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sábado, 16 de março de 2024

Especial, pevezando -> Frente Ampla e Unidade Popular para unir o Brasil e vencer o fascismo - Paulo Vinícius da Silva



8 de janeiro de 2023, Brasília, retomada simbólica do Planalto

Os três grandes: Stalin, Roosevelt e Churchill

George Dimitrov: líder histórico da luta contra o nazifascismo - Pedro Oliveira 

E a defesa de Dimitrov contra Goring e Goebbels (em inglês)- Portal Vermelho
George Dimitrov, herói dos trabalhadores e da luta contra o nazifascismo


Xi Jinping: Que o multilateralismo ilumine o caminho da humanidade - Discurso completo em Davos - Portal Vermelho




Conversa Afiada com o saudoso Paulo Henrique Amorim e João Vicente Goulart: Por que Jango não resistiu? Como Jango pôde aceitar a Frente Ampla com Lacerda?



Frente Ampla e Unidade Popular - Paulo Vinícius da Silva (1)


A unidade é a bandeira da esperança.
João Amazonas





Frente Ampla e Unidade Popular? Paulo Vinícius 'da Silva (2)

Si vis pacem, para bellum. Se quer paz, prepare-se para a guerra.
Provérbio latino


Coletivizando: Frente Ampla e Unidade Popular! Paulo Vinícius da Silva (3)
"O fascismo no Poder (...) é a ditadura terrorista descarada dos elementos mais reacionários, mais chauvinistas e mais imperialistas do capital financeiro." E ainda: "O fascismo é o Poder do próprio capital financeiro. (...) É preciso salientar de modo especial este caráter verdadeiro do fascismo porque a dissimulação da demagogia social deu ao fascismo, numa série de países, a possibilidade de arrastar consigo as massas da pequena burguesia desajustadas pela crise, e até alguns setores das camadas mais atrasadas do proletariado que jamais seguiriam o fascismo se tivessem compreendido seu verdadeiro caráter de classe, sua verdadeira natureza." (Dimitrov)



Aldo Arantes: Frente de esquerda ou Frente ampla? -PCdoB 


De fato aí reside a divergência central de nossas opiniões. Enquanto Altman nega as alianças feitas por Lula e Dilma considero que o erro não esteve nas alianças mas sim em não compreender seu caráter transitório. E, em função disto, não ter se preparado para quando elas não mais interessassem às partes.

Renato Rabelo: Luta ideológica numa nova ordem mundial de transição


O Brasil vai votar Lula Lá - versão de Fischia il vento e Katiusha, canções da resistência ao nazi-fascismo - Paulo Vinícius da Silva

João Amazonas e a política internacionalista do PCdoB - Ricardo Abreu (Alemão)

Amazonas observa que “é preciso estabelecer o limite da fronteira, no campo ideológico, para abordar a luta pela unidade do proletariado mundial”.

O oportunismo de direita, para Lênin, é a política reformista de conciliação de classes, a subordinação dos objtetivos maiores de emancipação dos trabalhadores aos objetivos menores e imediatos.

Logo a seguir, no texto que estamos analisando, Amazonas cita dois casos concretos de traição à classe operária e ao movimento comunista, “o Partido da ‘Sinistra’, da Itália [surgido da dissolução, pela maioria, do antigo Partido Comunista Italiano] e, no Brasil, do “Partido Popular Socialista [PPS], herdeiro do Partido Comunista Brasileiro [PCB], que renegou os símbolos, o marxismo-leninismo; e se tranformou em um partido de traição aberta ao comunismo”.


Lenin viveu, Lenin vive, Lenin viverá! Paulo Vinícius da Silva




Lamentavelmente, é um pensador pouco compreendido, diria até desconhecido, assim me parece, e isso a despeito do monumental esforço de popularização e compilação de sua obra feito por Stalin após a sua morte. Por isso, superficialmente, como estímulo ao seu estudo, e para sistematizar minhas próprias opiniões, cito o que penso aspectos essenciais no pensamento revolucionário de Lênin.

Da crítica e autocrítica para o Avante, camaradas! Paulo Vinícius da Silva
Crítica e autocrítica são coisas de comunista. Rogério Lustosa definiu como nos relacionamos com a crítica e autocrítica. Dizia: "nós devemos ser os mais severos críticos de nossos próprios erros". Longe de indesejável, esse processo é ápice, é o controle dos resultados pelo próprio coletivo, é quando operário(a) e jovem pode questionar de igual para igual dirigentes e líderes partidários. As direções todas, eleitas de baixo pra cima, também todas hão de ser avaliadas no processo normal do Centralismo Democrático, o funcionamento do PC.







Roda Viva | Marcelo Gleiser | 11/03/2024


O Roda Viva recebe o físico e astrônomo brasileiro Marcelo Gleiser. "O despertar do universo consciente: Um manifesto para o futuro da humanidade" é o título do novo livro de Gleiser, que une física, filosofia, biologia, química, religião e muito mais para questionar: como estamos nos relacionando com o planeta? O que é preciso fazer para salvar nossa civilização? O lançamento da obra está marcado para o dia 12 de março no Rio de Janeiro e dia 14 em São Paulo. Mas antes o autor estará no Roda Viva!



quinta-feira, 15 de junho de 2023

Apenas começamos - Paulo Vinícius da Silva e Flauzino Antunes




E nossa história não estará

pelo avesso, assim, sem final feliz:

teremos coisas bonitas pra contar.

E até lá, vamos viver,

temos muito ainda por fazer.

Não olhe pra trás, apenas começamos.

O mundo começa agora.

Apenas começamos. (Metal contra as Nuvens, Legião Urbana)


É longa e complexa a História dos Comunistas nas suas relações com o povo. Também no Brasil, os 101 anos de nossa existência foram marcados por, ao menos, 65 anos de ilegalidade. Comunistas de envergadura, com compromisso absoluto com o nosso povo, estivessem no PCB, PCdoB, MR8 ou na AP, viram-se bloqueados pela Ditaduras em seu contato com o povo, com a classe trabalhadora, com a juventude e a intelectualidade. Esse contato com o povo é tão importante que Kim Il Sung dizia: “O povo é o nosso Céu”. 


A Política é muito mais ampla que o estado, o governo, os mandatos, e não se reduz à institucionalidade. O fascismo se levanta precisamente quando a burguesia manda às favas seu “compromisso” com a democracia, e por isso bloqueia nosso contato com o povo, por propaganda, por mentira, por ditadura, por lei. Transformar democracia e institucionalidade burguesas em democracia popular exigirá muito mais que uma participação minoritária em um ou vários governos. 

A questão central é a nossa relação com o povo, e a Classe Trabalhadora é universal, diversa, é a coluna vertebral da Nação e do Povo Brasileiro. Daí ser essencial perguntarmos: que Classe Trabalhadora é essa de quem pretendemos ser vanguarda.


Quem é a Classe Trabalhadora?

A geração que compunha o bônus demográfico em 2012 e que engrossou as manifestações de 2013 continua em 2023 como a grande maioria da População Economicamente Ativa - PEA -, e imensa participação no mercado de trabalho nacional, tendo sofrido os impactos da regressão trabalhista. Atualmente, a PEA conta com 107.127.000 pessoas (abril/23), de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADc)(1) do IBGE. A População Ocupada - PO - conta  98.031.000 de pessoas e a População Desocupada - PD - tem cerca de 9.095.000 de pessoas. Ou seja, 8,48% da PEA estão em desocupação plena. 

É preciso ver com maior atenção o universo daqueles que perderam seus direitos e que enfrentam as maiores dificuldades, num quadro em que o setor formal da economia tem a marca do empobrecimento, das perdas salariais e inflacionárias decorrentes da destruição da negociação coletiva e do fim da política de valorização do salário mínimo. No universo da População Ocupada, 35.943.000  pessoas trabalham na informalidade, sem carteira assinada. Somados à População Desocupada, chegam a 45.038.000. Essa fotografia ainda não traduz a situação. Quando somamos a esse conjunto as pessoas desalentadas - 3.769.000 - e as pessoas subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas - 5.053.000 - chegamos  a quase 54 milhões (2) de trabalhadores e trabalhadoras na precariedade, informalidade, no desemprego, e ainda faltam muitos invisibilizados pela mais extrema miséria! É nesse universo, considerados como Ocupados, que estão os informais e os trabalhadores de aplicativos! Assim, 50,27% da População Economicamente Ativa vive um presente sem direitos e pode acabar num futuro de vulnerabilidade e pobreza.


Ainda de acordo com a PNADc, fazendo um recorte geracional, verificamos que as pessoas de 18 a 39 anos, são  65,1% da População Desocupada. Segundo a economista Marilene Oliveira, com dados do primeiro trimestre de 2022 (3), a juventude entre 20 e 29 anos contava com 47,8% entre os trabalhadores informais. Mas a pesquisadora nos informa que o recorte etário de 20 aos 49 anos compõe  68,4% de todos os informais. Assim, a geração de jovens de que saíram às ruas em Junho de 2013 e seus filhos compõem hoje a maioria dos trabalhadores e trabalhadoras sem direitos, previdência, sem amparo algum. Não é à toa estar aí a maior distância dos partidos e sindicatos! É essa maioria da classe trabalhadora, sem direitos e organização que, curiosamente, merece a atenção da indústria cultural, das igrejas do pentecostalismo de negócios, e mesmo das milícias, do narcotráfico e das bigtecs que, assim, promoveram o sequestro da identidade de classe da maioria dos trabalhadores, comprometendo o futuro do Brasil. Esse é o campo aberto para a propaganda fascista.


Mas a tragédia não se resume aos precarizados(as), desempregados(as) e informais. Ao analisar os trabalhadores formais, vemos a fragilidade gritante decorrente da perda de representação sindical, expressa nas taxas de sindicalização em sua baixa contínua ao longo dos últimos anos. Em 2020, três anos após a Deforma Trabalhista, o Brasil de Fato já noticiara que:

“entre os anos de 2012 e 2019, os sindicatos perderam cerca de 3,8 milhões de filiados no Brasil. Desse modo, em 2019, das 94,6 milhões de pessoas ocupadas no país, apenas 11,2%, ou seja, 10,6 milhões de trabalhadores, eram filiados a um sindicato, de modo que esta é a menor taxa de sindicalização desde 2012, quando 16,1% dos trabalhadores brasileiros eram sindicalizados”. (4)


Veja os quadros comparativos por agrupamento de atividade econômica e por região:

Em 2019, tínhamos apenas 11,2% sindicalizados e 88,8% de não sindicalizados, considerando toda a população ocupada. Ora, é amplamente sabido que a filiação sindical se dá no âmbito da formalidade, e não do total da população ocupada, então o dado é melhor. Mas a realidade é que representamos uma pequena parcela, cerca de 11% de toda a população ocupada, no melhor cenário.

A unidade é indispensável, desde as centrais até os sindicatos. Colocar a pirâmide sobre sua base de trabalhadores é inadiável, mas não basta, pois trazer os formais para os sindicatos é apenas um primeiro passo para que possamos atingir toda a classe e em especial a parcela mais jovem e sem qualquer direito.

É a partir desse distanciamento do movimento sindical de quem deveria representar que se baseiam as teses da pulverização dos interesses da classe e da falta de futuro do movimento dos trabalhadores(as). Representando uma minoria da Classe, decrescem as lideranças e os resultados eleitorais da bancada trabalhista. Daí, também decorre o senso comum, de que essa relação com o povo seria “mediada” pelos movimentos sociais, sem lastro de classe, e a partir da incorporação desses movimentos pela representatividade no estado e nos governos, a partir de “políticas” públicas.

Em verdade, se formos olhar de frente a Classe Trabalhadora como um todo, nela encontraremos a raça, o gênero, todas as diversidades, mas o inverso não é verdadeiro. Não há histórico de uma revolução socialista liderada pelos “movimentos sociais”. A História ilustra o inverso, a centralidade do trabalho como mote para a representação e a inclusão da  totalidade do povo na construção da Nação, com a marca indelével do leninismo. É preciso resgatar esses ensinamentos.


"Ligação com as massas como condição fundamental para o trabalho dos sindicatos" (5)

As principais lições de Lênin quanto aos movimentos sociais e à ação dos comunistas são relativamente simples, até, se não as ignorarmos. 


Primeiro, o movimento social, se é o fim em si mesmo, não chega a lugar nenhum. O movimento social que não se vincule à classe revolucionária, trabalhadora, sem a perspectiva generalista da luta do poder, perde-se. Lênin não fez essa crítica ao movimento negro, nem ao movimento LGBTQIA+, à juventude, ou ao movimento das mulheres. Tal crítica foi dirigida com inaudita dureza ao movimento sindical, o movimento da classe trabalhadora, e em especial à sua direção, no célebre e mal citado livro “Que Fazer” (“Sonhos, acredite neles”, aff…) e em outras obras. 


A segunda lição, daí decorrente, é o papel imprescindível da consciência comunista avançada e organizada, sem cuja direção, sem cujo trabalho de base, sem cuja ligação com o povo, com os não comunistas, não há vanguarda de nada, nem de ninguém. A perspectiva do poder só pode vir “de fora”, ele dizia.  Mas esse “de fora”, para dirigir, para ser vanguarda, essa consciência precisa ser feita do mesmo povo que se quer dirigir, viver o que se predica. É preciso ir sempre ao imenso manancial do povo, não ficar fechados em nós mesmos.


Ou seja, guiados pelo espontâneo, pelo corporativo, pelos interesses do momento, guiados por indivíduos não se chega à CONSCIÊNCIA, nem ao PODER. É essa força da maioria do povo que permite chegar, manter e transformar o poder de Estado. Por isso, o rabo não deve balançar o cachorro. O espontaneísmo e o pragmatismo prometem vitórias, mas não as entregam. 


Além disso, há a importância da questão nacional, especialmente nos países da periferia do capitalismo, as colônias de ontem e de hoje, para quem o tema tem um sentido bastante distinto do nacionalismo burguês. Recentemente, sofremos muito com o abastardamento da Bandeira Nacional, já denunciado por castro Alves no poema O Navio Negreiro: 

“Existe um povo que a bandeira empresta

P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...

E deixa-a transformar-se nessa festa

Em manto impuro de bacante fria!..(6)


Arrancar esta bandeira da mão dos traidores é indispensável, mas não é mero ato simbólico, é o resgate material e espiritual de nossa Nação humilhada. Essa responsabilidade é da classe trabalhadora, em primeiro lugar. Há que lembrar de outra contribuição, do mais fiel seguidor de Lênin, ensinamento que pudemos viver na pele nos últimos anos…Em seu último discurso público, no XIX Congresso do PCUS, em 1952, alertava Stalin: 

Antes, a burguesia julgava-se líder das nações, cujos direitos e independência defendia e colocava “acima de tudo”. Hoje não resta um vestígio sequer desse “princípio nacional”: a burguesia vende por dólares os direitos e a independência das nações. A bandeira da independência e da soberania nacionais foi jogada fora. Não há dúvida de que cabe a vocês, representantes dos partidos comunistas e democráticos, recolhê-la e conduzi-la adiante, se vocês querem figurar como os patriotas de seus países e tornar-se a força dirigente das nações. Não há mais ninguém que possa fazê-lo. (7)


O sofrimento nacional, longe de dividir a nossa gente, precisa aproximá-la. A Nação é a Classe Trabalhadora, é o nosso povo.  Apenas uma visão consciente do movimento, a sua firme adesão aos interesses maiores da classe universal produtora da riqueza construída pela humanidade, defendendo o internacionalismo a partir de nossa Nação em perigo, de nosso povo tão judiado, só desta maneira atingiremos a libertação nacional, a ruptura com o jugo do imperialismo e a construção da verdadeira Nação - que é seu povo. Em um mundo em crise, não percamos a ambição de ver com nossos próprios olhos a primeira etapa da transição ao socialismo. Sim, com as características de hoje, com a classe na sua diversidade, mas jamais um voo de galinha face a um abismo.

Por que não somos eleitos? Se nossa relação com a classe trabalhadora legitimar a liderança, o voto, a defesa e a vitória face aos ataques à Nação e aos direitos da classe trabalhadora, só se essa relação ganhar força nas ruas e nas redes poderemos projetar uma representação eleitoral à altura dos desafios de assegurar o êxito do nosso governo, a vitória da Democracia e o resgate do Brasil aviltado. Será preciso vencer nas ruas e nas redes, e para isso, é preciso um giro em direção à Classe Trabalhadora real.

Mesmo já tendo conquistado o poder, em 1922, Lênin advertia ao movimento sindical classista do primeiro país aonde a Classe Trabalhadora chegou ao poder:

“Um dos maiores e mais terríveis perigos para um Partido Comunista, numericamente modesto, e que na qualidade de vanguarda da classe operária dirige um enorme país que efetua (no momento sem gozar ainda do apoio direto dos países mais adiantados) a transição para o socialismo, é o perigo de ficar afastado das massas, o perigo de que a vanguarda avance demasiadamente longe sem “a frente estar alinhada”, sem conservar uma estreita ligação com todo o exército do trabalho, isto é, com a imensa maioria da massa operária e camponesa."(5)

Isso foi dito com os bolcheviques já no poder… Imagina nós, que estamos só na beira… Imagina se o perigo for ficar atrasado e alheio ao sofrimento do povo…


Lutar desde Brasília é muito duro. Somos pequenos e assumimos imensa responsabilidade de representação nacional. Doeu, sermos porta-vozes de ameaças vãs aos poderosos, enquanto avançava o Golpe; ver o vácuo que sustentava nossos inflamados discursos. Não foi sempre assim, e precisamos estar conscientes de que as marchas de junho de 2013 ainda hoje não foram compreendidas profundamente. Já sabemos, contudo, que elas foram a eclosão da Guerra Híbrida, sob a direção do imperialismo estadunidense e a partir da traição de elementos apátridas, desmoralizados e corruptos, num contexto de revolução tecnológica, da internet, das redes sociais e da telefonia. Se olharmos nossa Classe Trabalhadora real, miraremos a geração que participou de tais protestos, e reconheceremos a pá de cal lançada sobre nossas esperanças, a tragédia imposta ao nosso maior bônus demográfico e, talvez, o comprometimento do futuro do Brasil. 


Aqueles eventos marcaram uma ruptura ainda atual entre a direção nominal da juventude, dos estudantes e da classe trabalhadora e seus representados. Desde então, abriu-se um fosso que só tem se ampliado. Perdas coletivas, de direitos, perda de recursos materiais dos sindicatos, perda de representação política e institucional dos trabalhadores(as); perdas individuais, do emprego, da microempresa, do nome limpo, dos entes queridos, da saúde física e mental, da perspectiva, da família, do direito de amar, do futuro. Cada perda dessas é a falência do Projeto Nacional de Desenvolvimento, que é feito da vida das pessoas. 


E para quem aspira a ser vanguarda da libertação do Brasil, o mais doloroso é a perda do apoio daqueles e daquelas por quem lutamos, a desconcertante solidão de ver o proletariado apontar para a própria cabeça a arma do fascismo. É sob essa luz que devemos enxergar a vitória estratégica da eleição de Lula e Alckmin, graças à Frente Ampla. Só lutaremos com todas as nossas forças e inteligências pelo êxito da missão do Governo Lula (Reconstruir e Transformar o Brasil), se disputarmos a opinião pública, a organização popular, a classe trabalhadora. Há que construir uma trincheira que impeça qualquer derrota e preparar novas vitórias, num mundo mais perigoso e em mudança acelerada. Não é hora de tapinhas nas costas, é hora de trabalho duro, de corrigir os erros, de assentar os alicerces da esperança a partir do instrumento consciente que possa unir e liderar a Classe trabalhadora. Do contrário, como assegurar que não haverá um novo retrocesso?


É preciso lembrar quem somos, olhar nossa classe nos olhos e caminhar para um futuro que só a classe trabalhadora poderá conquistar. Dói a picada, mas o que salva como nossa vacina é libertar o Brasil e construir o Socialismo. Como está no Programa do PCdoB: o Fortalecimento  do Brasil é o Caminho, o Socialismo é o Rumo. E não haverá futuro sem o Sindicalismo Classista Organizado desde a Base, como força motriz do resgate da Classe Trabalhadora.

NOTAS

 1) PNAD Contínua - Divulgação: Maio de 2023 Trimestre móvel: fev-mar-abr/2023 Quadro Sintético - fev-mar-abr_2023.xlsx (ibge.gov.br) <https://ftp.ibge.gov.br/Trabalho_e_Rendimento/Pesquisa_Nacional_por_Amostra_de_Domicilios_continua/Mensal/Quadro_Sintetico/2023/pnadc_202304_quadroSintetico.pdf>

2) 53.860.000 de trabalhadores, grosso modo, reúnem População Desocupada, Setor privado sem carteira, Trabalho doméstico sem carteira, Desalentados, Empregadores sem CNPJ, Trabalhadores(as) Por conta própria sem CNPJ e Subocupados por insuficiência de horas trabalhadas 

3) O mundo do trabalho e a informalidade - DIAP - Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar <https://www.diap.org.br/index.php/noticias/artigos/91166-o-mundo-do-trabalho-e-a-informalidade> 

4) Queda na taxa de sindicalização: o que esses dados falam? André Barreto, 4 de Setembro de 2020, Brasil de Fato <https://www.brasildefatope.com.br/2020/09/04/queda-na-taxa-de-sindicalizacao-o-que-esses-dados-falam>

5) Sobre o Papel e as Tarefas dos Sindicatos nas Condições da Nova Política Econômica - Resolução do CC do PC(b) da Rússia - V. I. Lênin  - 4 de Janeiro de 1922 <https://www.marxists.org/portugues/lenin/1922/01/04.htm> 

6) Castro Alves, O Navio Negreiro, Jornal de Poesia <http://www.jornaldepoesia.jor.br/calves01.html> 

7) Discurso na Sessão de Encerramento do XIX Congresso do PCUS -  J. V. Stálin - 14 de Outubro de 1952 <https://www.marxists.org/portugues/stalin/1952/10/14.htm>





domingo, 19 de julho de 2020

George Dimitrov: líder histórico da luta contra o nazifascismo - Pedro Oliveira - E a defesa de Dimitrov contra Goring e Goebbels (em inglês)- Portal Vermelho


George Dimitrov: líder histórico da luta contra o nazifascismo

Ao desmascarar o fascismo – ameaça que continua presente hoje em vários países e inclusive no Brasil –, Dimitrov apresentou uma tática de luta política inigualável.
por Pedro Oliveira

Publicado 19/07/2020 13:03 | Editado 19/07/2020 14:33


Normalmente costuma-se comemorar e relembrar datas redondas relacionadas a grandes líderes e fatos da história da humanidade. Agora mesmo, acabamos de celebrar os 75 anos da Vitória da Guerra Patriótica da União Soviética contra o Nazismo, que na verdade decidiu a II Guerra Mundial, com a realização em Moscou de um grandioso desfile referenciado em uma parada militar igualmente inesquecível, ocorrida em 1945, na Praça Vermelha.

Entretanto, as circunstâncias históricas atuais, tanto no mundo quanto no Brasil, fazem-nos lembrar da luta contra o nazismo e o fascismo, em seus primórdios, quando Adolf Hitler assumiu o poder na Alemanha. Em junho deste ano de 2020, recordamos o nascimento de uma figura emblemática desta luta encarniçada e de grande projeção estratégica para a luta dos trabalhadores e trabalhadoras de todo o mundo: o registro dos 138 anos do nascimento do líder comunista búlgaro George Dimitrov.

Ninguém melhor do que Bertolt Brecht para pontuar este artigo com os versos do seu poema


“Ao Camarada Dimitrov”, quando lutou diante do Tribunal fascista em Leipzig.

———————————————–
“Camarada Dimitrov!
Desde o dia em que lutastes diante do tribunal fascista
a voz do comunismo,
cercada pelos bandos de matadores e bandidos da SS,
através do ruído dos chicotes e cassetetes,
fala bem alto e nítida
no centro da Alemanha.”
————————————————

Na noite de 27 para 28 de fevereiro de 1933, agentes do recém-empossado novo chanceler da Alemanha, Adolf Hitler, sorrateiramente atearam fogo ao Reichstag, em Berlim – o Parlamento do país –, a partir de um local onde as ruas próximas eram vigiadas fortemente pela polícia política do nazismo, e acusaram os comunistas como autores do atentado.

Alguns dias depois, foram presos militantes comunistas, assim como o dirigente e membro do Comitê Executivo da Internacional Comunista e do Comitê Central do PC Búlgaro, George Dimitrov, ao lado de alguns de seus camaradas que estavam na Alemanha. A polícia nazista tomou também a providência de prender um militante holandês, chamado Van der Lubbe.

Dimitrov foi indiciado por ter supostamente participado do plano do atentado ao Reichstag. Na ocasião, foi instaurado um processo jurídico-político – que passou para a história como uma gigantesca farsa nazifascista do Tribunal de Leipzig – para criminalizar os comunistas e desencadear feroz repressão contra as massas populares na Alemanha. Nesse processo, Dimitrov, não aceitou interpostos defensores e assumiu sua própria defesa. Rejeitou o estatuto de réu e transformou-se em acusador do Terceiro Reich e dos seus juízes.


O roteiro da peça farsesca montada pela propaganda hitlerista não havia previsto tal desfecho. Os chefes do Partido “Nacional-Socialista” alemão (NSDAP), sob o comando de Hitler, tinham a convicção plena de que os comunistas haveriam de sucumbir diante da condução do processo instaurado sob precárias condições prisionais e por obstáculos apresentados pelo Tribunal à defesa dos réus. O processo culminou com um julgamento por tribunal, como de fato aconteceu.

Todo o julgamento estava montado para consagrar o novo governo hitlerista e para se transformar num elemento decisivo para a criminalização e perseguição dos comunistas e, por consequência, de toda e qualquer oposição. A transmissão das sessões do Tribunal pelo rádio testemunhava a certeza que o novo governo tinha em relação a um desfecho do processo favorável ao nazismo. Os hitleristas não contavam é com a coragem e a grandeza moral do dirigente da Internacional Comunista.


O revolucionário búlgaro desmontou os alicerces da acusação e desmascarou, uma por uma, as testemunhas apresentadas, mesmo quando duas delas foram nada mais nada menos do que dois dos mais destacados dirigentes nazistas e ministros do Terceiro Reich: Herman Göering e Joseph Goebbels.


O tipógrafo e sindicalista, nascido há 138 anos – completados no mês de junho passado, em Kovachevtsi, uma localidade búlgara — primeiramente confrontou-se com o general do Exército nazista, que perdeu completamente as estribeiras. Göering saiu totalmente desacreditado com sua conduta de acusador. Já o ministro da Propaganda, Gobbels (recentemente imitado por um dos membros do governo Bolsonaro que acabou demitido por seu desempenho grotesco no episódio), nem mesmo recorrendo a toda a sua retórica, foi capaz de levar a melhor perante Dimitrov.

Com argumentos sólidos e firmeza inabalável, o dirigente comunista deixou evidente, aos olhos do mundo, que os nazistas, e tão-somente eles, beneficiavam-se do incêndio do Reichstag, e que o único golpe que se preparava era o de Hitler rumo ao poder absoluto.


————————————————

“(…)Voz que pôde ser ouvida em todas as nações da Europa,

que através das fronteiras ouvem o que vem


do escuro, elas mesmas no escuro,

mas também pôde ser ouvida

por todos os explorados e espancados e


incorrigíveis lutadores

na Alemanha.”

————————————————–


Desta maneira, Dimitrov protagonizou a primeira grande derrota ao nazismo, dentro de seus próprios tribunais, em Leipzig e posteriormente, em Berlim. Com isso, o dirigente comunista deu forte impulso à formação de uma ampla frente antifascista em nível mundial. Foi um grande exemplo dado à juventude e ao movimento operário e sindical para o combate ao pior inimigo dos povos naquela época: o nazismo.

Ao desmascarar o fascismo – ameaça que continua presente hoje em vários países e inclusive no Brasil –, Dimitrov apresentou uma tática de luta política inigualável: a síntese que fez em pleno tribunal da tática dos comunistas representa ainda hoje um lema mobilizador para os revolucionários de todo o mundo: trabalho de massas, luta de massas, resistência de massas, frente única, nenhuma aventura!

Em seu informe ao VII Congresso Mundial da Internacional Comunista, pronunciado em 13 de agosto de 1935, Dimitrov asseverou que os comunistas “são partidários da frente única, defendem, desenvolvem e fortalecem o movimento de frente única, visto que este movimento de frente única é um movimento de luta contra o fascismo e a reação, e será sempre a força motriz que empurra os governos de frente única para lutar contra a burguesia reacionária. Quanto com maior força se desencadeia este movimento de massas, tanto maior será a força que possa oferecer ao governo para lutar contra os reacionários. E quanto melhor organizado pela base, este movimento de massas, e maior seja o número dos órgãos de classe da frente única situados à margem do Partido nas empresas entre desempregados nos bairros operários, entre gente simples da cidade e do campo, tanto maiores serão as garantias que se terão contra uma possível degenerescência da política do governo de frente única”.


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“(…) Com avareza utilizas, camarada Dimitrov, cada minuto
que te é dado, e o pequeno lugar que
ainda é público, utiliza-o
para todos nós.
Mal dominando a língua que não é a tua
sempre advertido aos gritos,
várias vezes arrastado para fora,
enfraquecido com as algemas,
fazes repetidamente as perguntas temidas.
Incriminas os criminosos e
leva-os a gritar e te arrastar e assim
confessar que não têm razão, apenas força.”

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Apesar de derrotado jurídica e politicamente no julgamento do incêndio do Reichstag, a máquina nazista conseguiu empulhar em certa medida a população e, uma semana após, propagandeando o perigo dos comunistas, do que o incêndio seria a prova, chegou a uma vitória eleitoral vital para consolidar o poder de Adolf Hitler. A prisão havia sido utilizada não somente para angariar votos nas eleições gerais, que se realizaram em 5 de março de 1933, mas também para desencadear uma série de atos para garantir poderes ditatoriais ao nazismo.

Hitler conseguiu aprovar uma lei, em 23 de março daquele mesmo ano, que permitia a centralização total do poder em suas mãos e impunha o controle sobre a administração civil do governo e do Judiciário, banindo ou dissolvendo todos os partidos políticos, à exceção (como não poderia deixar de ser) do Partido Nazista.

Ao mesmo tempo, medidas racistas contra os judeus foram tomadas e todas as greves e as organizações sindicais dos trabalhadores colocadas na ilegalidade.

Imediatamente após a prisão de Dimitrov, a bancada comunista no Reichstag desencadeou uma grande campanha nacional e internacional em defesa do líder comunista romeno.

O processo do tribunal de Leipzig, como ficou conhecido, durou de 21 de setembro a 23 de dezembro de 1933, e transformou Dimitrov numa personalidade mundial.

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“(…) Embora não tão visíveis
milhares de combatentes, mesmo os
ensanguentados em suas celas
que podem ser abatidos
mas nunca vencidos.
Assim como tu, suspeitos de combater a fome,
acusados de revolta contra os exploradores,
incriminados por lutar contra a opressão,
convictos da causa mais justa.”

Bertolt Brecht

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Dimitrov consolidou-se como um líder destacado do Partido Comunista da Bulgária e um dos principais organizadores do movimento comunista internacional, dirigindo a Terceira Internacional Comunista. Ele seguiu nesta nobre tarefa até a dissolução da Internacional Comunista, o Comintern, em 1943. Após a Segunda Grande Guerra, Dimitrov voltou à sua terra natal, a Bulgária, onde exerceu a função de primeiro-ministro do país até sua morte em 1949.

Na edição de agosto/setembro de 1949, da Revista Problemas do Partido Comunista do Brasil, PCB na época, Dominique Desanti publicou uma tradução do Depoimento de Dimitrov e parte do diálogo travado por Dimitrov com seus algozes nazifascistas, que aqui reproduzimos:

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Extratos do depoimento de Dimitrov perante o tribunal nazista

“É verdade que sou um bolchevique, um revolucionário proletário. (…)

É verdade igualmente que, na qualidade de membro do Comitê Central do Partido Comunista búlgaro e do Comitê Executivo da Internacional Comunista, sou comunista dirigente e responsável. De bom grado, responderei integralmente por todos os atos, decisões e documentos de meu Partido búlgaro e da Internacional Comunista. Mas é precisamente por essa razão que não sou um aventureiro terrorista, um putschista, um incendiário.

Aliás, é perfeitamente verdadeiro que sou favorável à revolução proletária e à ditadura do proletariado. Estou firmemente convencido de que essa é a única saída, o único meio de salvação contra a crise econômica e a catástrofe guerreira do capitalismo.

E a luta pela ditadura do proletariado, pela vitória do comunismo, é, sem dúvida alguma, o conteúdo de minha vida. Desejaria viver ainda ao menos 20 anos para o comunismo e depois morrer tranquilo. Eis precisamente por que sou adversário decidido do terror individual e do putchismo.

E isso não por considerações sentimentais e humanitárias. De acordo com a nossa doutrina leninista, as decisões e a disciplina da Internacional Comunista, que são, para mim e para todo verdadeiro comunista, lei suprema, estou, do ponto de vista da atividade revolucionária, no interesse da revolução e do comunismo, contra o terror individual, contra as aventuras putchistas.

Sou sinceramente partidário, admirador do Partido Comunista da União Soviética, porque esse Partido dirige o maior país do mundo – uma sexta parte do globo – e constrói tão heroica e vitoriosamente o socialismo, sob a direção de nosso grande chefe Stalin”.

O processo movido pelos nazistas para a derrota do comunismo mostraria ao mundo a flagrante pusilanimidade dos homens de Hitler, o heroísmo sereno dos revolucionários.

George Dimitrov, esse homem que arrisca a cabeça, esse homem que ama apaixonadamente a vida em todas as suas manifestações, é o único protagonista do drama para o qual convergem as vistas do mundo. Göering, no papel de testemunha, esbraveja, injuria, perde o controle, ordena aos guardas (ele como testemunha) que agarrem o acusado. O búlgaro desafia, antes de se deixar segurar:

“Tendes medo de minhas perguntas, Sr. Presidente?”

Goebbels, outra testemunha, blasona: “Não é a mim que ele fará perder a paciência”. Mas, também desta vez, Dimitrov fica com a razão. Dir-se-ia que ele próprio preparou esse processo, onde arrisca a vida, para dizer à face do mundo essas palavras essenciais:

“Defendo minhas ideias, minhas convicções comunistas. Defendo a razão de ser de minha vida. Eis por que cada frase que pronuncio é, por assim dizer, carne da minha carne e sangue de meu sangue. Cada uma de minhas palavras exprime a minha indignação contra o fato de que um crime tão anticomunista seja atribuído aos comunistas”.

“Diante do avanço do fascismo, o Comitê Executivo conclama todos os Partidos Comunistas a tentarem mais uma vez estabelecer uma frente única com as massas operárias socialistas”.

Dimitrov desmonta também o próprio processo, apontando a incoerência da acusação e a manobra malévola de apontarem como responsável pelo incêndio o comunista holandês de base, há pouco chegado na Alemanha, desempregado, Van der Lubbe. (…)

Obrigados a libertar os acusados, com exceção de Van der Lubbe, os nazistas libertaram igualmente, por pressão da URSS, Dimitrov, que se dirigiu a Moscou. Em 1935, foi eleito Secretário-Geral da Internacional Comunista, em cuja posição permaneceu até a sua dissolução em 1943. Os informes de Dimitrov continuarão modelos de clara análise leninista. Os objetivos que ele propunha ao Partido Comunista e à classe operária da França, no Congresso de 1935, a 2 de agosto, continuam ainda sensivelmente iguais aos que objetivamos:

“Obter a efetivação da frente única não somente no domínio político, mas também no domínio econômico para organizar a luta contra a ofensiva do capital, quebrar, com seu entusiasmo, a resistência oposta à frente única pelos chefes reformistas”.

Em 1920, atravessando a Europa inteira, Dimitrov penetrou finalmente na URSS. No dia seguinte, era introduzido ao escritório de Lênin.

O responsável pelo proletariado búlgaro sentia seu coração bater apressadamente. Noites inteiras ele examinou frase por frase dos escritos desse homem cujos olhos estreitos e cuja fronte imensa pareciam dissecá-lo, penetrar nele. Não houve grandes frases: Fale-me da Bulgária, pediu Vladimir Ilitch.

Dimitrov fez uma exposição veemente e completa: a miséria, as lutas, a união, a força do proletariado búlgaro, parecia-lhe que nada poderia vencer o entusiasmo dos operários, sem a revolução…

“Eu o aconselho a não se deixar arrastar”, disse Lênin lentamente com sua voz sem ênfase.

E se pôs a falar da Bulgária. Dimitrov via se desfazerem suas ilusões, via surgirem as lacunas que ele havia dissimulado; tinha superestimado as vitórias de seu povo, subestimado as forças da reação. A união com o campesinato não estava feita, os campos não seguiam as reivindicações das cidades e os operários na Bulgária constituíam ainda uma parte muito fraca da população.

“A situação pode ainda se agravar”, concluiu Vladimir Ilitch. Depois conduziu seu hóspede, há tanto tempo aguardado, ao Congresso dos Sindicatos Soviéticos. Uma ovação os recebeu.

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Décadas depois desses acontecimentos, suas lições permanecem, alertando e orientando os povos frequentemente ameaçados por forças fascistas recorrentes.

Durante a ditadura militar implantada em 1964 no Brasil, particularmente depois de 1968, quando ela lançou mão do AI-5, brutalizando o tratamento a seus opositores, com torturas, assassinatos e prisões indiscriminadas, forças resistentes, como o PC do B, indicavam a seus membros e aliados, como a Ação Popular, AP, a leitura do livro “O incêndio do Reichstag”, para se armarem da ideia de que, no enfrentamento da ditadura, eventualmente em tribunais de exceção, a melhor defesa é o ataque, sob a forma de denúncia política.

Ainda agora, quando grupos fascistizantes, ligados a Jair Bolsonaro, fazem repetidas ameaças de fechar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, os democratas de uma maneira geral e os comunistas em particular não devem diminuir a importância dos grandes fatos históricos e não podem perder de vista que a consolidação do poder absoluto de Hitler na Alemanha, nos anos 1930, veio após um incêndio criminoso do Parlamento alemão.

* Este artigo contou com as observações críticas de dois dirigentes comunistas — Haroldo Lima e Luciano Siqueira — aos quais agradeço profundamente.

Referências bibliográficas

Fundação Mauricio Grabois – Departamento de Documentação e Memória

Fundação Dinarco Reis – Fundação de Estudos Políticos , Econômicos e Sociais

The Diary of Gergi Dimitrov 1933—1949, Edited by Ivo Banac, Yale University Press


Autor

Pedro Oliveira
Jornalista e membro da diretoria da Fundação Maurício Grabois e do Comitê Estadual do PCdoB de Pernambuco.


O Coletivizando reproduz a seguir, trecho das obras escolhidas de Dimitrov, volume I, em que o dirigente operário alemão enfrenta no Tribunal Alemão os Ministros Goring e Goebbels, vale a pena:

 















domingo, 28 de junho de 2020

TV russa resgata a íntegra da 1ª Parada da Vitória contra o Nazismo em Moscou, 1945 - Portal Vermelho

Portal Vermelho



Realizada pela primeira vez há 75 anos, poucas semanas após a derrota do nazismo, a Parada da Vitória é um dos acontecimentos mais importantes na então União Soviética e agora Rússia.




Desfile reuniu combatentes que derrotaram o nazismo e homenageou grandes líderes soviéticos
A TV estatal da Rússia fez algo impressionante: encontrou nos velhos arquivos soviéticos as imagens completas, originais e inéditas da Parada de Vitória de 1945 e as restaurou digitalmente.
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Em 24 de junho de 1945 se realizou na Praça Vermelha de Moscou a maior e mais importante parada militar da História: o desfile do vitorioso Exército Vermelho que poucas semanas antes derrotou as forças da Alemanha nazista.




Soldados do Exército Vermelho externam o orgulho pela vitória
As únicas versões conhecidas daquele importantíssimo momento histórico eram dois filmes: um colorido de 20 minutos e outro preto e branco de 50 minutos. Ambos com baixa qualidade de imagem.  Mas a TV russa Pervy Kanal encontrou as filmagens completas nos arquivos soviéticos e restaurou todos eles, lançando a versão integral da Parada da Vitória em HD!  A qualidade das imagens é tamanha que cada quadro parece uma fotografia em alta definição.




Populares e combatentes comemoraram a vitória contra o nazismo
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Com uma nova narração, o filme agora tem 2 horas e meia de duração e mostra muitos detalhes novos sobre o desfile. Grandes nomes da História estavam reunidos numa ocasião que nunca mais se repetiu. Os incontáveis heróis da URSS nessa parada haviam acabado de voltar da linha de frente e desfilavam pela Praça Vermelha orgulhosos pelos feitos que haviam conquistado: a libertação do mundo e a morte do nazi-fascismo.

terça-feira, 12 de maio de 2020

EUA falsificam a História para minimizar papel soviético na 2ª Guerra


País perdeu 27 milhões de pessoas e libertou os judeus do campo de concentração Auschwitz

Vermelho


O governo da Rússia acusou os Estados Unidos de falsificarem a História e relativizarem o papel da União Soviética no desfecho da 2ª Guerra Mundial (1939-1945). Em comunicado publicado neste domingo (10), o ministério russo das Relações Exteriores afirmou que as autoridades estão “extremamente indignadas com as tentativas de distorcer a transcendência da contribuição decisiva de nosso país”

Segundo o documento, os Estados Unidos tentam minimizar e “distorcer” o papel da União Soviética na vitória contra a Alemanha nazista. A Casa Branca havia emitido uma nota no Facebook apenas mencionando os EUA e a Grã-Bretanha como vencedores na terrível guerra. Após isso, a Rússia exigiu uma “conversa séria” sobre o assunto com representantes do governo Donald Trump.

“Os funcionários americanos não tiveram a coragem nem a vontade de homenagear o papel inegável e a quantidade colossal de vítimas que o Exército Vermelho e o povo soviético sofreram em nome de toda a humanidade”, destacou Moscou no texto. Além dos EUA, a Rússia acusa também Europa, Ucrânia e Polônia por menosprezar o papel exercido pela União Soviética.


É inegável a épica participação dos soviéticos no conflito – sempre objeto de admiração do presidente Vladimir Putin e dos cidadãos russos. O país perdeu cerca de 27 milhões de pessoas e foi o responsável pela libertação do campo de concentração Auschwitz, além da destruição do bunker no qual Hitler cometeu suicídio, em 1945.

Com informações do site Aventura na História

sexta-feira, 10 de maio de 2019

João Amazonas - Os contratempos do Socialismo - Balanço da URSS e da experiência socialista no século XX - extrato do Informe ao 8o. Congresso do PCdoB (1992)


João Amazonas, ideólogo e construtor do PCdoBrasil



Os contratempos do socialismo


Vivemos uma situação de generalizado abalo das convicções progressistas de transformação radical da sociedade. Estende-se o ceticismo, o desalento, as vacilações acerca da justeza das teorias de Marx, Engels, Lênin. Voltam à cena política velhas e ilusórias utopias de reforma do capitalismo como saída para os irreparáveis desajustes originados da decomposição desse sistema.

A burguesia realiza em âmbito planetário intensa campanha anticomunista. Deturpa, dissimula, tergiversa. Recorre a múltiplos artifícios para confundir as grandes massas da população a fim de desviá-las do caminho da ação revolucionária. Ataca em todos os terrenos, agride não somente os comunistas, mas também tudo o que é socialmente avançado.

Pari passu com essa campanha, populações desnorteadas em países outrora socialistas, revivem os dias trágicos do nazifascismo. Destróem símbolos da epopéia revolucionária, derrubam monumentos levantados em homenagem às grandes figuras da gesta transformadora do velho mundo. Leningrado, agora, é São Petersburgo. E a bandeira da Rússia não é mais vermelha, tem as cores sinistras do czarismo.

As forças de vanguarda resistem, em condições muito difíceis. Formos duramente atingidos. Mesmo antigas referências da luta anti-revisionista, como o PTA, capitularam, mudaram de campo. Todavia, alguns países onde a revolução triunfou, como Cuba, Vietnã, Coréia do Norte e China Popular mantêm-se decididos a levar adiante a causa que defendem. Os partidos marxistas-leninistas, anti-revisionistas, prosseguem no esforço orientado para a reorganização das forças revolucionárias. E há, entre os partidos que havia adotado o revisionismo do PCUS, um empenho salutar visando a reorientar suas posições político-ideológicas.

Vamos fazer, neste 8º Congresso, uma avaliação multilateral dos acontecimentos ocorridos no mundo socialista. E tirar ensinamentos, recolher experiências que sirvam às lutas atuais e futuras. Não temos a pretensão de dominar plenamente um assunto tão complexo. Conhecemos nossas deficiências e, também, a magnitude da tarefa, que tem sentido histórico.



A URSS derrotou o nazismo, a bandeira Vermelha erguida em Berlim (1945)



Balanço das conquistas de 1917

Antes de mais nada, impõe-se um rápido balanço das conquistas revolucionárias de 1917. Há quem negue, e não são poucos, os êxitos alcançados e, até mesmo, a existência do socialismo na URSS e em outros países.

Sob a direção do Partido Bolchevique, a Revolução Socialista erigiu um novo sistema econômico-social oposto ao capitalismo. Inspirou por toda parte a luta conseqüente da classe operária e dos povos oprimidos. Acendeu a chama da esperança no coração dos que só têm a perder os grilhões da impiedosa exploração capitalista.

Imensas as contribuições que deu ao avanço da sociedade humana. A abolição da contradição entre o trabalho socializado e a apropriação privada permitiu rápido desenvolvimento, sem crises, das forças produtivas, colocando a União Soviética no nível dos países altamente industrializados. Com a coletivização da agricultura, modernizou a vida rural, utilizando máquinas e instrumentos agrícolas de grande eficiência.

Elevou o status social da classe operária e do campesinato. Passos importantes foram dados no terreno da cultura - nunca antes se imprimira tantos livros, nunca antes as massas populares e os trabalhadores tiveram a oportunidade de se pôr em contato com a literatura, a arte e a ciência, com as conquistas do saber. Instituiu-se um governo que reunia as funções executiva e legislativa num só órgão - o soviete, criado pelas massas. Em contraposição às rivalidades nacionais e étnicas oriundas do capitalismo, construiu-se um sistema de convivência fraternal entre os diversos povos habitantes do território euro-asiático da URSS.

Todas essas conquistas foram obtidas em árduas batalhas contra a ruína, a miséria, a fome secular que imperavam no país dos czares. E contra as forças da reação imperialista. O socialismo derrotou o intervenção militar dos 14 Estados, superou o bloqueio econômico imposto pelos países capitalistas e seus lacaios, desmantelou a sabotagem dos técnicos estrangeiros, debelou a total desorganização dos transportes e dos serviços públicos. O novo regime realizou prodígios de desenvolvimento econômico planificado - a economia soviética obteve taxas de crescimento continuado jamais conseguidas pelos países capitalistas. Isso refletiu-se no bem-estar material e espiritual das massas trabalhadoras.

Desapareceu, enquanto perdurou o socialismo científico, a pobreza absoluta, o desemprego crônico, o analfabetismo, a mendicância e outras chagas da velha sociedade. Significativamente, na II Grande Guerra, a União Soviética derrotou a agressão da todo-poderosa Alemanha hitlerista. A URSS aumentou consideravelmente seu prestígio internacional e sua influência nos desdobramentos da situação do mundo.

Esse é o balanço, breve, do período em que prevaleceu o socialismo na União Soviética - quatro décadas, de 1917 a 1957. Embora o novo sistema não tivesse ainda alcançado o nível de desenvolvimento econômico dos grandes países capitalistas, demonstrou inequívoca superioridade no equacionamento e na solução dos problemas angustiantes com que se defronta a Humanidade. A União Soviética avançou séculos na luta por um mundo melhor.

O revisionismo contemporâneo
Kruschev fala ao 20o. Congresso do PCUS em 1956

A partir dos fins da década de 1950 e começo da de 1960, sob o domínio dos revisionistas contemporâneos, a União Soviética deixou de ser um país socialista. O poder e a direção da sociedade, comandados pelos leninistas desde 1917, passaram aos revisionistas, uma tendência anti-socialista de fundo liberal-burguês. Liderada por Kruschev, iniciou-se a transição gradual de volta ao capitalismo que durou mais de três decênios.

A transição para o capitalismo operou-se de maneira camuflada. Seus executores falavam de "socialismo maduro e desenvolvido". Conservaram o nome do Partido, mantiveram a antiga estrutura do poder soviético, prosseguiram com o tipo de economia estatizada e planificada. Todavia, deram outro conteúdo às antigas formas socialistas. Instituíram um sistema híbrido. O poder, apoiado na burocracia, já não servia ao avanço da sociedade no rumo do comunismo mas, ao retrocesso ao regime da exploração do homem pelo homem condenado pela História.

Diversas facções dirigiram a transição nefasta. Depois de Kruschev, afastado em 1964, veio Brezhnev; após este, Chernenko e Andropov; finalmente, Gorbachev. Cada qual cumpriu determinado papel. Brezhnev pretendia corrigir desvios de Kruschev - prosseguiu na linha oportunista. Gorbachev completou o processo de marcha à ré. Lançou a Perestroika para superar as "falhas" de Brezhnev e "modernizar" a vida política, econômica e social. Acelerou a implantação da economia de mercado. Sob a sua direção, a União Soviética converteu-se ao capitalismo. Yeltsin substituiu Gorbachev, com o mesmo propósito anti-socialista.

O revisionismo contemporâneo atingiu também os países do Leste europeu. Em todos eles, o socialismo não chegara a adquirir raízes próprias. Depois da II Guerra Mundial, com a ajuda soviética, estabeleceram regimes de democracia popular que ainda não eram socialistas. Com o Plano Marshall, que visava a atraí-los ao Ocidente, abreviou-se artificialmente a passagem desses países ao socialismo. Os novos dirigentes revisionistas da URSS converteram-se em satélites, usando até mesmo a força militar para subjugá-los.

Os resultados do domínio revisionista na URSS e no Leste europeu foram catastróficos. Crise profunda na vida econômica, política e social. Desemprego em massa, fome, miséria crescente, especulação mercantilista. Decadência moral e recrudescimento do chauvinismo. A URSS desintegrou-se.
No curso de 1990/91 o sistema revisionista implodiu. Os povos de diferentes países levantaram-se contra o regime e o governo revisionistas, tidos, porém, como socialistas. Atacaram os governantes e tudo o que se relacionava à revolução e ao comunismo. Instalaram governos abertamente anticomunistas.

Temos, portanto, dois balanços diferentes - o da época socialista e o da era revisionista. O primeiro, promissor, apesar das dificuldades que enfrentava; o segundo, degradante em toda linha. Refletindo situações distintas, não podem ser confundidos na mesma designação de socialismo real. Um deles é efetivamente socialista, o outro, anti-socialista.

A luta contra o revisionismo


Desde o início da década de 1960, o movimento revolucionário, no plano mundial, opôs-se firmemente à traição aos ideais comunistas. Desmascarou as posições contra-revolucionárias da camarilha que se apossou da direção do PCUS e do Estado socialista. Revelou a essência retrógrada da política adotada a partir do 20º Congresso do PCUS. Discordou das teses de Kruschev e seus seguidores acerca da transição pacífica, da competição pacífica, da coexistência pacífica, do Estado de "todo o povo" e do Partido de "todo o povo".

O Partido Comunista do Brasil, PCdoB, orgulha-se de ter tomado parte, desde a primeira hora, dessa batalha. Em 1963, já denunciava Kruschev e seus parceiros como inimigos da revolução e do socialismo. A própria reorganização do Partido, em fevereiro de 1962, foi uma resposta contundente ao revisionismo contemporâneo. Tanto no plano interno quanto no externo, não vacilou no combate às proposições antimarxistas. Desenvolveu intensa luta ideológica e política contra as tendências adversárias do marxismo-leninismo.

Nessa luta, o PCdoB adotou posição crítica e autocrítica com referência ao seu passado. Em particular, quanto ao dogmatismo. Na VI Conferência, em 1966, assinalava: "Ao combater o revisionismo e demais tendências estranhas ao proletariado, o Partido deve erradicar de suas fileiras as concepções dogmáticas. Essas concepções influem, de longa data, no movimento operário brasileiro. Expressam-se, geralmente, na utilização inadequada das experiências de outros países, na cópia mecânica dos textos dos clássicos do marxismo e na adoção de soluções decalcadas das que tiveram êxito em outros países, em condições diversas e em épocas diferentes".

A derrota do socialismo


A batalha contra o revisionismo contemporâneo foi importante. Sobretudo quanto à revelação de que eram falsas e antimarxistas as teses de Kruschev e de seus sucessores. Representa uma conquista do movimento comunista mundial.

Mas a crítica exclusivamente ao revisionismo mostrou-se insuficiente. Porque não explicava as causas da derrota do socialismo na URSS. Com a débâcle do Leste europeu e da União Soviética a situação se complicou ainda mais devido aos males do revisionismo terem sido atribuídos ao comunismo.

Isso impõe aos revolucionários deter-se num exame mais acurado do período da construção do socialismo, pesquisar deficiências e erros que possam ter contribuído para o revés de 1956/57, recolher experiências e ensinamentos que sirvam às lutas futuras.

Chama a atenção, desde logo, que a derrota do socialismo não se deu pelo enfrentamento direto com a burguesia. Esta, tentou inúmeras vezes liquidar pela força o regime proletário. Particularmente com a agressão da Alemanha de Hitler. Nada conseguiu, fracassou sempre. O socialismo foi esmagado por corrente que atuava no seio do movimento revolucionário.

Essa circunstância nos remete a um dado histórico - o confronto ideológico entre duas concepções que acompanha todo o processo da luta pela revolução e pelo socialismo na velha Rússia e na União Soviética. Desde o começo do século, Lênin assinalava a existência da "ala revolucionária do Partido e a ala oportunista". Em termos de classe, correspondiam ao proletariado e à pequena burguesia. Durante alguns anos, essas duas tendências conviveram no Partido.

Ora predominava o leninismo, ora a corrente contrária. Bolchevismo e menchevismo são expressões das duas concepções. Em 1912, na Conferência de Praga, os mencheviques foram expulsos. Os bolcheviques criaram um partido independente - o Partido Operário Social-Democrata da Rússia (bolchevique).

Esse ato foi decisivo para levar a cabo a Revolução de Outubro. "Durante toda a Revolução de 1917 - escreveu Lênin - os mencheviques e os esserristas não fizeram outra coisa que não fosse vacilar entre a burguesia e o proletariado, jamais puderam assumir uma posição correta, como se o fizessem para ilustrar deliberadamente as palavras de Marx, de que a pequena burguesia é incapaz de ter uma posição independente nas batalhas decisivas".

Com a vitória da Revolução, mencheviques e centristas reingressaram dissimuladamente na organização de vanguarda do proletariado, assim como milhares de novos aderentes de insuficiente formação marxista. Prosseguiu o combate do leninismo contra as correntes pequeno-burguesas - no caso da dissolução da Constituinte, da paz de Brest, nos prazos da duração da NEP, da política de industrialização e na da coletivização da agricultura, da ofensiva para liquidar os kulaks como classe, da preparação do país para a guerra que se avizinhava. Nesses agudos conflitos predominou, em geral, o leninismo.

Num largo período, devido à força da corrente revolucionária e por temor às repressões políticas, os oportunistas refluíram, mudaram de tática. Exageravam nos aplausos à orientação de Stálin, nem sempre inteiramente correta. Kruschev foi um dos maiores bajuladores de Stálin. Quando este morreu, em 1953, os oportunistas voltaram à carga, mesmo sem ser, ainda, tendência estruturada e com plataforma própria. E conseguiram o que poderosos exércitos da burguesia não haviam alcançado - destruir o socialismo científico na URSS. Em 1956/57, venceu a contra-revolução pequeno-burguesa, revisionista, que existia embuçada no Partido. E dividiu o movimento revolucionário mundial.

O confronto ideológico entre a corrente leninista, revolucionária, e a pequena burguesia revisionista, tem raízes históricas. A pequena burguesia, que constitui vasta camada social, existe não somente no capitalismo, aparece igualmente no socialismo. Objetivamente, opõe-se ao projeto do proletariado de construir uma sociedade de trabalhadores, de indivíduos iguais em direitos, sem classes, uma comunidade livre de privilégios e de parasitas.

Orienta-se no sentido de amainar a luta revolucionária do proletariado, cheia de imensas dificuldades e de grandes sacrifícios, dirigi-la pelo caminho das reformas de tipo burguês. Essa tendência pequeno-burguesa é revisionista por natureza, dado que o marxismo representa a teoria da luta de classes conseqüente cuja meta final é o comunismo. Suas idéias não são as mesmas do proletariado. O socialismo é a aspiração da classe operária, e não de outros setores sociais.

Marx e Engels sustentaram vigorosa luta contra as diversas doutrinas do socialismo pequeno-burguês. Propiciaram a base teórica para forjar a corrente proletário-revolucionária. Lênin dedicou boa parte de sua vida e de sua obra a esse mesmo objetivo. Seus livros estão impregnados de viva polêmica com as tendências oportunistas, seja no campo da filosofia e da política, seja no da organização partidária. Somos continuadores dessa luta, que a experiência histórica demonstra ser de longa duração.

Insuficiências e erros


O confronto ideológico, em 1956/57, favoreceu a corrente adversa ao leninismo. Isso explica como ocorreu a derrota do socialismo na URSS. Mas, ainda não explica o porquê da derrota. Somos de opinião que deficiências e erros no curso da construção socialista possibilitaram esse desfecho negativo.

O PCUS mostrava-se ideologicamente enfraquecido. Criara-se um clima de auto-satisfação e comodismo que vinha da vitória na II Grande Guerra, do prestígio internacional da URSS, do respeito e veneração por Stálin. Tudo estaria bem. O socialismo consolidado, o "quem vence quem" resolvido (!) a favor do socialismo, caminhava espontânea e gradualmente para o comunismo... Problemas conflitivos limitavam-se à área exterior.

É expressivo o testemunho de Enver Hoxha, que conviveu mais de perto com o PCUS, desde o fim do conflito mundial. Disse ele, em Os kruschevistas: "Penso que no Partido Comunista da União Soviética, já antes da guerra, mas de modo particular depois desta, observavam-se sinais de uma apatia condenável. Esse Partido gozava de grande renome, tinha alcançado grandes êxitos em seu caminho. Porém, havia começado a perder seu espírito revolucionário, e o burocratismo e a rotina o estavam contaminando. As normas leninistas, os ensinamentos de Lênin e de Stálin haviam sido convertidos pelos aparelhos em fórmulas e slogans surrados e sem valor para a ação".

E, ainda: "Pouco a pouco começou a estender-se o arrivismo, o servilismo, o charlatanismo, o nepotismo mórbido, a moral antiproletária. Tudo isso corroía o Partido, sufocava o espírito de luta de classes e de sacrifícios e o empurrava à busca de uma vida tranqüila, de privilégios, de vantagens pessoais, de pouco trabalho e menor esforço".
Observações semelhantes, mas em âmbito limitado, fizeram também vários camaradas do nosso Partido que haviam estudado na União Soviética, observações essas transmitidas à direção do Partido na época.

Tudo isso mostra que o PCUS estava desarmado ideologicamente para defender as idéias revolucionárias. Já não respondia às normas leninistas de que o Partido deve submeter-se permanentemente a um processo de autoconstrução ideológica, crítico e autocrítico, superando dialeticamente o que envelhece e abrindo espaço ao novo, revolucionário.




Na União Soviética a teoria progredia insuficientemente, passava por uma fase de relativa estagnação. Surgiam variados problemas, decorrência do desenvolvimento objetivo da sociedade em construção. Escasseavam respostas teóricas a tais problemas, gerando ausência de perspectiva. Medrava, em certa medida, o subjetivismo, o empirismo, o dogmatismo.

É nossa convicção que o ponto de partida da degenerescência do movimento socialista vem do 20º Congresso do PCUS, reforçado com o golpe de Estado de 1957, na URSS. Aí começa o processo de volta ao capitalismo que, entretanto, se apresentava como "desenvolvimento criador do marxismo-leninismo".

O centro da luta contra o socialismo situava-se no deliberado ataque a Stálin que, à frente do Partido e do Estado, dirigia a construção socialista até o seu falecimento em 1953.
Mas o estudo que temos feito sobre o assunto em pauta, nos leva a afirmar que, mesmo na época de Stálin, apareciam já elementos de degenerescência na sociedade soviética. A situação da URSS e do Partido, à qual nos referimos, evidencia esse fato. Questões outras, relacionadas ao Estado e ao Partido, reforçam essa opinião.

Em 1918, Lênin, num breve artigo, definiu os elementos essenciais do novo Estado socialista: "A democracia do poder soviético e o seu caráter socialista - disse ele - expressam-se no fato de que: o poder supremo do Estado são os sovietes, constituídos por representantes do povo trabalhador (operários, soldados e camponeses) livremente eleitos e revocáveis em qualquer momento pelas massas até agora oprimidas pelo capital; os sovietes locais se unem livremente, segundo os princípios do centralismo-democrático, no poder soviético nacional único, consolidado numa união federal da República Soviética russa; os sovietes concentram em suas mãos não só o poder legislativo e o controle do cumprimento das leis como também sua aplicação direta por meio de todos os membros dos sovietes, com vista a trasladar gradualmente o exercício das funções de legislação e administração do Estado a toda população, sem exceção".

Nessa concisa definição, Lênin destaca os aspectos principais do poder proletário: origem popular e democrática, afirmação da soberania popular, exercício do poder pelas amplas massas trabalhadoras que controlam o Estado, traslação progressiva ao não-Estado. É um poder dinâmico, antiburocrático por excelência. Sua força reside na consciência política das massas, na participação voluntária dos trabalhadores nas tarefas estatais.
Esse o tipo de poder que se estabeleceu na União Soviética e perdurou durante largo período.

Demonstrou ser instrumento qualificado de construção da nova sociedade. Mobilizou as energias do povo, revolveu a antiga apatia das massas com relação à política em geral. Fez progredir amplamente a iniciativa criadora da população laboriosa.

Pouco a pouco, o Estado sofreu algumas alterações no seu conteúdo democrático e popular. Ainda que mantendo seus propósitos de defesa dos interesses do proletariado e da Revolução, converteu-se num órgão burocrático, afastado das massas. O poder tornou-se demasiadamente centralizado. Os sovietes, de maneira geral, tinham funções homologatórias, infringindo-se o princípio de que o centro decisório do Estado Socialista deve repousar nos órgãos da soberania popular. Substituía-se a atividade criadora das massas por métodos de aceitação formal das decisões adotadas na cúpula dirigente.

Além disso, realizavam-se, com ou sem justificação plausível, repressões políticas que atingiam setores populares. Violava-se a legalidade democrática, pretextando o acirramento da luta de classes, o que nem sempre correspondia à realidade política. Tais repressões criavam ambiente de temor que induzia à passividade e ao silêncio ante erros e defeitos existentes.

O Partido Comunista da União Soviética, força que dirigia politicamente o Estado e a sociedade, contribuiu decisivamente para as deformações apontadas. Assenhoreou-se do Estado. Monopolizou a vida da comunidade. O Estado Socialista é, porém, um sistema de alianças da classe operária com o campesinato, dirigido pelo proletariado. Tem seus mecanismos próprios de administração, que devem ser respeitados.

Estado e Partido são coisas distintas com funções definidas. Se não se estabelecerem relações justas, o Partido acaba absorvendo a atividade independente do Estado. Cria-se um sistema fechado, ultracentralizado, nas mãos do Partido, que poderia ser bem intencionado e até mesmo justificado em momentos agudos da luta de classes, mas inadmissível do ponto de vista dos princípios revolucionários.

Quando isso acontece, e de fato aconteceu, além dos prejuízos políticos, tudo que sucede de ruim, de incorreto, recai sobre o Partido, isolando-o das massas. Também a sociedade não pode ser dirigida mecanicamente, impondo-se critérios rígidos a serem obedecidos por todos, nos menores detalhes. Assim procedendo, esmaga-se a iniciativa e a criatividade no seio da população, fomenta-se o descontentamento generalizado.

A direção do Partido quanto ao Estado e à sociedade, indispensável à construção do socialismo, apóia-se fundamentalmente na democracia socialista e nos métodos de persuasão. A hegemonia política da organização de vanguarda tem de ser conquistada permanentemente, tanto no campo social quanto na direção do Estado. É preciso convencer os trabalhadores da justeza da orientação partidária, jamais impor, como verdades irrefutáveis, as nossas opiniões.

O Partido tem de ser um defensor resoluto da democracia socialista e da liberdade para o povo sem, contudo, cair no liberalismo burguês. Deve guiar as massas pelo caminho revolucionário da luta contra as idéias atrasadas, contra os inimigos do socialismo, estimulando o que é novo e progressista. Não se pode desenvolver a sociedade, na fase de transição, sem o uso da democracia e da liberdade.

Democracia socialista para incorporar grandes massas na atividade estatal, liberdade para combater a burocracia, os defeitos emergentes, a rotina conservadora.
As questões aqui abordadas criticamente, que refletem erros e deficiências na construção do socialismo na URSS, contribuíram para a derrota da força revolucionária, da corrente leninista, intérprete fiel da revolução proletária e do socialismo científico.

A direção de Stálin
Stálin, como o principal dirigente do PCUS e teórico marxista-leninista, tem responsabilidade no desastre sucedido com o socialismo na URSS.
Não foi ele quem deixou cair a bandeira revolucionária. Enquanto dirigiu o Partido e o Estado os ideais da Revolução de 1917 sempre estiveram em lugar de destaque. Sobre os seus ombros, depois da morte de Lênin, recaía boa parte da tarefa histórica de dirigir a construção da nova vida. Defendeu o leninismo. Sistematizou a contribuição inestimável do chefe da Revolução de Outubro ao enriquecimento da teoria de Marx e Engels. No cumprimento de suas tarefas, enfrentou inumeráveis dificuldades. Soube superar, sem vacilação, os condicionamentos históricos que, em vários casos, atropelavam a marcha normal da transição socialista.

Estadista de larga visão, neutralizou inimigos poderosos, desbravando caminhos para alianças amplas e necessárias. Jamais permitiu o isolamento da URSS. Na II Grande Guerra, concentrou as esperanças dos povos do mundo inteiro que aspiravam a esmagar o nazifascismo e a construir um mundo de liberdade e justiça social.

Por tudo isso, Stálin adquiriu enorme prestígio dentro e fora da União Soviética. Sua figura dominava o movimento revolucionário mundial.
É necessário reconhecer esse papel de Stálin. Não se faz História, ignorando fatos reais. Tanto mais que ele comandou com êxito a construção do socialismo na URSS, primeira grande experiência de transformação radical da sociedade humana.

Mas, Stálin revelou também deficiências, cometeu erros, alguns graves, equivocou-se em questões importantes da luta de classes. Particularmente no fim da vida, exagerou seu papel de dirigente máximo. Caiu no subjetivismo e, de certo modo, no voluntarismo. Permitiu o culto à sua personalidade que conduzia à subestimação do Partido enquanto organização de vanguarda.

As debilidades ideológicas do Partido no enfrentamento com os revisionistas, em 1956/57 - toda velha guarda bolchevique deixou se envolver nas maquinações de Kruschev - demonstra que Stálin não deu atenção suficiente, em especial a partir da década de 1940, à formação leninista e à luta ideológica, problemas-chave da luta de classes. Criou o fetiche da direção que tudo sabe e tudo resolve, direção que se reduzia ao Birô Político e, dentro do Birô, a ele próprio. Sem dúvida, a direção joga papel de primeiro plano. É verdade que sem uma direção firme e prestigiada, o Partido não cumpre a sua missão. Mas não pode prescindir, em suas decisões fundamentais, da opinião e da aprovação consciente do conjunto do Partido. Este, deve estar sempre armado ideológica e politicamente para não se deixar confundir com opiniões e medidas que se desviam da rota revolucionária, tal como aconteceu nos idos da metade do século.

Em dezembro de 1926, Stálin combateu eficazmente a opinião de Zinoviev que, desvirtuando Lênin, identificava "a ditadura do proletariado com a ditadura do Partido". Se isso fosse verdade, dizia Stálin, então "o Partido teria de substituir o método da persuasão por ordens e ameaças ao proletariado, coisa absurda e incompatível em absoluto com a concepção marxista da ditadura do proletariado". É uma opinião justa, leninista. Entretanto, mais tarde, com a burocratização do aparelho estatal e a excessiva centralização da atividade dirigente do Partido, Stálin concorreu para uma superposição do Partido ao Estado de tal modo que anulava, em boa parte, a atuação independente do Estado e de suas instituições.

A tese de Stálin de quanto mais avança a construção do socialismo, maior é o acirramento da luta de classes, mostrou-se equivocada. Conduziu a repressões continuadas e possivelmente desnecessárias, com repercussão negativa na credibilidade do regime. Dificultou o fortalecimento da legalidade democrática e socialista, indispensável à consolidação do sistema de ditadura do proletariado. Como indicam as nossas teses ao 8º Congresso, "a luta de classes (...) tem altos e baixos. Seria errôneo pensar que, pouco a pouco, declina até desaparecer. Há momentos de aparente calmaria. Em outras ocasiões, a luta de classes se agrava, ameaçando o poder do proletariado. Isso se relaciona às dificuldades inerentes à construção do socialismo, em momentos de maior tensão e, também, à pressão ideológica, política e militar do imperialismo que, muitas vezes, assume feição extremamente agressiva".

A luta de classes, particularmente no terreno das idéias, não pode ser tratada de maneira rígida. Stálin acentuou principalmente o seu aspecto repressivo que, em certas ocasiões, é indispensável. Deu menor importância ao outro aspecto, ao essencial, que é o da argumentação, o da fundamentação política e teórica. Este, precisamente, é o aspecto que coloca o Partido e isola os portadores de opiniões errôneas. Lênin, nesse sentido, foi um exemplo de firmeza e tolerância. Combateu todos os inimigos do socialismo com a arma da ideologia proletária, escreveu centenas de artigos refutando as idéias falsas, dizendo quem é quem. Demoliu, nesse combate, adversários empedernidos do marxismo e da luta revolucionária pelo comunismo.

Stálin deu contribuições valiosas no campo teórico, que merecem ser estudadas. Mas, sua produção nesse terreno não acompanhou as exigências do desenvolvimento rápido da URSS. A sistematização da prática rica de ensinamentos da construção socialista não se fez. Stálin escreveu sobre lingüística, sobre materialismo dialético e histórico, sobre problemas econômicos, repetindo corretamente as idéias marxistas, acerca da passagem ao comunismo em termos abstratos. Não pesquisou, porém, os fenômenos novos, não lhes deu tratamento científico. É como se bastassem as indicações de Marx, Engels, Lênin, que não viveram a edificação socialista. Entretanto, o avanço da sociedade soviética, como tudo o que progride, tinha de apresentar questões originais a serem examinadas à luz da ciência social. Não questões isoladas, aleatórias.

Mas, toda uma vasta soma de experiências que se devia traduzir em parâmetros mais altos do conhecimento. Lênin fez isso no campo da Filosofia, com o Materialismo e empiriocriticismo. No terreno da pesquisa científica, com o Imperialismo, etapa superior do capitalismo. Na esfera do socialismo, com a teorização da revolução num único país. E assim por diante. Stálin não esteve à altura da generalização da prática revolucionária. E por isso caiu, em certa medida, no subjetivismo, no empirismo, que se manifestaram na orientação do Partido. Em tais circunstâncias, a teoria revolucionária estagnou.

Apresentando, neste Informe, os defeitos que julgamos de maior peso na atividade de Stálin, como dirigente principal do Partido, é nosso propósito relacioná-los aos fatos subseqüentes que motivaram a derrota do socialismo na URSS. Ele não é o responsável direto, imediato. Mas influiu, indiretamente, com suas posições equivocadas e com o estancamento teórico, no desfecho da contenda anti-socialista.

A reação e os oportunistas atribuem a Stálin toda sorte de crimes. Falam de "modelo" stalinista, de "método" stalinista, de "concepção" stalinista, com o objetivo de desacreditar o regime soviético. Pregam o ódio ao socialismo e ao Partido na figura de Stálin, explorando aspectos parciais negativos de sua atuação revolucionária. Pretendem dividir os comunistas entre stalinistas e não-stalinistas. Na verdade, a categoria stalinismo é forjada pelos inimigos de classe. O ataque ao stalinismo tem sido um artifício para manifestar oposição a certos conceitos básicos do socialismo, para introduzir idéias revisionistas. Fundamentalmente, esse ataque leva ao anticomunismo.

Rechaçamos a propaganda insidiosa da reação. Não somos stalinistas. Tampouco, somos anti-stalinistas. Avaliamos a figura de Stálin no plano histórico. Ele esteve, juntamente com o Partido Bolchevique, à frente das grandes batalhas pela transformação radical do velho mundo capitalista. Nesses embates, a par dos méritos incontestáveis, mostrou falhas e deficiências, cometeu erros que prejudicaram a causa do proletariado.

A crise do socialismo


Desde há muito, em ligação aos acontecimentos que vimos examinando, instalou-se uma crise de certa profundidade no movimento marxista-leninista. Crise no campo da teoria, da Filosofia, da própria concepção de socialismo. Não surge de um pretenso envelhecimento da doutrina marxista, com dizem os reacionários, mas do descompasso da ciência social com a realidade em constante mutação. Oriunda do PCUS, partido respeitado e admirado pelos combatentes de vanguarda de todo o mundo, espalhou-se amplamente e gerou situação caótica nas fileiras comunistas.

Dispersão teórica e vacilações de toda ordem constituem traços marcantes da situação atual. Contesta-se a luta de classes como a força motriz do desenvolvimento da sociedade dividida em classes antagônicas e o próprio papel da classe operária na direção do movimento revolucionário. Questiona-se a ditadura do proletariado que seria incompatível com um regime de liberdade e justiça social. Coloca-se em dúvida a possibilidade de construir o socialismo em países atrasados. Nega-se ao Partido Comunista o papel de vanguarda, de dirigente da revolução e da construção socialista. Julga-se incorreto o método do centralismo-democrático.

Absolutiza-se o pluripartidarismo no socialismo. A teoria de Marx e Engels seria aplicável somente à fase anterior do capitalismo, não corresponderia à época atual de um capitalismo ultradesenvolvido com a revolução tecno-científica. O leninismo estaria impregnado de blanquismo, de radicalismos desnecessários. A própria filosofia marxista teria exagerado o aspecto dialético, o salto revolucionário, alheando-se da evolução que seria o principal fator de desenvolvimento da sociedade. Enfim, permeiam o movimento socialista mundial teses as mais variadas que constituem, em geral, a negação de princípios essenciais da doutrina marxista, a revisão dos fundamentos dessa doutrina.

Essa crise grave, que dura longo tempo, exacerbou-se com o sucedido no Leste europeu e na União Soviética. A campanha anticomunista mundial, em nível jamais conhecido, estimula as tendências contra-revolucionárias.
A crise instalada no socialismo corrói a luta do povo por um futuro melhor, enfraquece o impulso combativo dos trabalhadores, incentiva o culto à espontaneidade. É um sério obstáculo ao progresso social. Atingindo em cheio a teoria de vanguarda, priva o movimento de massas do fator consciente, que é o motor da ação conseqüente. "Sem teoria revolucionária - disse Lênin - não há movimento revolucionário".
A superação dessa crise é questão decisiva para a retomada da ofensiva contra o capitalismo em decomposição. No início do século, verificou-se também algo semelhante. Lênin convocou ao combate. "Não há nada mais importante - afirmou - do que o agrupamento compacto de todos os marxistas que compreendem a profundidade da crise (do marxismo) e a necessidade de lutar contra ela, para manter os fundamentos teóricos do marxismo e suas teses fundamentais, desfiguradas, por todos os lados, mediante a difusão da influência burguesa entre os diversos 'companheiros de viagem' do marxismo".

Essa convocação de Lênin é oportuna para os dias de hoje, e com mais razão, dada a envergadura da crise. Torna-se necessário cerrar fileiras em defesa dos fundamentos do marxismo atacado pelos revisionistas e pelos oportunistas de todo tipo, com a ajuda da reação mundial.
Lamentavelmente, ainda é débil a luta contra a crise do marxismo, que apresenta maior complexidade por envolver o socialismo no poder e abarcar o conjunto do movimento revolucionário. Boa parte dos partidos operários aderiu ao revisionismo.

Somente nestes últimos tempos, alguns deles começam a reagir à falsa orientação liderada pelo extinto PCUS. As organizações marxistas-leninistas concentraram seus esforços na crítica ao revisionismo contemporâneo, dispersando pouca atenção, no plano teórico, às deformações verificadas na construção do socialismo.

Mas, é deficiente a crítica apenas ao revisionismo. Não se poderá vencer a crise sem desenvolver a teoria, o que significa atualizar o marxismo que "não é um dogma morto, uma doutrina acabada, preparada, imutável" (Lênin). São muitos os problemas a enfrentar, entre os quais a elaboração da experiência adquirida nestes muitos anos de luta de classes e de vigência do socialismo, a sistematização dos elementos novos que serão incorporados à teoria do marxismo-leninismo.
É tarefa árdua que requer esforço persistente de pesquisa e elaboração científica, alicerçada no materialismo dialético e histórico. Devemos preparar-nos, os revolucionários de todo o mundo, para cumpri-la no mais breve prazo.

Engels recomendava "sobretudo aos chefes, instruir-se cada vez mais em todas as questões teóricas (...) e ter sempre presente que o socialismo, desde que se tornou ciência, exige que se o trate como tal, isto é, que se o estude".
O combate pela superação da crise do marxismo é a grande tarefa histórica da atualidade, ligado, sem dúvida, à conscientização das massas e à ação política em defesa dos direitos democráticos e dos interesses vitais dos trabalhadores e do povo.





Reafirmação de princípios

No momento em que a reação faz intensa campanha contra o comunismo, e quando os oportunistas põem em dúvida princípios básicos da nossa teoria, tentando abalar convicções na inevitabilidade do fim do capitalismo e do triunfo do socialismo, cabe aos revolucionários persistir na luta em defesa da grande doutrina de Marx, Engels, Lênin, que indica o caminho seguro da vitória.
Nós, do Partido Comunista do Brasil, reafirmamos, neste 8º Congresso do Partido, a decisão de continuar partidários inabaláveis da teoria do marxismo-leninismo, cuja essência está no seu espírito crítico e revolucionário, teoria em constante elaboração, assimilando os fenômenos novos do desenvolvimento da vida econômica, política, social e cultural.

Opomo-nos resolutamente às tendências que, desde Bernstein, tratam de rever o marxismo, retirando-lhe o conteúdo revolucionário e desfigurando o caráter proletário-revolucionário do Partido.
Persistimos na idéia de que a luta de classes é a força motriz do desenvolvimento das sociedades divididas em classes antagônicas. E que a classe operária, pela posição que ocupa no sistema de produção, é o destacamento social que comanda as transformações radicais da sociedade rumo ao comunismo.

Contrapomo-nos àqueles que adulteram a conceituação marxista do caráter de classe da luta pelo socialismo e tentam impingir fórmulas social-democratas falidas da passagem ao socialismo sem revolução e sem a direção do proletariado. A "via democrática" para o socialismo representa subordinar-se às regras do jogo do sistema burguês e manter-se nos marcos do capitalismo.
Mantemos a opinião de que a ditadura do proletariado é o conteúdo essencial do Estado Socialista que nasce da revolução e conduz, através de um processo de transição, à sociedade sem classes, ao comunismo. Ditadura de uma classe e não ditadura de um indivíduo ou de pequeno grupo, que condenamos. Todo Estado é uma ditadura de classes e quando deixar de sê-lo já não mais será Estado propriamente dito.

Propugnando a mudança radical na sociedade, asseveramos que o socialismo apresentará diversidade de formas e diferentes estágios de desenvolvimento, segundo a realidade existente nos países onde triunfe a revolução. Não valem cópias mecânicas e modelos rígidos de socialismo, nem mesmo quanto aos órgãos constitutivos do poder proletário ou aos sistemas de alianças. O socialismo vencerá em países bastante desenvolvidos, e triunfará também nos de pouco desenvolvimento. As diferenças de condições econômicas e sociais determinam desigualdades na realização concreta da construção da nova vida, anticapitalista.

Sustentamos a idéia de que o Partido Comunista, marxista-leninista, é a vanguarda dirigente da Revolução e do Estado Socialista. Sem um partido revolucionário em luta constante contra as tendências adversas ao marxismo, capaz de ultrapassar todos os obstáculos à realização de seus objetivos estratégicos e táticos, é impossível vencer a burguesia, libertar os explorados e oprimidos, firmar os alicerces da sociedade comunista. O Partido deve ser a expressão da unidade de vontade e de ação dos seus militantes, como base da unidade maior das forças que combatem a burguesia e aspiram ao progresso social.

Repudiamos as tendências oportunistas de tentar implantar no Partido o democratismo pequeno-burguês, a convivência pacífica de idéias marxistas com idéias social-democratas, liberais ou anarquistas no interior das organizações partidárias. O marxismo-leninismo, ideologia da classe operária, é a ideologia do Partido operário.
Insistimos na defesa do centralismo-democrático - o método marxista de organização do Partido.

O socialismo é um sistema centralizado democraticamente, tendo por base as massas trabalhadoras. Contrasta com a dispersão pequeno-burguesa que impede a direção única e planificada da economia e o desenvolvimento harmonioso da comunidade. Também o Partido é dirigido por um centro único, eleito democraticamente em seus Congressos. Centros paralelos de direção, exprimindo tendências diversas, liquidam a unidade partidária e o próprio Partido.

Ao reafirmar posições de princípios, rejeitamos o dogmatismo, que é o oposto da doutrina sempre viva e criadora do marxismo-leninismo. Repudiamos também a estreiteza sectária que fossiliza o Partido. Os princípios são os alicerces sólidos sobre os quais se constrói a concepção proletária do mundo, revolucionária por excelência. Fundam-se na ciência social de Marx e Engels, desenvolvida por Lênin e seus discípulos.



Internacionalismo proletário

Encerrando esta parte da exposição sobre o socialismo, desejamos salientar a necessidade de buscar novas formas de relacionamento no movimento revolucionário internacional, tendo em vista sua futura unificação. É uma afirmação de internacionalismo proletário.
Com a dominação do revisionismo contemporâneo na URSS, ocorreu, a partir do início dos anos 1960, profunda divisão daquele movimento. A grande maioria dos partidos comunistas apoiou o PCUS e sua orientação geral. Outra parte levantou-se contra as posições políticas e ideológicas dos dirigentes soviéticos. Surgiram inúmeros partidos, relativamente pequenos, que se proclamaram marxistas-leninistas. O PCdoB, fundado em 1922 e reorganizado em 1962, no curso de sua atividade nas últimas três décadas, transformou-se no único partido da esquerda revolucionária no Brasil.

À divisão seguiu-se a ruptura de relações entre as duas partes - os que apoiavam o PCUS e os que a ele se opunham - em certa medida inevitável, devido ao antagonismo de posições. Essa divisão, que dura largo tempo, enfraqueceu bastante o movimento operário revolucionário mundial que, com a III Internacional, havia alcançado elevado nível de unidade. O VII Congresso da IC, em 1935, foi um ponto alto, contribuindo para a unificação da luta mundial dos trabalhadores e dos povos contra a grave ameaça do nazifascismo, em defesa da revolução e das grandes conquistas de 1917.
A derrota do revisionismo na União Soviética e no Leste europeu, por incrível que pareça, favorece o acercamento entre as correntes que se pretendem partidárias do socialismo científico. Vários partidos, antes ligados ao PCUS, procedem a um exame crítico do que se passou na URSS e no movimento comunista. Na própria União Soviética há esforços por reconstruir as forças fiéis ao marxismo-leninismo.

É preciso reestruturar a unidade, especialmente quando há um ataque concentrado do inimigo de classe em plano mundial. Acreditamos não ter chegado ainda o momento de criar organismos internacionais ou mesmo de realizar reuniões deliberativas ampliadas. As divergências, em distintos graus, continuam existindo, estão longe de ser superadas. Mas, é possível fazer encontros bilaterais e mesmo reuniões informais para intercambiar opiniões e aproximar os pontos de vista sobre problemas comuns.

O Partido Comunista do Brasil, sem renunciar às posições de princípios que vem sustentando desde a sua reorganização, em 1962, fará tudo o que puder para melhorar as relações entre os partidos e organizações revolucionárias, particularmente na América Latina, visando a fortalecer o internacionalismo proletário. Nesse sentido, intensificará a luta contra a ofensiva anticomunista, em defesa da liberdade, da soberania nacional, do socialismo científico. Manifestará solidariedade e dará todo apoio possível às lutas dos trabalhadores e dos povos por sua libertação.



O Partido
Passamos por duras provas sobre a vitalidade do Partido da classe operária. Saímos relativamente bem. O PCdoB suportou firmemente o vendaval do anticomunismo exacerbado com a derrocada final do socialismo na URSS e em vários países. Quando outras organizações que se diziam de esquerda abandonaram o caminho da luta por transformações profundas na sociedade brasileira e se convertiam em social-democratas envergonhados ou mesmo em liberal-burgueses, o nosso Partido, o PCdoB, não vacilou em reafirmar suas convicções revolucionárias e defender os princípios imperecíveis da doutrina de Marx, Engels, Lênin.

Mantivemo-nos em nosso posto de combate nas linhas avançadas da luta de classes. Não é a primeira batalha que enfrentamos no campo da ideologia e da política. Desde a reorganização do Partido, em 1962, muitas lutas desse gênero tiveram lugar. Esta, no entanto, alcançou dimensões maiores e significação histórica. Não recusamos o debate aberto das questões controvertíveis. Convocamos o 8º Congresso do Partido e ampliamos o cenário da discussão.

Balanço positivo


É positivo o balanço da atividade do Partido, desde o VII Congresso. A linha política mostrou-se correta e não se cometeram erros graves na sua aplicação. Soubemos responder a tempo aos problemas políticos que se apresentaram. O prestígio e a influência do nosso Partido têm crescido. É hoje uma organização respeitada e considerada por amplos círculos políticos do país. A nossa representação parlamentar em diferentes níveis, aumentou. Mantivemos a bancada federal de cinco deputados. Elegemos nove deputados estaduais. Na legislatura anterior tínhamos apenas quatro. Cresceu razoavelmente o número de vereadores.

Nas frentes de massas obtivemos sucessos. Melhoramos significativamente nossa inserção no movimento sindical. Ajudamos a estruturar a Corrente Sindical Classista que, presentemente, desenvolve atividade unitária nas direções regionais e nacional da CUT. Ganhamos influência em importantes sindicatos. No movimento estudantil voltamos a dirigir a União Nacional dos Estudantes (UNE) e mantivemos a direção da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES). O Partido está presente na direção de muitos diretórios centrais, diretórios acadêmicos, grêmios das escolas de nível médio.

Temos também participação em âmbito regional e nacional na direção da Confederação Nacional das Associações de Moradores (CONAM). Auxiliamos a desenvolver a União Brasileira de Mulheres (UBM) que realizou, ano passado, concorrido Congresso, bem como o Movimento dos Negros, cujo 1º Encontro Nacional alcançou êxito. A União da Juventude Socialista (UJS), sob a direção do Partido, empenha-se em se manter ativa na organização e mobilização da juventude. O PCdoB tomou parte decisiva nas lutas que se realizaram no país.

Foi um dos principais dirigentes da Frente Brasil Popular na grande campanha eleitoral de 1989. Teve atuação destacada nas greves que mobilizaram, em 1991, milhões de trabalhadores. Atuou na defesa das massas camponesas, particularmente em Rio Maria onde foram perseguidos e assassinados vários comunistas. Em atos de massas, condenou a guerra dos Estados Unidos contra o Iraque, e apoiou o povo palestino.

Chegamos ao 8º Congresso com o Partido consolidado em nível nacional. Em todos os estados da Federação e no Distrito Federal há Diretórios Regionais do PCdoB. Funcionam também Comitês ou Comissões dirigentes em cerca de mil e cem municípios. Em diversos Estados, como o Rio Grande do Sul, Amazonas, São Paulo e Pará, o Partido obteve vitórias expressivas. Centenas de novos quadros se revelaram aptos a exercer funções dirigentes.

Regularizou-se a periodicidade da Princípios, revista teórica e política do Partido que tem contribuído grandemente para divulgar nossas idéias e estimular o debate teórico. Circula também regularmente a revista dedicada às mulheres. E, com tiragem irregular, a revista sindical. A Classe Operária, órgão central do Partido, circulou quinzenalmente, com deficiências.

Vale salientar o trabalho de formação desempenhado pela Escola Nacional do Partido. Desde sua instalação, já passaram por cursos de diferentes níveis mais de dois mil comunistas. Em 1991, realizou-se um curso especial de estudo da Filosofia, da Economia Política e da teoria do Partido do qual participaram 160 camaradas.

Avaliado criteriosamente, o balanço representa uma conquista da atividade do Partido, sobretudo se se tem em conta o período transcorrido de intensa campanha anticomunista.

Debilidades
Nem tudo se passa, porém, como seria de desejar. Há também na atividade partidária debilidades e insuficiências reveladas nas direções, em todos os níveis, a começar pelo Comitê Central e, igualmente, na militância.

A execução das decisões adotadas, em muitos casos, não se realiza com a eficiência necessária. O trabalho de massas do Partido ressente-se de maior apoio nas bases. Organicamente, somos débeis nas grandes empresas industriais. Observam-se elementos de burocratismo em órgãos dirigentes, que se manifestam num trabalho fechado, voltado para a própria direção, desligado do conjunto do Partido.

Desse modo, a direção separa-se da militância, não tomando partido. Decorre daí, possivelmente, certa queda na atividade dos militantes em diversos setores. Em relação à imprensa partidária, precisamos mobilizar-nos melhor a fim de superar as debilidade de A Classe Operária.
Há ainda pouco esforço visando a recrutar novos aderentes e, principalmente, para organizá-los. É como se bastasse o que já temos. Nisso se reflete, às vezes, o receio de aumentar a carga de trabalho da direção que, por seu turno, denota incompreensão da necessidade do ajustamento constante desse trabalho às exigências do crescimento das nossas fileiras.

O Partido no Rio Grande do Sul deu um bom exemplo de como tirar proveito de uma situação política favorável. Após os bons resultados, das eleições de 1990, empenhou-se em construir o PCdoB em todo o Estado. Precisamente por isso, a bancada do Rio Grande do Sul, neste Congresso, é a maior de todas. No entanto, no Rio de Janeiro e em Pernambuco, onde ocorreram situações eleitorais semelhantes às do Rio Grande, não houve progresso, em certo sentido tivemos recuos. Insiste-se em métodos de direção rotineiros, quando é indispensável buscar formas novas de atuação dirigente.

É justo afirmar que o Partido somente funciona bem quando tem dirigentes e militantes dedicados ao trabalho partidário. Se não há dedicação, empenho em progredir, tudo corre frouxo, sem controle, sem comando. Decerto a abnegação depende da consciência e da perspectiva revolucionária. Nunca devemos esquecer que o alimento que revitaliza nossa atividade comunista são as discussões políticas e ideológicas bem organizadas, o esforço para assimilar mais e mais a teoria marxista-leninista, e estreitar a ligação com as massas.

(Documento aprovado no 8º Congresso do PCdoB,
realizado de 3 a 8 de fevereiro de 1992 em Brasília.)

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