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segunda-feira, 31 de março de 2025

Aquele 1º de abril, eu vivi - Trajano Jardim - Dirigente cetebista no SINPROEP - Nosso decano


 O artigo abaixo foi escrito vice-presidente do Sinproep-DF, Trajano Jardim, integrante da Comissão da Verdade dos Trabalhadores em Educação do Setor Privado de Ensino, instaurada pela Contee. É um testemunho vivo do que aconteceu há 61 anos. O golpe de 1º de abril de 1964, não pode jamais se repetir.

Trajano Jardim*

Alberto Broch, Chaparral, Victor Frota (CTB DF) e Trajano Jardim que do nosso lado enfrentou o negacionismo e o Bolsonarismo

Nos dias que antecederam o 1º de abril (de 1964), a agitação deixava todos dirigentes sindicais e políticos tensos. O comício da Central do Brasil, de 13 de março, criara um misto de confiança e ao mesmo tempo de preocupação sobre que rumo o País tomaria. Cada setor da sociedade tinha uma avaliação particular de qual seria o caminho. A imprensa corporativa, como sempre, semeavam provocações e boatos sacudiam os noticiários dos jornais, do rádio e da televisão, que nessa época ainda engatinhava.  O Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), de há muito, vinha se reunindo com regularidade, com o objetivo de avaliar a situação e organizar a resistência ao golpe que, na opinião de vários diigentes, “estava em marcha”.

Na sede da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI), a maior organização laboral da América Latina, o entra e sai era constante. A cada minuto chegava nova informação sobre a situação. Os dirigentes do CGT, o portuário Osvaldo Pacheco, os tecelões Clodesmidt Riani, e Hércules Correia, o marceneiro Roberto Morena, o metalúrgico Benedito Cerqueira e o ferroviário e deputado federal Batistinha, estavam em contato permanente com o comitê de crise formado pelos partidos políticos e pela Frente Parlamentares Nacionalistas e representantes do governo, com o objetivo de se informar sobre o andamento da crise.

Em vista do agravamento da situação, o CGT convocou uma reunião de emergência no dia 29 de março, para avaliar a correlação de forças em relação aos setores golpistas, na Guanabara liderados pelo governador Carlos Lacerda, que no dia 19 liderara a “Marcha com Deus pela Família” e se articulavam para derrubar o presidente João Goulart e instituir uma ditadura no País. Participei dessa reunião como representante dos gráficos do então Estado da Guanabara. Naquela reunião foi discutida a proposta do deputado Leonel Brizola, - líder da Rede da Legalidade em 196 - de implantação do Estado de Sítio pelo governo João Goulart. A maioria das principais lideranças das forças democráticas e progressistas se posicionou contra tal proposta, endossando a argumentação do líder do PCB, Luis Carlos Prestes, de que “historicamente o Estado de Sítio sempre foi contra a classe trabalhadora”.

O Comando Geral dos Trabalhadores, na reunião da noite de 30 de março, avaliou que o golpe era iminente. Assim, foi aprovada a deflagração da Greve Geral Nacional no dia 1º de abril. Na nota dirigida à Nação, o CGT afirmava que “só a resistência dos trabalhadores nas ruas poderia barrar o golpe”. Afinal, só na Guanabara o movimento sindical tinha conseguido mobilizar mais de 100 mil pessoas no comício de 13 de março.

O trabalho de mobilização foi intenso. O transporte de massa, que naquela época era feito pelos trens da Central do Brasil e da Leopoldina. No dia 1º foram totalmente paralisados. A Rádio Nacional foi ocupada pelos funcionários liderados PE ló radialista Emilson Froes, presidente do sindicato. A rádio abriu espaço para os dirigentes sindicais convocarem os trabalhadores de suas categorias a apoiar à greve geral. Fui indicado pela diretoria do Sindicato dos Gráficos para conclamar os trabalhadores gráficos ao movimento grevista.

Deixei a rádio com alguns companheiros e quando chegamos ao Sindicato soubemos que a polícia e o exército haviam ocupado a Rádio Nacional e prendido os radialistas e funcionários que estavam no comando da emissora e que o presidente Jango tinha embarcado para Brasília, com o objetivo de organizar a resistência ao golpe.

Ficamos de vigília no Sindicato esperando alguma orientação para lutar contra o golpe. Corriam boatos de que o almirante Aragão comandante do Corpo de Fuzileiros Navais iria organizar grupos de voluntários. O local de encontro seria na Cinelândia. Nós, os militantes comunistas, vimos que a situação estava sob o controle do exército e da polícia. Algumas dezenas de pessoas se manifestavam com palavras de ordem de “fora Lacerda”, “viva Jango”. Sabia-se que o prédio da UNE fora incendiado pelo “Comando de Caça aos Comunistas” e que em Brasília os militares favoráveis ao golpe de Estado tinham pretensões de prender o presidente Jango e este, por segurança, embarcara para o Rio Grande do Sul. Nossas esperanças se esvaíram com a fina chuva daquela fatídica quarta-feira.

A movimentação de carros da polícia era intensa. Naquele momento éramos cinco, talvez seis gráficos militantes comunistas, desnorteados em pleno centro da cidade do Rio de Janeiro. Um deles, Francisco Nunes, que era secretário da base dos gráficos do PCB, o “Velho Partidão” morava na Piedade, um bairro de classe média, distante 30 km do centro do Rio.

Começamos a caminhar pela Avenida Rio Branco vagarosamente fazendo as nossas conjecturas do que seria o dia seguinte. Como não tínhamos informações do desfecho daquela situação, a nossa expectativa era de que o esquema militar do Jango funcionaria a partir do Rio Grande do Sul, onde o comandante do Exército general Ladário Teles, era fiel a João Goulart. Essa nossa esperança esvaiu-se. Nos dias que se seguiram mostrou-se que não passava de vã esperança. Jango não aceitou o enfrentamento. Hoje temos conhecimento que fora aconselhado pelo ministro das Relações Exteriores Santiago Dantas, a não tomar este caminho, tendo em vista que o governo estadunidense havia postado a Quarta Frota no litoral brasileiro em apoio ao golpe. Caminhávamos sob a fina chuva há algumas horas. Não havíamos nos alimentado por todo o dia e não sentíamos fome nem sede. Francisco Nunes instintivamente seguia rumo a Piedade.

Analisando a situação de cada um de nós do grupo, concluímos que o mais visado era eu. Por este motivo não deveria ir para minha casa naquela noite. O Nunes aconselhou-me ir com ele para a sua. Todos aceitaram a ideia. Os demais companheiros tomaram seu rumo e eu segui com o camarada Francisco Nunes. Chegamos à piedade por volta das 10,30 horas. Tínhamos saído da Cinelândia às 15 horas. Caminhamos 7 horas e meia e estávamos molhados até os ossos.

A nossa preocupação maior era saber das notícias pela televisão, que naquela época era em preto e branco. Na telinha, ainda oval, aparecia o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, (um dos líderes da UDN, partido que era o esteio civil do movimento golpista), com uma metralhadora em cima da bancada. Ele se apresentava como o grande responsável de ter livrado o Brasil de ser dominado pelos comunistas. Para nossa decepção, os noticiários davam conta de que o Congresso, sob a presidência do senador Auro Moura Andarade, embora o presidente constitucionalmente eleito estivesse ainda em território nacional, considerou vaga a presidência da República, destituindo de forma ilegal o mandatário do País e colocado na presidência o deputado Ranieri Mazili.

Naquela noite, por motivos óbvios, não pregamos os olhos. As emissoras eram poucas. TV Tupi, Rio, Excelsior e as rádios.  Ficamos freneticamente girando os botões da televisão e do rádio, em busca de notícias que pudessem nos dar algum alento. Para nossa decepção, tanto nas TVs quanto nas rádios davam conta de que estávamos sendo derrotados. O golpe se consolidava. Algumas lideranças sindicais já apareciam como procuradas. Principalmente os dirigentes do Comando Geral dos Trabalhadores. O dia amanheceu. E só aí a “ficha caiu”. E agora, o que fazer? (voltávamos a Lênin, na derrota de 1905 na Rússia).

Naquela época a comunicação não tinha as facilidades de hoje. Os contatos eram interpessoais e institucionais. Francisco Nunes e eu resolvemos ir até o centro da cidade – agora de condução – ver como estava a situação do Sindicato. No prédio onde funcionava a sede fizemos contato com o Fabrício, que era o nosso companheiro que administrava a entidade. Ele nos colocou a par da situação e disse que só havia feito contato com Walter Torres, diretor-tesoureiro do Sindicato.

Walter Torres era de família religiosa e conservadora, mas era um companheiro leal e solidário. Com o golpe militar nossas relações estreitaram-se de forma muito forte. Ele sabia que, pelas minhas atividades políticas partidárias, a qualquer momento eu poderia ser preso e ele, junto comigo, por certo, iria ter complicações. Mas Torres resolveu enfrentar e nós garantimos a continuidade do Sindicato dos Gráficos, enquanto todos os demais diretores desapareceram.

Torres tinha um parente que era o pároco da Igreja Nossa Senhora da Lampadosa, na Avenida Passos, 15, perto da Praça Tiradentes, próximo ao Sindicato. Por três meses fizemos da igreja o nosso local de funcionamento do sindicato. Ajudávamos a fazer velas e outros trabalhos na igreja. A polícia ocupou o Sindicato por cinco dias, Revirou tudo. Perguntou aos funcionários pelos diretores e levaram uma bandeira da CGT argentina que viram pendurada na parede.

A poeira baixou e retornamos ao Sindicato. Eu voltei para a empresa onde trabalhava desde 1959. Em 1966, a com a repressão cada vez mais intensa e com inclusão do meu nome no IPM da imprensa, fui demitido por razões óbvias, embora a empresa tenha me pago todos os direitos. A partir daquele instante concluí que a minha vida iria virar “de ponta a cabeça”.

Não queria acreditar nas previsões do velho Erasmo, camarada que me filiou ao Partidão, quando dizia “esse é um golpe para 20 anos”. Infelizmente ele acertou em cheio. Foram 20 anos, dos quais sete eu vivi na clandestinidade  e por quase dois exilado na saudosa União Soviética.

Hoje fui reconhecido como “perseguido político” e recebi as “desculpas do Estado brasileiro”. Um sofisma que jamais trará de volta milhares de militantes mortos, alguns fraternos camaradas, como Itaí Veloso, (considerado meu querido irmão pela nossa semelhança física), João Macena Melo, e muitos outros, que sofreram torturas físicas e psicológicas, perderam aa sua vidas, por terem como crime a esperança de construir uma sociedade justa, fraterna e igualitária.

Deixaram pela estrada da vida seus sonhos, interrompidos pela violência absurda e cruel, que esperamos ver reparada de fato, sem sofismas. Com a condenação dos criminosos torturadores. Embora, sessenta anos depois, presenciemos cenas como a de oito de janeiro de 2023.

Aquele 1º de abril, eu vivi e sobrevivi.

_____________

*Trajano Jardim é jornalista profissional, militante comunista há 65 anos. Atualmente filiado ao PCdoB-DF. É diretor do Sinproep-DF e integrante da Comissão da Verdade dos Trabalhadores em Educação do Setor Privado de Ensino, instaurada pela Contee.



domingo, 19 de maio de 2024

Familiares de vítimas da ditadura vão à Brasília de 20 a 23 de maio exigir Justiça e mobilizam sociedade


Foto: Reprodução/Apub

Por: Bélit Loiane no dia 26 de março de 2024 às 15:16

Atualizado: no dia 01 de abril de 2024 às 18:09





Familiares de mortos e desaparecidos políticos brasileiros durante a ditadura militar instalada no país de 1964 a 1985 realizam uma semana de luta e mobilização, entre os dias 20 e 23 de maio, em Brasília-DF. 

O grupo vai pressionar o Governo Federal, principalmente para a reinstalação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos, extinta em dezembro de 2022 pelo governo do ex-presidente e ex-militar Jair Bolsonaro, e que vem sendo protelada pelo governo do presidente Lula para evitar tensão com os militares brasileiros. 

A mobilização também tem o objetivo de exigir ações concretas do Governo Federal para que o Brasil cumpra as sentenças internacionais e na Justiça brasileira, garantindo o direito à memória, à verdade, à Justiça e à reparação às vítimas de violações de direitos humanos. 

A semana de mobilização inclui visitas ao Ministério Público Federal, ao Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, reuniões no Congresso Nacional, visitas aos presidentes das comissões de Direitos Humanos da Câmara e do Senado; na Comissão da Anistia; além de apoiar e buscar apoio das Organizações não-governamentais e dos movimentos populares.


Confira a programação completa:


Semana de luta de familiares de mortos e desaparecidos políticos


Dia 20/05/2024

10h à 17h | Visitas a organizações da sociedade civil e movimentos sociais.


Dia 21/05/2024

10h | Reunião com Ministério Publico Federal

Endereço: SAS quadra 05 bloco E lote 08

Dia 22/05/2024

9h | Secretaria da presidência (a confirmar)

Praça dos Três Poderes, Palácio do Planalto, 4º andar - Brasília

14h | Comissão de Anistia 

16h30 | Reunião da Comissão de Participação Legislativa com Deputado Glauber Braga

Apresentação da pesquisa sobre desaparecimentos forçados

Local: Plenário 3 - Câmara dos Deputados 


Dia 23/05/2024

8h30 | Audiência privada com a Corte Interamericana de Direitos Humanos

14h | Reunião Ministério DH


Maiores informações:


Jana Sá – 84. 99914.0510

Rafael Duarte – 84. 99654.9404



Veja também:

“A Dinaelza faria 70 anos”, diz Diva Santana, sua irmã, Diva Santana
Dinaelva Santana Coqueiro


sábado, 11 de dezembro de 2021

1964: Entrevista com João Vicente Goulart - UNIVESP #DitaduraNuncaMais

João Vicente Goulart, filho de João Goulart, concede entrevista sobre o governo de seu pai e o golpe de Estado que o derrubou. Aos sete anos de idade, João Vicente foi exilado do Brasil com a família. Preside, hoje, o instituto que leva o nome do ex-presidente, que visa preservar a memória e debater a política brasileira que culminou numa ditadura militar de 21 anos. A conversa foi realizada no dia 5/4/2014 especialmente para o projeto 1964.






Hoje, João Vicente Goulart é Presidente do PCdoB DF e membro da Comissão Política Nacional do Comitê Central

quarta-feira, 31 de março de 2021

Especial Coletivizando #DitaduraNuncaMais

 
FILMES HISTÓRICOS SOBRE A DITADURA MILITAR

Na data de hoje, 31 de março de 2021, completam-se 57 anos do golpe militar de 1964, que deu início a uma longa e tenebrosa noite de 21 anos. Foram anos de graves violações de direitos humanos, mortes, torturas, desaparecimentos, execuções, exílio, censura e humilhações contra os brasileiros.
No momento em que completamos 57 anos deste vergonhoso episódio da nossa história forças retrógradas buscam negar os fatos passados através de um revisionismo histórico. Temos um governante que explicitamente defende a tortura e celebra figuras de torturadores, além de estimular a comemoração de data tão terrível para qualquer ser civilizado.
Desta forma, nesta data, o Núcleo de Direitos Humanos do Departamento de Direito da PUC-Rio convida a todas e todos que assistam e divulguem alguns filmes que retratam aqueles momentos de terror.
Ditadura Nunca Mais
Tortura Nunca Mais
João Ricardo Dornelles

PROJETO COM SENTENÇAS CONDENATÓRIAS NAS AUDITORIAS MILITARES
TAMBÉM DISPONÍVEL O LIVRO BRASIL NUNCA MAIS NA INTEGRA
ACESSE CLICANDO NOS LINKS ABAIXO DO TEXTO

TÉCNICAS DE TORTURA UTILIZADAS PELA DITADURA MILITAR - DOCUMENTOS REVELADOS


Vídeos: Ditadura de 1964 - Para não esquecer jamais - Onde estão nossos desaparecidos políticos? Verdade! Justiça!


Observatório da Imprensa - A imprensa e o Golpe Militar de 1964 - TV Brasil 


'Marcha da Família com Deus pela Liberdade'; saiba quem a financiou e dirigiu - Ópera Mundi

 

Baixe o Relatório da Comissão Nacional da Verdade e veja os nomes dos heróis mortos e desaparecidos - CNV 


Professor de Literatura Comparada da Uerj, João Cezar de Castro Rocha se dedicou no último ano e pouco a ler, assistir, ouvir o principal da produção do bolsonarismo. O atual governo produziu uma visão muito particular da história recente do Brasil. É a partir dela que lê o país e o mundo, assim como escolhe atuar. Em sua entrevista ao editor Pedro Doria, Castro Rocha explica esta visão. Durante a entrevista, João Cezar menciona o Orvil. Cá está o link onde pode ser encontrado: https://drive.google.com/file/d/1cPgX...


Bomba na Comissão da Verdade: "Frias visitava o Dops"


PCdoB: Memória, História e Hegemonia - Portal Vermelho


Comissão da Verdade: Rubens Paiva foi morto pelo DOI-Codi - Portal Vermelho


Osvaldo Bertolino: A história da Chacina da Lapa  - Portal Vermelho 


40 anos do massacre da Comissão Nacional de Organização do PCdoB - Portal Vermelho


Torturador Brilhante Ustra denunciado pelo sequestro de Edgar de Aquino Duarte


Livro revela que a ditadura executou 41 guerrilheiros no Araguaia - Portal Vermelho


Há 40 anos, Guerrilha do Araguaia era noticiada pela 1ª vez - Portal Vermelho


40 anos da Guerrilha do Araguaia - Justiça e verdade para nossos herois insepultos - Paulo Vinícius

 

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Dilma anuncia integrantes da Comissão da Verdade - Portal Vermelho


Blog do Luiz Aparecido: Ditadura torturou, matou, roubou e desaparecem com os corpos das vítimas! - Carta de Sílvio Tendler


Protesto expõe Harry Chibata, legista que encobriu tortura durante ditadura - Portal Vermelho - Portal Vermelho


O homem que criou a nova sigla, PCdoB - Portal Vermelho


Leia o Manifesto: PCdoB 90 anos, pelo Brasil e o socialismo - Portal Vermelho


Guerrilha do Araguaia: 12 de Abril de 1972 marcou nossa história - Portal Vermelho


Major Curió será o primeiro torturador processado no Brasil - Portal Vermelho


Carta aos Comunistas - Luiz Carlos Prestes - Março de 1980 


Intrigas e golpes das elites no Brasil — os casos Vargas e Jango - Por Augusto César Buonicore*


Maurício Grabois e o heroísmo na selva « CartaCapital 


Bertolino:O Diário de Maurício Grabois e os devaneios de um jornalista 


Gilse Cosenza: História viva do PCdoB - PCdoB. O Partido do socialismo. 


Depoimento de Gilse Cosenza à Comissão da Verdade sobre a Ditadura Militar

Acusado de torturar Dilma dá entrevista: “Era uma coisa comum” - Portal Vermelho


Entre os facínoras, assassino de Carlos Nicolau Danielli 


“Se pudesse, faria tudo outra vez” - Entrevista de Adelino Cassis na Revista Extratos do SEEB DF


Onde estão nossos heróis, mortos e desaparecidos pela Ditadura?



Mártires do PC do B

 

Bergson Gurjão Farias: Guerrilheiro do Araguaia 

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Em rompante de nostalgia, Folha saúda o regime militar


PCdoB propõe excluir torturadores da Lei da Anistia  - PCdoB. O Partido do socialismo.


quarta-feira, 14 de março de 2012

Guerrilha do Araguaia: 12 de Abril de 1972 marcou nossa história - Portal Vermelho

Guerrilha do Araguaia: 12 de Abril de 1972 marcou nossa história - Portal Vermelho
12 de Abril de 2011 - 17h30

Em 12 de abril de 1972, há exatamente 39 anos, teve início no sul do Pará a Guerrilha do Araguaia

Guerrilha do Araguaia: 12 de Abril de 1972 marcou nossa história

A “verdade” pode ter muitas faces, servir a muitos interesses, mas os fatos históricos falam por si. Só precisamos relatá-los com honestidade. E assim, o tempo se encarregará de fazer justiça àqueles que deram suas vidas para alterar o rumo de nosso país. Ao governo brasileiro resta dar respostas às famílias dos guerrilheiros sobre como se deram as condições de suas mortes e onde se encontram seus corpos.

por Romualdo Pessoa Campos Filho* em seu blog Carpe Diem - Gramática do Mundo
Em 1995, ao concluir a dissertação de mestrado, sobre a Guerrilha do Araguaia, eu tinha plena convicção que havia me envolvido em uma pesquisa cuja história demoraria a ser concluída. Muito embora eu carregue a satisfação de ver o primeiro livro publicado sobre o tema, a partir de uma pesquisa acadêmica, era visível o fato que pelos anos seguintes, principalmente com o país consolidando a democracia, novos estudos, pesquisas e livros publicados viessem a ampliar o volume de informações que estavam sendo sonegadas à sociedade e a nós, pesquisadores.


Leia também:
Jana Sá: "39 anos da Guerrilha do Araguaia: não esquecer jamais"
Quando comecei minha pesquisa, – e em minha primeira viagem à região contei com a companhia de um amigo e também pesquisador da guerrilha, Gilvane Felipe, que defendeu sua dissertação de mestrado na França, na Université de La Sorbonne Nouvelle (Paris III), em 1993 – tínhamos grandes dificuldades em ter acesso aos documentos sigilosos, das Forças Armadas, que nos ajudassem a compreender, pela ótica dos militares, aquele conflito. Ou que servissem para identificar as mortes daqueles guerrilheiros cujos corpos jamais foram encontrados.

Por isso o meu trabalho buscou outro foco. Compreender a Guerrilha do Araguaia pelo olhar dos habitantes daquela região, abrangendo desde Marabá, no Pará, até o outro lado do Rio Araguaia, então estado de Goiás (hoje Tocantins), em Xambioá e chegando até Araguanã. Subindo até a confluência dos estados do Maranhão e atual Tocantins, de um lado, Porto Franco, do outro Tocantinópolis.

Viajamos àquela região de Chevette (rebaixado, uma verdadeira aventura. Atolamos três vezes, pois o período era de chuvas) subindo pela Belém-Brasília até a cidade de Araguatins, onde alcançamos a Transamazônica após atravessarmos o Rio Araguaia. Dali, rumamos para Marabá, onde, obtendo o apoio da prefeitura daquela cidade (na época encontramos na secretaria de Comunicação um antigo colega de lutas no Movimento Estudantil em Goiás, o atual deputado estadual pelo Pará, João Salame Neto) pudemos fazer um ótimo trabalho de campo, com entrevistas importantes em um momento ainda de profundo silêncio, em decorrência do temor que se tinha de falar do tema.

O medo era sustentado pela presença de militares, mas também pelo trauma que ficou, criando no inconsciente das pessoas, às vezes, uma falsa convicção que estavam sendo sempre vigiados pelo “pessoal do Curió”, os “secretas” (Sebastião Moura, o Curió, foi um personagem central no combate à guerrilha. Na época era capitão, infiltrou-se na região no período anterior à terceira campanha e tornou-se responsável pela ordem de execução de muitos prisioneiros. Recentemente foi preso em Brasília, pela Polícia Federal, acusado de esconder documentos importantes sobre a Guerrilha).

Fizemos várias entrevistas, começando por Marabá, seguindo em direção a São Domingos do Araguaia (na época da Guerrilha, São Domingos das Latas), Brejo Grande, Palestina, Bacaba (uma antiga base militar e também local de prisão e tortura), São Geraldo e Xambioá.

Coincidentemente nos hospedamos, a partir do apoio da prefeitura, em uma casa no conjunto habitacional do antigo Incra. Aquele local, na época da guerrilha, havia se tornado uma espécie de quartel-general no combate ao movimento guerrilheiro. Bem em frente, ficava a antiga sede do DNER, que passou a ser conhecida como “Casa Azul”, local onde se definiam as operações antiguerrilha – portanto comando de ações das Forças Armadas –, e depois outro local para onde guerrilheiros e moradores da região eram presos e submetidos à tortura. Mas isso só viríamos saber depois, com o andamento de nossas investigações.

Descobrimos, pelos depoimentos colhidos, que as pessoas detidas eram levadas para Bacaba e para Xambioá. Nesses dois lugares haviam dois buracos, cobertos por uma grade cada um, onde os prisioneiros eram literalmente jogados. Um deles, os soldados apelidaram de Vietnã. Água suja, ratos, cobras, eram jogados para assustar e intimidar os presos. Dali, alguns eram levados para a “Casa Azul”, onde eram submetidos a novos tipos de torturas. Alguns voltavam para Bacaba, quando não ficavam comprovados maiores envolvimentos. Permaneciam mais algum tempo presos e depois eram libertados. Já a partir da terceira campanha, final de 1973 em diante, os prisioneiros mais diretamente envolvidos no movimento eram levados de volta à mata e sumariamente executados.

Quanto mais avançávamos em direção aos municípios onde os conflitos se deram com maior intensidade, mais compreendíamos a dimensão de um movimento que ainda tinha muito a nos revelar. A cada entrevista, a cada contato com um morador, a cada depoimento de camponeses agredidos e obrigados a tornarem-se guias dos pelotões militares, mais sentíamos que tínhamos em mãos um fato histórico que escondia feridas não cicatrizadas, protegidas a ferro e fogo por quem extrapolou os limites estabelecidos em acordos internacionais, principalmente no que diz respeito à proteção da população civil e aos combatentes aprisionados com vida. Aos poucos comprovávamos que aconteceram muitas execuções. Guerrilheiros, e até mesmo moradores da região, após serem torturados, eram assassinados friamente.

Gradativamente íamos descobrindo segredos guardados pelas Forças Armadas, cujo objetivo era impedir que os abusos que foram praticados no combate à guerrilha fossem apontados e submetidos às sanções como crimes de guerra. Além da tentativa desesperada de omitir para a história os erros que foram cometidos pelas forças militares institucionais. Estratégias e táticas equivocadas que levaram a três operações, sendo que duas delas foram mal-sucedidas, fracassadas em seus intentos de eliminarem rapidamente um conflito do qual não se tinham ainda maiores informações.

Erros de inteligência, na identificação do grau de capacidade de reação dos insurgentes, foram cruciais para derrotar as Forças Armadas nas duas primeiras ofensivas. Soldados mal preparados, e desconhecendo o real objetivo de suas presenças na região do Araguaia, completavam o festival de equívocos cometidos pelos comandantes militares, do Exército, principal força presente na área, mas também, em menor medida, da Aeronáutica e da Marinha. No apoio, polícias militares (mais despreparadas ainda) dos estados de Goiás, Maranhão, Pará e Mato Grosso, completavam o cerco. E alguns agentes da Polícia Federal e do Serviço de Segurança (SNI).

Incapazes de derrotar os guerrilheiros militarmente nas duas primeiras campanhas, os comandantes militares mudaram de tática, recuaram suas forças e elaboraram um plano de preparação antiguerrilha, com um contingente menor e mais preparado para esse tipo de confronto e com soldados adaptados para a guerra nas selvas. Um trabalho de inteligência infiltrou agentes por cerca de um ano, mapeou toda a região, identificou possíveis pontos de apoio dos guerrilheiros e nominou todos aqueles moradores da região que, de uma forma ou de outra, tinham contato com os inimigos.

No início da terceira campanha, em outubro de 1973, uma nova guerra também começava, desta vez os militares não estavam pensando em prender guerrilheiros. Pela dimensão do movimento, inclusive com repercussões internacionais, pela capacidade de formar rebeldes altamente capacitados para novos eventuais movimentos guerrilheiros, a ordem dada era eliminar todos os que ainda estavam vivos. De qualquer maneira.

Não foi uma ordem de generais de comando do combate ao movimento. Ela foi determinada pelos altos postos de direção do Estado Militar Brasileiro, a partir de seu presidente, na época o general Emílio Médici. E apoiada por todos que compunham o escalão maior das Forças Armadas Brasileiras. A determinação foi cumprida a contento do ódio nutrido por três anos à ousadia de um pequeno grupo de se preparar para uma guerra de guerrilha no Brasil rural. Ódio potencializado pelas derrotas iniciais e, claro, pelo embate que se travava internacionalmente, no âmbito da Guerra Fria, entre os que se alinhavam aos interesses dos Estados Unidos e defendiam com firmeza o capitalismo, e os que se alinhavam ao bloco socialista, diferenciado em regimes com perfis diferentes: China, Cuba e URSS.

Mergulhando no Araguaia

Em um encontro com blogueiros no começo deste ano, em um evento em Natal – RN, o neurocientista brasileiro, reconhecido internacionalmente, Miguel Nicolelis afirmou que é uma “balela” essa história de imparcialidade, tanto no jornalismo, como na ciência. “Como neurocientistas, estamos cansados de saber que não existe isso de imparcialidade, como pretendem os jornalistas. Não existe imparcialidade nem jornalística nem científica”, disse ele.(*)

Aproveito para dizer aqui o mesmo em relação à História. Em um evento que participei no final do ano passado, o “Simpósio Internacional sobre o Direito à Informação”, afirmei em palestra que proferi sobre o tema, “O Direito às Informações Pessoais – História e Verdade”, que como historiador não tenho medo de assumir, em absoluto, que o meu olhar é guiado pelos elementos que me conduziram ao longo de anos de intensa atividade política. Abdiquei, faz pouco tempo, de uma ativa militância partidária de três décadas, por uma necessidade premente de formação acadêmica. Mas não abdiquei dos paradigmas que foram responsáveis por construir a minha visão de mundo, porque ela é fundamentada em valores de respeito à vida humana e à defesa de uma sociedade em que as pessoas sejam respeitadas não pelo que possuem em termos de riqueza material, porém pela sua condição de indivíduos que merecem igualitariamente ser tratados com dignidade.

Por isso, não me preocupo em ser julgado por falta de isenção, desde que, dentro do meu critério de verdade, eu esteja me guiando por esses valores e, fundamentalmente, pela honestidade da análise dos fatos. Afirmo que não pode haver história isenta do olhar ideológico, e desconfio daquele historiador que vive a reafirmar a sua isenção enquanto pesquisador, pois isso é impossível. Sua vida está impregnada de valores culturais que conduzem a sua investigação e influenciam suas conclusões.

Quando escrevi o meu trabalho, sob uma orientação precisa da Profª Janaína Passos Amado, então do curso de História da Universidade Federal de Goiás, passei por um crivo importante, com o intuito de me conduzir pela honestidade, por uma linguagem que fosse acadêmica e que minha postura não fosse confundida com a de um militante. Difícil tarefa pelo grau de envolvimento ideológico que eu possuía naquele momento, mas acredito ter cumprido á risca, e os resultados podem ser vistos no que está escrito em meu livro (Guerrilha do Araguaia – A esquerda em armas, Ed. da UFG, 1997) e no que vem sendo divulgado na imprensa e em outras publicações desde então (veja bibliografia ao final) .

Isso, contudo, não foi o suficiente para evitar críticas, inclusive de historiadores conhecidos, que me acusavam de ser um historiador oficial do PCdoB. Muito embora muitos desses críticos jamais se dispuseram a ouvir sequer um único depoimento de pessoas que foram presas e torturadas e viveram de perto todo o desespero gerado pela brutalidade com que foram tratados. Tornaram-se críticos ao longe, simplesmente para fundamentarem suas críticas à guerrilha e, assim, julgarem-se capazes de se incluir como historiadores isentos, porque opositores do regime, mas confiáveis à tarefa de atacarem o movimento guerrilheiro. Tentavam, assim, intimidar aqueles que se dispunham a olhar a guerrilha com outros olhos, e não enxergar simplesmente uma aventura de colegiais irresponsáveis, conduzidos por dirigentes incompetentes, como esses vorazes críticos se dispunham a retratar a Guerrilha do Araguaia.

Os embates surgidos da avaliação da guerrilha, que dividiu o próprio partido que conduziu o movimento guerrilheiro, terminou por atrapalhar uma ação mais coordenada e ampla, no sentido de se encontrar respostas para os segredos que as Forças Armadas tentavam a todo o custo esconder. Enfraqueceu a luta dos familiares que lutavam para encontrar as informações sobre dezenas de combatentes, presos com vida, e dos quais não se teve mais notícias. E, acima de tudo, esses críticos deixaram de lado um aspecto essencial a ser compreendido na análise do movimento: tratou-se de uma escolha, entre as poucas que existiam naquele momento de absoluta falta de liberdade e ausência de democracia.

Por assim ser, cometeram um dos males imperdoáveis ao historiador, tornaram-se anacrônicos, e quanto mais o tempo passava mais se distanciavam da realidade que impôs à esquerda reagir às brutalidades cometidas por aqueles que perpetraram o golpe militar e silenciaram a política brasileira. Caracterizavam os guerrilheiros aos olhos do presente e, por um olhar parcial e evidentemente ideológico, julgavam-nos como aventureiros a insistirem numa prática isolacionista denominada de foquismo.

Aqui retorno aos fatos, e analiso-os com um viés claramente ideológico. Na análise da conjuntura política do país e na identificação do significado das políticas postas em prática pelos governos militares que instalaram uma ditadura aqui no Brasil, não receio em deixar bem claro a visão crítica e o engajamento político que sempre me colocou ao lado das bandeiras defendidas pelos guerrilheiros do Araguaia. Seria impossível que eu me despisse de tudo isso a fim de me colocar como um “historiador isento”. Se assim eu o fizesse repetiria alguns que modificam seus pontos de vista com o objetivo de tornarem-se confiáveis ao sistema e poder obter o sucesso como intelectual “respeitado”.

A mim, repugnava as atrocidades praticadas por indivíduos que se julgaram no direito de impor ao povo brasileiro o caminho que deveriam seguir. Afrontaram os valores democráticos e cometeram crimes abomináveis de torturas e assassinatos em nome da democracia; cercearam o direito de os indivíduos se manifestarem livremente, silenciaram a imprensa (alguns jornais sucumbiram aos delírios ditatoriais), fecharam o parlamento, impediram a organização sindical e fecharam as entidades estudantis, e, pela força, tentaram convencer o povo que tudo isso era feito em nome da liberdade.

Alguns desses militares, cujos depoimentos ainda hoje os aproximam de verdadeiros psicopatas, justificam os abusos com o argumento de que os comunistas pretendiam instalar aqui no Brasil o comunismo. Então, pela intenção e pela escolha política diferente do outro, tudo se tornava permitido, inclusive torturar e assassinar. Mesmo se tal regime que esses militantes quisessem instalar ainda se encontrasse na condição de utopia. Mas sonhar também não era permitido.

A Guerrilha do Araguaia não pode ser desconectada desse contexto, e as consequências dessa e de outras poucas escolhas que existiam naquele momento devem ser analisadas à luz do tempo em que tudo isso aconteceu. Mas não se pode negar a existência de uma brutal repressão que transformava em marginal todo aquele cidadão que se indignasse com o regime pérfido e ditatorial que se instalara pela força das armas. As outras escolhas poderiam ser fugir do país (e aqui não há nenhum juízo de valor por trás do verbo); manter-se na clandestinidade sem a opção pela luta armada (isso não impediu a prisão, tortura e assassinato de dezenas de militantes que não pegaram em armas); e tornar-se guerrilheiro, seja na cidade ou no interior. Qualquer uma delas, pelo alto grau de ferocidade do regime, principalmente a partir do final da década de 1960, implicava em riscos de vida. Inclusive o autoexílio, haja vista a famigerada “Operação Condor”, que perseguiu militantes de esquerda por todos os países do Cone Sul.

O que queriam os guerrilheiros do Araguaia?

Os moradores da região do Araguaia são testemunhas e também protagonistas do movimento que eclodiu naquele rincão do Brasil. Abandonados pelos governos e de frente para uma densa floresta, que era aberta para ali se instalarem pequenos roçados, os moradores daquele pedaço esquecido do Brasil começaram a ter como vizinhos jovens, idealistas e sonhadores, alguns poucos experientes e até cinquentenários. Fugindo da perseguição nas cidades grandes, os comunistas, em sua maioria militantes do movimento estudantil, aceitaram construir às margens do rio Araguaia e na entrada da Floresta Amazônica uma resistência guerrilheira ao movimento militar que instaurou no Brasil em 1964 uma ditadura.

Traziam na bagagem pouca experiência de guerrilha, algum treinamento feito em outros países, principalmente na China, muita determinação e alguns problemas de adaptação, que terminou por criar alguns conflitos no grupo. A estratégia assemelhava-se ao que tinha servido de prólogo à grande transformação levada a cabo por Mao Tsetung, na China: o cerco das cidades por um exército guerrilheiro a partir do avanço de colunas de combatentes vindo da área rural, do interior do país.

Mas a tática a ser adotada, pode-se também mudá-la com o tempo e as condições analisadas, depende obviamente do movimento que o inimigo fizer. A reação, se inesperada ou maior do que as forças guerrilheiras podem resistir, força a mudanças táticas. Desse jogo de xadrez, que caracteriza a guerra, é que sairá a definição de quem primeiro gritará “xeque-mate”.

Se nas duas primeiras investidas dos militares seus erros impediram que suas táticas fossem vitoriosas, na terceira campanha deu-se o inverso. Cercados e submetidos à uma nova postura tática e com objetivos estratégicos redefinidos pelos militares, os guerrilheiros não resistiram a uma bem montada operação de inteligência e ao uso de grupamentos melhor preparados para a guerra na selva. Assim, essa terceira ofensiva, muito embora com um prazo de tempo que deu aos guerrilheiros certa mobilidade para fazer um trabalho político, transformou-se, na verdade, em uma verdadeira caçada. Incapazes de resistirem à força e determinação com que se deu a organização de novos pelotões, agora não mais fardados e preparados para combater até o final, os guerrilheiros foram sendo abatidos e presos um a um.

O que se escondeu por tanto tempo, mas já não mais se constitui em segredo, não somente pelos documentos que já apareceram, mas pelos inúmeros depoimentos de moradores daquela região, muitos submetidos à humilhação, prisão e torturas, é que dezenas de militantes foram presos com vida e depois eliminados, seguindo a ordem de “não deixar nenhum vestígio da existência da guerrilha”.

Osvaldão, Dinaelza, Dinalva, Juca, Joca, Mário, Joaquim, Fátima, Cristina... São nomes de guerra, de quem vivia na clandestinidade, mas que representavam, junto com tantos outros que lutavam nas cidades, corajosos e valorosos militantes comunistas. Pouco mais de 70 bravos guerrilheiros. Lutadores abnegados de uma causa pela qual hoje todos nós, cidadãos brasileiros, julgamos ser responsável por estar levando o Brasil em direção à liderança mundial. Lutavam contra a ditadura, pela democracia e pela liberdade. Não eram marginais, constituíram-se em valorosos brasileiros que não se entregaram à covardia daqueles que se curvavam aos interesses imperialistas. Pagaram o valor mais caro à cada um de nós: a própria vida. Por isso merecem todo o nosso respeito e o engajamento na luta para garantir-lhes o devido reconhecimento e o enterro digno de seus corpos, segundo as crenças de suas famílias.

A “verdade” pode ter muitas faces, servir a muitos interesses, mas os fatos históricos falam por si sós. Só precisamos relatá-los com honestidade. E assim, o tempo se encarregará de fazer justiça àqueles que deram suas vidas para alterar o rumo de nosso país. Ao governo brasileiro resta cumprir a determinação da Corte Interamericana de Direitos Humanos, da OEA, e dar respostas às famílias dos guerrilheiros sobre como se deram as condições de suas mortes e onde se encontram seus corpos.

Que isso não impeça, contudo, de compreendermos que vivemos outra realidade. A luta que travamos pela verdade não implica em condenar instituições, mas identificar aqueles que extrapolaram na condução de seus poderes. O Brasil vive um novo tempo e as Forças Armadas fazem parte das transformações que consolidam a importância e autoridade que o país exerce internacionalmente, bem como dão suporte às mudanças que possibilitam ao nosso povo atingir outro patamar de desenvolvimento. Isso não significa, no entanto, esquecer o passado. É preciso encarar nossos fantasmas, para que não nos encontremos no futuro com o repetir de farsas que se escondem por trás da história.

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Romualdo Pessoa Campos Filho é Professor de Geopolítica no Instituto de Estudos Sócioambientais da Universidade Federal de Goiás (IESA-UFG); Secretário Regional - SBPC/GO



NOTAS:

(*) Sobre a citação de Miguel Nicolelis, ver: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=8&id_noticia=146526
Lista dos guerrilheiros: http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_guerrilheiros_do_Araguaia
DVD – Camponeses do Araguaia, a guerrilha vista por dentro. Documentário. Diretor: Vandré Fernandes.
http://www.anitagaribaldi.com.br/produtos/default.aspx?codigo=591
Pequena bibliografia de referência:
Cabral, Pedro Correa. Xambioá, guerrilha no Araguaia. São Paulo: Ed. Record, 1993. http://xambioaguerrilha.blogspot.com/2008/10/xambio-guerrilha-no-araguaia-nota_24.html
Campos Filho, Romualdo Pessoa. Guerrilha do Araguaia – a esquerda em armas. Goiânia-GO, Editora da UFG, 1997
Felipe, Gilvane. A Guerrilha do Araguaia (Brasil, 1966 – 1975). Paris: Université de la Sorbounne Nouvelle (Paris III), Institute des Hautes Études de L’Amérique Latine, 1993. (http://www.esnips.com/doc/450d1797-d21e-49f9-ba2f-35d1f9ed94bf/Hist%C3%B3ria-da-Guerrilha-do-Araguaia)
Gaspari, Elio. A Ditadura Escancarada. São Paulo: Cia. das Letras, 2002
Maklouf, Luis. O coronel rompe o silêncio. São Paulo: Editora objetiva, 2004
Monteiro, Adalberto (org.). Guerrilha do Araguaia – uma epopeia pela liberdade. São Paulo: Editora Anita, 2002.
Morais, Tais e Silva, Eumano. Operação Araguaia – Os arquivos secretos da guerrilha. São Paulo: Geração Editorial, 1995
Studart, Hugo. A lei das Selvas. São Paulo: Geração Editorial, 1997

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