Neste sábado (1º/1) de homenagens a João Amazonas, grande líder comunista brasileiro que faria 110 anos, o Portal PCdoB
reproduz o artigo de Augusto César Buonicore, ex-membro do Comitê
Central, publicado em 27 de maio de 2010, no Portal da Fundação
Maurício Grabois.
No artigo intitulado “Tributo a João Amazonas (1912-2002) – Um
Comunista Brasileiro”, Buonicore diz que “há aqueles que lutam um dia; e
por isso são bons; Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são
muito bons; Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda; Porém há
aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.” Brecht
“Minhas cinzas devem ser espalhadas na região do Araguaia, onde houve a
guerrilha. É uma forma de juntar-me aos que lá tombaram.” último pedido
de João Amazonas.” Confira a íntegra abaixo:
Por Augusto César Buonicore*
Há oito anos (1), no dia 27 de maio, morreu João Amazonas. Seu último
pedido traduziria muito bem a personalidade deste líder revolucionário
brasileiro. Não queria monumentos em sua memória. Queria apenas que suas
cinzas se juntassem às cinzas dos centenas de combatentes que tombaram
na gloriosa guerrilha do Araguaia, da qual ele foi um dos principais
idealizadores e dirigente.
Amazonas foi o grande dirigente dos comunistas brasileiros. Foi o seu
ideólogo, o seu estrategista maior. Infelizmente Amazonas não viveu
tempo suficiente para ver mais uma vitória de sua elaboração tática. Uma
tática que propugnava pela necessidade de constituição de uma ampla
frente política, tendo como núcleo a esquerda e base as lutas populares,
como forma de derrotar o neoliberalismo e abrir caminho para a
construção de um novo projeto democrático e nacional, que permitisse
acumular forças para avançarmos no sentido da conquista de um socialismo
renovado.
Por fim, a história de João Amazonas se confunde com a história de
luta do povo brasileiro e de sua vanguarda revolucionário: o Partido
Comunista do Brasil.
Uma história de luta
No dia primeiro de janeiro de 1912, em Belém do Pará, nasceu João
Amazonas de Souza Pedroso. Filho de família modesta, desde muito cedo se
rebelou contra as péssimas condições de vida e de trabalho que vivia
submetida a classe operária de sua cidade. Após a revolução de 1930
enviou uma carta indignada ao secretário do trabalho estadual
denunciando os abusos existentes na fábrica onde trabalhava e exigindo a
imediata redução da jornada de trabalho.
João era também um jovem bastante curioso e se interessava por tudo
que ocorria no mundo e no seu país. Um dia caiu-lhe nas mão o livro “Um
engenheiro brasileiro na URSS”, seria o primeiro de vários outros sobre a
“pátria do socialismo”. Ele começava a pressentir que naquele distante
país se estava construindo um novo mundo, sem miséria e exploração. Mas
este ainda parecia-lhe um mundo bastante distante, pois não tinha
conhecimento da existência de um partido comunista no Brasil. Em breve,
seu espírito indomado e sua vontade de mudar o país e o mundo o levaria a
encontrá-lo.
Em 1935, quando tinha apenas 23 anos, num domingo, após sair do
trabalho, leu no jornal uma pequena nota sobre a realização de um
comício da Aliança Nacional Libertadora (ANL). Sem demora se dirigiu à
praça do Largo da Pólvora, onde se realizava o evento. Os discursos
inflamados defendendo a soberania nacional, a reforma agrária e a
constituição de um poder popular empolgou os ouvintes, inclusive João.
No dia seguinte ele se apresentou na sede local da ANL para se
integrar ao movimento. O rapaz foi imediatamente convidado para
ingressar na Juventude Comunista na qual passou a militar. Poucos dias
depois ingressava no Partido Comunista do Brasil. Era o início de uma
relação que duraria mais de 67 anos.
A sua primeira tarefa militante foi organizar uma célula na sua
empresa. Tarefa que realiza com sucesso. A partir desse núcleo de
comunistas ele partiu para a organização de um sindicato da categoria,
outra tarefa bem sucedida. Em seguida foi eleito delegado na União dos
Proletários de Belém. Este envolvimento lhe acarretou a sua primeira
prisão, que durou apenas 15 dias.
Em novembro de 1935 ocorreu o levante armado, dirigido pela ANL, que
foi rapidamente esmagado pelas forças governamentais. Iniciava-se uma
fase de violenta perseguição aos comunistas. Apesar da repressão, as
atividades dos comunistas não cessaram.
Em 19 de dezembro de 1935 o jornal Folha do Norte anunciava: “Mãos
misteriosas içam, pela calada da noite, nos mastros dos reservatórios da
Lauro Sodré, uma flâmula comunista com legendas subversivas e ainda
dispõem de tempo para deixar inscrições do mesmo gênero nas paredes do
reservatório. O fato, notado desde cedo pelo público atrai ao local
multidão de curiosos e provoca comentários acalorados (…) A polícia
procede a investigação no sentido de apurar responsabilidades”. O
reservatório era o ponto mais alto da cidade e nem mesmo o corpo de
bombeiros conseguiu retirar a faixa colocada pelas “mãos misteriosas”.
Na faixa vermelha, assinada pela ANL, podia se ler “Abaixo a pena de
morte” e nas paredes: “Viva Luís Carlos Prestes – Viva ANL!”. A polícia
política ameaçou, prendeu os pobres dos vigias, mas os verdadeiros
culpados jamais foram descobertos. Os responsáveis por tal façanha, que
agitou Belém, foram dois jovens comunistas: João Amazonas e Pedro Pomar.
No início de 1936 a polícia realizou novas prisões de ex-integrantes
da ANL. João e Pedro desta vez não escaparam. Mas, mesmo na cadeia não
deram sossego aos seus opressores. Realizaram uma greve de fome contra a
má-alimentação servida aos presos e aproveitaram o tempo para ministrar
aulas de marxismo-leninismo aos demais companheiros. Depois de mais de
um ano de prisão, em junho de 1937, foram julgados e absolvidos por
falta de provas. Em novembro ocorreu o golpe de Estado que implantou o
ditadura do Estado Novo. Amazonas e Pomar entrariam na clandestinidade.
A Reorganização do Partido Comunista
Em 1940, novamente, uma onda de repressão se abateu sobre os comunistas
paraenses. Em 2 de setembro foi preso Pedro Pomar e em 10 de setembro
foi a vez de João Amazonas, dois dos principais dirigentes do Partido no
Pará. Assim o jornal Folha do Norte anunciou a sua prisão: “Fisgado
mais um adepto do credo sinistro”. O artigo afirmava: “No inquérito, a
Delegacia de Ordem Política e Social apurou ‘que João Amazonas agia no
preparo de matrizes e boletins subversivos da propaganda moscovita,
matrizes que eram entregues a Pedro de Araújo Pomar, detido há dias
passados. Este se encarregava de mimeografá-los em grande quantidade
para espalhar sorrateiramente pelos bairros da cidade. Pouquinhos mas
teimosos os adeptos do credo sinistro. A polícia todavia os vai fisgando
eficientemente”.
Em junho de 1941 as tropas nazistas iniciaram a ocupação do
território soviético e o governo Vargas demonstrava, cada vez mais,
simpatias pelos regimes nazifascistas. A situação era muito difícil para
as forças progressistas no Brasil. Logo após receberem a notícia da
invasão nazista, os comunistas João Amazonas, Pedro Pomar, Agostinho de
Oliveira, Felipe Santiago entre outros, realizaram uma ousada fuga da
prisão. A fuga se deu na noite chuvosa de 5 de agosto de 1941. Afirmou
Amazonas: “Na prisão, recebemos a notícia da invasão da União Soviética
pela Alemanha hitlerista. Nossa indignação foi enorme. Reunimos, nesse
mesmo dia, e juramos sair da prisão para continuar a luta de vida e
morte contra o nazismo”.
Depois de sua fuga Amazonas e Pomar fizeram uma difícil viagem até o
Rio de Janeiro. Procurados pela polícia do Estado Novo foram obrigados a
fazer uma rota cheia de dificuldades pelo interior do país, passando
por Marabá e Anápolis.
Chegando ao Rio, em setembro de 1941, passaram a integrar o esforço
de reorganização do Partido, cuja direção havia sido dizimada pela
ditadura estadonovista. Entraram em contato com a Comissão Nacional de
Organização Provisória (CNOP), dirigida por Maurício Grabois e Amarílio
Vasconcelos. Em seguida contataram com Diógenes Arruda, que tentava
organizar o Partido em São Paulo.
Nos fins de 1941 Amazonas foi a Minas Gerais onde ficou até 1943.
Depois seguiu para o sul do país. Esteve no Rio Grande do Sul, Paraná e
Santa Catarina. Sua grande missão era reorganizar o Partido Comunista
nesses Estados, criando as condições para a realização da conferência
que iria reorganizar o Partido Comunista do Brasil.
A 2ª Conferência Nacional do PCB, que ficou conhecida como
“Conferência da Mantiqueira”, realizou-se em agosto de 1943 na mais
completa clandestinidade. Segundo Dinarco Reis, a reunião “foi realizada
numa pequena cafua de telha-vã e chão de terra, com sala, quarto e
cozinha, local bastante exíguo para tantas pessoas (…) Dormíamos no chão
de terra forrado por sacos e jornais. A noite o frio castigava
duramente, pois era inverno nessa região bastante alta”. Mas o esforço
daqueles bravos comunistas valeria a pena.
Nesta Conferência João Amazonas foi eleito membro do Comitê Central e
passou a compor a comissão executiva e o secretariado, ficando
responsável pelo trabalho sindical e de massas. Nesta condição foi um
dos organizadores do Movimento Unificador dos Trabalhadores (MUT), em
1945. Em dezembro do mesmo ano se elegeu deputado federal constituinte
com 18.379 votos, uma das maiores votações do Distrito Federal.
Na assembleia nacional constituinte destacou-se na defesa dos
direitos sociais dos trabalhadores e da liberdade sindical. Por sua ação
decidida em defesa da democracia, da soberania nacional e dos direitos
sociais dos trabalhadores, os deputados eleitos pela legenda do PCB
foram cassados em janeiro de 1948. Após a cassação dos mandatos
comunistas João Amazonas e os demais membros da comissão executiva do
Partido caem na clandestinidade.
João Amazonas, ao lado de Arruda e Grabois, assumiram as principais
responsabilidades da direção cotidiana do Partido nos difíceis anos do
governo Dutra, no qual dezenas de comunistas foram assassinados. Prestes
vivia isolado e não cuidava efetivamente do trabalho de direção e de
organização partidária.
No 4º Congresso do PCB, realizado em novembro de 1954, coube a João
Amazonas apresentar o informe sobre as alterações dos estatutos do
Partido. Um ano antes, em 1953, Amazonas esteve na União Soviética à
frente de um grupo de cerca de quarenta comunistas que fariam um curso
de marxismo-leninismo na Escola Superior do Comitê Central do PCUS.
A luta contra o revisionismo
A partir da segunda metade de 1950 ele participou ativamente da luta
contra o surto revisionista-reformista que atingiu o Partido após o 20º
Congresso do PCUS, em 1956. Em 1957, por suas posições contrárias às
teses reformistas que vinham ganhando corpo no interior da direção do
Partido, João Amazonas, Maurício Grabois, Diógenes Arruda, Sérgio Holmos
e Pedro Pomar foram destituídos da comissão executiva e do secretariado
do Comitê Central.
Esses afastamentos foram necessários para que se conseguisse uma
tranqüila maioria, o que permitiu aprovar as teses reformistas e mudar o
rumo político do Partido. No início de 1958, numa reunião do Comitê
Central, João Amazonas e Maurício Grabois foram os únicos a votar contra
o documento que ficaria conhecido como Declaração de Março e que fora
elaborado por uma comissão “ultrassecreta”, criada pelo próprio
secretário-geral.
Este documento consolidou a guinada à direita do PCB. Entre outras
coisas apregoava a possibilidade da transição pacífica do capitalismo ao
socialismo no Brasil. Começava, assim, a se definir nitidamente duas
tendências no interior do Partido: uma reformista e outra
revolucionária. Estas duas tendências opostas iriam se enfrentar
duramente nos debates preparatórios do 5º Congresso do PCB.
Graças ao domínio que tinha sobre a máquina partidária, a influência
de Prestes, e o apoio recebido do PCUS, a corrente reformista ganhou o
Congresso e conseguiu aprovar as suas teses. O Congresso também decidiu
pelo afastamento de João Amazonas, Maurício Grabois, Diógenes Arruda e
Orlando Pioto do Comitê Central do Partido. Os reformistas, então,
tomaram a iniciativa.
Em 11 de agosto de 1961 o jornal “Novos Rumos”, órgão oficial do PCB,
publicou um novo programa e estatuto que, segundo a comissão executiva,
deveriam ser registrados no Tribunal Superior Eleitoral visando à
legalização do partido. Entre as propostas de alteração incluía-se a
mudança do nome da organização, que passaria a se chamar Partido
Comunista Brasileiro. O novo programa apresentado era ainda mais
atrasado do que a Declaração de Março e as Resoluções do 5º Congresso.
Dos estatutos retirava-se qualquer referência ao internacionalismo
proletário e ao marxismo-leninismo. Esta foi a gota d’água…
A resposta da corrente revolucionária foi imediata. Foi enviada uma
carta ao Comitê Central, assinada por cem comunistas, criticando os
desvios de direita e exigindo que se retirassem os documentos ou se
convocasse um novo congresso para discutir a mudança do nome e as
modificações no programa e nos estatutos do Partido. Segundo a Carta,
“as mudanças feitas no nome, no Programa e nos Estatutos (…) objetivam o
registro de um novo partido e, por isso, se suprime tudo o que possa
ser identificado com o Partido Comunista do Brasil, de tão gloriosas
tradições (…) os militantes (…) não aceitarão que se liquide o velho
Partido, e a ele permanecerão fiéis, mantendo bem alta a bandeira de
suas melhores tradições”.
No final de 1961 a direção do PCB expulsou Amazonas, Pomar, Grabois,
Ângelo Arroyo, Carlos Danielli, Calil Chade, José Maria Cavalcante,
entre outros. Diante da impossibilidade, por vias da democracia
partidária, de mudar os rumos que tomava a direção do PCB, os membros da
corrente revolucionária resolveram dar o passo decisivo no sentido de
romper com os reformistas e reorganizar o Partido Comunista do Brasil.
João Amazonas, como em 1943, estava novamente à frente desse esforço.
Em fevereiro de 1962 realizou-se a 5ª Conferência (extraordinária) do
Partido Comunista do Brasil. Nela aprovou-se um manifesto-programa no
qual se reafirmaram as teses revolucionárias e os princípios
marxista-leninistas. O PC do Brasil seria o primeiro partido fora do
poder a romper com a linha política reformista imposta pela direção do
PCUS. A Conferência resolveu também reeditar o jornal “A Classe
Operária”.
A cisão dos comunistas brasileiros teve implicações internacionais.
Em 14 de julho o próprio Comitê Central do PCUS publicou uma
carta-aberta contra a direção do PC Chinês, e nela citava nominalmente
os dirigentes comunistas brasileiros João Amazonas e Maurício Grabois,
apontando-os como membros de um grupo antipartido. O PCUS
responsabilizava o PC da China pela divisão do movimento comunista
brasileiro. Em 27 de julho a direção do PC do Brasil respondeu com um
contundente documento intitulado Resposta a Kruschev.
O rompimento com a direção do PCUS, principal partido comunista do
mundo, e com a maioria reformista da direção do PCB, apoiada por Luís
Carlos Prestes, mostrava bem a ousadia desses revolucionários fieis a
seus princípios. Foram muitos os que afirmaram que esta pequena
organização não teria futuro e que teria sido uma obra de loucos. A
conjuntura, amplamente favorável à proliferação de ilusões reformistas,
parecia confirmar tais opiniões.
Mas a história, implacável, construiria um outro caminho para além do
senso comum e das aparências. O golpe militar de 1964 representou uma
derrota das teses reformistas do PC brasileiro, que entrou em processo
de desagregação interna, e confirmou muitas das teses defendidas por
João Amazonas e seus camaradas do PC do Brasil.
Amazonas então se projetou como um dos principais dirigentes de uma
nova corrente do movimento comunista internacional, corrente que se
opunha ao chamado revisionismo soviético. Depois de 1962 defenderia o
estreitamento dos laços políticos entre os comunistas brasileiros e o
Partido Comunista da China, dirigido por Mao Tsetung e com o Partido do
Trabalho da Albânia, dirigido por Enver Hodja.
Esteve em Cuba, com Maurício Grabois, quando da reorganização do
Partido em 1962. Esteve na China por três vezes: no início de 1963, na
companhia de Lincoln Oest, quando foi recebido pessoalmente por Mao
Tsetung e juntos discutiram a situação brasileira e mundial; em 1967, no
auge da Revolução Cultural, a qual apoiou criticamente e no final de
1976. Nesta última viagem Amazonas apresentou os pontos de vista do
PCdoB sobre a situação internacional, especialmente sobre a teoria dos
três mundos e o papel do imperialismo norte-americano, opiniões que
divergiam frontalmente das posições oficiais do PC Chinês. A visita
acabou consolidando o rompimento entre estes dois partidos. Rompimento
que duraria até o início da década de 90.
Ele também esteve na Albânia por diversas vezes e lá estabeleceu
laços fraternais com os dirigentes comunistas albaneses, especialmente
Enver Hodja. Ficou ao lado deste na polêmica com os soviéticos, no
início da década de 60, e depois na polêmica com os chineses já na
segunda metade da década de 70.
Combatendo a Ditadura Militar
Entre 1968 e 1972, Amazonas participou ativamente da organização da
guerrilha do Araguaia, o principal movimento de contestação armada ao
regime militar. No final de fevereiro de 1972 ele se vê obrigado a sair
da região para participar da reunião do Comitê Central na qual se
debateria o documento “Cinquenta anos de luta” e se comemoraria este
importante acontecimento (os 50º aniversário do PCdoB). Grabois e Arroyo
permaneceram na região, seguindo os critérios de revezamento dos
membros do secretariado do Partido. Amazonas estava voltando para a
região quando a ofensiva do exército já havia começado e foi alertado
por Elza Monnerat que voltara alguns dias antes e também não pudera
entrar na região. Os caminhos de sua reintegração à guerrilha estavam
fechados.
A eclosão da guerrilha levou a um aumento, sem precedente, das
perseguições aos dirigentes do PCdoB. Entre o final de 1972 e início de
1973 foram presos, barbaramente torturados e assassinados três membros
efetivos do Comitê Central Carlos Danielli, Lincoln Oest e Luís
Guilhardini e o candidato a membro do Comitê Central Lincoln Roque.
Estava apenas começando a operação visando eliminar a direção do
partido que promovia a Guerrilha do Araguaia. Na manhã do dia 16 de
dezembro de 1976 desenrolou-se o último ato da tragédia arquitetada
pelos militares.
A casa na qual havia se realizado uma reunião do CC é cercada e
metralhada pela repressão. Neste dia foram friamente assassinados Ângelo
Arroyo e Pedro Pomar. Eles estavam desarmados e não foi lhes dada
nenhuma chance de defesa. Nesta operação morreria sob torturas João
Batista Drummond. Cerca de uma dezena de dirigentes comunistas também
foram presos e torturados.
Quando da chacina da Lapa, João Amazonas estava representando o
Partido no exterior e foi na China que recebeu a notícia do trágico
acontecimento. Esta viagem o salvou novamente da morte. Pois esta
operação, comandada pelo II Exército, tinha como um dos objetivos a
eliminação do secretário-geral do PCdoB. Em entrevista à revista “IstoÉ”
o general Dilermando Monteiro, então comandante do II Exército,
afirmou: “Nós descobrimos que naquele dia iria haver uma reunião em tal
lugar, com a presença de tais e tais elementos, e aí fomos um pouco
embromados, porque constava para nós que o João Amazonas estaria
presente e o mesmo estava na Albânia, mas para nós ele estaria presente
naquela reunião”.
Amazonas foi sempre um opositor radical da ditadura militar e por
isso mesmo foi odiado por ela. Nas selvas do Araguaia, procurando
organizar a guerra popular, nos palanques da campanha das diretas já! ou
nas articulações que levaram à escolha de um candidato único das
oposições, para derrotar o candidato da ditadura no colégio eleitoral,
lá estava o velho Amazonas. Sabendo articular amplitude e radicalidade,
sem nunca perder o rumo.
Afirmava ele: “O curso político independe da vontade de uns poucos.
Forja-se objetivamente (…) Quem propugna por objetivos maiores tem de
inserir-se no curso real, e nele atuar com amplitude, levando sempre em
conta a correlação de forças existentes, afim de fixar metas viáveis que
aproximem a vitória definitiva da causa do povo”.
Unindo o povo contra o neoliberalismo
Amazonas foi um ardoroso defensor da unidade das forças progressistas
e um dos artífices da Frente Brasil Popular em 1989. Compreendeu que a
derrota de Lula e a vitória de Collor tinham aberto uma nova página na
luta do povo brasileiro. A luta contra o neoliberalismo passou a
adquirir centralidade na tática e na estratégia das forças democrática,
populares e revolucionárias. O PCdoB, com Amazonas à frente, defendeu a
palavra-de-ordem Fora Collor! Que empolgou a juventude brasileira e
levou ao impedimento do presidente da República.
Mas a derrota de Collor não representou a derrota definitiva do
neoliberalismo em nosso país. Com a vitória de FHC, o projeto recobra o
seu fôlego. Amazonas defendeu então a formação de uma ampla frente
oposicionista, que tivesse como núcleo as forças de esquerda. Uma frente
que se constituísse através de um programa nacional e democrático que
apontasse para superação do neoliberalismo e se sustasse num amplo
movimento de massas. Esta posição estará presente na resolução política
do 9º Congresso e será retomada e desenvolvida nas resoluções do 10°
Congresso do PCdoB.
No entanto, as suas contribuições políticas e teóricas não se reduzem
apenas ao Brasil. Desde o final da década de 80 João Amazonas foi um
dos poucos que se colocou contra a política adotada por Gorbachev,
denunciando-a como uma via de retorno da URSS ao capitalismo de mercado.
O que propunham os líderes soviético não era renovar o socialismo,
depurando-o de seus erros e deformações, e sim de destruí-lo. Após a
débâcle final Amazonas conclamou que a esquerda revolucionária
realizasse um profundo balanço crítico dessas experiências. Refletisse
sobre as derrotas, mas sem capitular. Não fizesse concessões de
princípios à maré social-democratizante que estava levando ao
aniquilamento vários partidos tidos como comunistas.
Era preciso reconhecer a crise e lutar para superá-la, reafirmando e
atualizando o marxismo e o leninismo, sem dogmas. Amazonas, de maneira
ousada, propôs a unidade das diversas organizações que ainda reafirmavam
a sua identidade comunista. Diante da ofensiva mundial do imperialismo
era preciso vencer o sectarismo e construir a unidade sobre novas bases.
Esta seria mais uma de suas importantes contribuições para
reorganização do movimento comunista internacional.
Um homem imprescindível
Portanto, João Amazonas conduziu o Partido Comunista do Brasil em
meio ao mar turbulento das lutas ideológicas, contra adversários bem
mais fortes, que pareciam invencíveis. O seu pequeno PCdoB venceu estas
lutas e se consolidou. O Partido, dirigido por Amazonas, passou por
outras provas de fogo. Enfrentou a ditadura militar, que ceifou a vida
de mais de uma centena de militantes; enfrentou a crise das experiências
socialistas, que desbaratou várias organizações ditas comunistas; e,
por fim, enfrentou com coragem e firmeza os dez anos de ofensiva
neoliberal no Brasil. O PCdoB não só sobreviveu, o que já seria uma
grande coisa, mas se desenvolveu e se constituiu numa força respeitada
no cenário político nacional e mesmo dentro do movimento comunista
internacional, que começava a se rearticular depois do vendaval
neoliberal.
Aos 90 anos de idade e 66 anos de dedicação integral à militância no
Partido (sendo 59 em funções de direção), Amazonas pediu para que seus
camaradas não mais o indicassem para a função de presidente do PCdoB.
Afirmou ele: “no Partido não existem cargos vitalícios. Escapei de
perseguições, sobrevivi (…) Creio que cumpri meu papel (…) Dentro de
algumas semanas, vou completar nove décadas de vida. Uma vida difícil,
que levou a um grande desgaste físico. Proponho a minha substituição e
apoio a eleição de Renato Rabelo como novo presidente do Partido” e
conclui: “não penso em aposentadoria. Espero morrer na minha posição de
luta, no meu posto de trabalho (…) Até o último de meus dias, serei
militante do Partido Comunista do Brasil”.
A nova direção nacional do PCdoB aceitou parcialmente o seu pedido
retirando-lhe a função de presidente e elegendo em seu lugar Renato
Rabelo. No entanto, com a aprovação unânime dos delegados presentes ao
10º Congresso, indicou-o para a presidência de honra do Partido. Título
mais do que merecido para um homem que dedicou sua vida inteira à luta
pelos ideais socialistas e à defesa de seu partido. Um homem que não
temeu a prisão, a tortura, o exílio e a própria morte.
João Amazonas foi muito mais do que o presidente de honra de um
partido político revolucionário, ele foi uma legenda, um símbolo vivo do
espírito de luta do povo brasileiro. Um exemplo de comunista e de
brasileiro. Por tudo isso, como afirmou Brecht, compõe as fileiras dos
homens imprescindíveis.
__
Nota:
1) Adaptação de um artigo escrito por ocasião da comemoração dos 90 anos de João Amazonas em janeiro de 2002.
*Foi membro do Comitê Central do PCdoB, dirigente da Fundação
Maurício Grabois e foi também um dos fundadores da Escola Nacional João
Amazonas. Faleceu no dia 11 de março de 2020, aos 59 anos de idade,
vítima das complicações de um câncer no intestino.