundo Congresso Marx recebeu o encargo de elaborar o novo programa teórico e prático da organização. Ele não se apressou para realizar o seu trabalho o que lhe acarretou uma advertência da direção da Liga. Colaborava para o relativo atraso o seu afastamento de Engels e o seu método de trabalho. Como afirmou Riazov: “Elaborava sempre longamente suas obras, sobretudo se se tratasse de um documento importante. Neste caso, o queria perfeitamente redigido”.

Para Marx e Engels o Manifesto deveria ser, nas palavras de Mehring, “uma obra perene e não um escrito polêmico de leitura fugaz”. Continuou ele: “Foi a sua forma clássica que assegurou ao Manifesto Comunista o posto perdurável que ocupa na literatura universal”. Marx, utilizando o esboço de Engels, terminou a sua tarefa no final de janeiro de 1848 e no início de fevereiro era publicado o Manifesto do Partido Comunista. Tinha apenas 23 páginas, mas revolucionaria o mundo todo. Como disse Lênin: “Este pequeno livrinho valeria por tomos inteiros”.

O Manifesto foi publicado poucos dias antes de eclosão da revolução na França que derrubou o rei Louis Felipe e instaurou a república. Logo em seguida, a revolução democrática se espalharia por todo o continente europeu, inclusive a Alemanha, conforme previu o Manifesto. Era a chamada Primavera dos Povos. Marx e Engels voltaram a sua terra natal e se envolveram diretamente na revolução em curso.

Em junho de 1848 estourou a revolução operária em Paris, derrotada pelas forças coligadas da burguesia. Esta foi a primeira revolução política operária e causou profunda impressão nas classes proprietárias européias e teria reflexo na elaboração teórica de Marx e Engels. Os artigos de Marx analisando a revolução francesa entre 1848 e 1850 foram publicados no livro “As Lutas de Classes em França”.

A derrota da revolução de junho e o refluxo das revoluções democráticas e populares na Europa foram acompanhados por um acirramento da repressão ao movimento operário e socialista. Um dos marcos dessa repressão foi a instauração do processo de Colônia contra os membros do Comitê Central da Liga Comunista na Alemanha. Oito dirigentes da liga foram condenados. A Liga acabou sendo oficialmente dissolvida. Uma nova organização internacional dos operários e socialistas só seria construída em 1864, a Associação Internacional dos Trabalhadores.

Desde a sua publicação o destino do Manifesto do Partido Comunista sempre esteve ligado ao destino do movimento socialista e operário e internacional. Acompanhou seus avanços e sofreu com suas derrotas.

Notas
Este artigo já foi ao ar no próprio Vermelho há cinco anos atrás. Resolvi republicá-lo em homenagem à data.

Clique para ter uma apresentação do Manifesto “O manifesto Comunista como Programa

Clique para ter acesso ao artigo “Retificação e atualidade de um manifesto de 150 anos

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Contra o Liberalismo Mao Zedong (1937) - A crítica a uma das formas do oportunismo


Nós somos pela luta ideológica activa porque é uma arma para se alcançar a unidade interna do Partido e das demais organizações revolucionárias, em benefício do nosso combate. Cada membro do Partido Comunista, todo o revolucionário, deve empunhar essa arma.

O liberalismo, porém, rejeita a luta ideológica e preconiza uma harmonia sem princípios, o que dá lugar a um estilo decadente, filisteu, e provoca a degenerescência política de certas entidades e indivíduos, no Partido e nas outras organizações revolucionárias.

O liberalismo manifesta-se sob diversas formas: Constatamos que alguém está a agir mal mas, como se trata dum velho conhecido, dum conterrâneo, dum condiscípulo, dum amigo íntimo, duma pessoa querida, dum antigo colega ou subordinado, não nos empenhamos no debate de princípios e deixamos as coisas correr, preocupados com manter a paz e a boa amizade. Ou então, para mantermos a boa harmonia, não fazemos mais do que críticas ligeiras, em vez de resolver a fundo os problemas.

O resultado é prejudicar-se tanto a colectividade como o indivíduo. Essa é uma primeira forma de liberalismo.

Em privado entregamo-nos a críticas irresponsáveis, em vez de fazermos activamente sugestões à organização. Nada dizemos de frente às pessoas, mas falamos muito pelas costas; calamo-nos nas reuniões, e falamos a torto e a direito fora delas. Desprezamos os princípios de vida colectiva e deixamo-nos levar pelas inclinações pessoais. É uma segunda forma de liberalismo.

Desinteressamo-nos completamente por tudo que não nos afecta pessoalmente; mesmo quando temos plena consciência de que algo não vai bem, falamos disso o menos possível; deixamo-nos ficar sabiamente numa posição coberta e temos como única preocupação não ser apanhados em falta. É uma terceira forma de liberalismo.

Não obedecemos a ordens, colocamos as nossas opiniões pessoais acima de tudo. Não esperamos senão atenções por parte da organização e repelimos a disciplina desta. Eis uma quarta forma de liberalismo.

Em vez de refutar e combater as opiniões erradas, no interesse da união, do progresso e da boa realização do trabalho, entregamo-nos a ataques pessoais, buscamos questões, desafogamos o nosso ressentimento e procuramos vingar-nos. Eis uma quinta forma de liberalismo.

Escutamos opiniões erradas sem elevarmos uma objecção e deixamos até passar, sem informar sobre elas, expressões contra-revolucionárias, ouvindo-as passivamente, como se de nada se tratasse. É uma sexta forma de liberalismo.

Quando nos encontramos entre as massas, não fazemos propaganda nem agitação, não usamos da palavra, não investigamos, não fazemos perguntas, não tomamos a peito a sorte do povo e ficamos indiferentes, esquecendo-nos de que somos comunistas e comportando-nos como um cidadão qualquer. É uma sétima forma de liberalismo.

Vemos que alguém comete actos prejudiciais aos interesses das massas e não nos indignamos, não o aconselhamos nem obstamos à sua acção, não tentamos esclarecê-lo sobre o que faz e deixamo-lo seguir. Essa é uma oitava forma de liberalismo.

Não trabalhamos seriamente, mas apenas para cumprir formalidades, sem plano e sem orientação determinada, vegetamos — "enquanto for sacristão, contentar-me-ei com tocar os sinos". Essa é uma nona forma de liberalismo.

Julgamos ter prestado grandes serviços à revolução e damo-nos ares de veteranos; somos incapazes de fazer grandes coisas mas desdenhamos as tarefas pequenas; relaxamo-nos no trabalho e no estudo. Eis uma décima forma de liberalismo.

Cometemos erros, damo-nos conta deles mas não queremos corrigi-los, dando assim uma prova de liberalismo com relação a nós próprios. Eis a décima primeira forma de liberalismo.

Poderiam citar-se outros exemplos mais, mas os onze acima indicados são os principais.

Todos eles constituem manifestações do liberalismo.

O liberalismo é extremamente prejudicial nas colectividades revolucionárias. É um corrosivo que mina a unidade, afrouxa a coesão, engendra a passividade e provoca dissensões. Priva as fileiras revolucionárias duma organização sólida e duma disciplina rigorosa, impede a aplicação integral da linha política e separa as organizações do Partido das massas populares colocadas sob a direcção deste. É uma tendência extremamente perniciosa.

A origem do liberalismo está no egoísmo da pequena burguesia, que põe em primeiro lugar os seus interesses pessoais, relegando para segundo plano os interesses da revolução. É dela que nasce o liberalismo ideológico, político e de organização.

Os liberais consideram os princípios do Marxismo como dogmas abstractos. Aprovam o Marxismo mas não estão dispostos a pô-lo em prática, ou a pô-lo integralmente em prática; não estão dispostos a substituir o liberalismo pelo Marxismo. Armam-se tanto dum como doutro: falam de Marxismo mas praticam liberalismo; aplicam o primeiro aos outros e o segundo a si próprios. Levam os dois na bagagem e encontram uma aplicação para cada um.

É assim que pensam certos indivíduos.

O liberalismo é uma manifestação do oportunismo e está em conflito radical com o Marxismo. O liberalismo é a passividade. Objectivamente, serve o inimigo. É por essa razão que o inimigo se regozija quando o conservamos nas nossas fileiras. Tal é a natureza do liberalismo. Não deve pois haver lugar para ele nas fileiras da revolução.

Penetrados do espírito activo do Marxismo, devemos vencer a passividade do liberalismo. Um comunista deve ser aberto, fiel e activo, colocar os interesses da revolução acima da sua própria vida e subordinar os interesses pessoais aos interesses da revolução. Em todos os momentos, seja onde for que se encontre, ele deve ater-se aos princípios justos e travar uma luta sem tréguas contra todas as ideias e acções erradas, de modo a consolidar a vida colectiva do Partido e reforçar os laços existentes entre este e as massas; um comunista deve preocupar-se mais com o Partido e as massas do que com os seus interesses pessoais, e atender mais aos outros do que a si próprio. Só quem actua assim pode ser considerado comunista.

Todos os comunistas fiéis, abertos, activos e honestos, devem unir-se para lutar contra as tendências liberais de certos indivíduos entre nós, e conseguir chamá-los ao bom caminho. Essa é uma das nossas tarefas na frente ideológica.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Quem é o Partido? Bertold Brecht - Portal Vermelho



Quem é o partido?


Mas quem é o partido?
Ele fica sentado em uma casa com telefones?
Seus pensamentos são secretos,
suas decisões desconhecidas?
Quem é ele?

Nós somos ele.
Você, eu, vocês – nós todos.
Ele veste sua roupa, camarada, e pensa com a sua cabeça
Onde moro é a casa dele, e quando você é atacado
ele luta.

Mostre-nos o caminho que devemos seguir, e nós
O seguiremos como você, mas
Não siga sem nós o caminho correto
Ele é sem nós
O mais errado.
Não se afaste de nós!
Podemos errar, e você pode ter razão, portanto
Não se afaste de nós!

Que caminho curto é melhor que o longo
ninguém nega
Mas quando alguém conhece
E não é capaz de mostrá-lo a nós
de que nos serve sua sabedoria?
Seja sábio conosco!
Não se afaste de nós!

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Um leninismo para o nosso tempo - Partido: consciência, sujeito e instrumento - Por José Carlos Ruy e Walter Sorrentino*

Princípios nº 92




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A Revolução Russa de 1917 deixou o rico legado das idéias de Lênin sobre o partido revolucionário como instrumento do proletariado para a conquista de uma sociedade nova. Passados cem anos da publicação de Que fazer? as idéias leninistas continuam atuais? Em que sentido?


Um enigma ronda o movimento comunista no início do século XXI: quem é o personagem da revolução em nosso tempo? Qual o sentido da busca de uma sociedade avançada e que tipo de programa poderá mobilizar as amplas massas? Que tipo de instrumento político é necessário? Em suma, o leninismo, esta herança deixada pela revolução russa de 1917, mantém sua validade?

1- A herança do pensamento de Lênin é muito conhecida. Sua obra canônica, Que fazer?, escrita em 1902, sistematiza a teoria de partido e seu princípio organizativo: o centralismo democrático. Essas idéias se desenvolveram ao longo do tempo e, nos vinte anos seguintes – entremeados pela mudança civilizatóriaque representou a Revolução de 1917 – foram seguidamente flexibilizadas pelo próprio Lênin, respondendo a conjunturas históricas concretas que o partido dirigido pelo revolucionário russo enfrentou em cada momento. Recuperar o significado vivo dessa herança é uma necessidade que se impõe, cujo fundamento é a compreensão do partido como o ponto mais alto do desenvolvimento da consciência de classe do proletariado. Consciência que é resultado concreto da evolução histórica e das formas particulares pelas quais as contradições de classe vão sendo resolvidas em cada sociedade particular. Essa consciência se desenvolve desde a percepção pelo trabalhador da opressão na fábrica e nos locais de trabalho, e percorre várias etapas em seu desenvolvimento: da basilar consciência sindical, de caráter meramente econômico, corporativo, à consciência política que leva o proletariado à busca de formas organizativas adequadas para poder interferir nos rumos do Estado e do governo.

Mas, mesmo aqui, o desenvolvimento ainda não chegou a seu ponto alto, que é a compreensão da necessidade de fundação de “um novo tipo de Estado”, como dizia Gramsci, de uma nova forma de governar e de organizar a sociedade. Esta é a consciência socialista, que não se sustenta na solidão individual, mas sim quando de solidifica numa organização que exprima a vontade revolucionária coletiva. E leva a uma ação política unificada. Esta organização é o partido revolucionário do proletariado, no qual a consciência de classe ganha materialidade, capaz de sensibilizar as mais amplas massas para intervir no processo político e histórico.

O pensamento leninista sobre partido ficou engessado desde a década de 1930, reduzido a uma leitura estrita de Que fazer?, gerando – a partir das contradições enfrentadas no esforço pioneiro de construção do socialismo na URSS – a confusão entre partido, classe e Estado proletário. O centralismo democrático foi transformado em instrumento de Estado e de governo, ferramenta para o domínio da direção sobre o partido, comprometendo a livre adesão à disciplina partidária e eliminando o espírito de debate e de pesquisa que sempre fez a riqueza do marxismo como pensamento avançado.

A herança leninista tem duas dimensões: ela é simultaneamente histórica e universal.

Histórica porque ligada a uma realidade concreta específica, com tarefas próprias, correspondendo também ao nível de consciência revolucionária existente. A organização partidária e o pensamento avançado que a anima decorrem de realidades que são, de certa forma, únicas e irrepetíveis. E por isso particulares, historicamente determinadas, que não se prestam a modelagem fixa.

Universal porque parte da compreensão de que o capitalismo, em todos os lugares, não resolve suas contradições nem atende às necessidades humanas de forma completa e para todos. Ele é uma forma transitória que faz parte da história da humanidade. Não é nem eterno nem natural, mas suscetível de superação quando passa a entravar o desenvolvimento da sociedade e se torna um empecilho para o avanço civilizatório. A universalidade, aqui, corresponde à compreensão da necessidade de sua superação, tarefa histórica que adquire feições diferenciadas de acordo com as realidades próprias de cada nação e cada povo, e que exige uma consciência teórica avançada, baseada na ciência social avançada, para abrir caminho a uma nova formação econômico-social. Outro aspecto da universalidade da contribuição leninista é precisamente a noção de vanguarda, isto é, de uma consciência teórica para dirigir os passos rumo ao socialismo que, sem ela, será inalcançável: ele não é um fatalismo histórico inevitável, mas o resultado da luta dos trabalhadores e dos oprimidos.

2- É nessas convicções que se baseia a visão do proletariado como parteiro de um novo patamar civilizatório, para além do capitalismo e a caminho do socialismo. Não há aqui nenhuma virtude teleológica – isto é, ligada a um fim que se realiza por si próprio –, mas a compreensão de que o desenvolvimento histórico cristaliza-se numa parte da sociedade – no proletariado, e em sua vanguarda revolucionária – como a consciência dos limites históricos do sistema social existente e da necessidade de superá-lo. Daí decorrem questões políticas imediatas e concretas, tangíveis politicamente e na luta concreta das forças em confronto.

O caminho para enfrentar essas questões é marcado por avanços e recuos, percorrido em um ritmo determinado pela luta de classes e pela correlação de forças existente. Ele é condicionado pela compreensão mais ou menos clara – que a classe dominada tem de sua própria situação – da possibilidade e necessidade de superar a dominação, e de sua capacidade de descortinar uma forma superior de organização social.

Ao longo do século XX o cenário político, econômico e social mudou muito; aquela foi uma época de revoluções, guerras mundiais, de início da construção do socialismo e também de sua derrocada. . A sociedade, as formas de organização política – os governos e Estados –, mudaram nesse período. O proletariado também já não é o mesmo da época de Marx, ou de Lênin, ou da luta contra o nazi-fascismo na primeira metade do século XX, nem das grandes jornadas da década de 1960.

Uma das raízes dos problemas contemporâneos da luta de massas, constituídos pela fragmentação política e desmobilização dos trabalhadores, está na crise do sistema instaurado depois da 2a guerra mundial, marcado pela participação das organizações partidárias e sindicais dos trabalhadores nos governos burgueses e nos parlamentos, e pela formação de um campo socialista mundial.
A experiência socialista soviética, que nasceu na revolução de 1917, consolidou-se após enfrentar fortes contradições e ameaças externas. Ela emergiu da 2ª guerra mundial, em 1945, como a indicação segura da existência de um caminho alternativo ao capitalismo e ao imperialismo. A tendência democrática crescia no mundo e o futuro era encarado como um cenário de avanço civilizatório. As organizações políticas dos trabalhadores correspondiam a esse otimismo, e à consciência de classe socialista e revolucionária – pelo menos em termos retóricos – que animava as massas.

Ela tinha, entretanto, limitações severas, que iam desde a fossilização e ossificação do pensamento avançado na própria União Soviética e nos países e organizações políticas ligados a ela, até as ilusões reformistas decorrentes da participação política dos trabalhadores nos marcos do sistema capitalista. Ilusões que contaminavam a consciência proletária com pragas como o corporativismo, por sua busca limitada de ganhos econômicos e sociais no contexto do capitalismo; e o pragmatismo, pela ênfase na tática presa à participação institucional a qualquer custo. Ambos marcados pela minimização – ou mesmo renúncia – do objetivo estratégico maior da luta revolucionária, a conquista do socialismo.

É preciso recuperar o significado vivo da herança leninista, cujo fundamento é a compreensão do partido como o ponto mais alto do desenvolvimento da consciência de classe revolucionária do proletariado

Tudo isso começou a mudar na década de 1950, quando o sistema socialista deu os primeiros sinais de uma crise que se aprofundou com a derrocada da URSS e da experiência socialista européia quase trinta anos mais tarde, no início da década de 1990. Comemorada pelos loquazes porta-vozes do capitalismo como um pretenso “fim da história”, ela teve forte impacto negativo para a luta dos trabalhadores. A “desconstrução” da consciência socialista avançou desde então, influindo diretamente nas concepções organizativas hoje prevalecentes. A fragmentação, o individualismo, o irracional, o imediato, a ênfase no particular, no efêmero e no presente, ocuparam o lugar da visão do todo, do coletivo, do geral e do futuro. Generalizou-se a descrença na possibilidade de compreensão do processo histórico e também na capacidade – e necessidade – de intervenção consciente e organizada na história. A luta política organizada em torno de um programa claro e conscientemente assumido foi substituída pelo movimentismo e por seu programa parcial e específico.

Para muitos analistas, o retrocesso na consciência de classe do proletariado resultou em mudanças técnicas na esfera do mundo do trabalho. Eles desconsideram as conseqüências políticas da evolução ocorrida nas últimas décadas. Antes, a contradição entre o capital e o trabalho era visível na oposição tangível entre a burguesia e seus serviçais mais diretos e o conjunto do proletariado, que se confundia com o operário de macacão sujo de graxa, operando no chão de fábrica.

Hoje, essa contraposição tem mais nuances. Ao lado do núcleo duro do proletariado, formado pelo operariado propriamente dito, há um conjunto de outros trabalhadores assalariados dotados de conhecimento técnico, renda, escolaridade avançada, estilos de vida que os aproximam da pequena burguesia. Mas que tem com aqueles a mesma destituição da propriedade e dos meios de produção, restando-lhes unicamente a força de trabalho, que precisam vender para o capitalista para que tenham seus meios de vida. 3- Esta realidade é o pano de fundo para a atualização da herança leninista para a atualidade. Propostas políticas avançadas devem partir de condições reais e concretas. Isto é, a linha política é radicalmente historicizada, e não naturalizada. Mesmo porque não existem propostas naturais ou contingentes, como dizem os filósofos (no sentido de não determinadas). A política – como a história – resulta da ação humana concreta, sendo determinada pela forma como a luta de classes e as contradições sociais vão sendo resolvidas. É condicionada, nesse sentido, pela correlação de forças em cada época. Correlação que decorre, também, do nível de consciência de classe do proletariado e de sua organização em um partido político de classe, capaz de dirigir-se ao conjunto da sociedade, aos oprimidos e de todos aqueles que estão em contradição com o capital e com sua lógica dominante.

No ambiente de fragmentação que reflete a atomização societária do capitalismo na época atual, uma consciência de classe avançada encontra obstáculos para formular um projeto nacional transformador que, ultrapassando o corporativismo, possa propor soluções avançadas para as contradições da vida moderna. Então: se o partido é a forma concreta, objetiva, da consciência de classe, qual o partido adequado a ser o portador desse projeto avançado?

O partido, escreveu o revolucionário italiano Antônio Gramsci, é o príncipe moderno. Ele referia-se ao herói renascentista de Maquiavel, artífice das mudanças políticas do final da Idade Média e protagonista da construção de um mundo novo.

Em nosso tempo não há lugar para esse tipo de herói individual – este é o sentido do registro de Gramsci. O moderno príncipe, escreveu em Cadernos do Cárcere, não pode ser um indivíduo concreto, mas uma organização da vontade coletiva reconhecida e afirmada parcialmente na ação. “Este organismo já está dado pelo desenvolvimento histórico e é o partido político”. Afirma-se aí a noção de que a política está entre as formas mais elevadas da consciência social, instrumento para a transformação da sociedade. Mas Gramsci resgata também o princípio leninista do centralismo democrático como princípio diretor da organização política do proletariado, compreendido como cimento de uma realidade viva, e não burocrática, ou fossilizada, que leva a uma unidade sem sentido, a uma “justaposição mecânica de ‘unidades’ singulares sem conexão entre si”, como um “saco de batatas”.

4- Isto nos leva de volta à questão inicial: Em que sentido a herança do pensamento de Lênin mantém sua atualidade? Existe ainda lugar para um partido baseado no centralismo democrático? Remete também ao debate sobre estratégia, que se revela em três dimensões, em nosso tempo.

Primeira: o esforço para romper radicalmente com o naturalismo e o contingente, em busca de uma política baseada na compreensão de que ela resulta da ação consciente de classe.

Segunda: diz respeito ao tipo de luta que se impõe nesta fase. Ela tem duas facetas: uma é seu caráter geral anticapitalista, e se dirige contra a ordem burguesa e seus representantes. A outra se volta contra a influência das idéias dominantes alheias à classe que vigoram entre os trabalhadores, manifestadas na recusa à participação política e na apologia do movimento e seus objetivos pontuais e fragmentários, que caracterizam o corporativismo contemporâneo.

Terceira: volta-se à necessidade de elaboração de um programa avançado que permita ao conjunto dos trabalhadores e a suas organizações políticas – principalmente a seu partido revolucionário, de classe – falarem para o conjunto da sociedade, apresentando-se como portadores de um projeto global de mudanças para superar os limites do capitalismo e levar a humanidade a um novo rumo civilizatório. Para isso, é preciso abandonar radicalmente o corporativismo e pensar a sociedade como um todo.

Este ponto nos remete a outro, enfatizado já nas primeiras décadas do século XX pelo dirigente e teórico italiano Antônio Gramsci: a questão da hegemonia. Ela já havia freqüentado as preocupações de alguns teóricos russos importantes, mas Lênin é que deu a ela sua elaboração mais acabada: para ganhar a supremacia sobre outros contendores no campo progressista, o proletariado revolucionário precisa formular um programa que ofereça uma perspectiva avançada a todas as forças em oposição ao capital. Conquistar a hegemonia, nesse sentido, alçar-se à condição de dirigente do conjunto das forças avançadas, ganhar sua confiança a partir da capacidade de formular um programa reconhecido por todos e, por isso, defendido por todos.

A visão do proletariado como protagonista da superação do capitalismo decorre da compreensão de que o desenvolvimento histórico cristaliza-se numa parte da sociedade como a consciência dos limites históricos do sistema social existente

Nas sociedades onde vigora a democracia burguesa e o conjunto de forças em contradição e oposição com o capital é múltiplo, e muitas vezes conflitante, esta questão – como Gramsci notou –, tem importância central. Nessas sociedades, os programas e objetivos devem ser formulados de comum acordo entre as várias forças políticas para serem adotados por elas, tornando a luta efetiva e eficaz.

Uma consciência de classe capaz de abarcar todos estes desafios e encontrar um caminho organizativo para enfrentá-los – é preciso insistir – não surge como os cogumelos depois de um dia de chuva, aparentemente a partir do nada. Ao contrário, ela precisa se fazer ainda mais uma consciência política, tornar o proletariado portador de um projeto político transformador para a sociedade, no rumo do socialismo.

Esta é outra lição fundamental da herança leninista. A consciência de classe se desenvolve e se fortalece na luta política. Em conexão com o pensamento científico mais avançado, ela dá o salto para a consciência socialista: é a ciência social avançada – o marxismo – que elude as brumas da propaganda capitalista e rompe o naturalismo que o vê como destino inexorável da humanidade. E preconiza um desenvolvimento que, para ocorrer, precisa ultrapassar os limites do sistema atualmente existente.

A experiência histórica das décadas finais do século XX é elucidativa a respeito dos problemas que precisam ser equacionados. O retrocesso da consciência política de classe foi fruto da perda de ligação da representação política (desde mandatários até partidos e sindicatos) com interesses de classe e do povo; com a separação entre os interesses futuros (o socialismo) e interesses imediatos (pragmatismo), descaracterizando qualquer projeto programático transformador, que seja marcado por essa fusão entre a teoria social avançada com o movimento concreto, real, da política proletária.

5- O desafio para o marxismo de nosso tempo é resgatar e reafirmar a herança leninista atualizando-a. Os princípios teóricos se mantêm, mas a organização prática é historicizada. E por isso mesmo, precisam ser desenvolvidos para dar conta da realidade contemporânea.

O debate sobre a questão do partido político do proletariado precisa se confrontar com a singularidade do tempo presente, da situação estratégica atual da luta pelo socialismo. O papel do Partido Comunista só pode ser pensado conseqüentemente em função de um programa e estratégia, e estes estão em curso de atualização. Da mesma forma, a teoria de partido também precisa ser atualizada, no sentido de fazê-la corresponder à realidade contemporânea, às novas relações e vivências sociais, à irrupção de novas manifestações de consciência, espontâneas e semi-espontâneas, anticapitalistas, ambientalistas, humanistas.

Esta é uma situação muito original com respeito à tradição do século XX. Por um lado, este ainda é um quadro de defensiva estratégica; por outro, acumulam-se fatores de resistência e construção de alternativas que, no caso latino-americano, vêm abrindo caminho pela via eleitoral e institucional, juntamente com a luta social, ainda carente em menor ou maior medida de intervenção em função de um projeto político mais definido.

Este é um tempo de retomada de nova onda de luta por um socialismo renovado. Para impulsioná-la é imperioso atualizar a teoria da revolução, em busca de caminhos de transição ao socialismo; forjar um pensamento avançado – marxista e nacional – em ligação com o pensamento científico avançado da época; e constituir um projeto político exequível, base para convicções políticas transformadoras. Em suma, é um período estratégico que combina de forma nova a questão de reformas e rupturas, da processualidade na acumulação de forças, atuando no seio da democracia liberal e das instituições do Estado vigente, articulando lutas políticas, sociais e de idéias no seio da sociedade. O manancial da experiência soviética e o séquito de revoluções socialistas e anticoloniais feitas no século XX é muito rico em ensinamentos de acertos e erros, mas seu papel para referenciar a atual experiência é relativo.

Hoje, é preciso compreender um processo complexo de acumulação estratégica de forças, medianlinhas originais e articuladas – a luta política-eleitoral-institucional em amplas frentes políticas, mesmo que em condições de força não hegemônica; a luta social, impulsionando sua intervenção política; e a luta de idéias, aglutinando forças do pensamento avançado. Visa-se a um movimento ao mesmo tempo político e social, para buscar construir uma hegemonia de idéias e forças avançadas no rumo de transformações sociais mais profundas.

Parte dessa luta é forjar um Partido Comunista como vanguarda e ao mesmo tempo como parte das forças avançadas nesse rumo. Partido ousado no anseio transformador, de ação política para reunir e catalisar forças e convicções, e conferir-lhe bases sociais de massa capaz de transformar esse anseio em projeto político de transição do capitalismo para o socialismo. Partido que compreenda que sem uma consciência teórica avançada, sem a consciência de que vivemos uma crise de desenvolvimento do marxismo, e sem repor a centralidade dessa consciência para o avanço do movimento transformador, não se constituirá uma força de vanguarda à altura do desafio histórico deste tempo.

Em meio a tantas exigências novas, não é tempo entretanto de re-invenção de pressupostos sobre o partido político revolucionário. Não é necessário retroceder nas lições essenciais da luta política de classes. O leninismo enquanto teoria do partido político do proletariado mantém sua universalidade: partido forjado a partir da consciência teórica avançada para a luta por uma nova sociedade; de representação política e social dos trabalhadores, de seus interesses imediatos e futuros; assentado numa organização política de caráter militante capaz de forjar democraticamente sua unidade na ação política. Por isso, um Partido Comunista, bem orientado, segue sendo força decisiva e indispensável para a transformação social.

É preciso afastar o temor das respostas originais, rompendo com um papel testemunhal e nostálgico sobre o processo político em curso nesta realidade plena de transformações. O ideal se regula pela realidade social e esta haverá de maturar, tendo por base profundos avanços do conhecimento, da ciência e da tecnologia, que revolucionam a sociedade contemporânea, as forças produtivas e as relações sociais. Esses caminhos, ainda não claros nas experiências que se percorrem para o pensamento e ação de um partido revolucionário, haverão de maturar. Aliás, quanto mais claro se tornar um caminho exeqüível para a transição ao socialismo em cada país mais se tornará premente um pensamento de partido maduro para o nosso tempo.

Essas respostas adaptativas precisarão fazer frente aos velhos e novos dilemas, nas condições do presente. Uma resposta dogmática, ossificando o pensamento de partido, produto de condicionamentos entranhados, mesmo quando invoca Lênin, leva a uma postura defensiva frente às mudanças necessárias. Jamais poderá dar conta das tarefas que estão postas, justamente porque encara a experiência de socialismo e de partido a partir de um modelo fixo e imutável e naturalizado. A primeira experiência socialista teve sucesso inicial, mas fracassou, e o fracasso do papel do PCUS esteve entre as causas multilaterais desse insucesso justamente por não ter compreendido isso.

De outra parte, avulta a praga do pragmatismo, encarnação nova do velho liberalismo, produto da consciência e luta política no nível em que está posta na atualidade, representando pressões pelo rebaixamento do papel estratégico do partido e que tira o movimento do eixo central de esforços por constituir uma força de vanguarda que não perde de vista os objetivos de fundo em face do imediato e contingente. Leva à prostração ante o sistema capitalista e à acomodação ante suas contradições, apresentando-o falsamente como solução definitiva e não ultrapassável para os problemas da humanidade.

E, desde sempre, a luta por constituir esse partido precisa superar o corporativismo, em sua velha e nova forma, que limita os horizontes de formulação de um pensamento político nacional transformador. Em síntese, lutar decididamente por fazer da classe dos trabalhadores uma classe capaz de pensar o conjunto da nação, superar a perspectiva estreita dos seus interesses imediatos para se tornar a classe dominante na sociedade.

São as respostas do tempo presente: construir a hegemonia de forças avançadas no movimento transformador, e originalidade de formas assumidas pelo movimento, para formular um caminho nacional ao socialismo que enriqueça o cabedal da experiência revolucionária do século XX, que teve em Lênin e na revolução soviética um dos pontos mais altos na experiência social humana por ousar abrir caminho a uma sociedade sem explorados nem exploradores.

*José Carlos Ruy é jornalista, editor do Jornal “A Classe Operária” e membro da Comissão editorial de Princípios e Walter Sorrentino é médico, é Secretário Nacional de Organização do Comitê Central do PCdoB.

EDIÇÃO 92, OUT/NOV, 2007, PÁGINAS 55, 56, 57, 58, 59, 60

A batalha pela memória Por Fábio Palácio

www.grabois.org.br


Começou da noite para o dia. A um chamado de Veja, os trustes do oligopólio midiático – hoje alcunhados, não sem razão, de PIG (Partido da Imprensa Golpista) – iniciaram, em uníssono e de forma frenética, intenso bombardeio contra os comunistas brasileiros e sua corrente orgânica, o Partido Comunista do Brasil.

A persistência da memória, pintura de Salvador Dalí

O que começou com agressões contra uma importante e respeitada liderança comunista, o ministro Orlando Silva, foi tomando proporções insólitas. Quando os detratores do PCdoB desceram sorrateiramente aos porões de suas próprias almas, as investidas iniciais deram lugar a uma ofensiva de nítidos contornos ideológicos. Passou-se a atentar contra o Partido como instituição – sua história, suas ideias, sua herança, sua presença na sociedade e na cultura brasileira –, numa espécie de reação ideológica em toda linha, com múltiplas frentes de contestação abertas simultaneamente.

Uma delas foi deflagrada a partir da exibição, nas redes de TV aberta, do programa partidário do PCdoB. Apresentado no último dia 20, o programa trazia uma vinheta veiculada comoavant-première das comemorações pelos 90 anos do Partido, que se realizam em 2012. Vejamos o texto que foi ao ar no programa:

“Mudar era impossível. Até o dia em que eles usaram o que tinham de melhor e simplemente mudaram. A criatividade de Jorge Amado mudou a literatura brasileira. A paixão de Drummond mudou a poesia. A ousadia de Pagu mudou o comportamento feminino. O talento de Portinari mudou a arte. A visão de futuro de Niemeyer mudou a forma da arquitetura. A coragem de Olga Benário mudou a forma de se fazer política. O sonho de João Amazonas, Maurício Grabois e Luís Carlos Prestes mudou a história. De um jeito ou de outro, todos eles mudaram o país. E todos eles fizeram do PCdoB um partido que é a cara do Brasil.”

A exibição da vinheta foi a senha para que o campo conservador e a grande mídia – vergonhosamente secundados por setores que se autoproclamam de esquerda, incluindo seitas exóticas que de maneira delirante se consideram “donas” do legado comunista – percebessem que não bastava questionar o presente do PCdoB. Era preciso golpear os comunistas apagando seu passado, divorciando-os de sua própria história. “O partido delirou: no programa partidário para TV, tratou a História como massinha de moldar. De repente, citam Luís Carlos Prestes, Niemeyer, Drummond como grandes nomes do partido”, afirma o jornalista Carlos Brickmann em coluna publicada em vários jornais do último domingo (23). Trilhando a mesma senda, Fernando Gabeira – figura renegada da esquerda, rendida ao campo conservador por trinta tostões –, joga ainda mais duro: o PCdoB teria cometido, em seu programa na TV, “uma injustiça com a história cultural brasileira”.

O argumento esgrimido é sempre o mesmo: figuras como Prestes, Niemeyer ou Drummond não teriam sido jamais membros das fileiras do PCdoB, não podendo portanto ser evocados por esse partido. Nas palavras de Gabeira, “fica no ar uma impressão falsa de que existe uma continuidade entre eles e o PC do B”. Nessa concepção cartorial de política, que vê sempre os partidos como meras legendas – sem maiores vínculos com correntes de pensamento mais profundas e permanentes –, fico pensando se também não deveríamos ser proibidos de reverenciar figuras como as de Marx, Engels, Lênin, José Bonifácio e Tiradentes. Afinal, eles também “não foram do PCdoB”.

Mas Gabeira vai ainda mais longe. Mostrando-se especialmente indignado com a evocação do poeta Carlos Drummond de Andrade, termina por afirmar que nada autoriza a apresentá-lo “como um dos grandes intelectuais comunistas da história do Brasil”. Logo Drummond, ex-editor da Tribuna Popular (órgão da imprensa comunista da década de 1940) e também autor, como lembra o próprio Gabeira, de A Rosa do Povo, livro de grande sensibilidade social e política, momento alto não apenas da cultura brasileira, mas da literatura de extração comunista em todo o mundo, capaz de ombrear-se à maior literatura do mesmo gênero, bastando para isso compará-lo à poesia comunista de um Pablo Neruda.

Para Gabeira, o rompimento de Drummond com o Partido em 1949, após a realização do congresso da Associação Brasileira dos Escritores, seria suficiente para ficarmos os comunistas proibidos de evocá-lo para todo o sempre. “A poesia de Drummond não cabia nos rígidos cânones estéticos do Partido Comunista. Nem sua individualidade poderia ser conformada nos limites do centralismo democrático.” O intuito é fulgente: exaltar a grandeza de Drummond em oposição à “pequenez” do Partido Comunista. Drummond não precisa disso. E Gabeira, ademais, não se dá conta da contradição em que incorre: ali, quando opõe Drummond aos comunistas, enxerga continuidade entre o PCdoB e a legenda à qual esteve filiado o grande poeta brasileiro. Traduzindo: os comunistas só temos o direito de reivindicar a herança do Partido naquilo que possui de “negativa”, jamais no que possa possuir de positiva.

Abre-se assim um confronto de novo tipo, intangível, que bem poderia ser considerado uma “batalha pela memória”. Está decretado: ficam os comunistas proibidos de evocar sua própria história! Ou, melhor dizendo, ficam os comunistas proibidos de ser quem são!

O irônico de tudo é que, na avalanche anticomunista deflagrada no final dos anos 1980, com a queda do muro de Berlim, o PCdoB foi vilipendiado exatamente por continuar reivindicando símbolos, personagens e, enfim, a herança do movimento comunista. Naquela época não foram poucos os que renegaram essa herança, rasgaram as bandeiras com a foice e o martelo e mergulharam de cabeça no butim neoliberal. Quando nos convidaram a ir junto, recusamos. E se riam de nós, dizendo que, se não nos dispuséssemos a renegar nosso passado, desapareceríamos. Respondemos que não, que preferíamos morrer a jogar no lixo nossa história. Não morremos. Ao contrário, a persistente crise capitalista mundial – à qual nosso país tem resistido bravamente, graças às políticas dos governos Lula e Dilma – nos dá razão dia após dia. E, não por acaso, o Partido cresce a olhos vistos, como revela de maneira insuspeita o semanário Época, apresentando gráficos, tabelas e toda uma parafernália de provas do crescimento dos comunistas, que teriam chegado “ao centro do poder”.

Ou seja: naquela época se riam quando evocávamos a história do comunismo. Hoje, ao contrário, estamos proibidos de reverenciá-la. Num país onde os partidos costumam mudar de nome não como expressão de qualquer avanço programático, mas como reles tentativa de apagar o passado, é surpreendente que se ataque um partido por recusar-se a renegar sua história!

Porém, em pelo menos uma coisa é necessário concordar com nossa moderna inquisição: a memória é coisa séria demais para ser largada “solta” por aí. O marxismo possui fortuna crítica sobre o tema. Em O narrador, Walter Benjamin – intelectual marxista morto em 1940 em decorrência da perseguição fascista na Europa – mostra-se convicto de que o passado contém sempre a força de algo inacabado, e que o presente pode assumir, por meio da memória, um papel redentor. Em sua crítica da modernidade, Benjamin esforçou-se por apontar o que considerou um grave perigo: a “perda da memória”. O homem moderno teria como um de seus traços o culto obsessivo à imediatidade do instante presente, o que terminaria por acarretar uma recusa persistente do passado. Segundo Benjamin, esse fenômeno seria visível na perda, pelo homem moderno, da capacidade de narrar – e, com ela, de comunicar a experiência, instruindo o presente e agregando sentido ao futuro. Benjamin via nesse fenômeno um verdadeiro atentado à cultura e, mesmo, uma tendência à barbárie.

De fato, o mundo em que vivemos é marcado por contínuos e persistentes ataques à consciência histórica. Como afirma o intelectual marxista britânico Terry Eagleton em seu Depois da Teoria – um olhar sobre os estudos culturais e o pós-modernismo, esse processo é consequência direta do clima de desilusão que se instaurou no pós-guerra. Ao longo das últimas décadas, de enfadonho conservadorismo neoliberal, o senso histórico tornou-se crescentemente “obtuso”, já que convém aos detentores do poder que as maiorias populares, não recordando o passado, sejam também incapazes de imaginar alternativas ao estado atual das coisas. Nessa perspectiva, classificada por Eagleton de “política da amnésia”, o futuro seria, simplesmente, o presente indefinidamente repetido.

Essa realidade tem afetado gravemente os empreendimentos coletivos, sejam os dos trabalhadores, sejam os da juventude, sejam os de diversos outros segmentos sociais ou, mesmo, os do povo-nação. Conforme denuncia Eagleton, “o que se provou mais danoso foi a ausência de memórias de ação política coletiva – e efetiva. É isso que tem distorcido tantas ideias culturais contemporâneas”.

Essas ideias distorcidas são expressão de um autoritarismo visceral. Se em tempos outros o anticomunismo tinha como expediente principal a aniquilação física, hoje pratica uma violência simbólica, porém não menos agressiva, que lança mão de um liquidacionismo de tipo “moral” e inclui a negação do direito à memória. Fico pensando se não seria também a isso que faz referência o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, quando, no auge das denúncias contra Orlando Silva, sacou o termo “fascismo pós-moderno”.

No mundo em que vivemos – o mesmo em que um presidente da República é morto e, após ter seu corpo arrastado nas ruas, é enterrado em local desconhecido para que sua memória não se torne ícone da resistência –, é fácil perceber que nem mesmo o direito ao passado está garantido. É preciso lutar contra isso – e essa luta não está restrita às comissões da verdade. Em nossa sociedade, ninguém devia ser proibido de lembrar seus heróis.

Fábio Palácio é jornalista e estudante de doutorado pela ECA/USP. Desenvolve, com financiamento da Capes, projeto de pesquisa sobre o marxismo e o conceito de cultura. Militante comunista, espera poder continuar recordando, sem ser importunado, seus ícones e referências, quando e onde quer que seja.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Tributo a João Amazonas (1912-2002) - Um Comunista Brasileiro

HOMENAGEM
Vídeos inéditos na internet contam trajetória de João Amazonas

Quando João Amazonas morreu, deixou para trás um belo e honroso legado de lutas em prol do povo brasileiro. Nascido em 1º de janeiro de 1912, em Belém, filho de um padeiro e uma doméstica, o operário, filho autêntico do povo brasileiro, foi um dos maiores nomes que o país teve na luta contra o atraso, pela justiça social e pelo socialismo. Nestes dois vídeos inéditos na internet, um pouco dessa história é contada. Leia mais

Veja também:


Partido Vivo disponibiliza biografia de João Amazonas

sábado, 22 de novembro de 2008





































Site divulga Encontro Internacional de 73 PCs, em São Paulo

Ter, 11 de Novembro de 2008 15:06
O site do PCdoB (http://www.pcdob.org.br) colocou na internet uma página especial dedicada ao 10º Encontro Internacional dos Partidos Comunistas e Operários, que acontecerá em São Paulo, de 21 a 23 de novembro. Entre outras informações, a página informa quais os partidos que já confirmaram o envio de delegações ao encontro.

Socialismo é saída para crise, diz Renato Rabelo

“Esta crise não pode ser resolvida de forma efetiva nos marcos do sistema capitalista. A verdade se impõe: o tempo vai confirmando que a saída de fundo é o socialismo”. A declaração foi dada nesta manhã pelo presidente do PCdoB, Renato Rabelo, durante abertura do 10º Encontro de Partidos Comunistas e Operários, que acontece até domingo (23) no Novotel, centro de São Paulo. O Vermelho reproduz, a seguir, a íntegra da apresentação feita pelo dirigente brasileiro.


Assista o Vídeo:

http://www.youtube.com/watch?v=z9VaCop1N4M

Partidos Confirmados



Ter, 11 de Novembro de 2008 18:05
1. África do Sul - Partido Comunista Sul Africano
2. Alemanha – Partido Comunista Alemão (DKP)
3. Argélia – Partido Argelino para a Democracia e o Socialismo
4. Argentina – Partido Comunista da Argentina
5. Belarus - Partido Comunista de Belarus
6. Bélgica – Partido do Trabalho da Bélgica
7. Bolívia - Partido Comunista da Bolívia
10. Brasil – Partido Comunista do Brasil – PCdoB
11. Brasil - Partido Comunista Brasileiro – PCB
12. Bulgária - Partido Comunista da Bulgária
13. Canadá - Partido Comunista do Canadá
14. Chile – Partido Comunista do Chile
15. China - Partido Comunista da China
16. Chipre - Partido Progressista do Povo Trabalhador do Chipre (AKEL)
17. Colômbia – Partido Comunista Colombiano
18. RPD Coréia - Partido do Trabalho da Coréia
19. Cuba - Partido Comunista de Cuba
20. Dinamarca - Partido Comunista da Dinamarca
21. Dinamarca - Partido Comunista Dinamarquês
22. Equador - Partido Comunista do Equador
23. Espanha- Partido Comunista dos Povos da Espanha
24. Estados Unidos – PC dos Estados Unidos da América
25. França - Partido Comunista Francês
26. Geórgia – Partido Comunista Unificado da Georgia
27. Grã-Bretanha – Partido Comunista da Grã Bretanha
28. Grécia - Partido Comunista da Grécia
29. Holanda – Novo Partido Comunista da Holanda
30. Hungria - Partido dos Trabalhadores Comunistas da Hungria
31. Índia – Partido Comunista da Índia
32. Índia - Partido Comunista da Índia (Marxista)
33. Irã - Partido Tudeh do Irã
34. Iraque – Partido Comunista Iraquiano
35. Irlanda - Partido Comunista da Irlanda
36. Irlanda - Partido do Trabalho da Irlanda
37. Itália – Partido da Refundação Comunista
38. Itália - Partido dos Comunistas Italianos
39. Laos - Partido Popular Revolucionário do Laos
40. Letônia - Partido Socialista da Letônia
41. Líbano - Partido Comunista Libanês
42. Luxemburgo – Partido Comunista de Luxemburgo
43. México - Partido dos Comunistas do México
44. Nepal – Partido Comunista do Nepal (UML)
45. Noruega – Partido Comunista da Noruega
46. Palestina – Partido Comunista Palestino
47. Palestina - Partido do Povo Palestino
48. Panamá – Partido do Povo do Panamá
49. Paquistão - Partido Comunista do Paquistão
50. Paraguai – Partido Comunista Paraguaio
51. Peru - Partido Comunista do Peru – Pátria Roja
52. Peru - Partido Comunista Peruano
53. Portugal - Partido Comunista Português
54. República Tcheca - Partido Comunista da Bohemia & Morávia
55. Rússia – Partido dos Trabalhadores Comunistas da Rússia
56. Rússia - Partido Comunista da Federação Russa
57. Sérvia - Novo Partido Comunista da Iugoslávia
58. Síria - Partido Comunista Sírio
59. Síria - Partido Comunista Sírio - Khaled Bagdash
60. Suécia – Partido Comunista Sueco
61. Suécia - Partido Comunista da Suécia (SKP)
62. Turquia – Partido Comunista da Turquia – TKP
63. Ucrânia -União dos Comunistas da Ucrania
64. Uruguai -Partido Comunista do Uruguai – Frente Ampla
65. Venezuela – Partido Comunista da Venezuela
66. Vietnã - Partido Comunista do Vietnã
67. Tribuna Democratica Progressista de Bahrain
68. Partido Comunista da Finlândia


Fonte: www.vermel
ho.org.br

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