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quinta-feira, 3 de abril de 2025

Brasília recebe o filme Doutor Araguaia, no Liberty, dia 8/4, 20h, GRATUITO


João Carlos Haas Sobrinho (Juca)
Médico do povo e Guerrilheiro do Araguaia

No próximo dia 08 de abril de 2025, às 20h, no Cinema Cultura do Liberty Mall, teremos a exibição GRATUITA do DOUTOR ARAGUAIA.

O documentário é um convite à reflexão sobre a luta pela democracia e os horrores da ditadura militar no Brasil.

A produção retrata a trajetória de João Carlos Haas Sobrinho, jovem médico gaúcho que, movido pelo compromisso com a justiça social, uniu-se ao PCdoB e às Forças Guerrilheiras do Araguaia. Como profissional de saúde, prestou atendimento a camponeses das regiões de Porto Franco (MA) e Xambioá (TO), tornando-se uma figura admirada pela população local. Perseguido pelo regime militar, foi assassinado pelo Exército em setembro de 1972. Até hoje, seus restos mortais nunca foram entregues à família.

Dirigido por Edson Cabral e com roteiro de Sônia Haas, irmã do protagonista, o documentário é uma realização independente da TG Economia Criativa, com gravações em diversos estados do país e depoimentos de ex-guerrilheiros, camponeses, amigos e estudiosos. 

São 90 minutos de narrativa intensa, com cinco músicas inéditas e cerca de 50 entrevistas, costurando o legado de um homem que dedicou sua vida à causa do povo.



Entrada Gratuita mediante Sympla.

https://www.sympla.com.br/evento/exibicao-do-documentario-doutor-araguaia--a-historia-de-joao-carlos-haas-sobrinho/2885538


Fundação Maurício Grabois :: João Carlos Haas Sobrinho: homenagens ao médico guerrilheiro 

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Portal Vermelho - Filme “Doutor Araguaia” é exibido no Recife e em Natal - João Carlos Haas Sobrinho, o jovem médico da Guerrilha do Araguaia contra a Ditadura



Cultura

Filme “Doutor Araguaia” é exibido no Recife e em Natal

Documentário conta a trajetória de João Carlos Haas Sobrinho, jovem médico sanitarista militante do PCdoB na Guerrilha do Araguaia, executado aos 31 anos por agentes da ditadura militar.




por André Cintra

https://vermelho.org.br/2025/01/29/documentario-doutor-araguaia-e-exibido-no-recife-em-natal/
por André Cintra

Publicado 29/01/2025 16:15 | Editado 29/01/2025 17:29


O documentário Doutor Araguaia – que conta a trajetória do médico gaúcho João Carlos Haas Sobrinho (1941-1972), militante do PCdoB – será exibido em duas capitais nordestinas. Conhecido como “Doutor Juca”, Haas participou da Guerrilha do Araguaia, onde foi preso e executado por agentes da ditadura militar aos 31 anos. Seu corpo jamais foi localizado.

Nesta quinta-feira (30), o filme terá uma sessão especial no Recife (PE), em meio à programação da 14ª Bienal da UNE (União Nacional dos Estudantes). Após a exibição, haverá debate com o diretor de Doutor Araguaia, Edson Cabral, e com a roteirista, Sonia Hass.

Já na sexta-feira (31), a pré-estreia será no Espaço Rampa, em Natal, também com a presença de Sonia, que é irmã de Hass. O evento será organizado pelo Comitê Estadual de Memória, Verdade e Justiça do Rio Grande do Norte e pelo Conselho Estadual dos Direitos Humanos e Cidadania (COEDHUCI).

Doutor Araguaia foi selecionado no edital Audiovisual Tocantins 2023, lançado pelo governo estadual, com recursos da Lei Paulo Gustavo. A Fundação Maurício Grabois foi uma das colaboradoras do projeto.

As primeiras exibições do filme ocorreram em novembro, nas cidades de São Leopoldo (RS), Porto Alegre (RS) e Porto Franco (MA). O lançamento em circuito comercial está prevista pata março e abril, em Palmas, Brasília e São Paulo.

“Enxergo essa minha busca pelo João Carlos, pela história dele e pelo resgate de sua dignidade, como uma missão. Então, lançar esse documentário é parte dessa missão, uma parte muito importante, simbólica, que vai registrar toda a caminhada dele”, declarou Sonia Haas numa das pré-estreias do filme.

domingo, 19 de maio de 2024

Familiares de vítimas da ditadura vão à Brasília de 20 a 23 de maio exigir Justiça e mobilizam sociedade


Foto: Reprodução/Apub

Por: Bélit Loiane no dia 26 de março de 2024 às 15:16

Atualizado: no dia 01 de abril de 2024 às 18:09





Familiares de mortos e desaparecidos políticos brasileiros durante a ditadura militar instalada no país de 1964 a 1985 realizam uma semana de luta e mobilização, entre os dias 20 e 23 de maio, em Brasília-DF. 

O grupo vai pressionar o Governo Federal, principalmente para a reinstalação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos, extinta em dezembro de 2022 pelo governo do ex-presidente e ex-militar Jair Bolsonaro, e que vem sendo protelada pelo governo do presidente Lula para evitar tensão com os militares brasileiros. 

A mobilização também tem o objetivo de exigir ações concretas do Governo Federal para que o Brasil cumpra as sentenças internacionais e na Justiça brasileira, garantindo o direito à memória, à verdade, à Justiça e à reparação às vítimas de violações de direitos humanos. 

A semana de mobilização inclui visitas ao Ministério Público Federal, ao Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, reuniões no Congresso Nacional, visitas aos presidentes das comissões de Direitos Humanos da Câmara e do Senado; na Comissão da Anistia; além de apoiar e buscar apoio das Organizações não-governamentais e dos movimentos populares.


Confira a programação completa:


Semana de luta de familiares de mortos e desaparecidos políticos


Dia 20/05/2024

10h à 17h | Visitas a organizações da sociedade civil e movimentos sociais.


Dia 21/05/2024

10h | Reunião com Ministério Publico Federal

Endereço: SAS quadra 05 bloco E lote 08

Dia 22/05/2024

9h | Secretaria da presidência (a confirmar)

Praça dos Três Poderes, Palácio do Planalto, 4º andar - Brasília

14h | Comissão de Anistia 

16h30 | Reunião da Comissão de Participação Legislativa com Deputado Glauber Braga

Apresentação da pesquisa sobre desaparecimentos forçados

Local: Plenário 3 - Câmara dos Deputados 


Dia 23/05/2024

8h30 | Audiência privada com a Corte Interamericana de Direitos Humanos

14h | Reunião Ministério DH


Maiores informações:


Jana Sá – 84. 99914.0510

Rafael Duarte – 84. 99654.9404



Veja também:

“A Dinaelza faria 70 anos”, diz Diva Santana, sua irmã, Diva Santana
Dinaelva Santana Coqueiro


segunda-feira, 17 de abril de 2017

Augusto Buonicore e João Amazonas: Em defesa da Guerrilha do Araguaia - Portal Vermelho

13 de abril de 2014 - 8h13

Augusto Buonicore: Em defesa da Guerrilha do Araguaia


Até muito recentemente a grande tarefa que cabia às forças progressistas, especialmente aos comunistas, era salvar a Guerrilha do Araguaia do esquecimento a que lhe pretendiam impor a ditadura militar e os setores mais conservadores da sociedade. Nestes últimos anos, no entanto, a Guerrilha foi tema de vários livros, teses e matérias especiais nos grandes jornais brasileiros.

Por Augusto C. Buonicore*

ReproduçãoCena do filme Araguaya, conspiração e silêncio

O que já está claro para todos é que as Forças Armadas utilizaram métodos bárbaros para sufocá-la – entre os quais, tortura, assassinato de militantes aprisionados, amputação de mãos, degola de cadáveres, ocultação e incineração dos corpos dos prisioneiros. Nem mesmo os militares envolvidos naqueles atos monstruosos podem negar que eles tenham ocorrido. Agora, tratam de justificar tal barbárie.

O mote para o revisionismo histórico foi dado pelo ex-ministro da ditadura militar, coronel Jarbas Passarinho. Segundo ele, a luta entre a Guerrilha e as forças da repressão foi uma “guerra suja” para os dois lados, sendo que os guerrilheiros tiveram maior responsabilidade por tê-la desencadeado ao adotarem o método da resistência armada ao regime. Estava dada a senha para a reconstrução da história do ponto de vista dos torturadores e assassinos.

Essas versões amarrotadas criadas pelo regime militar tiveram pouca repercussão na sociedade brasileira pós-ditadura. Poucos políticos ou intelectuais ousaram defendê-las. Por isso, ele precisou construir formulações mais refinadas. Estas não podiam partir de pessoas diretamente envolvidas com a repressão política, como Brilhante Ustra e major Curió. Precisavam vir de um espaço mais nobre, da imprensa ou da academia.

O livro do jornalista e historiador Hugo Studart, A Lei da Selva, se encaixa perfeitamente dentro dos objetivos dessa operação ideológica tentada pelos militares. A obra não pretende defender abertamente a repressão, mas mostrar que os guerrilheiros não eram tão diferentes dos seus algozes. Conseguido esse intento, estaria amenizada a culpa daqueles que os torturaram e assassinaram.

Studart, logo no início, afirma que seu objetivo “não era analisar o episódio (Guerrilha do Araguaia) sob o ponto de vista dos guerrilheiros, tampouco dos moradores da região”, e sim “relatar o significado do conflito sob a ótica de um dos lados envolvidos, os militares brasileiros”. O seu objeto de estudo seria o imaginário que os militares haviam construído sobre o conflito armado. Um tema pertinente e que poderia ser bastante útil para nos fazer entender melhor os acontecimentos ocorridos no sul do Pará entre 1972 e 1974.

O problema é que o imaginário militar deixa de ser apenas o objeto de estudo para se transformar na ideologia que norteia as próprias interpretações do autor. Isso se expressa nas escolhas feitas e na linguagem utilizada. No artigo publicado no primeiro número da revista Br História isto fica ainda mais claro e mais grave. Ali desaparece o imaginário militar e o que surge, sem retoques, é a ideologia conservadora do autor. Sigamos as trilhas tortuosas abertas por Studart.

Para ele, tanto as Forças Armadas quanto os guerrilheiros tinham coisas a esconder: “o Exército não explicou como venceu, nem a guerrilha revelou como perdeu”. Na revista é ainda mais claro: “Mais de três décadas depois, tanto o Exército quanto o PCdoB continuam em silêncio, se recusando a abrir seus próprios arquivos. Por quê? Há muitos esqueletos a desenterrar – de ambos os lados”. Do lado dos guerrilheiros e do PCdoB “o principal cadáver é a prática dos ‘justiçamentos’, eufemismo usado para justificar a execução sumária dos ‘inimigos da revolução’”. Eis aí, na sua pureza, a tese revisionista da “guerra suja” dos dois lados.

A afirmação de que a Guerrilha não revelou como perdeu é injusta diante do fato de que os guerrilheiros foram dizimados e o Diário do seu comandante Maurício Grabois, principal documento sobre a Guerrilha, confiscado pelo Exército. Um dos únicos sobreviventes, o subcomandante Ângelo Arroyo, se esforçou para trazer um relatório da Guerrilha e expor suas opiniões sobre as razões da derrota. Este documento há muitas décadas foi divulgado pelo PCdoB, enquanto os originais do Diário de Grabois continuam desaparecidos.

Justiçamentos de jagunços e delatores

A grande prova de que os guerrilheiros também haviam ingressado na Lei da Selva – ou na “guerra suja” – foram os justiçamentos realizados. Mas o que pretendia ser um dos pontos mais fortes do livro acabou como um dos mais fracos. Os fatos narrados demonstram apenas quão diferentes eram aqueles jovens guerrilheiros dos militares que os perseguiam.

O primeiro caso que Studart nos conta é sobre a morte de um informante do Exército: “Um jovem camponês, de 17 anos, que guiou um grupo de militares ao esconderijo dos guerrilheiros, foi capturado, julgado por um Tribunal Revolucionário e executado a golpes de facões”. Mais à frente afirma: “Teria sido morto a golpes de facão, segundo os militares espalharam na região; ou com um tiro pelas costas, de acordo com seus parentes. Tinha entre 17 e 18 anos”.

Eumano Silva e Taís Moraes, em Operação Araguaia, nos dão outra versão, menos escabrosa. Escreveram eles: “De surpresa, encontraram João Pereira em uma picada e o intimaram a levantar os braços. João não obedeceu. Os comunistas abriram fogo”. Assim, teria sido fuzilado ao resistir a uma ordem de prisão dos guerrilheiros. Nada de execução a golpes de facão ou tiros pelas costas. Qual dessas versões seria a correta? Studart sempre escolherá a mais desfavorável aos guerrilheiros.

Depois de tanta confusão de informação veja como Studart conclui o assunto: “Mas considero importante registrar esse possível episódio, visto que o justiçamento de um adolescente inocente, com métodos bárbaros – verídico ou fantasioso, não importa –, acabou se tornando um fato significativo no imaginário das tropas do Exército”. Bela conclusão para um historiador: se “esse possível episódio” é “verídico ou fantasioso não importa”.

Continuemos com Studart em sua vã tentativa de demonstrar o lado selvagem dos guerrilheiros: “Logo após a segunda campanha, teria havido a execução de mais três camponeses suspeitos de colaborar com o governo e pelo menos um companheiro de guerrilha”. Vamos por partes e comecemos pelos três camponeses “suspeitos”. O próprio Studart, numa nota de rodapé, escreveu: “Nesse caso, todos os três seriam de fato colaboradores, dois deles conhecidos pistoleiros de aluguel, apontados pelos moradores da região como responsáveis por mortes de posseiros a mando de latifundiários”. Num passe de mágica os pobres camponeses justiçados viraram perigosos jagunços, o que de fato eram.

Na verdade, houve casos de “justiçamentos” em número reduzidíssimo. O Relatório de Arroyo chegou a reconhecer que uma das deficiências da Guerrilha foi a “do não-justiçamento de determinados inimigos”. Tudo indica que, ao contrário do que diz o autor, os guerrilheiros estavam mais preparados para morrer do que para matar.

O livro cita vários casos que comprovam a superioridade moral dos guerrilheiros. Um dia estes entraram nas terras de um fazendeiro chamado Nemer Curi – acusado de colaborar com os militares. O objetivo era julgá-lo e justiçá-lo. Saíram da empreitada sem o ferir, apenas dando-lhe uma lição de moral. Num trecho do suposto Diário de Grabois, a que Studart teve acesso, está escrito: “O fazendeiro se defendeu, negando parte das acusações (...). O C do D (refere-se aos destacamentos guerrilheiros) foi magnânimo em relação ao acusado. Advertiu-o para que não incidisse em novos crimes. As contas estavam ajustadas”. Os inimigos presos pela Guerrilha tinham o direito de se defender e podiam até ser absolvidos.

Studart cita outro caso no qual os guerrilheiros saíram para justiçar um jagunço e, também, resolveram poupá-lo depois de ele ter pedido perdão pelos seus crimes. Novamente, o suposto Diário de Grabois justificou o perdão: “Não era dos mais raivosos. Por isso, a solução política dada ao caso talvez tenha sido a melhor”. Quando os guerrilheiros foram justiçar o temido pistoleiro Pedro Mineiro o encontraram com outro jagunço, mas resolveram executar apenas o chefe do grupo e libertar o seu comparsa.

Por fim, cabe-nos lembrar do assalto ao posto policial na Transamazônica, no qual os guerrilheiros vitoriosos se contentaram em colocar os soldados para correr de cuecas. Vejam a diferença entre o tratamento dado pelos guerrilheiros a seus inimigos vencidos e o que era feito pelas Forças Armadas.
Morte por adultério?

Uma das maiores infâmias divulgadas por Studart foi o suposto justiçamento do guerrilheiro Rosalindo Cruz Souza (Mundico). Ele, segundo as “fontes” militares, teria sido executado por ter tentado seduzir a mulher de outro guerrilheiro. Assim o autor descreve a cena da execução: “Dina estourou-lhe o peito por causa de uma transgressão moral, a conjunção carnal com a companheira de um camarada de armas, considerado algo terrivelmente ofensivo ao código revolucionário”. Aqui a imaginação e a má-fé dão as mãos.

Numa carta-resposta a Studart a ex-guerrilheira Luzia Reis Ribeiro escreveu: “nós mulheres éramos livres para escolher com qual companheiro quiséssemos nos relacionar, mesmo as casadas anteriormente (...) o comportamento tido como adultério não existia em nosso meio, podia sair de um relacionamento para outro relacionamento, sem repressão nem a intromissão da Comissão Militar”. Continuou ela: “A própria Dinalva e o Antônio, antes do início da guerra, (...) comunicaram à Comissão Militar que não eram mais marido e mulher e que Dina queria ir para o grupo onde se encontrava ‘Pedro’, Gilberto Olímpio, em outro destacamento”. Então, qual seria a grave transgressão moral em se apaixonar por outra pessoa e largar o marido ou a esposa? Nem uma evidência tão óbvia parece dissuadi-lo da sua “verdade”.

Studart nem ao menos se deu ao trabalho de ler o Regulamento do Tribunal Militar da Guerrilha. Ali não existe pena de morte para adultério. A pena de morte é prevista no caso de violência contra mulher, especialmente estupro. Mesmo assim o fuzilamento é a última e mais grave das punições. Ele também não dá qualquer valor às informações constantes no Relatóriode Arroyo e no suposto Diário de Grabois, que nunca procuraram esconder os casos de justiçamento, mas unanimemente afirmam que Mundico morreu devido a um acidente com sua própria arma. Acidente muito comum nos agrupamentos guerrilheiros. Studart foi induzido a erro pela sua opção ideológica, que o leva sempre a aceitar como mais plausível a versão dos inimigos da Guerrilha.

Por fim, cabe ressaltar que nenhuma das pesquisas realizadas entre o povo da região constatou a existência dessa execução. A notícia de uma execução, presenciada por meia dúzia de camponeses, como afirmaram os militares, se espalharia como fogo em mato seco e teria sido usada pela repressão como contrapropaganda. Por que isso não ocorreu na época? A resposta mais óbvia é de que essa foi uma versão construída posteriormente para mostrar o quão perigosos eram Dina, Osvaldão e André Grabois, que supostamente teriam participado da execução de Mundico. Assim, a morte desses guerrilheiros estaria plenamente justificada.

O mito da direção desertora

Outro mito que os militares pretendem difundir é o de que a direção do PCdoB teria abandonado os guerrilheiros e desertado da luta. Veremos que Studart passa a assumir esta versão sem a mínima sustentação factual e a partir de informações mentirosas, que ele mesmo poderia desmascarar se assim o quisesse.

Os alvos preferidos dos militares – e de Studart – são João Amazonas, Elza Monnerat e Ângelo Arroyo. Os militares, afirma o livro, “demonstram profundo desprezo pelos que fugiram dos combates, especialmente pelos dois dirigentes máximos do partido que deixaram a área ainda no início de 1972, no primeiro sinal da chegada das Forças Armadas – João Amazonas e Elza Monnerat”. Acredito que Studart, em sua santa ingenuidade, nunca se questionou sobre as razões desta unanimidade militar contra os três dirigentes comunistas.

Um historiador sério teria colocado no corpo do texto – e um menos sério em uma pequena nota de rodapé – que os dois dirigentes saíram do Araguaia em março de 1972. Foram participar da reunião do Comitê Central onde foi aprovado o documento 50 anos de Luta. João Amazonas fez o informe principal naquele evento. Quando começou a luta armada eles ainda estavam em São Paulo. Será que Studart não pode concluir por sua própria cabeça que algumas peças não se encaixavam na versão do pessoal da repressão?

Quando Elza e Amazonas estavam no caminho de volta para o Araguaia, a Guerrilha já havia sido descoberta e a área já estava cercada pelo Exército. Foi Elza a primeira a notar a movimentação das tropas; e voltou para avisar Amazonas, salvando-o de uma prisão certa. Somente uma organização irresponsável permitiria que seu principal dirigente fosse preso ou morto logo no início da batalha. Este fato é descrito nas bem documentadas biografias de Elza Monnerat e Maurício Grabois, escritas respectivamente por Verônica Bercht e Osvaldo Bertolino, e abordado em inúmeros artigos.

O melhor advogado de Amazonas é o próprio comandante guerrilheiro. Ao não ter notícia da Guerrilha através das rádios, Grabois chega a temer pela vida do velho amigo. No dia 7 de maio escreve em seu Diário: “Isso nos faz pensar sobre a sorte de Cid (Amazona). Aconteceu alguma coisa com ele? Não acreditamos que tenha sido preso. É suficientemente vivo e esperto para deixar que o apanhem (...). É indispensável romper a barreira da censura ditatorial”. Quando, dias depois, a Rádio Tirana furava o cerco e começava a dar as primeiras notícias do que ocorria no Araguaia, ele escreveu satisfeito: “Isso nos faz crer que Cid conseguiu se safar, colheu informações e pôde transmiti-las aos amigos da Albânia. Para nós o Cid em liberdade é um alívio”. Esse parece o tratamento que um comandante daria a um desertor? O que vemos aqui, na verdade, são sinais de uma amizade e de respeito profundos entre dois grandes revolucionários.

Mas uma das mais sórdidas injustiças cometidas pelo livro foi o tratamento dado a Ângelo Arroyo, apresentado como desertor. Aqui também Studart assume, sem contestação, o ponto de vista dos órgãos de repressão. Ele chega a aventar que Arroyo teria desertado duas semanas antes da queda da Comissão Militar e da morte de Maurício Grabois, ocorrida no natal de 1973. Ao mesmo tempo, cita as últimas anotações do comandante guerrilheiro, feitas poucas horas antes de morrer, que diziam: “Penso em sair da região, pois, se não o fizer, posso criar, com minha doença, uma situação difícil para os comandantes. Discutirei o assunto na próxima reunião da Comissão Militar, que se realizará logo que Joaquim chegue”. Ali não se vê nenhum sinal de dúvida do comandante da Guerrilha sobre o comportamento de Arroyo ou de sua fuga ocorrida duas semanas antes.

O próprio Relatório Arroyo fala do conflito ocorrido no dia 25 de dezembro, combate que dizimou a Comissão Militar da Guerrilha. Como ele poderia saber daquele acontecimento se tivesse fugido duas semanas antes? Prova mais do que suficiente para anular a calúnia dos militares. Mas, quem quereria esclarecer os fatos? Studart, com certeza, não. Por isso, continua se referindo a Arroyo como um desertor. Para os comunistas e demais correntes democráticas e populares, Arroyo é um herói do povo brasileiro. O ódio dos militares contra Arroyo, Amazonas e Elza se deve ao fato de terem sobrevivido ao Araguaia. Eles teriam gostado de que todos tivessem ali morrido. Afinal, como gostava de dizer a direita militar, “comunista bom é comunista morto”.

É comum os militares – e Studart – afirmarem que a cúpula do Partido estava instalada “em segurança” nas cidades enquanto os guerrilheiros se arriscavam nas matas. Será que esses parvos não sabem que não havia nenhuma segurança para os dirigentes comunistas nas cidades e que este foi o motivo pelo qual muitos deles tenham se deslocado para áreas do interior? Será que eles não sabem da prisão, tortura e do assassinato de Lincoln Cordeiro Oest, Carlos Danielli, Luiz Guilhardini, Lincoln Bicalho Roque, Armando Frutuoso e Ruy Frazão, todos dirigentes do PCdoB? Será que estavam em segurança Pedro Pomar, Ângelo Arroyo e João Batista Drummond quando, em dezembro de 1976, foram surpreendidos e massacrados pelos órgãos de repressão?

Para sustentar esta versão sobre a deserção dos dirigentes comunistas é preciso violentar a história. Partindo da direita militar isso é natural. Para aqueles que chegaram a violentar prisioneiras indefesas que mal teria violentar alguns fatos históricos? Mas para um historiador e jornalista as coisas deveriam ser diferentes.

Afirma uma lenda grega que Procusto convidava suas visitas para deitar num leito. Quando elas não se encaixavam exatamente ao tamanho da cama, o anfitrião dava um jeito: esquartejava-as para que ali coubessem. Esta é a mesma lógica adotada por Studart: mutilar a realidade para que ela possa caber em seu esquema limitado.

Os pequenos erros de um livro errado

O livro comete uma série de pequenos erros de informação, que isoladamente não trariam grandes problemas. Mas, quando vistos de conjunto, revelam a ideologia do autor e comprometem a obra como um todo. Vejamos alguns desses pequenos grandes erros.

Segundo Studart, em 1975 “em segurança na Europa, os dirigentes do partido conseguiram veicular na Rádio Tirana e publicar no jornal Le Monde reportagens que sustentavam que a guerrilha teria o controle sobre uma área libertada do tamanho da Bélgica”.

Uma informação capciosa, pois é de conhecimento público que o núcleo dirigente do Partido permaneceu no Brasil até a época da Chacina da Lapa, em dezembro de 1976. Apenas Diógenes Arruda, que havia sido barbaramente torturado no final da década de 1960, recebeu incumbência de ficar no exterior. Havia outro dirigente no exterior, Dynéas Aguiar, mas ficava na América do Sul. Se os dirigentes estivessem em segurança no exterior não teriam sido massacrados em dezembro de 1976. O autor revela um espantoso desconhecimento sobre um dos elementos que deveria ser central de sua pesquisa: o PCdoB. Ele chega ao absurdo de afirmar que o Partido foi criado em 1960, enquanto toda a bibliografia existente afirma que o PCdoB foi reorganizado em fevereiro de 1962.
Studart se refere a Pedro Pomar como “guerrilheiro” – que além de ter sido um dos “idealizadores da guerrilha” teria estado na área antes do início dos combates para montar “uma base de apoio”. Continua ele: “Depois da derrota, o partido difundiu boletins internos garantindo uma estrondosa vitória no Araguaia e começou a divulgar no exterior que teria o controle sobre o território. Pomar então redigiu sua própria análise (...) relatando o que sabia sobre a derrota e tecendo autocrítica sobre a aventura”.

Parece que o autor não se deu ao trabalho de ler nenhuma das biografias de Pomar e nem mesmo o relatório que ele elaborou. Se o tivesse feito saberia que Pomar não foi guerrilheiro nem mesmo esteve no Araguaia. A “base de apoio” que ele montou se encontrava no Vale do Ribeira. Pomar nunca se referiu à Guerrilha do Araguaia como aventura. Tinha por ela grande respeito, apesar dos erros que acreditava terem sido cometidos. A grande polêmica ocorrida no Comitê Central desde 1974 se deu em torno da questão de que a Guerrilha teria sofrido uma derrota temporária ou definitiva e se ela teria tido ou não influências foquistas. Ninguém falou de “estrondosa vitória” da Guerrilha, especialmente depois de ter as notícias das derrotas sofridas.

Studart afirma que Maurício Grabois “foi um dos primeiros guerrilheiros a chegar à região em 1966”. Se tivesse lido a excelente biografia escrita por Osvaldo Bertolino saberia que ele lá chegou em dezembro de 1967. O primeiro a chegar na região foi Osvaldão.

Outro erro se refere ao próprio Osvaldão. O livro diz que ele tinha a patente de coronel concedida pelo Exército da Tchecoslováquia. Na revista ele foi ainda mais longe e afirmou que Osvaldão teria feito um curso de “partisan” no Exército da Tchecoslováquia. Na verdade, ele fez um curso de engenharia, que não chegou a concluir. Naquele mesmo país ele aderiu ao PCdoB e voltou ao Brasil para ajudar na organização do seu novo Partido. O curso político-militar ele fez na China em 1964. Studart confundiu o ano, a patente, o país e o continente.

Falando sobre Francisco Manoel Chaves, Studart diz que nem a direção do Partido sabia o seu nome verdadeiro e que ele somente foi descoberto em 1991, quando foram abertos os arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) no Paraná. Se Studart tivesse se dado ao trabalho de ler o artigo “Francisco Chaves – denotado lutador de Vanguarda”, publicado n’A Classe Operária de maio de 1974, teria descoberto que o PCdoB sabia o nome verdadeiro e parte da biografia daquele guerrilheiro. Esse artigo foi republicado na coletânea 50 anos de luta, publicada em 1975 pela editora Maria da Fonte.

Francisco Chaves, que é citado por Graciliano Ramos em Memórias do Cárcere, havia sido eleito membro suplente do Comitê Central na Conferência da Mantiqueira, ocorrida em 1943. Ou seja, ele era um velho conhecido de Maurício Grabois, João Amazonas, Pedro Pomar e Diógenes de Arruda Câmara.

Falarei apenas de mais um erro, para não cansar demasiadamente o leitor. Ele se refere à afirmação de que um dos fatos mais importantes ocorridos após 1996 “foi a direção do PCdoB ter decidido, finalmente, divulgar o discurso oficial do partido sobre os acontecimentos, publicando o livro-revista Guerrilha do Araguaia – Documentos do PCdoB”.

O problema é que a revista foi lançada em 1982 – quatorze anos antes do que afirma o autor. Sua primeira edição causou um alvoroço na esquerda brasileira e foi apreendida por ordem do ministro da Justiça de então. Na Bahia, dezenas de pessoas foram presas durante o seu lançamento. O acontecimento teve grande repercussão na imprensa nacional e internacional. No ano seguinte, o VI Congresso do PCdoB aprovou o documento Acerca da Violência Revolucionária, fazendo um balanço autocrítico do movimento armado no Araguaia. O texto foi publicado e teve grande circulação. Estranhamente Studart não cita este importante documento: o principal documento partidário tratando da Guerrilha do Araguaia. Pode-se discordar da avaliação do Partido, mas não afirmar que ela não existiu.

Como se vê, são muitos os erros de informação para um trabalho acadêmico. Uma banca mais exigente o teria reprovado e feito reescrever seu trabalho.

*Augusto Buonicore é historiador, secretário-geral da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, história e revolução brasileira: encontros e desencontros e Meu verbo é lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas, ambos pela Editora Anita Garibaldi.
**Artigo republicado (Maio de 2007)


Aula de João Amazonas sobre Guerrilha do Araguaia durante exílio

Imagem resgatada na Albânia, com outros documentos e mídias, por Bernardo Joffily e Olivia RangelImagem resgatada na Albânia, com outros documentos e mídias, por Bernardo Joffily e Olivia Rangel

 O curso foi realizado e Tirana e durou 15 dias para algumas pessoas exiladas na Europa. Entre eles Loreta Valadares, Carlos Valadares, Bernardo Joffili, Olivia Rangel, José Luís Guedes, Nair Guedes, Maria Ester Drummond (Teinha), José Carlos Arruti Rey (Zé Carioca). Entre os professores estavam Amazonas, Arruda e Foto Çami, que era professor da Universidade de Tirana e ministrou as aulas de filosofia. Arruda deu aula de Fundamentos Leninistas de Partido e História do PCdoB. Amazonas tratou da formação histórica do Brasil, realidade brasileira, revolução brasileira, a tática e a estratégia do PCdoB e da Guerrilha do Araguaia. Suas aulas duraram cinco dias.

A fita com a gravação do curso faz parte do rico acervo do Centro de Documentação e Memória da Fundação Maurício Grabois (CDM-Grabois).



Fonte: Portal Maurício Grabois

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Aonde estão nossos heróis e heroínas mortos e desaparecidos da Guerrilha do Araguaia?


Camaradas, o que podemos fazer para marcar lindamente esse ano, a 12 de abril, o 41º aniversário da Guerrilha do Araguaia?



Será que dava pra promover debates?
Será que as pessoas sabem o preço em vidas que o pequenino PCdoB pagou para a democracia brasileira existir? Qual o peso do PCdoB na lista de mortos(as) e desaparecidos(as) da Ditadura que esperam Verdade e Justiça?
Será que as pessoas sabem da história desses jovens, abnegados, dos melhores de sua geração, os únicos que conseguiram aguentar a barra de ir morar com o povo mais desvalido, vivendo anos na Amazônia, adaptando-se e sendo queridos pelos camponeses, fazendo um trabalho social, reconhecido pelo povo, gente querida, conhecida por sua honestidade, bom coração, que deram as suas vidas pela democracia e o Brasil?
Será que eles já ouviram falar do líder do PCdoB na Constituinte de 1946 que escolheu de livre vontade lutar e até tombar, mas jamais se entregar, como foi o caso de Maurício Grabois?
Será que eles ouviram falar do lendário Osvaldão, nosso Zumbi da luta contra a Ditadura?
Será que eles sabem da coragem das guerrilheiras, que botavam muito medo em "soldado cabra macho"? Quem foram Elza Monerat, Dina, Jana Moroni Barroso, Helenira Resende e outras tantas e combativas, e lindas, e guerreiras?

Alguém sabe a cifra para violão da lindíssima canção Canto de Xambioá? Alguém consegue tirar no violão, para que a militância de hoje aprenda os versos: "Xambioá, mata virgem escura foi lá..."
Será que as pessoas já ouviram falar do Zezinho do Araguaia, camponês que conseguiu tirar o Ângelo Arroyo pelos igarapés e trilhas do labirinto amazônico? Será que sabem que Ângelo tombou na Chacina da Lapa, e o Zezinho tá andando por aí, combativo, vermelho e com um sorrisão no rosto?
Será que as pessoas sabem por que, há quase trinta anos, o orgulho e a emoção nos tocam, quando na UJS dizemos que "Tarda, tarda, tarda mas não falha, aqui está presente a juventude do Araguaia?"


Será que as pessoas sabem que não foram os guerrilheiros a começar a luta, mas resistiram até o fim? E que por duas vezes o Exército foi derrotado, a despeito da desigualdade de forças, razão por porque até esbirros da Ditadura e os assassinos reconheceram a capacidade e o heroísmo dos que massacraram?

Será que as pessoas sabem que foi preciso 3 expedições militares com milhares e milhares de soldados para vencer aqueles e aquelas jovens e camponeses? Que o exemplo da mais importante confrontação armada com o regime militar foi alvo de criminosa tentativa de ocultar tantos crimes? Sabem que os jovens foram presos, torturados e mortos, sem prisioneiros, que brasileiros foram tratados pior do que prescreve a Convenção de Genebra para guerras entre países? Será que eles sabem que ocultaram os cadáveres, desenterraram-nos, queimaram seus restos, e sumiram com os corpos para que o Brasil não pudesse saber o que foi feito?




Será que eles sabem das famílias que ainda hoje não podem enterrar seus mortos, gente boa, do bem, querida, altruísta, que deu tudo pela democracia que respiramos hoje?

Aonde estão nossos heróis e heroínas mortos e desaparecidos da Guerrilha do Araguaia?

Leia o especial do Coletivizando sobre os 40 anos da Guerrilha do Araguaia (2012) 

Homenagem da UJS aos Guerrilheiros do Araguaia

quinta-feira, 12 de abril de 2012

40 anos da Guerrilha do Araguaia - Justiça e verdade para nossos herois insepultos - Paulo Vinícius

Ha 40 anos iniciava-se a heroica resistencia da Guerrilha do Araguaia. Foi a mais importante expressão da luta armada contra a Ditadura Cívico-Militar de 1964. Não combateu por sua própria iniciativa, pretendia-se um trabalho lento e cuidadoso de inserção na comunidade, que durou anos e teve grande êxito ao ligar os guerrilheiros e guerrilheiras ao povo, que lhes queria, porque solidários, tranbalhadores, honestos e amigos.

Foram surpreendidos pela perseguição da Ditadura, não iniciaram o combate. Mas, sob o fogo pesado, Davi se resistiu e se agigantou. Combateu não contra a polícia, mas contra o Exército. Por duas vezes sua ação redundou na retirada das FFAA da confrontação, malgrado infinita desigualdade de forças. Dezenas de milhares de soldados, terrorismo de Estado contra toda a população camponesa da região, a própria mudança do modelo de desenvolvimento para aquela parte do país, só a tal preço, e ao custo de crimes, foi possível derrotar a Guerrilha. Por isso ela é ainda hoje o grande tabu do Regime Cívico-Militar de 1964, tabu que precisa ser desfeito para que a verdade e a justiça prevaleçam.

A partir de hoje, homenageemos esses herois da juventude, da luta pela democracia e por uma vida melhor para os povos da Amazonia. Gente de bem, exemplos, gente corajosa, solidária, que se fez querida pelo povo simples e lutador, por estar com eles ombro a ombro, no eito, na dificuldade, no carinho com a saúde, na luta.

De todo o pais vieram, como os mártires cearenses Bergson Gurjão Farias, Jana Moroni Barroso, Custódio Saraiva Neto. Bergson foi recentemente sepultado, enfim. Inomináveis crimes foram cometidos contra esses jovens e a população camponesa que tanto bem lhes queria: tortura, sevícias, assassinato covarde, decapitação, e, até o presente, ocultação de cadáveres... As Forças Armadas não podem se confundir com essas monstruosidades cometidas por uma geração que não foi digna do histórico papel progressista que as FFAA cumpriram na História do Brasil, como com Euclides da Cunha, a FEB e Lott, papel que, para o bem do Brasil, ainda hão de cumprir, na defesa de nossa soberania contra o imperialismo. Esse caráter e esse papel progressistas, no entanto, são incompatíveis com a postura covarde e cínica dos criminosos do passado. Não devem as gerações atuais compactuar com os crimes, mas ao contrário, repudiá-los, unir-se ao povo, fazer sua parte na expiação de tamanha vergonha que segue a separar as Forças Armadas de seu povo.

O mínimo seria o que ainda aguardamos: que se permita às familias enlutadas e insones o direito universal de poderem sepultar seus entes queridos. Direito que Aquiles assegurou a Príamo na Guerra de Tróia, como se narra na Ilíada, quando entregou o corpo de Heitor para que o pai lhe pranteasse. Direito que se assegura a combatentes inimigos em guerra entre paises, direito ainda hoje negado a esses brasileiros que lutavam contra um regime que violentou a democracia, o Estado de Direito e os Direitos Humanos.

Onde estão os nossos mortos e "desaparecidos" da Guerrilha do Araguaia?

Leia mais sobre a Guerrilha do Araguaia

www.grabois.org.br
A passagem dos 40 anos do início dos combates no Araguaia, em 12 de abril, será lembrada em diferentes pontos do Brasil. Em São Paulo haverá um evento dia 14. O momento é de reflexão sobre o significado da heróica resistência dos guerrilheiros que lutaram nas selvas amazônicas em defesa da liberdade, da nação e dos direitos do povo brasileiro.

Em Coletivizando:

Guerrilha do Araguaia: 12 de Abril de 1972 marcou nossa história - Portal Vermelho

 

Manifesto sobre a saga dos comunistas - Portal Vermelho

 

Vídeo: depoimento De Criméia Almeida - Amor & Revolução (Continuação)

 

Centenário de João Amazonas - À guerrilheira que morreu pela liberdade - Em Artigo, João Amazonas homenageia Maria Lúcia Petit (1997)

 

 Bergson Gurjão Farias: Guerrilheiro do Araguaia

 

Vídeo: Bergson Gurjão: de fera do basquete a herói do Araguaia

 

Relatos cearenses de Bergson, herói do Araguaia

 

Identificada a ossada de Bergson Gurjão, a 1ª baixa do PCdoB no Araguaia

domingo, 1 de janeiro de 2012

Centenário de João Amazonas - À guerrilheira que morreu pela liberdade - Em Artigo, João Amazonas homenageia Maria Lúcia Petit (1997)

  1. www.grabois.org.br - Fundação Maurício Grabois 
Maria Lúcia Petit


Maria Lúcia Petit, guerrilheira do Araguaia, morreu nas primeiras semanas de luta, a 16 de maio de 1972. Este artigo, escrito na ocasião por João Amazonas, assinado como Alfeu Duarte, foi difundido pelo Brasil de forma limitada na época. O corpo de Maria Lúcia Petit, foi o primeiro a se exumado e reconhecido. Maria Lúcia foi enterrada em Bauru (SP), no dia 15 de junho de 1996.


Eu queria colocar uma rosa, uma simples rosa vermelha entre as mãos geladas pela morte da guerrilheira do Araguaia, Maria Lúcia Petit.

Seria uma homenagem simbólica, dedicada áquela que deu a vida lutando pela liberdade e pelo bem do povo. Com esse gesto eu exprimiria toda a ternura de seus companheiros e a afirmação solene de que seu sangue não foi derramado inutilmente. Mas, foi impossível de o fazer. Ninguém podia aproximar-se de seu cadáver, vigiado pelas forças militares, nem conduzir seu corpo a última morada. Os bandidos do Exército têm medo dos combatentes da liberdade, mesmo após sua morte. De longe, seus amigos choraram a perda desta jovem dedicada à causa dos oprimidos e juraram prosseguir a luta contra a ditadura sanguinária até a vitória final.

Tinha pouco mais de 20 anos, esta heróica guerrilheira. Ela amava a vida. Trabalhou e estudou na capital de São Paulo, onde desfrutava de ralativo conforto. Podia como muitas outras jovens, seguir os velhos caminhos do casamento e do aburguesamento. Apesar disso, preferiu dar um sentido a sua existência. Amava a liberdade e odiava o regime militar que persegue violentamente a juventude e fecha o caminho para a realização de seus melhores e mais caros sonhos.

Não hesitou. Há quase 2 anos partiu de São Paulo e foi viver no interior do Estado de Goiás. Fez numerosos amigos no lugar pobre onde morou. Mais tarde, mudou-se em direção ao Sul do Estado do Pará. Trabalhou no campo. Adquiriu melhor conhecimento da terrível situação de abandono e de miséria na qual vegetam os trabalhadores rurais e a população camponesa.

Em abril, as Forças Armadas, no curso de uma de suas provocações costumeiras, atacaram os habitantes da margem esquerda do Araguaia, onde Maria Lúcia morava. Cometeram toda espécie de violência.

Mas não sairam impunes deste covarde ataque. Muitos dos habitantes pegaram em armas, se retiraram para a mata, e decidiram resistir.

Maria tomou lugar entre os resistentes, transformando-se em guerrilheira, combatendo pela liberdade e pelos direitos do povo. Durante semanas viveu na floresta, dormindo sob estrelas, procurando os meios de sobreviver e estudando a arte militar. Apoiada pelas massas, combateu as forças da reação. Cumpriu corajosamente as tarefas mais arriscadas, sem se lastimar das dificuldades, sem deixar arrefecer seu entusiasmo juvenil. Pensava sempre sobre o que havia escrito um poeta: “A luta abate somente os fracos. Ela não pode exaltar senão os bravos e os fortes”.

Tendo pouquíssima experiência, perdeu a vida, ao mesmo tempo que outro companheiro, em uma emboscada preparada pelo inimigo, muito próximo à casa de pessoas que conhecia e que procurava para ter o seu apoio. Não tinha medo da morte. Tombou lutando, a arma na mão. Seu fim glorioso impressionou a população local que ela estimava e admirava muito.

Um general fascista, chefe de polícia do Estado do Mato Grosso, festejou a notícia declarando que estava lá o tratamento que o Exército reservava àqueles que ousavam lutar no Araguaia. O bandido não perde por esperar. As Forças Armadas já estão pagando, e pagarão sempre mais, um alto preço pela vida de cada guerrilheiro. A morte dos que combatem pela liberdade se transforma num apelo, escrito com sangue, a todos os brasileiros inconformados com a tirania. Milhares de outros combatentes ocuparão, mais cedo ou mais tarde, o lugar dos que tombarem. E chegará o dia em que nesta terra mandará o povo e não um punhado de militares que odeiam a democracia e traem os interesses da nação.

Maria Lúcia Petiti viverá sempre na lembrança dos verdadeiros democratas e patriotas, Muitas e muitas rosas, as rosas vermelhas da nossa saudade e do nosso reconhecimento, serão ainda ofertadas à memória de quem viveu, lutou e morreu pela felicidade do povo e pela liberdade da pátria.

EDIÇÃO 44, FEV/MAR/ABR, 1997, PÁGINAS 79

domingo, 20 de novembro de 2011

Justiça extingue processo contra Camponeses do Araguaia - Portal Vermelho

Justiça extingue processo contra Camponeses do Araguaia - Portal Vermelho

Fruto de uma luta organizada pela Associação dos Torturados da Guerrilha do Araguaia, e é de conhecimento de todos, que em Junho de 2009, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, na pessoa do então Ministro da Justiça Tarso Genro, concedeu em praça pública de São Domingos do Araguaia, Anistias à 45 Camponeses que foram vitímas de perseguições políticas durante a Guerrilha do Araguaia.

Por Sezostrys Alves da Costa

Contudo, estas indenizações foram suspensas através de uma medida liminar concedida pelo Juiz Substituto da 27ª Vara Federal do Rio de Janeiro em favor do Advogado João Henrique Nascimento de Freitas, este Assessor Jurídico do Deputado Federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), liminar esta expedida em setembro de 2009. Ato este que veio a atender simplesmente os anseios de cunho político e ideológico da família Bolsonaro, o que foi contestato em juízo.

Desde então uma grande batalha jurídica se iniciou, onde a Associação dos Torturados da Guerrilha do Araguaia, contando com o apoio incisivo da Ordem dos Advogados do Brasil Seção Rio de Janeiro, Conselho Federal da OAB, do PCdoB, Comissão de Anistia e particularmente dos Advogados Ronaldo Fonteles e Cláudio Moraes, estes representantes dos camponeses no processo.

Diversas reuniões ocorreram pra tratar da questão, dentre elas se destaca uma reunião realizada no Rio de Janeiro, onde reuniu o Presidente Nacional da OAB, Ophir Cavalcante e o Presidente da Seção da OAB/RJ, Wadih Damus, estando ainda Sezostrys Alves da Costa, tesoureiro da Associação dos Torturados da Guerrilha do Araguaia, Paulo Fonteles Filho, dirigente do Instituto Paulo Fonteles, Aldo Arantes, da direção Nacional do PCdoB e os advogados Ronaldo Fonteles e Cláudio Moraes, assessores jurídicos, onde se debateu sobre situação do processo e seus os novos rumos e a situação dos camponeses, onde 6 dos anistiados foram a óbito sem receber os seus direitos já assegurados pela Comissão de Anistia.

Os assessores jurídicos dos camponeses impetraram com uma robusta contestação em defesa dos 45 camponeses anistiados e estavam à espera da decisão judicial em atenção ao que fora requerido na referida contestação, observando que outras petições foram juntadas no sentido de legitimar o que foi concedido aos camponeses outrora.

Segundo descrevem, "conquistamos uma vitória nesta sexta-feira (18) aos camponeses do araguaia, pois a Juiza Substituta da 27ª Vara Federal do Rio de Janeiro expediu sua decisão assim descrita:

'Ante o exposto, REVOGO a liminar deferida às fls. 75/80 e com os efeitos estendidos às fls. 609/610. Intimem-se os réus, com urgência.

Outrossim, JULGO EXTINTO O PROCESSO, sem resolução de mérito, nos termos do Artigo 267, I e IV e 295, I, ambos do Código de Processo Civil, em virtude da inépcia da inicial e conseqüente carência da ação.'

Para Sezostrys Alves da Costa, tesoureiro da Associação dos Torturados da Guerrilha do Araguaia, que participou ativamente do movimento em busca desta vitória dos camponeses, esta é uma vitória tardia, pois já se passou mais de dois anos da suspensão, mas ainda na medida certa e conforme esperávamos, pois vem a tempo de dezenas de camponeses anistiados poderem usufruir dos seus direitos, lamentando a morte de 6 deles, mas que seus sucessores farão jus ao benefício, lembrando que a partir de agora, novos julgamentos de processos na Comissão de Anistia devem ocorrer, tendo em vista que a mesma estava tendo limitações devido o problema judicial que havia.

Nos próximos dias o Ministério do Planejamento deverá retomar os pagamentos aos anistiados. "Esta vitória é uma conquista de todos os Camponeses do Araguaia, pela luta que travam em busca do reconhecimento do Estado, é um ato louvável na democracia brasileira que precisa ser mais ainda igualitária ao seu povo", diz Sezostrys.

"A diretoria da Associação dos Torturados da Guerrilha do Araguaia, vem depois de mais de dois anos de muito luta e esperança na Justiça, agradecer a todos, pois graças ao trabalho de muitos atores que através de suas importâncias contribuiram conosco, hoje estamos de posse desta importante decisão judicial e uma grande vitória aos camponeses.

Ainda o excelente trabalho de nossos advogados Claúdio Rocha de Moraes e Ronaldo Fonteles, com o incisivo apoio do Partido Comunista do Brasil, Ordem dos Advogados do Brasilseção do Rio de Janeiro, Conselho Federal da OAB, AGU, Comissão de Anistia, Escritório do doutor Cezar Britto e outros.

Esperamos que agora todos os Camponeses tenha condições de usufruirem dos seus direitos já assegurados pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, órgão que brilhantemente defendeu a legitimidade dos seus atos judicialmente, o que esperamos a partir de agora quesejam retomados os tramites administrativos dos demais ainda sem julgamento.

Ressaltamos que já foi impetrado recurso pela parte autora no processo (os Bolsonaros), onde requerem certamente que sejam novamente suspensas as indenizações, mas creiamos e esperamos que todos nós estejamos atentos pra que isso não mais ocorra.

Um forte abraço e nossos sinceros agradecimentos a todos, e que fortaleçamos ainda mais esta luta apartir de agora, pois são centenas de camponeses que na sua humildade esperarampor décadas pra serem reparados e que isto se realize sem mais delongas, tendo em vista que a Comissão de Anistia a partir de agora passa a ter novamente, depois de tanto tempo limitada, autonomia sobre suas decisões administrativas, pois estava inviabilizada de tramitar processos do araguaia por conta da decisão judicial revogada. Mas agora todos nós respiramos aliviados e convictos de que a democracia está a se fortalecer neste país", completa Sezostrys.

Com informações do blog da Associação dos Torturados da Guerrilha do Araguaia

terça-feira, 14 de junho de 2011

Última entrevista de João Amazonas, líder e ideólogo do PCdoB - TV Câmara - Programa Memória Política

Programa Memória Política da TV Câmara traz a última entrevista de Amazonas, em seu último ano de vida. Com invejável lucidez, o mais então antigo comunista em atividade, avalia a sua vida e a luta pelas liberdades, a soberania e o socialismo no Brasil do século XX. É uma aula, vale muito a pena ver.

Paulo Vinícius


sexta-feira, 22 de abril de 2011

Bertolino:O Diário de Maurício Grabois e os devaneios de um jornalista

Bertolino: Maurício Grabois e os devaneios de um jornalista - Portal Vermelho

Por coincidência, acabo de ler o que seria o diário de Maurício Garbois, no exato momento em que a revista CartaCapital chega às bancas com este tema como matéria de capa. O texto, intitulado "Devaneio na selva" e assinado por Lucas Figueiredo, comenta “O diário do Araguaia”, tema anunciado como “exclusivo”. O assunto, no entanto, não é novo. Quando escrevi a biografia de Maurício Grabois, publicada em 2004 pela editora Anita Garibaldi, deparei com informações que davam conta desse diário.

Reprodução
carta capital - araguaia
A capa da revista CartaCapital desta semana traz a reportagem de Lucas Figueiredo sobre o diário de Maurício Grabois no Araguaia
Por Osvaldo Bertolino*

Recebi, anonimamente, trechos do que seriam as anotações do comandante militar da Guerrilha do Araguaia, mas, impossibilitado de verificar a veracidade do documento, não usei as informações.

Segundo o jornalista Hugo Studart, que escreveu o livro A Lei da Selva, trata-se uma cópia preservada por um militar. Em artigo publicado pela revista Brasil História, edição de março de 2007, ele diz que o destino e principalmente o teor do diário ficaram ocultos por três décadas. “O diário foi encontrado pelas tropas que mataram Grabois, dentro de suas roupas, já estufado pela umidade. O documento chegou a Marabá no final da tarde de 25 de dezembro de 1973, para ser encaminhado na primeira hora do dia seguinte ao Centro de Informações do Exército (CIE), em Brasília”, diz ele.

Segundo Studart, um capitão da área de informações pediu o material emprestado aos colegas para examiná-lo e, sem consultar os superiores, convocou cinco soldados para que atravessassem a madrugada copiando o conteúdo à mão. Pela manhã devolveu o documento. O diário original desapareceu dos arquivos do CIE, provavelmente destruído no crematório ocorrido em fins de 1974, por ordem do presidente Ernesto Geisel, para ocultar os combates no Araguaia. Restou a cópia (mais tarde datilografada), preservada nos arquivos pessoais daquele capitão. Três oficiais superiores, antigos membros da Comunidade de Informações que tiveram acesso aos originais antes da cremação, atestam a autenticidade do conteúdo que consta na cópia.

O último combate

O jornalista diz que Grabois começou o diário três semanas após a chegada do Exército. Ele esmerou-se nos detalhes dos crimes cometidos pela repressão no Araguaia, a principal razão que levou os generais do regime militar mandar destruir a maior parte dos documentos sobre a Guerrilha, incluindo o diário do seu comandante militar. Studart descreveu o documento como rico na descrição das receitas de alimentos e medicamentos utilizadas pelos guerrilheiros, assim como na transcrição de poemas e letras de canções invocadas no cotidiano das selvas.

Grabois escreveu até dia do seu último combate, em 25 de dezembro de 1973, quando, segundo escreveu João Quartim de Moraes no prefácio da biografia que fiz, o Brasil vivia o tempo dos assassinos, dos curiós, dos sérgios fleury e congêneres. Era “também o tempo dos verdadeiros heróis, dos que em vida se comoviam até as lágrimas com a imensa miséria e o indizível sofrimento dos humilhados, dos famélicos, dos sem-infância e sem-esperança, mas que, na hora do combate final, caem de pé, olhando a morte na cara”. Grabois morreu no grande combate que ficou conhecido como o “Chafurdo de Natal”.

Descrevi, no livro, a cena nestes termos:

“No início da operação, batizada de 'Sucuri', instalou-se na região um sujeito chamado Marco Antônio Luchini, enviado como engenheiro do Incra. Era na verdade o major Sebastião Rodrigues de Moura, o Curió, ferrenho anticomunista que em 1961, como tenente, foi preso por participar da trama que tentou impedir a posse presidencial de João Goulart. No golpe de 1964, ele participou ativamente da conspiração e chegou ao CIEx. Frio e sanguinário, ficou famoso na região por receber de pistoleiros as cabeças, mãos e dedos decepados dos guerrilheiros para os quais pagava de 10 a 50 mil cruzeiros – dependendo da importância política da vítima.

Por trás da operação estava o general Antônio Bandeira. Curió foi, possivelmente, a figura que mais encarnou o espírito da “guerra suja”, que rasgou todas as leis e princípios que regem os conflitos militares e os direitos básicos do ser humano. Curió ainda iria participar de outras atrocidades praticadas pela ditadura – como a “chacina da Lapa”, quando em 1976 a repressão assassinou dirigentes do PCdoB em São Paulo – e se estabelecer na região, onde foi eleito deputado, dominou o garimpo de Serra Pelada à força e fundou uma cidade em homenagem ao seu nome – Curionópolis.

No dia 25 de dezembro de 1973, Curió comandava a patrulha que, no final daquela manhã chuvosa, por volta das onze horas e vinte cinco minutos, encontrou o grupo de guerrilheiros. O major viu entre eles aquele que o relatório do CIEx classificou como o comandante militar da Guerrilha, que destacava-se dos demais pela idade – estava com 61 anos. Maurício Grabois recebeu um tiro de fuzil no braço esquerdo, abaixou-se, puxou o revólver e de joelhos atirou até ser atingido mortalmente na cabeça. Apropriadamente, o oficial que presenciou a cena proclamou: “Foi a morte de um lutador”.

No início do dia 25 de dezembro de 1973, exatamente seis anos depois do desembarque de Maurício Grabois no Araguaia, dos 69 guerrilheiros enviados à região 41 estavam vivos, 20 mortos, 7 presos e um – João Carlos Borgeth, o “Paulo Paquetá” – havia fugido. No tiroteio contra a Comissão Militar naquela manhã de Natal, dos 15 que estavam no grupo dez sobreviveram. Os mortos foram, além de Maurício Grabois, seu genro Gilberto Olímpio Maria, Líbero Giancarlo Castiglia, o “Joca” – que chegou com ele e Elza Monnerat à região em 1967, e possivelmente foi preso ainda com vida –, Paulo Mendes Rodrigues e Guilherme Gomes Lund. Os demais guerrilheiros estavam acampados num local mais abaixo ou realizando tarefas nas redondezas.”

Para escrever a biografia, consultei muitas fontes, conversei demoradamente com pessoas que conviveram com Grabois e mergulhei fundo em seus escritos. A impressão que fiquei é de um homem à frente do seu tempo, de rara capacidade intelectual, de caráter sólido e totalmente envolvido com a causa que embala a humanidade desde tempos imemoriais: a luta pelo futuro. É daqueles que, como disse o escritor Monteiro Lobato na carta enviada a Caio Prado Júnior quando este estava na prisão, quanto mais a gente conhece, mais admira. “A regra é ao contrário: à proporção que a gente vai conhecendo um homem, vai se decepcionando – vendo-lhe as falhinhas...”, disse.

Formulação de Karl Marx

No caso de Grabois e de seus contemporâneos que reorganizaram o Partido Comunista do Brasil em 1943, na Conferência da Mantiqueira, e em 1962, aplica-se muito bem a formulação de Karl Marx, na obra O dezoito brumário de Luis Bonaparte, de que a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. “Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”, diz ele.

Esse é ponto: Grabois se destaca nos noticiários por ter participado até à morte naquela que é considerada a mais dura linha de resistência à ditadura de 1964, a Guerrilha do Araguaia, mas o seu legado oprime o cérebro dos que procuram esvaziar as suas ideias. O conjunto da sua obra nem sempre é devidamente valorizado – uma opção da mídia que, sabemos muito bem, não tem o menor interesse em retratar o alcance da Guerrilha do Araguaia.

Chutes teóricos de Lucas Figueiredo

O que causa estranheza é a opção de CartaCapital de entregar esse assunto ao jornalista Lucas Figueiredo, que se revelou um desconhecedor das elementares informações que possibilitariam um juízo mais em conformidade com os fatos descritos no diário. Já no início da matéria, ele deduz que Grabois ilude-se sobre o ânimo das “massas”, que seriam “a miserável população local que quer cooptar para fazer a revolução comunista no Brasil”. Devaneio maior, impossível.

Bastaria raciocinar não mais que cinco minutos para saber que uma “revolução comunista” era o que menos estava em questão naquele movimento. Se for para ser mais rigoroso, é possível dizer que Lucas Figueiredo não se deu sequer ao trabalho de evitar chutes teóricos para qualificar a luta armada no Sul do Pará. Seria o caso de perguntar: onde ele leu, ouviu ou obteve tal informação? Se diz que Grabois e seus camaradas queriam “fazer a revolução comunista”, deveria explicar o que vem a ser isso. É o velho vício da mídia, de disparar preconceitos sem a menor preocupação.

O esperto jornalista

Para Lucas Figueiredo, “tudo conspirava contra os guerrilheiros”, mas o ingênuo Grabois “julgava que a situação era ‘favorável’”. O esperto jornalista diz que “fica patente” no diário “que, entre o sonho e a realidade, Grabois abraça o primeiro e renega a segunda, um gesto bonito para um idealista, mas fatal para um comandante militar”. Bem, quando o assunto chega a esse tom professoral, é preciso tomar cuidado. Como sabemos, professores nem sempre gostam de ser contestados. Mas alguns pontos são tão falseados que, mesmo com esse risco, não dá para não comentar.

Lucas Figueiredo descreve Grabois como um ser tão incapacitado intelectualmente que passava horas de seu dia a ouvir as transmissões da Rádio Tirana e acreditava nas notícias que chegavam “da distante e fechada Albânia comunista”. “Grabois chega a acreditar que não só ele e seus companheiros ouvem a propaganda vermelha da Tirana (sic), a ‘melhor fonte de informações’”, escreve. Aqui a desinformação assusta. Bastaria um rápida busca na internet para saber que o PCdoB montara um sofisticado sistema de transmissão de informações, via Rádio Tirana, que vinham exatamente de onde Grabois estava. Dizer, como faz Lucas Figueiredo, que Grabois tomava propaganda como informação é o cúmulo do descaso.

Uma confusão primária

Para o jornalista, a capacidade do comandante “de se entregar ao autoengano parece infinita”. “O diário mostra que ele confundia o apoio logístico dado pela população local, que realmente existiu durante um tempo, com a nunca efetivada adesão à luta”, diz ele. Lucas Figueiredo poderia ter assistido ao documentário Camponeses do Araguaia – a Guerrilha vista por dentro (veja aqui do lado, na coluna da esquerda), do qual participei como responsável pelas entrevistas, para ver que Grabois tinha razão. Deveria também ler os documentos sobre o caráter daquela resistência para saber que ninguém, muito menos o comandante, queria que a população aderisse “efetivamente” à luta. É uma confusão primária, sabe-se lá com qual propósito.

O texto se lança em outros devaneios de menor intensidade, como as descrições de Grabois sobre as dificuldades enfrentadas na mata e a busca incessante por comida. Aí Lucas Figueiredo voa tão baixo que é impossível alcançá-lo. “O diário revela um guerrilheiro obcecado por comida”, diz ele. Depois dessa triste passagem, ele volta a atacar Grabois, “um comandante rigoroso, sobretudo com os outros”.

Palavreado rasteiro, chulo

Aparece novamente um ser ingênuo e incapacitado a ponto de escrever regras como “garantir o autoabastecimento” e “levar a cabo ações armadas contra o inimigo”. “Espera que os estudantes e profissionais liberais de pouca idade levados pelo PCdoB para a mata sejam verdadeiros Rambos”, escreve. “E quando não o são, Grabois os chama de ‘problema’, ‘acovardado’, ‘pouco desenvolto’ ‘ingênuo’ e ‘um tanto lerdo de raciocínio’”, diz o jornalista, fazendo citações descontextualizadas e demonstrando que leu o diário de forma artificial.

Mas, segundo Lucas Figueiredo, Garbois era tão estulto que “quando se tratava de analisar a si próprio como comandante e o PCdoB como Estado-Maior da guerrilha, era generoso”. O palavreado é rasteiro, chulo. “Se os 69 combatentes ‘inexperientes’ – pelo menos isso ele admitia – seguissem à risca as ordens emanadas da cúpula vermelha e da inspiração do ‘mestre da guerra popular' Mao Tse Tung, seria ‘impossível’ perder a luta contra o rolo compressor liderado pelo Exército e apoiado pela Aeronáutica, Marinha, Polícia Federal e as PMS de três estados”, escreve. Quantos devaneios!

Dignidade humana personalizada

Para finalizar, Lucas Figueiredo atribui às chuvas as derrotas sofridas pela repressão em suas duas primeiras campanhas. E na operação final fica-se com a impressão de que os bandos comandados por Curió é que estavam certos. “Em fevereiro de 1973, às vésperas do início da campanha definitiva dos militares, (Grabois) aceita em sua mente (sic) o jogo do tudo ou nada. ‘No final, como nos filmes de mocinho, tudo acabará bem. Se não acabar... azar nosso’”, escreve ele.

Grabois não merecia isso tudo. Se pudesse dizer algo para o comandante da Guerrilha do Araguaia, utilizaria ideias e palavras de Monteiro Lobato na carta a Caio Prado Júnior. Cada ato seu o eleva mais. Morreu por ser digno, honesto em uma era de desonestos, corajoso nesse tempo de covardes, limpo em um século de sujeiras. Eu aqui, da minha insignificância, Grabois, te beijo a mão comovido – como se beijasse a mão da própria dignidade humana personalizada.

*Osvaldo Bertolino é jornalista, pesquisador da Fundação Maurício Grabois e editor do portal desta instituição (grabois.org.br).

Fonte: Blog O outro lado da notícia

Download Leia aqui a íntegra do diário de Maurício Grabois

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Guerrilha do Araguaia: 12 de Abril de 1972 marcou nossa história - Romualdo Pessoa Campos Filho



Portal Vermelho




A “verdade” pode ter muitas faces, servir a muitos interesses, mas os fatos históricos falam por si. Só precisamos relatá-los com honestidade. E assim, o tempo se encarregará de fazer justiça àqueles que deram suas vidas para alterar o rumo de nosso país. Ao governo brasileiro resta dar respostas às famílias dos guerrilheiros sobre como se deram as condições de suas mortes e onde se encontram seus corpos.
por Romualdo Pessoa Campos Filho* em seu blog Carpe Diem - Gramática do Mundo

Em 1995, ao concluir a dissertação de mestrado, sobre a Guerrilha do Araguaia, eu tinha plena convicção que havia me envolvido em uma pesquisa, cuja história demoraria a ser concluída. Muito embora eu carregue a satisfação de ver o primeiro livro publicado sobre o tema, a partir de uma pesquisa acadêmica, era visível o fato que pelos anos seguintes, principalmente com o país consolidando a democracia, novos estudos, pesquisas e livros publicados viessem a ampliar o volume de informações que estavam sendo sonegadas à sociedade e a nós, pesquisadores.

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Jana Sá: "39 anos da Guerrilha do Araguaia: não esquecer jamais"




Quando comecei minha pesquisa, - e em minha primeira viagem à região contei com a companhia de um amigo e também pesquisador da guerrilha, Gilvane Felipe, que defendeu sua dissertação de mestrado na França, na Université de La Sorbonne Nouvelle (Paris III), em 1993 - tínhamos grandes dificuldades em ter acesso aos documentos sigilosos, das Forças Armadas, que nos ajudassem a compreender, pela ótica dos militares, aquele conflito. Ou que servissem para identificar as mortes daqueles guerrilheiros cujos corpos não foram jamais encontrados.

Por isso o meu trabalho buscou outro foco. Compreender a Guerrilha do Araguaia pelo olhar dos habitantes daquela região, abrangendo desde Marabá, no Pará, até o outro lado do Rio Araguaia, então Estado de Goiás (hoje Tocantins), em Xambioá e chegando até Araguanã. Subindo até a confluência dos Estados do Maranhão e atual Tocantins, de um lado, Porto Franco, do outro Tocantinópolis.

Viajamos àquela região de Chevette (rebaixado, uma verdadeira aventura. Atolamos três vezes, pois o período era de chuvas) subindo pela Belém-Brasília até a cidade de Araguatins, onde alcançamos a Transamazônica após atravessarmos o Rio Araguaia. Dali, rumamos para Marabá, onde, obtendo o apoio da prefeitura daquela cidade (na época encontramos na secretaria de Comunicação um antigo colega de lutas no Movimento Estudantil em Goiás, o atual deputado estadual pelo Pará, João Salame Neto) pudemos fazer um ótimo trabalho de campo, com entrevistas importantes em um momento ainda de profundo silêncio, em decorrência do temor que se tinha de falar do tema.

O medo era sustentado pela presença de militares, mas também pelo trauma que ficou, criando no inconsciente das pessoas, às vezes, uma falsa convicção que estavam sendo sempre vigiados pelo “pessoal do Curió”, os “secretas” (Sebastião Moura, o Curió, foi um personagem central no combate à guerrilha. Na época era capitão, infiltrou-se na região no período anterior à terceira campanha e tornou-se responsável pela ordem e execução de muitos prisioneiros. Recentemente foi preso em Brasília, pela Polícia Federal, acusado de esconder documentos importantes sobre a Guerrilha).

Fizemos várias entrevistas, começando por Marabá, seguindo em direção à São Domingos do Araguaia (na época da Guerrilha São Domingos das Latas), Brejo Grande, Palestina, Bacaba (uma antiga base militar e também local de prisão e tortura), São Geraldo e Xambioá.

Coincidentemente nos hospedamos, a partir do apoio da prefeitura, em uma casa no conjunto habitacional do antigo Incra. Aquele local, na época da guerrilha, havia se tornado uma espécie de quartel-general no combate ao movimento guerrilheiro. Bem em frente, ficava a antiga sede do DNER, que passou a ser conhecida como “Casa Azul”, local onde se definiam as operações antiguerrilha - portanto comando de ações das Forças Armadas -, e depois outro local para onde guerrilheiros e moradores da região eram presos e submetidos à tortura. Mas isso só viríamos saber depois, com o andamento de nossas investigações.

Descobrimos, pelos depoimentos colhidos, que as pessoas detidas eram levadas para a Bacaba e para Xambioá. Nesses dois lugares haviam dois buracos, cobertos por uma grade cada um, onde os prisioneiros eram literalmente jogados. Um deles, os soldados apelidaram de Vietnã. Água suja, ratos, cobras, eram jogados para assustar e intimidar os presos. Dali, alguns eram levados para a “Casa Azul”, onde eram submetidos a novos tipos de torturas. Alguns voltavam para Bacaba, quando não ficavam comprovados maiores envolvimentos. Permaneciam mais algum tempo presos e depois eram libertados. Já a partir da terceira campanha, final de 1973 em diante, os prisioneiros mais diretamente envolvidos no movimento eram levados de volta à mata e sumariamente executados.

Quanto mais avançávamos em direção aos municípios onde os conflitos se deram com maior intensidade, mais compreendíamos a dimensão de um movimento que ainda tinha muito a nos revelar. A cada entrevista, a cada contato com um morador, a cada depoimento de camponeses agredidos e obrigados a tornarem-se guias dos pelotões militares, mais sentíamos que tínhamos em mãos um fato histórico que escondia feridas não cicatrizadas, protegidas a ferro e fogo por quem extrapolou nos limites estabelecidos em acordos internacionais, principalmente no que diz respeito à proteção da população civil e aos combatentes aprisionados com vida. Aos poucos comprovávamos que aconteceram muitas execuções. Guerrilheiros, e até mesmo moradores da região, após serem torturados eram assassinados friamente.

Gradativamente íamos descobrindo segredos guardados pelas Forças Armadas, cujo objetivo era impedir que os abusos que foram praticados no combate à guerrilha fossem apontados e submetidos às sanções como crimes de guerras. Além da tentativa desesperada de omitir para a história os erros que foram cometidos pelas forças militares institucionais. Estratégias e táticas equivocadas que levaram a três operações, sendo que duas delas foram mal sucedidas, fracassadas em seus intentos de eliminarem rapidamente um conflito do qual não se tinham ainda maiores informações.

Erros de inteligência, na identificação do grau de capacidade de reação dos insurgentes, foram cruciais para derrotar as forças armadas nas duas primeiras ofensivas. Soldados mal preparados, e desconhecendo o real objetivo de suas presenças na região do Araguaia, completavam o festival de equívocos cometidos pelos comandantes militares, do Exército, principal força presente na área, mas também em menor medida, da Aeronáutica e da Marinha. No apoio, polícias militares (mais despreparadas ainda) dos Estados de Goiás, Maranhão, Pará e Mato Grosso, completavam o cerco. E alguns agentes da Polícia Federal e do Serviço de Segurança (SNI).

Incapazes de derrotar os guerrilheiros militarmente nas duas primeiras campanhas, os comandantes militares mudaram de tática, recuaram suas forças e elaboraram um plano de preparação anti-guerrilha, com um contingente menor e mais preparado para esse tipo de confronto e com soldados adaptados para a guerra nas selvas. Um trabalho de inteligência infiltrou agentes por cerca de um ano, mapeou toda a região, identificou possíveis pontos de apoio dos guerrilheiros e nominou todos aqueles moradores da região que, de uma forma ou de outra, tinham contato com os inimigos.

No início da terceira campanha, em outubro de 1973, uma nova guerra também começava, desta vez os militares não estavam pensando em prender guerrilheiros. Pela dimensão do movimento, inclusive com repercussões internacionais, pela capacidade de formar rebeldes altamente capacitados para novos eventuais movimentos guerrilheiros, a ordem dada era eliminar todos os que ainda estavam vivos. De qualquer maneira.

Não foi uma ordem de generais de comando do combate ao movimento. Ela foi determinada pelos altos postos de direção do Estado Militar Brasileiro, a partir de seu presidente, na época o General Emílio Médici. E apoiada por todos que compunham o escalão maior das Forças Armadas Brasileiras. A determinação foi cumprida a contento do ódio nutrido por três anos à ousadia de um pequeno grupo de se preparar para uma guerra de guerrilha no Brasil rural. Ódio potencializado pelas derrotas iniciais e, claro, pelo embate que se travava internacionalmente, no âmbito da guerra fria, entre os que se alinhavam aos interesses dos Estados Unidos, e defendiam com firmeza o capitalismo, e os que se alinhavam ao bloco socialista, diferenciado em regimes com perfis diferentes: China, Cuba e URSS.

MERGULHANDO NO ARAGUAIA

Em um encontro com blogueiros no começo deste ano, em um evento em Natal – RN, o neurocientista braisleiro, reconhecido internacionalmente, Miguel Nicolelis afirmou que é uma “balela” essa história de imparcialidade, tanto no jornalismo, como na ciência. “Como neurocientistas, estamos cansados de saber que não existe isso de imparcialidade, como pretendem os jornalistas. Não existe imparcialidade nem jornalística nem científica”, disse ele.(*)

Aproveito para dizer aqui o mesmo em relação à História. Em um evento que participei no final do ano passado, o “Simpósio Internacional sobre o Direito à Informação”, afirmei em palestra que proferi sobre o tema, “O Direito às Informações Pessoais – História e Verdade”, que como historiador não tenho medo de assumir, em absoluto, que o meu olhar é guiado pelos elementos que me conduziram ao longo de anos de intensa atividade política. Abdiquei, faz pouco tempo, de uma ativa militância partidária de três décadas, por uma necessidade premente de formação acadêmica. Mas não abdiquei dos paradigmas que foram responsáveis por construir a minha visão de mundo, porque ela é fundamentada em valores de respeito à vida humana e à defesa de uma sociedade em que as pessoas sejam respeitadas não pelo que possuem em termos de riqueza material, porém pela sua condição de indivíduos que merecem igualitariamente ser tratados com dignidade.

Por isso, não me preocupo em ser julgado por falta de isenção, desde que dentro do meu critério de verdade, eu esteja me guiando por esses valores e, fundamentalmente, pela honestidade da análise dos fatos. Afirmo que não pode haver história isenta do olhar ideológico, e desconfio daquele historiador que vive a reafirmar a sua isenção enquanto pesquisador, pois isso é impossível. Sua vida está impregnada de valores culturais que conduzem a sua investigação e influenciam suas conclusões.

Quando escrevi o meu trabalho, sob uma orientação precisa da Profª Janaína Passos Amado, então do curso de História da Universidade Federal de Goiás, passei por um crivo importante, com o intuito de me conduzir pela honestidade, por uma linguagem que fosse acadêmica e que minha postura não fosse confundida com a de um militante. Difícil tarefa pelo grau de envolvimento ideológico que eu possuía naquele momento, mas acredito ter cumprido á risca, e os resultados podem ser vistos no que está escrito em meu livro (Guerrilha do Araguaia – A esquerda em armas, Ed. da UFG, 1997) e no que vem sendo divulgado na imprensa e em outras publicações desde então (veja bibliografia ao final) .

Isso, contudo, não foi o suficiente para evitar críticas, inclusive de historiadores conhecidos que me acusavam de ser um historiador oficial do PCdoB. Muito embora, muitos desses críticos, jamais se dispuseram a ouvir sequer um único depoimento de pessoas que foram presas e torturadas e viveram de perto todo o desespero gerado pela brutalidade com que foram tratados. Tornaram-se críticos ao longe, simplesmente para fundamentarem suas críticas à guerrilha e, assim, julgarem-se capazes de se incluir como historiadores isentos, porque opositores do regime, mas confiáveis à tarefa de atacarem o movimento guerrilheiro. Tentavam, assim, intimidar aqueles que se dispunham a olhar a guerrilha com outros olhos, e não enxergar simplesmente uma aventura de colegiais irresponsáveis, conduzidos por dirigentes incompetentes, como esses vorazes críticos se dispunham a retratar a Guerrilha do Araguaia.

Os embates surgidos da avaliação da guerrilha, que dividiu o próprio partido que conduziu o movimento guerrilheiro, terminou por atrapalhar uma ação mais coordenada e ampla, no sentido de se encontrar respostas para os segredos que as Forças Armadas tentavam a todo o custo esconder. Enfraqueceu a luta dos familiares que lutavam para encontrarem as informações sobre dezenas de combatentes, presos com vida, e dos quais não se teve mais notícias. E, acima de tudo, esses críticos deixaram de lado um aspecto essencial a ser compreendido na análise do movimento: tratou-se de uma escolha, entre as poucas que existiam naquele momento de absoluta falta de liberdade e ausência de democracia.

Por assim ser, cometeram um dos males imperdoáveis ao historiador, tornaram-se anacrônicos, e quanto mais o tempo passava mais se distanciavam da realidade que impôs à esquerda reagir às brutalidades cometidas por aqueles que perpetraram o golpe militar e silenciaram a política brasileira. Caracterizavam os guerrilheiros aos olhos do presente e, por um olhar parcial e evidentemente ideológico, julgavam-nos como aventureiros a insistirem numa prática isolacionista denominada de foquismo.

Aqui retorno aos fatos, e analiso-os com um viés claramente ideológico. Na análise da conjuntura política do país e na identificação do significado das políticas postas em prática pelos governos militares que instalaram uma ditadura aqui no Brasil, não receio em deixar bem claro a visão crítica e o engajamento político que sempre me colocou ao lado das bandeiras defendidas pelos guerrilheiros do Araguaia. Seria impossível que eu me despisse de tudo isso a fim de me colocar como um “historiador isento”. Se assim eu o fizesse repetiria alguns que modificam seus pontos de vistas com o objetivo de tornarem-se confiáveis ao sistema e poder obter o sucesso como intelectual “respeitado”.

A mim, repugnava as atrocidades praticadas por indivíduos que se julgaram no direito de impor ao povo brasileiro o caminho que deveriam seguir. Afrontaram os valores democráticos e cometeram crimes abomináveis de torturas e assassinatos em nome da democracia; cercearam o direito de os indivíduos se manifestarem livremente, silenciaram a imprensa (alguns jornais sucumbiram aos delírios ditatoriais), fecharam o parlamento, impediram a organização sindical e fecharam as entidades estudantis, e, pela força, tentaram convencer o povo que tudo isso era feito em nome da liberdade.

Alguns desses militares, cujos depoimentos ainda hoje os aproximam de verdadeiros psicopatas, justificam os abusos com o argumento de que os comunistas pretendiam instalar aqui no Brasil o comunismo. Então, pela intenção e pela escolha política diferente do outro, tudo se tornava permitido, inclusive torturar e assassinar. Mesmo se tal regime que esses militantes quisessem instalar ainda se encontrasse na condição de utopia. Mas sonhar também não era permitido.

A Guerrilha do Araguaia não pode ser desconectada desse contexto, e as conseqüências dessa e de outras poucas escolhas que existiam naquele momento, devem ser analisadas à luz do tempo em que tudo isso aconteceu. Mas não se pode negar a existência de uma brutal repressão que transformavam em marginal todo aquele cidadão que se indignasse com o regime pérfido e ditatorial que se instalara pela força das armas. As outras escolhas poderiam ser fugir do país (e aqui não há nenhum juízo de valor por trás do verbo); manter-se na clandestinidade sem a opção pela luta armada (isso não impediu a prisão, tortura e assassinato de dezenas de militantes que não pegaram em armas); e tornar-se guerrilheiro, seja na cidade ou no interior. Qualquer uma delas, pelo alto grau de ferocidade do regime, principalmente a partir do final da década de 1960, implicava em riscos de vida. Inclusive o auto-exílio, haja vista a famigerada “Operação Condor”, que perseguiu militantes de esquerda por todos os países do Cone Sul.

O QUE QUERIAM OS GUERRILHEIROS DO ARAGUAIA?

Os moradores da região do Araguaia são testemunhas e também protagonistas do movimento que eclodiu naquele rincão do Brasil. Abandonados pelos governos e de frente para uma densa floresta, que era aberta para ali se instalarem pequenos roçados, os moradores daquele pedaço esquecido do Brasil começaram a ter como vizinhos jovens, idealistas e sonhadores, alguns poucos experientes e até cinqüentenários. Fugindo da perseguição nas cidades grandes, os comunistas em sua maioria militantes do movimento estudantil, aceitaram construir às margens do rio Araguaia e na entrada da Floresta Amazônica, uma resistência guerrilheira ao movimento militar que instaurou no Brasil em 1964 uma ditadura.

Traziam na bagagem pouca experiência de guerrilha, algum treinamento feito em outros países, principalmente na China, muita determinação e alguns problemas de adaptação, que terminou por criar alguns conflitos no grupo. A estratégia assemelhava-se ao que tinha servido de prólogo à grande transformação levada a cabo por Mao Tsetung, na China: o cerco das cidades por um exército guerrilheiro a partir do avanço de colunas de combatentes vindo da área rural, do interior do país.

Mas a tática a ser adotada, pode-se também mudá-la com o tempo e as condições analisadas, depende obviamente do movimento que o inimigo fizer. A reação, se inesperada ou maior do que as forças guerrilheiras podem resistir, força a mudanças táticas. Desse jogo de xadrez, que caracteriza a guerra, é que sairá a definição de quem primeiro gritará “xeque-mate”.

Se nas duas primeiras investidas dos militares seus erros impediram que suas táticas fossem vitoriosas, na terceira campanha deu-se o inverso. Cercados e submetidos à uma nova postura tática e com objetivos estratégicos redefinidos pelos militares, os guerrilheiros não resistiram a uma bem montada operação de inteligência e ao uso de grupamentos melhor preparados para a guerra na selva. Assim, essa terceira ofensiva, muito embora com um prazo de tempo que deu aos guerrilheiros certa mobilidade para fazer um trabalho político, transformou-se, na verdade em uma verdadeira caçada. Incapazes de resistirem à força e determinação com que se deu a organização de novos pelotões, agora não mais fardados e preparados para combater até o final, os guerrilheiros foram sendo abatidos e presos um a um.

 

O que se escondeu por tanto tempo, mas já não mais se constitui em segredo, não somente pelos documentos que já apareceram, mas pelos inúmeros depoimentos de moradores daquela região, muitos submetidos à humilhação, prisão e torturas, é que dezenas de militantes foram presos com vida e depois eliminados, seguindo a ordem de “não deixar nenhum vestígio da existência da guerrilha”.

Osvaldão, Dinaelza, Dinalva, Juca, Joca, Mário, Joaquim, Fátima, Cristina... São nomes de guerra, de quem vivia na clandestinidade, mas que representavam junto com tantos outros que lutavam nas cidades, corajosos e valorosos militantes comunistas. Pouco mais de 70 bravos guerrilheiros. Lutadores abnegados de uma causa pela qual hoje todos nós, cidadãos brasileiros, julgamos ser responsável por estar levando o Brasil em direção à liderança mundial. Lutavam contra a ditadura, pela democracia e pela liberdade. Não eram marginais, constituíram-se em valorosos brasileiros que não se entregaram à covardia daqueles que se curvavam aos interesses imperialistas. Pagaram o valor mais caro à cada um de nós: a própria vida. Por isso merecem todo o nosso respeito e o engajamento na luta para garantir-lhes o devido reconhecimento e o enterro digno de seus corpos, segundo as crenças de suas famílias.

A “verdade” pode ter muitas faces, servir a muitos interesses, mas os fatos históricos falam por si sós. Só precisamos relatá-los com honestidade. E assim, o tempo se encarregará de fazer justiça àqueles que deram suas vidas para alterar o rumo de nosso país. Ao governo brasileiro resta cumprir a determinação da Corte Interamericana de Direitos Humanos, da OEA, e dar respostas às famílias dos guerrilheiros sobre como se deram as condições de suas mortes e onde se encontram seus corpos.

Que isso não impeça, contudo, de compreendermos que vivemos outra realidade. A luta que travamos pela verdade não implica em condenar instituições, mas identificar aqueles que extrapolaram na condução de seus poderes. O Brasil vive um novo tempo e as Forças Armadas fazem parte das transformações que consolidam a importância e autoridade que o país exerce internacionalmente, bem como dão suporte às mudanças que possibilitam ao nosso povo atingir outro patamar de desenvolvimento. Isso não significa, no entanto, esquecer o passado. É preciso encarar nossos fantasmas, para que não nos encontremos no futuro com o repetir de farsas que se escondem por trás da história.

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Romualdo Pessoa Campos Filho é Professor de Geopolítica no Instituto de Estudos Sócioambientais da Universidade Federal de Goiás (IESA-UFG); Secretário Regional - SBPC/GO



NOTAS:

(*) Sobre a citação de Miguel Nicolelis, ver: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=8&id_noticia=146526
Lista dos guerrilheiros: http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_guerrilheiros_do_Araguaia
DVD – Camponeses do Araguaia, a guerrilha vista por dentro. Documentário. Diretor: Vandré Fernandes.
http://www.anitagaribaldi.com.br/produtos/default.aspx?codigo=591
Pequena bibliografia de referência:
Cabral, Pedro Correa. Xambioá, guerrilha no Araguaia. São Paulo: Ed. Record, 1993. http://xambioaguerrilha.blogspot.com/2008/10/xambio-guerrilha-no-araguaia-nota_24.html
Campos Filho, Romualdo Pessoa. Guerrilha do Araguaia - a esquerda em armas. Goiãnia-GO, Editora da UFG, 1997
Felipe, Gilvane. A Guerrilha do Araguaia (Brasil, 1966 – 1975). Paris: Université de la Sorbounne Nouvelle (Paris III), Institute des Hautes Études de L’Amérique Latine, 1993. (http://www.esnips.com/doc/450d1797-d21e-49f9-ba2f-35d1f9ed94bf/Hist%C3%B3ria-da-Guerrilha-do-Araguaia)
Gaspari, Elio. A Ditadura Escancarada. São Paulo: Cia. das Letras, 2002
Maklouf, Luis. O coronel rompe o silêncio. São Paulo: Editora objetiva, 2004
Monteiro, Adalberto (org.). Guerrilha do Araguaia – uma epopéia pela liberdade. São Paulo: Editora Anita, 2002.
Morais, Tais e Silva, Eumano. Operação Araguaia – Os arquivos secretos da guerrilha. São Paulo: Geração Editorial, 1995
Studart, Hugo. A lei das Selvas. São Paulo: Geração Editorial, 1997

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