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segunda-feira, 30 de março de 2026

SESSÃO SOLENE dos 104 anos do PCdoB - ALECE, 4a. feira, 17h

SESSÃO SOLENE
Convite especial
Aniversário de 104 anos do PCdoB e homenagem a Benedito de Paula Bizerril.

O presidente estadual do PCdoB, Luís Carlos Paes, e o deputado estadual Alysson Aguiar (PCdoB-CE) convidam para a Sessão Solene na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece), em comemoração aos 104 anos do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

Na ocasião, será homenageado o histórico dirigente comunista e grande lutador do povo brasileiro, Benedito de Paula Bizerril, referência de compromisso, coragem e dedicação às lutas populares.

Data: 1° de abril de 2026
Horário: 17h
📍 Local: Plenário 13 de Maio – Assembleia Legislativa do Estado do Ceará
📌 Endereço: Av. Desembargador Moreira, 2807 – Dionísio Torres, Fortaleza/CE

quinta-feira, 20 de março de 2025

A Internacional - Hino mundial do proletariado - Cifras e letra - Cifraclub e George Kunz


A Internacional - Cifraclub

 Tom: A

[Intro] F#  Bm  E  E7  A

[Primeira Parte]

                     D
De pé, ó vítimas da fome
    E                A
De pé, famélicos da terra
                        Bm
Da ideia a chama já consome
           E            A
A crosta bruta que a soterra
    E
Cortai o mal bem pelo fundo
    B               E   B
De pé, não mais senhores
    E                 A
Se nada somos em tal mundo
         E        B   E
Sejamos tudo, ó produtores

[Refrão]

      A      Bm
Bem unido façamos
       E      A
Nesta luta final
     F#       Bm
Uma terra sem amos
  E          A
A Internacional

[Segunda Parte]

                              Bm
Senhores, patrões, chefes supremos
   E                  A
Nada esperamos de nenhum
                        Bm
Sejamos nós que conquistemos
         E             A
A terra-mãe livre e comum
      E   B             E
Para não ter protestos vãos
      B                   E   B
Para sair desse antro estreito
   E                    A
Façamos nós por nossas mãos
              E       B      E
Tudo o que a nós nos diz respeito

[Refrão]

      A      Bm
Bem unido façamos
       E      A
Nesta luta final
     F#       Bm
Uma terra sem amos
  E          A
A Internacional

( F#  Bm  E  A )

[Terceira Parte]

                       Bm
Crime de rico a lei o cobre
     E                 A
O Estado esmaga o oprimido
                        Bm
Não há direitos para o pobre
         E           A
Ao rico tudo é permitido
  E     B              E
À opressão não mais sujeitos
         B             E   B
Somos iguais todos os seres
     E                  A
Não mais deveres sem direitos
            B            E
Não mais direitos sem deveres

[Refrão]

      A      Bm
Bem unido façamos
       E      A
Nesta luta final
     F#       Bm
Uma terra sem amos
  E          A
A Internacional

[Quarta Parte]

                    Bm
Abomináveis na grandeza
    E                    A
Os reis da mina e da fornalha
                 Bm
Edificaram a riqueza
          E              A
Sobre o suor de quem trabalha
     E       B          E
Todo o produto de quem sua
         B           E  B
A corja rica o recolheu
    E                    A
Querendo que ela o restitua
         E     B        E
O povo quer só o que é seu

[Refrão]

      A      Bm
Bem unido façamos
       E      A
Nesta luta final
     F#       Bm
Uma terra sem amos
  E          A
A Internacional

( F#  Bm  E  A )

[Quinta Parte]

                     Bm
Fomos de fumo embriagados
    E                         A
Paz entre nós, guerra aos senhores
                     Bm
Façamos greve de soldados
         E             A
Somos irmãos, trabalhadores
      E
Se a raça vil, cheia de galas
            B         E  B
Nos quer à força canibais
   E                     A
Logo verá que as nossas balas
             E      B   E
São para os nossos generais

[Refrão]

      A      Bm
Bem unido façamos
       E      A
Nesta luta final
     F#       Bm
Uma terra sem amos
  E          A
A Internacional

[Sexta Parte]

                     Bm
Pois somos do povo ativos
    E                  A
Trabalhador forte e fecundo
                           Bm
Pertence a Terra aos produtivos
       E               A
Ó parasitas, deixai o mundo
   E   B           E
Ó parasita que te nutres
          B            E  B
Do nosso sangue a gotejar
    E                A
Se nos faltarem os abutres
             E      B    E
Não deixa o Sol de fulgurar

[Refrão Final]

      A      Bm
Bem unido façamos
       E      A
Nesta luta final
     F#       Bm
Uma terra sem amos
  E          A
A Internacional
     F#       Bm
Uma terra sem amos
  E          A
A Internacional


quarta-feira, 8 de maio de 2024

A esquerda no labirinto: lições da frente democrática e antifascista - Augusto Buonicore


Com imensas saudades do historiador Augusto Buonicore,  republicamos este seu texto bastante pertinente no momento atual, em que aborda a construção da Frente Ampla.

por Augusto Buonicore
Publicado 11/03/2020 13:29 | Editado 11/03/2020 18:03

 “Sob uma aparente e intransigente fidelidade aos interesses dos trabalhadores, a concepção de que a luta antifascista é a oposição da classe operária a toda a burguesia (…) conduziria ao isolamento político do proletariado (…) e no fim das contas ao enfraquecimento da sua luta e ao fortalecimento do fascismo (…). É tempo que todos os democratas compreendam que a política de divisão é a política do inimigo fascista e só a este pode aproveitar.” (Álvaro Cunhal).
Toda alteração drástica na conjuntura, trazendo consigo mudanças na correlação de forças, exige reformulações táticas por parte das esquerdas. Nesses momentos é natural surgirem diferenças de opinião mais ou menos acentuadas. Alguns esperam escapar das crescentes dificuldades, empreendendo uma fuga desesperada para frente. Outros quedam paralisados.

A primeira pergunta que devemos fazer é: Qual a dimensão da derrota sofrida? Foi pequena ou grande? De curto, médio ou longo prazo? Tática ou estratégica?

Na opinião dos comunistas brasileiros ligados ao PCdoB, a derrota sofrida foi muito grave e tem um sentido estratégico. Podemos elencar alguns dos principais – e mais recentes –capítulos desse drama: o impedimento da presidenta Dilma, a reforma trabalhista, a prisão de Lula, a eleição de Bolsonaro e de uma grande bancada parlamentar reacionária de extrema-direita. Podemos dizer, sem medo de errar, que foram os maiores reveses sofridos pelos setores democrático-populares desde o fatídico golpe militar de 1964. É possível prever: O Brasil não será mais o mesmo no próximo período. Nuvens sombrias toldam o céu do país.

A eleição de Bolsonaro aponta para além de uma simples mudança de governo, como foram as vitórias eleitorais dos neoliberais Collor e FHC. Sinaliza para a tentativa de alteração no próprio regime político instaurado com a Nova República, em 1985, e consolidado com a Constituição dita cidadã de 1988. Se isso se efetivará ou não dependerá da luta democrática. O fato é que entramos numa outra etapa da vida política brasileira, caracterizada pelo autoritarismo extremado, pelo ultraliberalismo e pelo conservadorismo no campo dos costumes.

A junção desses três elementos reacionários anuncia o governo Bolsonaro como o pior da nossa história. Por isso, tornou-se o nosso inimigo principal. Aquele que, em primeiro lugar, deve ser isolado e derrotado pela união de todas as forças democráticas, nacionalistas e populares. A insuficiente clareza quanto a isso pode nos conduzir a erros políticos graves.

Qual o caráter da frente política necessária para derrotar o bolsonarismo?

Surgem então duas propostas que partem de visões distintas – e respeitáveis – sobre a atual conjuntura nacional e internacional: frente ampla democrática ou frente popular apenas com os setores da esquerda? Neste momento, marcado pela defensiva tática e estratégica do campo popular, sob um governo de extrema-direita com fortes conotações fascistas, os comunistas defendem a necessidade de constituição de uma ampla frente de caráter democrático e antifascista, envolvendo todos aqueles que se disponham a defender as liberdades ameaçadas. Esta frente deve incorporar todas as organizações de esquerda, centro-esquerda e também setores e personalidades do centro político. Mesmo aqueles que no passado recente apoiaram o golpe parlamentar desferido contra a presidenta Dilma. Ou se calaram diante dele. Isso, em parte, já aconteceu durante as últimas eleições. Basta ver as amplas coligações partidárias constituídas no Nordeste brasileiro, envolvendo PT, PCdoB, PDT, PSB e até setores do PMDB. Ali barramos o bolsonarismo.

Assim, o centro da tática na atualidade deve ser: isolar ao máximo as forças apoiadoras do governo, neutralizar e buscar conquistar as forças centristas tendentes à conciliação. Essas últimas não devem, sob nenhuma condição, ser confundidas com as que apóiam Bolsonaro. O objetivo será impor derrotas cada vez maiores ao governo reacionário, enfraquecendo-o e criando as melhores condições para sua substituição. A tarefa não será fácil e exigirá muita sagacidade política.

A vitória recente no parlamento sobre o projeto Escola sem Partido mostra o caminho a ser seguido. Várias personalidadese organizações que não são de esquerda – inclusive ligadas a partidos liberais – aderiram a um movimento de caráter nitidamente democrático. Isso pode se repetir em outras votações no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais. Devemos nos aproveitar de todas as contradições surgidas, inclusive nas bases governistas.

Nesta quadra histórica extremamente desfavorável, constituem-se em algo extremamente nocivo as agressões entre os possíveis membros da frente democrática, geralmente movidas por interesses menores. Para alguns, quanto mais estreita for a frente – e sem possíveis rivais internos – mais facilitada estará a sua hegemonia. Essas atitudes sectáriase divisionistas são prejudiciais ao país e aos trabalhadores.

Vejamos alguns erros que podem dificultar – ou mesmo impossibilitar –a construção de uma verdadeira frente ampla e democrática no Brasil atual. O primeiro deles é a tentativa de construí-la sem o Partido dos Trabalhadores (PT), pois “o hegemonismo deste (e seu tamanho) dificultaria qualquer acordo interpartidário em bases igualitárias”. Uma atitude ingênua e errada. O PT é o maior partido da oposição com forte base parlamentar e de massas. Não haverá frente de oposição sem o PT e muito menos contra o PT.

De outro lado, devem ser criticados os ataques efetuados por setores de esquerda contra o PSB e o PDT, especialmente a Ciro Gomes. Alguns chegam mesmo a defini-lo como um político de direita. Algo completamente destituído de sentido histórico-factual, especialmente nesta conjuntura. Nem mesmo as posições claramente equivocadas (e desastradas) adotadas por ele no segundo turno – e agora diante da participação na posse de Bolsonaro – justificam tais atitudes. Um erro, por mais grave que seja, não justifica o outro. A tarefa dos comunistas é tentar aparar as arestas existentes no campo da oposição e não acentuá-las.

Também é um equívoco achar que a frente deva nascer sob a hegemonia decretada desse ou daquele partido, dessa ou daquela personalidade política. Todos esses desvios representam sérios obstáculos à construção da frente ampla democrática e antifascista necessária para derrotar os planos da extrema-direita.

Na verdade, frentes amplas dessa natureza dispensam um líder único ao qual todos os demais devam seguir. Em defesa da frente democrática, devemos combater a personificação da sua direção, cuidando para que ela não se transforme prematuramente num palanque visando às eleições de 2022. A frente democrática não pode ser um espaço no qual uma organização ou personalidade impõe sua vontade às demais. Deve ser um espaço de exercício de consensos progressivos.

E o campo popular na frente democrática?

O campo popular deve se constituir como um dos núcleos da frente democrática, buscando conduzi-la a posições oposicionistas mais consequentes. Assim, a Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo devem fazer parte da frente, mas sem confundir-se com ela. São frentes (populares) dentro de uma frente maior (democrática). Usando uma velha fórmula do PCdoB, forjada durante a ditadura militar: queremos uma frente democrática ampla, mas que tenha por base a unidade popular expressa em articulações como a Frente Brasil Popular, a Frente Povo Sem Medo e outras que venham a surgir.

Não podemos, de maneira alguma, abrir mão das reivindicações mais sentidas das massas populares, especialmente as que dizem respeito a: emprego, salários, condições de trabalho e de vida. Visando a contribuir para isso, devemos propugnar o congraçamento das centrais sindicais em grandes fóruns visando a desenvolver as lutas comuns pelos direitos dos trabalhadores. Seria importante que todos esses setores populares tivessem uma atuação unitária. Isso possibilitaria dar uma linha mais avançada à frente ampla.

Naturalmente, haverá contradições no seio da frente ampla em torno de vários temas. Toda articulação heterogênea comporta um processo permanente de unidade e luta, mas o determinante na relação das organizações que a compõem deve ser a unidade e não a luta interna. Quando a tônica passa a ser a luta interna, a frente rapidamente se desfaz. Quem ganha é o nosso inimigo: a direita bolsonarista.



A unidade de uma frente, como a proposta aqui, tem como mote a defesa da democracia ameaçada, encarando-a como condição necessária para avançarmos nas outras pautas. Queremos manter as liberdades políticas para podermos prosseguir na luta pelos direitos do nosso povo e a soberania da nossa nação. Sem liberdade as lutas se tornam mais difíceis.

Os comunistas têm uma longa experiência de frentes dessa natureza: como as frentes antifascistas nos anos 1930 e as frentes democráticas contra as ditaduras militares na América Latina durante as décadas de 1960 e 1970. Esta política frentista (policlassista), embora majoritária, nunca foi consensual na esquerda. Os trotskistas, em geral, eram contrários às frentes amplas nas quais participassem setores não-socialistas ou burgueses. Este dilema enfrentamos no período da ditadura militar brasileira e enfrentaremos novamente na luta contra o governo Bolsonaro.



Álvaro Cunhal e a luta antifascista

Passemos em revista algumas lições deixadas por importantes líderes comunistas sobre o problema de frente democrática e antifascista. Segundo Álvaro Cunhal: “A luta de uma frente antifascista (…) não elimina as contradições e conflitos entre as classes que participam de tal frente (…). A aliança com a pequena burguesia e setores da média burguesia contra o fascismo em nada diminui, mas, pelo contrário, exige o reforço da ação independente da classe operária”. Problema haveria se toda posição diferenciada no seio da frente se transformasse em guerra aberta entre seus membros. Continua o histórico dirigente comunista português: “Para alguns a unidade não é um instrumento de luta contra o inimigo fascista, mas um instrumento de luta interna no próprio seio da oposição (…). Para esses a política de unidade não visa ao derrubamento do fascismo, mas à submissão ou mesmo à eliminação de outros setores dessa mesma Oposição”. Este mesmo desvio podemos constatar no caso brasileiro.

“O Partido Comunista (Português) aliou sempre ao seu esforço para unir todos os setores antifascistas o combate ideológico conduzido numa base de princípios. Sempre nos guiamos pela ideia de que as manifestações francas de diferenças de pontos de vistas (…) não contrariam nem prejudicam a unidade (…). Uma unidade política entre forças diferenciadas implica que essas forças discutam os seus pontos de vistas e, encontrando um caminho comum, mantenham independência crítica”. Por isso, “a unidade antifascista não é nem pode ser fusão, submissão. Pela variedade dos setores antifascistas, o próprio estabelecimento da unidade exige diálogo, discussão, debate e, por vezes, polêmica. Há coincidência de interesses fundamentais imediatos. Há diferenças de objetivos, de apreciação de fatos, de métodos de ação, de tática, que levam ao choque de opiniões em qualquer movimento ou organização de unidade. Discussão, crítica, confronto de ideias, luta ideológica é uma coisa. A ação divisionista é outra”. A luta de ideias tem por objetivo esclarecer e fortalecer a frente única contra o inimigo principal e não cindi-la.

O texto também trata do problema do hegemonismo no interior da frente ampla antifascista: “Inseparáveis dos ataques à política de unidade são as pretensões hegemônicas das várias forças ou setores antifascistas. Para eles a hegemonia no movimento antifascista consiste na pretensão de exercer o comando ou a direção de todo o movimento (…) como se de tal fato fosse reconhecido pelas restantes forças e setores do campo antifascista”. Hegemonia, para o veterano comunista, não poderia ser entendida “como submissão dos outros”. Repito o que dissemos acima: “a frente ampla não pode ser um espaço que a força mais forte impõe sua vontade às demais. Deve ser um espaço de exercício de consensos progressivos”.

Em seguida, retomando a boa tradição do marxismo-leninismo, elucida o problema da justa relação entre “unidade pela base” e “unidade por cima”: “Os grupos esquerdistas (…) consideram que a unidade antifascista deve ter como única expressão a ‘unidade pela base’ (…). O PCP atua simultaneamente nas duas direções: atua para alcançar a ‘unidade pelo topo’ e atua para alcançar a ‘unidade pela base’. São direções de atividades complementares e de certa forma interdependentes. Os progressos alcançados em qualquer destas duas direções estimula o progresso na outra”. E conclui: “Damos grande valor aos acordos e à unidade com os grupos e setores democráticos apesar de suas debilidades orgânicas e de suas hesitações políticas”. A mesma coisa que pensava Lênin e os principais revolucionários do século XX.

Dimitrov, Mao e o problema das frentes amplas



O 7º Congresso da Internacional Comunista (1935) – que rompeu com o esquerdismo e o sectarismo imperante nas fileiras comunistas e lançou-as na construção das frentes populares antifascistas – teve sua principal e melhor expressão nos discursos feitos por seu presidente Jorge Dimitrov. Num deles afirmou, “Defendemos e seguiremos defendendo, nos países capitalistas, palmo a palmo, as liberdades democrático-burguesas contra as quais atentam o fascismo e a reação burguesa, pois assim o exigem os interesses de luta do proletariado”.

Quem, segundo Dimitrov, deveria compor essa ampla frente antifascistas? Ela deveria ser composta apenas por organizações socialistas e operárias? A resposta do dirigente da Internacional Comunista foi negativa: “Nos países capitalistas, a maioria dos partidos e organizações – políticas e econômicas – encontra-se ainda sob influência da burguesia”. Por isso, “devemos encaminhar nossos esforços para conquistar estes partidos ou organizações para a frente popular antifascista, apesar da sua direção burguesa.” E conclui: “Isto não é simplesmente um movimento de frente única operária, é o começo duma ampla frente de todo o povo contra o fascismo”. Em países ocupados pelos exércitos nazi-fascistas, a frente política deveria ser ainda mais ampla, como veremos adiante.

A vitória – ou ameaça de vitória – do fascismo muda a correlação de forças e exige a elaboração de uma nova tática, correspondendo à situação adversa. Muitos comunistas não compreendem isso e consideram todo e qualquer recuo como algo inadmissível do ponto de vista dos princípios marxista-leninistas, uma traição ao programa socialista. “Há sabichões que vêm em tudo isso retrocesso das nossas posições de princípios, uma virada à direita da linha do bolchevismo. Está bem! ‘A galinha faminta, dizemos na Bulgária, sempre sonha com milho’. Que pensem assim estas galinhas políticas! (…). Mas, não seríamos marxistas revolucionários, leninistas (…) se não mudássemos de um modo consequente a nossa política e nossa tática de acordo com as mudanças efetuadas na situação e no movimento operário mundial”, respondeu Dimitrov. O mesmo problema enfrentou Lênin durante as discussões ocorridas no interior dos bolcheviques em torno da Paz de Brest-Litovsky entabulada com o alto-comando alemão. Acordo ardorosamente defendido por ele contra a maior parte do seu próprio partido.

Mao Tsé-Tung, comandante da revolução chinesa e um dos principais estrategistas do século passado, deu importantes contribuições ao debate. Ele também teve que mudar a estratégia e a tática dos comunistas quando da invasão japonesa ao território chinês. Este acontecimento dramático fez com que mudasse o inimigo principal do povo e, consequentemente, a sua política de alianças.



Como o líder chinês explica essas mudanças às vezes bruscas no campo da estratégia? “No processo, complexo, de desenvolvimento de um fenômeno existe toda uma série de contradições; uma delas é necessariamente a contradição principal, cuja existência e desenvolvimento determinam a existência e o desenvolvimento das demais contradições ou agem sobre elas”. “Assim, se um processo comporta várias contradições, existe necessariamente uma delas que é a principal e desempenha papel diretor, determinante, enquanto as outras ocupam apenas posição secundária, subordinada. Por consequência, no estudo de um processo complexo, em que há duas ou mais contradições, devemos fazer o máximo por determinar a contradição principal, todos os problemas se resolvem”.“ Não devemos tratar as contradições de um processo como se fossem todas iguais, sendo necessário distinguir a contradição principal das contradições secundárias, e nos mostrarmos atentos na descoberta da contradição principal”. Mao alertava que “as contradições também mudam de posição”. Foi o que aconteceu após a invasão japonesa.

Tudo isso para chegar à conclusão política central, necessariamente expressa na elaboração da tática e da estratégia revolucionárias: “Como a contradição entre a China e o Japão passou a ser a contradição principal, as contradições internas da China passaram para um plano secundário e subordinado”. Até as contradições com os demais imperialismos (EUA-Inglaterra-França) caíram para um segundo plano e acabaram sendo utilizadas na luta contra o inimigo mais perigoso. Surge, então, a proposta da Frente Única Antijaponesa, agregando dois grandes adversários: o Kuomintang, comandado pelo direitista Chiang Kai-Chek, e o Partido Comunista de China. Assim, ocorreu uma drástica – e necessária – mudança na política de alianças. Antigos inimigos tornam-se aliados, ainda que provisórios.

Por fim, deixemos a palavra ao grande Lênin: “Os acontecimentos políticos são sempre muito confusos. Podemos compará-los a uma corrente. Para conservar toda corrente, temos de agarrar o elo fundamental (…). A arte da política consiste em encontrar e agarrar com força o elo (…) mais importante em um determinado momento (…). É necessário unir o compromisso absoluto com as ideias comunistas à habilidade de realizar todos os compromissos práticos necessários, como manobras, acordos, ziguezagues, recuos etc. Não é possível que os esquerdistas alemães ignorem que toda a história do bolchevismo, antes e depois da revolução, está cheia de casos de manobras, de acordos e compromissos com outros partidos, inclusive os partidos burgueses.Fazer a guerra para derrotar a burguesia internacional (…) e renunciar de antemão a qualquer manobra, a explorar os antagonismos de interesses (mesmo que sejam apenas temporários) que dividem nossos inimigos, renunciar a acordos e compromissos com possíveis aliados (ainda que provisórios, inconsistentes, vacilantes, condicionais), não é, por acaso, qualquer coisa de extremamente ridículo?”

Temos que nos utilizar de todas essas lições – tendo em conta as condições históricas atuais – na luta contra o governo direitista de Bolsonaro e na construção de uma ampla frente democrática que tenha como base a unidade popular. Este será o caminho da vitória.



Bibliografia

AMAZONAS, João. Pela liberdade e pela democracia popular. São Paulo: Anita Garibaldi, 1982.
CUNHAL, Álvaro. Ação revolucionária, capitulação e aventura. Lisboa: Edições Avante!, 1994.
DIMITROV, Jorge. Contra o fascismo e a guerra. Sófia: Sófia Press, 1988.
HARNECKER, Marta. Estratégia e tática. São Paulo: Expressão Popular, 2004.
LÊNIN, V. I. Esquerdismo, doença infantil do comunismo. São Paulo: Global, 1981.
TSÉ-TUNG, Mao. Sobre a prática e sobre a contradição. São Paulo: Expressão Popular, 1999.
______. Mao Tsé-Tung e a política de Partido. Lisboa: Maria da Fonte, 1975.





Artigo publicado originalmente em 21 de janeiro de 2019.

quinta-feira, 15 de junho de 2023

Apenas começamos - Paulo Vinícius da Silva e Flauzino Antunes




E nossa história não estará

pelo avesso, assim, sem final feliz:

teremos coisas bonitas pra contar.

E até lá, vamos viver,

temos muito ainda por fazer.

Não olhe pra trás, apenas começamos.

O mundo começa agora.

Apenas começamos. (Metal contra as Nuvens, Legião Urbana)


É longa e complexa a História dos Comunistas nas suas relações com o povo. Também no Brasil, os 101 anos de nossa existência foram marcados por, ao menos, 65 anos de ilegalidade. Comunistas de envergadura, com compromisso absoluto com o nosso povo, estivessem no PCB, PCdoB, MR8 ou na AP, viram-se bloqueados pela Ditaduras em seu contato com o povo, com a classe trabalhadora, com a juventude e a intelectualidade. Esse contato com o povo é tão importante que Kim Il Sung dizia: “O povo é o nosso Céu”. 


A Política é muito mais ampla que o estado, o governo, os mandatos, e não se reduz à institucionalidade. O fascismo se levanta precisamente quando a burguesia manda às favas seu “compromisso” com a democracia, e por isso bloqueia nosso contato com o povo, por propaganda, por mentira, por ditadura, por lei. Transformar democracia e institucionalidade burguesas em democracia popular exigirá muito mais que uma participação minoritária em um ou vários governos. 

A questão central é a nossa relação com o povo, e a Classe Trabalhadora é universal, diversa, é a coluna vertebral da Nação e do Povo Brasileiro. Daí ser essencial perguntarmos: que Classe Trabalhadora é essa de quem pretendemos ser vanguarda.


Quem é a Classe Trabalhadora?

A geração que compunha o bônus demográfico em 2012 e que engrossou as manifestações de 2013 continua em 2023 como a grande maioria da População Economicamente Ativa - PEA -, e imensa participação no mercado de trabalho nacional, tendo sofrido os impactos da regressão trabalhista. Atualmente, a PEA conta com 107.127.000 pessoas (abril/23), de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADc)(1) do IBGE. A População Ocupada - PO - conta  98.031.000 de pessoas e a População Desocupada - PD - tem cerca de 9.095.000 de pessoas. Ou seja, 8,48% da PEA estão em desocupação plena. 

É preciso ver com maior atenção o universo daqueles que perderam seus direitos e que enfrentam as maiores dificuldades, num quadro em que o setor formal da economia tem a marca do empobrecimento, das perdas salariais e inflacionárias decorrentes da destruição da negociação coletiva e do fim da política de valorização do salário mínimo. No universo da População Ocupada, 35.943.000  pessoas trabalham na informalidade, sem carteira assinada. Somados à População Desocupada, chegam a 45.038.000. Essa fotografia ainda não traduz a situação. Quando somamos a esse conjunto as pessoas desalentadas - 3.769.000 - e as pessoas subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas - 5.053.000 - chegamos  a quase 54 milhões (2) de trabalhadores e trabalhadoras na precariedade, informalidade, no desemprego, e ainda faltam muitos invisibilizados pela mais extrema miséria! É nesse universo, considerados como Ocupados, que estão os informais e os trabalhadores de aplicativos! Assim, 50,27% da População Economicamente Ativa vive um presente sem direitos e pode acabar num futuro de vulnerabilidade e pobreza.


Ainda de acordo com a PNADc, fazendo um recorte geracional, verificamos que as pessoas de 18 a 39 anos, são  65,1% da População Desocupada. Segundo a economista Marilene Oliveira, com dados do primeiro trimestre de 2022 (3), a juventude entre 20 e 29 anos contava com 47,8% entre os trabalhadores informais. Mas a pesquisadora nos informa que o recorte etário de 20 aos 49 anos compõe  68,4% de todos os informais. Assim, a geração de jovens de que saíram às ruas em Junho de 2013 e seus filhos compõem hoje a maioria dos trabalhadores e trabalhadoras sem direitos, previdência, sem amparo algum. Não é à toa estar aí a maior distância dos partidos e sindicatos! É essa maioria da classe trabalhadora, sem direitos e organização que, curiosamente, merece a atenção da indústria cultural, das igrejas do pentecostalismo de negócios, e mesmo das milícias, do narcotráfico e das bigtecs que, assim, promoveram o sequestro da identidade de classe da maioria dos trabalhadores, comprometendo o futuro do Brasil. Esse é o campo aberto para a propaganda fascista.


Mas a tragédia não se resume aos precarizados(as), desempregados(as) e informais. Ao analisar os trabalhadores formais, vemos a fragilidade gritante decorrente da perda de representação sindical, expressa nas taxas de sindicalização em sua baixa contínua ao longo dos últimos anos. Em 2020, três anos após a Deforma Trabalhista, o Brasil de Fato já noticiara que:

“entre os anos de 2012 e 2019, os sindicatos perderam cerca de 3,8 milhões de filiados no Brasil. Desse modo, em 2019, das 94,6 milhões de pessoas ocupadas no país, apenas 11,2%, ou seja, 10,6 milhões de trabalhadores, eram filiados a um sindicato, de modo que esta é a menor taxa de sindicalização desde 2012, quando 16,1% dos trabalhadores brasileiros eram sindicalizados”. (4)


Veja os quadros comparativos por agrupamento de atividade econômica e por região:

Em 2019, tínhamos apenas 11,2% sindicalizados e 88,8% de não sindicalizados, considerando toda a população ocupada. Ora, é amplamente sabido que a filiação sindical se dá no âmbito da formalidade, e não do total da população ocupada, então o dado é melhor. Mas a realidade é que representamos uma pequena parcela, cerca de 11% de toda a população ocupada, no melhor cenário.

A unidade é indispensável, desde as centrais até os sindicatos. Colocar a pirâmide sobre sua base de trabalhadores é inadiável, mas não basta, pois trazer os formais para os sindicatos é apenas um primeiro passo para que possamos atingir toda a classe e em especial a parcela mais jovem e sem qualquer direito.

É a partir desse distanciamento do movimento sindical de quem deveria representar que se baseiam as teses da pulverização dos interesses da classe e da falta de futuro do movimento dos trabalhadores(as). Representando uma minoria da Classe, decrescem as lideranças e os resultados eleitorais da bancada trabalhista. Daí, também decorre o senso comum, de que essa relação com o povo seria “mediada” pelos movimentos sociais, sem lastro de classe, e a partir da incorporação desses movimentos pela representatividade no estado e nos governos, a partir de “políticas” públicas.

Em verdade, se formos olhar de frente a Classe Trabalhadora como um todo, nela encontraremos a raça, o gênero, todas as diversidades, mas o inverso não é verdadeiro. Não há histórico de uma revolução socialista liderada pelos “movimentos sociais”. A História ilustra o inverso, a centralidade do trabalho como mote para a representação e a inclusão da  totalidade do povo na construção da Nação, com a marca indelével do leninismo. É preciso resgatar esses ensinamentos.


"Ligação com as massas como condição fundamental para o trabalho dos sindicatos" (5)

As principais lições de Lênin quanto aos movimentos sociais e à ação dos comunistas são relativamente simples, até, se não as ignorarmos. 


Primeiro, o movimento social, se é o fim em si mesmo, não chega a lugar nenhum. O movimento social que não se vincule à classe revolucionária, trabalhadora, sem a perspectiva generalista da luta do poder, perde-se. Lênin não fez essa crítica ao movimento negro, nem ao movimento LGBTQIA+, à juventude, ou ao movimento das mulheres. Tal crítica foi dirigida com inaudita dureza ao movimento sindical, o movimento da classe trabalhadora, e em especial à sua direção, no célebre e mal citado livro “Que Fazer” (“Sonhos, acredite neles”, aff…) e em outras obras. 


A segunda lição, daí decorrente, é o papel imprescindível da consciência comunista avançada e organizada, sem cuja direção, sem cujo trabalho de base, sem cuja ligação com o povo, com os não comunistas, não há vanguarda de nada, nem de ninguém. A perspectiva do poder só pode vir “de fora”, ele dizia.  Mas esse “de fora”, para dirigir, para ser vanguarda, essa consciência precisa ser feita do mesmo povo que se quer dirigir, viver o que se predica. É preciso ir sempre ao imenso manancial do povo, não ficar fechados em nós mesmos.


Ou seja, guiados pelo espontâneo, pelo corporativo, pelos interesses do momento, guiados por indivíduos não se chega à CONSCIÊNCIA, nem ao PODER. É essa força da maioria do povo que permite chegar, manter e transformar o poder de Estado. Por isso, o rabo não deve balançar o cachorro. O espontaneísmo e o pragmatismo prometem vitórias, mas não as entregam. 


Além disso, há a importância da questão nacional, especialmente nos países da periferia do capitalismo, as colônias de ontem e de hoje, para quem o tema tem um sentido bastante distinto do nacionalismo burguês. Recentemente, sofremos muito com o abastardamento da Bandeira Nacional, já denunciado por castro Alves no poema O Navio Negreiro: 

“Existe um povo que a bandeira empresta

P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...

E deixa-a transformar-se nessa festa

Em manto impuro de bacante fria!..(6)


Arrancar esta bandeira da mão dos traidores é indispensável, mas não é mero ato simbólico, é o resgate material e espiritual de nossa Nação humilhada. Essa responsabilidade é da classe trabalhadora, em primeiro lugar. Há que lembrar de outra contribuição, do mais fiel seguidor de Lênin, ensinamento que pudemos viver na pele nos últimos anos…Em seu último discurso público, no XIX Congresso do PCUS, em 1952, alertava Stalin: 

Antes, a burguesia julgava-se líder das nações, cujos direitos e independência defendia e colocava “acima de tudo”. Hoje não resta um vestígio sequer desse “princípio nacional”: a burguesia vende por dólares os direitos e a independência das nações. A bandeira da independência e da soberania nacionais foi jogada fora. Não há dúvida de que cabe a vocês, representantes dos partidos comunistas e democráticos, recolhê-la e conduzi-la adiante, se vocês querem figurar como os patriotas de seus países e tornar-se a força dirigente das nações. Não há mais ninguém que possa fazê-lo. (7)


O sofrimento nacional, longe de dividir a nossa gente, precisa aproximá-la. A Nação é a Classe Trabalhadora, é o nosso povo.  Apenas uma visão consciente do movimento, a sua firme adesão aos interesses maiores da classe universal produtora da riqueza construída pela humanidade, defendendo o internacionalismo a partir de nossa Nação em perigo, de nosso povo tão judiado, só desta maneira atingiremos a libertação nacional, a ruptura com o jugo do imperialismo e a construção da verdadeira Nação - que é seu povo. Em um mundo em crise, não percamos a ambição de ver com nossos próprios olhos a primeira etapa da transição ao socialismo. Sim, com as características de hoje, com a classe na sua diversidade, mas jamais um voo de galinha face a um abismo.

Por que não somos eleitos? Se nossa relação com a classe trabalhadora legitimar a liderança, o voto, a defesa e a vitória face aos ataques à Nação e aos direitos da classe trabalhadora, só se essa relação ganhar força nas ruas e nas redes poderemos projetar uma representação eleitoral à altura dos desafios de assegurar o êxito do nosso governo, a vitória da Democracia e o resgate do Brasil aviltado. Será preciso vencer nas ruas e nas redes, e para isso, é preciso um giro em direção à Classe Trabalhadora real.

Mesmo já tendo conquistado o poder, em 1922, Lênin advertia ao movimento sindical classista do primeiro país aonde a Classe Trabalhadora chegou ao poder:

“Um dos maiores e mais terríveis perigos para um Partido Comunista, numericamente modesto, e que na qualidade de vanguarda da classe operária dirige um enorme país que efetua (no momento sem gozar ainda do apoio direto dos países mais adiantados) a transição para o socialismo, é o perigo de ficar afastado das massas, o perigo de que a vanguarda avance demasiadamente longe sem “a frente estar alinhada”, sem conservar uma estreita ligação com todo o exército do trabalho, isto é, com a imensa maioria da massa operária e camponesa."(5)

Isso foi dito com os bolcheviques já no poder… Imagina nós, que estamos só na beira… Imagina se o perigo for ficar atrasado e alheio ao sofrimento do povo…


Lutar desde Brasília é muito duro. Somos pequenos e assumimos imensa responsabilidade de representação nacional. Doeu, sermos porta-vozes de ameaças vãs aos poderosos, enquanto avançava o Golpe; ver o vácuo que sustentava nossos inflamados discursos. Não foi sempre assim, e precisamos estar conscientes de que as marchas de junho de 2013 ainda hoje não foram compreendidas profundamente. Já sabemos, contudo, que elas foram a eclosão da Guerra Híbrida, sob a direção do imperialismo estadunidense e a partir da traição de elementos apátridas, desmoralizados e corruptos, num contexto de revolução tecnológica, da internet, das redes sociais e da telefonia. Se olharmos nossa Classe Trabalhadora real, miraremos a geração que participou de tais protestos, e reconheceremos a pá de cal lançada sobre nossas esperanças, a tragédia imposta ao nosso maior bônus demográfico e, talvez, o comprometimento do futuro do Brasil. 


Aqueles eventos marcaram uma ruptura ainda atual entre a direção nominal da juventude, dos estudantes e da classe trabalhadora e seus representados. Desde então, abriu-se um fosso que só tem se ampliado. Perdas coletivas, de direitos, perda de recursos materiais dos sindicatos, perda de representação política e institucional dos trabalhadores(as); perdas individuais, do emprego, da microempresa, do nome limpo, dos entes queridos, da saúde física e mental, da perspectiva, da família, do direito de amar, do futuro. Cada perda dessas é a falência do Projeto Nacional de Desenvolvimento, que é feito da vida das pessoas. 


E para quem aspira a ser vanguarda da libertação do Brasil, o mais doloroso é a perda do apoio daqueles e daquelas por quem lutamos, a desconcertante solidão de ver o proletariado apontar para a própria cabeça a arma do fascismo. É sob essa luz que devemos enxergar a vitória estratégica da eleição de Lula e Alckmin, graças à Frente Ampla. Só lutaremos com todas as nossas forças e inteligências pelo êxito da missão do Governo Lula (Reconstruir e Transformar o Brasil), se disputarmos a opinião pública, a organização popular, a classe trabalhadora. Há que construir uma trincheira que impeça qualquer derrota e preparar novas vitórias, num mundo mais perigoso e em mudança acelerada. Não é hora de tapinhas nas costas, é hora de trabalho duro, de corrigir os erros, de assentar os alicerces da esperança a partir do instrumento consciente que possa unir e liderar a Classe trabalhadora. Do contrário, como assegurar que não haverá um novo retrocesso?


É preciso lembrar quem somos, olhar nossa classe nos olhos e caminhar para um futuro que só a classe trabalhadora poderá conquistar. Dói a picada, mas o que salva como nossa vacina é libertar o Brasil e construir o Socialismo. Como está no Programa do PCdoB: o Fortalecimento  do Brasil é o Caminho, o Socialismo é o Rumo. E não haverá futuro sem o Sindicalismo Classista Organizado desde a Base, como força motriz do resgate da Classe Trabalhadora.

NOTAS

 1) PNAD Contínua - Divulgação: Maio de 2023 Trimestre móvel: fev-mar-abr/2023 Quadro Sintético - fev-mar-abr_2023.xlsx (ibge.gov.br) <https://ftp.ibge.gov.br/Trabalho_e_Rendimento/Pesquisa_Nacional_por_Amostra_de_Domicilios_continua/Mensal/Quadro_Sintetico/2023/pnadc_202304_quadroSintetico.pdf>

2) 53.860.000 de trabalhadores, grosso modo, reúnem População Desocupada, Setor privado sem carteira, Trabalho doméstico sem carteira, Desalentados, Empregadores sem CNPJ, Trabalhadores(as) Por conta própria sem CNPJ e Subocupados por insuficiência de horas trabalhadas 

3) O mundo do trabalho e a informalidade - DIAP - Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar <https://www.diap.org.br/index.php/noticias/artigos/91166-o-mundo-do-trabalho-e-a-informalidade> 

4) Queda na taxa de sindicalização: o que esses dados falam? André Barreto, 4 de Setembro de 2020, Brasil de Fato <https://www.brasildefatope.com.br/2020/09/04/queda-na-taxa-de-sindicalizacao-o-que-esses-dados-falam>

5) Sobre o Papel e as Tarefas dos Sindicatos nas Condições da Nova Política Econômica - Resolução do CC do PC(b) da Rússia - V. I. Lênin  - 4 de Janeiro de 1922 <https://www.marxists.org/portugues/lenin/1922/01/04.htm> 

6) Castro Alves, O Navio Negreiro, Jornal de Poesia <http://www.jornaldepoesia.jor.br/calves01.html> 

7) Discurso na Sessão de Encerramento do XIX Congresso do PCUS -  J. V. Stálin - 14 de Outubro de 1952 <https://www.marxists.org/portugues/stalin/1952/10/14.htm>





segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Maria Prestes, guerreira da luta pelo socialismo - Luciana Santos - PCdoB de Luto


Luciana exalta a militante comunista como uma das militantes que atravessou todas as lutas pelo socialismo desde sua juventude, acompanhando o líder comunista Luiz Carlos Prestes desde os anos 1950, até sua morte em 1990.

Maria Prestes e luta pela memória de Luiz Carlos Prestes

A presidenta nacional do Partido Comunista do Brasil e vice-governadora de Pernambuco, Luciana Santos, divulgou nota de pesar pelo falecimento de Maria Prestes, nesta sexta-feira, 4 de fevereiro, em decorrência de covid.

Luciana exalta a militante comunista como uma das militantes que atravessou todas as lutas pelo socialismo desde sua juventude, acompanhando o líder comunista Luiz Carlos Prestes desde os anos 1950, até sua morte em 1990.

Ela também destaca a amizade e carinho que o PCdoB mantinha por ela, que juntos produziram alguns gestos em honra da memória de Luiz Carlos Prestes e sua luta árdua que atravessou todo o século XX.Leia a íntegra da nota:

Maria Prestes, grande brasileira, guerreira da luta pelo socialismo

Com imenso pesar, o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) registra o falecimento, aos 92 anos, nesta sexta-feira (4) de dona Maria Prestes, personalidade de destaque na luta do povo brasileiro.

Maria Prestes, ao longo de mais setenta anos de militância comunista, deixa um grande legado revolucionário. Expressamos, neste momento de dor, nossa solidariedade aos familiares – entre os quais, Ana Maria Prestes, da direção nacional do PCdoB, neta de dona Maria –, amigos e camaradas. Nossos sentimentos mais afetuosos e profundos.

Desde os 13 anos de idade, no final da primeira metade do século passado, engajada, ao lado do pai, João Rodrigues Sobral, dirigente do PCB, Maria Prestes percorre a história brasileira participando como militante comunista de grandes lutas nacionais.

Enfrentou as garras do Estado do Novo e do governo do general Eurico Gaspar Dutra, e depois a truculência da ditadura militar. Padeceu em prisões, enfrentou dificuldades extremas, inerentes à vida do povo, e, depois, o exílio. Mas, apesar dessas agruras, dona Maria tinha resistência, fibra, convicções, compromissos revolucionários com a classe trabalhadora, de quem era filha, e com o socialismo, cuja bandeira sempre manteve ao alto.Em 1952, quando tinha apenas 20 anos de idade, o Partido designou dona Maria para a segurança de Prestes em São Paulo. Depois de algum tempo, na clandestinidade, dona Maria e Prestes se casaram e tiveram sete filhos.

Após o golpe de 1964, Prestes, então líder máximo do Partido Comunista Brasileiro (PCB), se exilou com a família na União Soviética, onde viveram por dez anos. Ao voltar ao Brasil, deixou aquela agremiação partidária, se filiou ao Partido Democrático Trabalhista (PDT), liderado por Leonel Brizola, do qual foi presidente de honra.

Após a morte de Prestes, em 7 de março de 1990, dona Maria seguiu firme na luta pelo socialismo e pelos direitos povo. E, também, junto com seus filhos, filhas, netos e netas, se dedicou a disseminar às novas gerações o legado revolucionário do “Velho”, seu companheiro e camarada Prestes.

Foi amiga estimada do PCdoB, participando de atividades como a restituição simbólica pelo Senado do mandato de Prestes, eleito em 1945 e cassado em 1948, em 22 de maio de 2013, por iniciativa do senador comunista Inácio Arruda. Em 2014, a Fundação Maurício Grabois produziu um documentário em vídeo e livro sobre sua passagem pelo trajeto da Coluna Prestes no Rio Grande do Sul, acompanhada dos filhos do casal Mariana e Luís Carlos. A Fundação Maurício Grabois, também, apoiou uma das edições de seu livro, Meu companheiro, 40 anos ao lado de Luiz Carlos Prestes. Participou, ainda, de atividades da Escola do Partido.

A luta pelo socialismo perde uma de suas guerreiras, mas seu exemplo e legado enchem de esperança os que seguem levantando sua bandeira e inspiram as novas gerações que seguirão seu caminho. O PCdoB, comovido e honrado por ter convivido e se enriquecido com suas contribuições, rende as mais sentidas homenagens à sua memória. Dona Maria viverá para sempre na memória e na luta dos que batalham por um mundo de paz e justiça.

Recife, 4 de fevereiro de 2022

Luciana Santos

 

Veja também:

 

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Morre aos 75 anos Vital Nolasco, militante histórico do PCdoB - André Cintra - Portal Vermelho





Além de vereador de São Paulo por dois mandatos, Vital foi dirigente sindical e partidário


por André Cintra

Publicado 19/01/2022 03:54 | Editado 19/01/2022 11:05
O líder operário e militante comunista Vital Nolasco (1946-2022)

O líder operário e ex-vereador de São Paulo Vital Nolasco, militante histórico do PCdoB, morreu nesta quarta-feira (19/1), aos 75 anos. Ele estava internado na UTI do Hospital Samaritano, na capital paulista, para tratar uma fibrose pulmonar crônica, mas não resistiu às complicações da doença.

“Venho informar com muita tristeza, infelizmente, a morte do Vital no dia de hoje”, comunicou seu filho, Daniel Nolasco, pouco depois das 2 horas da madrugada. “Ele lutou bravamente pela vida durante esses 14 dias em que ficou internado. Foi acometido por uma fibrose pulmonar ou de origem idiopática ou oriunda de refluxo gástrico, de forma rápida. Nós, da família, agradecemos a todos os companheiros e companheiras pelos pensamentos positivos e manifestações de força, nesta hora difícil.”

A notícia da morte consternou amigos e companheiros de lutas. “O passamento de Vital Nolasco dói. É mais um dos comunistas que entram na galeria dos que sempre serão lembrados como exemplo de vida e luta”, afirma Walter Sorrentino, vice-presidente nacional do PCdoB, que conheceu Vital em 1982. “À sua companheira de toda uma vida, a combativa Ester, seus filhos Patrícia, Daniel e Iara, os genros, noras e netos, ficam os melhores sentimentos para compartilhar a dor da perda e a certeza de que Vital será um ponto luminoso do panteão de nosso partido. Ele nunca será esquecido”, agrega o dirigente.



Em nota, o presidente do PCdoB São Paulo, Wander Geraldo, também lamentou a perda. “Vital foi um desses comunistas que influenciaram gerações pela abnegação, pelo exemplo e pela fidelidade às lutas da classe trabalhadora. A memória de sua trajetória será sempre uma inspiração para aqueles que lutam pela emancipação dos trabalhadores, pelas causas democráticas e patrióticas e pelo socialismo”, registrou Wander, em nome da Comissão Executiva do PCdoB São Paulo.

Mineiro de Belo Horizonte (MG), descendente de escravos e indígenas, Eustáquio Vital Nolasco nasceu em 16 de dezembro de 1946. O pai, Orlando, trabalhava de padeiro e confeiteiro, enquanto a mãe, Diva, era lavadeira. Vital, o segundo dos 11 filhos do casal, precisou ajudar a família desde cedo, ainda mais depois que o pai foi trabalhar em Brasília e a renda da família diminuiu. Um trecho da autobiografia Vital Nolasco – Vale a Pena Lutar, de 2016, retrata as agruras desse período:


“Além de lavar roupa para fora, minha mãe pegava em um matadouro próximo o que se chamava de ‘barrigada’ – descartes dos porcos, como tripas, coração, fígado e pulmão – para fazer chouriço, que eu vendia em um campo de futebol de várzea no bairro, sobretudo nos finais de semana. Certa vez, a bola atingiu a bandeja, e os chouriços se espalharam pela terra.

Vendo a produção perdida, não contive as lágrimas. Penalizado com minha situação, o dono do time Santa Bárbara Futebol Clube – orgulho do bairro –, conhecido como Rato, juntou a rapaziada e fez uma vaquinha para cobrir o prejuízo (…).

Cresci como arrimo de família. Trabalhava também raspando pisos de tacos, preparando-os para serem envernizados. Outro serviço era pegar estercos no pasto, pôr para curtir, embalar em sacos e vender na vizinhança.”
Assembleia dos metalúrgicos de Belo Horizonte e Contagem, em 1968: Vital participa ativamente do movimento

Em busca de “uns trocados”, o pequeno Eustáquio tinha de conciliar trabalho e estudo. Ainda criança, andava dez quilômetros por dia, até uma vila distante, para comprar leite e revendê-lo aos vizinhos. Com 12 anos, trocou o leite por verduras e legumes, os quais ele trazia do Mercado Municipal de Belo Horizonte. A esta altura, comercializava os produtos de dia e estudava à noite.


Seu primeiro contato com o trabalho operário ocorreu em 1959, quando Vital tinha 13 anos e virou ajudante na serralheria de um tio. Como era comum entre os jovens trabalhadores da época, pulava de emprego em emprego. Aos 16 anos, por exemplo, fazia curso técnico em Contabilidade e era office-boy na Ciba do Brasil, uma indústria do ramo químico ligada à multinacional Ciba-Geigy (hoje Novartis). Nunca seguiu, porém, a carreira de contabilista.

Sendo integrante de família católica, descobriu a luta social pelas mãos da Igreja – na adolescência, Vital chegou a ser coroinha na Capela de São Jorge. Pouco antes do golpe de 1964, o padre José Miranda o apresentou à JOC (Juventude Operária Católica). Foi em meio a essa iniciação na militância – e a empregos em fábricas – que Vital tomou contato com o Sindicato dos Metalúrgicos de Belo Horizonte e Contagem.

“Em 1967, eu trabalhava como representante em uma empresa de máquina de calcular e ganhava salário mínimo. Lá eu conheci uma pessoa que me apresentou na empresa Sottex (Sociedade Técnica Têxtil Ltda.), que reformava máquinas de costura”, contou Vital, em 2018, numa entrevista para o Centro de Memória Sindical. “Aí, sim, fui ser metalúrgico. Entrei em contato com o sindicato entre o fim de 1967 e início de 1968.”


Vital era funcionário da Belgo Mineira e dirigente sindical quando explodiu, em abril de 1968, a greve dos metalúrgicos de Contagem – a primeira e histórica paralisação em pleno regime militar (1964-1985). A categoria – que reivindicava 25% de reajuste salarial – conquistou uma antecipação de 10%. “Foi um sentimento de vitória, apesar de não termos conseguido os 25% de aumento, nem termos derrubado a ditadura, porque aquilo era um sonho. Só pelo fato de a greve ter se expandido e ter confrontado a ditadura foi um movimento e tanto”, avaliou Vital.


Em outubro, veio a segunda greve, mais organizada, com adesão maior. Porém, a repressão também cresceu. O sindicato e seus dirigentes passaram a ser alvos da ditadura. Não houve conquistas – ao contrário, centenas de metalúrgicos foram demitidos, e dezenas de lideranças, presas. O AI-5 (Ato Institucional Número Cinco) – um “golpe dentro do golpe” que endureceu ainda mais o regime autoritário – foi decretado em 13 de dezembro de 1968. A perseguição a políticos, sindicalistas, líderes comunitários e estudantes se intensificou.

“No final de 1968, ou início de 1969, participei de um congresso da JOC em Recife e fui eleito para sua comissão nacional”, declarou Vital em depoimento ao livro Repressão e Direito à Resistência – Os Comunistas na Luta contra a Ditadura (1964-1985). “Eu já era da comissão estadual em Minas. Eles me queriam liberado para atuar na organização, mas não quis porque estava trabalhando, era operário e já participava da luta sindical.”


Na mira do regime em Minas Gerais, Vital se transferiu para São Paulo, onde passou a viver na clandestinidade. Não só a JOC o ajudava – mas também a AP (Ação Popular), outra organização de origem católica, com forte presença no movimento estudantil universitário. “O pessoal da AP me botou em contato com o Aldo Arantes, que me arrumou uma cópia do certificado de reservista”, relatou Vital. “Consegui tirar a carteira profissional e fui trabalhar na metalúrgica Wapsa, depois na Walita, fiz o curso de eletricidade no Senai do Tatuapé e aprendi a profissão de eletricista. Fui, então, trabalhar de eletricista na Philco.”Em 1972, Aldo Arantes, da AP, ajudou Vital a se instalar em São Paulo. Passados 44 anos, em 2016, ele participou do lançamento do autobiografia de Vital

Esse período coincide com seus primeiros estudos do marxismo-leninismo e culmina com a entrada no PCdoB, já em 1972, em meio ao processo de incorporação da AP ao Partido, finalizado em 1973. É a época, ainda, da Guerrilha do Araguaia (1967-1974), que, sob a liderança do PCdoB, constitui a mais longa e épica das ações da luta armada contra a ditadura. O cerco aos comunistas avança em todo o País.

Em março de 1974, Vital foi preso quando estava na Delegacia do Ministério do Trabalho, em São Paulo, para fazer a homologação de sua demissão da Philco. Uma demissão para o qual ele próprio vinha pressionando a empresa, já ciente de que os órgãos da repressão estavam à sua procura. Levado ao temido DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações/Centro de Operações de Defesa Interna), ficou preso por 40 dias e foi barbaramente torturado. “Foram uns 20 dias de tortura. Torturas de todo tipo que se possa imaginar: pau-de-arara, cadeira do dragão, palmatória, choques elétricos, etc.” No Dops (Departamento de Ordem Política e Social), foram mais 20 dias de prisão política.

Mesmo solto e, posteriormente, absolvido pela Justiça Militar, Vital continuou sob a vigilância do regime e teve de se afastar temporariamente das atividades partidárias e sindicais. Envolveu-se com o Movimento contra o Custo de Vida, nascido nas periferias de São Paulo e depois rebatizado de Movimento contra a Carestia. Sua mulher, Esther, era uma das referências dessa campanha na zona sul paulistana. O contato com as lutas populares foi um contraponto à atuação mais cautelosa em outros movimentos. Em depoimento feito em 1989 a Carmen Lúcia Evangelho, Vital detalhou essa adaptação:



“Saí da prisão, fiquei respondendo processo, na Justiça Militar. Atuei no Sindicato dos Químicos, cheguei a falar nas assembleias, mas uma atuação muito tímida. Minha tentativa era legalizar a minha situação, porque estava em São Paulo na semiclandestinidade, quando cheguei de Belo Horizonte. Depois da minha prisão, levantaram toda a minha história. Fiquei na Squibb durante dois anos, até que terminasse o processo na Justiça Militar. Fui absolvido e voltei para a categoria metalúrgica. Nesse período, nunca deixei de acompanhar a movimentação dos metalúrgicos. Fui trabalhar na Rheen, na Chácara Santo Antônio, mas não participei muito, porque houve o massacre da Lapa (em 1976), que mataram companheiros nossos do partido. Ficou uma certa desarticulação na capital. Fiquei atuando, acompanhei as eleições de 1978. Depois fui trabalhar numa fábrica em Itapecerica da Serra, ligado ao Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, como não era conhecido na base, para ver se era capaz de participar. Fiquei até 1980.”
Panfleto de divulgação de um ato do Movimento contra a Carestia

No final de 1977, houve uma força-tarefa para reorganizar as bases do PCdoB em São Paulo. A Vital, coube a missão de organizar o chamado “comitê distrital” do Partido na região fabril de Santo Amaro – o líder operário seria seu primeiro presidente. A força dos comunistas na Zona Sul se confirmou em 1978, nas eleições estudais: o operário ferramenteiro Aurélio Peres, trabalhador da Caloi e militante do PCdoB, elegeu-se deputado federal com expressivas votações na Zona Leste e na região da Freguesia do Ó/Brasilândia, mas tendo a Zona Sul como principal reduto de votos.

Em 1979, a Lei da Anistia reduziu a perseguição política, liberou todos os presos por “crimes de opinião” e permitiu a volta dos exilados. No ano seguinte, o regime permitiu o pluripartidarismo, mas vetou a legalização dos partidos comunistas. Ainda assim, o PCdoB passou a viver uma espécie de semiclandestinidade. Em São Paulo, além de contar com um deputado federal, o Partido filiaria o vereador paulistano Benedito Cintra. Devido à arbitrária condição de ilegalidade dos comunistas, eles exerciam os mandatos, formalmente, pelo MDB (depois PMDB).

Vital liderou a criação e foi o primeiro presidente, em 1980, do Centro de Cultura Operária (CCO). Pouco depois, começou a trabalhar na Metal Leve. “Havia uma orientação do PCdoB para os militantes do movimento sindical entrarem em grandes empresas”, contou Vital na autobiografia. “Voltei a frequentar o sindicato, a falar em assembleias, ter ativismo sindical intenso.”

Primeira reunião do CCO, em 1980, sob a presidência de Vital

Em 1981, na eleição ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, Vital participou da campanha da Chapa 3, de oposição, encabeçada por Aurélio Peres. A entidade representava a maior base de trabalhadores da América Latina, com mais de 300 mil operários só na capital paulista. Só que, enquanto o sindicalismo se renovava Brasil afora e refletia o declínio da ditadura, os metalúrgicos de São Paulo estavam desde 1965 sob o comando de Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão.

Os críticos o acusavam de “peleguismo”: Joaquinzão evitava as portas de fábricas, o trabalho junto à categoria – mas mantinha relações estreitas com empresários e governos. Naquela eleição, ele lideraria a Chapa 1, de situação. A oposição, no auge, dividiu-se em duas chapas – a 2, vinculada ao PT, e a 3, organizada pelo PCdoB. A fragmentação favoreceu o grupo de Joaquinzão, que se reelegeu.


Na eleição seguinte, três anos depois, um acordo garantiu a participação de lideranças comunistas na diretoria do sindicato. “Eu achava que o Joaquinzão estava desgastado e havia a chance de renovação do sindicato por dentro”, afirmou Vital. Além disso, o sindicato aderiu à campanha das “Diretas Já”, pelo fim da ditadura militar e a redemocratização. A eleição foi apertada, mas deu Chapa 1 – e Vital foi dirigente da entidade de julho de 1984 a junho de 1987. Seu cargo: 2º secretário.
Vital Nolasco e Aurélio Peres, ao centro, durante uma das eleições à direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo

“Joaquinzão era pelego, mas, na época em que fui da diretoria do sindicato, não éramos impedidos de fazer trabalho nas fábricas e organizar os trabalhadores. Hoje, acredito que criamos uma imagem exagerada dele”, ponderou Vital anos depois. Com mais trabalho de base, o número de metalúrgicos sindicalizados passou de 44 mil para 110 mil. Só na Metal Leve, sob a liderança de Vital, a quantidade de sócios do sindicato dobrou – de 750 para 1.500.

Um dos marcos dessa gestão foi a greve geral de 1985, que, diante da hiperinflação, exigia reajustes trimestrais. “Com apenas dois dias de paralisação, a greve unificada obteve uma significativa vitória. Paramos quase 500 mil assalariados metalúrgicos, químicos, marceneiros, comerciários e outros”, lembrou Vital em sua autobiografia. “Conseguimos bons acordos. No final, na noite de 6 de abril de 1985, os operários fizeram a festa.” No mesmo ano, Vital foi um dos fundadores e o primeiro presidente do CES (Centro de Estudos Sindicais).


As correntes que compunham o Sindicato dos Metalúrgicos voltaram a se dividir em três chapas nas eleições de 1987. A Chapa 1 era liderada por Luiz Antônio de Medeiros, sucessor de Joaquinzão na presidência da entidade e expoente do “sindicalismo de resultados”. A chapa 2, apoiada pelo PCdoB, tinha à frente Lúcio Bellentani, nome conhecido na categoria por ter sido preso e torturado em plena fábrica da Volks de São Bernardo do Campo, em 1972. A Chapa 3, cutista, desta vez corria por fora. A divisão, uma vez mais, beneficiou a situação, que manteve a direção do sindicato, apesar de a Chapa 2 ter tido 25 mil votos no segundo turno.
Lideranças da Chapa 2, que concorria à direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo em 1987, posam para foto de campanha

Mas a inconteste projeção de Vital levou o PCdoB a indicá-lo como candidato a vereador na eleição municipal de 1988. Era o primeiro pleito à Câmara Municipal de São Paulo desde que o Partido Comunista do Brasil havia reconquistado, em 1985, a legalidade. Vital, mesmo fora da direção do Sindicato, continuava influente nas bases – ele fora eleito vice-presidente da Cipa (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) da Metal Leve, no primeiro semestre de 1988, com 1.707 votos.

Já na disputa municipal, a última a prever um só turno, a ser disputado em 15 de novembro daquele ano, o PCdoB se coligou com PT e PCB, apoiando a candidatura da deputada estadual petista Luiza Erundina à Prefeitura de São Paulo. Vital não vislumbrava a própria vitória, já que a prioridade da direção do PCdoB, na eleição à Câmara Municipal, era garantir uma vaga para o jovem Aldo Rebelo, ex-presidente da UNE (1980-1981), além de fundador e primeiro coordenador da UJS (1984-1985).


Porém, com o fenômeno Erundina, eleita prefeita surpreendentemente, a coligação conquistou 18 das 53 cadeiras de vereadores em São Paulo. Com o lema “Vital, um metalúrgico de luta”, o líder operário do PCdoB terminou a votação na segunda suplência. Como dois parlamentares eleitos – Tereza Lajolo e Juarez Soares ­­– viraram secretários municipais, ele assumiu como vereador desde o início da legislatura. Em 1992, foi reeleito, mas o mandato passaria a integrar a oposição, devido à vitória do “filhote da ditadura” Paulo Maluf à prefeitura. A seu lado, passando a compor a bancada do PCdoB, estava a assistente social e líder comunitária Anna Martins, uma amiga e camarada de mais de 20 anos.

Conforme lembra Wander Geraldo, é “graças, sobretudo, ao voto de operários e de outras categorias” que Vital exerce o cargo de vereador por dois mandatos (1989-1996). “Foi de sua autoria a lei que criou o ‘passe livre’ para trabalhadores desempregados. O mandato também realizou uma memorável homenagem ao líder sul-africano Nelson Mandela, que veio especialmente a São Paulo e participou da sessão solene”, registra Wander. Na ocasião, por iniciativa de Vital, Mandela recebeu o título de “cidadão paulistano”.
Vital entrega a Nelson Mandela, em 1991, o título de “cidadão paulistano”

O vereador do PCdoB também esteve em momentos importantes do Legislativo paulistano, como a construção da Lei Orgânica Municipal, em 1990, no rastro da aprovação da “Constituição Cidadã” de 1988. Presidiu a CEI da Merenda, uma Comissão Especial de Inquérito que investigou desvios de recursos públicos destinados à merenda escolar. Compôs a CPI das Ossadas de Perus, que denunciou a existência de 1.049 restos mortais de desaparecidos políticos da ditadura no Cemitério Municipal Dom Bosco.


A despeito da atuação parlamentar combativa, Vital não conseguiu o terceiro mandato em 1996, embora tivesse sua maior votação em três eleições à Câmara: 13.553 votos. Assumiu o cargo posteriormente, em algumas ocasiões, com a licença de vereadores eleitos. De todo modo, aos 50 anos, passou a assumir tarefas partidárias de maior relevo. Já era membro do Comitê Central (CC) do Partido desde 1992. Em 1997, assumiu a presidência do PCdoB São Paulo, na qual permaneceu por apenas três meses, porque seria indicado a uma tarefa nacional: comandar a Secretaria de Movimentos Populares e Sociais do CC. Ele ainda concorreu a deputado federal em 1998 – sua última eleição a cargos parlamentares.

Em 2001, Vital participou da comissão de busca dos desaparecidos do Araguaia. O 10º Congresso do PCdoB, no mesmo ano, foi marcado pela transição na presidência – de João Amazonas para Renato Rabelo. A nova direção comunista, liderada por Renato, confiou a Vital o cargo de secretário nacional de Finanças em 2003. Foram dez anos à frente da tesouraria partidária – e uma conquista em especial: a aquisição, em 2008, de uma sede própria para o PCdoB, na região da República, em São Paulo.

Um ano após Vital deixar o secretariado nacional, o Partido lhe fez um merecido tributo, em cerimônia realizada justamente na sede que ele ajudara a viabilizar. A data era 3 de maio de 2014. “Recebi a homenagem mais emocionante da minha, prestada pelo PCdoB, por meus 50 anos de militância política ininterruptos”, disse Vital em sua autobiografia. “Recebi de presente um quadro com a foto da sede nacional do Partido.”

Vital recebe quadro com imagem da sede própria do PCdoB,. adquirida sob sua gestão na Secretaria de Finanças do Partido

De 2015 a 2021, o líder operário respondeu pela Secretaria de Movimento Sindical do PCdoB São Paulo. Desde 2008, era, ainda, membro do Conselho Curador da Fundação Maurício Grabois. De acordo com Vital, o AVC (Acidente Vascular Cerebral) que ele viria a sofrer na década passada lhe impôs uma certa “perda de energia”. Mas a vontade era de não interromper a militância. Suas memórias foram publicadas em 2016, no livro Vital Nolasco – Vale a Pena Lutar, que teve como subtítulo Minha Vida na Ação Popular (AP) e no Partido Comunista do Brasil (PCdoB). O texto, narrado em 1ª pessoa, foi organizado pelo jornalista Osvaldo Bertolino e publicado em parceria pela Fundação Maurício Grabois e pela Editoria Anita Garibaldi.

Sobre a reta final da vida, Vital pontuou: “Enquanto eu tiver condições, quero continuar contribuindo com o Partido e ajudá-lo para que a gente possa ter um país livre das injustiças, da opressão, da exploração, um país democrático e progressista, um país socialista”. Mas a crise imposta pela pandemia de Covid-19 obrigou Vital a desacelerar. Em 2021, mais recluso, cumpriu o último de seus 29 anos como membro da direção nacional do Partido. No PCdoB São Paulo, deixou a Secretaria de Movimentos Sociais, permanecendo na Comissão Política.

As palavras finais de sua autobiografia servem como testamento político de uma trajetória militante singular. “Tudo que sou devo, além da minha formação familiar e da experiência de vida, ao PCdoB, que me ensinou o valor do humanismo e da solidariedade. Não tenho nenhum arrependimento”, comentou Vital. “Se pudesse voltar atrás, faria tudo de novo; claro que corrigindo alguns detalhes. Diria que valeu e vale a pena lutar.”

sábado, 1 de janeiro de 2022

Tributo a João Amazonas (1912-2002) - Um Comunista Brasileiro - aniversário de João Amazonas - Augusto Buonicore

  Tributo a João Amazonas (1912-2002) - Um Comunista Brasileiro

Neste sábado (1º/1) de homenagens a João Amazonas, grande líder comunista brasileiro que faria 110 anos, o Portal PCdoB reproduz o artigo de Augusto César Buonicore, ex-membro do Comitê Central, publicado em 27 de  maio de 2010, no Portal da Fundação Maurício Grabois.

No artigo intitulado  “Tributo a João Amazonas (1912-2002) – Um Comunista Brasileiro”, Buonicore diz  que “há aqueles que lutam um dia; e por isso são bons; Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons; Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda; Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.” Brecht “Minhas cinzas devem ser espalhadas na região do Araguaia, onde houve a guerrilha. É uma forma de juntar-me aos que lá tombaram.” último pedido de João Amazonas.”  Confira a íntegra abaixo:

Por Augusto César Buonicore*

Há oito anos (1), no dia 27 de maio, morreu João Amazonas. Seu último pedido traduziria muito bem a personalidade deste líder revolucionário brasileiro. Não queria monumentos em sua memória. Queria apenas que suas cinzas se juntassem às cinzas dos centenas de combatentes que tombaram na gloriosa guerrilha do Araguaia, da qual ele foi um dos principais idealizadores e dirigente.

Amazonas foi o grande dirigente dos comunistas brasileiros. Foi o seu ideólogo, o seu estrategista maior. Infelizmente Amazonas não viveu tempo suficiente para ver mais uma vitória de sua elaboração tática. Uma tática que propugnava pela necessidade de constituição de uma ampla frente política, tendo como núcleo a esquerda e base as lutas populares, como forma de derrotar o neoliberalismo e abrir caminho para a construção de um novo projeto democrático e nacional, que permitisse acumular forças para avançarmos no sentido da conquista de um socialismo renovado.

Por fim, a história de João Amazonas se confunde com a história de luta do povo brasileiro e de sua vanguarda revolucionário: o Partido Comunista do Brasil.

Uma história de luta

No dia primeiro de janeiro de 1912, em Belém do Pará, nasceu João Amazonas de Souza Pedroso. Filho de família modesta, desde muito cedo se rebelou contra as péssimas condições de vida e de trabalho que vivia submetida a classe operária de sua cidade. Após a revolução de 1930 enviou uma carta indignada ao secretário do trabalho estadual denunciando os abusos existentes na fábrica onde trabalhava e exigindo a imediata redução da jornada de trabalho.

João era também um jovem bastante curioso e se interessava por tudo que ocorria no mundo e no seu país. Um dia caiu-lhe nas mão o livro “Um engenheiro brasileiro na URSS”, seria o primeiro de vários outros sobre a “pátria do socialismo”. Ele começava a pressentir que naquele distante país se estava construindo um novo mundo, sem miséria e exploração. Mas este ainda parecia-lhe um mundo bastante distante, pois não tinha conhecimento da existência de um partido comunista no Brasil. Em breve, seu espírito indomado e sua vontade de mudar o país e o mundo o levaria a encontrá-lo.

Em 1935, quando tinha apenas 23 anos, num domingo, após sair do trabalho, leu no jornal uma pequena nota sobre a realização de um comício da Aliança Nacional Libertadora (ANL). Sem demora se dirigiu à praça do Largo da Pólvora, onde se realizava o evento. Os discursos inflamados defendendo a soberania nacional, a reforma agrária e a constituição de um poder popular empolgou os ouvintes, inclusive João.

No dia seguinte ele se apresentou na sede local da ANL para se integrar ao movimento. O rapaz foi imediatamente convidado para ingressar na Juventude Comunista na qual passou a militar. Poucos dias depois ingressava no Partido Comunista do Brasil. Era o início de uma relação que duraria mais de 67 anos.

A sua primeira tarefa militante foi organizar uma célula na sua empresa. Tarefa que realiza com sucesso. A partir desse núcleo de comunistas ele partiu para a organização de um sindicato da categoria, outra tarefa bem sucedida. Em seguida foi eleito delegado na União dos Proletários de Belém. Este envolvimento lhe acarretou a sua primeira prisão, que durou apenas 15 dias.

Em novembro de 1935 ocorreu o levante armado, dirigido pela ANL, que foi rapidamente esmagado pelas forças governamentais. Iniciava-se uma fase de violenta perseguição aos comunistas. Apesar da repressão, as atividades dos comunistas não cessaram.

Em 19 de dezembro de 1935 o jornal Folha do Norte anunciava: “Mãos misteriosas içam, pela calada da noite, nos mastros dos reservatórios da Lauro Sodré, uma flâmula comunista com legendas subversivas e ainda dispõem de tempo para deixar inscrições do mesmo gênero nas paredes do reservatório. O fato, notado desde cedo pelo público atrai ao local multidão de curiosos e provoca comentários acalorados (…) A polícia procede a investigação no sentido de apurar responsabilidades”. O reservatório era o ponto mais alto da cidade e nem mesmo o corpo de bombeiros conseguiu retirar a faixa colocada pelas “mãos misteriosas”.

Na faixa vermelha, assinada pela ANL, podia se ler “Abaixo a pena de morte” e nas paredes: “Viva Luís Carlos Prestes – Viva ANL!”. A polícia política ameaçou, prendeu os pobres dos vigias, mas os verdadeiros culpados jamais foram descobertos. Os responsáveis por tal façanha, que agitou Belém, foram dois jovens comunistas: João Amazonas e Pedro Pomar.

No início de 1936 a polícia realizou novas prisões de ex-integrantes da ANL. João e Pedro desta vez não escaparam. Mas, mesmo na cadeia não deram sossego aos seus opressores. Realizaram uma greve de fome contra a má-alimentação servida aos presos e aproveitaram o tempo para ministrar aulas de marxismo-leninismo aos demais companheiros. Depois de mais de um ano de prisão, em junho de 1937, foram julgados e absolvidos por falta de provas. Em novembro ocorreu o golpe de Estado que implantou o ditadura do Estado Novo. Amazonas e Pomar entrariam na clandestinidade.

A Reorganização do Partido Comunista

Em 1940, novamente, uma onda de repressão se abateu sobre os comunistas paraenses. Em 2 de setembro foi preso Pedro Pomar e em 10 de setembro foi a vez de João Amazonas, dois dos principais dirigentes do Partido no Pará. Assim o jornal Folha do Norte anunciou a sua prisão: “Fisgado mais um adepto do credo sinistro”. O artigo afirmava: “No inquérito, a Delegacia de Ordem Política e Social apurou ‘que João Amazonas agia no preparo de matrizes e boletins subversivos da propaganda moscovita, matrizes que eram entregues a Pedro de Araújo Pomar, detido há dias passados. Este se encarregava de mimeografá-los em grande quantidade para espalhar sorrateiramente pelos bairros da cidade. Pouquinhos mas teimosos os adeptos do credo sinistro. A polícia todavia os vai fisgando eficientemente”.

Em junho de 1941 as tropas nazistas iniciaram a ocupação do território soviético e o governo Vargas demonstrava, cada vez mais, simpatias pelos regimes nazifascistas. A situação era muito difícil para as forças progressistas no Brasil. Logo após receberem a notícia da invasão nazista, os comunistas João Amazonas, Pedro Pomar, Agostinho de Oliveira, Felipe Santiago entre outros, realizaram uma ousada fuga da prisão. A fuga se deu na noite chuvosa de 5 de agosto de 1941. Afirmou Amazonas: “Na prisão, recebemos a notícia da invasão da União Soviética pela Alemanha hitlerista. Nossa indignação foi enorme. Reunimos, nesse mesmo dia, e juramos sair da prisão para continuar a luta de vida e morte contra o nazismo”.

Depois de sua fuga Amazonas e Pomar fizeram uma difícil viagem até o Rio de Janeiro. Procurados pela polícia do Estado Novo foram obrigados a fazer uma rota cheia de dificuldades pelo interior do país, passando por Marabá e Anápolis.

Chegando ao Rio, em setembro de 1941, passaram a integrar o esforço de reorganização do Partido, cuja direção havia sido dizimada pela ditadura estadonovista. Entraram em contato com a Comissão Nacional de Organização Provisória (CNOP), dirigida por Maurício Grabois e Amarílio Vasconcelos. Em seguida contataram com Diógenes Arruda, que tentava organizar o Partido em São Paulo.

Nos fins de 1941 Amazonas foi a Minas Gerais onde ficou até 1943. Depois seguiu para o sul do país. Esteve no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. Sua grande missão era reorganizar o Partido Comunista nesses Estados, criando as condições para a realização da conferência que iria reorganizar o Partido Comunista do Brasil.

A 2ª Conferência Nacional do PCB, que ficou conhecida como “Conferência da Mantiqueira”, realizou-se em agosto de 1943 na mais completa clandestinidade. Segundo Dinarco Reis, a reunião “foi realizada numa pequena cafua de telha-vã e chão de terra, com sala, quarto e cozinha, local bastante exíguo para tantas pessoas (…) Dormíamos no chão de terra forrado por sacos e jornais. A noite o frio castigava duramente, pois era inverno nessa região bastante alta”. Mas o esforço daqueles bravos comunistas valeria a pena.

Nesta Conferência João Amazonas foi eleito membro do Comitê Central e passou a compor a comissão executiva e o secretariado, ficando responsável pelo trabalho sindical e de massas. Nesta condição foi um dos organizadores do Movimento Unificador dos Trabalhadores (MUT), em 1945. Em dezembro do mesmo ano se elegeu deputado federal constituinte com 18.379 votos, uma das maiores votações do Distrito Federal.

Na assembleia nacional constituinte destacou-se na defesa dos direitos sociais dos trabalhadores e da liberdade sindical. Por sua ação decidida em defesa da democracia, da soberania nacional e dos direitos sociais dos trabalhadores, os deputados eleitos pela legenda do PCB foram cassados em janeiro de 1948. Após a cassação dos mandatos comunistas João Amazonas e os demais membros da comissão executiva do Partido caem na clandestinidade.

João Amazonas, ao lado de Arruda e Grabois, assumiram as principais responsabilidades da direção cotidiana do Partido nos difíceis anos do governo Dutra, no qual dezenas de comunistas foram assassinados. Prestes vivia isolado e não cuidava efetivamente do trabalho de direção e de organização partidária.

No 4º Congresso do PCB, realizado em novembro de 1954, coube a João Amazonas apresentar o informe sobre as alterações dos estatutos do Partido. Um ano antes, em 1953, Amazonas esteve na União Soviética à frente de um grupo de cerca de quarenta comunistas que fariam um curso de marxismo-leninismo na Escola Superior do Comitê Central do PCUS.

A luta contra o revisionismo

A partir da segunda metade de 1950 ele participou ativamente da luta contra o surto revisionista-reformista que atingiu o Partido após o 20º Congresso do PCUS, em 1956. Em 1957, por suas posições contrárias às teses reformistas que vinham ganhando corpo no interior da direção do Partido, João Amazonas, Maurício Grabois, Diógenes Arruda, Sérgio Holmos e Pedro Pomar foram destituídos da comissão executiva e do secretariado do Comitê Central.

Esses afastamentos foram necessários para que se conseguisse uma tranqüila maioria, o que permitiu aprovar as teses reformistas e mudar o rumo político do Partido. No início de 1958, numa reunião do Comitê Central, João Amazonas e Maurício Grabois foram os únicos a votar contra o documento que ficaria conhecido como Declaração de Março e que fora elaborado por uma comissão “ultrassecreta”, criada pelo próprio secretário-geral.

Este documento consolidou a guinada à direita do PCB. Entre outras coisas apregoava a possibilidade da transição pacífica do capitalismo ao socialismo no Brasil. Começava, assim, a se definir nitidamente duas tendências no interior do Partido: uma reformista e outra revolucionária. Estas duas tendências opostas iriam se enfrentar duramente nos debates preparatórios do 5º Congresso do PCB.

Graças ao domínio que tinha sobre a máquina partidária, a influência de Prestes, e o apoio recebido do PCUS, a corrente reformista ganhou o Congresso e conseguiu aprovar as suas teses. O Congresso também decidiu pelo afastamento de João Amazonas, Maurício Grabois, Diógenes Arruda e Orlando Pioto do Comitê Central do Partido. Os reformistas, então, tomaram a iniciativa.

Em 11 de agosto de 1961 o jornal “Novos Rumos”, órgão oficial do PCB, publicou um novo programa e estatuto que, segundo a comissão executiva, deveriam ser registrados no Tribunal Superior Eleitoral visando à legalização do partido. Entre as propostas de alteração incluía-se a mudança do nome da organização, que passaria a se chamar Partido Comunista Brasileiro. O novo programa apresentado era ainda mais atrasado do que a Declaração de Março e as Resoluções do 5º Congresso. Dos estatutos retirava-se qualquer referência ao internacionalismo proletário e ao marxismo-leninismo. Esta foi a gota d’água…

A resposta da corrente revolucionária foi imediata. Foi enviada uma carta ao Comitê Central, assinada por cem comunistas, criticando os desvios de direita e exigindo que se retirassem os documentos ou se convocasse um novo congresso para discutir a mudança do nome e as modificações no programa e nos estatutos do Partido. Segundo a Carta, “as mudanças feitas no nome, no Programa e nos Estatutos (…) objetivam o registro de um novo partido e, por isso, se suprime tudo o que possa ser identificado com o Partido Comunista do Brasil, de tão gloriosas tradições (…) os militantes (…) não aceitarão que se liquide o velho Partido, e a ele permanecerão fiéis, mantendo bem alta a bandeira de suas melhores tradições”.

No final de 1961 a direção do PCB expulsou Amazonas, Pomar, Grabois, Ângelo Arroyo, Carlos Danielli, Calil Chade, José Maria Cavalcante, entre outros. Diante da impossibilidade, por vias da democracia partidária, de mudar os rumos que tomava a direção do PCB, os membros da corrente revolucionária resolveram dar o passo decisivo no sentido de romper com os reformistas e reorganizar o Partido Comunista do Brasil. João Amazonas, como em 1943, estava novamente à frente desse esforço.

Em fevereiro de 1962 realizou-se a 5ª Conferência (extraordinária) do Partido Comunista do Brasil. Nela aprovou-se um manifesto-programa no qual se reafirmaram as teses revolucionárias e os princípios marxista-leninistas. O PC do Brasil seria o primeiro partido fora do poder a romper com a linha política reformista imposta pela direção do PCUS. A Conferência resolveu também reeditar o jornal “A Classe Operária”.

A cisão dos comunistas brasileiros teve implicações internacionais. Em 14 de julho o próprio Comitê Central do PCUS publicou uma carta-aberta contra a direção do PC Chinês, e nela citava nominalmente os dirigentes comunistas brasileiros João Amazonas e Maurício Grabois, apontando-os como membros de um grupo antipartido. O PCUS responsabilizava o PC da China pela divisão do movimento comunista brasileiro. Em 27 de julho a direção do PC do Brasil respondeu com um contundente documento intitulado Resposta a Kruschev.

O rompimento com a direção do PCUS, principal partido comunista do mundo, e com a maioria reformista da direção do PCB, apoiada por Luís Carlos Prestes, mostrava bem a ousadia desses revolucionários fieis a seus princípios. Foram muitos os que afirmaram que esta pequena organização não teria futuro e que teria sido uma obra de loucos. A conjuntura, amplamente favorável à proliferação de ilusões reformistas, parecia confirmar tais opiniões.

Mas a história, implacável, construiria um outro caminho para além do senso comum e das aparências. O golpe militar de 1964 representou uma derrota das teses reformistas do PC brasileiro, que entrou em processo de desagregação interna, e confirmou muitas das teses defendidas por João Amazonas e seus camaradas do PC do Brasil.

Amazonas então se projetou como um dos principais dirigentes de uma nova corrente do movimento comunista internacional, corrente que se opunha ao chamado revisionismo soviético. Depois de 1962 defenderia o estreitamento dos laços políticos entre os comunistas brasileiros e o Partido Comunista da China, dirigido por Mao Tsetung e com o Partido do Trabalho da Albânia, dirigido por Enver Hodja.

Esteve em Cuba, com Maurício Grabois, quando da reorganização do Partido em 1962. Esteve na China por três vezes: no início de 1963, na companhia de Lincoln Oest, quando foi recebido pessoalmente por Mao Tsetung e juntos discutiram a situação brasileira e mundial; em 1967, no auge da Revolução Cultural, a qual apoiou criticamente e no final de 1976. Nesta última viagem Amazonas apresentou os pontos de vista do PCdoB sobre a situação internacional, especialmente sobre a teoria dos três mundos e o papel do imperialismo norte-americano, opiniões que divergiam frontalmente das posições oficiais do PC Chinês. A visita acabou consolidando o rompimento entre estes dois partidos. Rompimento que duraria até o início da década de 90.

Ele também esteve na Albânia por diversas vezes e lá estabeleceu laços fraternais com os dirigentes comunistas albaneses, especialmente Enver Hodja. Ficou ao lado deste na polêmica com os soviéticos, no início da década de 60, e depois na polêmica com os chineses já na segunda metade da década de 70.

Combatendo a Ditadura Militar

Entre 1968 e 1972, Amazonas participou ativamente da organização da guerrilha do Araguaia, o principal movimento de contestação armada ao regime militar. No final de fevereiro de 1972 ele se vê obrigado a sair da região para participar da reunião do Comitê Central na qual se debateria o documento “Cinquenta anos de luta” e se comemoraria este importante acontecimento (os 50º aniversário do PCdoB). Grabois e Arroyo permaneceram na região, seguindo os critérios de revezamento dos membros do secretariado do Partido. Amazonas estava voltando para a região quando a ofensiva do exército já havia começado e foi alertado por Elza Monnerat que voltara alguns dias antes e também não pudera entrar na região. Os caminhos de sua reintegração à guerrilha estavam fechados.

A eclosão da guerrilha levou a um aumento, sem precedente, das perseguições aos dirigentes do PCdoB. Entre o final de 1972 e início de 1973 foram presos, barbaramente torturados e assassinados três membros efetivos do Comitê Central Carlos Danielli, Lincoln Oest e Luís Guilhardini e o candidato a membro do Comitê Central Lincoln Roque.

Estava apenas começando a operação visando eliminar a direção do partido que promovia a Guerrilha do Araguaia. Na manhã do dia 16 de dezembro de 1976 desenrolou-se o último ato da tragédia arquitetada pelos militares.

A casa na qual havia se realizado uma reunião do CC é cercada e metralhada pela repressão. Neste dia foram friamente assassinados Ângelo Arroyo e Pedro Pomar. Eles estavam desarmados e não foi lhes dada nenhuma chance de defesa. Nesta operação morreria sob torturas João Batista Drummond. Cerca de uma dezena de dirigentes comunistas também foram presos e torturados.

Quando da chacina da Lapa, João Amazonas estava representando o Partido no exterior e foi na China que recebeu a notícia do trágico acontecimento. Esta viagem o salvou novamente da morte. Pois esta operação, comandada pelo II Exército, tinha como um dos objetivos a eliminação do secretário-geral do PCdoB. Em entrevista à revista “IstoÉ” o general Dilermando Monteiro, então comandante do II Exército, afirmou: “Nós descobrimos que naquele dia iria haver uma reunião em tal lugar, com a presença de tais e tais elementos, e aí fomos um pouco embromados, porque constava para nós que o João Amazonas estaria presente e o mesmo estava na Albânia, mas para nós ele estaria presente naquela reunião”.

Amazonas foi sempre um opositor radical da ditadura militar e por isso mesmo foi odiado por ela. Nas selvas do Araguaia, procurando organizar a guerra popular, nos palanques da campanha das diretas já! ou nas articulações que levaram à escolha de um candidato único das oposições, para derrotar o candidato da ditadura no colégio eleitoral, lá estava o velho Amazonas. Sabendo articular amplitude e radicalidade, sem nunca perder o rumo.

Afirmava ele: “O curso político independe da vontade de uns poucos. Forja-se objetivamente (…) Quem propugna por objetivos maiores tem de inserir-se no curso real, e nele atuar com amplitude, levando sempre em conta a correlação de forças existentes, afim de fixar metas viáveis que aproximem a vitória definitiva da causa do povo”.

Unindo o povo contra o neoliberalismo

Amazonas foi um ardoroso defensor da unidade das forças progressistas e um dos artífices da Frente Brasil Popular em 1989. Compreendeu que a derrota de Lula e a vitória de Collor tinham aberto uma nova página na luta do povo brasileiro. A luta contra o neoliberalismo passou a adquirir centralidade na tática e na estratégia das forças democrática, populares e revolucionárias. O PCdoB, com Amazonas à frente, defendeu a palavra-de-ordem Fora Collor! Que empolgou a juventude brasileira e levou ao impedimento do presidente da República.

Mas a derrota de Collor não representou a derrota definitiva do neoliberalismo em nosso país. Com a vitória de FHC, o projeto recobra o seu fôlego. Amazonas defendeu então a formação de uma ampla frente oposicionista, que tivesse como núcleo as forças de esquerda. Uma frente que se constituísse através de um programa nacional e democrático que apontasse para superação do neoliberalismo e se sustasse num amplo movimento de massas. Esta posição estará presente na resolução política do 9º Congresso e será retomada e desenvolvida nas resoluções do 10° Congresso do PCdoB.

No entanto, as suas contribuições políticas e teóricas não se reduzem apenas ao Brasil. Desde o final da década de 80 João Amazonas foi um dos poucos que se colocou contra a política adotada por Gorbachev, denunciando-a como uma via de retorno da URSS ao capitalismo de mercado. O que propunham os líderes soviético não era renovar o socialismo, depurando-o de seus erros e deformações, e sim de destruí-lo. Após a débâcle final Amazonas conclamou que a esquerda revolucionária realizasse um profundo balanço crítico dessas experiências. Refletisse sobre as derrotas, mas sem capitular. Não fizesse concessões de princípios à maré social-democratizante que estava levando ao aniquilamento vários partidos tidos como comunistas.

Era preciso reconhecer a crise e lutar para superá-la, reafirmando e atualizando o marxismo e o leninismo, sem dogmas. Amazonas, de maneira ousada, propôs a unidade das diversas organizações que ainda reafirmavam a sua identidade comunista. Diante da ofensiva mundial do imperialismo era preciso vencer o sectarismo e construir a unidade sobre novas bases. Esta seria mais uma de suas importantes contribuições para reorganização do movimento comunista internacional.

Um homem imprescindível

Portanto, João Amazonas conduziu o Partido Comunista do Brasil em meio ao mar turbulento das lutas ideológicas, contra adversários bem mais fortes, que pareciam invencíveis. O seu pequeno PCdoB venceu estas lutas e se consolidou. O Partido, dirigido por Amazonas, passou por outras provas de fogo. Enfrentou a ditadura militar, que ceifou a vida de mais de uma centena de militantes; enfrentou a crise das experiências socialistas, que desbaratou várias organizações ditas comunistas; e, por fim, enfrentou com coragem e firmeza os dez anos de ofensiva neoliberal no Brasil. O PCdoB não só sobreviveu, o que já seria uma grande coisa, mas se desenvolveu e se constituiu numa força respeitada no cenário político nacional e mesmo dentro do movimento comunista internacional, que começava a se rearticular depois do vendaval neoliberal.

Aos 90 anos de idade e 66 anos de dedicação integral à militância no Partido (sendo 59 em funções de direção), Amazonas pediu para que seus camaradas não mais o indicassem para a função de presidente do PCdoB. Afirmou ele: “no Partido não existem cargos vitalícios. Escapei de perseguições, sobrevivi (…) Creio que cumpri meu papel (…) Dentro de algumas semanas, vou completar nove décadas de vida. Uma vida difícil, que levou a um grande desgaste físico. Proponho a minha substituição e apoio a eleição de Renato Rabelo como novo presidente do Partido” e conclui: “não penso em aposentadoria. Espero morrer na minha posição de luta, no meu posto de trabalho (…) Até o último de meus dias, serei militante do Partido Comunista do Brasil”.

A nova direção nacional do PCdoB aceitou parcialmente o seu pedido retirando-lhe a função de presidente e elegendo em seu lugar Renato Rabelo. No entanto, com a aprovação unânime dos delegados presentes ao 10º Congresso, indicou-o para a presidência de honra do Partido. Título mais do que merecido para um homem que dedicou sua vida inteira à luta pelos ideais socialistas e à defesa de seu partido. Um homem que não temeu a prisão, a tortura, o exílio e a própria morte.

João Amazonas foi muito mais do que o presidente de honra de um partido político revolucionário, ele foi uma legenda, um símbolo vivo do espírito de luta do povo brasileiro. Um exemplo de comunista e de brasileiro. Por tudo isso, como afirmou Brecht, compõe as fileiras dos homens imprescindíveis.

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Nota:

1) Adaptação de um artigo escrito por ocasião da comemoração dos 90 anos de João Amazonas em janeiro de 2002.

*Foi membro do Comitê Central do PCdoB, dirigente da Fundação Maurício Grabois e foi também um dos fundadores da Escola Nacional João Amazonas. Faleceu no dia 11 de março de 2020, aos 59 anos de idade, vítima das complicações de um câncer no intestino. 

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