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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Renato Rabelo: Luta ideológica numa nova ordem mundial de transição

 Hoje o PCdoB, os socialistas, revolucionários e democratas semearão o camarada Renato Rabelo. João,  pequenino, era Amazonas; Renato era chamado por muitos de nós de Renatão, sem ter estatura física elevada. O reconhecimento de grandeza foi obtido na luta de classes em seis décadas, em gestos titânicos que em nada se percebiam nas suas atitudes modestas e gentis, não obstante firmes e definidoras. Sobreviver à Ditadura e vir ao PCdoB, propor a Frente Brasil Popular com Lula, resistir ao fim da URSS e a autocrítica sem cedência,  a chegada ao governo, a manutenção do caráter revolucionário e a transição para as camaradas Luciana e Nádia sem abrir mão do Socialismo.  Gigante, Renato Rabelo,  à altura da confiança de Amazonas, de Lula,  de Dilma, e nossa. Custará a passar a dor. Mas não as dores, e sim os mesmos sonhos nos movem. Honra e glória,  aprendamos!

Renato Rabelo: Luta ideológica numa nova ordem mundial de transição














quinta-feira, 31 de julho de 2025

Ou ficar a Pátria livre, ou morrer pelo Brasil - Paulo Vinícius da Silva

Há grande caos sob os céus. As perspectivas são excelentes! 

Mao Zedong



A unidade é a bandeira da esperança.

João Amazonas


O Brasil está na alça de mira do imperialismo estadunidense. Não é uma novidade, mas as coisas clarearam. E isso é bom, pois dá-nos a dimensão de nossa responsabilidade histórica. Chama-nos a sermos dignos ou a rastejar. O Brasil é grande demais e está ameaçado como Nação. 


Logo no século XIX, depois que os EUA fizeram-se independentes, tiveram sua Guerra Civil e foram pra cima do que havia de espaço para crescer, consolidaram-se como uma força ela mesma colonial, neocolonial. Tiveram escravos, mataram seus índios, expandiram-se para o Oeste, tomaram terras do México e justificaram a sua visão de Destino Manifesto, que eles eram os americanos, e que nenhum poder colonial, exceto eles mesmos, poderia tocar na América. 


É a Doutrina Monroe: A América para os americanos. Desde então, eles passam por cima, subornam, destroem qualquer um que ameace seus interesses - com raras exceções. Então, é preciso, sim, levar a sério as ameaças e ataques de Trump e dos EUA ao Brasil, realçando o acerto e a importância da Frente Ampla e do líder da Nação Brasileira, Luis Inácio Lula da Silva.


Lula conviveu com Hugo Chávez, que lhe ensinou o alerta de Simón Bolívar: "os Estados Unidos parecem ter sido destinados a espalhar a miséria pelas Américas em nome da Liberdade".  


Lula está atento e afiado nesses tempos de genocídio, de cerco de fome e sede a mulheres e crianças na Palestina. São tempos de fascismo. Por isso, de um modo muito profundo, devemos ser frenteamplistas, verdadeiramente, pensando na unidade do Brasil. E devemos aproveitar a liderança de Lula nessa Encruzilhada Histórica. 


A divisão dos povos e a imposição de elites antinacionais foram a principal combinação que nos deixou como carvão do processo prévio à industrialização, o Colonialismo.


Neste sentido, devemos atuar de modo a unir o povo brasileiro em pelo menos dois níveis progressivos, Frente Ampla e Frente Popular. Diante da ameaça concreta à própria existência das nações (Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, Irã, Palestina, Haiti), não podemos ignorar que aqui se tem semeado como cânceres as "tensões no seio do povo", de que já nos alertava o Programa Socialista do PCdoB, em 2009. O imperialismo divide para reinar, assim como o colonialismo. E o imperialismo e as finanças são irmãos siameses, tão íntimos quanto as finanças e o fascismo. Eles já estão na orgia do fim do mundo. A gente que lute pra salvar a Humanidade. Hoje, mais do que nunca, o Socialismo é necessidade histórica. E quanto mais fortalecermos o Brasil como Nação Soberana, Democrática, Solidária, mais nos aprioximaremos do Socialismo.


Por isso mesmo, unir o povo brasileiro contra a agressão estadunidense é a prioridade. Devemos observar o comportamento dos Silvérios dos Reis, dos garotos de ouro da Casa Grande, da banca financeira, que não respeita pai nem mãe. E é preciso ter em igual conta os verdadeiros amigos e aliados. E a última instância, a mais firme, deve ser a Frente Popular. 


Nenhum partido isoladamente pode vencer a luta pela Libertação do Brasil, o forjar da Nação Brasileira, parte de uma América Latina e de um mundo em Paz. 


A História ensina que a paz depende também da própria força. A debilidade engrandece o agressor. A sobrevivência depende de fortalezas de unidade para ultrapassar duras batalhas em curso nesse cansativo mundo em apocalipse. Por isso mesmo, João Amazonas dizia: a unidade é a bandeira da esperança.


Os comunistas de todos os matizes deveriam ter grande papel aonde estiverem, para construir e articular as duas frentes, Ampla e Popular. O que nos ameaça é a desagregação nacional, a submissão e a ditadura, não é tempo de se perguntar teoricamente se a hora é de defensiva ou ofensiva. A época é de viver com a Pátria Livre ou Morrer pelo Brasil. 


O Plebiscito por um Brasil Mais Justo é a nossa primeira iniciativa global e pela base de Frente Popular. Muita gente não coube na "frente" institucional. Vamos de mãos dadas. Devemos apostar em lançar pontes e construir espaços de unidade que se fortaleçam no curso de 2026. As ruas e as redes se entrelaçam, mas as ruas são a vida mesma em movimento, e nossa luta sempre será para dirigi-las, para que nas ruas não caminhem com seus miasmas os fascistas abjetos, sujando a bandeira do Brasil.


Um amplo mutirão de unidade e organização deve varrer o Brasil na preparação das eleições de 2026. É ilusão acreditar que a fragmentação da esquerda possa nos abrir um novo caminho de libertação do Brasil. 


A evolução política de Lula também tem muito de João Amazonas, que acreditava no Lula e no Brasil. E acreditava na união do povo, na união dos setores consequentes com a defesa do Brasil, da Democracia e dos Direitos do Povo, que se afirmam no Socialismo. Se Amazonas visse Lula enfrentando Trump em defesa do Brasil, denunciando o genocídio palestino, estou certo, aprovaria.


É preciso mais humildade diante do povo e da base, pois ela é razão mesma de nossa força e existência. O impacto da COVID e das redes sociais nas atividades presenciais, os erros no balanceamento da ação sob as três linhas de acumulação de forças, a própria força do Tempo - também um Orixá - exige de nós um movimento decidido ao encontro da nossa gente, e ocupar nao apenas as redes, mas ocupar e dirigir as ruas. Nós já o fizemos, mais de uma vez.


Em tempos de barbárie, o Socialismo pode ajudar a Humanidade a sobreviver às chagas abertas pelo capitalismo: a desigualdade, as guerras e o ódio, o consumismo e a mentira.


O PCdoB ajudará a libertar o Brasil, e só assim se afirmará para os próximos cem anos! Se formos a força mais consequente em defesa do Brasil, dos direitos do povo e da democracia, persistiremos. Do contrário, passaremos por todos os dramas que apenas vislumbramos na crise da Covid. São tempos interessantes, como se diz. A vida é pra valer.


Então, mais que nunca é necessário sermos comunistas, e sê-lo é abraçar a realidade dessa época para libertar o Brasil e, assim, abrir caminho ao Socialismo. 


A Frente Ampla é indispensável. A Frente Popular é insubstituível no propósito de abrir os caminhos do povo organizado, sob o legado vitorioso de 2026 e do Presidente Lula. E unir o Brasil, unir o Povo, pra isso serve o PCdoB! E essa união exige uma determinação inquebrantável de unidade de uma Frente Popular e de um Campo Popular que ancore a Frente Ampla na defesa da Democracia, do Brasil e dos Direitos do Povo.


sábado, 23 de novembro de 2024

Presidente Lula e presidente Xi Jinping durante assinatura de atos e declaração conjunta à imprensa - EBC

 


Declaração à imprensa do presidente Lula na visita de Estado do presidente chinês, Xi Jinping
 
Declaração lida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante visita de Estado do presidente da República Popular da China, Xi Jinping, em 20 de novembro de 2024, no Palácio da Alvorada, em Brasília

Em um de seus ditados, Confúcio nos fala sobre a alegria de receber amigos de terras distantes.

Esse é o sentimento que tenho ao receber o presidente Xi Jinping em Visita de Estado e poder retribuir a hospitalidade de que Janja e eu desfrutamos em nossa visita a Pequim, no ano passado.

Nos reunimos nesta ocasião para celebrar o cinquentenário do estabelecimento de relações diplomáticas.

Apesar de distantes na geografia, há meio século China e Brasil cultivam uma amizade estratégica, baseada em interesses compartilhados e visões de mundo próximas.
A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009. Em 2023, o comércio bilateral atingiu recorde histórico de 157 bilhões de dólares.

O superávit com a China é responsável por mais da metade do saldo comercial global brasileiro.

O país também figura como uma das principais origens de investimentos no Brasil.

Empresas chinesas vêm participando de licitações de projetos de infraestrutura e têm sido parceiras em empreendimentos como a construção de usinas hidrelétricas e ferrovias.

Isso representa emprego, renda e sustentabilidade para o Brasil.

Indústrias brasileiras também estão ampliando sua presença na China, como a WEG, a Suzano e a Randon.

Ao mesmo tempo, o agronegócio continua a garantir a segurança alimentar chinesa. O Brasil é, desde 2017, o maior fornecedor de alimentos para a China.

Nesse contexto, a BRF deverá investir cerca de US$ 80 milhões na aquisição de uma moderna fábrica para processamento de carnes na província de Henan, na China.

A dimensão estratégica de nossa relação é antiga.

Há 40 anos, teve início o Projeto Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres, fundamental para que dominássemos tecnologias aeroespaciais.

Essa foi, durante muito tempo, a maior parceria de cooperação entre países do Sul Global.

Esta Visita de Estado reforça a ambição e renova o pioneirismo do nosso relacionamento.

O presidente Xi e eu decidimos elevar a Parceria Estratégica Global ao patamar de Comunidade de Futuro Compartilhado por um Mundo mais Justo e um Planeta Sustentável.
Estamos determinados a alicerçar nossa cooperação pelos próximos 50 anos em áreas como infraestrutura sustentável, transição energética, inteligência artificial, economia digital, saúde e aeroespacial.

Por essa razão, estabeleceremos sinergias entre as estratégias brasileiras de desenvolvimento, como a Nova Indústria Brasil (NIB), o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o Programa Rotas da Integração Sul-Americana, e o Plano de Transformação Ecológica, e a Iniciativa Cinturão e Rota.

Para dar concretude às sinergias, uma Força-Tarefa sobre Cooperação Financeira e outra sobre Desenvolvimento Produtivo e Sustentável serão estabelecidas e deverão apresentar projetos prioritários em até 2 meses.

Queremos adensar a cadeia de valor em nosso território, além de ampliar e diversificar a pauta com nosso maior parceiro comercial.

No contexto desta visita, quase 40 atos internacionais foram assinados em áreas como comércio, agricultura, indústria, investimentos, ciência e tecnologia, comunicações, saúde, energia, cultura, educação e turismo.

Vamos realizar o Ano Cultural Brasil-China em 2026, para promover e aproximar nossas sociedades, ambas reconhecidas internacionalmente por sua rica diversidade e criatividade.

No plano regional, trabalharemos juntos para dar seguimento ao Diálogo MERCOSUL-China e discutir o aprofundamento da cooperação na área de investimentos.

O que China e Brasil fazem juntos, reverbera no mundo.

Mantemos profícua coordenação na ONU, na OMC e em arranjos como o G20, o BRICS e o BASIC.

Defendemos a reforma da governança global e um sistema internacional mais democrático, justo, equitativo e ambientalmente sustentável.
Em um mundo assolado por conflitos armados e tensões geopolíticas, China e Brasil colocam a paz, a diplomacia e o diálogo em primeiro lugar.

Agradeci o engajamento no Chamado à Ação pela Reforma da Governança Global que o Brasil lançou no âmbito do G20.

Os “Entendimentos Comuns entre o Brasil e a China para uma Resolução Política para a Crise na Ucrânia" são exemplo da convergência de visões em matéria de segurança internacional

Jamais venceremos o flagelo da fome em meio à insensatez das guerras.

A Aliança Global contra a Fome, lançada oficialmente há dois dias, é uma das iniciativas mais importantes da presidência brasileira do G20.

A China foi parceiro de primeira hora nessa empreitada para devolver a dignidade aos 733 milhões de pessoas que passam fome no mundo, em pleno século 21.

Sem paz, o planeta tampouco estará em condições de construir soluções para a crise climática.

O interesse chinês pelo Fundo Florestas Tropicais para Sempre, proposto pelo Brasil para remunerar a preservação desses biomas, confirma que há alternativas eficazes para financiar o desenvolvimento sustentável.
Senhoras e senhores,

Estou confiante de que a Parceria que o presidente Xi e eu firmamos hoje excederá todas as expectativas e pavimentará o caminho para uma nova etapa do relacionamento bilateral.

Espero receber o presidente Xi Jinping no Brasil no ano que vem, para a Cúpula do BRICS, em julho, e para a COP-30, em novembro.

E estou ansioso para visitar a China novamente, por ocasião do Fórum China-CELAC.

Muito obrigado.

Atos adotados por ocasião da visita ao Brasil do presidente da China, Xi Jinping

Atos adotados e anúncios no contexto da visita de estado ao Brasil do Presidente da China, Xi Jinping, em diferentes áreas. da agricultura e finanças, até educação e cultura



quarta-feira, 8 de maio de 2024

A esquerda no labirinto: lições da frente democrática e antifascista - Augusto Buonicore


Com imensas saudades do historiador Augusto Buonicore,  republicamos este seu texto bastante pertinente no momento atual, em que aborda a construção da Frente Ampla.

por Augusto Buonicore
Publicado 11/03/2020 13:29 | Editado 11/03/2020 18:03

 “Sob uma aparente e intransigente fidelidade aos interesses dos trabalhadores, a concepção de que a luta antifascista é a oposição da classe operária a toda a burguesia (…) conduziria ao isolamento político do proletariado (…) e no fim das contas ao enfraquecimento da sua luta e ao fortalecimento do fascismo (…). É tempo que todos os democratas compreendam que a política de divisão é a política do inimigo fascista e só a este pode aproveitar.” (Álvaro Cunhal).
Toda alteração drástica na conjuntura, trazendo consigo mudanças na correlação de forças, exige reformulações táticas por parte das esquerdas. Nesses momentos é natural surgirem diferenças de opinião mais ou menos acentuadas. Alguns esperam escapar das crescentes dificuldades, empreendendo uma fuga desesperada para frente. Outros quedam paralisados.

A primeira pergunta que devemos fazer é: Qual a dimensão da derrota sofrida? Foi pequena ou grande? De curto, médio ou longo prazo? Tática ou estratégica?

Na opinião dos comunistas brasileiros ligados ao PCdoB, a derrota sofrida foi muito grave e tem um sentido estratégico. Podemos elencar alguns dos principais – e mais recentes –capítulos desse drama: o impedimento da presidenta Dilma, a reforma trabalhista, a prisão de Lula, a eleição de Bolsonaro e de uma grande bancada parlamentar reacionária de extrema-direita. Podemos dizer, sem medo de errar, que foram os maiores reveses sofridos pelos setores democrático-populares desde o fatídico golpe militar de 1964. É possível prever: O Brasil não será mais o mesmo no próximo período. Nuvens sombrias toldam o céu do país.

A eleição de Bolsonaro aponta para além de uma simples mudança de governo, como foram as vitórias eleitorais dos neoliberais Collor e FHC. Sinaliza para a tentativa de alteração no próprio regime político instaurado com a Nova República, em 1985, e consolidado com a Constituição dita cidadã de 1988. Se isso se efetivará ou não dependerá da luta democrática. O fato é que entramos numa outra etapa da vida política brasileira, caracterizada pelo autoritarismo extremado, pelo ultraliberalismo e pelo conservadorismo no campo dos costumes.

A junção desses três elementos reacionários anuncia o governo Bolsonaro como o pior da nossa história. Por isso, tornou-se o nosso inimigo principal. Aquele que, em primeiro lugar, deve ser isolado e derrotado pela união de todas as forças democráticas, nacionalistas e populares. A insuficiente clareza quanto a isso pode nos conduzir a erros políticos graves.

Qual o caráter da frente política necessária para derrotar o bolsonarismo?

Surgem então duas propostas que partem de visões distintas – e respeitáveis – sobre a atual conjuntura nacional e internacional: frente ampla democrática ou frente popular apenas com os setores da esquerda? Neste momento, marcado pela defensiva tática e estratégica do campo popular, sob um governo de extrema-direita com fortes conotações fascistas, os comunistas defendem a necessidade de constituição de uma ampla frente de caráter democrático e antifascista, envolvendo todos aqueles que se disponham a defender as liberdades ameaçadas. Esta frente deve incorporar todas as organizações de esquerda, centro-esquerda e também setores e personalidades do centro político. Mesmo aqueles que no passado recente apoiaram o golpe parlamentar desferido contra a presidenta Dilma. Ou se calaram diante dele. Isso, em parte, já aconteceu durante as últimas eleições. Basta ver as amplas coligações partidárias constituídas no Nordeste brasileiro, envolvendo PT, PCdoB, PDT, PSB e até setores do PMDB. Ali barramos o bolsonarismo.

Assim, o centro da tática na atualidade deve ser: isolar ao máximo as forças apoiadoras do governo, neutralizar e buscar conquistar as forças centristas tendentes à conciliação. Essas últimas não devem, sob nenhuma condição, ser confundidas com as que apóiam Bolsonaro. O objetivo será impor derrotas cada vez maiores ao governo reacionário, enfraquecendo-o e criando as melhores condições para sua substituição. A tarefa não será fácil e exigirá muita sagacidade política.

A vitória recente no parlamento sobre o projeto Escola sem Partido mostra o caminho a ser seguido. Várias personalidadese organizações que não são de esquerda – inclusive ligadas a partidos liberais – aderiram a um movimento de caráter nitidamente democrático. Isso pode se repetir em outras votações no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais. Devemos nos aproveitar de todas as contradições surgidas, inclusive nas bases governistas.

Nesta quadra histórica extremamente desfavorável, constituem-se em algo extremamente nocivo as agressões entre os possíveis membros da frente democrática, geralmente movidas por interesses menores. Para alguns, quanto mais estreita for a frente – e sem possíveis rivais internos – mais facilitada estará a sua hegemonia. Essas atitudes sectáriase divisionistas são prejudiciais ao país e aos trabalhadores.

Vejamos alguns erros que podem dificultar – ou mesmo impossibilitar –a construção de uma verdadeira frente ampla e democrática no Brasil atual. O primeiro deles é a tentativa de construí-la sem o Partido dos Trabalhadores (PT), pois “o hegemonismo deste (e seu tamanho) dificultaria qualquer acordo interpartidário em bases igualitárias”. Uma atitude ingênua e errada. O PT é o maior partido da oposição com forte base parlamentar e de massas. Não haverá frente de oposição sem o PT e muito menos contra o PT.

De outro lado, devem ser criticados os ataques efetuados por setores de esquerda contra o PSB e o PDT, especialmente a Ciro Gomes. Alguns chegam mesmo a defini-lo como um político de direita. Algo completamente destituído de sentido histórico-factual, especialmente nesta conjuntura. Nem mesmo as posições claramente equivocadas (e desastradas) adotadas por ele no segundo turno – e agora diante da participação na posse de Bolsonaro – justificam tais atitudes. Um erro, por mais grave que seja, não justifica o outro. A tarefa dos comunistas é tentar aparar as arestas existentes no campo da oposição e não acentuá-las.

Também é um equívoco achar que a frente deva nascer sob a hegemonia decretada desse ou daquele partido, dessa ou daquela personalidade política. Todos esses desvios representam sérios obstáculos à construção da frente ampla democrática e antifascista necessária para derrotar os planos da extrema-direita.

Na verdade, frentes amplas dessa natureza dispensam um líder único ao qual todos os demais devam seguir. Em defesa da frente democrática, devemos combater a personificação da sua direção, cuidando para que ela não se transforme prematuramente num palanque visando às eleições de 2022. A frente democrática não pode ser um espaço no qual uma organização ou personalidade impõe sua vontade às demais. Deve ser um espaço de exercício de consensos progressivos.

E o campo popular na frente democrática?

O campo popular deve se constituir como um dos núcleos da frente democrática, buscando conduzi-la a posições oposicionistas mais consequentes. Assim, a Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo devem fazer parte da frente, mas sem confundir-se com ela. São frentes (populares) dentro de uma frente maior (democrática). Usando uma velha fórmula do PCdoB, forjada durante a ditadura militar: queremos uma frente democrática ampla, mas que tenha por base a unidade popular expressa em articulações como a Frente Brasil Popular, a Frente Povo Sem Medo e outras que venham a surgir.

Não podemos, de maneira alguma, abrir mão das reivindicações mais sentidas das massas populares, especialmente as que dizem respeito a: emprego, salários, condições de trabalho e de vida. Visando a contribuir para isso, devemos propugnar o congraçamento das centrais sindicais em grandes fóruns visando a desenvolver as lutas comuns pelos direitos dos trabalhadores. Seria importante que todos esses setores populares tivessem uma atuação unitária. Isso possibilitaria dar uma linha mais avançada à frente ampla.

Naturalmente, haverá contradições no seio da frente ampla em torno de vários temas. Toda articulação heterogênea comporta um processo permanente de unidade e luta, mas o determinante na relação das organizações que a compõem deve ser a unidade e não a luta interna. Quando a tônica passa a ser a luta interna, a frente rapidamente se desfaz. Quem ganha é o nosso inimigo: a direita bolsonarista.



A unidade de uma frente, como a proposta aqui, tem como mote a defesa da democracia ameaçada, encarando-a como condição necessária para avançarmos nas outras pautas. Queremos manter as liberdades políticas para podermos prosseguir na luta pelos direitos do nosso povo e a soberania da nossa nação. Sem liberdade as lutas se tornam mais difíceis.

Os comunistas têm uma longa experiência de frentes dessa natureza: como as frentes antifascistas nos anos 1930 e as frentes democráticas contra as ditaduras militares na América Latina durante as décadas de 1960 e 1970. Esta política frentista (policlassista), embora majoritária, nunca foi consensual na esquerda. Os trotskistas, em geral, eram contrários às frentes amplas nas quais participassem setores não-socialistas ou burgueses. Este dilema enfrentamos no período da ditadura militar brasileira e enfrentaremos novamente na luta contra o governo Bolsonaro.



Álvaro Cunhal e a luta antifascista

Passemos em revista algumas lições deixadas por importantes líderes comunistas sobre o problema de frente democrática e antifascista. Segundo Álvaro Cunhal: “A luta de uma frente antifascista (…) não elimina as contradições e conflitos entre as classes que participam de tal frente (…). A aliança com a pequena burguesia e setores da média burguesia contra o fascismo em nada diminui, mas, pelo contrário, exige o reforço da ação independente da classe operária”. Problema haveria se toda posição diferenciada no seio da frente se transformasse em guerra aberta entre seus membros. Continua o histórico dirigente comunista português: “Para alguns a unidade não é um instrumento de luta contra o inimigo fascista, mas um instrumento de luta interna no próprio seio da oposição (…). Para esses a política de unidade não visa ao derrubamento do fascismo, mas à submissão ou mesmo à eliminação de outros setores dessa mesma Oposição”. Este mesmo desvio podemos constatar no caso brasileiro.

“O Partido Comunista (Português) aliou sempre ao seu esforço para unir todos os setores antifascistas o combate ideológico conduzido numa base de princípios. Sempre nos guiamos pela ideia de que as manifestações francas de diferenças de pontos de vistas (…) não contrariam nem prejudicam a unidade (…). Uma unidade política entre forças diferenciadas implica que essas forças discutam os seus pontos de vistas e, encontrando um caminho comum, mantenham independência crítica”. Por isso, “a unidade antifascista não é nem pode ser fusão, submissão. Pela variedade dos setores antifascistas, o próprio estabelecimento da unidade exige diálogo, discussão, debate e, por vezes, polêmica. Há coincidência de interesses fundamentais imediatos. Há diferenças de objetivos, de apreciação de fatos, de métodos de ação, de tática, que levam ao choque de opiniões em qualquer movimento ou organização de unidade. Discussão, crítica, confronto de ideias, luta ideológica é uma coisa. A ação divisionista é outra”. A luta de ideias tem por objetivo esclarecer e fortalecer a frente única contra o inimigo principal e não cindi-la.

O texto também trata do problema do hegemonismo no interior da frente ampla antifascista: “Inseparáveis dos ataques à política de unidade são as pretensões hegemônicas das várias forças ou setores antifascistas. Para eles a hegemonia no movimento antifascista consiste na pretensão de exercer o comando ou a direção de todo o movimento (…) como se de tal fato fosse reconhecido pelas restantes forças e setores do campo antifascista”. Hegemonia, para o veterano comunista, não poderia ser entendida “como submissão dos outros”. Repito o que dissemos acima: “a frente ampla não pode ser um espaço que a força mais forte impõe sua vontade às demais. Deve ser um espaço de exercício de consensos progressivos”.

Em seguida, retomando a boa tradição do marxismo-leninismo, elucida o problema da justa relação entre “unidade pela base” e “unidade por cima”: “Os grupos esquerdistas (…) consideram que a unidade antifascista deve ter como única expressão a ‘unidade pela base’ (…). O PCP atua simultaneamente nas duas direções: atua para alcançar a ‘unidade pelo topo’ e atua para alcançar a ‘unidade pela base’. São direções de atividades complementares e de certa forma interdependentes. Os progressos alcançados em qualquer destas duas direções estimula o progresso na outra”. E conclui: “Damos grande valor aos acordos e à unidade com os grupos e setores democráticos apesar de suas debilidades orgânicas e de suas hesitações políticas”. A mesma coisa que pensava Lênin e os principais revolucionários do século XX.

Dimitrov, Mao e o problema das frentes amplas



O 7º Congresso da Internacional Comunista (1935) – que rompeu com o esquerdismo e o sectarismo imperante nas fileiras comunistas e lançou-as na construção das frentes populares antifascistas – teve sua principal e melhor expressão nos discursos feitos por seu presidente Jorge Dimitrov. Num deles afirmou, “Defendemos e seguiremos defendendo, nos países capitalistas, palmo a palmo, as liberdades democrático-burguesas contra as quais atentam o fascismo e a reação burguesa, pois assim o exigem os interesses de luta do proletariado”.

Quem, segundo Dimitrov, deveria compor essa ampla frente antifascistas? Ela deveria ser composta apenas por organizações socialistas e operárias? A resposta do dirigente da Internacional Comunista foi negativa: “Nos países capitalistas, a maioria dos partidos e organizações – políticas e econômicas – encontra-se ainda sob influência da burguesia”. Por isso, “devemos encaminhar nossos esforços para conquistar estes partidos ou organizações para a frente popular antifascista, apesar da sua direção burguesa.” E conclui: “Isto não é simplesmente um movimento de frente única operária, é o começo duma ampla frente de todo o povo contra o fascismo”. Em países ocupados pelos exércitos nazi-fascistas, a frente política deveria ser ainda mais ampla, como veremos adiante.

A vitória – ou ameaça de vitória – do fascismo muda a correlação de forças e exige a elaboração de uma nova tática, correspondendo à situação adversa. Muitos comunistas não compreendem isso e consideram todo e qualquer recuo como algo inadmissível do ponto de vista dos princípios marxista-leninistas, uma traição ao programa socialista. “Há sabichões que vêm em tudo isso retrocesso das nossas posições de princípios, uma virada à direita da linha do bolchevismo. Está bem! ‘A galinha faminta, dizemos na Bulgária, sempre sonha com milho’. Que pensem assim estas galinhas políticas! (…). Mas, não seríamos marxistas revolucionários, leninistas (…) se não mudássemos de um modo consequente a nossa política e nossa tática de acordo com as mudanças efetuadas na situação e no movimento operário mundial”, respondeu Dimitrov. O mesmo problema enfrentou Lênin durante as discussões ocorridas no interior dos bolcheviques em torno da Paz de Brest-Litovsky entabulada com o alto-comando alemão. Acordo ardorosamente defendido por ele contra a maior parte do seu próprio partido.

Mao Tsé-Tung, comandante da revolução chinesa e um dos principais estrategistas do século passado, deu importantes contribuições ao debate. Ele também teve que mudar a estratégia e a tática dos comunistas quando da invasão japonesa ao território chinês. Este acontecimento dramático fez com que mudasse o inimigo principal do povo e, consequentemente, a sua política de alianças.



Como o líder chinês explica essas mudanças às vezes bruscas no campo da estratégia? “No processo, complexo, de desenvolvimento de um fenômeno existe toda uma série de contradições; uma delas é necessariamente a contradição principal, cuja existência e desenvolvimento determinam a existência e o desenvolvimento das demais contradições ou agem sobre elas”. “Assim, se um processo comporta várias contradições, existe necessariamente uma delas que é a principal e desempenha papel diretor, determinante, enquanto as outras ocupam apenas posição secundária, subordinada. Por consequência, no estudo de um processo complexo, em que há duas ou mais contradições, devemos fazer o máximo por determinar a contradição principal, todos os problemas se resolvem”.“ Não devemos tratar as contradições de um processo como se fossem todas iguais, sendo necessário distinguir a contradição principal das contradições secundárias, e nos mostrarmos atentos na descoberta da contradição principal”. Mao alertava que “as contradições também mudam de posição”. Foi o que aconteceu após a invasão japonesa.

Tudo isso para chegar à conclusão política central, necessariamente expressa na elaboração da tática e da estratégia revolucionárias: “Como a contradição entre a China e o Japão passou a ser a contradição principal, as contradições internas da China passaram para um plano secundário e subordinado”. Até as contradições com os demais imperialismos (EUA-Inglaterra-França) caíram para um segundo plano e acabaram sendo utilizadas na luta contra o inimigo mais perigoso. Surge, então, a proposta da Frente Única Antijaponesa, agregando dois grandes adversários: o Kuomintang, comandado pelo direitista Chiang Kai-Chek, e o Partido Comunista de China. Assim, ocorreu uma drástica – e necessária – mudança na política de alianças. Antigos inimigos tornam-se aliados, ainda que provisórios.

Por fim, deixemos a palavra ao grande Lênin: “Os acontecimentos políticos são sempre muito confusos. Podemos compará-los a uma corrente. Para conservar toda corrente, temos de agarrar o elo fundamental (…). A arte da política consiste em encontrar e agarrar com força o elo (…) mais importante em um determinado momento (…). É necessário unir o compromisso absoluto com as ideias comunistas à habilidade de realizar todos os compromissos práticos necessários, como manobras, acordos, ziguezagues, recuos etc. Não é possível que os esquerdistas alemães ignorem que toda a história do bolchevismo, antes e depois da revolução, está cheia de casos de manobras, de acordos e compromissos com outros partidos, inclusive os partidos burgueses.Fazer a guerra para derrotar a burguesia internacional (…) e renunciar de antemão a qualquer manobra, a explorar os antagonismos de interesses (mesmo que sejam apenas temporários) que dividem nossos inimigos, renunciar a acordos e compromissos com possíveis aliados (ainda que provisórios, inconsistentes, vacilantes, condicionais), não é, por acaso, qualquer coisa de extremamente ridículo?”

Temos que nos utilizar de todas essas lições – tendo em conta as condições históricas atuais – na luta contra o governo direitista de Bolsonaro e na construção de uma ampla frente democrática que tenha como base a unidade popular. Este será o caminho da vitória.



Bibliografia

AMAZONAS, João. Pela liberdade e pela democracia popular. São Paulo: Anita Garibaldi, 1982.
CUNHAL, Álvaro. Ação revolucionária, capitulação e aventura. Lisboa: Edições Avante!, 1994.
DIMITROV, Jorge. Contra o fascismo e a guerra. Sófia: Sófia Press, 1988.
HARNECKER, Marta. Estratégia e tática. São Paulo: Expressão Popular, 2004.
LÊNIN, V. I. Esquerdismo, doença infantil do comunismo. São Paulo: Global, 1981.
TSÉ-TUNG, Mao. Sobre a prática e sobre a contradição. São Paulo: Expressão Popular, 1999.
______. Mao Tsé-Tung e a política de Partido. Lisboa: Maria da Fonte, 1975.





Artigo publicado originalmente em 21 de janeiro de 2019.

sábado, 10 de junho de 2023

Jornalistas mostram um mapa de bases dos EUA na África, Oriente Médio, Europa e em TODA COSTA DA CHINA e a China e Russia são ameaça? - Twitter @pueblopatriota)

 


quarta-feira, 10 de março de 2021

Pepe Escobar debate a China: Um País, Duas Sessões, Tantos Alvos - Brasil 247

 

Um País, Duas Sessões, Tantos Alvos

O novo Plano Quinquenal da China visa uma reforma econômica de "alta qualidade", um salto tecnológico e uma nova era de prosperidade comum, analisa o jornalista Pepe Escobar

Xi Jinping
Xi Jinping (Foto: Xinhua, Brasil 247)

Por Pepe Escobar, para o Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

É tempo de  Lianghui ("Duas Sessões") – o rito anual da liderança política, em Pequim. As estrelas do show são o principal órgão de consultoria política, a Conferência Política Consultiva Popular Chinesa, e a tradicional apresentação de um relatório de trabalho pelo primeiro-ministro ao primeiro escalão da legislatura, o Congresso Nacional do Povo (NPC).

A análise do projeto preliminar do 14º Plano Quinquenal da China se prolongará até 15 de março. Mas, nas atuais circunstâncias, não se trata apenas de 2025 (lembrem-se do Made in China 2025, que permanece em vigor). O planejamento é de longo prazo e mira alvos do projeto Vision 2035  (alcançar a "modernização socialista básica"), e até mesmo além de 2049, o 100º aniversário da República Popular da China.

O premier Li Keqiang, apresentando o relatório de trabalho governamental para 2021, ressaltou que a meta de crescimento do PIB é de "mais de 6%" (o FMI, anteriormente, havia projetado 8,1%). Incluída aí está a criação de pelo menos 11 milhões de empregos urbanos.

Quanto à política externa, o contraste traçado por Li entre a China e o Hegêmona não poderia ser mais nítido: "A China seguirá uma política externa independente e pacífica" e promoverá a construção de um novo tipo de relações internacionais". 

Isso é linguagem-código significando que Pequim irá trabalhar com Washington em questões específicas mas, acima de tudo, enfocará o fortalecimento das relações de comércio/investimentos/finanças com a União Europeia, a ASEAN, o Japão e o Sul Global. 

As linhas gerais do 14º Plano Quinquenal (2021-2025) para a economia chinesa já haviam sido traçadas em outubro último, na reunião plenária do Partido Comunista Chinês. O Congresso Nacional do Povo irá agora ratificá-lo. O foco principal é a política de "dupla circulação", cuja melhor definição, traduzida do mandarim, é uma "dinâmica de duplo desenvolvimento ".

Isso significa um esforço coordenado para consolidar e expandir o mercado interno e, ao mesmo tempo, continuar a fomentar o comércio e os investimentos externos – como ocorre nos inúmeros projetos da Iniciativa Cinturão e Rota (ICR). Em termos conceituais, isso representa um equilíbrio yin-yang muito sofisticado, muito taoísta.    

Em inícios de 2021, o presidente Xi Jinping, ao louvar a "convicção e resiliência chinesas, bem como nossa determinação e confiança", fez questão de ressaltar que a nação enfrenta "desafios e oportunidades sem precedentes". Ele afirmou ao Politburo que "condições sociais favoráveis" têm que ser criadas por todos os meios disponíveis até 2025, 2035 e 2049.
O que nos leva ao próximo estágio do desenvolvimento chinês.

O alvo principal a observar é a "prosperidade em comum" (ou, melhor ainda, a prosperidade compartilhada), a ser implementada concomitantemente com inovações tecnológicas, respeito ao meio ambiente e enfrentamento pleno da "questão rural". 

Xi tem sido contundente: há desigualdade excessiva na China - regional, urbano-rural e disparidades de renda. 

É como se, em uma leitura fria do motor dialético do materialismo histórico na China, chegássemos ao seguinte modelo. Tese: as dinastias imperiais. Antítese: Mao Tsetung. Síntese: Deng Xiaoping, seguido por algumas derivações (em especial Jiang Zemin) até chegarmos à verdadeira síntese: Xi. 

Sobre a "ameaça" chinesa

Li ressaltou o sucesso chinês na contenção interna do covid-19, na qual o país gastou pelo menos 62 bilhões de dólares. Isso deve ser visto como uma mensagem sutil, dirigida principalmente ao Sul Global, sobre a eficácia do sistema de governança da China para projetar e executar não apenas planos de  desenvolvimento complexos, mas também lidar com emergências graves. 

O que, em última análise, está em questão na comparação entre as cambaleantes democracias (neo)liberais do Ocidente e o "socialismo com características chinesas" (copyright Deng Xiaoping) é a capacidade de gerir e melhorar a vida das pessoas. Os acadêmicos chineses têm grande orgulho do ethos de seu plano de desenvolvimento nacional, definido como SMART (sigla em inglês para específico, mensurável, alcançável, relevante e com prazo determinado).

Um excelente exemplo é o de como a China, em menos de duas décadas, conseguiu retirar 800 milhões de pessoas da pobreza: uma experiência absolutamente única na história. 

Tudo o que foi dito acima raramente é mencionado, uma vez que os círculos atlanticistas vivem atolados em uma histeria de incessante demonização da China. Wang Huiyao, diretor do Centro para a China e a  Globalização, sediado em Pequim, ao menos teve o mérito de trazer para a discussão o sinólogo Kerry Brown, do King’s College, de Londres.

Baseando-se em comparações entre Leibniz - próximo a estudiosos jesuítas interessados no confucionismo - e Montesquieu – que só via um sistema despótico, autocrático e imperial – Brown reexamina 250 anos de posições extremadas sobre a China no Ocidente, observando que hoje "é mais difícil que nunca" manter um debate racional.

Ele identifica três grandes problemas.

1. Ao longo de toda a história moderna, o Ocidente jamais reconheceu a China como uma nação forte e poderosa, e tampouco admitiu a restauração de sua importância histórica. A mentalidade ocidental não está preparada para lidar com isso. 

2. O Ocidente moderno nunca pensou na China como uma potência global, no máximo como uma potência territorial. A China nunca foi vista como uma potência marítima, capaz de exercer poder fora de suas fronteiras. 

3. Propelido por uma férrea certeza quanto a seus valores, entra em cena o tão aviltado conceito de "verdadeira democracia" - o Ocidente Atlanticista não faz a mínima ideia sobre  os valores chineses. Em última análise, o Ocidente não tem o menor interesse em compreender a China. O que prevalece é a confirmação de preconceitos, reafirmando que a China representa uma "ameaça" ao Ocidente. 

Brown aponta o principal problema que atormenta qualquer acadêmico ou analista político que tente explicar a China: como comunicar sua extremamente complexa visão de mundo e como resumir a história da China em poucas palavras. Clipes de podcasts não vêm ao caso. 

Exemplos: explicar como, na China, um estarrecedor contingente de 1,3 bilhões de pessoas consegue ter acesso a algum tipo de segurança de saúde, e como 1 bilhão delas se beneficia de alguma espécie de seguridade social. Ou, também, explicar os intrincados detalhes das políticas étnicas chinesas. 

O premier Li, ao apresentar seu relatório, prometeu "forjar um forte senso de comunidade em meio ao povo chinês e incentivar todos os grupos étnicos da China a trabalharem conjuntamente para a prosperidade e o desenvolvimento coletivos". Ele não mencionou especificamente Xinjiang ou o Tibé. É uma tarefa ingrata explicar as enormes dificuldades de integrar minorias étnicas em  um projeto nacional em meio a constante histeria existente em Xinjiang, Taiwan, no Mar do Sul da China e em Hong Kong. 

Venham participar da festa 

Sejam quais forem os caprichos do Ocidente Atlanticista, o que é importante para as massas chinesas é como o novo Plano Quinquenal irá fornecer, na prática, aquilo que Xi já havia descrito como uma reforma econômica de "alta-qualidade". 

As perspectivas parecem ser muito boas para as potências econômicas de Xangai e Guangdong – que já tinham como alvo um crescimento de 6%. Hubei – onde surgiram os primeiros casos de covid-19 - já vem trabalhando com uma meta de 10%. 

Baseando-se em uma frenética atividade das mídias sociais, a confiança da opinião pública permanece sólida, levando em conta uma série de fatores. A China ganhou a "guerra sanitária" contra a covid-19 em tempo recorde; o crescimento econômico voltou; a pobreza absoluta foi erradicada, cumprindo os prazos originalmente previstos; o estado-civilização está firmemente estabelecido como uma "sociedade moderadamente próspera" 100 anos após a fundação do Partido Comunista. 

Desde o início do milênio, o PIB da China cresceu em onze vezes. Nos últimos dez anos, o PIB mais que dobrou, de 6 a 15 trilhões de dólares. Nada menos que 99 milhões de camponeses, em 832 municípios e 128 mil aldeias rurais, são os que mais recentemente foram  resgatados da pobreza absoluta.

Essa complexa economia híbrida agora se dedica a montar uma armadilha "suave" para as empresas ocidentais. Sanções? Não sejam tolos, venham para cá fazer bons negócios em um mercado de pelo menos 700 milhões de consumidores. 

Como observei no ano passado, o processo sistêmico em operação é como uma  sofisticada mistura de internacionalismo marxista e confucionismo (privilegiando a harmonia e abominando o conflito): o arcabouço de uma "comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade". Um país - aliás, um estado-civilização, focado em sua renovada missão histórica de reemergir como uma superpotência. Duas sessões. E tantos alvos - e todos eles alcançáveis.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Putin' Speech - Davos - 2021- Russia Briefing and WEF - 28/01/2021




Russian President Putin’s Speech At The World Economic Forum: Complete English Translation
January 28, 2021Posted by Russia Briefing







“Love is impossible if it is declared only by one side. It must be mutual.”
Highly Critical of US Social Media and Big Tech
“Russia & Europe” belong together
Warns of World Approaching Unsettling Political Future

The Russian President Vladimir Putin made a Keynote Address at the World Economic Forum yesterday, criticizing the growing influence of U.S. social media companies saying that their impact on society now puts them in competition with elected governments.

Putin’s virtual address, was his first to the WEF since 2009. The full transcription is as follows:

Introduction By World Economic Forum Founder Klaus Schwab:

Mr. President, welcome to the Davos Agenda Week.
Russia is an important global power, and there’s a long-standing tradition of Russia’s participation in the World Economic Forum. At this moment in history, where the world has a unique and short window of opportunity to move from an age of confrontation to an age of cooperation, the ability to hear your voice, the voice of the President of the Russian Federation, is essential. Even and especially in times characterized by differences, disputes and protests, constructive and honest dialogue to address our common challenges is better than isolation and polarization.

Yesterday, your phone exchange with President Biden and the agreement to extend the New START nuclear arms treaty in principle, I think, was a very promising sign in this direction.

COVID-19, Mr President, has shown our global vulnerability and interconnectivity, and, like any other country, Russia will certainly also be affected, and your economic development and prospects for international cooperation, of course, are of interest to all of us.

Mr. President, we are keen to hear from your perspective and from that of Russia, how you see the situation developing in the third decade of the 21st century and what should be done to ensure that people everywhere find peace and prosperity.

Mr. President, the world is waiting to hear from you.

President of Russia Vladimir Putin:

“Mr. Schwab, dear Klaus, Colleagues,

I have been to Davos many times, attending the events organized by Mr. Schwab, even back in the 1990s. Klaus just recalled that we met in 1992. Indeed, during my time in St Petersburg, I visited this important forum many times. I would like to thank you for this opportunity today to convey my point of view to the expert community that gathers at this world-renowned platform thanks to the efforts of Mr. Schwab.

First of all, ladies and gentlemen, I would like to greet all the World Economic Forum participants.

It is gratifying that this year, despite the pandemic, despite all the restrictions, the forum is still continuing its work. Although it is limited to online participation, the forum is taking place anyway, providing an opportunity for participants to exchange their assessments and forecasts during an open and free discussion, partially compensating for the increasing lack of in-person meetings between leaders of states, representatives of international business and the public in recent months. All this is very important now when we have so many difficult questions to answer.

The current forum is the first one in the beginning of the third decade of the 21st century and, naturally, the majority of its topics are devoted to the profound changes that are taking place in the world.

Indeed, it is difficult to overlook the fundamental changes in the global economy, politics, social life, and technology. The coronavirus pandemic, which Klaus just mentioned, which became a serious challenge for humankind, only spurred and accelerated the structural changes, the conditions for which had been created long ago. The pandemic has exacerbated the problems and imbalances that built up in the world before. There is every reason to believe that differences are likely to grow stronger. These trends may appear practically in all areas.

Needless to say, there are no direct parallels in history. However, some experts – and I respect their opinion – compare the current situation to the 1930s. One can agree or disagree, but certain analogies are still suggested by many parameters, including the comprehensive, systemic nature of the challenges and potential threats.

We are seeing a crisis of the previous models and instruments of economic development. Social stratification is growing stronger both globally and in individual countries. We have spoken about this before as well. But this, in turn, is causing today a sharp polarization of public views, provoking the growth of populism, right- and left-wing radicalism and other extremes, and the exacerbation of domestic political processes including in the leading countries.

All this is inevitably affecting the nature of international relations and is not making them more stable or predictable. International institutions are becoming weaker, regional conflicts are emerging one after another, and the system of global security is deteriorating.

Klaus has mentioned the conversation I had yesterday with the US President on extending the New START. This is, without a doubt, a step in the right direction. Nevertheless, the differences are leading to a downward spiral. As you are aware, the inability and unwillingness to find substantive solutions to problems like this in the 20th century led to the WWII catastrophe.

Of course, such a heated global conflict is impossible in principle, I hope. This is what I am pinning my hopes on, because this would be the end of humanity. However, as I have said, the situation could take an unexpected and uncontrollable turn – unless we do something to prevent this. There is a chance that we will face a formidable break-down in global development, which will be fraught with a war of all against all and attempts to deal with contradictions through the appointment of internal and external enemies and the destruction of not only traditional values such as the family, which we hold dear in Russia, but fundamental freedoms such as the right of choice and privacy.

I would like to point out the negative demographic consequences of the ongoing social crisis and the crisis of values, which could result in humanity losing entire civilizational and cultural continents.

We have a shared responsibility to prevent this scenario, which looks like a grim dystopia, and to ensure instead that our development takes a different trajectory – positive, harmonious, and creative.

In this context, I would like to speak in more detail about the main challenges which, I believe, the international community is facing.

The first one is socioeconomic.

Indeed, judging by the statistics, even despite the deep crises in 2008 and 2020, the last 40 years can be referred to as successful or even super successful for the global economy. Starting from 1980, global per capita GDP has doubled in terms of real purchasing power parity. This is definitely a positive indicator.

Globalization and domestic growth have led to strong growth in developing countries and lifted over a billion people out of poverty. So, if we take an income level of $5.50 per person per day (in terms of PPP) then, according to the World Bank, in China, for example, the number of people with lower incomes went from 1.1 billion in 1990 down to less than 300 million in recent years. This is definitely China’s success. In Russia, this number went from 64 million people in 1999 to about 5 million now. We believe this is also progress in our country, and in the most important area, by the way.

Still, the main question, the answer to which can, in many respects, provide a clue to today’s problems, is what was the nature of this global growth and who benefitted from it most.

Of course, as I mentioned earlier, developing countries benefitted a lot from the growing demand for their traditional and even new products. However, this integration into the global economy has resulted in more than just new jobs or greater export earnings. It also had its social costs, including a significant gap in individual incomes.

What about the developed economies where average incomes are much higher? It may sound ironic, but stratification in the developed countries is even deeper. According to the World Bank, 3.6 million people subsisted on incomes of under $5.50 per day in the United States in 2000, but in 2016 this number grew to 5.6 million people.

Meanwhile, globalization led to a significant increase in the revenue of large multinational, primarily US and European, companies.

By the way, in terms of individual income, the developed economies in Europe show the same trend as the United States.

But then again, in terms of corporate profits, who got hold of the revenue? The answer is clear: one percent of the population.

And what has happened in the lives of other people? In the past 30 years, in a number of developed countries, the real incomes of over half of the citizens have been stagnating, not growing. Meanwhile, the cost of education and healthcare services has gone up. Do you know by how much? Three times.

In other words, millions of people even in wealthy countries have stopped hoping for an increase of their incomes. In the meantime, they are faced with the problem of how to keep themselves and their parents healthy and how to provide their children with a decent education.

There is no call for a huge mass of people and their number keeps growing. Thus, according to the International Labour Organization (ILO), in 2019, 21 percent or 267 million young people in the world did not study or work anywhere. Even among those who had jobs (these are interesting figures) 30 percent had an income below $3.2 per day in terms of purchasing power parity.

These imbalances in global socioeconomic development are a direct result of the policy pursued in the 1980s, which was often vulgar or dogmatic. This policy rested on the so-called Washington Consensus with its unwritten rules, when the priority was given to the economic growth based on a private debt in conditions of deregulation and low taxes on the wealthy and the corporations.

As I have already mentioned, the coronavirus pandemic has only exacerbated these problems. In the last year, the global economy sustained its biggest decline since WWII. By July, the labour market had lost almost 500 million jobs. Yes, half of them were restored by the end of the year but still almost 250 million jobs were lost. This is a big and very alarming figure. In the first nine months of the past year alone, the losses of earnings amounted to $3.5 trillion. This figure is going up and, hence, social tension is on the rise.

At the same time, post-crisis recovery is not simple at all. If some 20 or 30 years ago, we would have solved the problem through stimulating macroeconomic policies (incidentally, this is still being done), today such mechanisms have reached their limits and are no longer effective. This resource has outlived its usefulness. This is not an unsubstantiated personal conclusion.

According to the IMF, the aggregate sovereign and private debt level has approached 200 percent of global GDP, and has even exceeded 300 percent of national GDP in some countries. At the same time, interest rates in developed market economies are kept at almost zero and are at a historic low in emerging market economies.

Taken together, this makes economic stimulation with traditional methods, through an increase in private loans virtually impossible. The so-called quantitative easing is only increasing the bubble of the value of financial assets and deepening the social divide. The widening gap between the real and virtual economies (incidentally, representatives of the real economy sector from many countries have told me about this on numerous occasions, and I believe that the business representatives attending this meeting will agree with me) presents a very real threat and is fraught with serious and unpredictable shocks.

Hopes that it will be possible to reboot the old growth model are connected with rapid technological development. Indeed, during the past 20 years we have created a foundation for the so-called Fourth Industrial Revolution based on the wide use of AI and automation and robotics. The coronavirus pandemic has greatly accelerated such projects and their implementation.

However, this process is leading to new structural changes, I am thinking in particular of the labor market. This means that very many people could lose their jobs unless the state takes effective measures to prevent this. Most of these people are from the so-called middle class, which is the basis of any modern society.

In this context, I would like to mention the second fundamental challenge of the forthcoming decade – the socio-political one. The rise of economic problems and inequality is splitting society, triggering social, racial and ethnic intolerance. Indicatively, these tensions are bursting out even in the countries with seemingly civil and democratic institutions that are designed to alleviate and stop such phenomena and excesses.

The systemic socioeconomic problems are evoking such social discontent that they require special attention and real solutions. The dangerous illusion that they may be ignored or pushed into the corner is fraught with serious consequences.

In this case, society will still be divided politically and socially. This is bound to happen because people are dissatisfied not by some abstract issues but by real problems that concern everyone regardless of the political views that people have or think they have. Meanwhile, real problems evoke discontent.

I would like to emphasize one more important point. Modern technological giants, especially digital companies, have started playing an increasing role in the life of society. Much is being said about this now, especially regarding the events that took place during the election campaign in the US. They are not just some economic giants. In some areas, they are de facto competing with states. Their audiences consist of billions of users that pass a considerable part of their lives in these eco systems.

In the opinion of these companies, their monopoly is optimal for organizing technological and business processes. Maybe so but society is wondering whether such monopolism meets public interests. Where is the border between successful global business, in-demand services and big data consolidation and the attempts to manage society at one’s own discretion and in a tough manner, replace legal democratic institutions and essentially usurp or restrict the natural right of people to decide for themselves how to live, what to choose and what position to express freely? We have just seen all of these phenomena in the US and everyone understands what I am talking about now. I am confident that the overwhelming majority of people share this position, including the participants in the current event.

And finally, the third challenge, or rather, a clear threat that we may well run into in the coming decade is the further exacerbation of many international problems. After all, unresolved and mounting internal socioeconomic problems may push people to look for someone to blame for all their troubles and to redirect their irritation and discontent. We can already see this. We feel that the degree of foreign policy propaganda rhetoric is growing.

We can expect the nature of practical actions to also become more aggressive, including pressure on the countries that do not agree with a role of obedient controlled satellites, use of trade barriers, illegitimate sanctions and restrictions in the financial, technological and cyber spheres.

Such a game with no rules critically increases the risk of unilateral use of military force. The use of force under a far-fetched pretext is what this danger is all about. This multiplies the likelihood of new hot spots flaring up on our planet. This concerns us.

Colleagues, despite this tangle of differences and challenges, we certainly should keep a positive outlook on the future and remain committed to a constructive agenda. It would be naive to come up with universal miraculous recipes for resolving the above problems. But we certainly need to try to work out common approaches, bring our positions as close as possible and identify sources that generate global tensions.

Once again, I want to emphasize my thesis that accumulated socioeconomic problems are the fundamental reason for unstable global growth.

So, the key question today is how to build a program of actions in order to not only quickly restore the global and national economies affected by the pandemic, but to ensure that this recovery is sustainable in the long run, relies on a high-quality structure and helps overcome the burden of social imbalances. Clearly, with the above restrictions and macroeconomic policy in mind, economic growth will largely rely on fiscal incentives with state budgets and central banks playing the key role.

Actually, we can see these kinds of trends in the developed countries and also in some developing economies as well. An increasing role of the state in the socioeconomic sphere at the national level obviously implies greater responsibility and close interstate interaction when it comes to issues on the global agenda.

Calls for inclusive growth and for creating decent standards of living for everyone are regularly made at various international forums. This is how it should be, and this is an absolutely correct view of our joint efforts.

It is clear that the world cannot continue creating an economy that will only benefit a million people, or even the golden billion. This is a destructive precept. This model is unbalanced by default. The recent developments, including migration crises, have reaffirmed this once again.

We must now proceed from stating facts to action, investing our efforts and resources into reducing social inequality in individual countries and into gradually balancing the economic development standards of different countries and regions in the world. This would put an end to migration crises.

The essence and focus of this policy aimed at ensuring sustainable and harmonious development are clear. They imply the creation of new opportunities for everyone, conditions under which everyone will be able to develop and realize their potential regardless of where they were born and are living

I would like to point out four key priorities, as I see them. This might be old news, but since Klaus has allowed me to present Russia’s position, my position, I will certainly do so.

First, everyone must have comfortable living conditions, including housing and affordable transport, energy and public utility infrastructure. Plus environmental welfare, something that must not be overlooked.

Second, everyone must be sure that they will have a job that can ensure sustainable growth of income and, hence, decent standards of living. Everyone must have access to an effective system of lifelong education, which is absolutely indispensable now and which will allow people to develop, make a career and receive a decent pension and social benefits upon retirement.

Third, people must be confident that they will receive high-quality and effective medical care whenever necessary, and that the national healthcare system will guarantee access to modern medical services.

Fourth, regardless of the family income, children must be able to receive a decent education and realize their potential. Every child has potential.

This is the only way to guarantee the cost-effective development of the modern economy, in which people are perceived as the end, rather than the means. Only those countries capable of attaining progress in at least these four areas will facilitate their own sustainable and all-inclusive development. These areas are not exhaustive, and I have just mentioned the main aspects.

A strategy, also being implemented by my country, hinges on precisely these approaches. Our priorities revolve around people, their families, and they aim to ensure demographic development, to protect the people, to improve their well-being and to protect their health. We are now working to create favorable conditions for worthy and cost-effective work and successful entrepreneurship and to ensure digital transformation as the foundation of a high-tech future for the entire country, rather than that of a narrow group of companies.

We intend to focus the efforts of the state, the business community and civil society on these tasks and to implement a budgetary policy with the relevant incentives in the years ahead.

We are open to the broadest international cooperation, while achieving our national goals, and we are confident that cooperation on matters of the global socioeconomic agenda would have a positive influence on the overall atmosphere in global affairs, and that interdependence in addressing acute current problems would also increase mutual trust which is particularly important and particularly topical today.

Obviously, the era linked with attempts to build a centralized and unipolar world order has ended. To be honest, this era did not even begin. A mere attempt was made in this direction, but this, too, is now history. The essence of this monopoly ran counter to our civilization’s cultural and historical diversity.

The reality is such that really different development centers with their distinctive models, political systems and public institutions have taken shape in the world. Today, it is very important to create mechanisms for harmonizing their interests to prevent the diversity and natural competition of the development poles from triggering anarchy and a series of protracted conflicts.

To achieve this we must, in part, consolidate and develop universal institutions that bear special responsibility for ensuring stability and security in the world and for formulating and defining the rules of conduct both in the global economy and trade.

I have mentioned more than once that many of these institutions are not going through the best of times. We have been bringing this up at various summits. Of course, these institutions were established in a different era. This is clear. Probably, they even find it difficult to parry modern challenges for objective reasons. However, I would like to emphasize that this is not an excuse to give up on them without offering anything in exchange, all the more so since these structures have unique experience of work and a huge but largely untapped potential. And it certainly needs to be carefully adapted to modern realities. It is too early to dump it in the dustbin of history. It is essential to work with it and to use it.

Naturally, in addition to this, it is important to use new, additional formats of cooperation. I am referring to such phenomenon as multiversity. Of course, it is also possible to interpret it differently, in one’s own way. It may be viewed as an attempt to push one’s own interests or feign the legitimacy of one’s own actions when all others can merely nod in approval. Or it may be a concerted effort of sovereign states to resolve specific problems for common benefit. In this case, this may refer to the efforts to settle regional conflicts, establish technological alliances and resolve many other issues, including the formation of cross-border transport and energy corridors and so on and so forth.

Friends,

Ladies and gentlemen,

This opens wide possibilities for collaboration. Multi-faceted approaches do work. We know from practice that they work. As you may be aware, within the framework of, for example, the Astana format, Russia, Iran, and Turkey are doing much to stabilize the situation in Syria and are now helping establish a political dialogue in that country, of course, alongside other countries. We are doing this together. And, importantly, not without success.

For example, Russia has undertaken energetic mediation efforts to stop the armed conflict in Nagorno-Karabakh, in which peoples and states that are close to us – Azerbaijan and Armenia – are involved. We strived to follow the key agreements reached by the OSCE Minsk Group, in particular between its co-chairs – Russia, the United States and France. This is also a very good example of cooperation.

As you may be aware, a trilateral Statement by Russia, Azerbaijan and Armenia was signed in November. Importantly, by and large, it is being steadily implemented. The bloodshed was stopped. This is the most important thing. We managed to stop the bloodshed, achieve a complete ceasefire and start the stabilization process.

Now the international community and, undoubtedly, the countries involved in crisis resolution are faced with the task of helping the affected areas overcome humanitarian challenges related to returning refugees, rebuilding destroyed infrastructure, protecting and restoring historical, religious and cultural landmarks.

Or, another example. I will note the role of Russia, Saudi Arabia, the United States and a number of other countries in stabilizing the global energy market. This format has become a productive example of interaction between the states with different, sometimes even diametrically opposite assessments of global processes, and with their own outlooks on the world.

At the same time there are certainly problems that concern every state without exception. One example is cooperation in studying and countering the coronavirus infection. As you know, several strains of this dangerous virus have emerged. The international community must create conditions for cooperation between scientists and other specialists to understand how and why coronavirus mutations occur, as well as the difference between the various strains.

Of course, we need to coordinate the efforts of the entire world, as the UN Secretary-General suggests and as we urged recently at the G20 summit. It is essential to join and coordinate the efforts of the world in countering the spread of the virus and making the much needed vaccines more accessible. We need to help the countries that need support, including the African nations. I am referring to expanding the scale of testing and vaccinations.

We see that mass vaccination is accessible today, primarily to people in the developed countries. Meanwhile, millions of people in the world are deprived even of the hope for this protection. In practice, such inequality could create a common threat because this is well known and has been said many times that it will drag out the epidemic and uncontrolled hotbeds will continue. The epidemic has no borders.

There are no borders for infections or pandemics. Therefore, we must learn the lessons from the current situation and suggest measures aimed at improving the monitoring of the emergence of such diseases and the development of such cases in the world.

Another important area that requires coordination, in fact, the coordination of the efforts of the entire international community, is to preserve the climate and nature of our planet. I will not say anything new in this respect.

Only together can we achieve progress in resolving such critical problems as global warming, the reduction of forestlands, the loss of biodiversity, the increase in waste, the pollution of the ocean with plastic and so on, and find an optimal balance between economic development and the preservation of the environment for the current and future generations.

My friends,

We all know that competition and rivalry between countries in world history never stopped, do not stop and will never stop. Differences and a clash of interests are also natural for such a complicated body as human civilization. However, in critical times this did not prevent it from pooling its efforts – on the contrary, it united in the most important destinies of humankind. I believe this is the period we are going through today.

It is very important to honestly assess the situation, to concentrate on real rather than artificial global problems, on removing the imbalances that are critical for the entire international community. I am sure that in this way we will be able to achieve success and befittingly parry the challenges of the third decade of the 21st century.

I would like to finish my speech at this point and thank all of you for your patience and attention.

Thank you very much.

Klaus Schwab: Thank you very much, Mr. President.

Many of the issues raised, certainly, are part of our discussions here during the Davos Week. We complement the speeches also by task forces which address some of the issues you mentioned, like not leaving the developing world behind, taking care of, let’s say, creating the skills for tomorrow, and so on. Mr. President, we prepare for the discussion afterwards, but I have one very short question. It is a question which we discussed when I visited you in St Petersburg 14 months ago. How do you see the future of European-Russian relations? Just a short answer.

Vladimir Putin: You know there are things of an absolutely fundamental nature such as our common culture. Major European political figures have talked in the recent past about the need to expand relations between Europe and Russia, saying that Russia is part of Europe. Geographically and, most importantly, culturally, we are one civilization. French leaders have spoken of the need to create a single space from Lisbon to the Urals. I believe, and I mentioned this, why the Urals? To Vladivostok.

I personally heard the outstanding European politician, former Chancellor Helmut Kohl, say that if we want European culture to survive and remain a center of world civilization in the future, keeping in mind the challenges and trends underlying the world civilization, then of course, Western Europe and Russia must be together. It is hard to disagree with that. We hold exactly the same point of view.

Clearly, today’s situation is not normal. We need to return to a positive agenda. This is in the interests of Russia and, I am confident, the European countries. Clearly, the pandemic has also played a negative role. Our trade with the European Union is down, although the EU is one of our key trade and economic partners. Our agenda includes returning to positive trends and building up trade and economic cooperation.

Europe and Russia are absolutely natural partners from the point of view of the economy, research, technology and spatial development for European culture, since Russia, being a country of European culture, is a little larger than the entire EU in terms of territory. Russia’s resources and human potential are enormous. I will not go over everything that is positive in Europe, which can also benefit the Russian Federation.

Only one thing matters: we need to approach the dialogue with each other honestly. We need to discard the phobias of the past, stop using the problems that we inherited from past centuries in internal political processes and look to the future. If we can rise above these problems of the past and get rid of these phobias, then we will certainly enjoy a positive stage in our relations.

We are ready for this, we want this, and we will strive to make this happen. But love is impossible if it is declared only by one side. It must be mutual.”

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Xi Jinping: Que o multilateralismo ilumine o caminho da humanidade - Discurso completo em Davos - Portal Vermelho

“A história avança e o mundo não voltará a ser o que era no passado”.


por Wevergton Brito

PORTAL VERMELHO
Publicado 25/01/2021 21:16 | Editado 26/01/2021 13:00


O presidente chinês, Xi Jinping, participou, nesta segunda-feira (25), do Evento Virtual da Agenda de Davos do Fórum Econômico Mundial (FEM) a convite do fundador e presidente executivo do FEM, Klaus Schwab e fez um discurso especial via link de vídeo, diretamente de Pequim. Foi, sem dúvida, um discurso para a história, focado nos “valores centrais e os princípios básicos do multilateralismo”.

Direito ao desenvolvimento, ecologia, reforma da governança global, vacina contra a Covid-19 como bem público, defesa da paz e dos países mais fracos, nada ficou ausente, inclusive o anúncio de uma China mais assertiva no cenário internacional em prol desses princípios.

Destaco trechos do discurso, sugerindo, no entanto, que o internauta leia a íntegra que está publicada logo depois dos trechos selecionados.


A diversidade de modelos sociais

“Não haverá civilização humana sem diversidade, e essa diversidade continuará a existir por tanto tempo quanto podemos imaginar. A diferença em si não é motivo para alarme. O que soa o alarme é a arrogância, o preconceito e o ódio; é a tentativa de impor hierarquia à civilização humana ou de impor a própria história, cultura e sistema social aos outros.”

Em defesa do planeta terra, cooperação global


“A Terra é nossa única casa. Aumentar os esforços para lidar com as mudanças climáticas e promover o desenvolvimento sustentável afeta o futuro da humanidade. Nenhum problema global pode ser resolvido por um único país. Deve haver ação global, resposta global e cooperação global.”

Uma nova guerra fria é o caminho para o confronto

“Construir pequenos círculos ou iniciar uma nova Guerra Fria, rejeitar, ameaçar ou intimidar os outros, impor deliberadamente dissociação, interrupção do fornecimento ou sanções e criar isolamento ou estranhamento apenas empurrará o mundo para a divisão e até para o confronto.”


Importância do Direito Internacional e da ONU

“Precisamos ser enérgicos em defender o estado de direito internacional e firmes em nossa determinação de salvaguardar o sistema internacional centrado na ONU e na ordem internacional baseada no direito internacional.”

Um recado para Biden?


Comentário: Como se sabe, os governos democratas utilizam, na arena internacional, o que alguns analistas chamam de “multilateralismo assertivo”, que seria uma forma mais branda, mas por vezes não menos agressiva, de impor os interesses unilaterais dos EUA combinando a instrumentalização de espaços multilaterais com o uso da força ou a ameaça ao uso da força. Embora em nenhum momento do seu discurso Xi Jinping faça referência direta aos EUA, o trecho abaixo pode ser identificado como um recado para o recém empossado governo democrata.

“O forte não deve intimidar o fraco. A decisão não deve ser tomada simplesmente pela exibição de músculos fortes ou com o aceno de um punho grande (…) O ‘multilateralismo seletivo’ não deve ser nossa opção (…) digamos não às políticas mesquinhas e egoístas de empobrecer o vizinho e acabemos com a prática unilateral de manter as vantagens do desenvolvimento só para nós. Direitos iguais ao desenvolvimento devem ser garantidos a todos os países para promover o desenvolvimento comum e a prosperidade. Devemos defender a competição justa, como competir uns com os outros pela excelência em um campo de corrida, não derrotar uns aos outros em uma arena de luta livre”.

Mudança climática

“Precisamos cumprir o Acordo de Paris sobre mudança climática e promover o desenvolvimento verde. Precisamos dar prioridade contínua ao desenvolvimento, implementar a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e garantir que todos os países, especialmente os em desenvolvimento, compartilhem dos frutos do desenvolvimento global”.


China terá novo paradigma de desenvolvimento

“A China está em vias de terminar de construir uma sociedade moderadamente próspera em todos os aspectos. Obtivemos ganhos históricos ao erradicar a pobreza extrema e embarcamos em uma nova jornada rumo à construção plena de um país socialista moderno. À medida que a China entra em um novo estágio de desenvolvimento, seguiremos uma nova filosofia de desenvolvimento e promoveremos um novo paradigma de desenvolvimento com a circulação doméstica como o esteio e as circulações doméstica e internacional reforçando-se mutuamente. A China trabalhará com outros países para construir um mundo aberto, inclusivo, limpo e bonito que desfrute de paz duradoura, segurança universal e prosperidade comum.

Pandemia, a tarefa mais urgente


“Conter o coronavírus é a tarefa mais urgente para a comunidade internacional. Isso porque as pessoas e suas vidas devem ser sempre colocadas antes de qualquer coisa. É também o que é necessário para estabilizar e reanimar a economia. Mais solidariedade e cooperação, mais compartilhamento de informações e uma resposta global mais forte são o que precisamos para derrotar o COVID-19 em todo o mundo (…) É especialmente importante aumentar a cooperação em Pesquisa e Desenvolvimento, produção e distribuição de vacinas e torná-las bens públicos que sejam verdadeiramente acessíveis e economicamente viáveis ​​para as pessoas em todos os países”.

Cooperação Sul-Sul e postura mais ativa


“Como membro constante dos países em desenvolvimento, a China aprofundará ainda mais a cooperação Sul-Sul e contribuirá para os esforços dos países em desenvolvimento para erradicar a pobreza, reduzir o peso da dívida e alcançar mais crescimento. A China se envolverá mais ativamente na governança econômica global e pressionará por uma globalização econômica que seja mais aberta, inclusiva, equilibrada e benéfica para todos”.

Abaixo, a íntegra do discurso.

Professor Klaus Schwab,


Senhoras e senhores,

Amigos,

O ano passado foi marcado pelo ataque repentino da pandemia COVID-19. A saúde pública global enfrentou grave ameaça e a economia mundial entrou em uma recessão profunda. A humanidade encontrou-se diante de múltiplas crises raramente vistas na história.


O ano passado também testemunhou a enorme determinação e coragem de pessoas ao redor do mundo no combate ao coronavírus mortal. Guiado pela ciência, razão e espírito humanitário, o mundo alcançou um progresso inicial no combate ao COVID-19. Dito isso, a pandemia está longe de terminar. O recente ressurgimento dos casos COVID nos lembra que devemos continuar a luta. No entanto, continuamos convencidos de que o inverno não pode impedir a chegada da primavera e as trevas nunca podem ocultar a luz do amanhecer. Não há dúvida de que a humanidade vencerá o vírus e sairá ainda mais forte deste desastre.

Senhoras e senhores,

Amigos,


A história avança e o mundo não voltará a ser o que era no passado. Cada escolha e movimento que fizermos hoje moldarão o mundo do futuro. É importante abordarmos adequadamente as quatro principais tarefas que as pessoas enfrentam em nosso tempo.

A primeira é intensificar a coordenação da política macroeconômica e, em conjunto, promover o crescimento forte, sustentável, equilibrado e inclusivo da economia mundial. Estamos passando pela pior recessão desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Pela primeira vez na história, as economias de todas as regiões foram duramente atingidas ao mesmo tempo, com a indústria global e as cadeias de suprimentos bloqueadas e o comércio e os investimentos em crise. Apesar dos trilhões de dólares em pacotes de ajuda em todo o mundo, a recuperação global é bastante instável e as perspectivas permanecem incertas. Precisamos nos concentrar nas prioridades atuais e equilibrar a resposta ao COVID e o desenvolvimento econômico. O apoio à política macroeconômica deve ser intensificado para tirar a economia mundial fora de perigo o mais cedo possível. Mais importante, precisamos olhar além do horizonte e fortalecer nossa vontade e determinação para a mudança. Precisamos mudar as forças motrizes e os modelos de crescimento da economia global e melhorar sua estrutura, de modo a definir o curso de longo prazo, com desenvolvimento sólido e estável da economia mundial.

A segunda tarefa é abandonar o preconceito ideológico e, em conjunto, seguir um caminho de coexistência pacífica, benefício mútuo e cooperação ganha-ganha. Não existem duas folhas no mundo idênticas e nenhuma história, cultura ou sistema social é igual. Cada país é único com sua própria história, cultura e sistema social, e nenhum é superior ao outro. Os melhores critérios são se a história, a cultura e o sistema social de um país se ajustam à sua situação específica, se contam com o apoio do povo, se servem para proporcionar estabilidade política, progresso social e vidas melhores e se contribuem para o progresso humano. As diferentes histórias, culturas e sistemas sociais são tão antigos quanto as sociedades humanas e representam características inerentes da civilização humana. Não haverá civilização humana sem diversidade, e essa diversidade continuará a existir por tanto tempo quanto podemos imaginar. A diferença em si não é motivo para alarme. O que soa o alarme é a arrogância, o preconceito e o ódio; é a tentativa de impor uma hierarquia à civilização humana ou de impor a própria história, cultura e sistema social aos outros. A escolha certa é que os países busquem uma coexistência pacífica baseada no respeito mútuo e na expansão de bases comuns, enquanto arquivam as diferenças, para promover o intercâmbio e o aprendizado mútuo. Esta é a forma de impulsionar o progresso da civilização humana.


A terceira tarefa é eliminar a divisão entre países desenvolvidos e em desenvolvimento e, em conjunto, gerar crescimento e prosperidade para todos. Hoje, a desigualdade continua a crescer, a lacuna Norte-Sul ainda precisa ser superada e o desenvolvimento sustentável enfrenta sérios desafios. À medida que os países lutam com a pandemia, suas recuperações econômicas seguem trajetórias divergentes, e o hiato Norte-Sul corre o risco de se ampliar e até mesmo se perpetuar. Os países em desenvolvimento aspiram por mais recursos e espaço para o desenvolvimento e clamam por uma representação e voz mais fortes na governança econômica global. Devemos reconhecer que, com o crescimento dos países em desenvolvimento, a prosperidade e a estabilidade globais serão colocadas em bases mais sólidas, e os países desenvolvidos poderão se beneficiar desse crescimento. A comunidade internacional deve manter seus olhos no longo prazo, honrar seu compromisso, e fornecer o apoio necessário aos países em desenvolvimento e salvaguardar seus legítimos interesses de desenvolvimento. Direitos iguais, oportunidades iguais e regras iguais devem ser fortalecidos, para que todos os países se beneficiem das oportunidades e frutos do desenvolvimento.

A quarta tarefa é a união contra os desafios globais para, juntos, criarmos um futuro melhor para a humanidade. Na era da globalização econômica, as emergências de saúde pública como o COVID-19 podem muito bem ocorrer, e a governança global da saúde pública precisa ser aprimorada. A Terra é nossa única casa. Aumentar os esforços para lidar com as mudanças climáticas e promover o desenvolvimento sustentável afeta o futuro da humanidade. Nenhum problema global pode ser resolvido por um único país. Deve haver ação global, resposta global e cooperação global.

Senhoras e senhores,


Amigos,

Os problemas que o mundo enfrenta são intrincados e complexos. A saída é defender o multilateralismo e construir uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade.

Primeiro, devemos permanecer comprometidos com a abertura e a inclusão, em vez de isolamento e exclusão. Multilateralismo significa ter assuntos internacionais tratados por meio de consultas e o futuro do mundo decidido por todos trabalhando juntos. Construir pequenos círculos ou iniciar uma nova Guerra Fria, rejeitar, ameaçar ou intimidar os outros, impor deliberadamente dissociação, interrupção do fornecimento ou sanções e criar isolamento ou estranhamento apenas empurrará o mundo para a divisão e até para o confronto. Não podemos enfrentar desafios comuns em um mundo dividido, e o confronto nos levará a um beco sem saída. A humanidade aprendeu lições da maneira mais difícil e essa história não acabou. Não devemos retornar ao caminho do passado.


A abordagem certa é agir de acordo com a visão de uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade. Devemos defender os valores comuns da humanidade, ou seja, paz, desenvolvimento, equidade, justiça, democracia e liberdade, superar o preconceito ideológico, tornar os mecanismos, princípios e políticas de nossa cooperação tão abertos e inclusivos quanto possível e, em conjunto, salvaguardar a paz mundial e estabilidade. Devemos construir uma economia mundial aberta, defender o regime de comércio multilateral, descartar padrões, regras e sistemas discriminatórios e excludentes e derrubar barreiras ao comércio, investimento e intercâmbio tecnológico. Devemos fortalecer o G20 como o principal fórum para a governança econômica global, nos engajar em uma coordenação mais estreita da política macroeconômica e manter as cadeias industriais e de fornecimento globais estáveis ​​e abertas. Devemos garantir o funcionamento correto do sistema financeiro global, promover reformas estruturais e expandir a demanda agregada global em um esforço para buscar maior qualidade e maior resiliência no desenvolvimento econômico global.

Em segundo lugar, devemos permanecer comprometidos com o direito internacional e as regras internacionais, em vez de buscar a supremacia. Os antigos chineses acreditavam que “a lei é a base da governança”. A governança internacional deve ser baseada nas regras e consensos alcançados entre nós, não na ordem dada por um ou por poucos. A Carta das Nações Unidas são as normas básicas e universalmente reconhecidas que regem as relações entre os Estados. Sem o direito internacional e as regras internacionais que são formadas e reconhecidas pela comunidade global, o mundo pode voltar para a lei da selva, e a consequência seria devastadora para a humanidade.

Precisamos ser enérgicos em defender o estado de direito internacional e firmes em nossa determinação de salvaguardar o sistema internacional centrado na ONU e na ordem internacional baseada no direito internacional. As instituições multilaterais, que fornecem as plataformas para colocar o multilateralismo em ação e que são a arquitetura básica que sustenta o multilateralismo, devem ter sua autoridade e eficácia protegidas. As relações entre os Estados devem ser coordenadas e regulamentadas por meio de instituições e regras adequadas. O forte não deve intimidar o fraco. A decisão não deve ser tomada simplesmente exibindo músculos fortes ou acenando com o punho grande. O multilateralismo não deve ser usado como pretexto para atos de unilateralismo. Os princípios devem ser preservados e as regras, uma vez feitas, devem ser seguidas por todos. O “multilateralismo seletivo” não deve ser nossa opção.


Terceiro, devemos permanecer comprometidos com a consulta e cooperação, em vez de conflito e confronto. As diferenças de história, cultura e sistema social não devem ser uma desculpa para antagonismo ou confronto, mas sim um incentivo à cooperação. Devemos respeitar e acomodar as diferenças, evitar interferir nos assuntos internos de outros países e resolver divergências por meio de consulta e diálogo. A história e a realidade deixaram claro, uma e outra vez, que a abordagem equivocada de antagonismo e confronto, seja na forma de guerra fria, guerra quente, guerra comercial ou guerra tecnológica, acabaria prejudicando os interesses de todos os países e minando o bem de todos.

Devemos rejeitar a Guerra Fria desatualizada e a mentalidade de jogo de soma zero, aderir ao respeito mútuo e à busca pelo consenso, aumentando a confiança política por meio da comunicação estratégica. É importante que nos atenhamos ao conceito de cooperação baseado no benefício mútuo, digamos não às políticas mesquinhas e egoístas de empobrecer o vizinho e acabemos com a prática unilateral de manter as vantagens do desenvolvimento só para nós. Direitos iguais ao desenvolvimento devem ser garantidos a todos os países para promover o desenvolvimento comum e a prosperidade. Devemos defender a competição justa, como competir uns com os outros pela excelência em um campo de corrida, não derrotar uns aos outros em uma arena de luta livre.

Quarto, devemos permanecer comprometidos em acompanhar os tempos em vez de rejeitar as mudanças. O mundo está passando por mudanças nunca vistas em um século, e agora é a hora de grande desenvolvimento e grande transformação. Para defender o multilateralismo no século XXI, devemos promover sua nobre tradição, assumir novas perspectivas e olhar para o futuro. Precisamos defender os valores centrais e os princípios básicos do multilateralismo. Também precisamos nos adaptar ao cenário internacional em mudança e responder aos desafios globais à medida que eles surgem. Precisamos reformar e melhorar o sistema de governança global com base em ampla consulta e construção de consenso.


Precisamos desenvolver plenamente o papel da Organização Mundial da Saúde na construção de uma comunidade global de saúde para todos. Precisamos promover a reforma da Organização Mundial do Comércio e do sistema financeiro e monetário internacional de uma forma que estimule o crescimento econômico global e proteja os direitos, interesses e oportunidades de desenvolvimento dos países em desenvolvimento. Precisamos seguir uma orientação política centrada nas pessoas e baseada em fatos ao explorar e formular regras sobre governança digital global. Precisamos cumprir o Acordo de Paris sobre mudança climática e promover o desenvolvimento verde. Precisamos dar prioridade contínua ao desenvolvimento, implementar a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e garantir que todos os países, especialmente os em desenvolvimento, compartilhem dos frutos do desenvolvimento global.

Senhoras e senhores,

Amigos,

Após décadas de esforços extenuantes do povo chinês, a China está em vias de terminar de construir uma sociedade moderadamente próspera em todos os aspectos. Obtivemos ganhos históricos ao erradicar a pobreza extrema e embarcamos em uma nova jornada rumo à construção plena de um país socialista moderno. À medida que a China entra em um novo estágio de desenvolvimento, seguiremos uma nova filosofia de desenvolvimento e promoveremos um novo paradigma de desenvolvimento com a circulação doméstica como o esteio e as circulações doméstica e internacional reforçando-se mutuamente. A China trabalhará com outros países para construir um mundo aberto, inclusivo, limpo e bonito que desfrute de paz duradoura, segurança universal e prosperidade comum.

– A China continuará a participar ativamente da cooperação internacional no combate ao COVID-19. Conter o coronavírus é a tarefa mais urgente para a comunidade internacional. Isso porque as pessoas e suas vidas devem ser sempre colocadas antes de qualquer coisa. É também o que é necessário para estabilizar e reanimar a economia. Mais solidariedade e cooperação, mais compartilhamento de informações e uma resposta global mais forte são o que precisamos para derrotar o COVID-19 em todo o mundo. É especialmente importante aumentar a cooperação em Pesquisa e Desenvolvimento, produção e distribuição de vacinas e torná-las bens públicos que sejam verdadeiramente acessíveis e economicamente viáveis ​​para as pessoas em todos os países. Até agora, a China forneceu assistência a mais de 150 países e 13 organizações internacionais, enviou 36 equipes de especialistas médicos a países necessitados e manteve um forte apoio e um envolvimento ativo na cooperação internacional em vacinas COVID. A China continuará a compartilhar sua experiência com outros países, a fazer o seu melhor para ajudar os países e regiões que estão menos preparados para a pandemia e a trabalhar para maior acessibilidade e disponibilidade das vacinas COVID nos países em desenvolvimento. Esperamos que esses esforços contribuam para uma vitória rápida e completa sobre o coronavírus em todo o mundo.

– A China continuará a implementar uma estratégia de abertura onde todos ganham. A globalização econômica atende à necessidade de crescimento da produtividade social e é um resultado natural do avanço científico e tecnológico. Não interessa a ninguém usar a pandemia como desculpa para reverter a globalização e buscar o isolamento e o desacoplamento. Como apoiadora de longa data da globalização econômica, a China está empenhada em seguir sua política fundamental de abertura. A China continuará a promover a liberalização e a facilitação do comércio e do investimento, ajudará a manter as cadeias industriais e de abastecimento globais escorreitas e estáveis ​​e promoverá a cooperação de alta qualidade no âmbito do projeto “Um Cinturão e uma Rota”. A China promoverá a abertura institucional que abrange regras, regulamentos, gestão e padrões. Promoveremos um ambiente de negócios baseado nos princípios do mercado, regidos por lei e de acordo com os padrões internacionais, visando liberar o potencial do enorme mercado da China e da enorme demanda interna. Esperamos que esses esforços tragam mais oportunidades de cooperação a outros países e deem mais ímpeto à recuperação e ao crescimento econômico global.

– A China continuará a promover o desenvolvimento sustentável. A China implementará integralmente a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Ela fará mais na frente ecológica, transformando e melhorando sua estrutura industrial e matriz energética em um ritmo mais rápido e promovendo um modo de vida e produção verdes e de baixo carbono. Anunciei a meta da China de se esforçar para atingir a meta das emissões de dióxido de carbono antes de 2030 e alcançar a neutralidade de carbono antes de 2060. O cumprimento dessas metas exigirá um trabalho árduo da China. No entanto, acreditamos que quando os interesses de toda a humanidade estão em jogo, a China deve dar um passo à frente, agir e fazer o trabalho. A China está elaborando planos de ação e já tomando medidas específicas para garantir o cumprimento das metas estabelecidas. Estamos fazendo isso como uma ação concreta para defender o multilateralismo e como uma contribuição para proteger nossa casa comum e realizar o desenvolvimento sustentável da humanidade.

– A China continuará avançando em ciência, tecnologia e inovação científica, tecnologia e inovação são um motor fundamental para o progresso humano, uma arma poderosa para enfrentar muitos desafios globais e a única maneira de a China promover um novo paradigma de desenvolvimento e alcançar um desenvolvimento de alta qualidade. A China investirá mais em ciência e tecnologia, desenvolverá um sistema que possibilite a inovação como prioridade, transformará avanços em ciência e tecnologia em produtividade real em um ritmo mais rápido e aumentará a proteção da propriedade intelectual, tudo com o propósito de promover maior inovação e crescimento de qualidade. Os avanços científicos e tecnológicos devem beneficiar toda a humanidade, em vez de serem usados ​​para barrar e conter o desenvolvimento de outros países. A China pensará e agirá com mais abertura no que diz respeito ao intercâmbio e cooperação internacional em ciência e tecnologia. Trabalharemos com outros países para criar um ambiente justo, equitativo e não discriminatório para o avanço científico e tecnológico que seja benéfico a todos e compartilhado por todos.

– A China continuará a promover um novo tipo de relações internacionais. O jogo de soma zero ou de “o vencedor leva tudo” não é a filosofia que norteia o povo chinês. Como seguidora convicta de uma política externa independente e de paz, a China está trabalhando duro para superar as diferenças por meio do diálogo e resolver disputas por meio da negociação e para buscar relações amigáveis ​​e cooperativas com outros países com base no respeito mútuo, igualdade e benefício mútuo. Como membro constante dos países em desenvolvimento, a China aprofundará ainda mais a cooperação Sul-Sul e contribuirá para os esforços dos países em desenvolvimento para erradicar a pobreza, reduzir o peso da dívida e alcançar mais crescimento. A China se envolverá mais ativamente na governança econômica global e pressionará por uma globalização econômica que seja mais aberta, inclusiva, equilibrada e benéfica para todos.

Senhoras e senhores,

Amigos,

Existe apenas uma Terra e um futuro compartilhado para a humanidade. Enquanto enfrentamos a crise atual e nos esforçamos para que venham dias melhores para todos, precisamos permanecer unidos e trabalhar juntos. Foi-nos mostrado uma e outra vez que empobrecer o próximo, seguir sozinho e cair em um isolamento arrogante sempre falhará. Vamos todos dar as mãos e deixar que o multilateralismo ilumine nosso caminho em direção a uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade.

Obrigado.

Tradução livre da Redação


Wevergton Brito
Jornalista, vice-presidente nacional do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade ao Povos e Luta pela Paz)

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