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sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Quem era o homem que se recusou a saudar Hitler? História em Rede




História em Rede
Jul 17, 2019

Não é difícil perambular pelas redes sociais e se deparar com uma foto icônica sobre o nazismo: o homem que se recusou a saudar Hitler em meio a multidão, cruzando os braços. A saudação, associada a uma demonstração de lealdade ao Führer e de comprometimento com a nação alemã, era entoada junto à expressão sieg hiel, cujo significado em uma tradução livre seria “viva a vitória”. Famosa por celebrizar uma manifestação de resistência, a foto se tornou referência obrigatória para os que se interessam pela história do nazismo, servindo ainda como inspiração para movimentos contrários a governos autoritários no tempo presente. Mas, afinal, quem era o homem que ousou desafiar Hitler e o nazismo?

A primeira pista sobre a sua identidade surgiu muitos anos após a Segunda Guerra Mundial. Isso porque a fotografia veio a público por meio de um artigo veiculado no jornal Die Zeit, em 22 março de 1991. A publicação chegou até Irene Eckler, que não teve dúvidas quando observou o homem de braços cruzados: era o seu pai, August Landmesser. A trágica história de sua família, que durante tanto tempo manteve-se sufocada, finalmente poderia alcançar alguma redenção. Reunindo diversos documentos pessoais, Irene lançou em 1996 um livro que contava a trajetória de seu pai. E quem diria que por trás do famoso ato de resistência estaria uma história de amor?

A vida de August Landmesser (1910–1944), porém, nem sempre esteve do lado oposto ao nazismo. Na verdade, como muitos alemães que viveram nas décadas de 1920 e 1930, ele foi simpático ao nazismo. Chegou, inclusive, a fazer parte do Partido de Hitler. Com dificuldades para conseguir um trabalho, August juntou-se aos nazistas na esperança de remediar os seus problemas. Ele, obviamente, não foi o único. Os nazistas apresentavam-se como a salvação de uma Alemanha que vivia atormentada após os prejuízos da Primeira Guerra Mundial, prometendo o fim do desemprego e melhorias sociais. Crescendo em meio a desolação, as ideias radicais do nazismo foram encaradas como uma solução por muitos. E não foi diferente com Landmesser, que se converteu rapidamente em um típico seguidor de Hitler.
Foto de August Landmesser, em 1935. Fonte: ECKLER, Irene. A Family Torn Apart by “Rassenschande”. Schwetzingen, 1998.

A sua relação com o nazismo não demoraria a estremecer. Em 1934, o rapaz se apaixonou. Mas, ironicamente, a sua amada era proibida: Irma Eckler era uma mulher judia. É difícil saber como Landmesser lidou com essa questão. Provavelmente a sua mente debateu-se entre os princípios nazistas e os sentimentos por Irma. No fim, venceu o amor e o casal se envolveu estreitamente. A sua escolha, contudo, cobrou um preço. Em 1935, o relacionamento chegou ao conhecimento de membros do Partido e August acabou expulso. Esta não seria a única consequência de sua escolha apaixonada. Quando o casal se registrou para confirmar o matrimônio em Hamburgo, ainda em 1935, o pedido foi negado. Era reflexo das Leis de Nuremberg, estabelecidas em 16 de setembro de 1935. As leis, de caráter anti-semita, procuravam resguardar a honra e a pureza racial dos alemães, estabelecendo uma série de restrições aos judeus, negando-lhes a cidadania. Uma das medidas, e que atingiu diretamente Landmesser, proibia casamentos entre alemães e judeus. Vítimas da política descriminatória que ganhava forma na Alemanha, August e Irma permaneceram juntos, mesmo sem ser casados. Em 29 de outubro daquele mesmo ano nasceria a primeira filha do casal, Ingrid.

Chegamos, então, ao ano de 1936, quando a famosa fotografia foi tirada. Mais precisamente no dia 13 de junho. A foto retrata uma grande concentração de trabalhadores do estaleiro Blohm & Voss, em Hamburgo. August Landmesser, empregado no local, estava entre eles. Realizava-se então um comício nazista para celebrar o lançamento do navio Horst Wessel. Dentre todos os presentes, August teria sido o único a se recusar a fazer a saudação, cruzando os braços em meio a multidão. Um gesto corajoso e ousado, devidamente motivado por sua própria trajetória pessoal.
A famosa foto, cujo autor é desconhecido

Apesar da nobre demonstração de resistência, a vida de Landmesser continuava a ser atormentada pelo governo nazista. Em 1937, o relacionamento que ele possuía com Irma, cada vez mais sólido, era público e notório. Ela, a propósito, estava grávida da segunda filha, Irene. Segundo a política racial que vigorava na Alemanha, isto era uma verdadeira afronta à raça ariana, sendo passível de condenação. Temendo pelo futuro de sua família, August tentou fugir com sua esposa e filha para a Dinamarca em julho daquele ano. Não deu certo. Ambos acabaram presos, mas, alegando que não sabiam da origem judia de Irma, o casal acabaria absolvido por falta de provas. Eles foram instruídos, no entanto, a não manterem mais qualquer relação.
Foto de August Landmasser, Irma Eckler e suas filhas, Irma e Ingrid, em 1938. Fonte: ECKLER, Irene. A Family Torn Apart by “Rassenschande”. Schwetzingen, 1998.

O amor de August falou mais alto do que o medo da punição e ele continuou amasiado com Irma, mesmo diante da determinação proferida. A filha recém-nascida, concebida pouco depois da fracassada tentativa de fuga, também deve ter pesado em sua decisão. Mas o risco era alto e novamente eles seriam denunciados apesar dos cuidados adotados para que o relacionamento ficasse em segredo. Dessa vez os nazistas não foram tão complacentes. Em julho de 1938, ao ser constatado que ele se recusava a deixar a esposa e as filhas, August Landmesser acabou condenado por seu ato. Ele foi enviado para um campo de trabalhos forçados em Borgermoor por 30 meses, separando-se de sua família, o que August tanto havia relutado. Acostumado com os dessabores causados pelos nazistas, provavelmente ele manteve a esperança de reencontrá-las. No entanto, o momento da despedida foi a última vez que ele esteve com sua companheira e filhas.
Foto enviada por Irma Eckler para August Landmesser quando ele estava preso. Fonte: ECKLER, Irene. A Family Torn Apart by “Rassenschande”. Schwetzingen, 1998.

Pouco depois da prisão de August, Irma foi vítima da perseguição nazista. Como a lei previa que a mulher de um homem condenado por “desonrar a raça” também seria presa, ela caiu nas garras da Gestapo, a temida polícia secreta nazista. Transitando entre presídios e campos de concentração, Irma seria privada da convivência com as filhas. A filha mais velha, Ingrid, foi mandada para um orfanato por um curto período, até que teve autorização para viver com os avós paternos. Irene, por sua vez, foi concedida a pais adotivos. A agonia de Irma no campo de concentração se estendeu até fevereiro de 1942, quando ela foi morta na câmara de gás em Bernburg. Estima-se que 14 mil pessoas morreram nessa oportunidade.
Cartão de identificação de Irma Eckler. O governo nazista obrigou que os judeus portassem tal cartão de identificação, o qual deveria ser apresentado sempre que uma autoridade solicitasse. Fonte: ECKLER, Irene. A Family Torn Apart by “Rassenschande”. Schwetzingen, 1998.

August Landmesser foi libertado em janeiro de 1941, mas jamais conseguiu se reunir novamente com sua mulher ou filhas. Novamente em liberdade, August conseguiu emprego como capataz em uma empresa de transporte, na cidade de Warnemünde. Mesmo assim, a sua vida jamais seria a mesma. É possível que ele tenha se esforçado para entrar em contato com os seus familiares, sem sucesso. O seu destino, entretanto, seria trágico. Em fevereiro de 1944, diante da enorme demanda de soldados por parte do Exército Alemão, cada vez mais esgotado e em franca decadência, ele foi convocado para compor um batalhão penal. Pouco se sabe sobre a sua participação na guerra, mas ele foi dado como desaparecido em 17 de outubro de 1944, quando lutava na Croácia. O seu corpo nunca foi encontrado, mas ele foi considerado morto em 1949.

A história trágica foi em grande parte narrada no livro que Irene publicou após reconhecer o seu pai na fotografia. E o título da obra, A Lei de Tutela 1935–1958: perseguição de uma família por “desonrar a raça”, não poderia ter sido mais adequado. Como muitos sobreviventes do Holocausto, as filhas Irma e Irene carregaram marcas profundas da perseguição e da descriminação impostas pelo governo de Hitler. Vivendo em orfanatos ou junto à famílias adotivas, restavam apenas breves lembranças da vida com seus verdadeiros pais. O amor do casal, porém, desafiou a morte: em 1951, o Senado de Hamburgo reconheceu o casamento de August Landmesser e Irma Eckler, eternizando a relação condenada pelos nazistas.

O livro de Irene Eckler, publicado em 1996, e que apresentou fotos e documentos sobre a sua família

Não há consenso, porém, quanto à identidade do homem que se recusou a fazer a saudação nazista. Isso porque a família Wegert reivindica que quem está de braços cruzados é Gustav Wegert (1890–1959). Esse sujeito também trabalhou no estaleiro Blohm & Voss na mesma época em que a foto foi tirada, apresentando semelhança física significativa com o retrato famoso quando comparado com outras de suas fotos. E, ainda mais relevante, ele jamais fazia a saudação nazista. Mas o motivo não era o mesmo de August Landmesser. Cristão convicto, Gustav se recusava a venerar Hitler ou os nazistas, dizendo que “deve-se obedecer a Deus mais do que aos homens”. Sua esposa, inclusive, temia que o marido poderia acabar preso por se recusar a fazer a saudação, razão pela qual ele já havia sido advertido algumas vezes. Mas Gustav a acalmava: por precisar de trabalhadores especializados no estaleiro, a punição nunca ia além da advertência. A sua importância no estaleiro Blohm & Voss o favoreceu inclusive durante a guerra, já que ele nunca chegou a ser alistado.
Foto de Gustav Wegert (de sobretudo, com a mão no bolso). Arquivo pessoal da família Wegert. Disponível em: http://wegert-familie.de

Até hoje há dúvidas quanto a verdadeira identidade do homem de braços cruzados. A sua atitude de recusa à veneração ultranacionalista típica dos nazistas, porém, é inquestionável. E de algum modo a foto remete tanto a vida de August Landmesser quanto a de Gustav Wegert. Isso porque eles, cada um a sua maneira, ousaram dizer não ao nazismo. Em meio ao fanatismo, ao radicalismo e à violência aviltada em relação àqueles que não concordavam com Hitler ou seus seguidores, era preciso muita coragem para dizer não quando a imensa maioria dizia sim.


Luís Rafael Araújo Corrêa é professor do Colégio Pedro II e Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor de artigos e livros sobre História, como a obra Feitiço Caboclo: um índio mandingueiro condenado pela Inquisição.

domingo, 6 de junho de 2021

O arranjo do novo governo sionista e a resistência palestina - Sayid Marcos Tenório





Alternância no comando sionista não trará nenhum benefício para o povo palestino. É mais do mesmo.


por Sayid Marcos Tenório no Portal Vermelho

Publicado 05/06/2021 10:36 | Editado 05/06/2021 12:01
Naftali Bennett

Segundo a mídia internacional, o chefe do partido de direita Yamina, Naftali Bennett, deve assumir o cargo de primeiro-ministro da entidade sionista, derrotando Benjamin Netanyahu, o premiê que desde 2009 se mantém à frente do governo israelense, sem interrupção do mandato. Contudo, o novo gabinete só será anunciado na próxima quarta-feira (9), quando o Knesset, o Parlamento israelense, fará votação para aprovação do novo gabinete.

Apesar das previsões a respeito da escolha de Bennett, Netanyahu ainda busca uma última cartada, tentando provocar uma nova eleição, que poderia alterar a atual composição do Knesset para permanecer à frente do governo da ocupação. Manter-se no poder significa, para Netanyahu, não ter que responder as acusações de suborno, fraude e abuso de confiança que poderiam, caso fosse condenado, levá-lo a cumprir até 10 anos de prisão.

Este arranjo para formação do novo governo que envolve uma coalizão de oito partidos foi anunciado nos últimos minutos do prazo pelo líder do bloco de oposição no Knesset, Yair Lapid. O esforço do bloco será unificar partidos da direita e centro-direita sionistas que supera o apoio de 61 deputados, para formação do governo que incluirá o Yamina e Yesh Atid, mas também o Azul e Branco, liderados por Benny Gantz; Yisrael Beytenu, dirigido por Avigdor Lieberman; Nova Esperança, dirigido por Gideon Saar; o Partido Trabalhista, liderado por Marav Michaeli; Meretz, dirigido por Nitzan Horowitz; e o Ra’am, ou Lista Árabe Unida, liderada por Mansur Abbas.

Um fato que chamou a atenção, foi o anúncio de que os “árabes” estariam apoiando a nova composição política que governará a ocupação sionista. A Lista Árabe Unida (Ra’am) também conhecida como Movimento Islâmico, é um partido árabe religioso que elegeu quatro deputados nas últimas eleições e que fez parte da Lista Conjunta, uma coligação partidária “árabe” que incluía os partidos Balad, Hadash e Taal. Sua plataforma política concentra-se amplamente em questões socioeconômicas para os cidadãos palestinos, sem, no entanto, contestar a ocupação, as violações cotidianas de Israel contra palestinos, mesmo os que vivem nos territórios de 1948.

Apesar do que afirmam alguns analistas e até órgãos de mídia, a Lista Árabe e o seu líder Mansour Abbas, embora sejam considerados como uma organização islâmica na configuração política israelense, não mantém nenhum nível de relação direta com o Movimento de Resistência Islâmica – Hamas ou com a Jihad Islâmica Palestina. O Hamas rejeita fortemente a participação política no Knesset e não apoia qualquer iniciativa de composição de governo.

Em um comunicado de imprensa na noite da quarta-feira 2 de junho, o membro do Birô Político do Hamas, Izzat al-Rishq, declarou que o povo palestino não apoia nenhum governo sionista, e que alimenta esperanças apenas na “nossa valente resistência, para libertar todas as nossas terras palestinas ocupadas.”

A narrativa de que a Lista Árabe e seus integrantes são ligados ao Hamas, além da desonestidade intelectual, tem como objetivo confundir tanto a opinião pública israelense, quanto o movimento global de solidariedade pró-Palestina. Ao se associar a esse processo de formação de um novo governo de direita, a Lista Árabe age com o objetivo de ganhar benefícios para os seus integrantes e não para os árabes israelenses, que continuarão sendo tratados como cidadãos de segunda categoria pelos governos da ocupação sionista.

O Hamas não fez nenhuma declaração oficial ou se posicionou sobre a composição do novo Governo da entidade sionista. Simplesmente, porque a coalizão que está se formando para assumir o governo é composta por partidos da direita e centro-direita sionistas, incluindo o Ra’am. O pretenso novo premiê, Naftali Bennett, é tão ou mais radical de direita quanto Benjamin Netanyahu, no que se refere ao direito dos palestinos ao seu estado nacional soberano.

O entendimento é que essa alternância no comando sionista não trará nenhum benefício para o povo palestino. É mais do mesmo. A resistência continuará com o dedo no gatilho, porque a qualquer momento, seja Bennett ou Netanyahu, a entidade sionista desencadeará novas agressões com o objetivo de expandir a ocupação e negar os direitos do povo palestino ao seu Estado e o retorno dos refugiados. Por isso, o Hamas e as demais forças da resistência palestina continuarão lutando pelos direitos do povo, pela preservação dos locais sagrados, pela libertação dos presos políticos e pelo fim da ocupação em todos os territórios palestinos.

Outro ponto coincidente entre Netanyahu e Bennett, que causa preocupação, refere-se ao posicionamento a respeito dos aliados externos da resistência palestina, entre eles o Hezbollah, o Irã e a Síria. Ambos são capazes de uma aventura contra o Irã, por exemplo, com o único objetivo de mobilizar a os israelenses em torno dos seus objetivos de consagrar o projeto colonial e o apartheid na Palestina.

Mesmo sem vislumbrar mudança na composição do governo sionista, gostaríamos de salientar algumas mudanças no cenário interno e externo em Israel e na Palestina ocupada que podem sinalizar alterações principalmente na imagem de “bom mocismo” e na narrativa surrada do “direito legítimo de defesa” que Israel vem sustentando nas sete décadas de ocupação do território palestino.

O evidente fracasso militar e da inteligência da entidade sionista na recente agressão militar contra Gaza, a crescente impopularidade de Israel em todo o mundo, o fato de o Tribunal Penal Internacional ter iniciado inquérito sobre os crimes de guerra e de lesa-humanidade praticados contra a Faixa de Gaza desde 2014, se somam a recente decisão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que aprovou a abertura de investigação sobre os abusos de Israel nos territórios palestinos ocupados, após os episódios criminosos de maio deste ano. Esses fatos demonstram que Israel dificilmente vencerá batalhas contra palestinos em qualquer terreno.

Estamos assistindo os esforços dos políticos sionistas de direita e centro-direita onde a incapacidade de firmarem um acordo para compor o governo de ocupação, evidenciam a inviabilidade histórica e civilizacional do estado judeu, essa aberração criada após a partilha ilegal e injusta da Palestina Histórica em 1947. Por outro lado, é notório o crescimento mundial do sentimento de que povo palestino tem o legítimo direito de existir e de resistir ao apartheid e a limpeza ética com todas as medidas e métodos possíveis, inclusive com os mísseis da resistência.

Sayid Marcos Tenório
Historiador, Vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal) e autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência (Anita Garibaldi/Ibraspal, 2019). E-mail: sayid.tenorio@uol.com.br - Twitter: @HajjSayid

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Caminhos da Frente Ampla: a classe trabalhadora e a unidade de ação - Paulo Vinícius Silva

Pergunto, por que não nos unimos,
se assim só alegramos nossos inimigos?!
Juntemos nossas mãos,
a pátria nos reclama
a luta que nos levará à vitória final!
Ali Primera


Em plena 4ª Revolução Tecnológica, o Brasil se desindustrializa numa escala jamais vista, submetido a um governo títere dos Estados Unidos, ilegítimo, fruto podre de um golpe de estado urdido para a destruição dos fundamentos de qualquer projeto de desenvolvimento brasileiro. Em vez de saltar adiante para as novas possibilidades da tecnologia, a junta golpista (banqueiros, oligarcas da política, da imprensa monopolista e dos altos escalões do judiciário) dá o grande salto atrás, ampliando nosso atraso relativo, com o conhecido e brutal colonialismo que visa a eternizar uma estrutura social de cidadãos de primeira classe e uma segunda classe de subcidadãos.
Nosso país passa por uma expedição punitiva e Temer é um boneco de uma ocupação estrangeira, protegida pelo judiciário e pela imprensa golpista. Pune-se o Brasil por ter ousado assumir maior protagonismo internacional, com a América Latina e os BRICS, por ter se fortalecido como nação. Episódios como a dita Primavera Árabe, os protestos no Brasil, em 2013 e a desestabilização e guerra econômica contra a Venezuela mostram a influência do imperialismo se vestir de mobilização de massas, estimuladas por TVs, jornais e pela internet com fins de desestabilização, e buscando a chancela do parlamento e do judiciário, como se viu desde os casos de Honduras, com Zelaya, e do Paraguai, com Lugo. Vimos o cerco financeiro, a manipulação dos preços internacionais promovida pelos EUA e a Arábia Saudita, o bloqueio político e midiático ao governo e à Petrobras, a partidarização de setores policiais, judiciais e mesmo de milícias, com a progressiva imposição da violência, que já abateu a mais de uma centena de militantes da luta do povo desde a ascensão do golpista Temer.
Tal realidade obriga à esquerda a avaliar, retrospectivamente, o erro de menosprezar a questão nacional e, presentemente, a capacidade de organizar o povo, de segurança e de ação direta. Acima de tudo, deve a esquerda, especialmente a classe trabalhadora, ser o esteio da unidade de ação contra a ditadura em curso. Não podemos ignorar a violência nem danos irreparáveis à soberania e ao futuro do Brasil. É preciso impedir a dilapidação do patrimônio nacional.
É o Brasil do ferro gusa e da soja, depois da hecatombe que vitimou setores econômicos fundamentais sob a demagogia do combate a corrupção, ele próprio corrompido pela partidarização e pelo ativismo político do judiciário. Ativismo para libertar o criminoso prender o inocente, como ocorre com de Lula, cuja prisão é apenas outra forma de calar o direito de o Brasil decidir. Aqui, destroem-se setores industriais inteiros, desempregando pais e mães de famílias, com o choro de suas crianças e a volta da fome, a destroçar lares que se desfazem, ampliando a população de rua. O Brasil não ficou mais ético, ficou apenas mais desigual e covarde o contra o trabalhador, e ainda mais contra trabalhadora. Aqui, mata-se o povo de fome para enriquecer uma casta de financistas, especuladores, que subtraem a máxima parte da riqueza nacional.
É para vender e ajoelhar o país, para tanger o povo para as senzalas da exclusão, que servem o ódio e a violência fascistas. É preciso relembrar a definição clássica: O fascismo é uma ditadura terrorista aberta dos elementos mais reacionários, mais chauvinistas e agressivos do capital financeiro como um regime reacionário de massas. A relação da clássica definição do fascismo dos anos 1930 com a composição e prática do golpismo, impressiona: banqueiros, mídia monopolista, a direita mais corrupta e atrasada, sob o comando do imperialismo. É sob a violência e o desrespeito ao direito internacional que se gesta a destruição da democracia na América Latina. Precisamos vencer e reverter esse cenário desolador com a vitória dos setores democráticos, nacionalistas e populares – com ênfase na classe trabalhadora.
Precisamos assegurar a existência e a lisura e vencer a batalha de 2018, afirmando a democracia como palco da resolução dos conflitos. 2018 decidirá o ressurgir ou o sepultar da democracia brasileira e há que preparar-se para tudo. Por isso a unidade avulta, é decisiva. É dever que vai muito além dos partidos. Apesar do Fórum das Centrais, das Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, das frentes parlamentares em defesa das conquistas, prevalece a dispersão, as iniciativas parciais que não chegam ainda a inúmeras formas de organização popular que não atingimos. A necessidade obriga superar o atual cenário de derrotas seguidas após o golpe. Talvez um caminho seja resolver uma situação aparentemente paradoxal: há várias candidaturas de esquerda à Presidência, diferentes frentes nacionais e, ainda assim, unidade programática em torno de decisivas bandeiras nacionalistas, democráticas e dos direitos dos trabalhadores(as) e do povo.
Há, portanto, duas tendências cuja importância nos acontecimentos havemos de definir com nossa praxis: unidade versus fragmentação. Para chegar à unidade é complexo, só condições favoráveis não bastam. Unidade é fruto de esforço consciente, paciência, respeito. Para fortalecer as tendências à coesão é preciso avançar na unidade, como sinalizaram as fundações partidárias, num pacto a unir as candidaturas que defendem o Brasil, a Democracia e os Direitos do Povo.
Mas não basta esse compromisso na cúpula sem uma nova dinâmica de trabalho, de unificação de uma rede amplíssima de movimentos e formas de participação contemporâneas, com novas geração e tecnologia. Mas a base deve ser a unidade dos(as) trabalhadores(as) para responder o ataque à estrutura sindical, aos direitos da classe trabalhadora. O rasgar da CLT não foi respondido à altura e envolve muita gente que viverá sob o látego. Há oportunidades para a unidade. É possível responder à ofensiva antinacional a partir de plataformas sindicais unitárias e amplas campanhas e jornadas de lutas. A luta nas redes e nas ruas, um renovar do trabalho de base para:
1) a defesa das ESTATAIS – PETROBRAS, Correios, ELETROBRAS, CEF, BB, BNDES, EMBRAPA, bancos regionais, CEDAE, Metrôs, Itaipu, Portos;
2) a defesa do SUS; defesa dos usuários de planos de saúde; defesa da regulação da saúde privada; Todos os sindicatos e confederações ligados à saúde;
3) a defesa da Universidade Pública e da Pesquisa do Brasil – unir ANDIFES, SBPC, CONTEE, ANDES, UNE, DCEs, Cas, ANPG, APGs, FASUBRA, PROIFES, Institutos Federais, Seções sindicais, pesquisadores, artistas, personalidades da Ciência, Tecnologia, Ciências Sociais e Artes;
4) a defesa da Educação pública nos níveis Básico e Técnico – sindicatos das professoras(es) públicos e privados, Auxiliares e Profissionais da Educação Pública e Privada (regulação do ensino privado), federações e confederações;
Há uma sinergia evidente nessas plataformas que envolvem entidades importantíssimas, nacionalmente e nos maiores municípios. O ataque às estatais possibilita a imediata unificação das entidades que representam dos seus trabalhadores(as) para preservar: o caráter público, as condições de trabalho, a assistência à saúde e as autogestões, a participação eletiva nas empresas e a defesa de suas previdências privadas. Não há como vencer isoladamente. O sentido corporativo, nacional, trabalhista permite envolver amplos setores nessa luta decisiva. As confederações, federações e sindicatos das estatais ainda possuem força imensa, mas vivem o brutal ataque à sua estrutura, ao papel social e aos direitos da classe.
A unidade da luta na saúde, na educação e nas estatais pode nos ajudar a construir a unidade nacional e o enraizamento nas 27 unidades da federação, em especial nas cidades com mais de 100 mil habitantes, somando aos esforços dos Congressos do Povo. Num primeiro momento propomos quatro plataformas unitárias, face aos ataques que exigem naturalmente unidade gremial e compreensão classista, democrática e nacionalista. Mas devemos avançar para uma a unidade de ação dos trabalhadores e trabalhadoras da cidade e do campo, com iniciativas voltadas ao setor privado - Indústria, da Agricultura e dos Serviços -, à organização dos desempregados e excluídos.
A capacidade de reunir e debater com amplas massas, de repercutir nas redes, de as construir, obrigam a uma nova abordagem da luta sindical, inclusive atualizar o modelo de greve, incorporar novos atores profissionais terceirizados, quarteirizados, 4G, que advém descaracterização de categorias e da constituição de novas. É preciso um primeiro passo de unidade, nas estatais, na educação e na saúde para avançar e unir a classe trabalhadora.
Unificação e investimento no trabalho de basem deve ser consequência prática de um balanço autocrítico sobre a luta institucional, notadamente no Congresso que, a partir de Eduardo Cunha, tornou-se mero balcão de negócios espúrios e instância impenetrável que, não obstante, deseja a legitimação do movimento sindical e social. O excessivo institucionalismo na ação sindical e a redução dos espaços democráticos exige articular amplitude e radicalidade. A mudança de qualidade regressiva na democracia exige uma nova ação junto ao Congresso, mas sobretudo junto ao povo que elegerá o próximo. Disputar as agendas do Brasil é disputa de hegemonia e defesa da democracia. Sem unidade clara contra o retrocesso não poderemos avançar para a um maior espaço no Senado e na Câmara, eleger deputados e senadores que defendam os trabalhadores(as). O movimento sindical deve apresentar suas lideranças para retomar todos os nossos direitos.
No Golpe do impeachment fraudulento, na votação da Lei da Terceirização e da Reforma Trabalhista, nossa ação sindical não consegui articular seus dois polos: as direções nacionais e seus quadros, que circulam semanalmente no Congresso e Ministérios e a multidão dos envolvidos nas greves e paralisações gerais, na marcha de 200 mil a Brasília. Falta o protagonismo desse decisivo elo na corrente, sindicatos-âncora nos municípios acima de 100 mil habitantes. Uma rede dessas, se falasse para suas bases teria um impacto imenso. Já o comprovou. Essa parcela realizou a greve geral do dia 28, a 2a. CONCLAT e os Congressos das Centrais Sindicais e da CONTAG.
Mas a Pirâmide Invertida – com a hipertrofia das direções e a falta de apoio da base - leva a um envelhecimento geracional e à dificuldade crescente de mobilizar as categorias, ao burocratismo sindical, ao sindicalismo de resultados, afastando as categorias e impedindo a incorporação de mulheres e de jovens. Esse cupulismo amortece uma enorme rede que ainda não foi totalmente mobilizada e que deve ser buscar formas de pautar 2018. A luta pela relevância política é central para o movimento sindical.
A frente só se efetivará ao falar às entidades e à base popular. O momento exige ampla unidade em defesa das estatais e do Brasil. Esse movimento, se vitorioso, unindo centrais e frentes diversas, poderá apontar para a unificação nacional e para o enraizamento. E, a partir das estatais, quiçá sinalize para outras unificações, a defesa da Educação Básica e Técnica, do SUS, da Universidade e da C&T Brasileiras.
A unidade não é uma cadeira, uma mesa, é mais como um caminho. Mas, que fazer se os caminhos são desconhecidos, se levam a encruzilhadas? Ensina o poema de António Machado:
Caminhante, são tuas pegadas o caminho, e nada mais.
Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao andar.
E ao voltar o olhar atrás, vê-se a senda
a que não se voltará jamais.
Caminhante, caminho não há,
só as estrelas no mar.
Não há fórmula, receita para a unidade. Mas a Classe Trabalhadora aprendeu há 170 anos, com os jovens Engels e Marx (este a celebrar o seu bicentenário): “A burguesia produz, sobretudo, seus próprios coveiros”. Cada golpe que atinge o povo levará a uma incessante resistência. Somos felizmente obrigados a perseverar. Ao oprimido(a) só resta a esperança de lutar.
As condições objetivas e subjetivas para a unidade precisam ser sintonizadas numa estratégia democrática, nacional e popular. Como outros processos políticos latino-americanos evidenciaram: é necessária uma unidade superior do povo. E o Brasil construiu um imenso movimento sindical que precisa lutar, se defender e vencer essa guerra. A necessidade grita, e a CTB deve unir os trabalhadores e trabalhadoras, fortalecer a frente ampla, construir seu enraizamento, retomar a iniciativa política e defender as empresas públicas e o Brasil.
Toda semana afluem a Brasília centenas de lideranças sindicais para atividades que muitas vezes apenas legitimam uma agenda conservadora. É hora de mudar o esquema. Aproveitar e organizar essa presença em Brasília, construir espaços de diálogo e unificação, seminários nacionais, colóquios, debates públicos, manifestos para ecoar uma única voz de defesa da Nação, contra os vendilhões da pátria e escravizadores do povo. É preciso retomar os grandes espaços de diálogo e convergência como os Fóruns Sociais Mundiais, as Marchas da Classe Trabalhadora e a 2ª CONCLAT. Nossas formas de lutas para se demonstrarem verdadeiramente radicais, devem enfrentar as raízes dos problemas, e a raiz é o apoio do povo, retomar o laço de confiança numa nova ascensão da luta social. Nossas formas de luta devem reunir muita gente e repercutir nas redes, articulando uma base própria, a nossa representatividade.
PRIVATIZAR FAZ MAL AO BRASIL: É possível representar esse sentimento do povo, retomar a iniciativa, pautar 2018 e eleger trabalhadores(a) em defesa de nossos direitos roubados. Exatamente pela possibilidade de fragmentação eleitoral, fortaleçamos as trincheiras do povo unido. Unidade, bandeira da esperança. O povo, unido, jamais será vencido.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Augusto Buonicore e João Amazonas: Em defesa da Guerrilha do Araguaia - Portal Vermelho

13 de abril de 2014 - 8h13

Augusto Buonicore: Em defesa da Guerrilha do Araguaia


Até muito recentemente a grande tarefa que cabia às forças progressistas, especialmente aos comunistas, era salvar a Guerrilha do Araguaia do esquecimento a que lhe pretendiam impor a ditadura militar e os setores mais conservadores da sociedade. Nestes últimos anos, no entanto, a Guerrilha foi tema de vários livros, teses e matérias especiais nos grandes jornais brasileiros.

Por Augusto C. Buonicore*

ReproduçãoCena do filme Araguaya, conspiração e silêncio

O que já está claro para todos é que as Forças Armadas utilizaram métodos bárbaros para sufocá-la – entre os quais, tortura, assassinato de militantes aprisionados, amputação de mãos, degola de cadáveres, ocultação e incineração dos corpos dos prisioneiros. Nem mesmo os militares envolvidos naqueles atos monstruosos podem negar que eles tenham ocorrido. Agora, tratam de justificar tal barbárie.

O mote para o revisionismo histórico foi dado pelo ex-ministro da ditadura militar, coronel Jarbas Passarinho. Segundo ele, a luta entre a Guerrilha e as forças da repressão foi uma “guerra suja” para os dois lados, sendo que os guerrilheiros tiveram maior responsabilidade por tê-la desencadeado ao adotarem o método da resistência armada ao regime. Estava dada a senha para a reconstrução da história do ponto de vista dos torturadores e assassinos.

Essas versões amarrotadas criadas pelo regime militar tiveram pouca repercussão na sociedade brasileira pós-ditadura. Poucos políticos ou intelectuais ousaram defendê-las. Por isso, ele precisou construir formulações mais refinadas. Estas não podiam partir de pessoas diretamente envolvidas com a repressão política, como Brilhante Ustra e major Curió. Precisavam vir de um espaço mais nobre, da imprensa ou da academia.

O livro do jornalista e historiador Hugo Studart, A Lei da Selva, se encaixa perfeitamente dentro dos objetivos dessa operação ideológica tentada pelos militares. A obra não pretende defender abertamente a repressão, mas mostrar que os guerrilheiros não eram tão diferentes dos seus algozes. Conseguido esse intento, estaria amenizada a culpa daqueles que os torturaram e assassinaram.

Studart, logo no início, afirma que seu objetivo “não era analisar o episódio (Guerrilha do Araguaia) sob o ponto de vista dos guerrilheiros, tampouco dos moradores da região”, e sim “relatar o significado do conflito sob a ótica de um dos lados envolvidos, os militares brasileiros”. O seu objeto de estudo seria o imaginário que os militares haviam construído sobre o conflito armado. Um tema pertinente e que poderia ser bastante útil para nos fazer entender melhor os acontecimentos ocorridos no sul do Pará entre 1972 e 1974.

O problema é que o imaginário militar deixa de ser apenas o objeto de estudo para se transformar na ideologia que norteia as próprias interpretações do autor. Isso se expressa nas escolhas feitas e na linguagem utilizada. No artigo publicado no primeiro número da revista Br História isto fica ainda mais claro e mais grave. Ali desaparece o imaginário militar e o que surge, sem retoques, é a ideologia conservadora do autor. Sigamos as trilhas tortuosas abertas por Studart.

Para ele, tanto as Forças Armadas quanto os guerrilheiros tinham coisas a esconder: “o Exército não explicou como venceu, nem a guerrilha revelou como perdeu”. Na revista é ainda mais claro: “Mais de três décadas depois, tanto o Exército quanto o PCdoB continuam em silêncio, se recusando a abrir seus próprios arquivos. Por quê? Há muitos esqueletos a desenterrar – de ambos os lados”. Do lado dos guerrilheiros e do PCdoB “o principal cadáver é a prática dos ‘justiçamentos’, eufemismo usado para justificar a execução sumária dos ‘inimigos da revolução’”. Eis aí, na sua pureza, a tese revisionista da “guerra suja” dos dois lados.

A afirmação de que a Guerrilha não revelou como perdeu é injusta diante do fato de que os guerrilheiros foram dizimados e o Diário do seu comandante Maurício Grabois, principal documento sobre a Guerrilha, confiscado pelo Exército. Um dos únicos sobreviventes, o subcomandante Ângelo Arroyo, se esforçou para trazer um relatório da Guerrilha e expor suas opiniões sobre as razões da derrota. Este documento há muitas décadas foi divulgado pelo PCdoB, enquanto os originais do Diário de Grabois continuam desaparecidos.

Justiçamentos de jagunços e delatores

A grande prova de que os guerrilheiros também haviam ingressado na Lei da Selva – ou na “guerra suja” – foram os justiçamentos realizados. Mas o que pretendia ser um dos pontos mais fortes do livro acabou como um dos mais fracos. Os fatos narrados demonstram apenas quão diferentes eram aqueles jovens guerrilheiros dos militares que os perseguiam.

O primeiro caso que Studart nos conta é sobre a morte de um informante do Exército: “Um jovem camponês, de 17 anos, que guiou um grupo de militares ao esconderijo dos guerrilheiros, foi capturado, julgado por um Tribunal Revolucionário e executado a golpes de facões”. Mais à frente afirma: “Teria sido morto a golpes de facão, segundo os militares espalharam na região; ou com um tiro pelas costas, de acordo com seus parentes. Tinha entre 17 e 18 anos”.

Eumano Silva e Taís Moraes, em Operação Araguaia, nos dão outra versão, menos escabrosa. Escreveram eles: “De surpresa, encontraram João Pereira em uma picada e o intimaram a levantar os braços. João não obedeceu. Os comunistas abriram fogo”. Assim, teria sido fuzilado ao resistir a uma ordem de prisão dos guerrilheiros. Nada de execução a golpes de facão ou tiros pelas costas. Qual dessas versões seria a correta? Studart sempre escolherá a mais desfavorável aos guerrilheiros.

Depois de tanta confusão de informação veja como Studart conclui o assunto: “Mas considero importante registrar esse possível episódio, visto que o justiçamento de um adolescente inocente, com métodos bárbaros – verídico ou fantasioso, não importa –, acabou se tornando um fato significativo no imaginário das tropas do Exército”. Bela conclusão para um historiador: se “esse possível episódio” é “verídico ou fantasioso não importa”.

Continuemos com Studart em sua vã tentativa de demonstrar o lado selvagem dos guerrilheiros: “Logo após a segunda campanha, teria havido a execução de mais três camponeses suspeitos de colaborar com o governo e pelo menos um companheiro de guerrilha”. Vamos por partes e comecemos pelos três camponeses “suspeitos”. O próprio Studart, numa nota de rodapé, escreveu: “Nesse caso, todos os três seriam de fato colaboradores, dois deles conhecidos pistoleiros de aluguel, apontados pelos moradores da região como responsáveis por mortes de posseiros a mando de latifundiários”. Num passe de mágica os pobres camponeses justiçados viraram perigosos jagunços, o que de fato eram.

Na verdade, houve casos de “justiçamentos” em número reduzidíssimo. O Relatório de Arroyo chegou a reconhecer que uma das deficiências da Guerrilha foi a “do não-justiçamento de determinados inimigos”. Tudo indica que, ao contrário do que diz o autor, os guerrilheiros estavam mais preparados para morrer do que para matar.

O livro cita vários casos que comprovam a superioridade moral dos guerrilheiros. Um dia estes entraram nas terras de um fazendeiro chamado Nemer Curi – acusado de colaborar com os militares. O objetivo era julgá-lo e justiçá-lo. Saíram da empreitada sem o ferir, apenas dando-lhe uma lição de moral. Num trecho do suposto Diário de Grabois, a que Studart teve acesso, está escrito: “O fazendeiro se defendeu, negando parte das acusações (...). O C do D (refere-se aos destacamentos guerrilheiros) foi magnânimo em relação ao acusado. Advertiu-o para que não incidisse em novos crimes. As contas estavam ajustadas”. Os inimigos presos pela Guerrilha tinham o direito de se defender e podiam até ser absolvidos.

Studart cita outro caso no qual os guerrilheiros saíram para justiçar um jagunço e, também, resolveram poupá-lo depois de ele ter pedido perdão pelos seus crimes. Novamente, o suposto Diário de Grabois justificou o perdão: “Não era dos mais raivosos. Por isso, a solução política dada ao caso talvez tenha sido a melhor”. Quando os guerrilheiros foram justiçar o temido pistoleiro Pedro Mineiro o encontraram com outro jagunço, mas resolveram executar apenas o chefe do grupo e libertar o seu comparsa.

Por fim, cabe-nos lembrar do assalto ao posto policial na Transamazônica, no qual os guerrilheiros vitoriosos se contentaram em colocar os soldados para correr de cuecas. Vejam a diferença entre o tratamento dado pelos guerrilheiros a seus inimigos vencidos e o que era feito pelas Forças Armadas.
Morte por adultério?

Uma das maiores infâmias divulgadas por Studart foi o suposto justiçamento do guerrilheiro Rosalindo Cruz Souza (Mundico). Ele, segundo as “fontes” militares, teria sido executado por ter tentado seduzir a mulher de outro guerrilheiro. Assim o autor descreve a cena da execução: “Dina estourou-lhe o peito por causa de uma transgressão moral, a conjunção carnal com a companheira de um camarada de armas, considerado algo terrivelmente ofensivo ao código revolucionário”. Aqui a imaginação e a má-fé dão as mãos.

Numa carta-resposta a Studart a ex-guerrilheira Luzia Reis Ribeiro escreveu: “nós mulheres éramos livres para escolher com qual companheiro quiséssemos nos relacionar, mesmo as casadas anteriormente (...) o comportamento tido como adultério não existia em nosso meio, podia sair de um relacionamento para outro relacionamento, sem repressão nem a intromissão da Comissão Militar”. Continuou ela: “A própria Dinalva e o Antônio, antes do início da guerra, (...) comunicaram à Comissão Militar que não eram mais marido e mulher e que Dina queria ir para o grupo onde se encontrava ‘Pedro’, Gilberto Olímpio, em outro destacamento”. Então, qual seria a grave transgressão moral em se apaixonar por outra pessoa e largar o marido ou a esposa? Nem uma evidência tão óbvia parece dissuadi-lo da sua “verdade”.

Studart nem ao menos se deu ao trabalho de ler o Regulamento do Tribunal Militar da Guerrilha. Ali não existe pena de morte para adultério. A pena de morte é prevista no caso de violência contra mulher, especialmente estupro. Mesmo assim o fuzilamento é a última e mais grave das punições. Ele também não dá qualquer valor às informações constantes no Relatóriode Arroyo e no suposto Diário de Grabois, que nunca procuraram esconder os casos de justiçamento, mas unanimemente afirmam que Mundico morreu devido a um acidente com sua própria arma. Acidente muito comum nos agrupamentos guerrilheiros. Studart foi induzido a erro pela sua opção ideológica, que o leva sempre a aceitar como mais plausível a versão dos inimigos da Guerrilha.

Por fim, cabe ressaltar que nenhuma das pesquisas realizadas entre o povo da região constatou a existência dessa execução. A notícia de uma execução, presenciada por meia dúzia de camponeses, como afirmaram os militares, se espalharia como fogo em mato seco e teria sido usada pela repressão como contrapropaganda. Por que isso não ocorreu na época? A resposta mais óbvia é de que essa foi uma versão construída posteriormente para mostrar o quão perigosos eram Dina, Osvaldão e André Grabois, que supostamente teriam participado da execução de Mundico. Assim, a morte desses guerrilheiros estaria plenamente justificada.

O mito da direção desertora

Outro mito que os militares pretendem difundir é o de que a direção do PCdoB teria abandonado os guerrilheiros e desertado da luta. Veremos que Studart passa a assumir esta versão sem a mínima sustentação factual e a partir de informações mentirosas, que ele mesmo poderia desmascarar se assim o quisesse.

Os alvos preferidos dos militares – e de Studart – são João Amazonas, Elza Monnerat e Ângelo Arroyo. Os militares, afirma o livro, “demonstram profundo desprezo pelos que fugiram dos combates, especialmente pelos dois dirigentes máximos do partido que deixaram a área ainda no início de 1972, no primeiro sinal da chegada das Forças Armadas – João Amazonas e Elza Monnerat”. Acredito que Studart, em sua santa ingenuidade, nunca se questionou sobre as razões desta unanimidade militar contra os três dirigentes comunistas.

Um historiador sério teria colocado no corpo do texto – e um menos sério em uma pequena nota de rodapé – que os dois dirigentes saíram do Araguaia em março de 1972. Foram participar da reunião do Comitê Central onde foi aprovado o documento 50 anos de Luta. João Amazonas fez o informe principal naquele evento. Quando começou a luta armada eles ainda estavam em São Paulo. Será que Studart não pode concluir por sua própria cabeça que algumas peças não se encaixavam na versão do pessoal da repressão?

Quando Elza e Amazonas estavam no caminho de volta para o Araguaia, a Guerrilha já havia sido descoberta e a área já estava cercada pelo Exército. Foi Elza a primeira a notar a movimentação das tropas; e voltou para avisar Amazonas, salvando-o de uma prisão certa. Somente uma organização irresponsável permitiria que seu principal dirigente fosse preso ou morto logo no início da batalha. Este fato é descrito nas bem documentadas biografias de Elza Monnerat e Maurício Grabois, escritas respectivamente por Verônica Bercht e Osvaldo Bertolino, e abordado em inúmeros artigos.

O melhor advogado de Amazonas é o próprio comandante guerrilheiro. Ao não ter notícia da Guerrilha através das rádios, Grabois chega a temer pela vida do velho amigo. No dia 7 de maio escreve em seu Diário: “Isso nos faz pensar sobre a sorte de Cid (Amazona). Aconteceu alguma coisa com ele? Não acreditamos que tenha sido preso. É suficientemente vivo e esperto para deixar que o apanhem (...). É indispensável romper a barreira da censura ditatorial”. Quando, dias depois, a Rádio Tirana furava o cerco e começava a dar as primeiras notícias do que ocorria no Araguaia, ele escreveu satisfeito: “Isso nos faz crer que Cid conseguiu se safar, colheu informações e pôde transmiti-las aos amigos da Albânia. Para nós o Cid em liberdade é um alívio”. Esse parece o tratamento que um comandante daria a um desertor? O que vemos aqui, na verdade, são sinais de uma amizade e de respeito profundos entre dois grandes revolucionários.

Mas uma das mais sórdidas injustiças cometidas pelo livro foi o tratamento dado a Ângelo Arroyo, apresentado como desertor. Aqui também Studart assume, sem contestação, o ponto de vista dos órgãos de repressão. Ele chega a aventar que Arroyo teria desertado duas semanas antes da queda da Comissão Militar e da morte de Maurício Grabois, ocorrida no natal de 1973. Ao mesmo tempo, cita as últimas anotações do comandante guerrilheiro, feitas poucas horas antes de morrer, que diziam: “Penso em sair da região, pois, se não o fizer, posso criar, com minha doença, uma situação difícil para os comandantes. Discutirei o assunto na próxima reunião da Comissão Militar, que se realizará logo que Joaquim chegue”. Ali não se vê nenhum sinal de dúvida do comandante da Guerrilha sobre o comportamento de Arroyo ou de sua fuga ocorrida duas semanas antes.

O próprio Relatório Arroyo fala do conflito ocorrido no dia 25 de dezembro, combate que dizimou a Comissão Militar da Guerrilha. Como ele poderia saber daquele acontecimento se tivesse fugido duas semanas antes? Prova mais do que suficiente para anular a calúnia dos militares. Mas, quem quereria esclarecer os fatos? Studart, com certeza, não. Por isso, continua se referindo a Arroyo como um desertor. Para os comunistas e demais correntes democráticas e populares, Arroyo é um herói do povo brasileiro. O ódio dos militares contra Arroyo, Amazonas e Elza se deve ao fato de terem sobrevivido ao Araguaia. Eles teriam gostado de que todos tivessem ali morrido. Afinal, como gostava de dizer a direita militar, “comunista bom é comunista morto”.

É comum os militares – e Studart – afirmarem que a cúpula do Partido estava instalada “em segurança” nas cidades enquanto os guerrilheiros se arriscavam nas matas. Será que esses parvos não sabem que não havia nenhuma segurança para os dirigentes comunistas nas cidades e que este foi o motivo pelo qual muitos deles tenham se deslocado para áreas do interior? Será que eles não sabem da prisão, tortura e do assassinato de Lincoln Cordeiro Oest, Carlos Danielli, Luiz Guilhardini, Lincoln Bicalho Roque, Armando Frutuoso e Ruy Frazão, todos dirigentes do PCdoB? Será que estavam em segurança Pedro Pomar, Ângelo Arroyo e João Batista Drummond quando, em dezembro de 1976, foram surpreendidos e massacrados pelos órgãos de repressão?

Para sustentar esta versão sobre a deserção dos dirigentes comunistas é preciso violentar a história. Partindo da direita militar isso é natural. Para aqueles que chegaram a violentar prisioneiras indefesas que mal teria violentar alguns fatos históricos? Mas para um historiador e jornalista as coisas deveriam ser diferentes.

Afirma uma lenda grega que Procusto convidava suas visitas para deitar num leito. Quando elas não se encaixavam exatamente ao tamanho da cama, o anfitrião dava um jeito: esquartejava-as para que ali coubessem. Esta é a mesma lógica adotada por Studart: mutilar a realidade para que ela possa caber em seu esquema limitado.

Os pequenos erros de um livro errado

O livro comete uma série de pequenos erros de informação, que isoladamente não trariam grandes problemas. Mas, quando vistos de conjunto, revelam a ideologia do autor e comprometem a obra como um todo. Vejamos alguns desses pequenos grandes erros.

Segundo Studart, em 1975 “em segurança na Europa, os dirigentes do partido conseguiram veicular na Rádio Tirana e publicar no jornal Le Monde reportagens que sustentavam que a guerrilha teria o controle sobre uma área libertada do tamanho da Bélgica”.

Uma informação capciosa, pois é de conhecimento público que o núcleo dirigente do Partido permaneceu no Brasil até a época da Chacina da Lapa, em dezembro de 1976. Apenas Diógenes Arruda, que havia sido barbaramente torturado no final da década de 1960, recebeu incumbência de ficar no exterior. Havia outro dirigente no exterior, Dynéas Aguiar, mas ficava na América do Sul. Se os dirigentes estivessem em segurança no exterior não teriam sido massacrados em dezembro de 1976. O autor revela um espantoso desconhecimento sobre um dos elementos que deveria ser central de sua pesquisa: o PCdoB. Ele chega ao absurdo de afirmar que o Partido foi criado em 1960, enquanto toda a bibliografia existente afirma que o PCdoB foi reorganizado em fevereiro de 1962.
Studart se refere a Pedro Pomar como “guerrilheiro” – que além de ter sido um dos “idealizadores da guerrilha” teria estado na área antes do início dos combates para montar “uma base de apoio”. Continua ele: “Depois da derrota, o partido difundiu boletins internos garantindo uma estrondosa vitória no Araguaia e começou a divulgar no exterior que teria o controle sobre o território. Pomar então redigiu sua própria análise (...) relatando o que sabia sobre a derrota e tecendo autocrítica sobre a aventura”.

Parece que o autor não se deu ao trabalho de ler nenhuma das biografias de Pomar e nem mesmo o relatório que ele elaborou. Se o tivesse feito saberia que Pomar não foi guerrilheiro nem mesmo esteve no Araguaia. A “base de apoio” que ele montou se encontrava no Vale do Ribeira. Pomar nunca se referiu à Guerrilha do Araguaia como aventura. Tinha por ela grande respeito, apesar dos erros que acreditava terem sido cometidos. A grande polêmica ocorrida no Comitê Central desde 1974 se deu em torno da questão de que a Guerrilha teria sofrido uma derrota temporária ou definitiva e se ela teria tido ou não influências foquistas. Ninguém falou de “estrondosa vitória” da Guerrilha, especialmente depois de ter as notícias das derrotas sofridas.

Studart afirma que Maurício Grabois “foi um dos primeiros guerrilheiros a chegar à região em 1966”. Se tivesse lido a excelente biografia escrita por Osvaldo Bertolino saberia que ele lá chegou em dezembro de 1967. O primeiro a chegar na região foi Osvaldão.

Outro erro se refere ao próprio Osvaldão. O livro diz que ele tinha a patente de coronel concedida pelo Exército da Tchecoslováquia. Na revista ele foi ainda mais longe e afirmou que Osvaldão teria feito um curso de “partisan” no Exército da Tchecoslováquia. Na verdade, ele fez um curso de engenharia, que não chegou a concluir. Naquele mesmo país ele aderiu ao PCdoB e voltou ao Brasil para ajudar na organização do seu novo Partido. O curso político-militar ele fez na China em 1964. Studart confundiu o ano, a patente, o país e o continente.

Falando sobre Francisco Manoel Chaves, Studart diz que nem a direção do Partido sabia o seu nome verdadeiro e que ele somente foi descoberto em 1991, quando foram abertos os arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) no Paraná. Se Studart tivesse se dado ao trabalho de ler o artigo “Francisco Chaves – denotado lutador de Vanguarda”, publicado n’A Classe Operária de maio de 1974, teria descoberto que o PCdoB sabia o nome verdadeiro e parte da biografia daquele guerrilheiro. Esse artigo foi republicado na coletânea 50 anos de luta, publicada em 1975 pela editora Maria da Fonte.

Francisco Chaves, que é citado por Graciliano Ramos em Memórias do Cárcere, havia sido eleito membro suplente do Comitê Central na Conferência da Mantiqueira, ocorrida em 1943. Ou seja, ele era um velho conhecido de Maurício Grabois, João Amazonas, Pedro Pomar e Diógenes de Arruda Câmara.

Falarei apenas de mais um erro, para não cansar demasiadamente o leitor. Ele se refere à afirmação de que um dos fatos mais importantes ocorridos após 1996 “foi a direção do PCdoB ter decidido, finalmente, divulgar o discurso oficial do partido sobre os acontecimentos, publicando o livro-revista Guerrilha do Araguaia – Documentos do PCdoB”.

O problema é que a revista foi lançada em 1982 – quatorze anos antes do que afirma o autor. Sua primeira edição causou um alvoroço na esquerda brasileira e foi apreendida por ordem do ministro da Justiça de então. Na Bahia, dezenas de pessoas foram presas durante o seu lançamento. O acontecimento teve grande repercussão na imprensa nacional e internacional. No ano seguinte, o VI Congresso do PCdoB aprovou o documento Acerca da Violência Revolucionária, fazendo um balanço autocrítico do movimento armado no Araguaia. O texto foi publicado e teve grande circulação. Estranhamente Studart não cita este importante documento: o principal documento partidário tratando da Guerrilha do Araguaia. Pode-se discordar da avaliação do Partido, mas não afirmar que ela não existiu.

Como se vê, são muitos os erros de informação para um trabalho acadêmico. Uma banca mais exigente o teria reprovado e feito reescrever seu trabalho.

*Augusto Buonicore é historiador, secretário-geral da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, história e revolução brasileira: encontros e desencontros e Meu verbo é lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas, ambos pela Editora Anita Garibaldi.
**Artigo republicado (Maio de 2007)


Aula de João Amazonas sobre Guerrilha do Araguaia durante exílio

Imagem resgatada na Albânia, com outros documentos e mídias, por Bernardo Joffily e Olivia RangelImagem resgatada na Albânia, com outros documentos e mídias, por Bernardo Joffily e Olivia Rangel

 O curso foi realizado e Tirana e durou 15 dias para algumas pessoas exiladas na Europa. Entre eles Loreta Valadares, Carlos Valadares, Bernardo Joffili, Olivia Rangel, José Luís Guedes, Nair Guedes, Maria Ester Drummond (Teinha), José Carlos Arruti Rey (Zé Carioca). Entre os professores estavam Amazonas, Arruda e Foto Çami, que era professor da Universidade de Tirana e ministrou as aulas de filosofia. Arruda deu aula de Fundamentos Leninistas de Partido e História do PCdoB. Amazonas tratou da formação histórica do Brasil, realidade brasileira, revolução brasileira, a tática e a estratégia do PCdoB e da Guerrilha do Araguaia. Suas aulas duraram cinco dias.

A fita com a gravação do curso faz parte do rico acervo do Centro de Documentação e Memória da Fundação Maurício Grabois (CDM-Grabois).



Fonte: Portal Maurício Grabois

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Aos que vão nascer - Bertolt Brecht


 1
É verdade, eu vivo em tempos sombrios.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.
Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranqüilo
Não está mais ao alcance de seus amigos
Necessitados?

Sim, ainda ganho meu sustento
Mas acreditem: é puro acaso. Nada do que faço
Me dá direito a comer a fartar.
Por acaso fui poupado. (Se minha sorte acaba, estou perdido.)
 
As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque tem!
Mas como posso comer e beber, se
Tiro o que como ao que tem fome
E meu copo d’água falta ao que tem sede?
E no entanto eu como e bebo.
 
Eu bem gostaria de ser sábio.
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
É verdade, eu vivo em tempos negros.
2
À cidade cheguei em tempo de desordem
Quando reinava a fome.
Entre os homens cheguei em tempo de tumulto
E me revoltei junto com eles.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

A comida comi entre as batalhas
Deitei-me para dormir entre os assassinos
Do amor cuidei displicente
E impaciente contemplei a natureza.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.
As ruas de meu tempo conduziam ao pântano.
A linguagem denunciou-me ao carrasco.
Eu pouco podia fazer. Mas os que estavam por cima
Estariam melhor sem mim, disso tive esperança.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

As forças eram mínimas. A meta
Estava bem distante,
Era bem visível, embora para mim
Quase inatingível.
Assim passou o tempo
Que nesta terra me foi dado.
3
Vocês, que emergirão do dilúvio
Em que afundamos
Pensem
Quando falarem de nossas fraquezas
Também nos tempos negros
De que escaparam.
Andávamos então, trocando de países como de sandálias
Através das lutas de classes, desesperados
Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.
Entretanto sabemos:
Também o ódio à baixeza
Deforma as feições.
Também a ira pela injustiça
Torna a voz rouca. Ah, e nós
Que queríamos preparar o chão para o amor
Não pudemos nós mesmos ser amigos.

Mas vocês, quando chegar o momento
Do homem ser parceiro do homem
Pensem em nós
Com simpatia.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Assad no Teatro de Ópera de Damasco - Franklin Lamb, Countercurrents.org - Coletivo Vila Vudu

8/1/2013,
http://www.countercurrents.org/lamb080113.htm

Damasco
– Distante apenas alguns quarteirões do hotel em me hospedei, perto do centro de Damasco, o Teatro de Ópera de Damasco, onde o presidente Bashar al-Assad discursou ontem, foi inaugurado em maio de 2004, pelo presidente e sua esposa, depois de completada a construção projetada e iniciada pelo pai de Bashar, Hafez, que planejou detalhadamente a construção, interrompida no final dos anos 1970s. Situado na Praça Umayyad, o Teatro de Ópera é um centro cultural; há alguns meses, encenou-se ali As bodas de Fígaro, de Mozart.

Com cerca de 1.400 lugares, o Teatro estava absolutamente lotado para o discurso de ontem e, como na cena final da ópera de Mozart, depois do discurso de Bashar também se seguiu “uma noite de celebração” para os muitos apoiadores que o presidente tem em Damasco. A glória de Bashar al-Assad, ao tentar deixar o palco na noite passada, cercado por uma legião de apoiadores, pode não ser semelhante à de Cesar nas guerras da Gália, quando descreveu a crise doméstica e sua luta contra a oposição, como luta de defesa para salvar “Roma”. E dificilmente o presidente da Síria será visto por seus críticos, como um John Kennedy no Teatro de Ópera de Viena.

Mas havia conexão profunda entre o homem e seu (vasto) público, durante o discurso caudaloso. Foi um magnífico discurso político, em forma e conteúdo e, sobretudo, pelo calor com que o presidente defendeu o que, para ele, é a causa da salvação da Síria e a causa dos sírios. Sem descartar nenhuma ajuda solidária sobre como pôr fim a atual crise, o presidente insistiu na ideia de que a Síria tem longa história de resistência à ocupação; que várias vezes rejeitou a ideia de receber ordens de governos aos quais, na atual crise, Bashar referiu-se como “chefes dos fantoches” que hoje causam morte, destruição e privações na República Árabe Síria.

Admito que eu estava sem dormir há dois dias. Mas o discurso de Bashar Assad fez-me pensar em falas shakespeareanas de Macbeth ou Brutus. Veio-me à cabeça o argumento de Brutus, em Julio Cesar, de Shakespeare, ato 3, cena 2:
Haverá aqui, neste momento, alguém tão vil que deseje ser escravo? Se houver, que fale, porque o ofendi. Haverá alguém tão grosseiro que não queira ser romano? Se houver, que fale, porque o ofendi. Haverá alguém tão desprezível, que não ame sua pátria? Se houver, que fale, porque o ofendi. Calo-me. Que falem.[1]

Depois do discurso do presidente, uma jornalista local, não raras vezes crítica do regime, comentou – em resposta ao que lhe perguntei, sobre a aparentemente persistente popularidade de Assad, durante época tão extraordinariamente difícil para os sírios: “É verdade. Assad continua popular, em parte porque é homem modesto, quase tímido – e excepcionalmente culto e bem educado, em comparação com alguns monarcas da região, que são, de fato, analfabetos, e absolutamente não se interessam pelo que aconteça fora dos seus palácios-fortalezas.” E continuou: “Antes da crise, não será raro encontrar o presidente, sem qualquer escolta, dirigindo ele mesmo o carro, o banco traseiro cheio de crianças, fazendo compras ou saindo para jantar com a família, ou, vez ou outra, à espera dos filhos na saída da escola. Viu-se, mesmo ontem, na entrada, que ele sorriu para vários conhecidos entre o público. Na saída, não parecia preocupado com sua segurança, nem deu sinais de pressa. Até cumprimentou várias pessoas. Todos sabem que Bashar al-Assad sente-se bem como cidadão comum, entre conhecidos. Não é, nem de longe, o tipo sinistro que seus críticos insistem em apresentar.”

No mesmo dia, já no fim da tarde, estava de volta ao hotel, lendo jornais e assistindo ao noticiário pela televisão, que mostrava cenas do discurso, quando uma camareira entrou para fazer alguma coisa. A moça entrou e imediatamente sorriu ao ver a imagem de Bashar. Repentinamente, deu dois passos até a televisão e abraçou a tela, rindo; aplicou vários beijos na imagem! Tive medo que fosse eletrocutada. Mas ela ria.

À noite, em conversa com um xeique que tem muitos contatos políticos em Damasco, ouvi dele que Assad falou exclusivamente ao povo sírio e aos estrangeiros solidários e aos ‘neutros’. “Assad não falou, absolutamente não, aos inimigos de seu governo.” Sugeriu também que Assad fará mais dois discursos em breve, o próximo, provavelmente, no formato de “conversa ao pé da lareira”, à moda Roosevelt.

O xeique sunita referiu-se à fala de Assad ontem, como o primeiro de três discursos “da vitória” que, pelo que sabe, acontecerão. Falou também sobre os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita em relação ao que está acontecendo na Síria; lembrou que são governos que também têm seus próprios problemas.

No caso do Reino Saudita, e no contexto das consultas cada vez mais frequentes entre iranianos e sauditas sobre a Síria e o grave estado de saúde do rei Abdullah, há a considerar a previsível luta pela sucessão, que já se intensificou recentemente, porque há vários potentados dentro da família real saudita que se opõem furiosamente à atual campanha para minar o regime de Assad. O governo sírio, digam o que digam os detratores, é visto por muitos, nos países do Golfo, como governo de respeitável pedigree árabe e nacionalista, com longa história de respeito mútuo com vários países da região.

Meu informante, xeique e sunita, também já vê sinais de que o governo Obama começa a desinteressar-se de sua guerra clandestina contra a Síria, em parte como resultado das fissuras que já se observam nas vozes, antes muito coesas, de vários porta-vozes da muito erradamente chamada “coalizão”. O presidente Assad, em fala que muitos analistas do Oriente Médio bem farão se virem um “discurso histórico”, ofereceu um novo plano aos sírios, situação e oposição e, também à comunidade internacional que, sim, pode e deve pôr fim imediatamente à crise.

Em ordem sequencial, como cronograma, o plano inclui:

* países estrangeiros param, imediatamente, de financiar, armar e insuflar as gangues terroristas, que deporão armas;
* o governo sírio retira de campo o exército e declara uma anistia;
* inicia-se um conferência-diálogo nacional;
* dessa conferência-diálogo, produz-se um projeto de Constituição, a ser submetida a referendo popular; e
* constitui-se um governo de coalizão que, presumivelmente, governará até as eleições marcadas para 2014.

Técnico que trabalha na Comissão de Relações Exteriores do Congresso dos EUA escreveu por e-mail, ontem à noite, que não se surpreenderá se o governo Obama mostrar sinais de interesse pela “fórmula que Bashar apresentou no Teatro de Ópera de Damasco”, dada a realidade geopolítica na região, que está mudando muito rapidamente, e dado o impasse militar que se vê em campo, na Síria. São duas evidências que já sugerem fortemente que não restarão muitas alternativas ao novo governo Obama, porque não há qualquer possibilidade realista de o regime Bashar ‘render-se’, jogar a toalha, entrar ‘em colapso’ ou ser vencido, no curto prazo.

Meu correspondente, que trabalha no setor de questões EUA-Oriente Médio, crê também que o novo secretário de Estado John Kerrey e o provável novo secretário de Defesa Chuck Hagel – que enfrentarão dura batalha para serem aprovados no Senado, mas que, sim, provavelmente serão aprovados, operam também nessa nova linha em que o governo Obama começa a investir.

Fato é que, diferente do presidente Assad, que apresentou um plano, um dos líderes da chamada ‘oposição’, George Sabra, nada encontrou para propor, que encaminhasse qualquer solução para a atual crise. Sabra só soube dizer que “Absolutamente não se considera qualquer possibilidade de diálogo com esse regime, de forma alguma. Não é uma possibilidade. Está fora de questão.”

É possível que a chamada “comunidade internacional” já esteja começando a considerar outra saída, melhor que essa, para a questão síria.
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[1] [1] SHAKESPEARE, Julio Cesar, ato 3, cena 2. Fala Brutus, depois de ter assassinado Julio Cesar. Antes, na mesma fala, Brutus disse: “Se houver alguém nesta reunião, algum amigo afetuoso de César, dir-lhe-ei que o amor que eu [Brutus] dedicava a César não era menor do que o dele. E se esse amigo, então, perguntar por que motivo levantei-me contra César, eis minhas resposta: não foi por amar menos a César, mas por amar mais a Roma. Que teríeis preferido: que César continuasse com vida e vós todos morrêsseis como escravos, ou que ele morresse, para que todos vivêsseis como homens livres? Por haver amado César, pranteio-o; por ter sido ele feliz, alegro-me; por ter sido valente, honro-o; mas por ter sido ambicioso, matei-o. Logo: lágrimas para a sua amizade, alegria para sua fortuna, honra para o seu valor e morte para a sua ambição” (em português, em http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/william-shakespeare/julio-cesar-3.php) [NTs].

Vídeo - Discurso completo do Presidente Sírio Bashar al-Assad (tradução para o inglês)



Governo convida todas as forças da oposição para diálogo- Portal Vermelho


O ministro da Informação, Omrane al-Zohbi, convidou nesta terça-feira "todas as forças da oposição" da Síria a participar do diálogo nacional proposto pelo presidente Bashar al-Assad para tentar acabar com a crise que já dura 18 meses.
Depois de Assad ter avisado que não negociaria com "gangues que recebem ordens do exterior", a agência árabe-síria de notícias, Sana, indica que este é um convite "a um diálogo com base no respeito à soberania nacional e na rejeição a toda forma de intervenção externa" e está dirigido "a todas as forças de oposição" que aceitam esses princípios.

Isso exclui de fato a Coalizão opositora, principal concentração de forças hostis ao presidente Assad, que é favorável a uma intervenção externa para derrubar o regime. Durante esse diálogo, "as discussões serão longas, exaustivas e difíceis porque há diferentes opiniões, propostas e perspectivas", previu Zohbi.

Ele acrescentou que os participantes "analisarão todos os aspectos" da crise síria, principalmente "a violência, o terrorismo e a presença de elementos e de organizações terroristas, assim como as questões econômicas, das liberdades e dos direitos humanos, assim como a situação dos presos".

O presidente Assad propôs domingo (6) um plano para pôr fim a 21 meses de conflito prevendo o fim das operações militares, seguido de um diálogo nacional patrocinado pelo "atual governo", para o qual ele afirmou não ter encontrado um "parceiro" até o momento.
Apesar da rejeição a esse plano por parte da oposição fora do país e da oposição tolerada em Damasco, o governo começou a estabelecer os mecanismos de aplicação deste mapa do caminho apresentado no domingo por Assad. "O governo se reúne a pedido do presidente para elaborar os mecanismos e implementar as ideias e o programa nacional do discurso do presidente Bashar al-Assad", indicou Zohbi.

Com Efe

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Síria detém outra infiltração armada a partir da Turquia - Portal Vermelho

Síria detém outra infiltração armada a partir da Turquia - Portal Vermelho

O governo da Síria revelou nesta terça-feira (13) que frustrou uma nova tentativa de infiltração por um grupo armado da Turquia através de Ain Baida, na região de Badama, província de Idleb.

O comando da Guarda Fronteiriça informou que seus soldados interceptaram uma quadrilha de 15 indivíduos carregados de armamentos e no confronto mataram dois e feriram os demais.

A operação realizou-se com sucesso depois que patrulhas fronteiriças monitoravam os movimentos de infiltração do grupo armado, antes de enfrenta-los, afirmaram as autoridades, agregando que suas unidades não sofreram baixas de nenhum tipo.

"Nossa Guarda Fronteiriça está preparada para enfrentar a qualquer um que pense que pode atingir a segurança do povo sírio", expressa o comunicado difundido nesta terça-feira.

Em 6 de dezembro, lembra a agência de notícias Sana, unidades fronteiriças também impediram que um grupo de 35 indivíduos armados ingressassem pelo mesmo ponto da fronteira entre Síria e Turquia, ferindo alguns deles.

Vários meios de comunicação, como o jornal tcheco Pravo, relataram que grupos de extremistas sírios, vinculados com o jihad salafista e a Irmandade Muçulmana, bem como mercenários de vários países da região, entre eles alguns comandos líbios, são treinados em acampamentos na Turquia e no Líbano, para em seguida serem infiltrados na Síria.

As autoridades militares libaneses capturaram e encarceraram indivíduos envolvidos no tráfico de armas e munições para o território sírio.

Forças sírias lutam fortemente contra quadrilhas armadas que operam principalmente na província de Homs, e que também lançam ataques e sequestros em localidades rurais de Hama, Daraa e Idleb.

A Agência Sana informa que o brigadeiro general Ghanim Ibrahim Hasan, instrutor na Academia de Engenharia Militar de Assad, foi morto a tiros por indivíduos armados próximo do povoado de Saraqeb, em Idleb, quando se dirigia de Aleppo para Damasco, onde trabalhava.

As autoridades também informaram que recuperaram quatro caixas de bilhetes roubados por outra quadrilha em Talkalakh, enquanto uma bomba causou danos a um posto de combustível próximo a Rastan, em Homs. O fogo resultante pela explosão foi extinto.

Esse posto fornecia combustível à estação geradora de energia de Maharda.

As forças sírias localizaram e enfrentaram no domingo pela noite na mesma província um grupo terrorista que assassinou no sábado o engenheiro Maher Ghadir, quando se dirigia a seu trabalho na usina de gás de Abu Rabah.

Na segunda-feira, um grupo armado tentou tumultuar as eleições dos governos locais em Sham Golan, na província de Daraa, e disparou contra as forças de segurança, matando três agentes de acordo com a Agência de Notícias Síria.

Com informações da Prensa Latina

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Al-Zaidi foi torturado no Iraque




www.vermelho.org.br
22 DE DEZEMBRO DE 2008 - 16h00

Atirador de sapatos: 'sem desculpas' a ninguém

Muntazer al-Zaidi, o jornalista iraquiano que atirou seus sapatos contra George W. Bush, presidente dos Estados Unidos, disse que não pedirá desculpas pelo ato, ao mesmo tempo que seu advogado afirmou que o jornalista foi torturado na prisão.






Dhiya'a al-Sa'adi, advogado de al-Zaidi disse à al-Jazira, a rede catariana de televisão, nesta segunda-feira, que ''Muntazer al-Zaidi considera que o que fez ao atirar seus sapatos contra Bush foi exercitar seu direito à liberdade de expressão, em oposição e rejeição à ocupação, que trouxe o caos ao Iraque''.


Al-Sa'adi disse que al-Zaidi não estava pensando em pedir desculpas ao presidente dos Estados Unidos, ''nem hoje, nem no futuro''.


Um porta-voz do premiê do Iraque, Nuri al-Maliki, afirmou na última quinta-feira (18), em uma coletiva de imprensa em Bagdá, que al-Zaidi teria reconhecido que atirar seus sapatos teria sido um ''ato hediondo''.


Entretanto, Dhargham al-Zaidi, o irmão do jornalista questionou a veracidade da afirmação. Ele disse que seu irmão foi surrado com uma barra de ferro logo depois que foi retirado da coletiva com o premiê e o presidente americano.


''Ele não volta atrás em relação ao que fez'', disse o advogado à al-Jazira.


''As suas ações objetivavam somente o presidente Buhs, para dizer a ele que rejeita a ocupação e tudo o que isso significa para o Iraque''


''Em particular, à luz da forma desumana pela qual os prisioneiros iraquianos foram tratados pelas forças americanas''.


Espancamentos


Permitiram a al-Zaidi ver seu advogado no domingo à tarde, que em seguida confirmou as informações iniciais de que ele teria sido espancado e que sua condição médica era ''muito ruim''.


''Há sinais visíveis de torturem em seu corpo, em resultado do espancamento com instrumentos de metal'', disse al-Sa'adi.


''Relatórios médicos mostraram que o espancamento a que foi foi submetido al-Zaidi levaram-no a perder um dente, assim como ferimentos em sua mandíbula e ouvidos.


''Ele teve sangramento no olho esquerdo, assim como marcas em seu rosto e abdôme. Quase nenhuma parte de seu corpo foi poupada de ser espancada.''


Hajar Smouni, um porta-voz do Doha Centre for Media Freedom no Catar disse que ''a forma como ele foi preso foi muito brital. Algumas pessoas relataram que havia sangue no chão no lugar onde ele foi detido''.


''Embora ele não tenha sido preso por causa de suas opiniões, nós não podemos permancer em silêncio, diante dos maus-tratos a que foi submetido pelas forças iraquianas de segurança. É vital que ele tenha acesso a cuidados médicos e que lhe seja dado um julgamento justo'', disse.

Reclamações

"O fato dele ter sido assistido por um advogado já é um sinal positivo, mas o que preocupa é que ele será julgado pela Corte Central Iraquiana, que é o tribunal que julga os casos dos acusados por terrorismo".


"Esse á um julgamenteo difícil. Ele pode ser sentenciado a 25 anos na prisão, e nós precisamos assegurar que a ele não seja dada uma pena excessiva".


"No passado, houve muitos casos que foram interpretados como
reveladores da submissão e falta de independência do sistema judicial iraquiano".


Al-Zaidi fez uma ação contra os guardas que o espancaram, de acordo com seu advogado, e solicitou que eles sejam julgados também pela Corte Central Iraquiana".


"A corte aceitou a ação e tomou as medidas cabíveis para que os guardas sejam levados à justiça e punidos por infração à lei", disse al-Sa'adi.


O julgamento de al-Zaidi está marcado para 31 de dezembro de 2008, quando será acusado de "insultar um líder estrangeiro".




Com informações da Al Jazira: http://english.aljazeera.net

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