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quarta-feira, 10 de março de 2021

Pepe Escobar - O Enigma Papa-Sistani - Brasil 247

O Enigma Papa-Sistani

Francisco e Sistani fizeram pronunciamentos anti-guerra, anti-genocídio e anti-sectarismo além da compreensão da maior parte da mídia ocidental, escreve o jornalista Pepe Escobar sobre o encontro entre o Papa Francisco e o Grande Aiatolá Sistani

Papa Francisco e Aiatolá Sistani
Papa Francisco e Aiatolá Sistani (Foto: Reuters)
  Por Pepe Escobar, para o Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

Seja qual for a avaliação histórica empregada, foi um divisor de águas: o primeiro encontro, desde o século VII, entre um Papa Católico Romano e um líder espiritual xiita visto como "fonte a ser emulada".

Vai demorar muito até que se consiga avaliar todas as implicações dessa imensamente intrigante conversa de 50 minutos, com a presença apenas dos intérpretes, entre o Papa Francisco e o Grande Aiatolá Sistani, em sua humilde morada em uma ruela de Najaf, próximo ao esplêndido santuário de Imam Ali.

Um paralelo confessadamente imperfeito é que, para a comunidade de fiéis xiitas, Najaf é tão rica em significado quanto Jerusalém o é para a Cristandade.

A versão oficial do Vaticano é que o Papa Francisco foi a uma cuidadosamente coreografada "peregrinação" ao Iraque sob o signo da "fraternidade"- não apenas em termos geopolíticos mas também como um escudo contra o sectarismo religioso, seja dos sunitas contra os xiitas, seja dos muçulmanos contra os cristãos.

Francisco retornou ao tema principal em uma conversa extremamente franca (em italiano) com a mídia, no avião que o trouxe de volta a Roma. O mais extraordinário, entretanto, foi sua avaliação sincera do Aiatolá Sistani.

O Papa ressaltou: "O Aiatolá Sistani disse uma frase, espero lembrá-la de forma correta: 'Os homens ou são irmãos pela religião ou iguais pela criação'. Francisco vê a transposição dessa dualidade também como uma jornada cultural.

Ele descreveu o encontro com Sistani como portador de uma "mensagem universal", louvando o Grande Aiatolá como "um sábio" e "um homem de Deus": Ouvindo-o falar, não se pode deixar de notá-lo. Ele é uma pessoa que traz sabedoria e também prudência. Ele me disse que há mais de dez anos não recebe 'pessoas que vêm me visitar, mas com outros objetivos políticos'".

O Papa acrescentou: "Ele foi muito respeitoso, e senti-me honrado, mesmo nas saudações finais. Ele nunca se põe de pé, mas o fez para saudar-me, por duas vezes. Um homem humilde e sábio. Fez bem à minha alma, esse encontro". 

Um vislumbre dessa cordialidade foi revelado nesta imagem, não publicada pela mídia convencional do Ocidente - que, em grande medida, tentou manipular, sabotar, ignorar, apagar ou sectarizar o encontro, em geral sob camadas mal disfarçadas de propaganda do tipo "ameaça xiita". 

Eles assim agiram porque, essencialmente, Francisco e Sistani estavam enviando uma mensagem anti-guerra, anti-genocídio, anti-sectarismo e anti-ocupação, que não pode deixar de incorrer na ira dos suspeitos de sempre.

Houve algumas tentativas desesperadas de retratar o encontro como o Papa privilegiando a Najaf quietista em detrimento da Qom militante, no universo xiita - ou, em termos mais crus, Sistani de preferência ao Aiatolá Khamenei, do Irã. Isso é pura bobagem. Para um contexto mais aprofundado, ver o contraste entre Najaf e Qom em meu e-book Persian Miniatures, publicado pelo Asia Times.

O Papa, em data recente, escreveu ao Aiatolá Shirazi, do Irã. Teerã mantém um embaixador no Vaticano, e há anos vem colaborando em protocolos de pesquisa científica. Essa peregrinação, entretanto, tratou exclusivamente do Iraque. Ao contrário da mídia Ocidental, a do Eixo de Resistência (Irã, Iraque, Síria, Líbano) trouxe uma cobertura completíssima.

A fatwa crucial

Tive o privilégio de acompanhar os movimentos do Aiatolá Sistani desde inícios dos anos 2000 e, por várias vezes, visitei seu gabinete em Najaf.

Quando, em 2003, o bicho-papão du jour, Abu Musab al-Zarqawi, literalmente explodiu o venerado Aiatolá Muhammad Baqir al-Hakim em frente ao santuário Imam Ali, em Najaf, Sistani apelou para que não houvesse retaliação: a máquina de ocupação americana era forte demais, e Sistani percebeu os perigos do dividir para governar e de uma guerra sectária sunita-xiita.

Mas em 2004 ele, praticamente sozinho, derrotou moralmente o poderoso aparato de ocupação da medonha Autoridade Provisória de Coalizão, que então contemplava um banho de sangue para se livrar do incandescente clérigo Moqtada al-Sadr, então refugiado em Najaf.

Em 2014, Sistani publicou uma fatwa legitimando o uso de civis iraquianos na luta contra o ISIS/Daesh - principalmente porque os takfiris pretendiam atacar os quádruplos santuários xiitas no Iraque: Najaf, Karbala, Kazimiya e Samarra.

Foi portanto Sistani quem legitimou o nascimento de grupos defensivos armados que se uniram às Unidades de Mobilização Popular (UPM), ou Hashd a-Shaabi, mais tarde incorporadas ao Ministério da Defesa Iraquiano.

As UPMs eram - e continuam sendo - um grupo amplo, algumas delas mais próximas a Teerã que outras, trabalhando sob a supervisão estratégica do Major General Qassem Soleimani até seu assassinato causado por um drone americano no aeroporto de Bagdá em 3 de janeiro de 2020.

Nunca prometi um jardim de rosas

Apesar de toda a cordialidade entre eles, o encontro entre o Papa e Sistani talvez não tenha sido o proverbial jardim de rosas. Meu colega, Elijah Magnier, o principal repórter em todas as questões relativas ao Eixo da Resistência, confirmou alguns detalhes surpreendentes com suas fontes em Najaf:

Sayyed Sistani recusou ter seu próprio fotógrafo, e não quis que nenhum clérigo xiita, nem qualquer dos funcionários de seu gabinete, estivessem presentes na Rua Al-Rasoul, onde ele recebeu Sua Santidade o Papa... O Vaticano não emitiu qualquer declaração nem tomou qualquer posição clara de reconhecimento ou apoio aos xiitas que foram mortos quando resistiam ao ISIS e defendiam os cristãos da Mesopotâmia. Sayyed Sistani, portanto, não julgou necessário divulgar um "documento conjunto", como era desejo e intenção do Papa, como ele fez em Abu Dhabi, ao se encontrar com o Sheik de Al-Azhar.

Magnier, com razão, foca-se no comunicado subsequentemente emitido pelo gabinete de Sistani - em especial em sua votação nominal de Não, Não, Não... Cada Não é uma acusação ao Hegêmona.

Sistani denuncia o "cerco às populações" - incluindo as sanções. Ele nega que os iraquianos queiram a permanência das tropas dos Estados Unidos, e quando denuncia a "violência", ele se refere aos bombardeios americanos.

Adicionalmente, "Não à injustiça" é a mensagem de Sistani não apenas aos políticos de Bagdá - atolados em corrupção e omissos no fornecimento de serviços básicos e oportunidades de emprego - mas também à "linguagem bélica" dirigida ao Oriente Médio mais amplo, da Síria e Irã à Palestina.

Fontes em Roma confirmam que houve negociações que se prolongaram por meses, na tentativa de convencer Bagdá a normalizar suas relações com Israel. Uma "mensagem" foi enviada por intermédio do Vaticano. Sistani respondeu asperamente que não havia a menor possibilidade de normalização. O Vaticano permanece mudo.

Uma das razões dessa mudez é que a declaração do gabinete de Sistani deixa claro que o Vaticano não está fazendo o bastante para apoiar o Iraque. Segundo a fonte de Najaf citada por Magnier, entre 2014 e 2017 "O Vaticano manteve silêncio enquanto os xiitas perdiam milhares de homens que defendiam os cristãos (e outros iraquianos), e não receberam do Papa qualquer atenção, e nem ao menos uma declaração explícita de reconhecimento durante todos os anos que decorreram desde então".

A declaração do gabinete de Sistani refere-se explicitamente ao "desterro, às guerras, aos atos de violência, aos bloqueios econômicos, à ausência de justiça social aos quais o povo palestino se encontra exposto nos territórios ocupados".

Tradução: O Iraque apoia a causa palestina.

Uma coroa de espinhos

O encontro do catolicismo e do Islã xiita girou em torno de uma coroa de espinhos geopolíticos. Tomemos, por exemplo, o fato de que porta-vozes ou subalternos de um presidente católico dos Estados Unidos, bem como a mídia convencional americana, demonizam o inimigo da vez como sendo "milícias apoiadas pelo Irã", "milícias com apoio xiita", ou "milícias xiitas afiliadas ao Irã". 

Bobagem. O que vi ao me encontrar com alguns deles no Iraque, em 2017, foi que as brigadas das Unidades de Mobilização Popular são compostas não apenas por xiitas, mas por iraquianos de todas as religiões. Por exemplo, há um Conselho de Estudiosos do Sagrado Ribat de Maomé; o Conselho para a Luta contra o Pensamento Takfiri da Sunnah Fallujah e Anbar, e a Brigada Cristã Caldeia liderada por Rayan al-Kildani, que se encontrou com o Papa Francisco.

Para sermos justos, o Papa Francisco, em sua peregrinação, de fato condenou aqueles que instrumentalizam a religião para arquitetar guerras - em benefício de Israel, do latifúndio petrolífero saudita, do império e de todos os acima citados. Ele orou em uma igreja destruída pelo ISIS-Daesh.

Em um gesto de grande significado, o Papa Francisco entregou um rosário a al-Kildani, o chefe da milícia da Babilônia das Unidades de Mobilização Popular. O Papa considera al-Kildani nada menos que o salvador dos cristãos do Iraque. No entanto, al-Kildani é o único cristão do planeta a constar da lista de terroristas dos Estados Unidos.

Nunca é bastante lembrar que as UMP foram o alvo da excelente aventura bombardeira de Biden-Harris de 25-26 de fevereiro: militantes foram de fato bombardeados em território iraquiano, e não sírio. Anteriormente, o comandante geral de campo das UMPs era Abu al-Muhandis, que conheci em Bagdá em fins de 2017. Ele foi assassinado ao lado de Soleimani.

O Papa Francisco só foi capaz de embarcar em sua peregrinação iraquiana graças ao Hashd al-Shaabi - que foi de importância absolutamente crucial, atuando na linha de frente para salvar o Iraque da partição pelos takfiris e/ou de se tornar um (falso) califado.

Francisco, em sua peregrinação abraâmica, seguiu alguns dos passos do Profeta, especialmente em Ur, na Babilônia. Mas os ecos ressoam muito mais longe, chegando a al-Khalil (Hebron) na Palestina, e até a Síria e a Jordânia modernas.

Uma simples peregrinação não irá alterar os duros fatos no terreno mesopotâmio: 36% de desemprego (quase 50%  entre os jovens); 30% da população vivendo na pobreza; a ameaça iminente de intervenção da OTAN; a incapacidade do hegêmona de soltar o controle porque precisa desse império-de-bases entre o Mediterrâneo e o Oceano Índico; a corrupção política generalizada de uma oligarquia fortemente entrincheirada.

Francisco fez questão de deixar claro que esse foi apenas um "primeiro passo", que implica "riscos". O máximo que se pode esperar, nas atuais circunstâncias, é que o Papa e seu "humilde e sábio" interlocutor continuem afirmando que o dividir para governar e o atiçar as chamas das lutas religiosas, étnicas e comunitárias, só irá beneficiar - quem mais seria? - os suspeitos de sempre.

 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Layla Al-Attar - Artista iraquiana foi assassinada por "insultar" Bush - Frente Brasileira de Solidariedade com a Síria

Layla Al-Attar - Artista iraquiana foi assassinada por "insultar" Bush
Layla Al-Attar (nascida em Bagdá, no Iraque) foi uma artista e pintora iraquiano que se formou na Academia de Belas Artes de Bagdá, em 1965.
Layla, participou de muitas exposições, recebeu diversos prêmios e foi diretora do Museu Nacional de Arte iraquiano.
Layla fez um retrato em mosaico do ex-presidente dos EUA, George HW Bush, na entrada do hotel Al Rasheed, em Bagdá, após a Guerra do Golfo.
Sua casa foi destruída em 1991 por mísseis dos EUA, mas dessa vez ela sobreviveu.
Em 17 de janeiro de 1993, o hotel foi destruido por um míssil norte-americano o que resultou em mortes de civis. E, no dia 27 de junho de 1993, Layla, seu marido e sua empregada foram mortos por um ataque de mísseis dos EUA em Bagdá, que foi ordenado pelo presidente dos EUA, Bill Clinton, em retaliação por uma suposta tentativa de assassinato.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Guerra do Iraque maquiada: contagem seletiva de mortos - Portal Vermelho

Guerra do Iraque maquiada: contagem seletiva de mortos - Portal Vermelho

Alguém deveria informar aos produtores e distribuidores de noticiário, que os cerca de 4.500 soldados norte-americanos mortos na guerra do Iraque não são as únicas vítimas a lamentar. Morreram também centenas de milhares de iraquianos, resultado da tresloucada invasão norte-americana, e muitos mais foram feridos e/ou mutilados para sempre.

Por Ramzy Baroud, no Counterpunch

Não fosse a ação alucinada do ex-presidente George W Bush e seu bando de neoconservadores, é alta a probabilidade de que essas vítimas da guerra do Iraque ainda estivessem vivas hoje. O Iraque foi destruído várias, várias vezes, por uma mistura bizarra de ambição evangélica, mania de fazer-se ver como ‘mocinho’ de filme de caubói e desejo patológico de “garantir a segurança de Israel”.

Matéria curta, exibida pela rede WTKR, afiliada da rede CBS de televisão em Vírgina, citada em matéria do Los Angeles Times Online dia 16 de dezembro, mostrava uma bandeira dos EUA sendo hasteada numa pequena base militar em Bagdá. Na cerimônia, o secretário de Defesa Leon E. Panetta reiterou os sacrifícios dos EUA e tentou apresentar sob a luz de alguma racionalidade uma das guerras mais destrutivas, na memória recente do mundo. Vários outros noticiários também declararam terminada a guerra do Iraque, embora alguns manifestassem dúvidas sobre se os iraquianos – apresentados como historicamente, se não geneticamente, violentos – conseguirão administrar a própria vida, agora que os EUA davam por encerrada sua intervenção “humanitária”.

Numa revisão rápida dos fatos: Estimativa publicada em The Lancet informou que, entre março de 2003 e junho de 2006, 601.027 iraquianos sofreram morte violenta. Levantamento feito por Opinion Research Business, fixou em 1,03 milhão o número de mortos na guerra do Iraque, de março de 2003 a agosto de 2007. WikiLeaks publicou declaração em que se lia que “dentre os quase 400 mil documentos secretos dos EUA sobre a guerra do Iraque que divulgamos, vários documentos comprovam que os EUA sabem que morreram pelo menos 15 mil iraquianos a mais do que antes supunham”. Isso, além das centenas de milhares de iraquianos mortos ao longo da década de sítio que os EUA impuseram ao Iraque, e as centenas de milhares que foram mortos durante a primeira guerra do Iraque, entre 1990-91.

À parte os números, a imprensa-empresa em todo o mundo está hoje dedicada a reescrever os parâmetros da discussão, numa operação de omissão, apagamento e o mais escancarado racismo.

Tome-se, por exemplo, o artigo de Loren Thompson na revista Forbes. Thompson entende que a guerra foi erro – não por causa das mentiras, da imoralidade ou da ilegalidade – mas, exclusivamente, pelos muitos erros cometidos envolvendo recursos, indecisão, falta de objetividade, ou por causa do sectarismo dos iraquianos, ou por causa da inconsistência das decisões militares e outras causas desse tipo. Apesar desses erros “nossas intenções eram boas” – garante Thompson [1].

Para evitar que alguém o tomasse por “esquerdista imbecil antiguerra” – que é como a imprensa-empresa de direita apresenta qualquer um que se oponha por qualquer motivo às guerras dos EUA – Thomson faz um comentário interessante:

“O que os políticos e a maioria dos eleitores nos EUA já sabem hoje é que o Iraque, em primeiro lugar, nem deveria ser país; tentar fazer a democracia funcionar lá sempre foi, mesmo, missão sem futuro”.

Esse tipo de intransigência, de falta de decência democrática (destruir um país soberano e, para justificar a destruição, negar-lhe o direito de algum dia ter existido) – eco perfeito do que Israel diz sobre o que faz na Palestina – é traço sempre presente em todos os veículos da grande imprensa-empresa nos EUA, dessa vez nas representações que oferecem da Guerra do Iraque.

Em artigo no Los Angeles Times de 15 de dezembro, David S. Cloud e David Zucchino reconhecem, embora atrasados, que iraquianos foram mortos. Mas citam o menor número de mortos que encontraram (do website Iraqi Body Count), e recorreram a generalizações tão vagas, que acabam por culpar os iraquianos por todas as violências: “Sem os EUA, caberá aos iraquianos controlar a violência endêmica naquele país”. [2]

Sim, “endêmica” – uma endemia de violência: violência que seria “natural ou característica de povo ou local específicos”, como diz o dicionário. Se os iraquianos são naturalmente violentos, violentos por causa de sua cultura, de sua religião, ou mesmo que fossem geneticamente violentos... por que o número de mortos cresceu tanto, no Iraque, a partir de março de 2003, data da invasão norte-americana? Quem tomou a decisão de ir à guerra, tornando a violência “endêmica” no Iraque? Com certeza, não foram os iraquianos.

Tampouco foram os iraquianos os culpados por ressemear sementes dos conflitos sectários. Estimular a violência sectária também foi estratégia para redefinir o papel dos militares no Iraque: pararam de ter de encontrar armas de destruição em massa (que jamais existiram) e puseram-se a combater o terrorismo e, simultaneamente, jogavam gasolina no fogo da violência sectária.

Em termos militares crus, é possível que a guerra do Iraque esteja acabada, mas no que tenha a ver com o povo do Iraque, a guerra continua. O “experimento”, iniciado há nove anos com bombardeio para gerar “choque e pavor”, reaparecerá nas futuras políticas dos EUA. Toda a região foi convertida em espinha dorsal de um Império norte-americano que enfrenta a decadência.

Em seu influente livro A Doutrina do Choque - a Ascensão do Capitalismo de Desastre, Naomi Klein mostrou como a guerra do Iraque foi concebida como modelo para todo o Oriente Médio. Foi um teste, cujo sucesso influenciaria a geopolítica de toda a região. No capítulo intitulado “Apagar o Iraque: À procura de um modelo para o Oriente Médio”, Klein expõe a tentativa de destruir e em seguida ressuscitar o país, de modo a que passasse a caber melhor na forma que mais interessava aos que provocaram a destruição. A autora conclui assim a Parte 5 do livro: “De fato, no final, a guerra do Iraque criou um modelo econômico: o modelo da guerra e da reconstrução privatizadas – modelo que rapidamente se tornou produto de exportação.”

Em artigo para FoxNews Online, sob o título “Iraque: vitória ou derrota?”, Oliver North não perde tempo com tentar mostrar-se isento, nem com manifestar qualquer simpatia aos iraquianos. “Quem venceu a guerra?” – pergunta ele. “Essa é fácil: os soldados, marinheiros, pilotos, policiais e Marines dos EUA e o povo dos EUA, cujos filhos e filhas serviram no Iraque”. [3]

Foi esse tipo de patriotismo irracionalista, esse fanatismo de torcedor de futebol, que tornou a guerra possível. E continuará a facilitar guerras futuras, que serão apresentadas ao “público interno” e, daí, ao mundo, como mais vitórias falsas.

Quanto aos milhões de norte-americanos (e muitas outras pessoas, nos EUA e em todo o mundo), gente que valentemente, corajosamente, se opôs à guerra, continua a opor-se.

Se os EUA contam com reconquistar um átomo de credibilidade em todo o mundo, que parem de pensar a guerra como mera oportunidade estratégica. A guerra é brutal e desumana. É caríssima, em vários planos de valor e em vários sentidos. E suas consequências terríveis persistem ao longo de várias gerações – como o futuro do Iraque comprovará, sem dúvida e muito infelizmente.

Notas dos tradutores
[1] 15 de dezembro/2011, “Iraq: The Biggest Mistake In American Military History”, Forbes (em inglês).
[2] 15 de dezembro/2011, Los Angeles Times, “Final U.S. troops roll out of Iraq” (em inglês).
[3] 16 de dezembro/2011, Oliver North, “Iraq: Victory or Defeat?” (em inglês).

Fonte: Blog Redecastorphoto. Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Leia também:

O luto de Pionguiangue e a agressividade cínica do imperialismo - Paulo Vinícius Silva

sábado, 31 de julho de 2010

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Al-Zaidi foi torturado no Iraque




www.vermelho.org.br
22 DE DEZEMBRO DE 2008 - 16h00

Atirador de sapatos: 'sem desculpas' a ninguém

Muntazer al-Zaidi, o jornalista iraquiano que atirou seus sapatos contra George W. Bush, presidente dos Estados Unidos, disse que não pedirá desculpas pelo ato, ao mesmo tempo que seu advogado afirmou que o jornalista foi torturado na prisão.






Dhiya'a al-Sa'adi, advogado de al-Zaidi disse à al-Jazira, a rede catariana de televisão, nesta segunda-feira, que ''Muntazer al-Zaidi considera que o que fez ao atirar seus sapatos contra Bush foi exercitar seu direito à liberdade de expressão, em oposição e rejeição à ocupação, que trouxe o caos ao Iraque''.


Al-Sa'adi disse que al-Zaidi não estava pensando em pedir desculpas ao presidente dos Estados Unidos, ''nem hoje, nem no futuro''.


Um porta-voz do premiê do Iraque, Nuri al-Maliki, afirmou na última quinta-feira (18), em uma coletiva de imprensa em Bagdá, que al-Zaidi teria reconhecido que atirar seus sapatos teria sido um ''ato hediondo''.


Entretanto, Dhargham al-Zaidi, o irmão do jornalista questionou a veracidade da afirmação. Ele disse que seu irmão foi surrado com uma barra de ferro logo depois que foi retirado da coletiva com o premiê e o presidente americano.


''Ele não volta atrás em relação ao que fez'', disse o advogado à al-Jazira.


''As suas ações objetivavam somente o presidente Buhs, para dizer a ele que rejeita a ocupação e tudo o que isso significa para o Iraque''


''Em particular, à luz da forma desumana pela qual os prisioneiros iraquianos foram tratados pelas forças americanas''.


Espancamentos


Permitiram a al-Zaidi ver seu advogado no domingo à tarde, que em seguida confirmou as informações iniciais de que ele teria sido espancado e que sua condição médica era ''muito ruim''.


''Há sinais visíveis de torturem em seu corpo, em resultado do espancamento com instrumentos de metal'', disse al-Sa'adi.


''Relatórios médicos mostraram que o espancamento a que foi foi submetido al-Zaidi levaram-no a perder um dente, assim como ferimentos em sua mandíbula e ouvidos.


''Ele teve sangramento no olho esquerdo, assim como marcas em seu rosto e abdôme. Quase nenhuma parte de seu corpo foi poupada de ser espancada.''


Hajar Smouni, um porta-voz do Doha Centre for Media Freedom no Catar disse que ''a forma como ele foi preso foi muito brital. Algumas pessoas relataram que havia sangue no chão no lugar onde ele foi detido''.


''Embora ele não tenha sido preso por causa de suas opiniões, nós não podemos permancer em silêncio, diante dos maus-tratos a que foi submetido pelas forças iraquianas de segurança. É vital que ele tenha acesso a cuidados médicos e que lhe seja dado um julgamento justo'', disse.

Reclamações

"O fato dele ter sido assistido por um advogado já é um sinal positivo, mas o que preocupa é que ele será julgado pela Corte Central Iraquiana, que é o tribunal que julga os casos dos acusados por terrorismo".


"Esse á um julgamenteo difícil. Ele pode ser sentenciado a 25 anos na prisão, e nós precisamos assegurar que a ele não seja dada uma pena excessiva".


"No passado, houve muitos casos que foram interpretados como
reveladores da submissão e falta de independência do sistema judicial iraquiano".


Al-Zaidi fez uma ação contra os guardas que o espancaram, de acordo com seu advogado, e solicitou que eles sejam julgados também pela Corte Central Iraquiana".


"A corte aceitou a ação e tomou as medidas cabíveis para que os guardas sejam levados à justiça e punidos por infração à lei", disse al-Sa'adi.


O julgamento de al-Zaidi está marcado para 31 de dezembro de 2008, quando será acusado de "insultar um líder estrangeiro".




Com informações da Al Jazira: http://english.aljazeera.net

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