Esquerdismo, Frente Ampla e Frente Popular - análise do fascismo no Podcast coletivizando https://t.co/7BSTD07xsq via @YouTube pic.twitter.com/ppHJb8pvJh
— Paulo Vinícius da Silva (@PauloVinicius65) July 5, 2026
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CTB Bancários: A luta contra os juros é a luta pelo desenvolvimento do Brasil
No episódio desta sexta-feira (14) do Giro Sindical, produzido pela Agência Metamorfose Comunicação, recebemos Paulo Vinicius, Diretor do Sindicato dos Bancários de Brasília e da CTB Bancários, para discutir a luta da categoria contra os juros abusivos e como essa batalha está diretamente ligada ao desenvolvimento do Brasil.
Nesta sexta-feira, 14 de março, das 11h às 11h30, Paulo Vinicius da Silva explica como os altos juros impactam não apenas os trabalhadores, mas toda a economia do país, dificultando o acesso ao crédito, o crescimento das empresas e a geração de empregos.
Ele também aborda as ações do sindicato e da CTB Bancários para pressionar por políticas que garantam juros mais justos e um sistema financeiro mais equilibrado.
Porque no unirnos?
Y luchamos como hermanos
Por la patria que esta herida!
Nuestra patria la que amamos!
Alí Primera - Dispersos
Finda o ano de 2024, importante por nos abrir os olhos para a complexidade e a dureza da batalha pelo Brasil. A finitude de Lula se expôs aos olhos de todos, assim como a correlação de forças. Roberto Campos Neto, Arthur Lira e muitos mais, assumiram a ribalta para dizer não ao Povo Brasileiro. Lula pediu juros menores; e os juros subiram. Lula fez o emprego e a economia crescerem mais do que se esperava; e foi criticado por isso. Ele pediu que os ricos pagassem mais impostos; e eles disseram não. Só com Lula doente, o mercado celebrou, ficou na torcida contra sua saúde, mantendo a afiada faca no pescoço do governo. E exigiram no altar de Mamom o sacrifício dos mais pobres no Pacote, colocando o Arcabouço Fiscal como moldura a enquadrar a Frente Ampla.
Em economia, Bolsonaro fez o que quis, impunemente. Já o Presidente Lula é cercado, atacado, contido, sabotado. Presente de Natal é para bom menino, e ninguém é melhor menino que o Brasil - Haddad e Galípolo o provam - mas não apenas eles. Nosso pedido de ata de eleição à Venezuela, nossas ilusões com o Partido Democrata estadunidense, nossa crença numa política externa altiva sem soberania nacional e sem as FFAA, o pensamento positivo mágico da via institucional brasileira, nossa crença no judiciário brasileiro e no Xandão. Haja esperança no nosso Garrincha, para dar o drible da vaca em todos. Não basta ser bom menino, nem diversas vitórias no PIB, na indústria, na distribuição de renda, na redução da miséria e no emprego. Uniu-se o andar de cima para dizer “assim, não pode, assim não dá”, o presente é deles, a conta é para o povo. Não se trata, portanto, de ser um bom governo, mas ter força suficiente para o defender da fome canina dos especuladores financeiros, insaciáveis.
Ao líder comunista paraense João Amazonas se atribui afirmar ser necessário ao povo “fazer sua própria experiência”. Sempre comentamos isso sobre a importância de ver desfazerem-se ilusões, e assim entender os limites e buscar saídas. Contudo, se apenas quebrar convicções e afirmar princípios bastasse, o trotskismo teria dado certo… É preciso encontrar e trilhar caminhos, ou ver prevalecer o medo e a desconfiança, a antessala da derrota. O que aprendemos com esses dois anos? Qual a lição da história das mudanças no Brasil sem a organização popular? Bastam o líder e o acordo? As virtudes de D. Pedro II anularam a manutenção da escravidão por décadas?
Tempos interessantes são os que vivemos; uma de suas vantagens é quebrar as certezas do passado, tão fortes no presente, tão distantes do futuro. É aí que se afirma a capacidade de agir frente à História e, no Brasil, frente a si próprio, como Nação. O papel de Lula é muito maior que fazer seu governo “dar certo”. A política é muito mais que a sua institucionalidade. Líderes de sua estirpe falharam exatamente quando não foi possível manter o seu legado, não em em empresas, não em leis, mas em povo organizado. Getúlio caminhou muito desde uma inicial posição de direita - quando reprimiu o Partido Comunista - até escrever o apelo ao Povo Brasileiro, na Carta Testamento.
Ao relembrar tantas obras e direitos que marcam o Brasil ainda hoje, Getúlio afirma uma esperança: “meu nome será a vossa bandeira de luta”. Sua trajetória política foi em direção ao Povo Brasileiro e contra o imperialismo, e foi aí que reencontrou os comunistas, foi aí que o Lula o achou, na prisão em Curitiba. De fato, o nome de Getúlio segue vivo até hoje, mas faltou-lhe a organização, ele ficou sozinho, apesar do tanto que organizou os trabalhadores, as leis e a economia brasileira. Na hora final, nem os comunistas o apoiamos. Entre o líder e as massas havia um fosso, e por aí o imperialismo se impôs, para dividir e reinar. Num supremo gesto de sacrifício e palavra, Getúlio nos lembra que nem o melhor dos líderes basta, sozinho.
Lula deixará seu nome tanto mais cravado na História quanto mais abrir caminho à afirmação da Nação Brasileira, cuja defesa só pode ser feita pelo seu povo, pela classe trabalhadora. Nada está assegurado. Qual instrumento será capaz de continuar essa via de transformação? Reconhecer o gigantesco patrimônio do PT e da CUT para a esquerda brasileira e a sua classe trabalhadora deveria precisamente levar-nos a construir a solidariedade organizada entre quem cerre fileiras em defesa do Brasil, da classe trabalhadora e da democracia.
Parte dos problemas que enfrentamos repousa na crença dos poderes mágicos da democracia burguesa brasileira e do Presidente Lula, que se expressam na crença do Executivo rompedor de barreiras… Mas foi precisamente esse Executivo mutilado em seus poderes de transformação social, inclusive no orçamento público, na independência do Banco Central e na permanente ameaça de deposição pelo Congresso. Não fosse isso suficiente, vivemos uma época de ascensão do fascismo, com o protagonismo da extrema direita a serviço do capital rentista parasitário. É uma forma de imperialismo tão extrema quanto incapaz de sanar as chagas ambientais que comprometem o futuro. Só são capazes de se enriquecer, empobrecer-nos e enganar, mas são impotentes diante dos problemas urgentes, muito maiores que dinheiro e mentiras.
Diante da mudança do eixo da economia mundial para a Ásia, o imperialismo só conhece a resposta do fascismo e da Guerra, que se faz com armas jamais imaginadas, nucleares, cibernéticas, conceituais, econômicas. A perspectiva socialista é a única capaz de reunir pluralidade, diversidade e a ruptura com o consumismo suicida, capaz de unir a inteligência, a arte, a técnica, o trabalho nas novas tecnologias para que possamos sobreviver e caminhar rumo ao futuro da evolução humana. Há todavia muita treva, é preciso brilhar mais forte, é preciso desviar-se de armadilhas, de becos sem saída.
Não são idênticos o governo e o Líder. Em 2003, já era o governo em disputa, avalie agora. Lula tampouco se limita ao PT, nem está definido o seu futuro. Por isso mesmo, eles precisam impedir o Lula de dar resultados. Já em nosso campo, como ele mesmo disse, é preciso fazer com que Lula se torne o povo.
Precisamente nesse momento, há imensa confusão no debate entre a relação Líder-Massas e mesmo na relação Líder-Governo-Partido-Movimentos. Um dos limites da formação da Nação Brasileira repousa precisamente no papel repressor do Estado em relação à maioria do povo, a sua incapacidade de nuclear a Nação como um todo. Nesse sentido, é ardilosa a trilha fácil da crença ilimitada na via institucional, esperança do burocrata.
Há 200 anos, alertou José Bonifácio, já na primeira Constituinte sobre os limites do Estado brasileiro em cumprir o papel de nuclear a Nação, e seu alerta dói até hoje, por ignorado que foi:
“não temais os urros do sórdido interesse ; cumpre progredir sem pavor na carreira da justiça e da regeneração politica ; mas todavia cumpre que sejamos precavidos e prudentes. Se o antigo despotismo foi insensivel a tudo, assim lhe convinha ser por utilidade propria ; queria que fossemos um povo mesclado e heterogeneo, sem nacionalidade, e sem irmandade,para melhor nos escravizar. Graças aos céos, e à nossa posição geographica, já somos um povo livre e independente. Mas como poderá haver uma constituição liberal e duradoura em um paiz continuamente habitado por uma multidão immensa de escravos brutaes e inimigos? Comecemos pois desde ja esta grande obra pela expiação de nossos crimes e peccados velhos. Sim, não se trata sómente de sermos justos, devemos tambem ser penitentes ; devemos mostrar à face de Deos e dos outros homens, que nos arrependemos de tudo o que nesta parte temos obrado ha seculos contra a justiça e contra a religião,que nos bradam accordes que não façamos aos outros o que queremos que não nos façam a nós.
Em vez do papel progressista, o Estado serviu para afirmar a divisão de cidadãos de primeira e segunda classes. O Estado aparece na favela com o caveirão, do mesmo modo como aparecia diante dos quilombos de outrora. Não dá para ter essa fé no Estado, no governo, em especial quando não se tem fé na capacidade de luta do povo brasileiro, nosso sujeito histórico. É ainda o projeto de José Bonifácio que Lula defende, mas seguem pulverizados os interesses maiores da Nação. O grande problema histórico do Brasil não é a construção de grandes acordos nacionais, mas que a maioria conservadora se volte contra e alije o povo de sua própria vitória. É preciso construir uma força popular de massas capaz de nuclear a luta em defesa do Brasil e, ainda é tempo, sob a liderança de Lula.
Gramsci aludiu ao Partido Comunista como o Príncipe Moderno, capaz de encarnar o protagonismo que Maquiavel reservava ao soberano, aquele que une as forças dispersas para a fundação do Estado Nacional italiano. Muita água passou sob essa ponte, desde então, e não enxergo como atual a crença no partido, seja qual for, que permitisse essa união. Na passagem do século XX para o XXI, a esquerda lartino-americana rompeu com essa segmentação e com a via da correia de transmissão entre partidos e movimentos. Foi no caldo de cultura dos grandes eventos e redes latinoamericanos que a luta social e política se transformou em frentes heterogêneas, progressistas e críticas ao neoliberalismo que ascenderam ao governo de nossos países. Por isso mesmo,a noção de Bloco Histórico, de Frente Ampla e Frente Popular são importantes para compreendermos o desafio de unificação que nos cumpre para a preservação do Brasil, sua afirmação como Nação.
Quando deixou de ser importante a realização dos fóruns sociais mundiais, dos congressos estudantis massivos, das grandes marchas e encontros de trabalhadores? O povo é o verdadeiro heroi da nacionalidade. É preciso ter lugar ao povo organizado na Frente Ampla. Permanecemos desconfiados uns dos outros, seguros por um fio de esperança que se chama Lula.
Diante de nós, ameaçadores, perfilados, estão a extrema direita, o “mercado”, a imprensa empresarial financeira, o centrão e os 1% mais ricos. Estamos como gestores de uma máquina que sempre foi deles, que faz nosso trabalho fluir da produção para a especulação, do pequeno para o grande, do pobre para o rico, da maioria para a minoria, pois para isso servem o capitalismo, a polícia, o “mercado”, as forças armadas e o judiciário. Para isso serve a separação de poderes articulada aos poderes ocultos de sempre. Quando foi que a via institucional, o Estado Burguês, ainda mais no Brasil, adquiriu poderes supremos em favor da classe trabalhadora em tempos de fascismo? É a teoria errada, na hora errada, com as ferramentas erradas. Nem se fosse monarquia absoluta. Falta povo nesse jogo em que o poder de veto é da burguesia rentista, parasitária e entreguista.
Hugo Chávez cortou o nó górdio que separava as vias da Reforma e da Revolução, pedra de toque da divisão no seio da esquerda mundial no século XX. Em vez de render-se ao Estado, cercá-lo. Erigir o espaço do povo na Constituição. Disputar o poder com o aval popular como recurso final, antes das armas, mas jamais confiar em exércitos mercenários para cuidar dos interesses do país. E o povo seguiu com capacidade de se defender do imperialismo, mesmo sem Chávez, em frente popular. Não é a forma, é a luta e aonde ela quer chegar. Poderá o Presidente Lula pactuar o Povo com o Estado e dar continuidade à construção da Nação Brasileira, a exemplo de Getúlio Vargas? Dependerá muito de Lula, mas lhe ultrapassa, depende também de nós.
Já estão ao nosso lado quem poderá salvar o Brasil. O século XX esmaece e forças novas pulsam, aflitas, diante de um mundo aferrado ao passado e ao abismo. Nosso papel e o de Lula são semelhantes. Precisamos de um degrau mais baixo, em que o povo possa subir, crescer em força e decisão, em defesa do Brasil. Os limites da Frente Ampla são claros, estão no Arcabouço Fiscal. As possibilidades de Lula, do Brasil, do legado da nossa geração, do futuro, dependem da Frente Popular e do “novo equilíbrio do universo”, para usar as palavras de Bolívar. São do tamanho das carências de nosso povo, imensas. Ensinou Glauber Rocha, “mais fortes são os poderes do povo”. Quem sabe quanto pode o nosso povo organizado?! Nós, que não impedimos o Golpe contra a Dilma, não devemos contar apenas com nossas forças para defender o futuro que é da nova geração. Nós elegemos Lula para trazer o povo e a juventude de volta ao orçamento, à política e ao poder. declaremos guerra à solidão, ao cupulismo. O povo organizado é o nosso céu, isolados do povo não somos nada.
Você pode me dizer, é impossível. Assim como o povo soube evitar o bolsonarismo duro e deu uma mão à Frente Ampla, nós nos reconheceremos luta afora, companheiro, camarada. É preciso organizar essas boas gentes que atuam como Lula, para além de suas caixinhas, com solidariedade, generosidade, amor. É preciso reconhecer o poder da juventude e do povo. É preciso libertar o Brasil dos juros e do imperialismo. Essas convicções de amor e verdade são nossa força para construir uma Frente Popular, como expressão de um Bloco Histórico comprometido com a defesa da Nação Brasileira através de seu Povo. É preciso reunir as dores, juntar multidões, aprender e ensinar que o futuro é possível. Tem muito jogo pela frente, Lula está conosco, e a luta continua! Por um Feliz 2025 de vitórias!
A impressão que tenho, diante das diversas análises acerca do resultado das eleições municipais, é que venceu a Frente Ampla, bem ampla mesmo - foló, em bom Cearês. Na real, o povo preferiu evitar o mal maior, mesmo que não tenha votado do jeito que queríamos.
Um amigo querido, quadro, fulminou-me ao ler o artigo anterior, numa mensagem de texto: "Frente Ampla, onde"?! E eu respondi: basta pensar em como seria o clima político se o Bolsonarismo tivesse ganho nas disputas do segundo turno. Aí você veria o tamanho do buraco.
Mas, em parte, ele tem razão. A Frente Ampla ainda é uma aspiração, não é uma organização, não tem sede, presidente, ações próprias. Ela é, em boa política brasileira, um xadrez tridimensional com as mais diversas alianças, malgrado a crueza da luta de classes. Poderiam ser tais alianças contra nós, e muitas vezes são, sabemos o gosto amargo. Mas desde que vencemos, passou a ser contra o Bolsonarismo, daí a definição de que a vitória foi da Frente Ampla, no sentido de negar o protagonismo ao extremismo golpista. E é um fato muito positivo, pois seu isolamento é essencial para que os caminhões de provas e as milhares de vítimas possam valer na balança da justiça, sem anistia para golpistas nem para Bolsonaro.
Os acontecimentos seguintes na cena política despencaram de abismo em abismo, como poderia dizer o poeta Paraibano Augusto dos Anjos. Rejeitar o Bolsonarismo não é pouca coisa, é notável.
A despeito dos manuais de eleições municipais, tivemos um grande peso nacional, superando até o debate local, na eleição de Fortaleza.
Fortaleza é rebelde, elegeu Maria Luíza Fontenele, então no PT, ainda em 1985. O neoliberalismo propriamente dito também por lá principia, com a chegada ao governo do Ceará, ainda em 1986, dos então "jovens empresários" liderados por Tasso Jereissati, "o galeguim dos zói azul", figura importante no PSDB desde então, rompendo o domínio "dos coronéis" que estavam no poder sob o Regime Militar de 1964. Paes de Andrade, Mauro Benevides, Gonzaga Mota marcaram a política cearense quando Sarney presidiu a democratização, a constituinte e a eleição de 1989.
A virada do Brasil neoliberal tucano para a era Lula encontrou correspondência com o crescimento da esquerda, projetando uma hegemonia das forças progressistas no cenário local. O surgimento de lideranças femininas é ainda minoritário, mas mesmo nesse contexto, indelével, inclusive pela projeção da Prefeita Luiziane Lins (PT), vinda ela também do movimento estudantil.
Muita vez, a capital alencarina antecipa tendências e grandes debates nacionais nos processos eleitorais que, desde 1985 tem sentido progressista (como me alertou recentemente o amigo Aécio Holanda, coetâneo do movimento estudantil secundarista). De fato, Fortaleza tem uma característica progressista e liberta, assim como o humor político do Ceará Moleque. Em 1922, Fortaleza elegeu o Bode Ioiô vereador, como voto de protesto. O pessoal fresca mesmo.
Fortaleza também antecedeu o padrão televisivo e midiático da implantação da TV e da Propaganda Eleitoral ao fim da Ditadura, como bem mapeado pela Socióloga Rejane Accioly. Isso é coerente com uma sólida tradição cearense em fotografia, artes visuais, cinema e marketing, inclusive eleitoral. O Ceará é presença constante na TV Brasileira, em especial pelo peso do Sistema Verdes, Mares, afiliada local da TV Globo.
A vitória de Brizola sobre Lula na eleição do primeiro turno de 1989 mostra uma outra característica, que é a pluralidade da esquerda cearense. Lideranças do quilate de Heitor Férrer, André Figueiredo, Roberto Cláudio, Eudoro, Sérgio Novais, Cid Gomes e os camarada Inácio Arruda, Chico Lopes e Eliana Gomes protagonizaram um primeiro ciclo de lideranças que ainda hoje têm protagonismo. Uma segunda geração se projeta, com a chegada ao governo nacional e as vitórias locais, que resistem até retomada, com o terceiro Governo lula. Exemplos são Camilo Santana, mas também o decano José Guimarães, líder do governo na Câmara e, agora, Eumano Silva, atual governador. Irrelevante nacionalmente, Ciro Gomes tentou deter essa tendência e a acelerou, perdendo ainda mais relevância.
Das grandes cidades do Brasil, Fortaleza, Terra do Sol foi palco de uma aposta arriscada, diante da força extraordinária da candidatura conservadora, representada pelo deputado André Fernandes, aposta da extrema-direita, fenômeno ainda oculto pelo enigma das redes sociais. A discussão foi, basicamente, PT ou anti-PT. Disso resultou a margem apertada da vitória maiúscula de Evandro Leitão, que virou a eleição. Camilo Santana e Cid Gomes impulsionaram a candidatura do Presidente da Assembleia, pedetista, para ser candidato pelo PT, liderando a frente que reuniu o apoio de Lula e Elmano. Eles peitaram a renovação de direita.
Renovação que veio através da figura constrangedora de André Fernandes, que obteve uma projeção espantosa, ademais na juventude. Jovem, bom de conversa, bonito e adestrado, mostra pouco conteúdo, muito preconceito e ambições desmedidas. Surfou no abismo que separa a esquerda da juventude que compunha o bônus demográfico de 2012. A dificuldade da esquerda em renovar lideranças se expressou sobretudo na juventude, com a demagogia do bolsonarismo se apresentar como força "anti-sistêmica". André navegou nessa oposição, não encontrado quem lhe disputasse espaço. O campo conservador pôde, assim, superar a liderança em declínio do capitão Wagner, e apostar as fichas no jovem. Não importou a fragilidade do material, pois em tempos de influencers e redes sociais, isso é o de menos.
E ele fez bonito em fazer feio. A cumplicidade com o negacionismo genocida, o irracionalismo, o humor ofensivo, a misoginia, o discurso do falso profeta, o bolsonarismo e tantos constrangimentos lhe valeram a célebre reprimenda de Flávio Dino na Câmara.
Nesse tempo era bom. Levantaram a capivara do falador e acharam o apelido "raspa". Do Bode Ioiô pra cá, piorou, muito, havemos de concordar. Mas é claro que a língua ferina cearense jamais perdoaria uma criatura que quer ser levado a sério dando aula de depilação aonde o sol não costuma bater. "Raspa" já é o diminutivo, gentil e de duplo sentido, podendo ser dito sem problemas, embora a expressão completa não possa ser dita, pelo decoro.
Seu protagonismo teve base em duas forças inegáveis. A primeira, da própria direita conservadora cearense que aderiu ao Bolsonarismo. A instrumentalização do campo conservador pela extrema direita ganhou força com a sua instalação no poder Executivo nacional. É a esse bloco que Ciro leva pela mão o ex-prefeito Roberto Cláudio, gesto cuja racionalidade só se explica contra o plano de fundo das figuras de Camilo e Cid Gomes. Ciro poderia ter apoiado Izolda Cela ao governo. Perdeu. Poderia ter reunido apoio a seu prefeito, Sarto. Muito ao contrário. E após fazer de tudo em vão para implodir a esquerda, acabou explodiu seu próprio campo e segue em direção à direita. Nacionalmente já se omitira em 2018, foi para Paris. Localmente, queima as pontes e abre outras, sem nojinho. Resta saber se tais estripulias são capazes de fazer rodar a roda do tempo ao contrário. Não são.
As modificações na esquerda cearense se deram com a manutenção de um bloco hegemônico que sobrepassa os partidos e que foi capaz de sobreviver ao bolsonarismo. A liderança evoluiu num contexto de presença nos espaços de poder, liderança nos movimentos sociais e acordo entre os maiores partidos de esquerda. Camilo, Cid, Elmano e Evandro Leitão compõem uma nova página da liderança que tem raízes no primeiro ciclo mudancista que afastou o PSDB do controle sobre a Política Cearense, ainda são da mesma geração. Essa transição trouxe setores políticos que compunham a hegemonia anterior, sob Tasso. O sentido progressista persistiu até agora, quando se colocou uma disputa acirradíssima e Camilo topou o jogo. Por já ter ampliado a composição interna até do PT (Evandro veio do PDT), afirmou-se simbolicamente a unidade em torno do PT e de Camilo com a onda 13.
Logo depois da vitória de virada, as placas tectônicas tremeram. Diante da possibilidade de o PT acumular a Prefeitura, o Governo, a Presidência e a Presidência da Assembleia, Cid Gomes se insurgiu, mas com jeitinho. Deixou claro que a hegemonia é plural. E o próprio candidato, Santana, do PT do Juazeiro do Norte, declinou da proposição de seu nome. Cid deve ter lembrou da estreiteza da margem da vitória, questionado sobre o futuro da Frente Ampla e também a aliança que pilota, ao lado de Camilo. Ganhou por ter mostrado o óbvio. O topo é duro de alcançar, mas de manter, é muito mais difícil.
Esse chamado não foi contradito. Vi muita gente de todas as denominações - e no Ceará tem de tudo - botando o 13 no peito, a despeito das tretas, entoando as divertidas músicas da campanha, que alertaram:
"Só quer ferrar com a vida do povo.
Geral sabe que ele vai estragar nossa cidade,
Ele não tem experiência nem maturidade.
Mentiroso, não vai governar
Fortal do jeito certo.
O povo tá comentando:
não vota em raspa caneco!
Deixa ele achar que
vai comandar
Fortaleza ...
Leitão não vai
deixar!
A tropa do 13 é fogo,
vai botar pra correr da cidade
o mini Bozo!"
A aposta plebiscitária foi aceita, e a resultante foi a superação da liderança de Ciro Gomes; obstaculizou-se uma liderança jovem de extrema direita a partir da confiança em um campo já longevo que lidera a política cearense desde a perda da influência de Tasso e do PSDB e que tem uma liderança também nova, Camilo Santana, agora Ministro da Educação.
A unidade, a mobilização bairro a bairro, a contraofensiva nas redes sociais e nas músicas de campanha, o alerta permanente sobre o perigo para a cidade e sobre as fragilidades do adversário, foi a soma desses atores que levou à vitória. Se, no caso de Paes (Rio de Janeiro) e Campos (Recife), a Frente Ampla sem o protagonismo direto do PT levou a esmagadoras vitórias, no caso de Fortaleza, a Frente Ampla foi representada pelo PT, sendo criticada por não ser ainda mais à esquerda. Foi com a entrada do povo na campanha que o jogo virou. Em minha perspectiva, isso alerta-nos para a vitalidade da Frente Ampla e para a necessidade de buscar uma hegemonia distinta e brasileira, no seio dos setores mais progressistas, como Frente Popular.
Mas isso não é tarefa de governos, de caciques, de lideranças que pontuam e passam, mas a tarefa de organizar o povo para que não sejam possíveis os retrocessos. O cearense é muito vivo. Tem uma opinião muito desconfiada sobre política, porque dela participa, e muito. Todos com quem conversei disseram-me a mesma coisa: vamos por aqui, mas há problemas. E talvez o maior problema seja o do futuro, mas não qualquer futuro. O fascismo se apresentou sob o manto da juventude, e foi rejeitado, ainda que por pouco, o que dá orgulho de Fortaleza. Mas isso não nos exime de chamarmos a turma que lotou os bairros e as redes e renovarmos as lideranças, as práticas, corrigir erros. Aí sim, poderemos considerar que estamos no caminho da disputa da hegemonia. Por ora, ganhamos por um pelinho, então precisamos nos unir mais e ir em direção ao povo.





Para José Luiz Penna, dirigente do PV, a federação sinaliza uma frente democrática contra Bolsonaro.
Publicado 21/12/2021 19:28 | Editado 21/12/2021 19:40
Os diretórios estaduais do Partido Verde se reuniram, nesta segunda (20), e concordaram sobre a formação da federação partidária com PCdoB, PSB e PT.
O presidente do PV, José Luiz Penna, também sinalizou à Folha de S. Paulo, após a reunião, um apoio à candidatura do ex-presidente Lula, considerado por ele o candidato mais viável deste campo partidário.
O presidente do PV também comentou a aproximação de Lula e Geraldo Alckmin (sem partido) consolidada no jantar do último domingo (19), em São Paulo. Para ele, é um sinal de que a candidatura desse grupo político que formar a federação é por uma frente democrática e não só do PT.“É um sinal muito positivo porque não é uma candidatura do PT, é de uma frente democrática como a gente sempre idealizou. É um engano achar que essa eleição vai ser um passeio, uma coisa fácil. Temos que criar um contingente grande de partido para derrotar essa ameaça autoritária”, disse Penna à Folha.
“É hora de unirmos quadro contra este governo que arrasa o país. A Gleisi se mostra muito favorável, com certeza marcharemos juntos”, diz ele, na semana passada, quando se discutia o assunto.
Penna também contou que se reuniu na quinta (16) com o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). O objetivo é tentar atrair uma Rede para a federação e aumentar ainda mais o grupo de partidos.No artigo “Uma escolha nada difícil“, no site oficial do PV, o secretário de Mobilização Nacional e Presidente do PV/RS, Márcio Souza da Silva, defendeu a aproximação com a “esquerda tradicional” para combater o que ele considera “um novo modelo de ditadura institucional”, com Bolsonaro.
Seu argumento principal é a defesa da democracia e a necessidade do PV não errar na estratégia num momento crucial em que “a democracia involuiu, a população mais carente ficou ainda mais pobre, direitos civis, sociais inacessíveis e trabalhistas foram suprimidos e a democracia cambaleou, bem como os índios, mulheres e minorias foram atacados e marginalizados”.
Para ele, não há outra saída para o PV, já que qualquer terceira via estaria inviabilizada, segundo observa ele. Para ele, há o risco do PV ficar como colaboracionista, em vez de resistência a “esse arremedo de ditadura da imbecilidade, da irracionalidade, do terraplanismo”.
Segundo o TSE, o PV conta com 361.452 eleitores filiados. O partido nasceu na década de 1980 baseado nas tendências ambientalistas.






