SIGA O COLETIVIZANDO!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Renato Rabelo: A grande encruzilhada do governo Lula

16 DE JANEIRO DE 2009 - 09h48

Manter um nível de desenvolvimento e emprego positivo, barrando a recessão, ou ser vencido pela retração econômica e expansão do desemprego.
A partir de 2007 o Brasil retoma o patamar de desenvolvimento do PIB anual acima dos 5% e a tendência apontava para uma aceleração do seu crescimento a níveis mais altos ainda, durante um período mais longo, mantendo assim em 2008 esse ritmo. Entretanto, este ascenso desenvolvimentista está enfrentando pesado obstáculo desde setembro do ano passado com a expansão da crise econômica e financeira mundial.
O governo Lula, desde o seu início, foi levado a estabelecer uma forma de pacto político, decorrente da correlação das forças políticas de então, com duplo compromisso contraditório: responder ao apoio da base democrática e popular que o apoiou desde 1989 e, ao mesmo tempo, estabelecer um acordo que cedia aos interesses da oligarquia financeira beneficiária da política neoliberal implantada desde início de 1990.
Esse pacto manifesto na “Carta aos Brasileiros” é que deu ao novo governo uma característica de dualidade, como já afirmávamos desde sua posse em 2003. A expressão desse tipo de pacto na formação do governo ficou demonstrada no papel de Antonio Palocci, titular do Ministério da Fazenda, na escolha de um presidente para o Banco Central da confiança dos grandes círculos financeiros internos e externos, como avaliadores do acordo. O restante do governo foi completado com muitas figuras de origem democrática e progressista, vinculados ao campo popular.
Foi esse tipo de coalizão política e social que permitiu – em condições de crescimento da economia mundial – que o primeiro governo Lula estabilizasse a crítica situação por que passava o país e começasse a distribuir renda primária aos mais deserdados. Simultaneamente, o governo buscou a afirmação de uma nova política externa “Sul-Sul”, de integração do subcontinente e diversificação comercial, dando ao Brasil importante protagonismo no cenário externo.
O segundo governo Lula colocou o centro de gravidade de suas ações na aceleração do desenvolvimento e no reforço dos programas sociais. A dualidade que se refletia na luta entre continuidade e mudança, neoliberais e anti-neoliberais, desenvolvimentistas e ortodoxos, os partidários de políticas públicas universais ou focalizadas, estatistas e mercadistas, esteve sempre presente e se elevou numa maior contenda com a saída acidental de Palocci da Fazenda, substituído por Guido Mantega, personalidade de feição progressista. Foi se configurando na política econômica um caráter “hibrido” (desenvolvimentismo X ortodoxia liberal). Apesar desses limites e contradições o Brasil começou uma fase ascendente de desenvolvimento desde ano de 2007.
Novo desafio, nova oportunidade
Porém, o início da fase aguda da crise sistêmica do capitalismo iniciada em setembro deste ano, atingindo toda economia mundial, impõe uma nova situação. O Brasil, com suas reservas e aplicação de elevados investimentos em curso, não foi atingido de imediato, mas começa a ser impactado com a recessão que se alastra mundo afora, tornando-se incerto o desdobramento dessa situação de crise, sobretudo nos próximos seis primeiros meses de 2009.
Em virtude da dimensão da crise em marcha – que põe em xeque a exacerbada globalização financeira liberalizante e ao próprio hegemonismo unipolar dos EUA – os povos e países da chamada periferia do sistema são jogados diante de ingentes desafios: encontrar novas respostas políticas e econômicas que não se limitem a remediar o impasse da nova grande crise do capitalismo, mas, distinguir novas oportunidades e caminhos para transformar o Brasil em uma nação soberana, democrática, próspera e socialmente avançada. Muitos exemplos da história demonstram que esses momentos de grandes crises do sistema, que ocorrem no seio dos países capitalistas centrais, criam oportunidades aos países dependentes e subdesenvolvidos para buscar seus caminhos próprios de desenvolvimento nacional.
Reconstruir o pacto político
Em face da crise o desafio é mais político que econômico. É chegada a hora de reconstruir o pacto político. Esta é a saída para o enfrentamento da crise. Dar maior força a base popular e democrática, aos trabalhadores e as camadas médias, em aliança com os empresários da produção e do comércio. Construir assim um grande pacto pela defesa e impulso do desenvolvimento, da economia nacional e do mercado interno, da renda do trabalho e do emprego. Em conseqüência da ação crescente da crise capitalista estamos diante de um risco maior: a recessão. Por isso, toda iniciativa e mobilização deve se voltar para viabilizar os meios que visem à expansão, e não retração da economia.
Em suma, deve ser superada a política da desregulamentação financeira, de juros altos e do câmbio livre da fase da economia “cassino”, submetida a fortes injunções da hegemonia dos grandes agentes financeiros. Hoje, manter juro real básico no patamar de 8% é o mesmo que continuar acelerando o carro para o abismo da depressão econômica. E deixar o câmbio livre de qualquer controle é voltar a cavar a vulnerabilidade externa do país. Em resposta a essa situação, impõe-se o nivelamento do juro real básico ao patamar internacional nesse tempo de crise, o controle do câmbio e de certa forma do fluxo de entrada e saída de capitais.
A encruzilhada diante do governo
O novo contexto gerado pela grande crise, tendo em conta a eleição geral de 2010, onde estará em disputa à presidência da República, leva o governo Lula a estar diante de uma encruzilhada: manter um nível de desenvolvimento e emprego positivo, barrando a recessão, ou ser vencido pela retração econômica e expansão do desemprego. Prevalecendo a primeira vertente o prestígio popular do governo e do presidente se elevará ainda mais, podendo irromper forte clamor nacional pela continuidade de Lula.
Se o governo conduz bem o país diante de grave crise global estimula a consciência de que a mudança do presidente em momento delicado como esse, na direção desse complexo empreendimento, pode ser muito arriscado. No período da grande depressão na década de 1930 nos EUA, o presidente Franklin Delano Roosevelt, com o projeto do New Deal que reergueu a nação norte-americana, superando a grande crise do capitalismo, foi reeleito quatro vezes, talvez não chegando à quinta porque faleceu.
Mas, se prevalece a segunda vertente, o presidente Lula pode perder o prestígio e a confiança hoje depositada na sua condução à frente da Nação e possibilitar o aparecimento de salvadores, reforçando o discurso revanchista da oposição, dificultando a vitória do candidato que seja escolhido como seu sucessor.
Esta é objetivamente a encruzilhada política que vive o governo, sendo a reconstrução do pacto político, de uma forma ou de outra, a via necessária para seguir a vertente que leva ao êxito na superação da crise.

Israel vs. Hamas: a derrota dos vencedores

18 DE JANEIRO DE 2009 - 16h52

Observado do ponto de vista estritamente militar o conflito na Faixa de Gaza, o Estado de Israel está impondo uma derrota histórica ao grupo Hamas. O noticiário da imprensa e as estatísticas publicadas pelos jornais não deixam dúvida quanto ao massacre que significa o número de mortos — que no lado palestino passa do milhar e entre os judeus não chega oficialmente a uma dezenas de soldados, alguns dos quais atingidos por suas próprias forças, o chamado "fogo amigo". Mas há outras leituras possíveis dos fatos.

Por Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa
No campo da opinião pública, onde as guerras acontecem com palavras e imagens, as cenas de crianças mortas e hospitais bombardeados superam em muito o impacto daquilo que é aceito como a causa do conflito: as atividades terroristas do grupo Hamas. São raras as cenas em que aparecem militantes do grupo, embora sejam considerados os verdadeiros combatentes do lado palestino.

O que se vê na imprensa todos os dias são retratos da população civil, à qual pertencem, segundo os jornais de sexta-feira (16/1), 65% das vítimas fatais. A imprensa já noticiou que os militantes armados se misturam à multidão, dificultando aos adversários a identificação dos alvos — o que explicaria, sob o ponto de vista estritamente militar, os constantes erros da artilharia israelense. Explicaria, mas não justificaria.

Uma novidade

Na chamada grande imprensa, que não pode ser acusada de simpática com os atos terroristas do Hamas, os fatos colocam o Estado de Israel em desvantagem pela própria evidência de que as ações militares não levam em conta a mais remota preocupação com a questão humanitária.

Já se acumulam na contabilidade dos erros pelo menos cinco escolas, dois hospitais e, na quinta-feira (15/1), o depósito da ONU onde eram estocados alimentos para grande parte dos 1,5 milhão de palestinos acuados entre as forças em combate. Nenhum dos grandes jornais tenta ao menos explicar o ataque às instalações da ONU e todos eles reproduzem as manifestações de condenação vindas de praticamente todas as partes do mundo.

Na mídia digital, que no atual conflito joga um papel fundamental na divulgação dos acontecimentos, o Estado de Israel perde a guerra na medida em que uma ampla e ativíssima rede de comunicação contata diretamente moradores de Gaza com a opinião pública de todo o planeta, expondo a tragédia humanitária que se agrava a cada dia.

Em algumas dessas redes, é grande o número de cidadãos judeus que se manifestam condenando a violência militar. Parte dessas informações acaba chegando aos jornais e emissoras de televisão, influenciando o viés do noticiário.

Comparada aos conflitos anteriores, a guerra deste ano no Oriente Médio traz essa novidade: o exército mais poderoso está perdendo a luta pela conquista dos corações e mentes.

Efeméride

A quinta-feira (15/1), registrado nas edições de sexta dos jornais, foi o 19 de Kislev do ano 5.769 no calendário judaico, ou 15 de janeiro de 2009 no calendário cristão. Marca a data da morte do rabino e filósofo Maimônides, ocorrida no ano 1204 da era cristã.

Maimônides é considerado um dos fundadores do judaísmo moderno e um dos grandes pensadores de todos os tempos. Ele viveu e construiu sua obra, livremente, na Espanha sob domínio muçulmano.

O Estado de Israel não representa necessariamente a sociedade sonhada por Maimônides, chamado pelos judeus de Rambam. As tribos tiranizadas por fanáticos religiosos que proliferam entre os povos árabes e palestinos não têm relação com a sociedade islâmica e multicultural que vicejou na Península Ibérica. Mas não custa lembrar.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Robert Fisk: Por que nos odeiam tanto?!



9 DE JANEIRO DE 2009 - 11h22




Assim, mais uma vez, Israel abriu as portas do inferno sobre os palestinos: 40 refugiados civis mortos numa escola da ONU, mais três em outra. Nada mau, para uma noite de trabalho do exército que acredita na "pureza das armas". Não pode ser surpresa para ninguém.
Por Robert Fisk, no Independent
Esquecemos os 17.500 mortos – quase todos civis, a maioria mulheres e crianças – de quando Israel invadiu o Líbano, em 1982? E os 1.700 civis palestinos mortos no massacre de Sabra-Chatila? E o massacre, em 1996, em Qana, de 106 refugiados libaneses civis, mais da metade dos quais crianças, numa base da ONU? E o massacre dos refugiados de Marwahin, que receberam ordens de Israel para sair de suas casas, em 2006, e foram assassinados na rua pela tripulação de um helicóptero israelense? E os 1.000 mortos no mesmo bombardeio de 2006, na mesma invasão do Líbano, praticamente todos civis?

O que surpreende é que tantos líderes ocidentais, tantos presidentes e primeiros-ministros e, temo, tantos editores e jornalistas tenham acreditado na mesma velha mentira: que os israelenses algum dia tenham-se preocupado com poupar civis. "Israel toma todo o cuidado possível para evitar atingir civis", disse mais um embaixador de Israel, apenas horas antes do massacre de Gaza.
Todos os presidentes e primeiros-ministros que repetiram a mesma mentira, como pretexto para não impor o cessar-fogo, têm as mãos sujas do sangue da carnificina de ontem. Se George Bush tivesse tido coragem para exigir imediato cessar-fogo 48 horas antes, todos aqueles 40 civis, velhos, mulheres e crianças, estariam vivos.
O que aconteceu não foi apenas vergonhoso. O que aconteceu foi uma desgraça. "Atrocidade" é pouco, para descrever o que aconteceu. Falaríamos de "atrocidade" se o que Israel fez aos palestinos tivesse sido feito pelo Hamás. Israel fez muito pior. Temos de falar de "crime de guerra", de matança, de assassinato em massa.
Depois de cobrir tantos assassinatos em massa, pelos exércitos do Oriente Médio – por sírios, iraquianos, iranianos e israelenses – seria de supor que eu já estivesse calejado, que reagisse com cinismo. Mas Israel diz que está lutando em nosso nome, contra "o terror internacional". Israel diz que está lutando em Gaza por nós, pelos ideais ocidentais, pela nossa segurança, pelos nossos padrões ocidentais.Então também somos criminosos, cúmplices da selvageria que desabou sobre Gaza.
Reportei as desculpas que o exército de Israel tem oferecido ao mundo, já várias vezes, depois de cada chacina. Dado que provavelmente serão requentadas nas próximas horas, adianto algumas delas: que os palestinos mataram refugiados palestinos; que os palestinos desenterram cadáveres para pô-los nas ruínas e serem fotografados; que a culpa é dos palestinenses, por terem apoiado um grupo terrorista; ou porque os palestinenses usam refugiados inocentes como escudos humanos.
O massacre de Sabra e Chatila foi cometido pela Falange Libanesa aliada à direita israelense; os soldados israelenses assistiram a tudo por 48 horas, sem nada fazer para deter o morticínio; são conclusões de uma comissão de inquérito de Israel. Quando o exército de Israel foi responsabilizado, o governo de Menachem Begin acusou o mundo de preconceito contra Israel.
Depois que o exército de Israel atacou com mísseis a base da ONU em Qana, em 1996, os israelenses disseram que a base servia de esconderijo para o Hizbollah - guerra deflagrada porque o Hizbóllah capturou dois soldados israelenses na fronteira. Mas esses não foram crimes do Hizbollah; foram crimes de Israel.
Israel insinuou que os corpos das crianças assassinadas num segundo massacre em Qana teriam sido desenterrados e expostos para fotografias. Mentira.Sobre o massacre de Marwahin, nenhuma explicação. As pessoas receberam ordens, de um grupo de soldados israelenses, para evacuar as casas. Obedeceram. Em seguida, foram assassinadas por matadores israelenses. Os refugiados reuniram os filhos e puseram-se à volta dos caminhões nos quais viajavam, para que os pilotos dos helicópteros vissem quem eram, que estavam desarmados. O helicóptero varreu-os a tiros, de curta distância. Houve dois sobreviventes, que se salvaram porque fingiram estar mortos. Israel não tentou nenhuma explicação.
Doze anos depois, outro helicóptero israelense atacou uma ambulância que conduzia civis de uma vila próxima – outra vez, soldados israelenses ordenaram que saíssem da ambulância – e assassinaram três crianças e duas mulheres. Israel alegou que a ambulância conduzia um ferido do Hizbollah. Mentira.
Cobri, como jornalista, todas essas atrocidades, investiguei-as uma a uma, entrevistei sobreviventes. Muitos jornalistas sabem o que eu sei. Nosso destino foi, é claro, o mais grave dos estigmas: fomos acusados de anti-semitismo.
Por tudo isso, escrevo aqui, sem medo de errar: agora recomeçarão as mais escandalosas mentiras. Primeiro, virá a mentira do "culpem o Hamás" – como se o Hamás já não fosse culpado dos próprios crimes! Depois, talvez requentem a mentira dos cadáveres desenterrados para fotografias. E com certeza haverá a mentira do "homem do Hamás na escola da ONU". E com absoluta certeza virá também a mentira do anti-semitismo. Os líderes ocidentais cacarejarão, lembrando ao mundo que o Hamás rompeu o cessar-fogo. É mentira.
O cessar-fogo foi rompido por Israel, primeiro dia 4/11; quando bombardeou e matou seis palestinenses em Gaza e, depois, outra vez, dia 17/11, quando outra vez bombardeou e matou mais quatro palestinenses.
Sim, os israelenses merecem segurança. 20 israelenses mortos nos arredores de Gaza é número escandaloso. Mas 600 palestinenses mortos em uma semana, além dos milhares assassinados desde 1948 – quando a chacina de Deir Yassin ajudou a mandar para o espaço os habitantes autóctones dessa parte do mundo que viria a chamar-se Israel – é outro assunto e é outra escala.
Dessa vez, temos de pensar não nos banhos de sangue normais no Oriente Médio. Dessa vez é preciso pensar em massacres na escala das guerras dos Bálcãs, dos anos 90. Ah, sim.Quando os árabes enlouquecerem de fúria e virmos crescer seu ódio incendiário, cego, contra o Ocidente, sempre poderemos dizer que "não é conosco". Sempre haverá quem pergunte "Por que nos odeiam tanto?" Que, pelo menos, ninguém minta que não sabe por quê.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Agenda dos protestos: vá às ruas, dê o grito pela paz em Gaza

www.vermelho.org.br

8 DE JANEIRO DE 2009 - 04h55

A partir desta quinta (8), entidades, movimentos sociais e partidos estarão realizando novas passeatas contra a guerra de Israel e em solidariedade a Palestina. Diversas cidades compõem a agenda de protestos que se estende até domingo (11). As ações se somam as já realizadas no país e no mundo desde 27 de dezembro, início do genocídio israelense à população da Faixa de Gaza. Faça parte da luta pelo imediato cessar-fogo em Gaza. Pegue sua bandeira, participe dos protestos, dê o seu grito pela paz.

Por Carla Santos,Com a colaboração de Lejeune Mirhan
(- Confira a agenda de protestos ao final da matéria)

Ao todo, sete cidades farão manifestações até o final desta semana. São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Curitiba (PR), Recife (PE) e Porto Alegre (RS) serão as capitais da paz no Brasil. A elas acrescem as manifestações que acontecerão em Campinas (SP) e Foz do Iguaçu (PR).

Todas as manifestações acontecem nesta sexta-feira (9), com exceção da cidade do Rio que abre a agenda de protestos nesta quinta-feira (8). Além de um ato na sexta, a capital paulista também realizará a Marcha Contra o Massacre de Israel no domingo (11). Apenas em São Paulo, mais de 120 pessoas participaram das reuniões do Comitê de Solidariedade ao Povo Palestino e quase 50 organizações convocam os protestos.

“Existe um clamor brasileiro, até pelos laços históricos com o povo palestino e árabe, contra os ataques israelenses. Essa solidariedade precisa ganhar as ruas e denunciar quais são os verdadeiros responsáveis pelo que está acontecendo: os governos de Israel e dos Estados Unidos, que apóiam o massacre”, afirma ao Vermelho Rubens Diniz, diretor do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e de Luta pela Paz).

Sobre o caráter das manifestações, Rubens explica: “nosso esforço é para que os atos sejam os mais amplos possíveis e que mobilizem todos àqueles que desejam a paz e estão indignados com a situação na Palestina. O movimento ainda é liderado pelo Comitê de Solidariedade ao Povo Palestino, é suprapartidário e todas as religiões são bem vindas para apoiá-lo.”

Emoção e criatividade

Em São Paulo — que abriga a maior comunidade árabe do país—, haverá um protesto em frente ao Consulado de Israel e a uma grande marcha sairá do Vão Livre do Masp. Em Campinas, a manifestação no Largo da Catedral espera contar com a participação de um médico palestino que mora na Faixa de Gaza e que, ao retornar de uma viagem que fazia na Rússia, foi impedido de voltar ao seu país. Desde então ele está no Brasil.

No Rio de Janeiro, a manifestação que acontecerá na Cinelândia será filmada pela organização. Em Porto Alegre o ato de solidariedade deve contar com o Embaixador da Palestina. Em Curitiba, a passeata Uma gota de sangue pela paz, com concentração na Praça Santos, pretende mostrar num gesto dramático a indignação dos brasileiros.

No Recife, os estudantes podem terminar o protesto em frente ao Consulado Americano. Já em Foz do Iguaçu, cidade que acolhe a segunda maior comunidade árabe do Brasil, fotos do massacre estarão estampadas em cartazes e adereços da manifestação.

De expectador à protagonista

Em entrevista ao Vermelho, Marcelo Buzetto, do MST, disse que os protestos são a oportunidade dos brasileiros de deixarem a posição de expectadores do massacre para se tornarem protagonistas da pressão mundial pelo fim do genocídio.

“Precisamos fortalecer a solidariedade com o povo de Gaza que tem vivido todos os dias o massacre que estamos acompanhando pela TV. São bombardeios em escolas, hospitais, centros de abastecimento de água e energia. A cada momento cresce o número de crianças e idosos brutalmente assassinados”, lembra. “Os atos servirão para medir o grau de repúdio do povo brasileiro contra esse genocídio do Estado de Israel.”

Quando pouco vale muito

Para os árabes e descendentes de palestinos no país, as manifestações também tem o apoio de muitos judeus e israelenses que moram aqui. “Os governos que se dizem democráticos sabem que para se chegar ao poder é preciso o apoio da população. Neste sentido, as mobilizações de massa pela paz na Faixa de Gaza tem um impacto muito forte sobre todos os governos do mundo e elas já estão acontecendo em Israel”, relata ao Vermelho Alli Majdoub, presidente da União dos Estudantes Muçulmanos do Brasil (Uemb).

As palavras de Alli lembram que as eleições em Israel, em 10 de fevereiro, estão próximas. Segundo pesquisa do jornal israelense Haaretz — publicada sete dias após o início dos ataques — se as eleições fossem hoje a coalizão de centro do atual governo — entre trabalhistas e o Kadima —, conseguiria manter a maioria no Parlamento. Antes do genocídio, as pesquisas davam grande vantagem à adversária coalizão de direita Likud, que defende uma posição mais dura contra palestinos.

Contudo, já paira o medo entre os governantes israelenses de que, se massacre se estender por muito tempo, a vantagem conquistada se reverta. Daí a urgência da violência com que o Exército de Israel tem usado para invadir sumariamente a Palestina. Independente dos motivos da guerra de Israel, o sangue corre na Faixa de Gaza e o martírio das famílias palestinas segue. Diante deste cenário, Alli lembra o que é possível fazer.

“Ir às ruas, protestar contra a crueldade dessa guerra e denunciar seu sentido mesquinho é muito pouco, mas é o mínimo que podemos fazer em solidariedade ao holocausto pelo qual passam milhares de famílias neste exato instante em que conversamos.”

- Leia também:
Milhares de brasileiros já foram às ruas pela paz em Gaza

Confira abaixo a agenda de protestos desta semana.

Quinta-feira (8)

- Rio de Janeiro
Manifestação de repúdio ao massacre do povo palestino
Horário: 17 horas
Local: Cinelândia
Convocam: entidades do movimento social e sindical e do Comitê de Solidariedade com o Povo Palestino-RJ

Sexta-feira (9)

- São Paulo
Manifestação em frente ao Consulado de Israel
Horário: 14h30
Local: Consulado de Israel
Endereço: Avenida Faria Lima, nº 1.766, 13º andar em PinheirosConvocam: (as mesmas da manifestação de domingo)

- Porto Alegre
Ato com Embaixador da Palestina e pelo fim dos ataques de Israel
Horário: 10 horas
Local: Semapi (Sindicato dos Empregados em Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas e de Fundações Estaduais do RS)
Endereço: Rua General Lima e Silva, 280 - Porto Alegre – RS
Convocam: entidades da Comunidade Árabe-Brasileiro, em conjunto com outras como o Cebrapaz-RS e demais organizações dos movimentos sociais

- Curitiba: A passeata de solidariedade a Palestina: uma gota de sangue pela paz
Horário: 11 horas
Local: Concentração na Praça Santos Andrade
Convocam: Comitê Árabe-Brasileiro, em conjunto com outras entidades como o Cebrapaz-PR

- Recife
Sapatada nos governos de Israel e dos EUA: pelo fim da invasão a Gaza
Horário: 16
Local: Praça Oswaldo Cruz
Convocam: UNE, Ubes, Umes (União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas ), UEP (União dos Estudantes de Pernambuco)

- Campinas
Ato de solidariedade a Palestina
Horário: 17
Local: Largo da Catedral
Convocam: entidades do movimento social e partidos políticos

- Foz do Iguaçu
Passeata pelo fim do massacre ao povo palestinoHorário: 17 horasLocal: Concentração no início da Avenida BrasilConvocam: Comunidade Árabe e entidades do movimento social

Domingo (11)

- São Paulo
Grande Marcha Contra o Massacre de Israel
Horário: 10 horas
Local: Concentração no Vão Livre do Masp, Avenida Paulista.

Convocam: CMS (Coordenação dos Movimentos Sociais); CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil); CUT; Conlutas; Intersindical; Afubesp (Associação dos Funcionários do Banespa); UNE; Ubes; Upes (União Paulista dos Estudantes Secundaristas); DCE da USP; UJS (União da Juventude Socialista); Juventude Revolução; Movimento pelo Passe Livre; MST; MLT (Movimento de Luta pela Terra); Conselho Mundial da Paz (CMP); Cebrapaz (Centro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz); Comitê de Solidariedade a Cuba; Mulheres em Luta pela Paz; PCdoB; PT; PSTU; Psol; PCB; Fepal (Federação Árabe Palestina do Brasil); Fearab (Federação das Entidades Árabes Brasileiras); Mopat (Movimento Palestina para Todos); União da Juventude Árabe para a América Latina (UJAAL); Instituto Jerusalém; Instituto da Comunidade Árabe; Centro Cultural Árabe-Sírio; Sociedade Palestina de SP; Instituto Futuro; União Nacional de Entidades Islâmicas (UNI); Federação das Entidades Árabes Muçulmanas do Brasil (Fambras); Sociedade Beneficente Muçulmana do Brasil (SBM); Associação Beneficente Islâmica do Brasil (ABIB); União dos Estudantes Muçulmanos do Brasil (Uemb); Sociedade Islâmica de Jundiaí; Sociedade Beneficente Muçulmana de Santo Amaro; Conselho Superior dos Teólogos Muçulmanos do Brasil; Igreja Ortodoxa Antioquina do Brasil; Igreja Presbiteriana; Deputado estadual Simão Pedro (PT-SP); Deputado estadual Said Mourad (PSC-SP); Vereador de São Paulo Jamil Murad (PCdoB); Portal Vermelho; CMI (Centro de Mídia Independente); Jornal Al Baian.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Discurso pronunciado por Raúl Castro, en el 50 aniversario del triunfo de la Revolución

¡Jamás regresará el dolor al corazón
de las madres ni la vergüenza al alma de cada cubano honesto!

Discurso pronunciado por el Presidente de los Consejos de Estado y de Ministros de la República de Cuba, General de Ejército Raúl Castro Ruz, en el acto por el aniversario 50 del triunfo de la Revolución, efectuado en Santiago de Cuba, el 1ro. de enero de 2009, “Año del 50 aniversario del triunfo de la Revolución”.

Santiagueras y santiagueros;

Orientales;

Combatientes del Ejército Rebelde, la lucha clandestina y de cada combate en defensa de la Revolución durante estos 50 años;

Compatriotas:

Raúl Castro RuzEl primer pensamiento, un día como hoy, para los caídos en esta larga lucha. Ellos son paradigma y símbolo del esfuerzo y el sacrificio de millones de cubanos. En estrecha unión, empuñando las poderosas armas que han significado la dirección, las enseñanzas y el ejemplo de Fidel, aprendimos en el rigor de la lucha a transformar sueños en realidades; a no perder la calma y la confianza frente a peligros y amenazas; a levantar el ánimo tras los grandes reveses; a convertir en victoria cada reto y a superar las adversidades, por insuperables que pudieran parecer. Continua

Fidel: Revolución



“Revolución es sentido del momento histórico;
es cambiar todo lo que debe ser cambiado;
es igualdad y libertad plenas;
es ser tratado y tratar a los demás como seres humanos;
es emanciparnos por nosotros mismos y con nuestros propios esfuerzos;
es desafiar poderosas fuerzas dominantes dentro y fuera del ámbito social y nacional;
es defender valores en los que se cree al precio de cualquier sacrificio;
es modestia,
desinterés,
altruismo,
solidaridad y heroísmo;
es luchar con audacia, inteligencia y realismo;
es no mentir jamás ni violar principios éticos;
es convicción profunda de que no existe fuerza en el mundo capaz de aplastar la fuerza de la verdad y las ideas.

Revolución es unidad, es independencia,
es luchar por nuestros sueños de justicia para Cuba y para el mundo,
que es la base de nuestro patriotismo, nuestro socialismo y nuestro internacionalismo.”


FIDEL



Este filme mostra a emocionante e heróica luta dos cubanos e cubanas contra o bloqueio genocida imposto elos EUA.
Mostra também a impressionante liderança de Fidel e seu gênio de, entre otras coisas, anunciar com antecedência o colaso da URSS.

É lindo.

Viva os 50 anos da Revolução Cubana!

www.vermelho.org.br



Revolução Cubana: 'socialismo resulta da vontade popular'

Celebram-se amanhã os 50 anos da revolução em Cuba. Em uma entrevista ao jornal Avante! — do Partido Comunista Português —, o embaixador da República de Cuba em Portugal, Jorge Castro Benítez, falou do período decorrido, dos desafios futuros e garantiu que os cubanos estão convictos e empenhados na construção do socialismo. O Vermelho reproduz abaixo a íntegra da entrevista.

Avante!: Refere-se muitas vezes as particularidades históricas da revolução cubana, dizendo que a luta pela transformação social que triunfa em 1959 radica nos combates pela emancipação nacional do século 19. Que particularidades são essas?

Jorge Castro: Para analisarmos como se chega à revolução e o que significam estes 50 anos, recordemos que Cuba era uma colônia espanhola e que os patriotas cubanos lutavam há muito pela independência. Esse projeto foi sendo frustrado quer pela incapacidade de os revolucionários unirem as suas forças, quer pelo acordo celebrado entre os EUA e Espanha, país que entrega o território aos norte-americanos. Cuba passa a ser uma colônia. O embaixador dos EUA em Havana era o pró-cônsul e colocava na presidência diferentes títeres defensores dos interesses de Washington.

Só em 1953 Fidel é capaz de congregar diferentes tendências em torno do objetivo da autodeterminação. O assalto ao quartel de Moncada, que era naquela época a unidade militar mais forte na parte Oriental da ilha, fracassou por diversos erros. Um número importante de revolucionários foi morto e outros presos e julgados. No processo, Fidel, então um jovem advogado, converte a sua defesa – publicada com o título "A história me absolverá" - num libelo acusatório ao regime e na promoção da revolta popular, caracterizando não só o contexto histórico que se vivia, mas apontando também o programa revolucionário. Depois da libertação de Fidel, reaviva-se a via insurreccional como a única capaz de derrotar a ditadura de Fulgêncio Baptista, e com forças militares muito menores venceram, a 1 de Janeiro de 1959.


Em toda este percurso, vemos a concretização do pensamento e luta de José Martí, o qual, no grupo de revolucionários liderado por Fidel, se encontra mais amadurecido no sentido marxista da construção do socialismo como única solução para um país pequeno e subdesenvolvido; para um país com 70 por cento de população rural a viver em condições extremamente precárias; para um país monoprodutor, que só exportava açúcar, e para os EUA, e importava tudo o que necessitava. É, portanto, com a revolução que agora festejamos que se alcança a verdadeira independência.


Foram necessários apenas alguns meses para que os EUA, com o início da reforma agrária e com o combate aos principais problemas sociais – desemprego, analfabetismo, prostituição, desigualdade e injustiça social, discriminação racial, etc. –, se dessem conta de que aquele era um verdadeiro projeto social contrário aos seus interesses.


Nessa altura, Fidel vai aos EUA e, em declarações públicas, diz que a revolução em Cuba não é de caráter comunista. Foi uma manobra para ganhar tempo até ao primeiro embate com o imperialismo?


Os primeiros passos da revolução foram no sentido de dar resposta aos problemas sociais concretos que já referi, bem como impulsionar a democratização da terra, controlada pelos grandes agrários. E é esta a questão fundamental que inicia o conflito, porque a partir do momento em que os EUA deixam de controlar a matéria-prima açúcar, vêem os seus interesses afetados.


É pouco antes da invasão da Baía dos Porcos, desencadeada pelos EUA, em abril de 1961, que Fidel proclama o caráter socialista da revolução. Lembremos que o povo foi convocado a defender a pátria face à intervenção e, simultaneamente, a ratificar a opção socialista, que naquele contexto significava a construção de sistemas de ensino e saúde gratuitos e universais, significava o combate às injustiças, à pobreza, à exclusão e aos flagelos sociais. Para mais, Cuba era há décadas submetida a campanhas ideológicas anticomunistas. Teria sido um erro crasso proclamar o caráter da revolução sem que o povo tivesse sequer consciência do que significava o socialismo. Ou seja, quando o povo cubano enfrentou a invasão em Playa Gíron, então sim, estava já em condições de proteger também o caráter do processo de transformação social em curso.


Um processo de permanente adaptação


Lênin disse que jamais pode ser derrotado um povo em que os operários e os camponeses, na sua maioria, sabem, sentem e vêem que defendem o poder dos trabalhadores. Isso revela-se na resistência do povo cubano face ao imperialismo e na capacidade de Cuba superar com êxito as diversas etapas revolucionárias?


Penso que sim. A revolução é um processo de permanente transformação, com momentos de avanço e refluxo.


Muitos se questionam se no atual contexto ocorrerão mudanças drásticas. É importante compreender que Cuba está em permanente adaptação ao contexto histórico em que se insere. Qualquer cidadão estrangeiro que visite o país ouve nas ruas opiniões, comentários, mal-estares, o que para nós é natural, mas quem está de passagem pode ficar com uma apreciação errada.


Devemos ainda ter em conta que 70 por cento da população cubana não conheceu o capitalismo, ou seja, nasceu e cresceu já em fase revolucionária, pelo que todo um sistema de justiça social, de igualdade e dignidade é para esta camada algo adquirido, logo, como geração, tem um outro nível de exigência. Isso é positivo, porque no dia em que perdermos a capacidade de reivindicar e querer mais, estancamos. Ou seja, a inconformidade é um impulso para melhorar o sistema social e democrático, a economia e o desenvolvimento das forças produtivas.


Os cubanos não estão preparados para seguir outro caminho que não seja o socialismo, ou seja, não estão preparados para perderem tudo o que hoje têm assegurado.


Em 1975, a Constituição cubana foi aprovada por mais de 95 por cento da população…


E posteriormente foi referendado por números semelhantes o caráter irrevogável do socialismo. É bom que as pessoas que vivem em países tão desenvolvidos, mas ao mesmo tempo tão desinformados, entendam que o referendo em Cuba é igualmente secreto, com todos os requisitos normais das eleições que conhecem, portanto, o caráter irrevogável do socialismo resulta da livre vontade popular.


Conquistas incomparáveis


Cuba alcançou grandes conquistas civilizacionais, quer ao nível da formação educacional e cultural do seu povo, quer do ponto de vista da saúde, com um dos melhores sistemas do mundo. Garantiu a sua capacidade alimentar e o emprego. Alcançou um nível de participação política muito superior ao dos demais países. Estas conquistas projetam Cuba para o futuro?


Não só projetam e garantem o futuro de Cuba, como se encontram submetidas a uma permanente melhoria e afinação da sua eficiência. O caminho faz-se de êxitos, mas também de erros, aliás, como toda a obra realizada pelo ser humano.


Consideremos o que Cuba era e o que é hoje. No ano de 1959 só produzia açúcar e comprava tudo o resto. É a revolução que industrializa o país, que avança nos vários setores da economia, mesmo com o bloqueio e com os custos que ele representa. Sem o bloqueio, colocavamos o que produzíamos a 90 milhas de distância, mas depois da sua imposição passámos a ter que escoar a nossa produção para países que ficavam a 90 semanas de barco.


O desaparecimento das relações de comércio justas com os países socialistas foi para nós um rude golpe que deu início à crise dos anos 90.


Cuba exportava para a Europa Oriental açúcar, níquel, cítricos e outros produtos a preços vantajosos no âmbito da cooperação entre países socialistas. Com o desaparecimento destes, Cuba foi seriamente afetada. Como superaram a situação?


Era um mecanismo chamado compensador. Se o valor do petróleo era 40 e os cítricos 30, quando o petróleo subia então os cítricos, por exemplo, subiam na mesma proporção. Era uma relação de intercâmbio visando o desenvolvimento e a cooperação, contrária às relações comerciais no sistema capitalista. Sem isso, o nosso Produto Interno caiu mais de 35 por cento.


Só para que se tenha idéia, comprávamos à União Soviética aproximadamente 10 milhões de toneladas de petróleo, e nos primeiros anos da década de 90 passámos a ter que viver com 3 milhões de toneladas. Isto motivou cortes no fornecimento de eletricidade. A indústria tinha fortes restrições para laborar.


Perante tal situação, aqui mais que resumida, o fundamental era preservar o objectivo principal do processo revolucionário, ou seja, o desenvolvimento social, mais que o desenvolvimento econômico. Portanto, mesmo no contexto da crise mantivemos todas as componentes do projeto social. As escolas não podiam ser reparadas mas mantivemo-las abertas; os hospitais tinham dificuldades e carências, mas não só continuaram abertos como melhorámos os índices de saúde da população.


Apesar dos graves danos sociais, econômicos, políticos e ideológicos que o desmembramento da URSS provocou em Cuba, mantivemos as conquistas revolucionárias e reestruturamos a economia, apostando no turismo, permitindo a entrada da moeda livremente convertida, investindo na biotecnologia e na formação de cientistas. Tratava-se de minimizar os efeitos do fim do comércio justo com os países do Leste da Europa e do bloqueio norte-americano que se agudizou.


Muitos amigos questionam-se porque é que em Cuba foram introduzidos elementos do sistema econômico capitalista; porque é que surgiram fenómenos sociais, injustiças e desigualdades que antes da década de 90 haviam sido erradicados.


Tomemos o exemplo de um acidente automóvel donde sai um homem em perigo de vida, com um braço e uma perna quebrados. O que faríamos, tratávamos da perna e do braço antes de garantir que o homem sobreviveria? É óbvio que não. Pois o que fizemos foi garantir a sobrevivência da revolução preservando as conquistas sociais. Para mais, e porque faz parte da democracia que temos em Cuba, todas as medidas foram discutidas e aprovadas em amplas discussões com os trabalhadores e o povo.


Essas medidas criaram discrepâncias de rendimento entre quem trabalha no turismo e quem não trabalha, provocaram a migração do meio rural para as zonas urbanas. Surgiu uma camada interessada nos mecanismos capitalistas e nos seus proveitos. Esse processo pode influenciar e mobilizar forças anti-socialistas em Cuba?


Para abordarmos a questão da introdução dos mecanismos capitalistas temos que considerar que Cuba está defronte da maior potência econômica mundial, que esta lhe impõe um férreo e criminoso bloqueio. Dito isto, acrescento que mesmo os novos elementos introduzidos na economia - os quais não podem ser todos definidos como capitalistas - atraem vícios e relações próprias do capitalismo.


Nos anos 90, Cuba passa a acolher capital estrangeiro em setores onde não podia investir. No turismo, recebíamos por ano cerca de 300 mil turistas, quase todos da Europa Oriental. Hoje recebemos cerca de 2 milhões. Tudo isto introduziu desigualdade, corrupção, indisciplina, prostituição, falta de rigor e exigência no trabalho, desigualdade social entre o engenheiro que ficava na mina ganhando menos que aquele que passava a ser porteiro num hotel.


As medidas que tomamos, não necessariamente todas de cariz capitalista, repito, em certa medida desordenaram a revolução do ponto de vista trabalhista, da igualdade social, da direção produtiva, mas ou fazíamo-lo ou a revolução ruía.


A corrupção, um tema muito abordado, surgiu, obviamente. Mas não é a corrupção institucional, de governos inteiros, não é a corrupção de milhões. É um fenômeno limitado, de tostões. A palavra é a mesma, mas não comparemos os casos de enriquecimento ilícito nos países capitalistas com os do administrador ou do trabalhador de uma fábrica em Cuba que rouba quatro galões de tinta!


Na medida em que a economia vá recuperando, assim vamos dando resposta aos fenômenos malignos, às injustiças. Quando o salário tiver um real valor aquisitivo, quando o trabalhador não estiver preocupado se o seu salário é suficiente para garantir as necessidades básicas, como acontecia nos anos 80, então a corrupção, a prostituição e outros flagelos desaparecerão. Essa recuperação de valores, se quiseres, não é tarefa que se cumpra em dois ou três anos, leva tempo e exige esforço. É o que estamos a fazer.


Por outro lado, hoje o principal setor da economia cubana já não é o turismo, mas a biotecnologia. O turismo foi a alavanca, mas a biotecnologia, com direção e investimento durante o período especial, foi ganhando terreno e assume-se como o maior contribuinte da economia cubana.


A construção civil, a petroquímica ou a refinação de petróleo são também setores com grande avanço. Actualmente, mais de 50 por cento do petróleo que se consome em Cuba é de origem nacional e estamos a explorar novas zonas.


Respostas necessárias


Fazem parte dessa normalização da economia e das relações sociais os apelos feitos pelo presidente Raúl Castro de reforma do setor cooperativo, do regresso ao trabalho e de estímulo à produtividade, do rigor na definição de metas, de reformas na estrutura produtiva e na direção da produção?


O discurso de 26 de Julho de Raúl Castro tem antecedentes. Dois ou três anos antes, Fidel, intervindo numa universidade, sintetizou a situação do país, convocou a juventude a fazer parte do futuro e apelou ao povo para que refletisse sobre o rumo que havíamos seguido e como, a apresentar soluções para o caminho a seguir e como.


A discussão, dirigida pelo movimento operário e pelo Partido Comunista, decorreu junto dos camponeses, dos estudantes, dos operários, das forças armadas, enfim, junto de todos os setores da população. Participaram mais de 3,5 milhões de pessoas e recolheu-se mais de 1 milhão de propostas e intervenções que questionavam a direção do país, a televisão, o sistema educacional e de saúde, o trabalho e os salários, tudo o que possas imaginar foi colocado em causa e discutido. Ninguém colocou em causa o socialismo como projeto. Foram reuniões muito críticas. Nelas descobriu-se problemas locais que tinham soluções locais, mas que por falta de interesse dos quadros, por burocracia, por indisciplina não eram resolvidos. Essa base de dados, chamemos-lhe assim, definiu a linha geral e estratégica abordada por Raul Castro nesse discurso.


Recentemente foi publicada a lei da segurança social e do trabalho, norma que não resulta do debate parlamentar, dos acordos entre a bancada de tal partido com a de tal outro. Não é assim que funciona em Cuba. Apresenta-se ao povo o projeto e este discute, dá opinião, propõe alterações. O mesmo aconteceu com a reforma da terra, ou seja, as parcelas não cultivadas, são dadas a quem tem condições para as trabalhar.


Em 23 de dezembro, o parlamento cubano reuniu e aprovou uma lei que obriga os deputados a responder às questões dos seus concidadãos, aliás, na filosofia do nosso sistema de democracia participativa. Essa componente funcionava insuficientemente. Se a resposta é que tal ou tal problema ainda não se pode resolver, é isso mesmo que deve ser dito e explicado em reuniões com o povo. É no fundo todo um processo longo, anterior à doença de Fidel, que está agora numa fase mais avançada de desenvolvimento.


Temeu uma invasão dos EUA quando a saúde de Fidel se deteriorava?


Horas depois de o povo cubano ter sido informado sobre o estado de saúde de Fidel, os comandos especiais que os EUA têm na Florida foram mobilizados. A nossa reação foi igualmente mobilizar 1 milhão de homens. O cenário de uma intervenção militar norte-americana não se pode descartar, porém julgo que predomina a certeza de que tal opção seria um erro grave.


Não digo que tenhamos condições militares para impedir uma invasão, o que para eles não é novidade, mas também sabem que os cubanos não se rendem, ou seja, Cuba não pode ser tomada de assalto.


Recentemente foi votada nas Nações Unidas uma nova condenação ao bloqueio norte-americano contra Cuba. O mundo condena as leis Torricelli e Helms-Burton, o Plano Bush. Poderá estar para breve o fim do bloqueio?

Os EUA declararam uma guerra contra Cuba, uma guerra que passa a categoria de bloqueio, que procura castigar e vencer o povo pelas carências. O bloqueio teve ao longo de mais de 45 anos altos e baixos, porém atingiu o ponto máximo nos mandatos de George W. Bush, que limitou as viagens para Cuba, as remessas dos emigrantes para os seus familiares e deu milhões para o terrorismo. Dados que se podem encontrar na página de Internet do Departamento de Estado mostram que a administração norte-americana gasta mais dinheiro, meios e tem mais gente a trabalhar no cumprimento do bloqueio do que na chamada "guerra ao terrorismo". Isto diz tudo.


Maior agressividade contra Cuba, só pela via armada. Vamos ver o que muda a 20 de janeiro na Casa Branca.


Tem esperança que mude alguma coisa com a administração Obama?


Tenho esperança na persistência dos cubanos.


Mas Raúl Castro disse que estava disponível para dialogar…


Como o disse Fidel durante décadas, essa não é uma disposição nova por parte de Cuba. A normalização das relações é não só do nosso interesse como o mais elementar entre estados, mas em igualdade de condições e soberania. Perguntaram isso a Raúl – aliás uma muito conhecida ex-correspondente da CNN em Cuba –, e ele respondeu que se o senhor Obama tem interesse em falar, nós estamos dispostos fazê-lo no dia e no lugar que indique. Se não tem interesse, pois não falamos. Foi isto que disse. Raúl disse ainda que acabou o tempo dos "gestos", isto é, quando falavam de Cuba e das negociações em torno do bloqueio pedem "gestos". Cuba já fez muitos "gestos" e nunca recebeu nenhum. Acabaram os gestos unilaterais.


Num cenário de conversações, para além do bloqueio e do fim do patrocínio do terrorismo, cabe a libertação dos cinco patriotas cubanos presos nos EUA?


Não tenho idéia dos pontos que seriam discutidos, como imaginas, mas o bloqueio só tem um caminho que é terminar. Foram os EUA que nos sancionaram, por isso Cuba não tem nada que negociar sobre o bloqueio.


Sobre os chamados presos políticos, tema muito abordado na Europa, estão detidos porque violaram leis existentes em qualquer Estado, é bom que isto fique claro. Em Cuba ninguém é detido por delito de opinião. Basta ver na imprensa portuguesa as declarações de "dissidentes" cubanos que vivem tranquilamente em suas casas.


Neste mundo desenvolvido que diz defender os direitos humanos, vejo todos os dias a polícia bater nos trabalhadores que reclamam os seus salários. Em Cuba existem 120 correspondentes estrangeiros que se movem por todo o país, com as máquinas fotográficas prontas a captar a primeira imagem de uma manifestação reprimida com cães e gás lacrimogêneo, todavia nunca conseguiram a tão almejada foto. E imagina quanto não receberia o jornalista que a conseguisse.


Porque não falam dos cinco jovens que estão presos nos EUA, esses sim, presos políticos?


O partido tem o papel dirigente da revolução e define-se como o partido de toda a nação e de todo o povo, e não como a sua vanguarda. O que é que isso quer dizer exatamente no caso cubano?


O que garante o êxito da revolução cubana é a unidade de todo o povo. O Partido Comunista foi desde sempre o partido da nação cubana, ou seja, é o partido da nação e de todo o povo no sentido de ser o garante da continuidade da revolução. Os seus militantes e quadros – que têm que ser um exemplo como trabalhadores e cidadãos, que não gozam de privilégios –, são a vanguarda.


O Partido Comunista não é um partido eleitoral, é antes a exigência, a inconformidade. Perigoso seria se o partido se desligasse das massas, mas não é isso que acontece, pelo contrário, é cada vez mais uma referência de ação e confiança para os cubanos.


Podemos augurar 50 anos mais à revolução cubana?


Pelo menos mais 50 anos. Não vamos renunciar ao socialismo e estamos sempre mais convictos de que não existe outra alternativa, disso podem estar seguros.


Jornal Avante!
www.vermelho.org.br

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Johann Hari: Verdadeira história não é a contada por Israel

www.vermelho.org.br
29 DE DEZEMBRO DE 2008 - 19h28

O mundo não está assistindo apenas aos crimes que Israel está cometendo em Gaza; estamos também assistindo à autodestruição de Israel.


Por Johann Hari, no The Independent



Esta manhã (29), amanhã de manhã e todas as manhãs, até que termine essa matança de palestinos, o ódio a Israel só aumentará, cada dia haverá mais ódio e mais os palestinos lutarão, com pedras, com coletes explosivos, com foguetes, com palavras. Os líderes israelenses crêem que quanto mais massacrem os palestinos, mais os amansarão. Já se foram esses tempos de medo, entre os palestinos. O ódio a Israel, hoje, lá, é duro, impenetrável. E os sentimentos mais primitivos, mais basais, de quem só aprendeu que viver é sobreviver em guerra, lá estarão esperando sempre, à beira da história, brutais.


Para entender o quanto é terrível ser palestino na manhã de hoje, é preciso ter estado lá, numa estreita faixa de terra à beira do Mediterrâneo, e ter experimentado na pele aquela claustrofobia quase insuportável. A Faixa de Gaza é menor que a ilha Wight. Mas lá vivem 1,5 milhão de pessoas que jamais podem sair de lá. Vivem amontoados uns sobre os outros, sem trabalho e com fome, em imensos prédios de quartos muito pequenos. Da laje superior dos prédios, vêem-se todos os limites daquele mundo: o Mediterrâneo e a cerca de arame farpado dos israelenses. Quando começam os bombardeios – como hoje, mais violentos do que nunca, desde 1967 –, não há onde se abrigar.


Começa agora outra guerra, em que se disputa o significado desses ataques de Israel, em 2008. O governo israelense diz: "Nos retiramos de Gaza em 2005 e, em troca, ganhamos o Hamás e os foguetes Qassam que destroem nossas cidades. 16 civis israelenses morreram. Quantos mais serão sacrificados?" É uma narrativa plausível, com vestígios de verdade. Mas com muitos buracos. Para entender o que realmente está acontecendo e conseguir que os foguetes parem, é preciso voltar um pouco, alguns anos, e analisar melhor os prolegômenos da guerra de hoje.


É verdade que Israel retirou-se da Faixa de Gaza em 2005 – para intensificar o controle sobre a Cisjordânia. O principal conselheiro de Ariel Sharon, Dov Weisglass, disse claramente: "A retirada [de Gaza] é o anestésico. Anestesiará a situação, o suficiente para que não haja processo político ou discussão política com os palestinos. Apagamos da agenda, por longo tempo, toda e qualquer discussão sobre o pacote chamado "Estado da Palestina"."


Os palestinenses comuns ficaram horrorizados. Mais horrorizados ainda, pela fétida corrupção dos líderes de sua própria Fatah. E então votaram no Hamás. Eu não votaria no Hamás – jamais votaria em partido político com fundamento religioso –, mas... não sejamos hipócritas. As eleições foram democráticas, livres e perfeitas e não implicaram rejeição à Solução dos Dois Estados. A melhor pesquisa que se conhece, sobre tendências de opinião entre os palestinenses, feita pela University of Maryland, constatou que 72% dos palestinenses são favoráveis à Solução dos Dois Estados, conforme às fronteiras de 1967; e apenas 20% votariam pelo fim de Israel. Então, parcialmente por efeito dessa pressão popular, o Hamás ofereceu a Israel um longo cessar-fogo e aceitou, na prática, a Solução dos Dois Estados. Bastaria que Israel cumprisse o seu dever legal de manter-se dentro de suas fronteiras legais.


Em vez de colher essa oportunidade e de testar as reais intenções do Hamás, o governo de Israel reagiu brutalmente – e puniu, com genocídio, toda a população civil de Gaza. Anunciou o bloqueio da Faixa de Gaza, para "pressionar" os palestinos a revogar o resultado das urnas. Sitiaram os palestinenses dentro da Faixa de Gaza. Vedaram completamente qualquer possibilidade de contato com o mundo exterior. Racionaram comida, combustível, remédios – para impedir que sobrevivessem. Nas palavras de Weisglass, os palestinenses de Gaza estavam sendo postos "em dieta". A Oxfam denunciou que só foram autorizados a entrar em Gaza 137 caminhões com alimentos, em dezembro. Para alimentar 1,5 milhão de pessoas. A ONU e já declarou repetidas vezes, que a miséria em Gaza já alcançou "níveis sem precedentes".


Na última vez que estive em Gaza, já sob sítio dos israelenses, vi hospitais mandando doentes de volta para casa, porque não havia nem remédios nem aparelhos para atendê-los. Vi crianças revirando o lixo, pelas ruas, à procura de comida.


Nesse contexto – sob sentença de morte coletiva, sob ataque genocida, urdido para gerar efeitos de golpe de Estado e derrubar um governo democraticamente eleito –, então, alguns grupos dentro de Gaza adotaram solução imoral: puseram-se a bombardear, com foguetes Qassam, de quintal, indiscriminadamente, cidades israelenses. Nesses ataques, mataram 16 cidadãos israelenses. É crime. Matar sempre é crime. Mas é hipocrisia que, hoje, o governo israelense fale de defender a segurança de seus cidadãos, depois de ter passado anos assassinando civis. Depois de ter feito, do assassinato, a única política de Estado, em Israel.


Os governos dos EUA e alguns governos europeus têm fingido que não sabem disso. Dizem que não se pode exigir que Israel negocie com o Hamás, enquanto o Hamás não suspender os ataques com foguetes Qassam. Mas exigem que a Palestina negocie, apesar do sítio, apesar do bloqueio, apesar da brutal ocupação militar na Cisjordânia.


Antes de que tudo se apague no abismo dos esquecimentos construídos, lembremos que, semana passada, o Hamás propôs um cessar-fogo, em troca de alguns compromissos básicos e aceitáveis para Israel. Não precisam acreditar só em mim.


A imprensa em Israel noticiou que Yuval Diskin, atual chefe do Shin Bet, serviço interno de segurança de Israel, "informou ao governo israelense [dia 23/12] que o Hamás está interessado em manter a trégua, com apenas pequenas modificações nos termos do acordo." Diskin explicou que o Hamás desejava duas coisas: o fim do bloqueio de Gaza e que Israel parasse com os ataques na Cisjordânia. O gabinete – acometido de febre eleitoral e interessado em mostrar-se 'durão' aos eleitores – rejeitou tudo.


O núcleo duro da situação foi bem claramente exposto por Ephraim Halevy, ex-chefe do Mossad. Diz que, embora os militantes do Hamás – como boa parte da direita israelense – sonhem com varrer do mundo os adversários políticos, "eles já perceberam que esse objetivo ideológico não é viável e não será viável no futuro próximo." Então, "estão prontos a aceitar um Estado da Palestina, nos limites das fronteiras de 1967." Os militantes do Hamás sabem que isso significa "que terão de adotar um caminho que provavelmente os afastará de seus objetivos iniciais" – e levará a uma paz estável, sob acordo difícil de romper por qualquer dos dois lados.


Os 'do contra", dos dois lados – de Máhmude Ahmadinejad do Iran, a Bibi Netanyahu, de Israel – ficariam marginalizados. É a única via possível que ainda pode levar a paz. E é a única via que não interessa ao atual governo de Israel. Halevy explica bem: "Por razões que só interessam ao atual governo de Israel, não interessaria a Israel aceitar o cessar-fogo e convertê-lo em início de um processo de negociação diplomática com o Hamás."


Por quê? O governo de Israel quer a paz, mas só se for a paz imposta por Israel, nas condições que Israel determine e que sempre implicarão que os palestinos sejam definidos como derrotados. Assim, Israel poderá manter, do "seu" lado do muro, os cadeados que fecham a Cisjordânia. Assim, Israel poderá controlar as maiores colônias e o suprimento de água. Assim, a Palestina será dividida (e caberá ao Egito a responsabilidade sobre Gaza) e a Cisjordânia, com a espinha dorsal partida, ficará isolada. Qualquer tipo de negociação cria riscos para o sucesso desse 'plano': Israel sempre terá de ceder mais do que deseja ceder.


Ao mesmo tempo, qualquer paz imposta deixará de ser confiável: e continuarão a chover sobre Israel os foguetes da fome que gera ódio.


Se quer obter real segurança para os israelenses, o governo de Israel, mais dia menos dia, será obrigado a negociar com os palestinos que hoje Israel está matando; terá de obter deles alguma solidariedade e alguma compreensão. E Israel dependerá disso, para continuar existindo.

O som dos incêndios de Gaza pode ser silenciado pelas palavras de um escritor israelense, Larry Derfner. Diz ele: "A guerra entre Israel e Gaza é guerra inventada por Israel. A decisão de pôr fim à guerra não cabe ao Hamás. Cabe a nós. Cabe a Israel."


Leia também em Rebelión:




Guernica en Gaza
O impressionante depoimento de um morador da Faixa de Gaza durante os atuais ataques de Israel ao povo palestino


Vittorio Arrigoni
Il Manifesto/freegaza


Mi apartamento en Gaza está frente al mar, una vista panorámica que siempre hace milagros para mi humor, desafiado a menudo por toda la miseria que puede causar una vida en estado de sitio. Es decir, antes de esta mañana cuando el infierno golpeó a mi ventana. Esta mañana despertamos en Gaza con el sonido del estallido de bombas, y muchas cayeron a unos pocos cientos de metros de mi casa. Algunos de mis amigos murieron bajo ellas. Hasta ahora las víctimas mortales llegan a 210, pero la cantidad va a aumentar dramáticamente. Es un baño de sangre sin precedentes. Han arrasado el puerto frente a mi ventana, y pulverizado las comisarías. Me dicen que los medios occidentales han asimilado y repiten los comunicados de prensa emitidos por los militares israelíes, según los cuales los ataques apuntaron sólo a guaridas terroristas de Hamas, con precisión quirúrgica. (Continua)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Lula fala sobre a crise em cadeia nacional de rádio e televisão




"Minhas amigas e meus amigos,

Esta noite quero conversar com vocês sobre a crise econômica mundial.
É uma crise muito diferente das anteriores. Não surgiu num país emergente ou na periferia do sistema. Ao contrário, nasceu e explodiu no coração do mundo desenvolvido. Mais precisamente, nos Estados Unidos e na Europa.

Esta crise, que afeta todo o mundo, foi provocada pela falta de controle do sistema financeiro nos países mais ricos. Em vez de cumprirem seu papel na economia, financiando o setor produtivo, os bancos viraram um grande cassino.A jogatina foi longe, mas, um dia, a conta chegou. Bancos quebraram, um grande número de empresas entrou em dificuldades e milhões de trabalhadores perderam suas casas ou seus empregos.

Aqui no Brasil não tivemos este tipo de crise. Nosso sistema bancário estava e está saudável. Nossa economia, arrumada e organizada vem crescendo a taxas robustas, as maiores dos últimos 30 anos. Portanto, a crise coincide com nosso melhor momento. É uma pena, mas como estamos muito bem, a situação é menos complicada. Todos concordam que somos um dos países mais preparados para enfrentar este desafio.

Nas crises anteriores, em poucos dias o Brasil quebrava e era obrigado a pedir socorro ao FMI. Desta vez, o Brasil não quebrou, nem vai quebrar. Esta enfrentando a situação de cabeça erguida.
Enquanto a maioria dos países ricos está em recessão, o Brasil vai continua crescendo. É verdade que, com o vento a favor, poderíamos ir mais longe. Mas, mesmo com o vento contra, podemos e vamos seguir progredindo.

Se hoje estamos em melhores condições para enfrentar qualquer crise, é porque soubemos fazer as opções acertadas. É porque aceleramos o crescimento da economia em bases consistentes. E crescemos distribuindo renda e reduzindo as desigualdades entre as regiões.

Em primeiro lugar, mantivemos a inflação sobre contro le. Quando assumi o governo, a inflação estava acima de 9% . Foi declinando ano a ano. Em 2008, mesmo com a explosão dos preços internacionais, ela vai ficar dentro da meta.Também diminuímos a dívida pública. Em 2003, ela representava 52% do PIB. Foi caindo e este ano deve ficar em 36%.

Além disso, diversificamos nossas exportações. Viajei pelo mundo afora, como um verdadeiro mascate dos nossos produtos. Alguns nos criticaram. Mas hoje, quando os Estados Unidos e a Europa estão no olho do furacão, vemos como foi acertada a decisão de diversificar nossas relações comerciais.

Minhas amigas e meus amigos,

Outra vantagem são as nossas grandes reservas em moeda internacional. Quando assumimos, o Brasil devia muito ao FMI e ao Clube de Paris. Hoje, não deve um só centavo.
Naquele tempo, nossas reservas em moeda estrangeira eram muito baixas. Hoje chegam a 207 bilhões de dólares. Com isso, deixamos de ser devedores para ser credores internacionais. Uma diferença e tanto. Agora temos um colchão de segurança para nos proteger. Mas nossa maior defesa hoje é a força do mercado interno. Ele fez progressos extraordinários nos últimos anos. Para isso, foram decisivos o Bolsa-Família, a melhoria do salário mínimo e a expansão do emprego.

De 2003 para cá, o salário mínimo cresceu em termos reais, 51% e o emprego também cresceu fortemente.

Em 2007, batemos um recorde: 1 milhão 812 mil novos empregos com carteira assinada. Em 2008, novo recorde: até outubro, 2 milhões 148 mil empregos. Resultado: a taxa de desemprego caiu de 12,3% em 2003 para 7,6% em outubro de 2008.

Nosso desenvolvimento econômico e social fez com que, nos últimos anos, mais de 20 milhões de pessoas entrassem na classe média.

Tudo isso fez a roda da economia girar mais forte e abriu um círculo virtuoso no nosso país. Mudamos de cara e de astral.

Minhas amigas e meus amigos,

Esses avanços estão permitindo ao Brasil enfrentar com firmeza e serenidade o atual momento.
E estamos agindo em todas as frentes desde que a crise começou. Já adotamos medidas para normalizar o crédito, para apoiar nossas empresas exportadoras e para manter a atividade nos setores que geram mais empregos, como as pequenas e médias empresas, a agricultura, a construção civil e a indústria automobilística. Reforçamos o poder de fogo dos bancos estatais e baixamos impostos para que as empresas e os consumidores pudessem ter um pouco mais de dinheiro em caixa e no bolso.

Ao mesmo tempo, o governo manterá todos os investimentos previstos no PAC, e nos programas sociais. Em hipótese alguma, haverá cortes nos investimentos governamentais. Porque eles são decisivos para o Brasil enfrentar a crise e sair dela mais reforçado.

Minhas amigas e meus amigos,

Quero dizer, com toda a serenidade, que a crise não nos assusta. O país está preparado e tem comando. Seguiremos acompanhando com lupa a situação da economia, 24 horas por dia. O que tiver que ser feito, será feito. No tempo certo e na dose adequada. E sempre dialogando co m o país.

Mas é fundamental que todos façam sua parte.

É importante que os empresários sigam investindo. É imprescindível que os trabalhadores defendam a produção e o emprego. Já o setor financeiro, deve trabalhar para estimular o crédito e baixar os juros, que estão muito altos.

E você, meu amigo e minha amiga, não tenha medo de consumir com responsabilidade. Se você está com dívidas, procure antes equilibrar seu orçamento. Mas, se tem um dinheirinho no bolso ou recebeu o décimo terceiro, e está querendo comprar uma geladeira, um fogão ou trocar de carro, não frustre seu sonho, com medo do futuro.

Porque se você não comprar, o comércio não vende. E se a loja não vender, não fará novas encomendas à fábrica. E aí a fábrica produzirá menos e, a médio prazo, o seu emprego poderá estar em risco.
Assim, quando você e sua família compram um bem, não estão só realizando um sonho. Estão também contribuindo para manter a roda da economia girando. E isso é bom para todos.

Minhas amigas e meus amigos,

Posso assegurar que o Brasil não só vencerá a crise, como sairá dela mais forte. Temos todas as condições para isso.

Em 2009, vamos começar a explorar as imensas reservas do pré-sal. Com isso, o Brasil passará a ser um dos grandes produtores de petróleo do mundo. Estamos todos no mesmo barco. E se remarmos juntos na mesma direção, venceremos as turbulências e prosseguiremos na rota do crescimento. Só depende de nós.

Um feliz natal para você e para sua família. Que 2009 seja um ano ainda melhor que 2008. Que seja um ano de saúde, de paz e de prosperidade.

Acredite no Brasil porque antes de tudo, você estará acreditando em você.

Boa noite."


Fonte: Agência Brasil

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Al-Zaidi foi torturado no Iraque




www.vermelho.org.br
22 DE DEZEMBRO DE 2008 - 16h00

Atirador de sapatos: 'sem desculpas' a ninguém

Muntazer al-Zaidi, o jornalista iraquiano que atirou seus sapatos contra George W. Bush, presidente dos Estados Unidos, disse que não pedirá desculpas pelo ato, ao mesmo tempo que seu advogado afirmou que o jornalista foi torturado na prisão.






Dhiya'a al-Sa'adi, advogado de al-Zaidi disse à al-Jazira, a rede catariana de televisão, nesta segunda-feira, que ''Muntazer al-Zaidi considera que o que fez ao atirar seus sapatos contra Bush foi exercitar seu direito à liberdade de expressão, em oposição e rejeição à ocupação, que trouxe o caos ao Iraque''.


Al-Sa'adi disse que al-Zaidi não estava pensando em pedir desculpas ao presidente dos Estados Unidos, ''nem hoje, nem no futuro''.


Um porta-voz do premiê do Iraque, Nuri al-Maliki, afirmou na última quinta-feira (18), em uma coletiva de imprensa em Bagdá, que al-Zaidi teria reconhecido que atirar seus sapatos teria sido um ''ato hediondo''.


Entretanto, Dhargham al-Zaidi, o irmão do jornalista questionou a veracidade da afirmação. Ele disse que seu irmão foi surrado com uma barra de ferro logo depois que foi retirado da coletiva com o premiê e o presidente americano.


''Ele não volta atrás em relação ao que fez'', disse o advogado à al-Jazira.


''As suas ações objetivavam somente o presidente Buhs, para dizer a ele que rejeita a ocupação e tudo o que isso significa para o Iraque''


''Em particular, à luz da forma desumana pela qual os prisioneiros iraquianos foram tratados pelas forças americanas''.


Espancamentos


Permitiram a al-Zaidi ver seu advogado no domingo à tarde, que em seguida confirmou as informações iniciais de que ele teria sido espancado e que sua condição médica era ''muito ruim''.


''Há sinais visíveis de torturem em seu corpo, em resultado do espancamento com instrumentos de metal'', disse al-Sa'adi.


''Relatórios médicos mostraram que o espancamento a que foi foi submetido al-Zaidi levaram-no a perder um dente, assim como ferimentos em sua mandíbula e ouvidos.


''Ele teve sangramento no olho esquerdo, assim como marcas em seu rosto e abdôme. Quase nenhuma parte de seu corpo foi poupada de ser espancada.''


Hajar Smouni, um porta-voz do Doha Centre for Media Freedom no Catar disse que ''a forma como ele foi preso foi muito brital. Algumas pessoas relataram que havia sangue no chão no lugar onde ele foi detido''.


''Embora ele não tenha sido preso por causa de suas opiniões, nós não podemos permancer em silêncio, diante dos maus-tratos a que foi submetido pelas forças iraquianas de segurança. É vital que ele tenha acesso a cuidados médicos e que lhe seja dado um julgamento justo'', disse.

Reclamações

"O fato dele ter sido assistido por um advogado já é um sinal positivo, mas o que preocupa é que ele será julgado pela Corte Central Iraquiana, que é o tribunal que julga os casos dos acusados por terrorismo".


"Esse á um julgamenteo difícil. Ele pode ser sentenciado a 25 anos na prisão, e nós precisamos assegurar que a ele não seja dada uma pena excessiva".


"No passado, houve muitos casos que foram interpretados como
reveladores da submissão e falta de independência do sistema judicial iraquiano".


Al-Zaidi fez uma ação contra os guardas que o espancaram, de acordo com seu advogado, e solicitou que eles sejam julgados também pela Corte Central Iraquiana".


"A corte aceitou a ação e tomou as medidas cabíveis para que os guardas sejam levados à justiça e punidos por infração à lei", disse al-Sa'adi.


O julgamento de al-Zaidi está marcado para 31 de dezembro de 2008, quando será acusado de "insultar um líder estrangeiro".




Com informações da Al Jazira: http://english.aljazeera.net

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Discurso da celebração dos 30 anos da política de Reforma e Abertura



www.vermelho.org.br


19 DE DEZEMBRO DE 2008 - 18h48

Seguiremos adiante com as reformas, diz Hu Jintao


A China continuará impulsionando a reforma, a abertura e o sistema socialista, que nos últimos 30 anos transformaram sua economia na quarta maior do mundo, afirmou Hu Jintao, o presidente do país, na última quinta-feira (18).


Por Zhu Zhe, para a China Daily


Em um discurso exibido pela televisão nacional, celebrando os 30 anos da política de reforma e abertura, Hu saudou a transição da nação da pobreza para uma das maiores economias e força política do mundo.


''As significativas mudanças provam que a direção e o caminho das reformas e abertura estão completamente corretas'', afirmou Hu a uma audiência de mais de 6 mil pessoas no Grande Salão do Povo em Pequim.


''A paralisia ou a regressão teriam nos conduzido a um beco sem saída'', sublinhou.


Hu afirmou que o país deve ter o foco projetado no crescimento econômico e na estabilidade social, agregando que a China deveria aprender o que há de melhor da sociedade humana em termos de política e civilização, e não copiar cegamente os modelos institucionais políticos do Ocidente.


''Sem a estabilidade, não podemos fazer nada, e perderemos o que conquistamos''.


''Precisamos seguir a liderança do partido e continuar o desenvolvimento do socialismo com características chinesas'', comentou.


Hu fez as declarações durante o aniversário de 30 anos da terceira sessão plenária do 11º Comitê Central do Partido Comunista da China (PCCh). Foi naquela reunião que o partido decidiu abrir o país e reformar sua moribunda economia.


A decisão, que salvou o país de um colapso econômico após a Revolução Cultural (1966-1976), foi sugerida por Deng Xiaoping, arquiteto das reformas, junto com seus camaradas que estavam bastante confiantes em mudar as velhas normas.


A corajosa transformação fez com que a China se tornasse a quarta mais rica economia do mundo, em termos de Produto Interno Bruto, chegando ao valor de US$ 3,6 trilhões em 2007, deixando muito para trás a 10ª posição de economia global, quando tinha um PIB de US$ 364,5 bilhões há 30 anos.


''O feito de alimentar 20% da população global é também uma grande contribuição para o mundo, enquanto a renda pessoa passou de 343 iuanes anuais para 13.786 iuanes hoje. O número de pessoas que viviam na pobreza encolheu para 14 milhões, enquanto em 1978 a pobreza atingia 250 milhões de pessoas'', afirmou Hu.


Ele também congratulou as últimas três gerações de lideranças do país. Em resposta, a terceira geração da liderança, que inclui o ex-presidente Jiang Zemin e o ex-premie Zhu Rongji, que raramente aparecem em público, vieram ao palco para saudar os espectadores.


Hu também apontou alvos para o desenvolvimento da nação: a China deverá tornar-se uma nação medianamente desenvolvida em 2021, tornando-se modernizada na metade do século 20.


''Se não houver titubeios, relaxamento de nossas forças ou deixarmos que nos ultrapassem, continuaremos avançando firmemente na impulsão das reformas e da abertura, assim como na manutenção do socialismo com características chinesas, então esse grande objetivo será definitivamente conquistado'', previu Hu.


Mesmo assim, enquanto destacava que as autoridades devem apoiar as reformas de mercado, ao mesmo tempo Hu também defendeu a necessidade de controle maior da economia pelo estado.


O país deve ''focar no fortalecimento e na melhoria dos controles da macro-economia, superando certas deficiências, próprias do mercado'', afirmou.


Hu disse que a China ''conquistou resultados positivos em resposta à crise financeira global'', mas precisa fazer mais se quiser manter o ritmo de crescimento atual do país.


''Nós precisamos implementar seriamente várias medidas para aumentar a demanda interna e promover o crescimento econômico, assim como tratar corretamente a crise financeira global e outros riscos da economia internacional, e fazer o melhor para manter um crescimento relativamente rápido e estável''.


Hu também revelou que o país ainda enfrenta grandes problemas, como modelos de desenvolvimento pouco eficientes, uma desigualdade cada vez maior entre ricos e pobres e indicadores econômicos bastante atrasados em algumas áreas rurais.


Seu discurso foi muito bem recebido, tanto pelo povo quanto por acadêmicos.


''Ele resume a nossa experiência de desenvolvimenteo nos últimos 30 anos e olha para o futuro'', disse Shen Baoxiang, professor da Escola do Comitê Central do PCCh. ''Há um velho provérbio chinês que diz que um homem, aos 30 anos, se torna uma pessoa bem estabelecida. Isso se aplica muito bem à nossa reforma econômica''.


Li Zaichun, um aposentado de 74 anos que foi autoridade da Federação de Sindicatos da China e compareceu ao evento, chegou às lágrimas quando perguntado sobre o que sentia em relação às mudanças das últimas três decadas: A vida mudou demais... não tenho palavras para descrever'', disse.


Também presente à comemoração, Cheng Bingxiao, universitário de 18 anos da Universidade de Pequim, entrava pela primeira vez na vida no Grande Salão do Povo. ''Após ouvir o discurso do presidente, senti repentinamente a sensação de reponsabilidade histórica'', afirmou.


No fim da noite, centenas de internautas deixaram comentários sobre a comemoração e o discurso de Hu nos maiores portais do país, como o sina.com. Quase todos expressaram apoio à liderança do partido e saudaram as mudanças no país nos últimos 30 anos, enquanto alguns pediam um combate maior à corrupção''.


''Minha família era muito pobre para me comprar um par de sapatos quando eu era criança (nos anos 1970). Eu só podei vestir um par de mocassins no inverno'', dizia um dos comentários. ''Ninguém pode negar o que nós conquistamos nos últimos 30 anos''.


Outro comentário dizia: ''apóio inteiramente o que o presidente Hu disse hoje. Se o partido combater melhor a corrupção, então não teremos mais nenhuma preocupação no futuro'', afirmou outro.



Diário do Povo Online - China

Raúl Castro: "Se acabaron los gestos unilaterales"


Granma (www.granma.cu)




• Entrevista de prensa concedida por el Presidente de los Consejos de Estado y de Ministros de la República de Cuba, compañero Raúl Castro Ruz, y Luiz Inácio Lula da Silva, Presidente de la República Federativa de Brasil, en Brasilia, el 18 de diciembre de 2008, "Año 50 de la Revolución"


(Versiones Taquigráficas-Consejo de Estado)

Raúl Castro.—¿Cuántas preguntas van a hacer?, para organizarnos.

Periodista.—Cuarenta.

Raúl Castro.—Mucho, mucho; tengo todavía un programa muy duro, y me voy rápido de Brasil porque no quiero enamorarme de Brasil ni de las brasileñas (Risas); son muy bonitas, igual que las cubanas. Si no hago la aclaración, no puedo regresar a Cuba, y es por una explicación muy sencilla: las raíces comunes que tenemos. ¿No es así?

Periodista.—En Cuba una cosa urgente debe ser ahora el bloqueo.

Raúl Castro.—No es tan urgente, llevamos casi 50 años; pero ya es hora de que concluya, está agonizando. Si nos hacemos la pregunta: ¿Por qué el bloqueo? ¿Para qué el bloqueo, salvo que no sea por una incomprensible venganza contra un pueblo que no ha agredido nunca a Estados Unidos? Es el momento ya en que va a agonizar y más aún después de las cumbres que acabamos de concluir en Sauípe, Salvador, estado de Bahía; es decir que eso no tiene perspectiva.

Cuántas veces en la ONU, con la excepción, por supuesto, del voto de Estados Unidos, del voto de Israel, que yo lo comprendo, Israel se debe a Estados Unidos totalmente, incluyendo las armas nucleares, que tiene por centenares, que se hizo en silencio cómplice con unos cuantos y ahora aquello es un polvorín completo. Es decir que ya hay que irse preparando, porque el bloqueo no tiene perspectiva.

El señor presidente de Estados Unidos dijo en la campaña electoral que suavizará el bloqueo, pero se mantendrá el bloqueo. Eso es el garrote y la zanahoria: ¿Por qué mantener el bloqueo? ¿Por qué y para qué? Ya más del 70% de los ciudadanos de mi país han nacido bajo las condiciones del bloqueo y bajo las limitaciones que impone el bloqueo. Quiere decir que estamos entrenados, estamos preparados contra el bloqueo y contra los huracanes que cada día serán o son ya más frecuentes, y, lo peor, más poderosos.

Con nosotros no ha podido nadie: no pudo el colonialismo español cuando concentró cerca de 300 000 soldados a finales del siglo XIX, en la última guerra, en la cual mi papá era soldado español, en la cual mi papá vino, campesino pobre movilizado en Galicia, a los 20 años —había nacido en el año 1875—; después se enamoró de Cuba, regresó rápido después que lo evacuaron, para suerte de Fidel y mía. No es que no nos hubiera gustado ser gallegos, pero preferimos ser gallegos en Cuba y compartir esos dos troncos, europeo y africano, igual que ustedes.

Es decir que volviendo al bloqueo y al señor Obama, presidente de Estados Unidos, al cual le reconocemos sus virtudes, pero que ahora es el momento de la verdad, que debe demostrarlo.

Estamos acostumbrados y leí muy recientemente que el propio Ministro de Defensa de ustedes, con el cual tuve la oportunidad de conversar un instante ahora en el banquete, en Estados Unidos plantea lo que está planteando toda persona honesta y con racionalidad en el planeta: ¿Por qué el bloqueo? ¿Por qué no levantan el bloqueo? Y la señora Albright, que ustedes recordarán fue secretaria de Estado de Clinton, dijo que para eso Cuba tenía que empezar a hacer gestos. ¿Gestos de qué? ¿Gestos para qué? ¿Por qué gestos el país agredido y pequeño? Que nos pasen la lista para ver cuántas agresiones les hemos hecho a ellos.

Entonces, eso es común en Cuba. Yo recibí una carta hasta de un ex presidente anunciándome que se aproximaban cambios antes de las elecciones y que sería muy bueno que hiciera algunos gestos Cuba. Le contesté inmediatamente con el mismo afecto que él escribió su carta, y le dije que la época de los gestos se acabó en Cuba, que tienen que ser gestos bilaterales, que se acabaron los gestos unilaterales.

Esa es la situación: ¿Hasta cuándo vamos a permitir eso?

Ustedes oyeron cuando yo dije, en mis palabras ante el banquete, que ya en América Latina somos mayores de edad, ya queremos hablar con voz propia. No es Cuba, es todo el continente, empezando por Brasil que es el hermano mayor, por razones obvias que todos conocemos. A los norteamericanos hay que decirles igual y acabarnos de quitar el complejo este.

De todas las desgracias —yo le decía al presidente Lula—, hay que tratar de sacar alguna ventaja, y de las desgracias de esta crisis económica, financiera y de todo tipo, hay que sacar por lo menos el provecho de que a pesar de ese tutelaje mundial que existía aquí de parte de ellos, de parte de los amigos de la Unión Europea que todavía nos siguen mirando desde arriba —mirando desde arriba se les nota hasta en los gestos que tenemos magníficos amigos en dicha comunidad y sangre como la mía propia que les estoy diciendo, hablándoles de mi origen gallego, español—, todo eso llegó el momento en que tenemos que eliminarlo y se eliminará; el que quiera seguir con sus complejos sometido a los atavismos del pasado, que siga, no lo vamos ni a criticar, hay que respetar las opiniones de todos, hay que acostumbrarse a vivir en pluralidad.

A ustedes les parecerá raro que un comunista cubano hable así; sin embargo, yo sé lo que es una comunidad de países como a la que pertenecimos hasta la crisis del socialismo, que será transitoria, como todo proceso a lo largo de la historia, lo que es la falsa unanimidad.

El mundo sería muy aburrido si todos tuviéramos que pensar igual de todo. La diferencia es una virtud, lo que hay es que saber llevar las discrepancias con altura, respetando a los demás, sencillamente; pero exigiendo que se nos respete.

Ese es el problema del bloqueo. Esperaremos con paciencia... Ustedes están escuchando nuestros discursos, incluyendo los que pronuncié en Salvador de Bahía, Sauípe, yo ni mencioné la palabra imperialismo, cosa rara. Llevamos medio siglo pronunciándola, ya todo el mundo la conoce, no hay que repetirla. Estamos viendo las consecuencias de lo que es el sistema ese. O sea, Cuba está preparada para lo que sea.

Soy de los que creen que Brasil es de los países que tiene mejores condiciones, por diferentes razones, para enfrentarse a la crisis, que es bastante complicada y que nadie sabe todavía cómo se va a resolver, ni dónde va a terminar; o si va a ser repetitiva, cada vez más frecuente como los huracanes que azotan al Caribe, que cada día son más y cada día son más violentos. Vivimos seis meses bajo los huracanes, desde el 1ro. de junio hasta el 30 de noviembre, ese es el período de huracanes.

Estoy hablando mucho para que hagan pocas preguntas, ¿no se dan cuenta que esa es la táctica?

Periodista.—¿Y los disidentes cubanos que fueron fusilados?

Raúl Castro.—¡No me vengas con disidentes!, esa historia la conozco de sobra. Por qué no me hablas de los 57 millones de dólares que como presupuesto aprobó el Congreso de Estados Unidos para pagar agentes, que ese es el papel que desempeñan. Esos son los disidentes.

Por qué no me hablan de los Cinco Héroes nuestros que no hicieron nada contra Estados Unidos y llevan 10 años prisioneros, y que fueron juzgados incorrectamente y hay uno que está condenado a dos cadenas perpetuas. Y no me vengas con esa pregunta que ya la sabemos de plantilla.

Periodista.—Presidente, una pregunta, eso quiere decir que descarta completamente hablar con Obama, o una agenda abierta con Obama.

Raúl Castro.—Ya hemos dicho que estamos dispuestos a hablar con el señor Obama donde sea y cuando él decida. Ahora bien, en absoluta igualdad de condiciones, ¡igualdad de condiciones!, sin la más mínima sombra a nuestra soberanía, ni a pedirnos que hagamos un gesto, ¡no tenemos ningún gesto que hacer! Tampoco se lo pedimos a ellos. Vamos a hacer gesto y gesto, esos prisioneros de los que tú hablas quieren soltarlos, que nos lo diga mañana, se los mandamos para allá con familia y todo; que nos devuelvan a nuestros Cinco Héroes, eso es un gesto de ambas partes, y de los supuestos prisioneros que hay en Cuba.

Luiz Inácio Lula da Silva.— Pienso que es extremadamente importante comprender este asunto del presidente Obama. Yo pienso que la reunión que tuvimos en Sauípe, en mi discurso me referí a que Obama va a probar la diferencia del mandato que él va a ejercer en Estados Unidos haciendo algún gesto y su primer gesto debe ser decir cuál será la política norteamericana para América Latina y el Caribe, toda la política que él va a tener para África.

La segunda cosa que me parece importante es decir: cuál es la razón del bloqueo a Cuba. Creo que no es Cuba quien tiene que pedir el fin del bloqueo, habrá un momento que Estados Unidos comprenderá que no existe justificación política, ética, militar para mantener ese bloqueo a un país que la única cosa que hizo equivocada fue conquistar su libertad y creó un consenso entre todos los países de América Latina y el Caribe, yo diría del mundo. No hay explicación, si hubo un momento en que después de la Revolución hubo una historia de misiles soviéticos en Cuba, y que llevó a los americanos a decir: "Vamos a bloquear"; eso acabó hace casi 50 años. El mundo precisa vivir en paz, vivir en la diversidad, vivir democráticamente.

Yo pienso que la victoria de Obama en Estados Unidos para mí significa mucho, porque no es poca cosa que un negro sea electo presidente de Estados Unidos de América del Norte, y él fue electo y eso hace la diferencia. Él va a asumir el próximo día 20 de enero. De ahí es que yo espero que existan también diferencias en el comportamiento con relación a América Latina y el Caribe. Y creo que Cuba no tiene que hacer gestos, quien tiene que hacer gestos es el gobierno norteamericano, que es quien hizo el gesto del bloqueo. Lo que tiene que decir es: "Se acabó el bloqueo"; y ya está todo resuelto.

La segunda cosa que me parece sumamente importante y un problema que tengo la convicción de que al presidente Obama le interesa mucho, es la sustentabilidad económica de los países de América Latina y sobre todo de América Central que dependen de la economía norteamericana. O sea, yo espero que Obama tome medidas concretas y espero que Obama pida ayudar a los países de América Central que dependen exclusivamente de la economía norteamericana... para que los ayuden para que no sean víctimas de las pérdidas económicas causadas por Estados Unidos.

Hay algo que me parece extremadamente importante y pienso que Estados Unidos, Europa, la prensa brasileña, los intelectuales y todo el mundo van a entender lo que aconteció en Bahía esta semana, que no es poca cosa, a 200 años de la conquista de la independencia de muchos países de América Latina y del Caribe, nunca había habido una reunión de todos esos países, porque solo se reunían cuando Estados Unidos lo permitía; hoy por libre y espontánea voluntad todos los países se reunieron para hablar, discursar y por unanimidad todos ellos piensan que precisamos que exista un organismo multilateral de América Latina y el Caribe sin tener que recurrir a la Corte de La Haya para resolver un problema en América Latina o el Caribe, o recurrir a la OEA para resolver un problema entre Brasil y Uruguay o entre Paraguay y Argentina, que tengamos un organismo multilateral nuestro.

Esas cosas no van a ocurrir con facilidad; pero tengan la seguridad de que van a ocurrir de manera mucho más rápida, en cualquier momento. Ya fue pensado por los gobernantes. Creo, fervorosamente, por todas las conversaciones que mantuve con los gobernantes, que existe una conciencia de que esta crisis es una gran oportunidad para que podamos repensar que el orden económico puesto en práctica en el siglo XX, en la posguerra, no puede continuar porque necesita una lógica en la economía. Entonces esta crisis va a obligarnos a pensar y a repensar qué otras formas de política económica vamos a necesitar, qué otras relaciones comerciales y bilaterales van a existir entre países; porque antes todos estaban pendientes del potencial de compra de Europa y de Estados Unidos, un poco más también del poder de compra de China; pero ahora, es necesario pensar entre nosotros qué hacemos para ayudarnos.

Cuántas cosas semejantes hay entre nosotros que no aprovechamos, que jamás discutimos. Las cosas están evolucionando, y este encuentro de Sauípe, y ya participé en muchas reuniones de Jefes de Estado, nos trajeron una cosa importante: trajeron a Cuba como miembro permanente del Grupo de Río.

También es importante recordar que no estamos defendiendo el retorno de Cuba a la OEA, porque Cuba no desea volver; lo que estamos diciendo es que sea hecha una reparación de lo que ocurrió cuando expulsaron a Cuba en 1962 de esa organización. Apenas una reparación, porque en algún momento histórico las personas tienen que empezar a pedir disculpas, pedir perdón a los países, a los pueblos, por los errores que hemos cometido. Yo no tuve ninguna vergüenza de ir a África y pedir disculpas al pueblo africano por los 300 años de esclavitud sufridos aquí en Brasil; no tuve la menor vergüenza, porque pienso que pedir disculpas es parte de la grandeza de los hombres y de las mujeres.

Ahora, la política de los países ricos, esa palabra no existe. Ahora hay una crisis profunda; o sea, estamos matándonos para hacer que no llegue a los pueblos de América Latina. No obstante, estamos colocando dinero en la economía para reactivar la producción, y la única cosa que hacemos es invertir dinero para salvar a los bancos. Si ese dinero fuese colocado en la industria, en la agricultura, para los pobres, la familia, no tendríamos esa crisis tan profunda.

Tengo la expectativa de que con el presidente Obama, la política de Estados Unidos va a ser mejor; porque la única explicación que yo tengo para mantener ese bloqueo es la cantidad de electores de origen cubano que hay en Florida; es la única explicación, no hay otra.

Ahora, como él, ganador de las elecciones, tiene que demorar cuatro años hasta la próxima, eso puede ser cambiado en el primer año.

Raúl Castro.—Y ganó en la Florida.

Luiz Inácio Lula da Silva.—Y ganó en la Florida, es importante.

Raúl Castro.- Es la primera vez.

Luiz Inácio Lula da Silva.—Eso no tiene el menor sentido.

Estoy muy feliz con la visita del presidente Raúl Castro, es la primera visita de un Jefe de Estado cubano a Brasil de manera oficial. Con anterioridad el compañero Fidel había participado en varios eventos internacionales en Brasil, pero no en visita oficial. Es muy gratificante, y espero que sea la primera de una serie de visitas a Brasil.

Raúl Castro.—Cuando vuelva, cuando vuelva seguimos la entrevista.

Luiz Inácio Lula da Silva.—Brasil va a continuar cooperando. Ustedes tienen que comprender que el presidente Raúl Castro tiene una agenda complicada.

Periodista.—Saludos, Presidente.

Coletivizando no Youtube